Tim Maia (2014)

O ótimo ator Badu Santana não consegue fugir da caricatura do polêmico cantor

O ótimo ator Badu Santana não consegue fugir da caricatura do polêmico cantor

O chato é que a maioria das pessoas que vão assistir ao filme Tim Maia, só conhece o artista das músicas de coletânea ou pelos milhares de escândalos e polêmicas que ele se envolveu ao longo da vida. Mas tudo bem, quem sabe depois de ir ao cinema e ver a cinebiografia, o sujeito se interessa a ouvir, para valer, os trabalhos do início da carreira do cara, onde estão gravados os melhores trabalhos, sem fazer, digamos, “juízo de valor”.

Mas a julgar pelo filme de Mauro Faria, tal desafio será difícil de realizar, acontecer. Isso porque o longa-metragem que entrou em cartaz esta semana em todo o país, deixa muito a desejar em vários aspectos. Baseado na boa biografia de Nelson Motta lançada em 2006, o projeto escorrega na narrativa maçante, na caricatura dos personagens e na abordagem patética de alguns episódios. O rei Roberto Carlos, por exemplo, ao contrário do livro, é mostrado de forma imbecilizada, na pele de um bobão aproveitador e traidor. A sequência do primeiro encontro entre os dois amigos, após o sucesso do primeiro, parece piada e, eu, se fosse o Robertão, processava a produção. Aqui, sim, caberia um processo.

Os dois atores que vivem o cantor em cena – Robson Nunes e Babu Santana -, por mais que se esforcem, não conseguem fugir do caricatural e superficialismo. Daí tem o fator sentimento (e não sentimentalismo) que transbordou com sinceridade no roteiro de projetos idênticos como Dois filhos de Francisco e Gozanga – De pai para filho e que aqui não passa nem perto.

Quem narra a história é Fábio (Cauã Reymond), um cantor romântico dos anos 60 que Tim Maia 2chegou a emplacar um grande sucesso na época, o hit Stella, mas que não passou disso e que se viu, de repente, boa parte da vida como músico de apoio e grande amigo de Tim. Ele conta como o “Tião Marmiteiro” cresceu complexado com o fato de ser pobre e um mulato “sem chance na vida” e como essa condição à margem desde a infância pobre e difícil, na Tijuca, o levaria a tentar a sorte nos Estados Unidos, depois de brigar com Roberto Carlos quando os dois faziam parte do grupo musical os Sputniks.

Ao voltar, depois de ser deportado por roubo e envolvimento com drogas, Tim Maia se vê na rua da amargura mais uma vez, mas a vida parece lhe esboçar um sorriso depois de um encontro com o rei Roberto Carlos em São Paulo. O sucesso, a rápida passagem por Londres, sua conflituosa relação afetiva, o envolvimento com a obscura seita Cultura Racional e os anos de vício pesado com drogas e bebida estão lá, mas narrados de forma tão sórdida e fake do ponto de vista da narrativa, que até dá desânimo de ver o filme até o fim.

A trama só começa a esquentar quando entra em cena a música e o genial gingado soul do artista que, junto com Jorge Ben, sacudiu o cenário musical com uma mistura envolvente de samba, rock, soul e MPB. O momento em que o ator Badu Santana levanta a galera ao som da contagiante, A Festa de Santo Reis – sucesso do segundo disco de Tim, de 1971 -, é de arrepiar. Aliás, era aqui onde eu queria chegar, ou seja, que alguns artistas são praticamente impossíveis de serem retratados no cinema. Deveriam ser conhecidos apenas pelas obras em si e nada mais.

* Este texto foi escrito ao som de: Tim Maia (1971)

Tim Maia

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Nelson Motta 70

Simpático, carismático e inteligente, o cara foi um dos pioneiros da jornalismo musical na TV

Simpático, carismático e inteligente, o cara foi um dos pioneiros da jornalismo musical na TV

“Tenho fascínio por novidade, loucura por novidade”, gosta de dizer o jornalista e homem de cultura e entretenimento, Nelson Motta, que este mês completa 70 anos de vida. Ok, eu posso ter entrado para o jornalismo por causa do Arnaldo Jabor e Paulo Francis, intensificando minha paixão pela profissão com mestres como o genial Samuel Wainer, mas eu sempre quis ser um autêntico jornalista das artes na linha do Ruy Castro e o Nelsinho Motta, que já fez de tudo relacionado ao assunto. Acho que ainda dá tempo.

Além de jornalista, Nelson Motta já se aventurou como compositor, escritor, roteirista, produtor musical. Para quem não sabe, ele é letrista dos maiores sucessos da carreira de Lulu Santos, eterno parceiro do pop rock nacional. “Junto com a assinatura dele eu escrevi meu nome na MPB”, admite o músico, co-autor dos sucessos Como uma onda e Certas coisas.

Paulista filho de advogado, Nelsinho, um das figuras mais queridas do segmento, chegou ao Rio de Janeiro aos seis anos de idade de onde não saiu mais. Talvez motivada pela máxima gaiata do dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues de que “a pior forma de solidão e a coexiste companhia de um paulista”.

Noites tropicaisA música sempre foi uma paixão, mas quando escutou pela primeira vez Chega de saudade, com João Gilberto, lá no final dos anos 50, viu que de repente ali estava um grande oceano a desbravar e não parou mais. Primeiro tentou a carreira artística, tocando violão na banda de samba jazz e que montou junto com Francis Hime, Os seis em ponto. Mas dotado de forte senso crítico, viu que, ao invés do violão, a máquina de escrever e a caneta poderiam ser instrumentos mais interessantes profissionalmente.

Assim, ao mesmo tempo em que se tornava um dos pioneiros repórteres de música da televisão, dava início a uma rica carreira de compositor. A primeira letra que escreveu foi Saveiros, em parceria com Dori Caymmi.

Na televisão, com simpatia, carisma e inteligência, foi figura chave na cobertura dos grandes festivais de música. Com talento nato para descobrir talentos, ajudou a firmar a trajetória de nomes como Tim Maia e Elis Regina, com quem foi casado. “O Tim Maia foi o cara que mais me fez ri na vida”, revela. “Mulher é um bicho difícil de entender, ainda não aprendi isso”, confessa.

No auge das discotecas, Nelson Motta, sempre antenado, lançou as Frenéticas e conseguiu furos incríveis para a televisão entrevistando ídolos eternos para TV pela primeira vez. Tim Maia foi um deles, Raul Seixas outro, além da incrível Clementina de Jesus. Numa entrevista de 1978, o jornalista arrancou de Cartola o desejo de ver uma de suas composições gravadas pelo rei Roberto Carlos e num papo odontológico carnavalesco com Emilinha Borba, em 1973, apresentou ao público um samba escrito pelo dentista da rainha do rádio.

“A música é tudo em minha vida”, diz com prazer.

Minha estante mágica guarda alguns livros sobre música escritos pelo Nelson Motta, que viveu a vida cultural brasileira nos últimos anos 40 anos, de forma intensa. Momentos registrados no livro de memórias, Noites tropicais. Um dos criadores do revolucionário programa, Armação ilimitada, que marcou sua estreia como ficcionista, Nelsinho autografou para mim alguns de seus romances que confesso, ainda não tive coragem de ler.

* Este texto foi escrito ao som de: Rock ‘n’ roll (John Lennon – 1975)

John Lennon - Rock 'n' Roll

Relatos selvagens (2014)

Me identifiquei com o engenheiro esquentadinho vivido pelo galã Ricardo Darín

Me identifiquei com o engenheiro esquentadinho vivido pelo galã Ricardo Darín

E deu Ricardo Darín versus Daniel Hendler, no velado embate cinematográfico que criei depois de assistir, recentemente, dois filmes dessas duas estrelas do cinema latino-americano. Por sinal, duas comédias, a primeira Vino para robar, de Daniel Winograd, que me aborreceu bastante, por seu superficialismo. A segunda o formidável filme de episódio, Relatos selvagens, do sempre surpreende diretor Damián Szifrón, que vi outro dia no Libert Mall.

Destaque na abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a fita, único representante do continente na briga por uma vaga ao Oscar, traz produção de Pedro Almodóvar e atuações sensacionais. Mas não só isso, ao contrário das comédias brasileiras, tem texto, conteúdo. O que fez um amigo meu postar no face, bem inspirado, que são seis episódios acima da média do cinema nacional no gênero. Como diria o Ibrahim Sued, concordo em “número, gênero e degrau”.

A primeira coisa visível no filme é o humor negro inteligente e sofisticado que perdura a trama de cabo a rabo. Os 15 minutos iniciais de Relatos selvagens é uma grande piada, mas uma piada nada gratuita ou cheia das grosserias de bobagens como O candidato honesto. E a ironia elegante de Damián Szifrón, também roteirista aqui, nos brinda com reflexões sobre a selvageria humana que impera nos grandes centros urbanos como Nova York, São Paulo ou Buenos Aires. Em clima de “moral da história”, discute temas pertinentes como injustiça social, intolerância, negligência e vaidade.

“Às vezes temos que sacrificar um músico ruim para salvar uma comunidade de ouvintes”, Relatos selvagensfaz troça u crítico musical logo na abertura do filme.

De tão críveis de acontecer no nosso dia a dia, somos até pegos, no escurinho do cinema, nos identificando com alguns dos personagens e situações. Eu mesmo me vi na pele do engenheiro esquentadinho vivido pelo charmoso Ricardo Darín e daí fica aquela sensação e alerta de que, se a gente não mudar, um dia coisa semelhante pode nos acontecer. Daí os risos nervosos do espectador entre uma bizarrice e outra.

De todos os episódios, o que mais me chocou foi o do pai milionário que se viu obrigado a desfazer de parte de sua fortuna para salvar a pele do filho delinquente. Com sutil pitada de sabedoria dos textos morais de um Eduardo Galeano, Damián Szifrón com elegância narrativa vai desnudando a natureza humana de forma constrangedora a partir de personagens inescrupulosos e sem caráter. O desfecho é exemplar, diria que bíblico, nos fazendo pensar que o ser humano é um projeto que não deu certo.

Claro que, a revelia da unidade apresentada pelo projeto como um todo, faço algumas ressalvas. Acho que alguns dos episódios, por questões românticas minhas, deveriam ser enxugados. Por exemplo, no capitulo do astro Ricardo Darín, eu terminava ali com ele sendo pego pela segunda vez pelo Detran local. No capítulo do jovem casal recém-casado que entram em conflito no meio da festa, eu teria terminado o filme com o singelo e simpático cozinheiro ítalo-americano consolando a descontrolada noiva traída no topo de um prédio. Mas como disse, pesou na hora o meu lado romântico.

* Este texto foi escrito ao som de: Flowers in the dirt (Paul McCartney – 1989)

Flowers in the dirt

Man on the run – Paul McCartney nos anos 70

No livro o autor reforça a ideia de como a presença de Linda foi fundamental para Paul na década de 70

No livro, o autor reforça a ideia de como a presença de Linda foi fundamental para Paul artisticamente

Certo dia, em meados de 1972, conversando com o ex-dirigente da Apple Records, Ron Kass, Paul McCartney mencionou a velada ambição de escrever um tema para um filme de James Bond. Sem se abater, o ex-membro do selo do fab four comentou que conhecia os produtores da grife e que tinha certeza de que eles ficariam animados em ter um ex-Beatle compondo a canção para o próximo filme. E foi assim que nasceria o clássico Live and let die.

Acho que estavam querendo Shirley Bassey -, lembraria entre gargalhadas, anos depois, Paul, contando que o produtor Harry Saltzman tinha em mente, veja você, outra pessoa para cantar o hit.

Eis aqui uma das milhares de histórias do bacana livro, Man on the run – Paul McCartney nos anos 70, escrito pelo jornalista escocês Tom Doyle. A obra, lançada no país pela editora Leya, foi parar na minha estante mágica motivado por mais uma apresentação do meu beatle predileto no Brasil. Com essa, será a terceira vez que vejo um show do cara e com muito gosto.

Paul McCartney 4Bem, a capa do livro, com Paul trazendo uma rosa na boca deve ser, imagino eu, sobras das sessões de fotos do marcante disco de 73, Red rose speedway, e no recheio da obra, um recorte formidável da fase mais pesada do artista, quando ele teve que se virar sozinho para construir uma carreira-solo edificante sem o eterno parceiro John Lennon e o fim dos Beatles. Misturando entrevistas feitas com o músico e vasto material de pesquisa garimpado em livros, reportagens, o livro até “engana” aqueles fãs menos familiarizados com os fatos dessa fase da vida do músico. O título do livro é uma dupla brincadeira com o maior sucesso da carreira-solo de Paul, o sensacional álbum Band on the run, mas também com a faixa do grupo norte-americano R.E.M., Man on the Moon, uma das obsessões do autor.

Contudo, está tudo lá, cuidadosamente registrado. Ou seja, com detalhes surpreendentes, o autor mostra os pormenores da briga que resultou na separação definitiva dos Beatles, com a presença bizarra do empresário oportunista Alan Klein, o susto de Paul, aos 27 anos, em se ver sozinho com a responsabilidade de não desapontar os fãs, a importância da mulher Linda, que teve que lutar para conquistar sua vaga de tecladista na banda, além dos bastidores da gravação de cada disco e o surgimento dos Wings, banda que precedeu os Beatles.

“Depois do drama, os McCartney se virão com uma segunda filha de sangue, Stella Nina, e o nome para a nova banda: Wings (asas)”, escreve o autor, ao relatar o sufoco do cantor e compositor, quando a mulher teve complicações no parto e ele foi afagado com a imagem de um anjo surgindo “com sua beleza simples e tranquilizadora”.

O que acho legal no livro do jornalista Tom Doyle é a coragem com que ele mostra um Paul McCartney amedrontado e fragilizado com o fim dos Beatles, no início dos anos 70, e como esse mito do pop rock dos anos 60 luta, mediante a sua insegurança, contra o ataque dos ex-colegas e da mídia e desconfiança da mesma e dos fãs com relação ao seu sucesso pós beatle.

“Acho que sua confiança estava um pouco em baixa, porque, depois dos Beatles, o que você vai fazer?”, chega dizer Denny Laine, quando este o convida para fazer parte de sua nova banda.

* Este texto foi escrito ao som de: Red rose speedway (Paul McCartney and The Wings – 1973)Red Paul

F.I.S.T. (1978)

Lembrado sempre pelos seus músculos, o ator, tem simbólica participação como roteirista em Hollywood

Lembrado pelos seus músculos, o ator, tem simbólica participação como roteirista

O grandalhão Sylvester Stallone cravou sua imagem no inconsciente coletivo de toda uma geração como o carismático lutador Rocky Balboa e o veterano de guerra traumatizado, John Rambo, dois personagens marcantes que se tornaram poderosas grifes no cinema e consolidaram de vez a carreira do astro em Hollywood. Sempre lembrado pelos seus músculos, o ator, que até dá conta do recado quando o assunto é atuação, tem uma simbólica participação como roteirista em filmes expressivo como o épico F.I.S.T., que você pode ver na programação do Telecine Cult.

Dirigido pelo canadense Norman Jewison – um nome sempre associado a um cinema político e social -, a fita conta a história de Johnny Kovak (Stallone), um operário que ganha a simpatia do sindicato dos caminhoneiros no interior dos Estados Unidos na década de 30, a Federation Interstate Trucks (F.I.S.T.). É uma época marcada pela presença sintomática de imigrantes vindos de várias partes da Europa, todos sob o calor de ideias humanistas e, sobretudo socialistas, estas, sopradas por países ligados ao bloco comunista.

A queda de braço é dura já que os trabalhadores querem melhores condições de vida, comoFIST pagamento de horas extras, planos de saúdes e mais civilidade na relação, empregados e patrões, mas os poderosos donos das empresas ignoram as propostas. Habilidoso com as palavras, um líder nato com a fúria de um soldado viking, logo Johnny Kovak consegue se despontar entre os seus pares e eleito membro do sindicato local. “Vocês têm a visão curta e o rabo gordo”, diz ele ríspido, numa reunião com seus superiores.

O choque é inevitável e do confronto das palavras para a luta corpo a corpo é um passo, com feridos e mortos para o lado mais fraco, com trabalhadores honestos esmagados pelas forças do sistema, da máquina do poder. “Aquele estrangeiro não vai armar um circo na minha empresa”, rebate indignado um chefão, mostrando quem tem poder.

Começam as greves e os prejuízos amargados pelos donos do dinheiro os fazem voltar atrás e fechar um acordo com os trabalhadores. O sindicato ganha poder e influência em todo o país, mas as ambições de Kovak o levam a dar as mãos com o crime organizado. É quando sua vida e de seus familiares e amigos começam a correr perigo. “Quando os favores terão fim?”, reclama ele, já incomodado com poderoso e inescrupuloso chefe da máfia.

Com fotografia expressiva do húngaro László Kovács, o filme é um épico importante sobre o pioneirismo dos sindicatos nos EUA, com todas as referências e códigos que permeiam o tema. Um deles, bastante simbólico, é a figura de um cantor folk embalando o acampamento dos grevistas, lembrando a mítica figura do ídolo Woody Guthrie.

Surpreende também, e os amantes do cinema devem prestar atenção neste detalhe, por mostrar Sylvester Stallone seguro na atuação do papel que escreveu para si, quando encarna um líder sindicalista. Mas quando vive um simples homem apaixonada por uma imigrante lituana, por exemplo, se mostra piegas como o ingênuo lutador Rocky Balboa, mas trata-se de uma opção dramática. No geral, é um trabalho de peso e sua trajetória.

* Este texto foi escrito ao som de: The times they are A-Chagin’ (Bob Dylan – 1964)

Bob Dylan 4

Diretores – Joaquim Pedro de Andrade

O cineasta (dir.) em Minas, dirigindo Fernando Torres em "Os Inconfidentes"

O cineasta (dir.) no interior de Minas, dirigindo Fernando Torres em “Os Inconfidentes”

Não sei se li isso em algum lugar, mas sempre ouvi dizer que Joaquim Pedro de Andrade era o príncipe do cinema brasileiro. Talvez fosse um comentário maldoso de algum desafeto da classe, devido à origem burguesa do cineasta carioca que, não sei por que, achei que fosse mineiro. Impressões à parte, o fato é que a cinematografia desse filho de intelectual metido com as artes, sobretudo a literatura e a sétima arte, tinha mesmo um estilo nobre.

Formado em Física, Joaquim Pedro nunca quis nada com as moléculas e, antes de entrar para a faculdade, cresceu cercado de gente como Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Buarque de Hollanda, Lúcio Costa e Manuel Bandeira, este último seu padrinho de crisma, homenageado no curta-metragem de 1959, O poeta e o Castelo.

Inspirado no poema Negro amor de Carlos Drummond de Andrade, filma em 1965, sua primeira ficção, o drama intimista O padre e a moça, fazendo da literatura brasileira eterna para suas histórias na telas. “Só sei fazer cinema no Brasil, só sei falar de Brasil, só me interessa o Brasil”, deixou registrado certa vez.

Para mim, Joaquim Pedro foi o mais intimista dos cineastas do Cinema Novo com seu olhar elegantemente crítico sobre a realidade que o cercava. Basta conferir o drama histórico, Os inconfidentes. Figura fácil na boemia carioca foi num dos bares-sensações do Rio que cunhou a frase que resumiria seus trabalhos. “Faço filmes sobre a patifaria e a safadeza. Uma das minhas fontes de inspirações é o Velho Testamento”, zombou.

O cineasta morreria jovem, aos 56 anos de idade, em 1988, antes de realizar aquele que seria um de seus projetos mais importantes: filmar o épico antropológico, Casa-grande & senzala. Anos mais tarde, no Festival de Brasília, tive oportunidade de entrevistar sua filha Alice de Andrade (a cara do pai), competindo no evento com estranho filme Diabo a quatro.

MacunaímaTop Five – Joaquim Pedro de Andrade

Macunaíma (1969) – A abordagem tropicalista do diretor, flertando com circo, chanchada, pop art, pastelão, Hollywood não foi suficiente para me fazer gostar do texto de Mário de Andrade, uma chatice. Com atuações hilárias de Grande Otelo e Paulo José, o filme, a maior bilheteria do Cinema Novo, fez a cabeça do diretor alemão Werner Herzog.

O padre e a moça (1965) – Baseado no poema, Negro amor, de Carlos Drummond de Andrade, o filme é de uma sutileza incrível, à revelia de tema espinhoso e lembra um pouco as fitas de Antonioni pelo silêncio visual. Filmado como um lindo exercício de estilo traz ainda fotografia deslumbrante e uma Helena Ignez deliciosamente tímida, mas não fria.

Os inconfidentes (1972) – De carona nos 150 anos da Inconfidência Mineira, o diretor usa como metáfora o Brasil de 1789 para criticar o governo do presidente Médici, um dos piores da ditadura. A narrativa lírica e fotografia solar não conseguiram esconder certo pessimismo velado.

Guerra conjugal (1977) – Entrelaçando várias tramas baseadas em contos de Dalton Trevisan, o filme é um dos marcos da comédia erótica no Brasil. Só mesmo o diretor, com sua habitual elegância, para filmar os prazeres da carne sem parecer vulgar. Montagem impecável.

Garrincha, Alegria do povo (1963) – Projeto encomendado, o diretor imprimiu aqui seu estilo intimista em documentário que capta o que ainda restava de um dos maiores ídolo do futebol brasileiro.

* Este texto foi escrito ao som de: Satwa (Lula Côrtes e Laílson – 1973)

Satwa

Tame Impala – Manso como um cervo

O talentoso Kevin Parker à frente da banda do momento em minha jukebox sentimental

O talentoso Kevin Parker à frente da banda do momento em minha jukebox sentimental

Não vá ri meu chapa, mas quando ouvi o nome pela primeira vez achei que fosse algum carro, mas na verdade Impala é um bicho da classe dos veados, cervos, um treco assim, bastante comum na África. Também faz referência à banda australiana de rock psicodélico Tame Impala, cujo som, tem feito minha cabeça de forma visceral nos últimos dias. O que prova mais uma vez que sou saudosista de um tempo que não vivi, já que a sonoridade da banda é bem nostálgica, retro do tipo 60tista, 70tista, enfim, para lá de formidável. É mais ou menos como se você já tivesse escutado isso em algum lugar, mas só que melhor. Entendeu? Lembrei, imediatamente, dos californianos do Beachwood Sparks.

A “descoberta” foi mais uma cortesia do brother Pedro Brandt, meu cicerone musical predileto, sempre abastecendo minha jukebox sentimental com adoráveis “novidades”. A do momento, claro, são os dos discos de Kevin Parker e sua trupe, Innerspeaker (2010) e Lonerism (2012), e a pergunta que faço, de si para si, é onde diabos eu estava quando eles lançaram esses dois projetos entre 2010 e 2012? E os caras já estiveram no Brasil…

Bem, vamos lá. Com 28 anos, Kevin Parker traz biografia clássica dos jovens talentos como Tame Impala 3ele. Cresceu ouvindo as músicas psicodélicas dos Beatles e Beach Boys que os pais tocavam em casa. Dali para sundaes como Cream e Jefferson Airplane foi um passo e não demorou muito para o moleque curioso pegar a guitarra emprestada do pai – um músico amador nas horas vagas -, para começar a brincar. O resto é história.

A música que me deixou no chão, com sua bateria vibrante e gostosa foi, I Don’t really mind, última faixa do primeiro álbum, que escutei depois de ouvir o segundo Lonerism. Apesar de mais encorpado, denso e experimental Lonerism não me entusiasmou mais do que Innerspeaker. Por enquanto.

Mas depois de mergulhar a fundo nos dois registros, após várias audições em insones madrugadas, a memória vai se despertando, desabrochando e me revelando algumas surpresas deliciosas. Por exemplo, Feels like we only go backwards já dançou em minhas ondas cerebrais em algum momento nesses últimos anos, só não sei aonde. Será que na trilha de algum filme? Numa festa? No rádio do carro? Ou no som do meu inquieto inconsciente? Não sei, só sei que tem uma versão folk do Arctic Monkeys que simplesmente é sensacional. “Parece que eu só ando para trás, baby/Cada parte de mim diz em frente/Eu tenho minhas esperanças de novo/Parece que só andamos para trás, baby”, diz a letra.

Viajante, as canções do Tame Impala, todas escritas por Kevin Parker, o cérebro e emoção por trás da banda, são um milkshake de guitarras com efeitos, reverberações amparadas por pedais e vocais melódicos, etéreos. A experimentação de algumas faixas lembra qualquer coisa dos Mutantes e não é por acaso, já que o jovem músico australiano já confessou conhecer e admirar a banda dos irmãos Baptista.

AC/CD, Midnight Oil, Nick Cave, INXS, Men at Work… Fiquei pensando cá com os meus botões, faz um bom tempo que não ouço uma banda bacana lá pela terra dos cangurus.

* Este texto foi escrito ao som de: Innerspeaker e Lonerism (Tame Impala – 2010/2012)

Tame_Impala_Lonerism_Cover

O Juiz (2014)

Trama de Shakespeare em trama que mistura drama familiar e thriller de tribunal

Trama de Shakespeare em trama que mistura drama familiar e thriller de tribunal

No drama O Juiz, em cartaz na cidade, o bonitão Robert Downey Jr. deixa a armadura de Homem de Ferro no camarim para encarnar, com propriedade, as agruras de um homem comum na pele de advogado arrogante e competente. Mas o cinismo está lá, intacto como sua fantasia de super-herói. Na fita ele é Hank Palmer, um profissional da lei seguro de si que sabe muito bem em que lado deve trabalhar. “Só defendo os culpados porque os inocentes não podem pagar”, explica.

Mas em casa a realidade é outra. A mulher acaba de traí-lo com um amigo dela da faculdade e ele se sente culpado com relação à filha, no meio desse tiroteio de rancor doméstico. Para piorar as coisas, Palmer acaba de perder a mãe e é recebido com hostilidade pelo pai no velório, um poderoso e influente juiz de cidade provinciana que ele não se sente à vontade de reencontrar. “As coisas por aqui não mudaram nada”, alfineta para si mesmo.

Um dia, amargurado com a morte da esposa, o Juiz Joseph sai de casa para comprar ovos e se envolve num atropelamento que mata um criminoso julgado por ele duas décadas atrás. O desastroso incidente, como em todo drama familiar, desenterra uma avalanche de afetos perdidos, tragédias pessoais e morais, ressentimentos, pungentes sentimentos de culpa e arrependimento.

O Juiz 3“Essa família parece um quadro de Picasso”, ironiza o advogado Palmer, que deixa o orgulho de lado e se propõe a defender o pai no tribunal.

Situação surreal essa de um Juiz que sempre lutou para manter intacta sua imagem e senso de justiça diante de seus pares e da sociedade em que vive, mas que é pego de surpresa pelas ciladas que o destino nos prega. No fundo, por traz daquele falso verniz de moralidade, esconde um homem fraco e hipócrita que se defende intratável soberba e arrogância.

Um câncer implacável e o afeto de uma netinha carinhosa irão colocá-lo no eixo, mas não o bastante por restabelecer a amizade entre pai e filho. Shakespeariano em sua dramaturgia, O Juiz, do diretor David Dobkin, cozinha numa mesma panela dois filões explorados à exaustão por Hollywood: os filmes de tribunais e os dramas familiares. Do ponto de vista da atuação é um sundae, com Robert Downey Jr. duelando de igual para igual com o brilhante veterano Robert Duvall, além da elegante e impecável presença do eterno rebelde Billy Bob Thornton. Pelo lado da história, é surpreende pelo realismo de situações dramáticas, como a cena do banheiro em que um velho decrépito luta pela vida à beira da privada.

Há quem identifique problemas na narrativa cheia de surpresas dramáticas e situações cômicas, acusando o estilo do diretor pouco ousado. O que acho uma bobagem, já que a proposta aqui é clássica e exuberante. Podem chiar o quanto quiserem. Para mim é, de longe, um dos melhores dramas norte-americano dos últimos tempos.

* Este texto foi escrito ao som de: Innerspeaker (Tame Impala – 2010)

Innerspeaker 2

Porque nunca chove em mim?

Para o conceito de chuva é abstrato, como naquela canção psicodélica dos Beatles: Rain!

Para mim o conceito de chuva é abstrato, como naquela canção psicodélica dos Beatles: Rain!

Não consegui dormir na noite passada, encantado com o barulho de chuva lá fora. Há muito tempo, mas há muito tempo mesmo que não sentia uma sensação tão agradável, uma sensação maravilhosa, como diria aquela canção do Gene Kelly dos anos 40. Uma sensação antecipada pelo vento de chuva que soprou à tarde inteira ontem. Ah, o vento de chuva e depois o cheiro de terra molhada, daí veio todo aquele processo remissivo proustiano e fui conduzido direto para minha infância, lá na antiga casa da minha avó materna, Luiza.

Cara, eu simplesmente não consegui fechar os meus olhos ontem à noite por que havia uma luz no fim do meu túnel e elas eram azuis metálicas, azuis relâmpagos e explodiam num céu de nuvens cor de rosas que não eram de algodão doce. Eram nuvens de chuva que espantaram para bem longe esse calor infernal.

Porque nunca chove em mim? Será porque fui um bom menino até os meus 17 anos nunca mentindo? Não tenho problemas de ficar o dia todo molhado porque, parafraseando o poeta Paulinho da Viola, a chuva é um rio que passa em minha vida. De modo que quero que essa água do céu lave minha alma e leve embora, junto com o calor, todas as impurezas que nela existir. Porque quero começar um novo amanhã de alma lavada.

Bem, nas redes sociais as pessoas andam indignadas, reclamando que essa tão anunciadaRain - The Beatles chuva é virtual. Zombo deles, com alegria no peito e satisfação no rosto, mas sem sadismo porque não sou cretino – apesar da cara -, que a minha chuva é de verdade, chuva surreal. Mais do que real. Aqui pelas bandas da minha casa, hoje amanheceu fresco, com chão úmido e vento cheirando à saudade. Saudade da minha infância, saudade daquele pedaço de terra lá nas Minas Gerais da minha mãe, saudade de quando descobri os Beatles, enfim, saudade de um tempo que não vivi.

Porque nunca chove em mim eu não sei, mas, ao contrário do que dizem e pensem muitos por aí, gosto daquela ideia de uma nuvem cinza, carregada e fria sobre minha cabeça. Não sei porque cargas d’água, mas chuva para mim é sinônimo de sinceridade e limpeza. Sinônimo de transparência. Para onde foram os dias de sol? É o refrão daquela canção do Travis que não quero ouvir, só sei que minha vida é mais feliz quando o céu aparece plúmbeo. Agora já posso ver as flores nascerem e crescerem em meu jardim.

Então chove chuva, chove sem parar. Chove para espantar a minha tristeza da falta de daquela menina com sorriso mágico e um sol no olhar. Porque para mim os sentimentos, as sensações são ao contrário mesmo. Meu conceito de chuva e deus é abstrato, diferente e pessoal como naquela velha e psicodélica canção dos Beatles: Rain.

“Chuva, eu não ligo/Brilhe, o tempo está bom”, diz um dos trechos da faixa.

Acho que é por aí. Chuva em mim…

* Este texto foi escrito ao som de: The man Who (Travis – 1999)

Travis - The man who

Vino para robar (2013)

Daniel Hendler e Valeria Bertucceli na comédia inspirada em James Bond e "Missão impossível"

Daniel Hendler e Valeria Bertucceli na comédia inspirada em James Bond e “Missão impossível”

Depois do argentino Ricardo Darín, o uruguaio Daniel Hendler é o nome da cinematografia latino-americana que mais me desperta atenção pelo talento, charme e personalidade. Desde que o vi pela primeira vez em El fondo del mar, na mítica Academia de Tênis, acho que ainda, em minhas memórias afetivas, o melhor lugar para se ver filme de arte em Brasília e que, uma pena, não existe mais. E olha você, já naquele tempo, o ator já tinha aquela cara de homem que já nasceu maduro, enfim, cara de Jean-Paul Belmondo. Não esqueço o dia em que mandei uma entrevista para ele por e-mail, já com as perguntas, sem perguntar se ele podia me atender, e levei um esporro daqueles on-line. Mas e daí, se ele acabou respondendo as perguntas…

Outro dia, de bobeira em casa, vi no Telecine Cult a comédia Vino para robar (2013), que estava na mostra competitiva do BIFF (Festival Internacional de Cinema de Brasília) este ano e que perdi. Ainda não sei se gostei do filme, mas pelo menos me deixou com vontade de tomar um vinho e lá estava eu, madrugada adentro, tomando meu cabernet sauvignon chileno.

Numa mistura de James Bond com Missão impossível, o filme narra as agruras, peripécias e entreveros do casal Sebástian (Hendler) e Mariana (Valeria Bertucceli) no mundo do crime. Os dois são especialistas em grandes roubos de raridades, mas começa a fita como rivais. Daí, uma situação bizarra e uma rara garrafa de Malbec de Bordeaux do século 19 os Vino para robarcolocam juntos. Mesmo que a contragosto.

A brincadeira agora é uni as forças e tentar tirar essa joia histórica que pertenceu a Napoleão Bonaparte de um banco de Mendoza, interior da Argentina. Para tanto, a dupla contará com a ajuda de um hacker descolado, Chucho (Martín Piroyansky), e de um investigador (Pabro Rago) que, paradoxalmente, tenta colocá-lo no xadrez antes que ele faça o grande roubo de sua vida usando um helicóptero.

Essa ideia do cinema brasileiro ou latino-americano em geral de querer parodiar grandes fórmulas, clichês de Hollywood me incomoda um pouco. No final sempre dá em algo que não preta. Por isso que os primeiros 40 minutos de Vino para robar me incomodaram tanto. Para falar a verdade, não sei se gostei do filme, mas também não cheguei a odiar. Talvez pelo charme irresistível de Daniel Hendler e das absurdas reviravoltas da trama e da boa direção de atores. Os diálogos espirituosos também são um ponto alto da fita, como na sequência em que o diretor faz uma brincadeira com dois dos grandes goleiros da seleção argentina, Nery Pumpido e Sergio Goycochea.

Ok, por todos esses detalhes, a fita pode ser incluída no rol dos filmes interessante feitos sobre o universo enólogo. Até porque, me fez ficar bêbado ao escrever esse texto.

* Este texto foi escrito ao som de: Elo Perdido (Arnaldo & Patrulha do espaço – 1977)

Elo perdido