O som do vinil – Toni Tornado

Depois de abiscoitar o festival da música de 1970, o cantor gravaria dois discos antológicos

Depois de abiscoitar o festival da música de 1970, o cantor gravaria dois discos antológicos

Era início dos anos 70 e para ficar uns tempos longe da heroína, deu que a roqueira hippie Janis Joplin, então no auge da carreira meteórica que viveria, desembarcou no Rio de Janeiro em plena sexta-feira de Carnaval. Não deu outra. Enfiou literalmente o pé na jaca, caindo na folia, andando de topless pelas praias cariocas e tomando todos os pileques que quis. Num desses, ficou desacordada na praia de Copacabana, até o cantor Serguei tropeçar nela por lá. Não conseguindo tirá-la dali sozinho, não titubeou, foi à procura de amigo mnegão de quase dois metros de alturas, sorrisos largos e cabeleira Black Power que atendia pelo nome de Toni Tornado.

“E foi assim que conheci a Janis Joplin. Atravessei a praia de Copacabana com ela toda torta nos braços”, conta o ator e cantor em entrevista a Charles Gavin no programa O som do vinil, que vi outro dia no Canal Brasil.

Essa história é um sundae e a trajetória de Antônio Viana Gomes, nosso eterno Toni Tornado, 82 anos, uma aventura digna de filme. Está perdendo tempo quem ainda não contou sua história. Antes de se consagrar ator no inconsciente coletivo da massa, Toni, que fugiu de casa aos 11 anos, no interior de São Paulo, para tentar a sorte no Rio de Janeiro, chegou a ser moleque de rua e ganhava a vida vendendo balas e amendoins, engraxando sapatos. Serviu a Escola de Paraquedismo junto, veja só, com um tal de Sílvio Santos, em no final dos anos 50 deus uns tiros no Canal de Suez.

Nos anos 60 foi para os Estados Unidos onde, para sobreviver, foi traficante de drogas e até cafetão, gerenciando entre 20 e 30 mulheres no Harlem. Todo mundo conhece a passagem da prisão de Tim Maia na América, mas poucos sabem que quem o tirou da cadeia na época foi Toni Tornado, que atendia pelo nome de Comfort. “Acabei sendo dedurado porque ninguém queria que um gringo chegasse lá e tomasse conta dos negócios deles”, lembra.

Toni Tornado - AmigaMas os cinco anos em que passou em Nova York foi um aprendizado e tanto. No Apolo Theather não sabe quantas vezes viu apresentações fenomenais do ensandecido James Brown e Marvin Gaye, então no início da carreira. Foi lá também que o negão sangue bom, simpatia radiante se familiarizou de vez com o soul e a black music, trazendo para o Brasil o gingado e as ideias políticas embutidas nas entrelinhas das canções.

Todas essas informações e influências foram decodificadas e assimiladas pelo artista quando ele subiu ao palco do V Festival Internacional da Canção, em 1970, para abiscoitar o prêmio máximo com a canção da dupla ícone Br-3, da dupla Antônio Adolfo e Tibério Gaspar.

“Toni exibiu uma performance tão espetacular, cantando e dançando no estilo de James Brown, que deu a todos a impressão de ser daquela ser a melhor música  de todas”, registrou o jornalista e respeitado crítico musical Zuza Homem de Mello no formidável livro A era dos festivais – Uma parábola (Editora 34). “Ficou tão comovido com os aplausos que, depois de cantar, desmaiou nos bastidores”, continuou o autor.

Depois dessa apresentação apoteótica de Toni Tornado, só podia dar no que deu. Ou seja, a gravação de dois discos antológicos em 1971 e 1972, apresentados por devida reverência por Charles Gavin neste programa que é uma beleza para os amantes da boa música. Quem escutar os dois registros e tiver o mínimo de bom senso, vai ver que Tony Tornado teve tanta importância para o gênero musical no Brasil quanto Tim Maia. Que justiça seja feita.

* Este texto foi escrito ao som de: Toni Tornado (1971/1972)

Toni Tornado 1971

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