Clube de Compras Dallas (2013)

Para fazer o aidético Ron, o ator Matthew McConaughey perdeu mais de 20 quilos

Para fazer o aidético Ron, o ator Matthew McConaughey perdeu mais de 20 quilos

O bonitão Mathew McConaughey é o ator da vez e ele fez por merecer. Despiu-se da mediocridade que cerca muitos astros deslumbrados com o sucesso em Hollywood e mergulhou de cabeça em papeis denso, marcados por contradições e com certa moral vilipendiada. O resultado são atuações soberbas em filmes como o violento e dissimulado, Obsessão, de Lee Daniels, na pele do jornalista homossexual Ward Jansen, e o recente Clube de compras Dallas, drama indicado em seis categorias no Oscar, inclusive o de Melhor Ator para ele. Para interpretar o protagonista da fita, o ator perdeu mais de 20 quilos.

Pior para Leonardo DiCaprio, a minha aposta por sua atuação eloquente em O lobo de Wall Street. E a ironia é que o próprio McConaughey faz uma ponta no filme do mestre Martin Scorsese e que ponta. Em Clube de compras Dallas, dirigido pelo canadense Jean Marc Vallée, ele é o vaqueiro durão Ron Woodroof, um sujeito a encarar brigas e pegar as garotas que quer. E é justamente aí que mora o problema já que estamos em meados dos anos 80 e a AIDS corre solta. Só que ele não sabe disso. Ninguém sabe e por isso ele e um bocado de gente não usa preservativo e o inevitável acontece.

Diagnosticado com a doença, é condenado pelo médico almofadinha que o atende a um mês de vida. Inconformado com a situação que enfrenta, resolve partir para a briga e lá está ele estudando sobre o assunto, melhor ainda, brigando com médicos, outros pacientes soropositivos e até com a poderosa indústria de remédios, que negligencia a comercialização do medicamento.

Clube de compras dallas 2“Quer queira ou não isso é um negócio”, comenta cínico, o médico que o condenou à morte.

Driblando a morte, a hipocrisia e o descaso, ele resolve então contrabandear os remédios pela fronteira do México e até do Japão, criando uma rede de associados ilegais que incomoda o sistema falho que o cerca. A cena em que se veste de padre para enganar a alfândega é divertida. Assim como os momentos em que ele, um machão empedernido, encrenca e passar nutrir certo sentimento afetivo pelo transexual vivido pelo ator e cantor Jared Leto, indicando na categoria Melhor Ator Coadjuvante.

Ao longo da trama, o roteiro original de Clube de compras Dallas, baseado em fatos reais, nos prega várias lições sobre preconceito, amor próprio, amor ao próximo e, sobretudo, sobre o lado podre que adormece dentro de cada um de nós. Sim, porque acima de tudo, o personagem de Matthew McConaughey, apesar dos impasses e revezes da vida, é um canalha. E talvez por isso mesmo seja tão passivo de pena, dentro de seu realismo desconcertante.

Já que a história pede, o filme, sim, se deixa levar pelo sentimentalismo, e ainda cai no clichê de citar o astro de cinema Rock Hudson, uma das primeiras celebridades vítima da doença. Mas e daí, se o que vale é a sinceridade das atuações.

* Este texto foi escrito ao som de: Roadmaster (Gene Clark – 1972)

Road

Drummond – A rosa do povo

Drummond, com sua figura frágil, simples, comum até, óculos maiores do que a cara,  era gente da rua como eu e você

Figura frágil, simples, com seu pragmatismo facial, o poeta tinha a silhueta do homem comum

Carlos Drummond de Andrade poderia ser avô de qualquer um. Figura frágil, simples, comum até, com seus óculos maiores do que a cara, pragmatismo facial, desde moço trazia silhueta de gente do povo, gente como qualquer um que se esbarra pelas esquinas da vida com guarda-chuva a tira colo, gente como eu e você. Contudo, as duas imagens que tenho dele, tanto jovem, quanto velho, me trazem associações inusitadas.

O Drummond guapo me lembra, fisicamente, o poeta português Fernando Pessoa. Já o Drummond mais maduro, estigmatizado no inconsciente popular como um vovô universal querido, me lembra Charlie Chaplin. Mas nada a ver com o famoso poema que ele dedicou ao gênio do cinema mudo e da pantomima, mas por causa de uma cena engraçada dele num filme imitado o Carlitos. Não lembro se era um curta-metragem daqueles produzido pelo Rubem Braga e Fernando Sabino ou se uma matéria jornalística.

Enfim, e o primeiro poema dele que caiu em meus ouvidos foi o épico José, que vi sendo declamado não sei por que ator num daqueles “Fantásticos” da minha infância. Talvez até tenha sido o Cid Moreira com sua voz de profeta, não sei, não me recordo. Contudo, a frase mais forte de um de seus versos que bate em meu peito é: “Tinha uma pedra no meio do caminho/No meio do caminho tinha uma pedra”.

E aí está o grande mérito, mistério e talento de Drummond, ou seja, ser genuinamente interiorano e universal ao mesmo tempo. Uma afinidade e percepção que me vem natural assim talvez pelo fato de, lá no fundo, bem no fundo mesmo, eu ainda ser um ingênuo menino do interior.Drummond 2

Enfim, com o tempo fui colecionando livros de poesias e descobri outro dia que eu tinha duas pérolas do poeta mineiro em minha estante mágica, Boitempo e A rosa do povo, que estou lendo no momento. Publicado em 1945, numa época em que as ideologias políticas e sociais afloravam de forma virulenta e até acintosa, nos quatro cantos do mundo, o livro traz em sua maioria poesias de caráter humanista e social, muitas delas embriagadas de um pessimismo melancólico ou mesmo otimismo tristonho. Quase todas sem rima e de um lirismo profundo exasperador. “Clara manhã, obrigado, o essencial é viver”, escreve ele em Passagem da noite.

Pesquisador apaixonado da poesia drummondiana, o também mineiro e poeta Affonso Romano de Sant’ Anna, escreve no prefácio do livro sobre um dos conflitos básicos na obra do poeta que já identifiquei em algumas poesias que li de A rosa do povo, que é o Eu versus Mundo. Um tema que surge aqui de forma natural em seu “eu lírico”. “Poderia alegar, é claro, que este seria o conflito básico de todo ser vivo. Mas, no caso deste poeta, o que seria uma circunstância comum, transforma-se na reflexão poética sobre o indivíduo e sua perplexidade pessoal, social e metafísica”, observa Romano Sant’ Anna.

Há muita inquietação social e humanista em A rosa do povo. Uma inquietação social e humanista de caráter até existencial, se é que pode colocar assim. “O tempo pobre, o poeta pobre, funde-se no mesmo impasse”, reflete Drummond, com certa solidão existencial em A flor e a náusea.

E ele, com certeza, deveria saber do que estava falando porque, como próprio escreveu em Procura da poesia: “Convive com teus poemas, antes de escrevê-los”.

* Este texto foi escrito ao som de: Milton Nascimento (1969)

Milton Nascimento

Os excêntricos Tenenbaums (2001)

Um filme estranho sobre uma família desajustada tentando juntar do que sobrou dos cacos

Um filme estranho sobre uma família desajustada tentando juntar do que sobrou dos cacos

Se o filme Os excêntricos Tenenbaums não é o mais estranho que já vi, com certeza é o mais original de todos, tanto que recebeu uma indicação de Melhor Roteiro Original. Gozado que revi o filme outro dia no Telecine Cult só por causa da cantora alemã de voz aveludada Nico, que tem duas músicas do seu sensacional disco solo de 1967, Chelsea girl, na fita. A Nico você conhece, certo? A cantora deliciosa que gravou o primeiro disco do Velvet Underground, aquele da banana.

Enfim, a trama, como o título denuncia, gira em torno dos Tenenbaums, uma família de notáveis excêntricos formada por Royal (Gene Hackman) e a esposa Ethel (Anjelica Huston), pais dos excepcionais Chas (Ben Stiller), Margot (Gwyneth Paltrow) e Richie (Luke Wilson). O primeiro um gênio das finanças, o último um tenista de talento e a jovem Margot, adotiva, brilhante escritora e dramaturga.

Só que, 22 anos depois, os dias de glória e orgulho da família são apenas poeiras do passado. Isso porque o patriarca desleixado e egoísta Royal, foi embora e agora retorna com a esperança de reatar os laços que os unia. A missão não será nada fácil. Para começo de conversa, a esposa está prestes a se casar com o seu antigo contador, o disciplinado Mr. Sherman (Danny Glover). Fora isso, o único filho que o apóia e não o odeia é o depressivo Richie, que nutre uma paixão platônica pela irmã adotiva. O restante da família o rejeita mesmo quando ele usa como estratagema um câncer de mentira como desculpa para voltar para casa. “Sou um canalha, esse é o meu estilo”, admite Royal, com a cara mais deslavada do mundo.

TenenbaumsNarrado por Alec Baldwin e com roteiro do próprio diretor Wes Anderson, escrito junto com o ator Owen Wilson – que interpreta o viciado e melhor amigo de Richie Eli Cash -, o filme é uma comédia do absurdo narrado em tom de fábula tendo como mote, o perdão. Questão materializada aqui a partir do acerto de contas do velho Royal com sua família. Uma questão, diga-se de passagem, demonstrada de diversas maneiras e sob várias camadas no filme, com direito a suicídio, incesto e outros tipos de bizarrices embutidos nas entrelinhas.

O elenco estelar está afiadíssimo e é uma das grandes atrações do filme. Vale à pena, por exemplo, se deleitar com a construção dos personagens da linda Gwyneth – uma artista fria e indiferente à dor alheia -, ou com o formidável veterano Gene Hackman, soberbo na pele de um velho irresponsável, mas de coração de ouro. A sequencia em que ele apronta todas com os netos, outrora negligenciados, pelas ruas da cidade, é de morrer de rir. “Ele não pode criar esses meninos com medo da vida. É preciso injetar alguma imprudência neles”, condena de forma imprudente a forma como os netos são criados pelo paranóico Chas.

Mas o que Os excêntricos Tenenbaums é, senão uma caixa cheia de surpresas agradáveis. Uma delas é os exagerados e coloridos figurinos e cenários, além da já mencionada trilha sonora que é um sundae para os ouvidos e mente. Aliás, Wes Anderson é um jovem diretor que sabe trabalhar com dignidade a música em seus filmes, basta conferir A vida marinha com Steve Zissou (2004), Viagem a Darjeeling (2007) e o recente Moonrise Kingdon (2012), todos estranhamente formidáveis.

Não sei por que cargas d’águas, ao ver o filme, eu acabei me lembrando do livro O menino do dedo verde, fábula infantil que marcou minha infância escrita pelo francês Maurice Druon. O universo mágico da cultura tem dessas coisas.

* Este texto foi escrito ao som de: Self portrait (Bob Dylan – 1970)

Self portrait - Bob dylan

O jornalismo romântico morreu

A promiscuidade entre a imprensa e o poder vem de tempos antigos

Chatô e Getúlio Vargas: A promiscuidade entre a imprensa e o poder vem de tempos antigos

Sou gago, fanho e tenho a língua presa. E quando fico nervoso, minha dicção piora bastante. De modo que, quando entrei para a faculdade de jornalismo, nunca pensei que seria um William Bonner na vida. Nem uma Fátima Bernardes. Na verdade, não foi por causa deles que pensei em fazer jornalismo, mas influenciado por figuras ilustres do passado que eu não tive oportunidade de ver como o Paulo Francis e o Samuel Wainer. Para falar a verdade, o Paulo Francis eu ainda tive a chance de pegar seus últimos anos de atividade e foi um aprendizado.

E quando sai da Faculdade com o diploma debaixo do braço, pronto para trabalhar numa redação de jornal, eu tinha o sonho infantil de querer mudar o mundo com uma profissão que achava romântica e cheia de glamour. Sim, porque na minha cabeça de recém formado ingênuo, o jornalista era o justiceiro moral da sociedade. Aquele camarada que ia atrás da informação que ninguém tinha e botava a boca no trombone. Ou que fazia denúncias hediondas arrebatadoras, sem medo de arcar com as conseqüências. Enfim, para mim, o ingênuo, o jornalista era o restaurador dos bons costumes e da mora, o salvador da pátria.

Ledo engano. O romantismo nos meus primeiros dias de jornalismo nunca existiu e o que vigora hoje é um glamour de quitanda onde, jornalistas peruas e omissos, se vendem e prostituem diante daqueles que pagam mais, podendo ser esse o governo ou representantes de uma iniciativa privada corrupta. Às vezes as duas coisas juntas.

E porque isso acontece? Ora pelotas, porque não é de hoje que o jornalismo e a mentalidade Samuel Wainermercantilista andam de mãos dadas. É só ler Chatô, o rei do Brasil, de Fernando Morais, para ver que a promiscuidade entre imprensa e poder é antiga. Que o jornalismo romântico morreu antes deu nascer.

E porque cada vez mais os donos de jornais são empresários gananciosos insensíveis aos problemas da sociedade, interessados apenas em engordar suas contas bancárias à custa de parcerias escusas, sujas, como já disse, com a banda podre do governo, o lado promíscuo da iniciativa privada. Ou seja, fazem uso desavergonhado dos meios de comunicação para favorecer a interesses próprios patrocinados com o dinheiro que nós pagamos de impostos. Por dentro da engrenagem só há podridão. E conheço os dois lados da moeda. Jornal hoje é sinônimo de cartel.

O bom jornalista é aquele que não se vende ao sistema. O bom jornalista é aquele profissional que não se omite diante das coisas erradas que vê acontecer, ficando indiferente ou em silêncio à situação com medo de ser demitido ou rechaçado, enfim, sem receber seus proventos gordos “cala-boca”. E esse jornalista não existe mais. É espécie rara.

E é nessas horas que tenho vergonha da profissão que escolhi, fico com vontade de largar tudo e vender pastel na rodoviária. Garanto que é um trabalho mais digno do que ser porta voz de um governo corrupto ou dos donos do poder. Pensando bem, para quê diploma de jornalismo se no final tudo vai dar em nada.

* Este texto foi escrito ao som de: Aladdin Sane (David Bowie – 1973)

Aladdin Sane

Spartacus (1960)

Stanley em plena batalha dirigindo os atores Woody Strode e Kirk Douglas

Stanley em plena batalha dirigindo os atores Woody Strode e Kirk Douglas

A Semana Santa está chegando aí e a pergunta que faço à queima roupa é: qual o maior épico bíblico de todos os tempos? Para mim o imbatível Ben-Hur, com Charlton Heston no papel-título e William Wyler na direção. Mas há outros do gênero de peso. Spartacus, de 1960, dirigido por Stanley Kubrick é um deles. Baseado em romance de Howard Fast lançado em 1951, o filme era um projeto do ator Kirk Douglas, então produtor executivo da fita e estrela nas telas como o escravo rebelde que lidera uma revolta de seus pares contra Roma.

Só que no meio do caminho o astro com inconfundível furinho no queixo se desentendeu com o diretor Anthony Mann e, na hora de encontrar um substituto, lembrou na hora da parceria elogiada e bem sucedida com Kubrick no contundente Glória feita de sangue. O resultado é um trabalho marcado pela eficiência narrativa, exuberância visual e atuações inesquecíveis de um elenco formidável. Sim, porque além de Kirk Douglas, a trama contou com os préstimos de Laurence Olivier, Jean Simmons, Tony Curtis, o soberbo Charles Laughton e o hilário Peter Ustinov, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante.

Grande homem da renascença que era, Kubrick, apesar da pouca idade que tinha na época, conseguiu um feito raro no meio em que transitava que foi dirigir uma história como superespetáculo e ainda dar ordens para um cast de fazer tremer o mais experiente dos cineastas. Para o jornalista e escritor Ruy Castro, o pior não era nem isso, mas o fato de, além de muito jovem, ele ser tão nova-iorquino e tão anti-establishment. No final deu tudo certo, apesar do conflito com o roteirista Dalton Trumbo, um homem de esquerda que, segundo Kubrick, imbecilizou o texto original.

Spartacus“Em Spartacus, tentei tornar a história o mais autêntica possível. Eu tinha que lutar, principalmente, contra um roteiro bobo”, lembraria anos depois.

Depois de ser comprado por um mercador contrabandista que transforma escravos robustos em gladiadores, Spartacus chega à arena com a missão de lutar pela vida numa batalha clímax dirigida com tensão ímpar pelo diretor. Preste atenção em como Kubrick brinca e ludibria o voyeurismo do público dramatizando os últimos momentos dos gladiadores em cena.

No meio da confusão armada por um grupo de romanos lascivos e imorais, eis que surge uma rebelião e os gladiadores fogem formando um exército de escravos que luta, entre outras coisas, por ideais libertários, talvez o grande mote do filme. “A morte é a única liberdade que o escravo conhece”, observa Spartacus, com olhar sonhador.

Após uma sequência de vitórias contra os romanos, e tentativa frustrada de fugir da Itália pelo mar, com seus homens, Spartacus finalmente é capturado e morto, sua lenda sufocada pelos opositores. O conflito latente entre o poder civil e militar o tempo ronda a trama não apenas por conta das acaloradas discussões dos afetados homens do Senado romano, mas na disputa pelo comando do então mais poderoso exército da Antiguidade.

“Notou que os piores tiranos são magérrimos?”, ironiza com deliciosa cara de pau o personagem de Charles Laughton, que, apesar do cinismo, é capaz de um nobre gesto de humanismo antes de tirar a própria vida. No melhor estilo Stanley Kubrick, claro.

* Este texto foi escrito ao som de: Living in the material world (George Harrison – 1973)

Living in the material world

Diretores – Martin Scorsese

Robert De Niro e o cineasta nos bastidodes de Taxi Driver...

Robert De Niro e o cineasta paranoico nos bastidodes de Taxi Driver…

Baixinho, fraco, doente e paranoico, Martin Scorsese era um autêntico filho de mamãe que, raramente, saía do bairro Little Italy, onde nasceu e cresceu. Até por conta desse quadro desanimador, poucos acreditavam que um dia, no futuro, ele daria em algo que prestasse. Mas deu, na confortável condição de um dos representantes mais ativos e importantes do movimento que ficou conhecido, nos anos 70, em Los Angeles, como a “Nova Hollywood”. Desse grupo de privilegiados fizeram parte ainda, entre outros, figuras do naipe de Francis Ford Coppola, Hal Ashby, Warren Beatty, William Friedkin, Steven Spielberg e Paul Schrader, roteirista de dois grandes sucessos de sua carreira: Taxi driver e A última tentação de Cristo.

Conhecido pela colossal e enciclopédica cultura cinematográfica, o diretor também é famoso por ser um amante apaixonado da música, hobby que transferiu na realização de documentários emblemáticos sobre ícones do pop rock como Bob Dylan, Rolling Stones, George Harrison e The Band.

Respeitado veterano da sétima arte, o cineasta é mais uma vez destaque este ano da festa do Oscar com o formidável O lobo de Wall Street, com o qual concorre a seis estatuetas, inclusive as de melhores filme e diretor. Gozado que, quando comecei a ficar fissurado por cinema, o nome de Martin Scorsese, apesar de leituras prévias, sempre foi subestimado por mim, até o dia em que vi embasbacado, Touro indomável. Um pouco dessa experiência inebriante você pode conferir logo abaixo.

Top Five – Martin ScorseseTouro indomável

Taxi driver (1976) – Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, o filme é um dos mais desconcertantes, assustadores e corajosos já realizados no cinema. Sujo, brutal e de uma urgência urbana até hoje atual, está entre os grandes trabalhos de Scorsese. O nome do psicótico vivido por Robert De Niro inspirou o nome da banda britânica Travis.

Touro indomável (1980) – Projeto de Robert De Niro a priori desdenhado por Martin Scorsese, na época, afundado em drogas e com a autoestima em baixa, é o melhor filme da parceria entre o diretor e o seu ator fetiche. Cenas no ringue são de uma beleza impactante.

Bons companheiros (1990) – Ok, digam o que quiserem, mas para mim, essa fita é um dos melhores filmes sobre gângsters e máfia, já realizados no cinema. Cruel, amoral e violento, sintetiza o estilo autoral do diretor, ao mesmo tempo em que revigora um dos gêneros cinematográficos por excelência.

The last waltz (1978) – Com um ouvido que pulsa como um coração febril, Martin Scorsese chamou para si a responsabilidade de registrar a história e trajetória dos maiores nomes do pop rock. O que ele fez com competência feérica. O primeiro deles seria essa pérola do gênero. Um trabalho para quem gosta de música, de bons concertos e, claro, da mítica The Band. Outro dia revi o filme e chorei copiosamente.

Gangues de Nova York (2002) – Eu já tive um quebra pau homérico com um amigo querido defendendo esse filme. Um dos trabalhos do diretor mais subestimados, conta com impecável direção de arte e atuações estupendas, destaque para o completo Daniel Day-Lewis, na pele de um açougueiro. Rodado nos estúdios Cinecittà, em Roma, a ideia de Scorsese era filmar essa história em 1978, tendo, veja você, os meninos do The Clash no elenco.

* Este texto foi escrito ao som de: All things must pass (George Harrison – 1970)

All things must pass

Carl Winter e José Fandango

Fernanda Montenegro encarna a velho Bibiana na nova adaptação do clássico

Fernanda Montenegro na pele da prática Bibiana, velha carente da atenção do médico alemão

Alguns personagens literários são tão bem construídos, tão bem delineados em suas agruras e conflitos humanos, na exuberante alegria de viver e existir, que ficam marcados em nossa memória como tatuagem. O aventureiro Phileas Fogg de A volta ao mundo em 80 dias, de Júlio Verne, o apaixonante esnobe Lorde Henry Wotton, de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, o inseguro e vacilante George F. Babbitt, de Babbitt, de Sinclair Lewis, o elegante e auto-suficiente Jay Gabtsty de O grande Gastby, de F. Scott Fitzgerald, enfim, toda a turma de Monteiro Lobato no mágico O Sítio do Picapau Amarelo.

Dois personagens de Érico Veríssimo da saga O tempo e o vento são minhas coqueluches ficcionais do momento. São eles o pragmático médico alemão Carl Winter e o simplório, mas experiente e sábio peão José Fandango. Duas criaturas opostas, diferentes em seus extremos, mas mesmo assim, iguais no jeito universal de ser. O primeiro deu de parar, vindo sabe-se lá porque da terra das Valquíria, nas pradarias de santa Fé, no Rio Grande, para prestar serviços médicos à população local. O segundo, um autêntico sal da terra cuja personalidade se mistura com o lugar de onde veio.

Culto, viajado e seguro das ideias e opiniões que emite acerca de vários temas, Carl Winter, era no mínimo uma figura curiosa do ponto de vista físico. “Tinha um corpo muito esguio e ossudo, dum branco de marfim, pintalgo de sardas e recoberto duma penugem fulva”, descreve o autor no segundo volume de O continente.

O tempo e o vento 5Por conta de sua habilidade com as palavras, mesmo no idioma bastardo, ou seja, o português, paciência com o jeito bugre dos nativos, além de médico, Carl Winter, por sua habilidade em lidar com os problemas alheios, virou uma espécie de psicólogo, conselheiro dos principais personagens da trama, entre eles a austera e autoritária, Bibiana, em sua fase mais venal e problemática. Quando a velha se encontra aflita, angustiada em seus conflitos domésticos, é a ele que ela recorre.

“No final das contas, doutor, eu estou sempre amolando o senhor com as mnhas histórias. Mas também vosmecê é a única pessoa com quem posso me abri”, admite, ela, escondendo um esgar de orgulho.

Como ninguém é de ferro, Winter nutria um amor secreto e platônico pela bela e vilã Luzia, também sua paciente, a quem ele a tratava de um câncer letal.

Já o despojado Zé Feliciano, que seria uva interpretado por Lima Duarte, tem uma natureza crua e verdadeira típica dos homens do campo, cuja lida dura diária forjara um homem sem rodeios nas palavras e no fazer. Peão das terras dos Terra Cambará, exerce um fascínio paternal pelo jovem Licurgo, neto do valente capitão Rodrigo e filho da amarga Luzia. Experiente, gozador e matreiro, o velho Fandango é dono de uma memória prodigiosa e contador de histórias hilárias. Outro dia tive crises de risos madrugada adentro lendo sobre suas visões acerca do mundo e das pessoas.

“Ele sabia ver sinais de chuva no cheiro do vento ou no jeito das nuvens. (…) Para Licurgo, Fandango era uma espécie de oráculo – homem que tudo sabe e tudo pode”, comenta o escritor, desenhando os pensamentos do menino Licurgo.

Se um dia eu Como se vê, alguns personagens são eternos no seu jeito simples de ser.

* Este texto foi escrito ao som de: George Harrison (1979)

George Harrison 1979

12 anos de escravidão (2013)

Solomon e o carrasco da história vivido pelo ótimo Michael Fassbender

Solomon (Chiwetel Ejiofor ) e o carrasco da história vivido pelo ótimo Michael Fassbender

Ao sair da sessão do filme 12 anos de escravidão, em cartaz a partir de hoje em todo o país, duas constatações atravessarão a consciência de qualquer pessoa de bem. Uma é que o ser humano às vezes pode ser desprezível e abominável no cerne de sua natureza. A outra é que vamos olhar com um misto de vergonha e culpa para os negros que estiverem na sala de cinema. Dirigido por Steve McQueen, o filme, indicado em nove categorias – inclusive melhor filme e diretor -, surge como uma espécie de espinho histórico no passado de todas aquelas nações que adotaram a escravidão como sistema econômico, o que no Brasil não seria diferente, daí o fato do tema, mesmo explorado à exaustão no cinema e na televisão, ainda ser um incômodo latente.

Na trama baseada em fatos reais escrita pelo personagem central, Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é um negro livre que teve alguns privilégios na vida. Um deles é saber ler e escrever. Outro é tocar violino, o que ele faz com talento ímpar. Casado, pai de duas crianças, ele ainda tem trabalho e mora numa casa simples, mas cercada de conforto, desfrutando de uma condição que poucos de seus pares não se dão ao luxo: a liberdade.

Mas por pouco tempo. Enganado por dois artistas mambembes que o contrata com músico, ele é dopado, sequestrado e vendido como escravo, partindo de sua terra de origem, Washington, para o sul do país. Lá cai na mão de vários donos de fazenda, vivendo ao longo de 12 anos todos os tipos de crueldades e suplícios até esbarrar com um canadense marceneiro (Brad Pitt, um dos produtores do filme), que o ajudará encontrar o caminho de casa. “Sua história é extraordinária. Mas não pelo lado bom”, comenta sem bem feitor.12

Nem precisa dizer o quanto é sufocante assistir os mais de 130 minutos desse drama carregado de tensões onde afloram sentimentos como sadismo, hipocrisia, omissão, submissão e um maniqueísmo necessário e o que é pior, que de fato existiu. Tão angustiante quanto o violento filme de Mel Gibson sobre a paixão de Cristo, que nunca mais tive coragem de ver. 12 anos de escravidão é outro projeto que não quero ver nunca mais, dado o grau de cenas propositalmente degradantes que não sairão da minha mente tão cedo. “É bom que seja assim. Ele ficará melhor do que nós”, diz um companheiro de correntes de Solomon, diante do corpo de um deles no porão do navio.

Bem produzido, narrado e com atuações estupendas, destaque para Chiwetel Ejiofor e Michael Fassbender (o carrasco da história) – ambos indicados respectivamente como melhor ator e ator coadjuvante -, 12 anos de escravidão tem grande chance de levar o prêmio máximo do cinema, mas muito mais pelo teor da história, que tem um sabor amargo revisionista, do que pelos arranjos técnicos. O que, do ponto de vista histórico e social é muito bom. Uma situação parecida com a dos alemães, que volta e meio exorcizam os fantasmas e demônios do nazismo para nunca esquecerem o que fizeram. Ou que é mais exemplar ainda. Para jamais repetirem os mesmos erros.

* Este texto foi escrito ao som de: Graceland (Paul Simon – 1986)

Graceland

Por aqui com os xiitas de plantão

Nicolás Maduro é uma fruta podre que já deveria ter sido removida do poder

Nicolás Maduro é uma fruta podre que já deveria ter sido removida do poder

Cuba é um país que não deu certo. Do ponto de vista de “Che” Guevara, é claro. Já pela perspectiva torta de Fidel Castro e seu socialismo de merda, sim. E daí virou aquele caos no meio do Caribe que sabemos que é. Ou seja, o cara derrubou uma ditadura para impor outra, a dele, infligindo uma população inteira a um regime limitado e carente economicamente falando. Sem falar da falta hedionda, em pelo século 21, de liberdade. E é por essas e outras que ele, o Fidel Castro, deixou de ser meu ídolo há muito tempo. E quer saber? Já está passando da hora de pegar a barca de Caronte.

A Venezuela de Hugo Chávez é outro país latino-americano que não deu certo. A desgraça é que o mala já pegou a barca de Caronte e o país ainda continua naquele estado de confusão letárgico permanente. Mas daí entra um fator relevante que é essa coisa chamada de herança maldita ou paternalismo boboca personificados aqui, na figura bonachona de Nicolás Maduro.

O cara nada mais é do que um fantoche de um fantasma de esquerda fajuto, assim como são os líderes do PT de hoje aqui no Brasil. Meros políticos de uma esquerda falida e hipócrita que, há mais de dez anos no poder, vem ludibriando o povo com essas políticas sociais paliativas “engana bobo”. E pior ainda, fingindo que estão governando o país, quando no fundo mesmo estão criando uma baderna administrativa que será um saco de gato para o próximo governo que, com fé em qualquer coisa, não será petista.

URSS 2Tanto em Cuba, quanto na Venezuela, como aqui no Brasil, o problema está no fanatismo xiita e démodé de certas correntes e ideias políticas. Nessa idolatria burra de um sistema político, personagem histórico ou líder do momento. Cara, estou de saco cheio, por aqui desses xiitas de plantão. Veja bem, o muro de Berlim caiu, a União Soviética não existe mais, a ditadura no país é apenas um pesadelo do passado e ainda tem gente chamando uns aos outros de “camarada”. Parece anedota de botequim, mas é a mais pura, crassa e hedionda verdade. Pode?! Pode!

Certa vez, encrenquei com uma anãzinha estrábica que cismou, espumando pelos cantos da boca, que o Chávez era um grande líder político de nosso tempo porque revolucionou o país com suas políticas sociais. A tampinha vesga subia num caixote de jacaré e delirava discursos inflamados em defesa do ditador latino-americano com uma veemência obtusa baseada nesse argumento que, para mim, é muleta de pobre. Política social o cacete!!!

Então não venha me dizer que as políticas sociais do Brasil é indício de um bom governo, assim como os 29 milhões de favorecidos de venezuelanos com planos sociais advindos de subsídios milionários. Isso não justifica ou ameniza em nada a onda de insatisfação que toma conta e divide o país, com gente morrendo de graça pelas ruas e outras sendo presas e vilipendiadas no direito de protestar. Espero que o Leopoldo López, o maior opositor do governo de Nicolás Maduro, seja libertado logo e volte a combater esse xiita de bigode que, para mim, é uma fruta podre que já deveria estar longe do governo.

Assim como quero ver o PT fora de todos os grandes governos no próximo ano. Chega de demagogia política. Chega de líderes de mentira. Chega de enganar o povo.

* Este texto foi escrito ao som de: Eletric Banana (The Eletric banana – 1967)

Eletric banana 2

A última tentação de Cristo (1988)

O figurino de Pôncio Pilatos usado por David Bowie no filme é uma das atrações da exposição em SP

O figurino de Pôncio Pilatos usado por David Bowie no filme é uma das atrações da exposição em SP

Afinal de contas, porque diabos eu resolvi tirar do limbo esse filme do Scorsese que não via há séculos? Ah, sim, lembrei, lembrei! Foi porque outro dia, de bobeira em casa, assisti uma matéria, não sei onde, falando sobre a exposição do Camaleão do rock que está rolando em São Paulo. Aliás, tenho que dar um jeito de ir lá. Instrumentos, cadernos com anotações, fotos e imagens raras, os exóticos figurinos usados pelo artista em suas apresentações e, claro, aqueles que ele vestiu nas dezenas de filmes que trabalhou. Entre eles, A última tentação de Cristo, na pele do tirano romano Pôncio Pilatos.

Para falar a verdade, nem me lembrava que o David Bowie havia feito esse filme. Aliás, não me lembrava de muita coisa. Inclusive que o Martin Scorsese era o diretor. Mas também pudera. Tem muito tempo que vi esse filme, acho que a última vez que assisti eu ainda era coroinha e acreditava em deus, inferno, salvação da alma e todas essas bobagens.

Talvez seja por isso que nem dei pelota para a história. Sendo sincero, domesticado em ver aqueles épicos do Cecil B. DeMille, com um Jesus hollywoodiano de olhos azuis e bonito como o Gary Cooper, odiei A última tentação de Cristo com todas as minhas forças.

Agora não. Agora que virei um autêntico, confesso e orgulhoso pecador, um incrédulo rebelde, eu achei o filme sensacional, formidável, maravilhoso. E por vários motivos. Um deles por causa da ousadia de Martin Scorsese, um ítalo-americano que desafiou dogmas familiares e a própria formação católica a levar para as telas o polêmico romance do escritor grego Nikos kazantzakis. O nome é feio e impronunciável, mas você com certeza já viu, pelo menos uma vez, outro texto do autor adaptado para o cinema, o clássico, Zorba, o grego.A última tentação de Cristo

 Escrito em 1951, o livro conta a história de um Jesus anárquico cheio de dúvidas e temor, inclusive diante de seus atos e da missão que lhe deram. Na visão questionadora de Kazantzakis, Cristo não era uma divindade acima do bem e do mal, alguém que desceria numa nuvem cercado de anjos para acabar com os problemas da humanidade. Era um homem simples da Galiléia perdido entre o dom da liderança e as tentações do desejo, daí o título mais do que elucidativo. É esse messias que Martin Scorsese nos apresenta aqui.

“Tenho muito medo dentro de mim”, diz o personagem interpretado por um visceral Daniel Defoe.

Nem precisa dizer o que a Igreja Católica achou dessa adaptação que chegou a ser proibido em vários países, inclusive no Brasil. E só porque Jesus queria comer Maria Madalena. E o que tem, ora bolas? Paciência. Nessa segunda leitura de A última tentação de Cristo me impressionei com o escopo pop do filme que, além de trazer David Bowie como ator, conta com Peter Gabriel como o autor de trilha sonora empolgante e do cineasta junkie Paul Schrader (O gigolô americano).

Todas as passagens importantes da vida de Cristo estão lá. Mas Martin Scorsese não se deixou guiar por convencionalismos do passado e nos brinda com uma narrativa cheia de maneirismos. A cena do exorcismo no deserto, por exemplo, parece um clipe de Jesus Cristo Superstar e os milagres que o “Salvador” realiza um número de mágica. Cabelo pintado de vermelho fogo e duas vezes com mais ódio no coração do que o Judas da Bíblia, Harvey Keitel está um espetáculo como o antagonista da trama. Aqui sim, o diabo é feio como pintam.

* Este texto foi escrito ao som de: Ziggy Stardust (David Bowie – 1972)

Ziggy Stardust