Brasília – Contradições de uma cidade nova (1967)

O cineasta Joaquim Pedro entrevistando nordestinos nas cidades-satélites

O cineasta Joaquim Pedro entrevistando nordestinos nas cidades-satélites

Basicamente Brasília nasceu da cabeça de um obstinado político sonhador e de um artista romântico: Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer. E talvez seja que, movidos por fé quase cega que, esses dois grandes homens de seu tempo jamais imaginariam no caos social e urbano que se transformaria a nova capital do país, construída para ser um modelo de cidade moderna e justa. Pois bem, o cineasta Joaquim Pedro de Andrade e os roteiristas Jean-Claude Bernardet e Luís Saia previram todo esse desastre sete anos após a construção de Brasília. É o que mostra o impactante curta-metragem, Brasília – Contradições de uma cidade nova (http://migre.me/pHLy8), filme de 1967 relançando como extra do DVD do clássico do Cinema Novo, Macunaíma (1969).

Fiquei com vontade de rever o filme depois que uma amiga gaúcha me contou, fascinada, que havia assistido ao filme. Fiquei com vontade de rever e me lembrei de coisas legais, como o início bem sacado do filme, com a câmera em movimento percorrendo o buraco do tatu e dando a ideia de que estamos entrando numa grande tela de cinema.

Um dos pilares do anárquico movimento cinematográfico que tinha como representantes
nomes de peso como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Ruy Guerra, o mineiro Joaquim Pedro de Andrade brincou muito de fazer cinema ao realizar curtas importantes antes de dedicar aos longas-metragens. Basta citar pelos menos dois emblemáticos trabalhos com esse formato, O poeta e o castelo (1959), sobre o Manuel Bandeira, e Couro de gato (1960), incluído dois anos depois no filme de episódios, Cinco vezes favela (1962).

Patrocinado pela empresa italiana de máquinas de escritórios Olivetti, o projeto foi logo Brasíliaabortado pela nova direção da empresa que não via com bons olhos a irônica crítica social e urbana feita pelo roteiro. Temiam arranjar encrenca com os militares no poder e sumiram com os negativos, cuja única cópia estava de poder do MAM. Os bastidores dessa história é bem contada pelo documentário Plano B, de Getsemane Silva, uma das atrações do Festival de Cinema de Brasília do ano passado.

Com suas primeiras imagens a cores realizadas sobre a capital, uma cortesia do diretor de fotografia Affonso Beato, Brasília – Contradições de uma cidade nova mostra o sonho que não deu certo. Ou seja, ao som de Erik Satie e Maria Bethânia, de como a beleza arquitetônica dos traços de Niemeyer e veias largas desenhadas por Lúcio Costa, não foram suficientes para aplacar o apartheid social tão presente nas grandes metrópoles. Logo a ideia de integração entre pobres e ricos, empregados e “doutores” tão sonhada por Niemeyer caíra por terra com a presença das cidades-satélites, ampliando, no dia a dia, na prática do cotidiano o enorme fosso social entre elite e os retirantes sofridos.

“A ideia era mostrar que, por melhor que fosse a intenção dos arquitetos e urbanistas, não se poderia praticar urbanismo de mão-cheia num contexto de injustiça social como o brasileiro”, explicou o diretor numa entrevista a Alex Viany em 1983. “Brasília encarna o conflito básico da arte brasileira: fora do alcance da maioria do povo”, diz uma das frases derradeiras da fita com pouco mais de 20 minutos.

Ex-professor da UnB que havia se autodemitido em 1965, após a confusão armada pelos militares, que invadiram o espaço, o francês Jean-Claude Bernardet é impiedoso com a então respeitada instituição de ensino. “A Universidade de Brasília, que foi planejada para ser a vanguarda do ensino superior no Brasil e que chegou a funcionar assim, hoje é uma cidade como as outras”, diz trecho do roteiro.

Além de Bernardet, figuras relevantes da arte e cultura nacional naquele período participaram desse empreitada que já nasceu morta como o ator Joel Barcellos, aqui como produtor, o poeta Ferreira Gullar, o narrador e Rogério Duarte o responsável pelos letreiros.

* Este texto foi escrito ao som de: A paixão segundo Cabaret (Cabaret – 2014)

Cabaret

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