Vampiros de Almas (1956)

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Filme de ficção científica com clima de terror dirigido pelo mestre Don Siegel era contundente metáfora contra o comunismo

Você conhece o cineasta Don Siegel de filmes como Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971) e, claro, Alcatraz – Fuga Impossível (1979), ambos com Clint Eastwood. Mas, bem antes disso, ele já andava aprontando em Hollywood, realizando trabalhos de peso, mesmo que com pouco orçamento e produção matusquela. Um desses êxitos é o clássico dos filmes B, Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers, 1956), minha dica neste Halloween.

“Mas espera aí, Vampiros de Almas não é filme de terror, mas ficção científica”, dirá algum espírito de porco, e talvez seja, talvez não, depende do ponto de vista. Eu o chamo de suspense de terror de ficção científica. Baseado numa série da revista Collier’s Magazine escrita por Jack Finney, o filme é um dos prediletos de Martin Scorsese por, entre outras coisas, surgir como metáfora do clima político da época.

“Eu era jovem, mas a Guerra Fria causou uma grande impressão em mim, no sentido de ser possuído como em Vampiros de Almas. Era pior do que ser morto, de certa forma, porque pegavam a sua alma. Arrancavam sua mente. Era isso que nos diziam sobre os comunistas, quando éramos crianças”, confessou o cineasta no livro Conversas, de Richard Schickel.

Na trama, o médico interpretado por Kevin McCarthy, é bombardeado com a notícia de que a pequena Santa Mira, Califórnia, cidade onde vive, sofre de uma espécie de delírio coletivo. Todo mundo que esbarra pela rua lhe confidencia que um parente ou amigo não é mais a mesma pessoa, mas possuída por uma espécie de persona maligna. “Aí é que está. Não é visível. Mas sei que não é ele porque não tem emoção”, tenta explicar uma jovem sobre o tio.

Logo uma discussão sobre paranoia e razão, realidade e delírio é deflagrada à sombra dessa estranha neurose coletiva, trazendo à tona, mesmo que de forma velada, os sufocantes fantasmas de um tempo. “Deve ser por causa dos problemas do mundo”, tenta explicar o médico, sem bem entender direito o que está acontecendo. “Talvez por causa das reações atômicas”, emenda, quando vislumbra uma ameaça alienígena.

Sim, uma ameaça que vem dos céus prometendo uniformizar as ideais, sentimentos e emoções de todos por meio de vagens gigantes. Basta dormir para a alma ser vampirizada e um clone surgir destituído de amor, ambição e fé. “Sem essas coisas a vida é tão simples,”, argumenta um dos alienígenas que clonou a alma de um dos moradores dessa pacata cidade desnorteada. “Quero amar e ser amada” desespera-se a romântica namorada desse médico-herói vivida por Dana Wynter.

A história, contada em flashback, prende a atenção do expectador do início ao fim e, apesar dos efeitos técnicos rudimentares, passa um clima sufocante de claustrofobia e medo diante da histeria ideológica reinante naqueles tempos de Guerra Fria. “Vocês serão os próximos”, diz desesperado o médico com a câmera em close em seu rosto transtornado. Alguém duvida?

* Este texto foi escrito ao som de: Bryter Layter (Nick Drake – 1970)

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Geração em Transe – Luiz Carlos Maciel

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O autor do livro, nos anos 50, na Bahia, sendo assediado durante as filmagens do segundo curta-metragem de Glauber Rocha

O magnetismo da figura do cineasta Glauber Rocha é algo contagiante. As ideais revolucionárias, o jeito passional com que ele lidava com as questões políticas e sociais do confuso Brasil do seu tempo, enfim, a convulsiva entrega à arte de fazer cinema. Todos esses elementos fizeram com que me apaixonasse de imediato pelo artista vulcânico e homem político que ele foi. Agora imagina para quem o conheceu e conviveu com ele?

O gaúcho Luiz Carlos Maciel foi um deles. Escritor, jornalista, diretor de teatro, roteirista de cinema e televisão e professor de filosofia, ele conta como foi essa experiência indelével no livro Geração em Transe – Memórias do Tempo do Tropicalismo, que desenterrei de minha estante mágica outro dia. Sou assim, quando fico deprimido me deixo perder em meus livros e quarto cheio de música e filmes.

A minha edição desse livro publicado em 1996 comprei num sebo do Rio de Janeiro e não sei por que levei tanto tempo para lê-lo. Como o subtítulo enfatiza, o autor correlaciona o surgimento do tropicalismo e sua importância cultural e política nos anos 60, a partir da explosão criativa de uma tríade infernal: o cineasta Glauber Rocha, o diretor de teatro José Celso Martinez e o cantor e compositor Caetano Veloso.

Geração em Transe penetra no universo desmistificador e dessacralizante da tropicália, mostrando-o para nós através de pequenos acontecimentos, notícias e discussões paralelas”, escreve Maciel na apresentação do livro.

A primeira parte da obra é dedicada ao cineasta baiano, que o autor conheceu quando foi fazer teatro em Salvador, nos anos 50. As histórias são cheias de revelações preciosas sobre o surgimento do Cinema Novo. Maciel, por exemplo, foi um dos atores do curta, A Cruz na Praça, no qual ele é alvo de flerte homossexual. À revelia do tema polêmico, o filme era mais um exercício de linguagem bem glauberiano a partir da caligrafia da câmera.

No livro Maciel revela que a carreira de escritor de João Ubaldo Ribeiro foi incentivada por Glauber Rocha e como o sucesso de público e crítica foi primordial para a construção de uma nova cultura ideológico no Brasil pré-Golpe de 64. Um pensamento cristalizado com o surgimento do filme Terra em Transe, seu trabalho mais perene. “Pode-se dizer que Terra em Transe foi a pedra fundamental para o movimento da tropicália, criando uma imagem metafórica, estilizada do país”, avalia o autor.

* Este texto foi escrito ao som de: The Madcap Laughs (Syd Barrett – 1970)

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O Samurai da Federal e a Musa Sublime

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Quando eu também desviei o foto da notícia e esqueci completamente do lenhador da Federal só para anestesiar meu coração…

Foi Guy Debord quem escreveu sobre a sociedade do Espetáculo. Acho que ele não aguentou tamanha mediocridade sobre o assunto circulando ao seu redor e se suicidou. Mas o “suicídio é o único problema filosófico realmente sério”, escreveu o existencialista Albert Camus. De modo que, falando sobre existência, eis o grande mal do nosso tempo: a exposição gratuita, barata e rasteira.

Hoje, qualquer um, mas qualquer um mesmo, um idiota qualquer, vira celebridade do dia para noite. Na manhã seguinte todo mundo já esqueceu quem era essa nova tendência do momento, mas tudo bem, eis o preço a pagar pelo efêmero gozo do sucesso. Ainda bem que meu plano de vida é me manter invisível ad eternum

Mas pegamos o exemplo esse Hipster da Federal que parece mais um personagem de filme do Kurosawa. Eis que ele surge escoltando o mestre dos malas, Eduardo Cunha, e bimba, vira estrela. De repente, o foco da notícia muda e o protagonista é ofuscado pelo personagem coadjuvante que insisto, parece ter saído de uma cena de Rashomon (1950) ou Os Sete Samurais (1954). Logo, o banal é destaque e o importante banalizado. “Cunha preso, e daí?!”.

Ontem vi uma entrevista com o sujeito e também mudei o foco do meu interesse. Não dei a mínima atenção para o cara, nem uma pelota sequer. Fiquei mais deslumbrado mesmo foi com quem fez a entrevista, minha eterna musa etérea de sorriso mágico que mais uma vez caiu de paraquedas em meu coração como se fosse um anjo da Renascença. Dentro de seu vestido Beach Boys Wild Honey ela era só doces sonhos selvagens bailando diante dos meus olhos.

Bem, agora todo mundo vai deixar a barba crescer e andar de coque por aí só pra parecer um lenhador nórdico, enfim, pegando carona nessa onda de cinismo e exposição que a mídia criou. Eu que não tenho cabelo, fico aqui petrificado na solidão inebriante dessa paixão que me consome dia e noite… Dizem que amor platônico mata, é fatal, pois é desse mal que quero morrer todos os dias…

* Este texto foi escrito ao som de: Wild Honey (Beach Boys – 1969)

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Woody Allen acerta em seu primeiro filme dramático radiografando o drama de uma família marcada pelo fantasma da separação…

Interiores (1978) é Woody Allen tentando ser Bergman e parecer tão bom  quanto o mestre. É o primeiro filme dramático do cineasta rumo ao amadurecimento cinematográfico tendo como ponto de partida a psicologia atormentada da natureza humana. É a história de uma família despedaçada com a notícia da separação dos pais. As irmãs Renata (Diane Keaton), Joey (Mary Beth Hurt) e Flyn (Kristin Griffith) não sabe lidar com a situação e a crise faz com que elas se duelam ao longo da trama expondo sentimentos como ciúme, vaidade, insegurança e medo.

“Não sei trabalhar com atividade política. Sou muito egoísta”, confessa Joey ao marido que a convida para trabalhar juntos. “Você sempre foi a artista da família”, admite Flyn, ridicularizando sua carreira de atriz para a irmã Renata, uma escritora consagrada.

O título do filme não é mera decoração nesse drama pungente. O interior das casas e apartamentos aqui surge como um personagem na trama, desvendando, com aparente organização de cada espaço, o caos que existe dentro de cada em cena. Uma mulher fragilizada dentro do seu drama pessoal, Eve (Geraldine Page), a esposa abandonada pelo marido, é uma decoradora que agora não consegue organizar a própria vida.

“Você e seus cômodos tão bem cuidados, não há espaço para sentimentos verdadeiros”, ironiza a filha.

Um observador atento e crítico irônico de seus pares e do lugar onde vive, Woody Allen tira sarro da elite nova-iorquina, segundo ele, um bando de ricos esnobes existencialistas egoístas. Ou seja, como desabafa um dos maridos dessas irmãs problemáticas que encarna um escritor em crise, um exemplo perfeito de forma sem conteúdo.

O final é exemplar e perturbador.

* Este texto foi escrito ao som de: A Tempestade (Legião Urbana – 1996)

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Uma vida cheia de som e fúria…

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“De repente, no meio da tarde, um beijo molhado com gosto de saudade matada”

A vida é cheia de som e fúria. Foi o que descobriu quando leu o seu primeiro Faulkner. Depois soube que se tratava de uma frase de Shakespeare, quando o bardo inglês ironizava sobre os contrastes da vida. Ou seja, beleza e escuridão. Felicidade e melancolia. Enfim, algo como borboletas líricas e um deus da carnificina bailando dentro de si. Tudo ao mesmo tempo.

De repente, no meio da tarde, um beijo molhado com gosto de saudade matada lhe fez tremer por dentro. Envolvido pelos braços cálidos e firmes dela, teve vontade de chorar, a alma quase derreteu de desejo. Enfeitiçado por seu cheiro de George Harrison’s Song, não conseguiu conter as lágrimas. Apesar da mágoa que guarda, ela ainda mexe com ele como se fosse aquela eterna musa renascentista de sua adolescência, seu amor platônico de sonhos distantes. A vontade que tinha era de descansar para sempre em seu corpo perfeito feito de carne e ternura. Mas o deve lhe chamava… Ignara opressão do sistema…

O príncipe do ridículo, com seu semblante de Maomé de quinta, é uma sombra em seu caminho. Ele não consegue enxergar a razão desse deslumbramento boboca dela diante do irrisório, banal e patusco. Num piscar de olhos, e lá foi ele descartado tal qual uma reles tampinha de refrigerante. Ela sempre faz isso, lhe troca pelo primeiro idiota que aparece em sua frente. “A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum”. Shakespeare novamente, agora sem filtro…

…Mesmo assim, ela é uma febre terçã em seu coração, mente e estômago… E o gosto molhado de seus beijos não lhe sai da cabeça, não quer tirar o cheiro do corpo dela que ficou impregnado no seu…

À noite, no conforto do seu lar reflete. Nada lhe dá mais prazer na vida do que o conforto aconchegante de seu quarto cheio de livros, músicas e filmes. Só faltou ela, com seu corpo transcendente cheio de sardas e pintas, curvas deliciosamente de malícia e encanto. Um sorriso de arco-íris irradiante na boca. Sim, a vida é mesmo cheia de som e fúria…

(Ela é a musa do nono andar. A que fica do outro lado da rua. Não sabe seu nome, não sabe o que ela faz, não sabe nada, apenas que ela deixou seu perfume impregnado em suas entranhas, em sua existência, na parede mais recôndita de sua memória como se sua vida dependência dessa essência, dessa fragrância).

…Os doentes e os mortos da sua mãe, a solidão sufocante e deprimente de seu pai, de repente, uma vida toda que poderia ter sido e que não foi… Só lhe resta, então, como afago, a deliciosa fantasia da presença de sua musa de curvas delirantes e sorriso mágico, a anestesiante playlist do seu spotify formidável, que lhe salva a alma todas as noites como um sagrado remédio… Convicto dessa certeza, ele dorme então abraçado com o rechonchudo ursinho Godard imaginado que é ela que esta ali, com a contagiante mentira de sua presença…

* Este texto foi escrito ao som de: The Gilded Palace of Sin & Burritos (The Flying Burritos Brothers – 1969)

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O Mestre dos Gênios (2016)

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No filme o charmoso ator inglês Colin Firth é o grande editor por trás de importantes escritores do início do século 20

Pensei que o filme era sobre Tom Wolfe, um dos fundadores do new Journalism. Nada a ver. O personagem em questão é Thomas Wolfe (1900 – 1938), romancista norte-americano do início do século 20, um dos pioneiros em misturar escrita poética e impressionista com elementos autobiográficos. Seu estilo influenciaria mais tarde, veja só, nomes como o gigante William Faulkner e os escritores da beat generation.

Mas O Mestre dos Gênios não fala sobre nada disso. Mostra a relação entre um escritor em começo de carreira e seu editor. No caso o norte-americano Max Perkins (Colin Firth) e Thomas Wolfe (Jude Law). E não apenas isso. Também fala da paixão sobre livros, do árduo, mas prazeroso exercício que é escrever, a magia das palavras. Tudo nas entrelinhas, às vezes subtendido, às vezes não. Fala também sobre o conflito interior que é parir uma obra de arte. No caso aqui um romance.

Uma das figuras lendárias do mercado editorial norte-americano à frente da editora Scribners, Max Perkins ficou famoso por descobrir e editar os trabalhos de lendas da literatura estadunidense como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e… Thomas Wolfe. Um autor original, mas rebelde, que escrevia mais do que devia, enquanto que o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade nos ensinou, entre outras coisas que, “escrever é cortar palavras”.

O papel de Max Perkins, com sua presença precisa e discreta, era lapidar esses talentos brutos, driblando o ego e vaidade de cada um, senha arranhar o estilo da escrita original. “O meu trabalho é fazer a sua obra algo atraente para o público”, ensina ao afobado Thomas Wolfe.

Mas é dessa premissa que paira uma dúvida deixada no ar pelo cineasta estreante Michael Grandage. Afinal, a interferência de Max Perkins ajudava ou interferia no estilo de cada escritor? Ou mais ainda. Seria ele o grande escritor por trás de nomes consagrados da literatura do início do século 20?

Diretor de teatro respeitado, Grandage intercala essa estreita relação entre editor e escritor – que o verdadeiro tema do filme e não a vida e obra de Thomas Wolfe – com os conflitos pessoais desses dois personagens centrais de O Mestre dos Mestres. É quando entra em cena a diva Nicole Kidman, na pele da possessiva e ciumenta designer, Aline Bernstein, mulher de Tom Wolfe. A quem diga que o filme aborda o tema proposto de forma rasa. Bobagem. Norteado por atuações poderosas, e roteiro sensível, dentro do recorte que propôs contar.

* Este texto foi escrito ao som de: Bend Sinister (The Fall – 1986)

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Andando em círculos…

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“Andando em círculo/Meio angustiado/Meio mito de Sísifo/Torto, triste e errado”

Andando em círculos

Pisando no próprio rabo

Não vejo saída por aqui,

Um demônio de cada lado…

 

Burgueses hipócritas

Infestam meu ar…

Comem meu fígado,

Não consigo respirar!

 

Gosto de naftalina na boca

Meu braço esquerdo dói

Sentindo o corpo dormente

O câncer da dor me corrói,

 

Cercado por idiotas

E eu um mero disfarce

Tentando sobreviver

Com essa cara de alface

 

Por favor, alguém me salva?

É só me tirar daqui

Nem que seja de mentira

Pra eu voltar a sorrir…

 

A humilhação do ego

Asfixia da alma

Esqueça, não adianta,

Nada me acalma…

 

O príncipe do ridículo reina

É um oráculo da mediocridade

Exibindo sua nudez suja e tosca

Só pra lustrar sua vaidade

 

Então, boneca, cuidado!

Você pode se machucar

Ouro brilha, mas ofusca,

Essa luz não vai te salvar…

 

Não gargalhe tão alto

O tombo pode ser fatal

Não se deslumbre fácil

Não seja tola e banal

 

Highway’ suicide baby

Cheiro de pinche na estrada

Alcohol’s blues 120Km/h

E um dia não sobra nada

 

Sim, aqui nesse buraco,

Infelicidade é meu nome

Enquanto você finge

A tristeza me consome

 

Há uma bússola tonta

Perdida em meu peito

Andando em círculo

Totalmente sem jeito

 

O circo está na cidade

E o palhaço sou eu

Então não me sufoca

Síndrome de Judeu

 

Andando em círculo

Sem pra onde ir

Mordendo o rabo

Alguém me tira daqui

 

Ela me faz querer desaparecer

Ela me faz sentir invisível

Tenho vontade de morrer

E sou tão imprevisível…

 

Baby, baby me tire daqui,

Deste círculo vil e vicioso

Só pra eu sentir real

Pra não gritar socorro…

 

Andando em círculo

Meio angustiado

Com o mito de Sísifo

Torto, triste e errado…

Este texto foi escrito ao som de: Highway 61 Revisited (Bob Dylan – 1966)

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Terra Estranha (2015)   

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Nesse drama familiar rodado no deserto australiano Nicole Kidman é uma mãe desesperada em busca dos filhos 

Primeiramente… Como a Nicole Kidman é linda, Jesus Cristo! Linda demais. Juro, eu daria a vida inteira só pra mergulhar nas sardas delas. Mas, dito isso, vamos ao que interessa, ou seja, o suspense Terra Estranha, no qual ela é protagonista. Trata-se de uma produção de sua terra natal, a Austrália. Na trama, ela vive uma mãe desesperada atrás dos filhos desaparecidos. Nas entrelinhas, segredos e omissões em torno do fantasma da pedofilia e muita tensão em torno de um casal bem estranho numa terra mais estranha ainda.

Eles sãos Catherine (Nicole) e Mathew (Joseph Fiennes), que parecem o tempo todo esconder alguma coisa do espectador nesse pequeno lugarejo com jeitão de cidade de faroeste. E estão. Daí a origem da crise familiar envolvendo os filhos Lily (Maddison Brown) e Tom (Nicholas Hamilton). Lá, nesse lugar no meio do nada as pessoas são provincianas e todo mundo sabe da vida de todo mundo.

“Cada suspiro que eles dão é um suspiro sem os filhos”, diz o investigador de polícia vivido por Hugo Weaving.

Tom, o caçula, é meio lunático e às vezes some no meio da noite na desolação do deserto australiano. Ela, uma Lolita deliciosa pervertida que traz no currículo, entre outras peripécias, ter causado um inferno astral na vida de um professor, de um jovem aborígine, um skatista. A garota é mesmo infernal.

“Às vezes você é um babaca, pai”, se rebela ela, numa autêntica crise teenage.

Tenso e dramático, “Terra Estranha” é conduzido por boas atuações. Destaque não para Nicole Kidman, um tanto quanto over, mas para Hugo Weaving, aqui na pele dessa autoridade também perturbado pela natureza rude e estranha do lugar. O desfecho pega o espectador de surpresa. Afinal, a guria fugiu, foi assassinada… ???.

* Este texto foi escrito ao som de: The World Won’t Listen (The Smith – 1987)

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Fim – Fernanda Torres

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No seu livro de estreia a atriz Fernanda Torres se mostra uma escritora inteligente e sensível a trazer uma reflexão pessimista, mas divertidamente lúcida sobre a velhice….

A morte… Eis aí a única certeza que temos na vida. Mas até lá, infelizmente, vamos enfrentar, pelo caminho, o peso ingrato da velhice, essa quimera insana que baila, irremediavelmente, em nosso destino. “Que a terra lhe seja leve, já que a vida foi pesada”, já dizia, se não me falha a memória, Machado de Assis. E se não for o Bruxo do Cosme Velho, whatever…

…Enfim, no ótimo romance de estreia da atriz Fernanda Torres, Fim, tanto o sentimento amargo de finitude, quanto o da velhice, surgem como reflexão sarcástica da vida. São trajetórias marcadas por excessos e certa nostalgia confrontada com a decadência do corpo e a demência da mente. “Não notei a velhice chegar. É traiçoeira, a danada”, diz Ribeiro, um dos cinco personagens masculinos do livro que norteiam a trama engenhosa da autora estreante.

Os outros quatro são Sílvio, Neto, Ciro e Álvaro, este último, a primeira persona que nasceu da imaginação da autora depois de uma encomenda do diretor Fernando Meirelles para um projeto televisivo que não vingou. Mas, empolgado com a escrita irônica, incisiva e de um pessimismo lúcido de Fernanda Torres, o diretor de Cidade de Deus resolveu mostrar o que leu para o editor da Companhia das Letras e o resultado é esse livro inteligentemente instigante.

Instigante por conta da ousada estrutura narrativa do livro que entrelaça, por meio do fluxo de consciência dos personagens – do berço até a morte -, várias histórias que podem ser contadas a partir de perspectivas diferentes. Ou seja, a mesma situação narrada de outros pontos de vistas. Isso porque elas não surgem apenas através dos cincos protagonistas em questão, mas por figuras que fazem parte da órbita deles. Um vai puxado o outro.

Então, são esposas emputecidas, filhos negligentes, amantes loucas, enfim, tem de tudo. Todos, tipos cariocas oriundos dessa fauna chamada Copacabana, que parece ser a síntese do que há de mais degradante, divertido e estranho da relação e comportamento humano. “Considerada paga a dívida moral com a cria, não iria ao enterro nem morta. Tinha o direito de retornar ao paraíso de sua solidão”, diz o narrador sobre Irene, a esposa magoada de Álvaro.

O humor cáustico, pessimista, mas filosoficamente realista de Fernanda Torres é contagiante. Tem influências dos personagens cômicos que a atriz interpretou no cinema, teatro e televisão, mas também ressonâncias da escrita de grandes observadores da natureza humana como Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e o mais nítido deles, Rubem Fonseca. Impressionante a veracidade e paixão com que ela dá vida aos dramas dos personagens masculinos.

Lendo essas histórias cheias de dramas cômicos, parece que estarmos rindo, o tempo todo, de nossa própria desgraça iminente que é a velhice. Um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

* Este texto foi escrito ao som de: Porcupine (Echo & the Bunnymen – 1983)

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Meu Rei (2015)

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O francês Vincent Cassel em cena desse drama visceral sobre relação afetiva. Para quem acha que casamento é um passeio na Disney…

Depois que você sai da sessão do drama francês “Meu Rei”, a certeza que tem é que, entrar numa relação afetivo-amorosa, digamos, séria, é um tanto quanto uma roubada, um tiro no escuro, algo suicida. Ou seja, casamento, por exemplo, é uma furada formidável. Uma bobagem ululante irreversível que, quando vemos, já estamos metidos. Vejamos…

…Georgio (Vincent Cassel, um sundae em cena) é um “adolescente crescido quase 50nquentão” egoísta e narcisista de pirulito na boca que manipula os sentimentos das pessoas – sobretudo o das mulheres -, com seu charme irresistível manipulador. Tony (Emmanuelle Bercot) é uma mulher com nome de homem que cai nos seus encantos e a história do filme é essa visceral relação entre os dois num casamento de uma década que parece ter mais…

“Não nos conhecemos de verdade”, lamenta a esposa, depois de saber que ele é infiel e um junk que perdeu o controle. “Sou o marido que não falha, segura as pontas”, diz ele, tentando justificar sua fraqueza.

Tudo, evidentemente, começa como um conto de fadas, ele é o macho irresistível e imprevisível que fascina e surpreende. Ela a femme que se deslumbra e se deixa levar pelo o que ela acha que é “novidade”. “Posso deixar meu celular com você?”, pergunta ele, esbanjando charme irresistível, jogando seu fone para ela como se estivesse numa propaganda.

Drama dilacerante com narrativa construída dentro de duas tramas paralelas – às vezes excessivamente piegas e sufocante -, “Meu Rei” até pega o espectador de surpresa. Apresenta aqui e ali, as agruras sufocantes de uma relação sentimental conturbada, deixando transparecer, nas entrelinhas, questões como individualismo, ausência, irresponsabilidade, vício  de personagens fragilizados.

“Não sou alguém que você conheceu na biblioteca”, reclama ele, talvez sufocado por velado complexo de inferioridade diante da experiência acadêmica dela. “O problema não sou eu e você, mas vivermos juntos”, reflete a protagonista da fita, lúcida diante do caos dessa relação.

Sexo selvagem na cozinha de um restaurante, diálogos insólitos sobre vagina, um Louis Garrell coadjuvante quase roubando a cena com seu personagem cáustico… Enfim, surpreendente essa diretora com nome de artista nórdico: Maïwenn.

Depois do filme, não sei se terei pique pra encarar as pseudo relações afetivas que ando enfrentando… Algumas experiências culturais atrapalham mais do que ajudam… Bem, não sei se me fiz entender…

* Este texto foi escrito ao som de: Candleland (Ian McClloch – 1989)

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