Não basta ter fé, tem que ter sorte

Sujeito tenta transformar ação terrorista em ato político com arma de brinquedo

Sujeito tenta transformar ação terrorista em ato político com arma de brinquedo

É meu chapa, na vida não basta ter fé, tem que ter sorte. Sim, porque hoje em dia, neste mundo cão que nos cerca, você sai de casa para trabalhar e não sabe se vai voltar. Por isso que acho de uma injustiça cruel colocar filho no mundo e, em se tratando de fé e sorte, ando em maus lençóis porque minha fé é igual a de São Tomé e sorte é algo que nunca tive na vida. Mas tem gente que tem as duas coisas e não sabe. Quer ver?

Outro dia mesmo a tia de uma amiga minha, no interior de Minas, bastante religiosa, tinha acabado de sair da igreja, quando foi abordada por um assaltante na calada da noite. O meliante cara de pau devia estar desesperado mesmo porque não respeitou nem respeito nem Cristo pregado bem ali na cruz e foi logo gritando: “passa a bolsa senão eu te furo!”. Sem se abalar, a tia da minha amiga murmurou inabalável. “Tô protegida em nome de Jesus!”. Sem titubear, o sujeito sacou-lhe a arma e a sapecou com 21 facadas.

Meu irmão, 21 facadas e o braço do cara nem deu cãibra. Daí que entra o lance da sorte porque “Tia Coragem” foi parar no hospital, mas parece que não correr perigo de morrer. Isso que é ter sorte. Fé e sorte.

Pois bem. Outra do mundo cão. Ontem, no início da manhã, Jac de Souza Santos, 30 anos, Sortefez check-in no Hotel Saint Peter e poucos minutos depois, fazia de refém um dos funcionários da casa. A ação do jovem colocou em pânico a região central da cidade, fazendo com que cerca de300 pessoas, entre funcionários e hóspedes, deixassem o local.

Bem, bastante perturbado e desconexo, Jac, um ex-secretário de agricultura de Tocantins e candidato a vereador em seu estado, fez esse atentado terrorista por uma “boa causa”. Armado com uma pistola de brinquedo – que provavelmente comprou bem ali, nas Lojas Americanas do Setor Comercial -, e bananas de dinamite falsas, disse que só entregaria o refém, depois que suas exigências fossem atendidas. Nada muito complicado, coisas como a saída da presidente Dilma, extradição do radical italiano Cesare Battisti e aplicação efetiva da Lei da Ficha Limpa. Pô, só faltou pedir chuva meu irmão, que essa seca em Brasília não dá mais pé.

A tentativa de transformar uma ação terrorista em ato político até parece válido em dias de hoje, quando a política brasileira anda tão desacreditada e banalizada, mas tentativas como essas só são críveis em histórias em quadrinhos ou filme de ação. Do contrário, descamba para o artificialismo e ridículo, provando que até no Brasil, terrorista não é levado a sério. Cacilda, colocar em pandarecos um hotel inteiro com arma de brinquedo?!

Esse caso não tem nada a ver com fé ou sorte, mas babaquice. Bom, de qualquer forma toda essa confusão me fez lembrar o clássico, Um dia de cão, de Sidney Lumet, quando Al Pacino, na pele de um marginal, assalta um banco e faz uma galera de refém, só para conseguir grana para pagar operação de troca de sexo de seu parceiro. Se essa onda pega…

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1978)

Roberto carlos 1978

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Um assaltante bem trapalhão (1969)

Woody Allen estreia na direção homenageando o estilo pastelão dos irmãos Marx

Woody Allen estreia na direção homenageando o estilo pastelão dos irmãos Marx

No final dos anos 60 Woody Allen já tinha uma consolidada carreira como stand up comic e roteirista, quando decidiu, além de atuar e escrever para o cinema, também dirigir. A estreia atrás das câmeras não seria, digamos assim, uma grande sensação, mas despertou atenção da crítica e, sobretudo, comediantes da época, que sentiram naquele filme frenético e inusitado, um novo jeito de fazer comédias. O estilo Woody Allen.

Um milkshake de situações e gags, escancaradamente, influenciadas pelos pastelões dos clássicos mudos e daquelas aventuras malucas dos irmãos Marx, a fita conta a história de Virgil Starkwell, desde criança um autêntico loser que resolve deixar o sonho de fazer parte de uma orquestra de música para virar ladrão. Desajeitado, ele não consegue roubar um pirulito da mão de uma criança, mas a cada tentativa de um crime vem acompanhada de grandes confusões e prisões.

Primeiro trabalho em que aparece com as funções que marcariam sua trajetória ao longo da carreira, ou seja, diretor, roteirista e ator, Woody Allen aplica aqui um elemento novo ao gênero que é união de comédia com pseudo documentário. Uma mistura que se aprimoraria Um assaltante bem trapalhão eno formidável Zelig. “A ideia de fazer um documentário estava comigo desde o dia em que comecei a fazer filmes. Achava que aquele era um veículo ideal para se fazer comédia, porque o formato do documentário é muito sério, então você está de cara trabalhando numa área em que qualquer coisa que você fizer perturba a seriedade, e se torna engraçado”, explicaria na época.

Desanimado com o resultado caótico de Cassino Royale, uma comédia de espionagem baseada no clássico agente secreto 007, no qual faz uma ponta, Woody Allen a princípio pensou em convidar Jerry Lewis para filmar seu roteiro, mas algo inimaginável de acontecer. O jeito foi arregaçar as mangas e o resultado pelo menos para ele, que nunca tinha atuado atrás das câmeras, foi surpreendente.

Contracenando ao lado de Janet Margolin, seu par romântico no filme, Woody Allen está impagável em algumas cenas, a mais marcante delas a do revolver de sabão. E para aqueles que não acompanham de perto a trajetória do mestre, esse estilo pastelão predominante em Um assaltante bem trapalhão da fita segue com ele até A última noite de Boris Grushenko (1975), quando ele rompe com seu estilo e passa a produzir filmes mais existencialistas. Engraçados, mas fortemente existencialistas.

* Este texto foi escrito ao som de: Leonard Cohen (1969)

Leonard Cohen (1969)

Diretores – Joseph L. Mankiewicz

O cineasta foi mais um roteirista sofisticado e mordaz do que um hábil manipulador da técnica do cinema

O cineasta foi mais um roteirista sofisticado do que um hábil manipulador da técnica do cinema

Na minha cabeça, cinema está sempre relacionado com palavra. Imagem = roteiro. E, contrariado o dito popular, um bom roteiro na minha lógica sempre me disse mais do que uma imagem, se é que me entendem. Daí o fato de admirar muito os diretores que escrevem suas próprias histórias. Billy Wilder, John Huston, Woody Allen, Glauber Rocha são alguns deles. Joseph L. Mankiewicz também.

Filho de professores acadêmicos, desde cedo Joseph L. Mankiewicz teve sua vida relacionada com a escrita e o teatro. Mas para desespero dos pais, seguindo a carreira do irmão mais velho, Herman, foi sair lá em Hollywood e deu no que deu. Herman Mankiewicz entraria para história como o co-roteirista do clássico Cidadão Kane – dizem as más línguas também que as melhores ideias era dele e não de Orson Welles – Joseph como diretor e roteiristas de pérolas como A malvada (1950), A condessa descalça (1954) e Jogo mortal (1972), uma delícia de engenharia narrativa.

Mais um roteirista sofisticado e mordaz do que hábil manipulador da técnica cinematográfica, para o crítico francês Michel Ciment, que o entrevistou algumas vezes, Joseph L. Mankiewicz era o mais inteligente dos diretores. Para mim, o mais preciso no que diz respeito à sordidez humana e, seus personagens – os mais cínicos, claro – uma espécie de alter ego de seu jeito de ser na vida real. Ou seja, franco nas opiniões, cortante no raciocínio e brilhantes nas tiradas.

“Eu escreverei minhas memórias depois de minha morte”, disse certa vez, tirando sarro sobre a vaidade.

Top Five – Joseph L. MankiewiczA condessa descalça

A malvada (1950) – Com trama ambientada no teatro, espaço onde o diretor sempre se sentiu bem, traz enredo cheio de reviravoltas e surpresas, com a história de Eve Harrington (Anne Baxter), uma ambiciosa atriz que se apropria não apenas do lugar de destaque no palco da diva Margo Channing (Bete Davis), mas também sua vida. Um contundente e cínico retrato sobre a inveja e ambição.

A condessa descalça (1954) – Os incríveis diálogos de Mankiewicz norteiam essa versão ácida do mito da Cinderela, com Ava Gardner no papel de uma atriz que não se deixa levar pelo sucesso e glamour, se sentindo bem mesmo na vida é descalça. Uma bela e singela metáfora para seu fetiche por amantes do povo. É o olhar crítico de Mankiewicz sob as mazelas da casa Hollywood.

Cleópatra (1963) – Um dos filmes mais caros do cinema traz a diva Elizabeth Taylor impecável e insubstituível no papel-título. Chamado às pressas para dirigir o épico, então com uma série de problemas logísticos e de roteiro, o diretor teve tanto problemas com os figurões da Fox que passou a odiar a produção. A ponto de se referir a ele apenas como “aquele filme”.

Júlio César (1953) – Produção simples traz versão direta e honesta do clássico texto de Shakespeare de 1599 com Marlon Brando em atuação surpreendente no papel de Marco Antônio. O ponto alto da trama está no que Mankiewicz tem de melhor, o roteiro, norteado pela força das palavras.

Jogo mortal (1972) – Especialistas em tramas teatrais e um ás na direção de atores, Mankiewicz apresenta aqui um suspense inteligente e cheio de mistérios, onde os caminhos do que é mentira e real são bastante tênue. Então um jovem ator, Michael Caine duela, de igual para igual, com o mestre Laurence Olivier.

* Este texto foi escrito ao som de: Cheek to cheek (Tony Bennett e Lady Gaga – 2014)

Tony Bennett e Lady Gaga

Gal 69

Junto com Elis Regina e Maria Bethânia, a baianinha é uma das minhas divas da MPB

Junto com Elis Regina e Maria Bethânia, a baianinha é uma das minhas divas da MPB

Ontem Gal Costa fez 69 anos, me alertou o amigo Pedrão, o meu cicerone musical, via redes sociais. E foi quando, num estalo, me lembrei que, junto com Elis Regina e Maria Bethânia, ela é uma das minhas divas da MPB. Sempre foi desde que escutei, extasiado, o formidável disco ao vivo, – Fa – tal – Gal a todo vapor, gravado em 1971, no Teatro Opinião. Mesmo assim, não tive coragem de ver o show dela, meses atrás, em Goiás Velho, durante o Festival de Cinema Ambiental da cidade. E só por que ela foi deselegante com uma amiga fofa minha no hall do hotel onde estava hospedada. Enfim, infantilidade minha já que perdi uma chance única. O que a gente não faz pelos amigos especiais, não é verdade? Deixa, inclusive, de ver um show da Gal Costa em Goiás Velho.

Mas como estava dizendo, Gal fatal entortou minha cabeça, desde que comprei o meu vinil num sebo daqueles que um dia vou morar na eternidade. Mas antes desse álbum formidável, a baianinha descolada gravou álbuns importantes, como me alertou e mostrou meu cicerone musical Pedrão.

Um deles é Gal Costa, gravado em 1968 e lançado no ano seguinte. Graças a ele, o amigo cicerone Pedrão, eu tenho o meu, em versão CD, na minha estante mágica. Primeiro solo da artista, o registro é um susto delicioso que destoa, completamente, de Domingo, disco que dividiu com Caetano Veloso em 1967 e trazia uma pegada meio bossa-novista com todos eles (“os novos baianos”), ainda sob a influência, o choque e o encantamento do genial João Gal CostaGilberto.

Com direção do mestre Rogério Drupat, Gal Costa é ousado e diferentemente tropicalista, trazendo a artista, sem medo de ser feliz, em vocais agressivos encorpados por “arranjos arrojados”, como mostra, por exemplo, a versão anárquica para Se você pensa, da dupla Roberto e Erasmo Carlos, o revolucionário hit Divino, Maravilhoso, assinado de Caetano e Gil, e o malemolente sucesso, Que pena, gravado com o sempre “brother”, Caetano Veloso. Mas a canção que, mesclando momento de vanguarda e sensibilidade, vocal agridoce de rebeldia em meu coração, me arrebatando, soberanamente, é Baby, aquela que fala de sorvete, estar na lanchonete, piscina, gasolina e Carolina, com o frescor de uma tarde sábado.

“Vivemos na melhor cidade da América do Sul”, diz ela, com uma certeza verdadeira e contagiante.

Como a capa anuncia, Gal, também de 1969, tem uma postura mais radical e psicodélica na trajetória da cantora. As influências são nitidamente roqueiras, vai de Jimi Hendrix a Janis Joplis, mas também passando pelo cinema anárquico do então jovem cineasta Rogério Sganzerla, à baderna pop brasileira do tropicalismo, perceptíveis na mixagem propositalmente suja. Para mim, os melhores registros desse álbum são das canções de Jorge Ben – da época em que ele se chamava assim, País tropical e a mística Tuareg.

Um disco para entrar na história, como entrou e agora. Estou tomando coragem para comprar agora aquele disco da calcinha.

* Este texto foi escrito ao som de: Gal Costa e Gal (1969)

Gal

Bem-vindo a Nova York (2014)

No filme, o ator Gérard Depardieu vive importante diretor do FMI viciado em sexo

No filme, o ator Gérard Depardieu vive importante diretor do FMI viciado em sexo

Quando vi o cartaz bem ali no Liberty Mall, mais do que o nome do diretor Abel Ferrara, me chamou atenção a presença do ator francês Gérard Depardieu no elenco. E foi assim que, sem ler ou saber nada sobre o filme, ou seja, “no escuro” mesmo, que vi outro dia no espaço o drama Bem-vindo a Nova York. Cineasta cultuado, dono de estilo visceral e violento, ele conta aqui, numa versão dos fatos, o que aconteceu em 2011 com então poderoso diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, preso no aeroporto de Nova York, com a acusação de ter abusado sexualmente de uma camareira de hotel que se hospedou na cidade. Daí o título mais do que irônico do filme.

Humilhado publicamente, Dominique Strauss viu a carreira e vida pessoal degringolarem ladeira abaixo, com a promissora candidatura à Presidência da França evaporando como num passe de mágica e a esposa dando adeus, após segurar os trancos com ele em sua estadia no inferno na Big Apple. “É um crime eu querer ser jovem”, justifica, ele, tentando explicar sua condição de ninfomaníaco.

Filmado de forma realista e sem julgamento de valores, o filme traz Gérard Depardieu noWelcome-to-New-York-1papel do diretor do FMI em atuação marcante, sem medo de expor sua decadência física, aparecendo nu diante das câmeras naturalmente. Nas cenas de sexos, ele, com todo o seu peso e robusta envergadura, parece um urso desengonçado enrabando uma pobre gazela numa daquelas noites de orgias regadas a sorvete de uísque e tatuagens de flores de laranjeiras. “Na América tudo é maior e menor”, diz um dos convidados dessa bacanal de luxo.

Mas, ao mesmo tempo em que choca o público com a vida pregressa de Devereaux/Dominique, um ogro pervertido mergulhado no seu vício por sexo e bacanais delirantes – das quais surgiram relações não consentidas – o diretor Abel Ferrara traz à tona o pesadelo pessoal e fragilidade de um alto figurão do mercado financeiro devastado por conduta imoral. A cena em que, no alto de sua importância é ridicularizado por agentes penitenciários é constrangedora. A relação conflituosa com a mulher Simone (Jacqueline Bisset) é escancarada no olho do furacão desse escândalo, expondo a fragilidade de uma união costurada pelo conforto do dinheiro, pela hipocrisia da aparência e amor negligenciado. “Preciso de sua pele”, chega a dizer um deles, no calor do momento.

Às norteado por pegada jornalista e totalmente apoiado em dramaticidade segura, Bem-vindo a Nova York é um filme impecável em sua realização técnica e ficcional. Confesso que após a experiência senti mais à vontade em conhecer a filmografia desse cineasta instigante e questionador.

* Este texto foi escrito ao som de: Cheek to cheek (Tony Bennett & Lady Gaga  – 2014)

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Lavoura Arcaica – Raduan Nassar

“na modorra das tardes vadias na fazenda, era num sítio lá no bosque..."

“na modorra das tardes vadias na fazenda, era num sítio lá no bosque…”

Como a maioria das pessoas da minha geração, conheci o escritor paulista, de origem libanesa, Raduan Nassar, por conta da esplendorosa versão cinematográfica de Luiz Fernando Carvalho para o seu primeiro livro, Lavoura arcaica (1975). O filme ficaria marcado dentro de mim – e acho que ainda fica em minha memória – como uma das obras mais importantes do cinema de retomada, mas também pela beleza brejeira, selvagem da atriz paranaense Simone Spoladore.

Curioso é que, como as pessoas falavam que o livro era muito difícil de ler, nunca tive coragem de tirar da minha estante mágica aquela edição da Companhia das Letras que tenho. Bem, outro dia esbarrei com uma garota que veio do frio e, a conversa sobre cinema, literatura, Milton Hatoum, Bergman e Lavoura arcaica – filme e livro – foi tão boa, que tomei coragem de tirar aquela velha edição da Companhia das Letras da minha estante mágica.

Lavoura Arcaica 3Vou lá pela página 35, 36, acho, e não é que o livro seja difícil, mas é bem diferente, de narrativa ousada e me lembrei da escrita sem pontos, parágrafos do escritor português José Saramago. Ter estilo é isso, ou seja, é quando o sujeito transgride as regras do jogo, ultrapassa a barreira do convencionalismo e aposta em algo novo, corajoso, instigante.

Pelo pouco que li, percebi que a adaptação de Luiz Fernando Carvalho é fiel ao livro. Magicamente fiel ao livro. Incrível como ele conseguiu transpor para as telas, com perfeição realista, as imagens narradas por Raduan Nassar. A cena de abertura do filme e a mágica sequência da dança estão perfeitas de tão similares com o que lemos. “e logo meu velho tio, velho imigrante, mas pastor na sua infância, puxava do bolso a flauta, um caule delicado nas mãos pesadas, e se punha então a soprar nela como um pássaro, suas bochechas se inflando como as bochechas de uma criança”, narra o autor, numa imagem nítida no filme.

De modo geral, a obra literária sempre é melhor do que as adaptações para o cinema, por mais bem feitas que elas tenham sido feitas. São raros os filmes que são melhores do que os livros. Lembro que Forrest Gump, o filme, por exemplo, é infinitamente melhor do que o livro. No caso de Lavoura Arcaica, livro e filme estão palmo a palmo.

E voltando à escrita de Raduan Nassar, ele tem um jeito bem particular de contar sua história, que gira em torno de tema universal: dramas familiares. A trama é narrada pela ótica de André, a ovelha negra da família que foi embora de casa por carregar em seu peito, o segredo de uma angústia pungente. Mas falaremos sobre o drama desse personagem em outro post.

Mas como estava falando, marcado por fluxo narrativo desembestado, a escrita de Raduan Nassar aqui é marcada por um lirismo singular, onde palavras pastorais, telúricas, ganham força a partir da simplicidade da descrição. “Da cal e das pedras da nossa catedral”, escreve o autor, ao falar, por exemplo, da casa e do patriarca que a comanda. “na modorra das tardes vadias na fazenda, era num sítio lá no bosque que eu escapava aos olhos apreensivos da família”, diz André, apresentando sua agonia de ser ao leitor.

* Este texto foi escrito ao som de: Nashville Skyline (Bob Dylan – 1969)

Nashville Skyline

Brasil S/A (2014)

Filme faz uma alegoria de nossa mentira desenvolvimentista

Filme faz uma alegoria irônica de nossa mentira desenvolvimentista

De todos os filmes exibidos na Mostra Competitiva do Festival de Brasília, o pernambucano Brasil S/A é o que mais dialoga com a proposta autoral do evento que terminou ontem, no Cine Brasília. Dirigido por Marcelo Pedroso, o filme, como o próprio diretor gosta de frisar, faz uma leitura sobre esse ideal de progresso que ronda o imaginário da população brasileira. Uma leitura adornada por imagens impactantes e ironia desconcertante.

De uma beleza visual impressionante, Brasil S/A não traz diálogos. As imagens falam por si só e ferem aos olhos mais do que as palavras aos ouvidos. Posso estar falando bobagem, mas a estética lembra alguns trabalhos do Tarkoviski, mas também o deslumbramento das peças publicitárias.

Na trama, a trajetória do cortador de cana Edilson (Edilson Silva), que vê suas chances de trabalho ruídas com a chegada das máquinas, do futuro opressor em seu horizonte. Eis que entre a novidade chega uma oportunidade e ele tem a chance de deixar o campo e se engajar numa missão espacial que será um pequeno passo para ele, mas um enorme salto para o Brasil. Para Pedroso, que estreia aqui em seu primeiro longa-metragem de ficção, os personagens e situações surgem em cena como arquétipos alegóricos.47 Festival de Brasília

E dessa simbologia crítica, mostra que o passado de Edilson representa a fase agrícola e arcaica do país e a missão de sangrar o espaço o desejo de conquista de outra posição social. Ou seja, a mania de grandeza de um país em desenvolvimento de se tornar um país do futuro, um “Gigante pela própria natureza”.

Divididos em blocos, dentro desse contexto crítico Brasil S/A, que abiscoitou vários prêmios técnicos na noite de ontem, além do prêmio de melhor direção para Marcelo Pedroso, traz uma sinfonia de imagens elegantes e irônicas.

Uma delas é de uma moradora de classe alta patricinha que não suporta ver seu carrão da hora preso no congestionamento massacrante das grandes metrópoles. A alternativa é contratar um serviço de cegonhas que a faz flanar, livre, leve e solta, com sua roupinha de oncinha-perua pela tranquilidade das vias.

Tudo o que, aparentemente, o governo do PT nesses último ano é…

* Este texto foi escrito ao som de: This was (Jethro Tull – 1968)

This way

Os amigos do rei Roberto Carlos

Roberto Carlos com Helena dos Santos, a doméstica que virou compositora do rei

Roberto com Helena dos Santos, a doméstica que virou compositora do rei

Não, não estou falando de Erasmo Carlos, o amigo de fé, irmão, camarada de tantas jornadas, principal parceiro de grandes sucessos do rei Roberto Carlos, mas de outros nomes importantes da música que o ajudaram com canções emblemáticas, algumas inesquecíveis em minha jukebox sentimental. Falo de nomes pouco conhecidos do grande público como Helena dos Santos, Rossini Pinto e Getúlio Côrtes, compositores de obras-primas obscuras, entre tantas outras pérolas gravadas pela nossa majestade da música.

Alguns desses compositores, empolgados com as composições que tocavam na voz de Roberto nas rádios, até tentaram seguir carreira solo, mas não decolaram. Contudo, os três artistas têm histórias de vidas profissionais e pessoais, marcantes. Talvez a mais impressionante delas seja da mineira Helena dos Santos, uma ex-empregada doméstica e costureira que aprendeu a escrever canções e despertou atenção de Roberto Carlos ainda no início de sua trajetória, lá atrás, nos idos de 1963.

Os dois se conheceram nessa época, durante uma das peregrinações de Helena dos Santos à Rádio Nacional para tentar emplacar uma de suas canções que acabara de fazer, o rock ingênuo, Na lua não há. Roberto Carlos gostou da música, mais ainda da autora, gravando-a em seu disco Splish splash, iniciando aí amizade de uma vida inteira. Tanto que se acredita que Helena dos Santos viraria uma das confidentes de vossa alteza.

Getúlio CôrtesBem, de 1963 a 1972, Helena dos Santos registraria nos discos de Roberto Carlos dez composições, três delas escritas em parceria com Edson Ribeiro. As que mais tocam em minha jukebox sentimental é a balada psicodélica Nem mesmo você, registrada no álbum de 1968, O inimitável Roberto Carlos, e O astronauta, gravada no disco do rei de 1970.

Curioso essa participação de Helena dos Santos em dois registros de transição na carreira do artista, já que o disco de 1968 foi o primeiro gravado por Roberto Carlos depois de deixar o programa Jovem Guarda, rompendo com o movimento musical, e o segundo, apontando drásticas mudanças no estilo do cantor, apostando em canções mais melodiosas, românticas e com inclinações religiosas.

Um dos mais importantes nomes da Jovem Guarda, o capixaba Rossini Pinto foi determinante na carreira de grandes astros do movimento, não apenas como compositor, mas também como produtor musical. Para o rei Roberto Carlos gravou desde sucessos despretensiosos como Um leão está solto nas ruas, de 1964, à balada melancólica, Só vou gostar de quem gosta de mim, um dos grandes sucessos do disco Roberto Carlos em ritmo de aventura.

Já o carioca Getúlio Côrtes é dos três nomes o que mais me sensibiliza com suas canções. Irmão do cantor Gerson King Combo, um dos ícones da soul music brasileira, o compositor acompanhou Roberto da Jovem Guarda até início dos anos 70, emplacando canções divertidas como Noite de terror, O feio, Pega ladrão, O gênio e os grandes sucessos, Negro gato e O sósia, à baladas intimistas como Atitudes, de 1973, e Uma palavra amiga, segunda faixa do disco de Robertão de 1970 que não sai do toca fita do meu carro.

“Não vou sofrer porque não faz sentido/Nem vou viver por aí perdido, chorando/Sempre pela vida chorando/Eu quero ouvir uma palavra amiga/Preciso ouvir antes que eu siga chamando/Sempre por seu nome gritando”, diz o refrão pungente.

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1970)

Roberto_Carlos_1970

Branco sai. Preto fica (2014)

O cineastas Adirley Queirós e sua equipe no palco do Cine Brasília, no último sábado

O cineastas Adirley Queirós e sua equipe no palco do Cine Brasília, no último sábado

O cineasta de Ceilândia Adirley Queirós é a periferia nas telas do cinema. Mas a periferia autêntica e real e não aquela cheia de maquiagem estética ou discurso fake social, como têm surgido por aí em muitos filmes do gênero desde Cidade de deus (2002). Adirley Queirós é da periferia, portanto, sabe do que está falando, dos sentimentos e problemas que pulsam à margem dos grandes centros.

Exibido na mostra competitiva do Festival de Brasília no último sábado, no Cine Brasília, Branco sai. Preto fica, seu mais recente trabalho finalizado em janeiro deste ano, novamente expõe às mazelas dessa realidade conflitante. Mas de um jeito muito diferente e original. Misturando realidade e ficção, parceria cada vez mais tênue no cinema mundial, o filme leva às telas a história de Marquim e Shockito, duas vítimas da truculência do estado, depois de serem agredidos por uma polícia racista e repressiva, durante baile de black music que o deixaram com sequelas indeléveis. O primeiro preso a uma cadeira de rodas. O segundo sem uma das pernas.

“Branco sai, preto fica”, gritava os meganhas naquela noite repressiva.

Bem, sustentado por pegada jornalística e abordagem direta, o diretor insere na trama o Branco sai preto ficaingrediente da fábula e no poder que ela tem para refletir sobre os nossos problemas e agruras, construindo a partir dessas misturas, uma trama em que as memórias desses personagens se fundem em vários gêneros e referências. “É um filme forte”, me confidenciou outro dia o cineasta Adirley, bem ao seu estilo raivoso e na defensiva.

Há ali, por exemplo, uma homenagem única ao clássico O bandido da luz vermelha, do mestre Rogério Sganzerla, materializado na figura de um herói que vem do futuro para investigar o acontecido e provar que a culpa é desse sistema omisso, violento e preconceituoso que estamos inseridos. Sim, por que Branco sai. Preto fica, também é uma ficção científica.

Como pano de fundo para essa história trágica, uma trilha sonora nostálgica marcando por clássicos setentistas da Black music e do pop romântico. Na boa, sem bairrismos e hipocrisias, até pelo contexto político em que vivemos e pela proposta política social do filme, Branco sai. Preto fica deve ser o grande vencedor da mostra competitiva do 47º Festival de Cinema de Brasília.

* Este texto foi escrito ao som de: Sex machine (James Brown – 1970)

James Brown - Sex Machine

Diretores – Rogério Sganzerla

O anárquico cineasta manuseando objeto de trabalho que sabia usar muito bem

O anárquico cineasta manuseando objeto de trabalho que sabia usar muito bem

Terminei a faculdade de jornalismo achando que ia ser cineasta. E uma das grandes influências que eu tive para isso foi o cinema de invenção do genial Rogério Sganzerla. Posso estar enganado, mas acho O bandido da luz vermelha (1968) um dos filmes mais instigantes que vi em toda minha vida. Sei lá, quando vi aquela mistura irônica de chanchada com nouvelle vague, Orson Welles e imprensa escrita, HQs e rádio e TV, pirei. Para mim só podia ser a coisa mais brasileira que o nosso cinema poderia ter inventado.

Irônico, explosivo, anárquico e genial, Sganzerla criou um estilo de fazer filmes à margem da indústria vigente, apostando na pesquisa audiovisual, na experimentação da narrativa e total ruptura com a estética. Eram produções totalmente independentes, realizados de forma ágil, com baixo orçamento e uma preocupação criativa revolucionária. Em seus filmes, não era importante o que iria se contar, mostrar nas telas, mas de que maneira isso seria contado e mostrado.

“Estou buscando aquilo que o povo brasileiro espera de nós desde a chanchada: fazer do cinema brasileiro o pior do mundo”, debochou numa entrevista de 1969.

Infelizmente nunca tive o prazer de entrevistar Rogério Sganzerla, mas não me esqueço do dia em que vi o cineasta no Cine Brasília, durante uma edição do Festival de Brasília em que exibiu seu último filme, o perturbador, O signo do caos (2003). Fragilizado pelo câncer que o mataria meses depois, estava cercada pela mulher Helena Ignez, musa do cinema marginal, e pelas belas filhas Sinai e Djin.

O bandidoTop Five – Rogério Sganzerla

O bandido da luz vermelha (1968) – Com apenas 20 e poucos anos, Sganzerla realiza aqui um dos trabalhos mais selvagem, poético, cafajeste e esculhambado do cinema brasileiro, com sua colagem de Godard e Orson Welles. A narrativa de rádio sensacionalista é um espetáculo pela ousadia rebelde e os personagens, deliciosamente canalhas. “Quando não se pode fazer nada a gente avacalha”, diz o personagem de Paulo Villaça.

 Copacabana, mon amour (1970) – Com trilha sonora formidável de Gilberto Gil, a fita é uma aventura espiritual e experimental a partir da trajetória de Sônia Silk (Helena Ignez), uma jovem que zanza perdida por Copacabana na esperança em ser cantora de rádio.

A mulher de todos (1969) – Na pele da “mulher mais boçal do Brasil”, Helena Ignez é a personagem-título que trai o marido bobão vivido por Jô Soares com todos os cafajestes e desajustados que encontra pela frente. A avacalhação geral norteia a trama que aposta em narrativa ousada e original.

Nem tudo é verdade (1986) – Misto de documentário e chanchada, o diretor aqui se apropria de instigante exercício metalinguístico para fazer releitura, bem ao seu estilo, da passagem de Orson Welles pelo Brasil, em 1942. Na época Welles pretendida fazer um filme que nunca ficou pronto sobre a cultura local. Arrigo Barnabé está impagável na pele do diretor e a presença de Grande Otelo na fita é enriquecedora.

O signo do caos (2003) – Último filme do diretor, a fita busca referências no cinema noir na construção de uma fábula incômoda sobre as dificuldades de se fazer cinema no Brasil de boa qualidade com baixo orçamento. “É preciso tirar o cinema do quarto de brinquedo”, ironiza um dos personagens.

* Este texto foi escrito ao som de: Copacabana mon amour (Gilberto Gil – 1970)

Gilberto Gil - Copacabana