O centauro sertanejo de Brasília

Vladimir Carvalho (dir.) e o irmão Walter, a cria e o criador fazendo cinema nos anos 70

Vladimir Carvalho (dir.) e o irmão Walter, a cria e o criador fazendo cinema nos anos 70

Os 80 anos do velho conterrâneo de guerra Vladimir Carvalho estão sendo comemorados com a abertura de mostra no CCBB até o dia 11 de maio. Imperdível mesmo até para quem já tenha visto a maioria de seus filmes e, mesmo assim, como suas saborosas histórias que ele conta, são muitos. Eu mesmo quero ver alguns curtas-metragens realizados pelo mestre que nem sabia que existiam. Vladimir Carvalho é assim, uma árvore frondosa de raízes inesgotáveis.

E como foi dito ontem no debate realizado após a sessão dos filmes Vestibular 70 e Brasília segundo Feldman, é importante revisitar a carreira desse grande realizador porque ele foi um dos pioneiros em Brasília. Pioneiro que aqui veio, gostou e ficou. Isso foi há mais de 40 anos atrás, quando foi convidado a implantar um núcleo de documentário na UnB e nunca mais foi embora. Sorte nossa.

“Acabei me perdendo aqui e nunca mais fui embora”, conta. “Minha relação com a cidade é de amor e ódio”, diz, sem medo de recorrer ao clichê.

Sorte nossa porque Vladimir fez escola em Brasília. Hoje muitos que começaram a fazer cinema na cidade hoje são cineastas ou professores de cinema. Sim, porque além de cineasta, um dos grandes, Vladimir foi professor, daí o título mais do que merecido de mestre. Gente como o professor Mauro Giuntini e o cineasta Iberê Carvalho começaram com ele.

Homem de sertão, aos 8 anos Vladimir deixou sua cidade Itabaiana para viver em Recife. “Aquilo era um mundo”, recorda com olhos marejados.Home de areia

Lá, amalgamou influências literárias, musicais e cinematográficas a partir de marcantes experiências culturais que vivenciou. Até teatro fez. E isso eu não sabia e isso é que é gostoso em Vladimir Carvalho. A cada encontro, a cada conversa, uma novidade.

Apesar de tudo, Vladimir nunca abandou o homem do sertão que existe dentro de si até hoje. E é esse homem do sertão, meio homem, meio cavalo, um autêntico centauro do cinema, que vemos em seus filmes. Ele pode falar sobre o escritor José Lins Rêgo – uma de suas obsessões, por sinal -, sobre o massacre de operários e professores durante o regime militar, sobre o rock de Brasília, enfim, lá estará sempre o homem do sertão.

“É algo que está no meu sangue”, comenta.

Há muito o que apreender com Vladimir. Tanto do ponto de vista do cinema, quando do ponto de vista do homem, do humano. É um sujeito de uma generosidade ímpar, singular, diria que comovente. E a humildade do velho companheiro de guerra Vladimir é sincera, justa. Escrevo isso com olhos marejados.

Já o homem-cinema, parafraseando Euclides da Cunha, o que posso dizer é que Vladimir Carvalho é antes de tudo um forte. Começou a fazer cinema com uma câmera Super 8, revelando filmes em 16 mm, e hoje se vira e muito bem fazendo seus projetos em digital, embora, claro, ainda ache que a película é a melhor forma de se fazer e ver um filme.

Filmes. E quais filmes do velho Vladimir posso recomendar aqui? Todos, ora bolas!! Inclusive o que eu não vi. Sobretudo os trabalhos seminais como Romeiros da guia (1962), Incelência para um trem de ferro (1972), e Itinerário de Niemeyer (1973).

Com curadoria de Sérgio Moriconi, a mostra Vladimir Carvalho Doc 8.0 apresenta ainda aqueles projetos em que o diretor participou e que se confunde com a história do cinema nacional como a guerrilheira fita, Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho, Opinião pública, de Arnaldo Jabor e Um olhar solidário, realização do irmão Walter Carvalho.

E falando do diretor de fotografia Walter Carvalho, certa vez este disse que é o que é hoje graças ao irmão Valter Carvalho, que um dia lhe apresentou Bob Dylan e João Cabral de Melo Neto. O cinema de Vladimir Carvalho é isso. Um pouco Dylan e um pouco a poesia cortante de João Cabral de Melo Neto.

* Este texto foi escrito ao som de: Empire (Kasabian – 2006)

Kasabian - Empire

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Brasília – Contradições de uma cidade nova (1967)

O cineasta Joaquim Pedro entrevistando nordestinos nas cidades-satélites

O cineasta Joaquim Pedro entrevistando nordestinos nas cidades-satélites

Basicamente Brasília nasceu da cabeça de um obstinado político sonhador e de um artista romântico: Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer. E talvez seja que, movidos por fé quase cega que, esses dois grandes homens de seu tempo jamais imaginariam no caos social e urbano que se transformaria a nova capital do país, construída para ser um modelo de cidade moderna e justa. Pois bem, o cineasta Joaquim Pedro de Andrade e os roteiristas Jean-Claude Bernardet e Luís Saia previram todo esse desastre sete anos após a construção de Brasília. É o que mostra o impactante curta-metragem, Brasília – Contradições de uma cidade nova (http://migre.me/pHLy8), filme de 1967 relançando como extra do DVD do clássico do Cinema Novo, Macunaíma (1969).

Fiquei com vontade de rever o filme depois que uma amiga gaúcha me contou, fascinada, que havia assistido ao filme. Fiquei com vontade de rever e me lembrei de coisas legais, como o início bem sacado do filme, com a câmera em movimento percorrendo o buraco do tatu e dando a ideia de que estamos entrando numa grande tela de cinema.

Um dos pilares do anárquico movimento cinematográfico que tinha como representantes
nomes de peso como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Ruy Guerra, o mineiro Joaquim Pedro de Andrade brincou muito de fazer cinema ao realizar curtas importantes antes de dedicar aos longas-metragens. Basta citar pelos menos dois emblemáticos trabalhos com esse formato, O poeta e o castelo (1959), sobre o Manuel Bandeira, e Couro de gato (1960), incluído dois anos depois no filme de episódios, Cinco vezes favela (1962).

Patrocinado pela empresa italiana de máquinas de escritórios Olivetti, o projeto foi logo Brasíliaabortado pela nova direção da empresa que não via com bons olhos a irônica crítica social e urbana feita pelo roteiro. Temiam arranjar encrenca com os militares no poder e sumiram com os negativos, cuja única cópia estava de poder do MAM. Os bastidores dessa história é bem contada pelo documentário Plano B, de Getsemane Silva, uma das atrações do Festival de Cinema de Brasília do ano passado.

Com suas primeiras imagens a cores realizadas sobre a capital, uma cortesia do diretor de fotografia Affonso Beato, Brasília – Contradições de uma cidade nova mostra o sonho que não deu certo. Ou seja, ao som de Erik Satie e Maria Bethânia, de como a beleza arquitetônica dos traços de Niemeyer e veias largas desenhadas por Lúcio Costa, não foram suficientes para aplacar o apartheid social tão presente nas grandes metrópoles. Logo a ideia de integração entre pobres e ricos, empregados e “doutores” tão sonhada por Niemeyer caíra por terra com a presença das cidades-satélites, ampliando, no dia a dia, na prática do cotidiano o enorme fosso social entre elite e os retirantes sofridos.

“A ideia era mostrar que, por melhor que fosse a intenção dos arquitetos e urbanistas, não se poderia praticar urbanismo de mão-cheia num contexto de injustiça social como o brasileiro”, explicou o diretor numa entrevista a Alex Viany em 1983. “Brasília encarna o conflito básico da arte brasileira: fora do alcance da maioria do povo”, diz uma das frases derradeiras da fita com pouco mais de 20 minutos.

Ex-professor da UnB que havia se autodemitido em 1965, após a confusão armada pelos militares, que invadiram o espaço, o francês Jean-Claude Bernardet é impiedoso com a então respeitada instituição de ensino. “A Universidade de Brasília, que foi planejada para ser a vanguarda do ensino superior no Brasil e que chegou a funcionar assim, hoje é uma cidade como as outras”, diz trecho do roteiro.

Além de Bernardet, figuras relevantes da arte e cultura nacional naquele período participaram desse empreitada que já nasceu morta como o ator Joel Barcellos, aqui como produtor, o poeta Ferreira Gullar, o narrador e Rogério Duarte o responsável pelos letreiros.

* Este texto foi escrito ao som de: A paixão segundo Cabaret (Cabaret – 2014)

Cabaret

A velha raposa da política JK

De uma simpatia contagiante, Juscelino Kubitschek também era um político maduro e esperto

De uma simpatia contagiante, Juscelino Kubitschek também era um político maduro

Para quem me conhece sabe que sou um sujeito movido por obsessões hediondas. O presidente Juscelino Kubitschek é uma delas. E é uma obsessão que veio tarde, uma obsessão tardia. Não sei por que, mas sempre achei que JK fosse uma figura aquém da de Getúlio Vargas. Ledo engano. Trata-se de figuras políticas de estilos diferentes, homens distintos.

Nascido em Diamantina (MG), descendentes de tchecos, Juscelino era um homem obstinado, otimista, ufanista e de uma energia singular. E trazia no rosto um sorriso sincero, afável, acolhedor, cheio de simpatia. Fundador de Brasília, empreitada que conseguiu levar até o fim a custa de muita teimosia, também colecionava histórias divertidíssimas, hilárias. A seguir, duas delas:

O ódio de Café Filho

Substituto de Getúlio, que acaba de suicidar, Café Filho era odiado por JK. Em 1955, então governador de Minas Gerais, Juscelino engole a raiva e vai até o Palácio do Catete despachar com o presidente. A pauta: café, já que Minas é o maior produtor do produto do país. Como todo bom mineiro, JK chega à sede presidencial desconfiado, cheio de zelo, mas é recebido como um rei. Gentilezas, sorrisos, afetos, eis que em dado momento Café Filho sugere que ele senta na cadeira de presidente. JK resiste, mas acaba sentando mediante tamanha insistência e é cravejado à queima-roupa:

JK - Time– É a primeira e última vez que você vai sentar nessa cadeira. Os militares não querem sua candidatura – vaticina.

Mordido de raiva, JK engole a raiva, segura a língua e vai embora soltando fumaça.

Lá embaixo, cercado de jornalistas, se vinga a sua maneira, bem à mineira, quando um repórter lhe faz uma derradeira pergunta:

– Governador, é o café?

– Qual? O vegetal ou o animal!

A caderneta preta de JK

Anos 50. Governo de Minas Gerais. Mais uma vez JK coloca em prática hábito que seria uma de suas marcas no governo de Minas. Velha raposa, todos os fins de semanas a periferia da capital mineira. Os encontros eram rápidos e marcantes para aquela gente humilde que não estava acostumada a ver uma “autoridade” tão de perto. Bem à vontade no meio do povo, sorriso largo no rosto e simpatia ofuscante, JK ia dando o comando, domando a massa:

– Com calma! Vamos com calma que eu vou anotar tudo isso! – dizia Juscelino, colocando ordem na multidão de homens andrajosos e mulheres desdentadas com filhos ao colo, que pediam de tudo. De água encanada, a vaga na escola, trabalho, luz elétrica, a “tapação” dos buracos até uma ajudazinha no enxoval da filha.

– Anote aí, Dr. Penido, o nome completo dessa senhora e tudo o que ela quer. Fale alto e devagarinho, minha senhora… – dizia, apontando para o Chefe da Casa Civil, Osvaldo Penido, que acompanhava o movimento e anotava tudo numa caderneta preta.

Cinco meses depois, num daqueles sábados de praxe ele vira-se para o assessor e ordena em voz alta e solene para todos que estão próximo ouvir:

– Dr. Penido, não se esqueça da caderneta que hoje vamos ter povo!

Vexado, o Chefe da Casa Civil lhe informa que todas as folhas do livro estão preenchidas e pergunta o que fazer:

– E agora, o que faço?

Meio impassível responde:

– Uaí, joga fora e compra outra!

Anos mais tarde o cineasta Glauber Rocha se inspiraria nesse episódio para filma uma cena no clássico de 1967, “Terra em Transe”.

* Este texto foi escrito ao som de: Milagre dos peixes (Milton Nascimento – 1973)

Milton Nascimento - Peixe Vivo

O gabinete do Dr. Caligari (1920)

Foi talvez o primeiro filme a abordar o tema da psicanálise

Foi talvez o primeiro filme a abordar o tema da psicanálise, norteando o gênero de terror

Outro dia vi uma cópia tinindo do clássico Metropolis (1922), de Fritz Lang, no Cine Brasília, e fiquei bastante emocionado de perceber o quanto o filme de 1922 ainda continua atual. Uma sensação que me fez viajar no tempo e me recordar do prazer e impacto de assistir, ainda na condição de calouro na faculdade, de O gabinete do Dr. Caligari (Das kabinett des Doktor Caligari, 1920). Tudo isso passou pela minha cabeça ao rever outro dia essa obra-prima do expressionismo alemão numa mostra do Sesc.

Passados quase 100 anos de sua realização, esse registro seminal do cinema ainda mexe com espectador por conta de sua sombria beleza gótica e abordagem psicanalítica. E olha que o cinema na época ainda era uma criança com pouco mais de 20 anos. Também foi um dos trabalhos mais influentes. Basta conferir o visual dark dos meninos do The Cure, passando pelos traços sinistros das animações de terror de Tim Burton. Sem falar o fato de ter meio que lançado bases para o gênero.

Pois bem, dirigido por Robert Wiene, O gabinete do Dr. Caligari chama atenção pelo roteiro moderno da dupla, Carl Meyer e Hans Janowitz, que mescla ilusão e realidade para falar sobre os horrores da república de Weimar e a sombra deixada pelo 1ª Guerra Mundial. Mas mais do que isso, pelo visual distorcido e cubista que capta toda a essência perturbadora dos personagens.Gabinete do Dr Caligari 2

Na pequena Holstenwall, jovem relembra um macabro episódio vivido por ele que tem ligação com lenda nórdica do século 11. É a história do estranho Caligari que chega a uma cidade para apresentar sinistra atração numa feira. Trata-se de um jovem sem alma, chamado Cesare, um sonâmbulo que faz previsões macabras e mais tarde mata várias pessoas sob o efeito de hipnose ao comando de seu superior. A forte maquiagem e os grandes olhos do ator Conrad Veidt até hoje são assustadores.

A metáfora com relação aos efeitos do autoritarismo e tirania tem sobre as massas é algo perturbador, não apenas porque faz referência à república de Weimar, algo recente à época do filme, mas ainda pela presença demoníaca de Hitler algumas décadas depois.

Além de ter causado forte impacto ao cinema, o filme, um dos primeiros trabalhos de arte da sétima arte, com sua abordagem fantástica e surrealista, mexeu com os estertores da cultura, cunhando o neologismo “caligarismo”, que tem a ver com as obras de artes em todos os segmentos que expões as distorções visuais advindas de um extravasamento emocional. A arte abstrata é um bom exemplo disso.

Uma obra-prima eterna.

* Este texto foi escrito ao som de: A saucerful of secrets (Pink Floyd – 1968)

Saucerful of secrets

Musas do cinema – Anna Magnani

A bela e exótica atriz em cena clássica de "Mamma  Roma", de Pasolini

A bela e exótica atriz em cena clássica de “Mamma Roma”, de Pasolini

Não tem como passar despercebido diante do rosto marcante da atriz Anna Magnani (1907 – 1973) com seus fortes traços que misturava sangue egípcio, romeno e italiano. Musa do neorrealismo, movimento cinematográfico que denunciava filmando nas ruas a precariedade social da Itália pós-Segunda Guerra Mundial, a atriz era uma autêntica personagem sanguínea com seu estilo “gente como a gente”.

Criada na pobreza pela avó a atriz, que tinha fala acelerada, olheiras charmosas e sensualidade suculenta, se notabilizou tanto em papeis cômicos, quanto trágicos, trabalhando com grandes nomes do cinema mundial, de Luchino Visconti a Jean Renoir. De Sidney Lumet a Daniel Mann. Apesar de seu rosto brilhar nas telonas desde os anos 20, seu talento só começou a ser reconhecido depois que estrelou o drama, Roma, cidade aberta (Roma, cittá aperta, 1945), do mestre Robert Rossellini, de quem era amante e foi trocada pelo sundae escandinavo Ingrid Bergman.

Foi a primeira estrela do cinema estrangeiro a ser premiada com o Oscar, pela marcante atuação no drama, A rosa tatuada (The rose tatoo, 1955), cujo papel teria sido escrito especialmente para ela pelo dramaturgo Tennessee Williams. O último papel que fez no cinema foi em 1972 no docudrama Roma de Fellini (Roma, 1972) e seria emblemático. Porque nenhuma atriz do cinema italiano encarnou como ela o espírito da capital italiana.

A rosa tatuadaTop five – Anna Magnani

A rosa tatuada (The rose tatoo – 1955) – No filme ela faz a intensa e neurótica viúva siciliana Serafine Della Rose, uma mulher presa à memória do marido, mas que se apaixona pelo rude motorista de caminhão vivido por Burt Lancaster. Sua marcante atuação lhe rendeu o Oscar, o primeiro de uma atriz estrangeira em Hollywood.

Roma, cidade aberta (Roma, cittá aperta 1945) – A cena é uma das mais impactantes do cinema. Após o marido ser preso pelos nazistas, a esposa tenta acompanhar o caminhão e é cravejada pelas costas pelos carrascos. E assim, a atriz ganharia uma segunda vida no cinema.

Mamma Roma (1962) – Fábula urbana do cineasta Pier Paolo Pasolini sobre a pobreza italiana nos primeiros anos do pós-Segunda Guerra, ela aqui vive uma prostituta que precisa largar a profissão para conseguir a guarda do filho, um garoto mimado e como caráter distorcido.

Vidas em fuga (The fugitive kind, 1960) – Um dos dramas mais pungentes dirigido por Sidney Lumet, mostra a diva mais uma vez na pele de uma italiana radicada na América, aqui como a quente Lade Torrence, dona de um armarinho que trai o marido inválido pelo forasteiro “Snake”, Marlon Brando em desempenho formidável.

Nós, as mulheres (Siamo donne, 1953) – Daqueles tradicionais filmes de episódios italianos, aqui ela lembra o dia em que teve um arranca rabo homérico com um motorista de táxi por conta do tamanho do seu cachorro. “Não sei porque, mas se não tiver briga as pessoas não acham que é Anna Magnani”, comenta ela, denunciando, de brincadeira, seu temperamento explosivo.

* Este texto foi escrito ao som de: X (INXS – 1990)

INXS

 

Um banho de Cleópatra

Entrou debaixo do chuveiro e dizem que até hoje não saiu de lá...

Entrou debaixo do chuveiro e dizem que até hoje não saiu de lá…

A sogra era um pesadelo de chata. Diria mais. De uma chatice atroz. Daquelas que justifica não só a rima, mas o caráter com a cobra. De modo que, quando Renata sabia que a mãe do marido estava chegando para o tradicional fim de semana com o filho, a cabeça começava a doer, sentia um mal-estar medonho no corpo com uma semana de antecedência.

– É espeto! – reclamava ela de si para si.

Carioca de nariz empinado e soberba de imperatriz de império, Dona Lígia era a típica matrona que não perdia a pose nunca. Mesmo depois que o marido engenheiro, após algumas empreitadas ruins, perdeu toda a fortuna que tinha, fazendo com que o padrão de vida da família caísse esmagadoramente. O velho ficara deprimido, tristonho, desnorteado, até que o coração, combalido, não aguentou de tanta amargura e pediu arrego. Infarto fulminante, às 3h hora da tarde, no centro da cidade, sob um sol de rachar catedral.

Sem se abalar, Dona Lígia arregaçou as mangas e foi à luta. Arrumou emprego de corretora, fez nome no mercado, andou fechando bons negócios e levantou a autoestima da família. A dela também que, apesar de não ter um padrão de vida que tinha ao lado do marido, vivia com dignidade.

Acontece que, quando ela olhava no retrovisor do tempo e mirava a vida de fausto e luxo que levava, e comparava sua trajetória com a das irmãs bem-sucedidas, lamentava se lembrando de uma frase do poeta modernista Manuel Bandeira, bem oportuna para a ocasião:

– Uma vida inteira que poderia ter sido e que não foi!Cactus

E talvez movido por esse sentimento de frustração que ela esbanjava o que tinha e o que não tinha, ostentando um estilo de vida que não era o seu, se passando pelo o que não era e vivendo num mundo de fantasia à parte que só o constrangimento das dívidas que contraia lhe fazia voltar à realidade. Suas viagens a Paris, por exemplo, era uma jornada nababesca com desfecho trágico no fim do mês.

Renata, sabendo de toda essa mise-en-scène que rondava os passos da sogra, se entediava quando ela voltava de suas viagens da Europa arrotando soberba, mas depois suando sangue para colocar as contas em dias. Não se esqueceu do dia em que ela lhe cobrou, na maior cara dura, o dinheiro de um perfume que ela comprara numa loja chique da capital francesa, logo depois de se exibir de como tinha conseguido almoçar num restaurante chiquérrimo depois de ter agendado no lugar com meses de antecedência.

– Que cactus! – dizia a nora, deprimente.

Eis que chega o fim de semana fatal e lá estão as duas no meio da noite trocando impressões, desabafos e repulsas veladas mútuas. Isso porque o filho ainda não tinha voltado do trabalho e Renata, na prisão de seu tédio, tinha que fazer sala à maldita sogra.

– Que inferno, socorro! – gritava silenciosa dentro de si, soltando raios fulminantes em direção à maçante visita.

Foi quando num rompante, Renata não se conteve e disse à queima roupa para cobra, digo sogra!

– Dona Lígia, olha a Amanda aqui que vou ali tomar um banho rapidinho!

Entre assustada e surpresa Dona Lígia tomou a neta pelos braços e se manteve num silêncio de cemitério. Renata, sem se abalar, entrou debaixo do chuveiro e tomou aquele banho de rainha Cleópatra.

Dizem até hoje que ela ainda não saiu do banheiro.

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1968)

RC - 1968

Casa grande (2014)

O filme é uma reileitura moderna e urbana do clássico de Gilberto Freyre

O filme é uma reileitura moderna e urbana do clássico de Gilberto Freyre

O drama carioca Casa grande (2014), de Fellipe Barbosa, é no mínimo impactante e se faz assim de maneira simples e sofisticado. Sofisticado porque sintetiza um clássico da literatura nacional nas telas com estilo e delicadeza. E só quem leu Casa grande & senzala, vai entender que o filme é uma leitura “muderna” e urbana da obra de Gilberto Freyre. Eu, que li o livro, entendi isso e saí da sessão de cinema em êxtase. Até agora não consegui parar de falar do filme que está em cartaz ali numa das salas do Liberty Mall. Eu se fosse você, não perderia.

A casa grande do título não tem a senzala. Não fisicamente. Mas ela está representada, simbolicamente, não apenas na mentalidade direitista e hipocritamente conservadora da elite que perpassa a trama e dita as regras de conceito e comportamento. Mas também em pequenos detalhes do cotidiano, como a intimidade do filho de uma mansão de bairro nobre do Rio com a empregada da casa. Qualquer semelhança com as “safadezas” dos senhores das casas grandes, com relação às negras das senzalas, é proposital.

Bem, o diretor diz que não é bem assim, jura que o filme fala sobre um garoto que se transforma, enfim, uma figura frágil e vulnerável que esparge nas telas em pinceladas autobiográficas. Mas vai bem além ao, inconscientemente, refletir, a partir dessa figura simples e em conflito consigo mesmo e com seus familiares, sobre o Brasil de hoje.

Casa GrandeUm Brasil em crise, mas que não perde a pose. Pelo menos é o que a elite desse país parece demonstrar fazer. “Comunicação? Mas comunicação não é coisa de gente séria!”, retruca o pai vivido pelo ótimo Marcello Novaes, sugerindo que o filho faça Direito ou Economia. “Foi de onde saíram as melhores cabeças do Plano Real”, diz orgulhoso.

Contudo ele é um fracassado que vive de aparências e mergulha a família, por vaidade e orgulho, numa crise não apenas econômica, mas existencial. Jean, o filho mais velho é quem mais sofre com isso. A mensalidade da escola atrasa, o pai reclama o alto valor da conta de telefone e o tempo todo sobre as luzes acesas da casa. Um dia a mulher lhe passa uma pasta de dente vagabunda e ele resmunga, diante da explicação dela de que era a mais barata. “Barata você vai ver quando chegar a conta do dentista”, diz, preventivamente.

Daí tem a figura do motorista Severino, um homem simplório que gosta de matar o tempo livre tocando forro e que tem uma relação afetiva com esse jovem burguês gente fina, que lhe pergunta se ele tem as manhas para se chegar aos finalmente com uma garota. Um dia, por conta da crise familiar, Severino é demitido, e Jean tem que ir e voltar para escola de ônibus. O que para ele é uma aventura.

“Porque esse menino quer tanto andar de ônibus? Ninguém quer andar de ônibus nessa cidade”, comenta o pai arrogante. E é numa dessas viagens de buzão, entre a Zona Norte e Zona Sul, que Jean (Thales Cavalcanti) conhece uma bela jovem da periferia por quem ele se apaixona. Ela é inteligente, sensível, esforçada, mas pobre. Detalhe que pode ser um empecilho para relação dos dois. “Porque você pergunta isso? Por que eu estudo em escola pública? Por causa da cor da minha pele?”, questiona ela, que não é negra, mas parda, quando ele pergunta a ela como é morar na Rocinha, onde ela não vive.

Uma espécie de O som ao redor mais acessível, Casa grande é do tipo de filme que incomoda, faz questionar, refletir e fica rondando em sua cabeça durante um bom tempo, fazendo com que você se sinta um merda ou um nada. Duvido que tenha outro grande filme brasileiro dessa estirpe realizado no Brasil este ano.

* Este texto foi escrito ao som de: Rock ‘n’ Roll Sugar Darling (Thiago Pethit – 2014) Pethit

E são os melhores do mundo?

A trupe em apresentação ao vivo no dia do aniversário de Brasília

A trupe em apresentação ao vivo, no Multishow, no dia do aniversário de Brasília

Fui ver a apresentação dos melhores do mundo ao vivo no canal, Multishow, na última terça-feira (21/04), dia do aniversário de Brasília, mas confesso que não fiquei muito animado, não. Gostei, ri de muitas coisas, mas achei que eles fossem melhores do que imaginava minha vã expectativa, sobretudo porque eu nunca tinha visto nada deles por inteiro, apesar dos 20 anos de estrada. Talvez porque eles sejam os “melhores do mundo”. Mas acho que não, na verdade é que um pouco da autenticidade do grupo se perdeu nessa apresentação, no Vivo Rio, por conta das inúmeras participações afetivas. Afetivas e indispensáveis, como a do chato e superestimado Rafinha Bastos.

O espetáculo? Claro, o clássico da trupe, ou seja, a montagem Hermanoteu na terra de Godah, onde eles fazem uma série de paródias com passagens da Bíblia como a travessia do Mar Vermelho e o episódio da Santa Ceia. O divertido são as piadas contextualizadas e críticas com relação à realidade política brasileira, não sobrando farpas para políticos como José Sarney, Eduardo Cunha e até o pastor Crivella. “Qualquer um pode ser senador no Brasil! Se até o pastor Crivella é?!”, ironizam.

Não há dúvidas de que a força do grupo formado por seis integrantes, um deles uma mulher, Hermano teu na terra de Godah 2Adriana Nunes, está na unidade. E tanto que essa unidade funciona que os melhores momentos das apresentações do grupo estão nas improvisações. Mas prefiro destacar aqui os meus preferidos, pela ordem: Jovane Nunes, na condição de principal autor dos textos, Ricardo Pipo, pela bela voz de radialista e simpatia, e o melhor de todos em minha opinião, Welder Rodrigues, aquele que melhor personifica e verbaliza as piadas e isso se deva, talvez pela espontaneidade nata do guri. Ele fazendo o último hebreu que acaba virando um súdito da rainha do Egito é impagável.

“Moisés estadista, se apoia no cajado e diz aquela frase linda que eu nunca mais vou me esquecer: corre cambada!”, esculhamba.

Agora o que me incomodou foi a enxurrada de palavrões gratuitos entre um esquete e outro. E digo isso sem o menor puritanismo ou hipocrisia. Mas pelo simples fato de achar feio. Daí a sofisticação do humor de Woody Allen e os irmãos Marx, sem falar do mestre Charlie Chaplin, que por sinal, nem falava. Acho que esse não era o estilo do mestre Chico Anysio, que por sinal, os idolatravam.

Posso estar enganado, mas acho exagero essa conversa de que eles renovaram o humor brasileiro. Deram um fôlego a mais, numa época de marasmo total, e só. Eles podem até ser os melhores do mundo para muita gente, não para mim. Mas isso não diminui em nada o carinho que sinto por eles, também o respeito.

* Este texto foi escrito ao som de: Elis Regina Especial (1979)

Elis Regina Especial

Fedora (1978)

Marthe Keller e Henry Fonda, o novo e o velho rosto de Hollywood

Marthe Keller e Henry Fonda, o novo e o velho rosto de Hollywood

Há quem diga que Fedora (1978), recentemente relançado pela Versátil Filmes, seja o último grande filme de Billy Wilder. Tenho lá minhas dúvidas, mas ainda assim é uma obra de mestre, trabalho em que ele, grande roteirista que era, externa aqui a angústia de ser artista e ser sugado pelo carinho do público. Mais do que isso, o desespero do peso da fama e de ser sugado pela máquina do sistema artístico. E da-lhe metalinguagem.
É a história de Fedora, uma atriz reclusa que é assediada por um produtor em decadência. Ela é vivida pela atriz suíça Marthe Keller. O produtor, que faz, é William Holden, e o ex-galã da época de ouro de Hollywood não está aqui de graça, já que protagonizou o clássico Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950), filme de Billy Wilder dos anos 50 onde ele debocha de seus pares.

Aqui ele se esforça para reerguer a carreira tentando convencer Fedora a aceitar o papel-título de Anna Karenina, o clássico de Tolstói que ele sonha em levar para as telas. Mas ela resiste em sair de seu exílio voluntário e, no decorrer da trama, vamos saber que é mais pelas pessoas que a cerca do que por si própria. Fedora

“É aborrecido ficar trancada com três mulheres sem álcool”, lamenta.

Logo a narrativa caminha para um clima bizarro, beirando o terror, onde a questão da identidade, da perda da privacidade e da juventude, enfim, da busca pelo sucesso eterno entra em voga com a confusão e os conflitos da relação entre mãe e filha. “Você não engana a natureza impunimente”, diz um dos personagens no velório de Fedora.

Escrito a quatro mãos com o parceiro das pretinhas I.A.L, Diamond, o filme traz uma das características célebres do cineasta Billy Wilder, o cinismo. Assim como em Crepúsculo dos deuses, o tempo todo ele tira sarro com o lado fake e ordinário do cinema, indústria que ele conheceu tão bem e fez fortuna e fama. Reza a lenda que o autor do romance homônimo, Tom Tryon, se inspirou na vida de atrizes reclusas e misteriosas para criar sua Fedora. Nomes como os das divas Greta Garbo e Marlene Dietrich, quem Wilder tentou trabalhar nesse projeto, são lembrados.

Falei em metalinguagem e são deliciosos aqui as pequenas participações do então jovem ator, Michael York, e o veterano Henry Fonda, na pele dele mesmo como o presidente da Academia de Filmes de Los Angeles. É o velho Billy fazendo troça com a nova geração do cinema à epoca e a velha guarda, da qual ele era um legítimo representante. Representante esse que cada vez mais, estava tendo dificuldade para mostrar não apenas o talento, mas o reconhecimento deste.

* Este texto foi escrito ao som de: Mona Bone Jakon (Cat Stevens – 1970)
Mona Bone Jakon

Os 55 anos de Brasília

JK com Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro e Lúcio Costa, os homens que levantaram a nova capital

JK entre Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro e Lúcio Costa, os homens que levantaram a nova capital

Minha relação com Brasília vem dos tempos de guri, quando ia passar as férias do meio do ano na casa dos meus primos paternos. Ficávamos ali no Guará II, um pouco distante dos faraônicos e deslumbrantes prédios de Oscar Niemeyer, das largas e espaçosas vias de Lúcio Costa. Com o tempo, fui assimilando essa engenharia moderna arquitetada pelos dois mestre e a importância do pesidente Juscelino Kubitschek, o fundador, para o surgimento da nova capital no coração do Brasil.

Hoje Brasília faz 55 anos e, apesar das roubalheiras, da corrupção, da imagem negativa que a cidade passa para o resto da nação, sinto e tenho orgulho de morar nessa cidade que escolhi para trabalhar e viver.
O astronauta russo Iuri Gagarin tinha razão. “Brasília é um lugar de outro mundo”. Em todos os sentidos. Mas, sobretudo, pela imponente e única arquitetura. Eu amo Brasília por isso. E pensar que a construção de Brasília quase não saiu do papel… JK, que desde os tempos de deputado sonhava em interiorizar a capital do Brasil (a ideia inicial era que ela fosse construída no Triângulo Mineiro), sofreu forte oposição com relação a empreitada.

Getúlio Vargas foi um deles, quando, em 1953, lhe perguntaram se ele toparia levar a capital para o interior Logo Governo de Brasilia_cor abril2015 horizontal_Fdo Rio de Janeiro. “Mudar pra quê? Pra onde?”, resmungou, para depois emendar. “Mas isso ficaria muito caro”, disse, diante do argumento de que teria que construir duas pistas de autoestrada ligando o Rio de Janeiro ao interior.

Quando lhe disseram que o projeto ficaria na casa dos $ 200 milhões de dólares foi taxativo. “Deus me livre!!”, reclamou.

Um dos ministros ainda tentou ponderar dizendo que, se ele não fizesse isso, um outro presidente faria. Ao que ele disse: “Só ser for um maluco!”.

E esse maluco seria o presidente Juscelino Kubitschek, que três anos depois essa conversa de Getúlio Vargas com seus assessores, no Palácio do Catete, construiriam uma cidade a 1 200 km do Rio de Janeiro, no meio do sertão goiano.

O que me encanta em Brasília, claro, é o Plano Piloto e sua vassidão de deserto. Parece até um cenário dos filmes do Antonioni. A desolação do cerrado é algo que me emociona. Há quem diga que as distâncias e o concreto torna a cidade fria, mas essa conversa é uma balela ululante e patética.
Brasília, assim como toda cidade, tem alma. A sua maneira, claro, mas é um lugar que desperta qualquer tipo de emoção nas pessoas. Não há como ficar indiferente à sua imponência.

Brasília amo você.

* Este texto foi escrito ao som de: Legião Urbana (1985)
Legião Urbana - 1985