Tem uma baleia azul no meu aquário

 

Blue Whale
“Gostava de quando ela fazia querer ser uma pessoa melhor…”

Abri meu coração hoje, cara!

E ela fez uma investigação

Encontrou sonhos despedaçados

E uma alma em confusão

Eu era tão feliz quando eu acreditava nela

Eu era tão feliz quando ela estava por perto

Mas agora sou uma estatística em sua vida

Um grão de areia na imensidão do deserto

Ela inferniza minha vida com seu sex appeal

Vai embora e me deixa morrendo de desejo

Seu sadismo faz minhas gengivas sangrar

Minha boca maldita é sedenta de seu beijo

Não confie em ninguém, meu chapa!

Nem mesmo em sua sombra cambaleante,

Porque um dia ela irá te abandonar,

Na escuridão profunda da noite vacilante…

Agora meu dente dói, meu estômago queima,

Ando escondendo onde a luz não ilumina mais

E eu só queria ter a confiança insana de um rei

Talvez a coragem sincera de um suicida loquaz

Não passo de um covarde social

Tudo se resume a ego e cifrão

Ando cavando minha própria cova

Com a ajuda dos hipócritas de plantão

Quero ser John Malkovich

Quero apenas ser eu mesmo

Quero apenas tentar sobreviver

Nem que seja nesse fétido esmo

Mas quem poderá me salvar?

O Mickey Mouse não é meu amigo

Jesus Cristo não é estrela no meu céu

Então minha vida corre perigo

Não olhe agora, brother

Mas tem uma baleia azul no meu aquário

E ela é bem grande, selvagem e real,

Ela me faz navegar me sentindo otário

Gostava de quando ela me fazia

Querer ser uma pessoa melhor

Gostava de quando ela me fazia

Querer sentir uma pessoa melhor…

* Este texto foi escrito ao som de: Ágætis byrjun (Sigur Rós – 1999)

Sigur Rós

Lindos Pés Virados Para O Mar…

pes

“…E lá longe, a perder de vista, bailando no infinito do horizonte, a doce lembrança de um sorriso mágico ladeado por pintas de pecado…”

Lindos pés angelicais virados para o mar, perdido em praias de enigma, praias que não tenho a mínima ideia de onde fica e, de repente, num passe de desespero, há uma avalanche de desejo deslizando, intensa dentro de mim, pelo meu estômago, pelas minhas entranhas, pela minha pele febril, meus delirantes e dormentes sentidos cheios de excitação…

Acho que beijaria cada centímetro do corpo perfeito dela, mas descansaria dois ou três dias, só pra morder o dia inteiro seus dedos dos pés, ou quem sabe os pés inteiros ou o desenho malicioso de seu joelho, solar como uma tela de Gauguin, sinuoso como as curvas das nuvens do céu dos mares do Sul…

…E lá longe, a perder de vista, bailando no infinito do horizonte, a doce lembrança de um sorriso mágico ladeado por pintas de pecado… Não olhe agora, meu chapa, mas acho que, por amor ou talvez desejo, eu perdi o juízo…

…Só queria saber qual era a cor do beijo dela, se azul pecado ou vermelho sonho. Talvez a intensidade de sua respiração dançando em meu pescoço carente de sua presença me fizesse sentir algum tipo de vida, mas sua presença preciosa é sempre roubada pelo vazio de “oráculos” inócuos ou pela mediocridade dos tolos e seu falso charme de príncipes do nada…

E assim, do nada, vejo-me perdido num cenário das 1001 Uma Noites, onde minha imaginação idealiza o quarto de Sherazade completamente tomado de essência de sãndalo, , misturado com o perfume do seu corpo… Momentos proustianos, no melhor estilo “La La Land”…

Nada mais mágico do que o rito de passagem da aurora ou crepúsculo, as duas melhores horas do dia, a madrugada invadida pelo Sol, o fim da tarde tomado pelo manto da noite…

Quem sabe logo mais, perdido nos devaneios da minha solidão, eu posso grafar a história de sua vida em minha alma moribunda…

* Este texto foi escrito ao som de: Happy Sad (Tim Buckley – 1969)

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Sozinho e Perdido…

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“Sozinho e perdido/Num labirinto/Encarando o Minotauro/Lutando pela vida…”.

Sozinho e perdido

Num labirinto sem saída

Encarando o Minotauro

Lutando pela vida…

Sozinho e perdido

Sem lugar pra chegar

Mas afinal, pra onde ir,

Sem ânimo pra tentar?

Sem força pra tentar…

De cinema em cinema

De bar em bar

Aonde isso vai dar?

Sozinho e perdido

Sem pertencer a tribos

Na arena da vida

Lutando com inimigos

Sozinho e perdido

Delírios no nono andar

Se eu tivesse asas, baby,

Talvez pudesse me salvar

Se eu pudesse me salvar

De cinema em cinema

Ficção e realidade

Mentira e verdade

Eles têm o poder

E sabem lutar

Onde estão minhas armas

Onde estão minhas armas

No cinema ou no bar?

No cinema e no bar…

capital

Teorema (1968)

teorema

No filme, o estranho Terence Stamp é um jovem que invade a rotina de uma família burguesa de Milão, deixando marcas indeléveis na moral de cada um

Homossexual com convicções marxistas-cristãs, Pier Paolo Pasolini foi um dos nomes mais polêmicos do cinema dos anos 60 e 70.  Autor do roteiro de Noites de Cabíria (1957), de Federico Fellini, estreou na direção com Acattone (1961). Rodado no final dos anos 60 a partir de livro homônimo de sua autoria, Teorema acirra o discurso do artista sobre a luta de classes e birra contra o capitalismo numa narrativa alegórica triste e soturna. O filme já começa tenso.

“Essa novidade trata-se de um fato isolado ou será uma tendência do mundo moderno?”, provoca um repórter, nas cenas iniciais da fita, quando um grande empresário de Milão doa sua fábrica para os operários.

O que se vê na sequência é o desmantelamento da família quando um estranho forasteiro (Terence Stamp) passa a fazer parte desse lar pequeno-burguês não apenas na condição econômica, mas também ideológica. O empresário desiludido, a esposa solitária, os filhos oprimidos pela visão capitalista, enfim, até a empregada meio perdida nesse ambiente tão distante de sua realidade são corrompidos por essa figura misteriosa e seus jogos libidinosos.

A narrativa seca e sem mise-en-scène oferecida por Pasolini não nos permite entender se o jovem rapaz era um empregado da fábrica ou uma alma solitária arrebatada pelas ruas de Milão em busca de uma aventura a mais. O que se percebe, nas entrelinhas, é que a nuance freudiana que perpassa a vida dos personagens aqui entra em choque com a análise política feita pelo cineasta na época.

Como acontecia com todos os filmes de Pasolini, essa visão pessimista da sociedade italiana sintetizada a partir de uma família abastada, mas caótica, chocou os hipócritas de plantão. Sobretudo a igreja. Algumas cenas do filme são incômodas nesse sentido, como aquela em que uma elegante Silvana Mangano saí pelas ruas à cata daquilo que não encontra em casa. Sem falar da censura aos mitos, políticos e religiosas, ironizada na cena da empregada santa.

* Este texto foi escrito ao som de: Listen without Prejudice (George Michael – 1990)

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A Mentira – Nelson Rodrigues

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“Toda família tem um momento que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo”, filosofa o autor de “A Vida Como Ela É…”.

Foi a mais rodrigueanas das minhas musas quem me deu a dica, ou seja, me fez lembrar que na minha estante mágica eu tinha esse romance de um dos meus autores preferidos, há tempos ali hibernando. Tanto tempo que nem lembrava mais. Lançado em folhetim em 1953, trata-se do primeiro romance que assina com seu nome, sem a maquiagem dos pseudônimos, e estrou a Coleção Baú do Nelson Rodrigues, lançado pela CIA das Letras nos anos 2000.

O texto é de uma fúria impactante, com seus diálogos ousados e frases suicidas geniais. Isso porque, com ama ingenuidade de kamikaze, Nelson Rodrigues quebrava tabus revelando as histórias e os desenlances das subtramas dessas histórias de uma família classe média carioca padrão que era e continua sendo o espelho de qualquer família suburbana.

“Toda família tem um momento que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo”, sentenciou certa vez, no alto do seu cinismo. “A família é o inferno de todos nós”, arrematava meio que pisoteando em cima do cadáver.

Desse modo, na família de Dr. Maciel ninguém presta, ninguém é moralmente decente. A começar por ele, o chefe da família que, de “Doutor”, só tinha mesmo esse título, mais falso do que Jesus Cristo de cinema. Depois de levar a caçula ao médico, vem o susto: “Sua filha vai ser mãe”, diz o médico, depois de lamentar os catorze anos da guria.

Pronto. É a deixa para Nelson Rodrigues mergulhar num enredo onde, como o título denuncia, a mentira surge como personagem impiedoso, sempre circundado pelo fantasma do pecado, da culpa e da lascívia. Lolita em sua pureza diabólica, Lúcia nega em dizer quem foi o autor do “crime”. Possesso, Dr. Maciel sobe pelas paredes, baba na gravata e inferniza a vida da esposa, para ele uma lesma, das filhas e genros, um bando de pusilânimes.

No imaginário criado pelo autor, todos são culpados e criminosos até que prove o contrário. O que não deixa de ser verdade na vida real. Só que na vida real somos protegidos pela hipocrisia do cotidiano, o cinismo de uma verdade mentirosa. Aqui, possuído por uma teatralidade ululante e arquitetura dramática precisa, Nelson Rodrigues cria climas e suspenses cinematográficos caóticos, dominando com maestria a psicologia dos dramas da alma humana.

A moral da história vem envolvida numa áurea de farsa da vida privada, onde nada é o que aparente ser, sobretudo as pessoas. E como todo gênio que se presa, o autor tem pleno domínio de seu universo, a ponto de se repetir, no bom sentido, no que diz respeito a situações e os personagens impagáveis.

Alguém certa vez disse que Nelson Rodrigues era o nosso Dostoievski. Para mim Nelson Rodrigues é melhor do que Nelson Rodrigues.

Este texto foi escrito ao som de: Alucinação (Belchior – 1976)

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Depois da Tempestade (2016)

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No novo filme de Kore-Eda, um escritor em crise luta para se afirmar profissionalmente e reconstruir os laços familiares

Não sei por que, mas todas às vezes que vou ver um filme japonês que não seja os clássicos – ou seja, Kurosawa ou Ozu, que conheço pouco, por sinal -, eu entro na sessão com a impressão de que vai ser uma merda e o efeito final é o contrário. Foi o que aconteceu, por exemplo, com drama Depois da Tempestade, o mais novo trabalho do cineasta, Hirokazu Kore-Eda, em cartaz no Libert Mall.

A simplicidade da trama beira ao neorrealismo italiano. É a história de Ryota (Abe Hiroshi), um escritor que ainda não decolou, apesar de um livro publicado. Desiludido, ele também está em busca de reconhecimento como homem de família respeitado perante a mãe, a irmã, que ele odeia, a ex-esposa e o filho. Para piorar a situação, ele tem problemas em honra compromissos como pensão do filho e, como se não bastasse, é viciado em jogo.

Enquanto a fama não vem, o jeito é ganhar a vida frilando como dublê de detetive. Aliás, uma aventura que ele desenrola melhor do que escrevendo. Essas ações cotidianas de um homem aparentemente fracassado são ritmadas com a graça e o realismo dos dramas minimalistas dos conflitos domésticos. Bobagens corriqueiras como a falta de grana, implicâncias infantis pessoais com a irmã e a mãe, enfim, ciúmes de um amor que não existe mais.

“Desculpe por ser um filho fracassado”, lamenta o filho Ryota à mãe, uma personagem espirituosa e cheia de sabedoria vivida pela ótima Kirin Kiki.

Tal qual o cinema introspectivo do mestre Yasujiro Ozu, Depois da Tempestade é um conto singelo e sincero sobre o sentimento de familiaridade, da importância de ser feliz com aqueles com quem podemos de fato confiar, nossos parentes. Quem estará nos esperando de braços abertos mesmo depois de uma forte e inesperada tempestade.

* Este texto foi escrito ao som de: Come A Time (Neil Young – 1978)

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As Confissões (2015)

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No filme falando em inglês, francês e italiano, o ótimo ator Toni Servillo é um monge acusado deu crime na alta cúpula da sociedade política econômica

Tem filme novo do ator italiano Toni Servillo na praça. Trata-se do divertido drama de suspense, “As Confissões”, de Roberto Andò. Na trama, ele é Roberto Saulus, um monge italiano, inexplicavelmente, convidado para participar de uma reunião com a cúpula do G8 na Alemanha. Na pauta, a crise financeira global.

Mas ele não é o único estranho no ninho nesse encontro de homens e mulheres poderosos que têm o controle de decidir os rumos da humanidade com uma simples canetada. Integram o grupo uma estrela do rock e uma escritora de livros infantis, ambos levemente inspirados no cantor, Bono Vox e na escritora, J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter. A ideia é que, com esses convidados ilustres, humanize um evento tão sisudo aos olhos do mundo.

Mas, de repente, todos os olhos se voltam para o religioso discreto. Tudo porque, após um encontro as portas fechadas com o presidente do Banco Mundial, Daniel Roché (Daniel Auteuil), o líder financeiro aparece morto. Assassinato? Suicídio? Que confissão ele teria feito ao monge? Que mistério ronda um encontro tão badalado do ponto de vista financeiro que poderá afetar diretamente a humanidade? Será o religioso um criminoso?

A primeira impressão que se tem é que o espectador está diante de um enredo de Sherlock Holmes. “Saulus. Roberto Saulus”, se apresenta o personagem central dessa trama, numa clara referência a um dos detetives mais famosos da literatura universal. Lembra Sean Connery em O Nome da Rosa. Mas, assim como tudo nessa reunião de estrelas da política econômica mundial, tudo é uma farsa.

“Às vezes, ser uma minoria, é um privilégio”, ensina o religioso, esbanjando sabedoria e humildade. “As únicas riquezas que tenho são minha batina, minhas sandálias e o silêncio”, ironiza Saulus.

Falado em inglês, francês e italiano, As Confissões é uma fábula moderna sobre poder, ganância e, sobretudo, a fragilidade humana. Assim como em A Grande Beleza (2013), de Paolo Sorrentino, coloca em evidência mais uma vez o talento do ator italiano Toni Servillo. A cena final dele abandonando esse hotel luxuoso vazio de esperanças, é digna de um Dr. Lao. Ou seja, discreta e, exuberantemente, exemplar. Se é que me entendem.

* Este texto foi escrito ao som de: Everybody’s In Show-Biz (The kinks – 1972)

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As relações humanas e Leonard Cohen…

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“Quando eu quero saber o que pensa os meus sentimentos ouço uma canção barroca do bardo canadense, um dos maiores poetas do rock”

Ah, as tais relações humanas… Como é difícil administrar desejos, emoções e sentimentos, ainda mais que tudo hoje em dia se resume a vaidade e dinheiro. Ou sempre foi assim e eu que não sabia? Essa ingenuidade infantil minha ainda vai me colocar em maus lençóis, me deixar numa roubada… Bem, e vaidade para mim não é ser relevante o suficiente para atrair a admiração do maior número de pessoas possíveis, mas apenas ser importante para a pessoa que você admira…

…Então, ainda bem que no final deu tudo certo. Eu acho. Pelo menos por algum tempo, um breve espaço de tempo. Agora, aqui, dentro de mim, tudo está mais leve, sereno e tranquilo. Aquela tempestade cheia de som e fúria que me fazia perde a razão, o sentindo e o bom senso não me atormenta mais, adeus demônio insano da minha alma melancólica. A noite insone e lenta me cai agora como um sopro acalentador de ternura e sonhos de paz… Good night…

E tudo só porque ouvi a voz de anjo da guarda dela num fim de tarde angustiante em meio à beleza bucólica e sufocante do Catetinho. Só porque senti uma energia do bem emanando no ar enquanto ouvia sua doce retórica de acalanto deslizando pelos meus ouvido calejados de bobagens cotidiana…

Enquanto isso, a voz arrastada do menestrel Leonard Cohen me guiava solenemente. “Senhorita viajante, fique um pouco mais até a noite findar/Eu sou apenas uma estação pelo seu caminho/Eu sei que não sou seu amante…”, cantava o bardo canadense, norteando minha mente depressivamente sem rumo. “Eu sei que não sou seu amante”, era a frase que insistia ecoar em minha mente depressivamente desnorteada…

Todas as vezes que me sinto deprimido, assisto aos filmes do Woody Allen da fase Bergman, que são, deliciosamente, densos e cinzas. Ok, eu sei que fico mais deprimido ainda, mas é uma depressão gostosa, se é que me entende, porque me traz um momento de reflexão… Se é que me entende…

Bem, quando quero saber o que pensa os meus sentimentos, ouço poetas como o Leonard Cohen, que foi um dos maiores letristas do rock. Que escrevia poesias sentimentais existenciais amorosas como poucos. Que falava sobre os desvarios da alma e do coração com uma verdade sentimental sui generis… “Me leve até a esquina/Nossos passos sempre rimarão/Você sabe que o meu amor vai com você/Enquanto seu amor fica comigo”, canta o bardo canadense em Hey, That’s No Way To Say Goodbye, sua primeira canção que ouvi, long time ago, na voz do Renato Russo.

…Sou um rapaz sensível. Do tipo que deixa verter uma gota de lágrima só de ver uma folha bailando no ar no vento febril de outono. Ou se emocionar ao tropeçar com uma pedra solitária em forma de coração numa calçada da vida. Muito dessa sensibilidade tem a ver com a energia sentimental das canções barrocas de Leonard Cohen. Ou simplesmente por conta da voz mágica de anjo da garota que, alegremente, inferniza meu coração delirante… Tudo isso é distante, abstrato e um tanto quanto confuso, mas, paradoxalmente, confortante…

* Este texto foi escrito ao som de: Leonard Cohen (1967)

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Com a alma desbotada, desfocada…

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“Qual caminho seguir? Onde estão as pessoas de verdade, aquelas pessoas que me faziam feliz e existir?”

Com a alma desbotada, desfocada, quase apagando, à margem de mim mesmo, perdido e confuso, solitário e vazio. Qual caminho eu devo seguir? Sem tijolos amarelos no horizonte… Onde estão as pessoas de verdade? Aquelas que eu costumava acreditar? Aquelas que eu achava que me faziam feliz e existir? Uma lanterna de Diógenes, por favor!!

…Nem uma luz no fim do túnel…

Esqueço a lanterna. Então arregaço as mangas e peço binóculo emprestado a um amigo, só pra ver se consigo enxergar melhor a alma das pessoas, talvez eu me encontre ali. Nunca tinha pegado num. Só conhecia um desses trecos dos filmes do 007 ou do Macgyver, que você lembra, né?! Era aquele cara que, com uma agulha e um novelo de linha, construía uma bomba…

Pois bem, fucei daqui, fucei dali e não consegui enxergar nada. Reclamei então com esse meu amigo e ele quase teve um troço, ficou uma fera!! Eu estava olhando do lado errado. Depois ele teve uma crise de risos. Mas o pior não é nem isso. Com o foco ajustado, tudo certo, ainda não consegui enxergar a alma das pessoas, nem a minha…

…Muito decepcionado com NÓS, seres humanos… Cinza por dentro…

Desfocado na vida. Quase apagando… Fade Out… Fade In… Fade Out… De onde vem a maldade humana? No final, tudo se resume a ego e dinheiro, vaidade e dinheiro… Sentimentos sinceros é uma moeda barata no mercado… Sentimentos sincero é algo raro, quase em extinção na praça…

Bem, costumava acreditar em mim mesmo, acreditar nas pessoas, agora somos todos zumbis perdidos no nada sem alma. Passo em frente ao portão do cemitério e o vento sopra frio e enigmático. De repente, vejo todos os mortos me acenando com almas desfocadas, tal qual a minha… Então paro e olho para trás, me dando conta de que a esperança já era, não passa de uma mentira hedionda, abjeta e indecente… No final, tudo é solidão e escuridão…

Espíritos e sonhos destroçados. À margem de mim mesmo, desfocado e vazio, andando bêbado de tédio por aí, o álcool da decepção dança em minhas veias como um demônio insano e rebelde. Com a alma entorpecida, dormente, é mais fácil sobreviver. Não aceito ficar à margem do coração de quem sou dedicado e fiel. A ingratidão é um câncer que come minha alma desbotada dia e noite, e essa dor nas costas que não cessa… E essa dor chata nas costas que não me deixa dormir…

À margem de mim mesmo… Tomara que meu coração pare…

* Este texto foi escrito ao som de: Siberia (Echo &The Bunnymen – 2005)

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Geração em Transe – Luiz Carlos Maciel 2

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Foi o guru da contracultura quem apresentou o texto do avant-garde, Oswaldo de Andrade a Zé Celso nos anos 60

Em 1968, a notícia da morte do estudante Edson Luís, morto por militares no restaurante Calabouço, se alastrou por toda a cidade do Rio de Janeiro como um rastilho de pólvora. O triste episódio pegou de surpresa muitos artistas, entre eles o diretor Luiz Carlos Maciel e o dramaturgo Plínio Marcos, de bobeira num bar perto do Teatro Jovem, onde montariam a peça Barrela, categoricamente, barrada pela censura. Indignado, o autor de textos polêmicos como Navalha na Carne e Dois perdidos Numa Suja não titubeou:

– Todos os teatros do Rio de Janeiro vão fechar em protestos. Nada de espetáculos! – decretou Plínio para um espantando Maciel. – Mas como, Plínio? Como é que essa gente vai fazer isso? – devolveu o amigo, argumentando a realização de uma assembleia com a classe antes.

Espevitado, Plínio nem deixou o amigo terminar a frase, explicando que, com a ajuda dos estudantes, ia fechar, um a um, os teatros da cidade. E assim ia sendo feito, mas, logo no primeiro espaço, onde era encenada, justamente a peça Dois Perdidos Numa Noite Suja, do próprio Plínio, um senhor se levantou e começou a gritar: “Comunistas! Comunistas!”.

Encarregado de discursar interrompendo o espetáculo, o guru da contracultura Luiz Carlos Maciel não soube o que fazer diante da situação, sendo imediatamente salvo pelo esquentado Plínio Marcos, que foi logo dizendo:

– Olha aqui, o senhor é o tipo de espectador que eu não quero nos meus espetáculos. Já houve um engano do senhor te vindo aqui. Quero que o senhor passe na bilheteria e pegue seu dinheiro de volta agora. E nunca mais bote os pés numa peça minha, viu! Nunca mais!”, gritou.

Os estudantes, que acompanharam tudo com o coração na mão, reagiram ovacionando a cena com berros de “fascistas, fascistas!”. Envergonhado, o senhor meteu o rabo entre as pernas e não voltou mais.

Essa é uma das várias histórias deliciosas sobre o teatro político brasileiro nos anos 60, contadas pelo intelectual Luiz Carlos Maciel no seu livro Geração em Transe – Memórias do Tempo do Tropicalismo. Publicado em 1996, a obra relaciona o surgimento de um dos movimentos culturais mais importantes do país, a Tropicália, a partir da figura revolucionária de três artistas: o cineasta Glauber Rocha, o cantor Caetano Veloso e o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa.

Num dos capítulos, Maciel revela que a peça O Rei da Vela, montagem a partir de texto inédito do avant-garde, Oswaldo de Andrade, foi uma ideia sua. Na época Zé Celso estava incomodado com os rumos que o Teatro Oficina tomava e rugia por reformas urgentes. Mas qual texto usar para promover um espetáculo inovador? “Falei da peça com o maior entusiasmo, contei que pensava em montá-la, mas acrescentei que o mais importante era que o texto ganhasse o palco, qualquer que fosse o diretor. Estava com o livro em casa e podia emprestar. E assim foi feito”, revela o autor.

Nasceria assim um marco do teatro brasileiro.

* Este texto foi escrito ao som de: Everything Playing (The Lovin’ Spoonful – 1968)

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