Geração em Transe – Luiz Carlos Maciel 2

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Foi o guru da contracultura quem apresentou o texto do avant-garde, Oswaldo de Andrade a Zé Celso nos anos 60

Em 1968, a notícia da morte do estudante Edson Luís, morto por militares no restaurante Calabouço, se alastrou por toda a cidade do Rio de Janeiro como um rastilho de pólvora. O triste episódio pegou de surpresa muitos artistas, entre eles o diretor Luiz Carlos Maciel e o dramaturgo Plínio Marcos, de bobeira num bar perto do Teatro Jovem, onde montariam a peça Barrela, categoricamente, barrada pela censura. Indignado, o autor de textos polêmicos como Navalha na Carne e Dois perdidos Numa Suja não titubeou:

– Todos os teatros do Rio de Janeiro vão fechar em protestos. Nada de espetáculos! – decretou Plínio para um espantando Maciel. – Mas como, Plínio? Como é que essa gente vai fazer isso? – devolveu o amigo, argumentando a realização de uma assembleia com a classe antes.

Espevitado, Plínio nem deixou o amigo terminar a frase, explicando que, com a ajuda dos estudantes, ia fechar, um a um, os teatros da cidade. E assim ia sendo feito, mas, logo no primeiro espaço, onde era encenada, justamente a peça Dois Perdidos Numa Noite Suja, do próprio Plínio, um senhor se levantou e começou a gritar: “Comunistas! Comunistas!”.

Encarregado de discursar interrompendo o espetáculo, o guru da contracultura Luiz Carlos Maciel não soube o que fazer diante da situação, sendo imediatamente salvo pelo esquentado Plínio Marcos, que foi logo dizendo:

– Olha aqui, o senhor é o tipo de espectador que eu não quero nos meus espetáculos. Já houve um engano do senhor te vindo aqui. Quero que o senhor passe na bilheteria e pegue seu dinheiro de volta agora. E nunca mais bote os pés numa peça minha, viu! Nunca mais!”, gritou.

Os estudantes, que acompanharam tudo com o coração na mão, reagiram ovacionando a cena com berros de “fascistas, fascistas!”. Envergonhado, o senhor meteu o rabo entre as pernas e não voltou mais.

Essa é uma das várias histórias deliciosas sobre o teatro político brasileiro nos anos 60, contadas pelo intelectual Luiz Carlos Maciel no seu livro Geração em Transe – Memórias do Tempo do Tropicalismo. Publicado em 1996, a obra relaciona o surgimento de um dos movimentos culturais mais importantes do país, a Tropicália, a partir da figura revolucionária de três artistas: o cineasta Glauber Rocha, o cantor Caetano Veloso e o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa.

Num dos capítulos, Maciel revela que a peça O Rei da Vela, montagem a partir de texto inédito do avant-garde, Oswaldo de Andrade, foi uma ideia sua. Na época Zé Celso estava incomodado com os rumos que o Teatro Oficina tomava e rugia por reformas urgentes. Mas qual texto usar para promover um espetáculo inovador? “Falei da peça com o maior entusiasmo, contei que pensava em montá-la, mas acrescentei que o mais importante era que o texto ganhasse o palco, qualquer que fosse o diretor. Estava com o livro em casa e podia emprestar. E assim foi feito”, revela o autor.

Nasceria assim um marco do teatro brasileiro.

* Este texto foi escrito ao som de: Everything Playing (The Lovin’ Spoonful – 1968)

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