Billy Wilder: Cruel como ume espelho!

Kirk Douglas na pele do inescrupuloso jornalista Charles "Chuck" Tatum

Se você é jornalista e nunca viu o filme A montanha dos sete abutres, de Billy Wilder, das duas uma: ou vive no mundo da Lua como um autêntico autista ou não é jornalista coisa alguma. Corre o risco de ser as duas coisas. Tive oportunidade de conhecer essa obra-prima do cinema, releitura inebriante sobre as verdades e mentiras do jornalismo na faculdade, nos restos mortais de uma fita VHS caindo aos pedaços.

Dirigido em 1951 por um dos diretores mais brilhantes cineastas de todos os tempos, essa marcante obra do cinema norte-americano, que finalmente saiu em DVD no Brasil por meio de uma iniciativa louvável da Livraria Cultura, é daqueles trabalhos que tem um peso considerável na história da sétima arte como Cidadão Kane, de Orson Welles, ou Assim caminha a humanidade, de George Stevens.

Woody Allen, que entende muito bem do assunto, revelou numa entrevista em 1992 que considera o noir Pacto de sangue não só o melhor trabalhado de Wilder, mas um dos melhores filmes já realizado até então, mas admite que A montanha dos sete abutres vigore entre as obras mais impactantes que viu nas telonas. Só não sabia dizer por que esse projeto sensacional ainda seja tão desconhecido nos Estados Unidos. E por que, afinal, A montanha dos sete abutres é um ilustre desconhecido na América?

E por um motivo muito simples. Ninguém vai se olhar no espelho e dizer que é feio e desajeitado. Ou até mesmo que é um grande canalha. E Billy Wilder, com seu cinismo perturbador costumava ser cruel como um espelho em suas histórias. Sim, porque além de diretor talentoso, produtor ousado, Billy Wilder era também um roteirista sagaz. De modo que, se algum dia você quiser escrever para o cinema, comece a lição vendo todos os filmes de Billy Wilder.

Bem, realizado no auge da carreira desse diretor que nasceu na Áustria, em 1906, mas foi embora para os Estados Unidos fugido do fantasma do nazismo nos anos 30, A montanha dos sete abutres foi o único projeto de Wilder que não se pagou, sendo não apenas um fracasso total, mas quase o aniquilando entre os seus pares.

Antes, ele fizera a glória e adquira o respeito da comunidade hollywoodiana com trabalhos memoráveis como o já citado Pacto de sangue e o descarado Crepúsculo dos deuses, um desconfortável exercício de metalinguagem de 1950 em que, com toda a desfaçatez que era peculiar, tira um sarro das vaidades, veleidades, exageros e excessos daquelas obscuras criaturas que vivem à sombra da Meca do cinema.

Crepúsculo dos deuses, apesar de ser uma afronta a todos aqueles que davam seu sangue pelo cinema em Hollywood, foi ovacionado unanimemente por seus colegas e, motivado pelo sucesso da obra, o velho Billy começou a se debruçar sobre um de seus trabalhos mais devastadores.

Baseado num episódio real que acontecera no Kentucky, em 1925, A montanha dos sete abutres gira em torno da figura nefasta de Charles “Chuck” Tatum (Kirk Douglas). Um dia ele fora um jornalista de sucesso em jornais de renome em Chicago, Los Angeles e Nova York, mas hoje vive em decadência numa pequena redação de Albuquerque, provinciana cidade do Novo México. Vaidoso, esnobe, mas com um talento infalível para criar histórias, se vê obrigado a cobrir pautas cretinas como um campeonato de caça a cascavéis, enquanto sonha com seu comeback debruçado em cima da máquina de escrever. “Sou um jornalista de mil dólares por dia!”, gaba-se.

Um dia, a sorte lhe sorrir quando descobre que um morador local está soterrado numa caverna no meio do nada, dentro da tal montanha do título em português, um lugar amaldiçoada por fantasmas indígenas e devassidão ululante.

Com a cumplicidade de um Xerife corrupto e da mulher do pobre diabo preso nesse buraco, uma autêntica pistoleira, Tatum orquestra um big carnival (um dos títulos originais do filme) em torno do episódio, retardando como pode sua retirada do local, só para vender mais jornais e se promover profissionalmente. “Notícias ruins vendem mais que notícias boas”, ensina ele ao jovem jornalista que o acompanha. “Escrevo o que as pessoas gostam de ler”, emenda.

Num piscar de olhos, da noite para o dia, uma turba de curiosos começa a chegar de várias partes do país, motivada pelas matérias de Tatum. Eles querem ver in loco a grande tragédia que abala a América e, assim, com a espontaneidade de um feixe de luz, um grande circo da mídia nasce sob o escaldante Sol do Novo México. “É certamente um filme sobre o jornalismo sensacionalista. Mas é mais ainda um filme sobre o público que torna possível o jornalismo sensacionalista”, explicaria anos mais tarde Wilder.

E ele tinha razão. À frente de seu tempo, Wilder desenvolve aqui um intricado ensaio sobre a sordidez humana, onde elementos inerentes ao nosso caráter como o egoísmo, o sadismo, a vaidade e, sobretudo, a ganância, dão o tom de uma narrativa absurdamente desconcertante e amoral. É só prestar atenção, todos no filme competem entre si, quando o assunto é a falta de escrúpulos.  “Eu não costumo rezar, meu caro. Ajoelhar rasga as minhas meias”, avisa Jan Sterling, a mulher do soterrado Leo. “Há três pessoas enterradas aqui: Leo, eu e você. Todos querem sair e vamos conseguir, mas eu sairei em grande estilo”, devolve Tatum, metaforizando a situação de todos, nesse drama pungente.

Ninguém quer vê a si mesmo como um canalha. E foi o que Billy Wilder fez, imbecilizando o sadismo humano com seu espelho da verdade em A montanha dos sete abutres. Quando ele queria, sabia ser cruel como um espelho.

* Este texto foi escrito ao som de: Time out (The Dave Brubeck Quartet – 1959)

Aforismos do Bruxo do Cosme Velho

“A verdade fala pela boca dos pequeneninos”, mais uma do velho Machado

Entrei num sebinho da Asa Norte e lá estava ele olhando para mim. Na esperança que eu o comprasse logo. De tão pequeno, quase tropeço na figura, mas seu tamanho diminuto de edição de bolso era só um estado físico, porque sua importância dentro da nossa literatura é tamanha que ele, num passe de mágica, se torna um gigante das palavras.

Editado por uma obscura editora de Ribeirão Preto, Migalhas de Machado de Assis reúne uma coletânea de aforismos de nosso escritor maior, o eterno Bruxo do Cosme Velho. A façanha parece ser fruto da vaidade do advogado Miguel Matos, que teve o trabalho de chafurdar no universo machadiano à cata de frase preciosas do autor de Dom Casmurro e Memórias póstumas de Brás Cuba.

Não é de hoje que coleciono citações de escritores, artistas, políticos, enfim, personalidades do mundo inteiro e de todos os tempos. Sempre gostei de citações e sempre a uso em meus textos. No meu tempo de estudante primário costumava encher cadernos e mais cadernos de frases feitas e decorei milhares. “A loucura é a uma dança das ideias”, já dizia o velho Machado de Assis.

O livro editado por Miguel Matos não é novidade. Digo, não é a primeira vez que alguém edita os pensamentos, ideias e frases de algum escritor. Em A flor da obsessão o mestre Ruy Castro, por exemplo, teve o cuidado de catalogar, por temas, frases, aforismos e observações contundentes de outro gigante da nossa literatura, o escritor, jornalista, cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues, que no ano será reverenciado pelo centenário de nascimento.

Irônico e observador contundente da alma humana, sobretudo, de seu tempo, Machado de Assis soube como poucos, sintetizar os acontecimentos morais e amorais que o cercava. Saborosos, seus aforismos têm a relevância de uma passagem bíblica, o peso filosófico de um profeta milenar, secular. Quer ver?

“Quem nunca invejou, não sabe o que é padecer” ou ainda: “Haverá pior coisa do que mesclar o ódio às opiniões?”. E tem mais: “Os adjetivos passam, os substantivos ficam” e “A vantagem dos míopes é enxergar onde as grandes vistas não pegam”. Com uma pena na ficção e outra na verdade cunhou: “A realidade é o luto do mundo, o sonho é a gala”.

Que delícia essas migalhas machadianas, não é verdade?

“Digam o que quiserem, o homem gosta dos grandes crimes”.

Sou feliz por causa do meu nariz…

Depois de viver o roqueiro Renato Russo nos palcos, Bruce Gomlevsky (esq.) encarna agora o apaixonado espadachim Cyrano de Bergerac

Tenho um nariz grande. Abundantemente grande! Mas isso não é problema. Mas um dia já foi. Não por vaidade, mas por complexo de feiúra mesmo. Hoje tiro de letra essa questão. Pior seria se eu não tivesse um braço, uma perna, ou mesmo um nariz. Sei que essa observação é um clichê hediondo, vagabundo, mas é a mais pura, crassa e cretina verdade. Minha afilhada um dia viu numa revista uma indiana sem nariz, vítima de violência doméstica, e ficou chocada. Eu também. De modo que amo meu nariz. E olha que dizem por aí que as mulheres até gostam de homem com nariz grande por quem tem certo charme francês. Não se isso é verdade, mas prefiro acreditar que seja.

Cyrano de Bergerac também tinha um nariz enorme, era motivo de chacota entre amigos e estranhos, achava que essa “aberração” física até fosse empecilho para se declarar ao seu amor platônico, mas descobriu que a beleza interior era mais forte. Tudo bem, isso também é um clichê hediondo, mas como dizia o velho Billy Wilder, citado no post passado, ninguém é perfeito! E tem mais, conheço pessoas que têm uma beleza física perfeita, mas que são de uma pobreza de espírito ululante. De modo que continuo preferindo o meu nariz avantajado. Enfim, sou feliz, por causa do meu nariz.

Personagem criado pelo poeta e dramaturgo francês Edmond Rostand (1868 – 1918), Cyrano é a metáfora perfeita diante dessa ditadura da beleza nojenta que impera, já faz algum tempo, em nossa atual sociedade moderna. E dizem que é a “atual sociedade moderna”, hahahaha, fazer o quê!!!

A obra, baseada num personagem real que o autor Rostand conheceu, também fala dessa coisa da sinceridade dos sentimentos. E nisso eu acredito. Daí o meu sofrimento secular.

Bem, semana que vem, a partir do dia 04 de agosto, uma montagem baseada na obra de Rostand desembarca no CCBB de Brasília. Eu ainda não vi a obra, mas fosse você já comprava um ingresso porque a peça conta com a produção do ator Bruce Gomlevsky, que encarna o personagem do título. Gomlevsky você conhece, sabe quem é, é o talentosíssimo artista que levou mais de 200 mil pessoas às salas de teatro em todo país para ver sua interpretação sobre as passagens mais marcantes do ídolo Renato Russo.

Já nessa trama romântica, que estou acabando de ler numa edição de luxo, com capa dura que comprei num sebo, Cyrano de Bergerac ama Roxane que ama Cristiano, que acha que ama Roxane. Mas Cristiano, com toda sua beleza apolínea, é incapaz de expressar seu amor à bela Roxane. E quem ele pede ajuda? Ao lírico espadachim Cyrano de Bergerac, que nutre um amor as escondida, não correspondido por essa deusa clássica. Daí, entre o cômico e o trágico, esse curioso triângulo amoroso chegue entre atrapalhadas, rumo a desfecho surpreendente.

O livro é chato porque o autor, seguindo a cartilha da época, resolveu escrever a história toda em verso, o que cansa um pouco se você é preguiçoso ou não tem muito tempo para se concentrar. Confesso que estou achando a leitura um pouco maçante, mas não entediante.

Espero que a peça seja leve, descontraída como as adaptações para o cinema. Uma encarnada por Steve Martin, numa versão moderna, em que ele vive um Bergerac bombeiro e outra clássica, com o brilhante Gérard Depardieu. De qualquer forma, não existe teatro ruim. Pode ser chato ou divertido, mas não ruim.

* Este texto foi escrito ao som de: The greatest songs of the fifties (Barry Manilow – 1996)

Discoteca Básica (24) – Pérola negra

Com Pérola negra, Melodia escreveu, definitivamente, seu nome na MPB

Lembrei dessa história outro dia entre novos amigos. Fui cobrir o Festival de Cinema de Atibaia, o famoso balneário paulista e dei uma paradinha em Sampa para conhecer a desvairada paulicéia. Opa, a Paulicéia desvairada que, até então, eu não conhecia. Isso já faz um bom tempo. E lá fui eu descendo a Augusta, me achando o Eduardo Araújo, e me perdi nos sebos da cidade. Bem, já disse isso em algum lugar, talvez aqui mesmo e repito de boca cheia: um dia quem sabe, quando eu morrer (se eu morrer) não quero ir para o céu, nem para o inferno. Mas para um sebo, pois numa dessas casas de livros usados, aboletados de fantasmas do passado, vou poder ler todos os livros que eu sei, não vou conseguir devorar em vida.

Mas eis que numa loja, e não foi num sebo, compro o CD de Pérola negra, de Luiz Melodia, talvez uma das obras mais primorosas, originais e viscerais da MPB. E sem ouvir essa raridade, sigo para o evento já sabendo que terá um show de abertura da mostra.

Eis que uma manhã passo pelo hall do hotel e quem está lá: LUIZ MELODIA! Em carne e osso, pois era ele a grande atração daquela noite de abertura. De modo que caio das nuvens, mas sem me machucar, levanto desse estado de deslumbramento e peço um autógrafo. Não sou de fazer essas coisas, mas naquele momento não resistir. Acho que fiz isso, digo, pedi autógrafos, uma ou duas vezes. Que eu me lembro com o Fernando Morais e com o Luiz Melodia!

Gravado em 1970, Pérola negra é um sundae musical. Já causa impacto no título imagético, lírico e com capa de vanguarda, com o artista, bem ao estilo de Marcel Duchamp, faz pose de cantor e compositor moderno dentro de uma banheira com decoração abstrata. Ao redor, grãos e mais grãos de feijão preto, como que enfatizando para o ouvinte, a grande feijoada musical que é essa obra-prima da nossa MPB.

Samba tradicional exaltando o querido Estácio, forró malemolente, bolero debochado, uma mistura inventiva e inusitada de MPB, blues e rock, Pérola negra desperta atenção pelas letras diretas, passionais e de uma poética perturbadora. Letras concretistas, niilistas, abundantemente intimistas. Agora sabemos de qual fonte Seu Jorge bebe. “Quem sou eu/Sou um morto que viveu/Corpo humano que venceu/Ninguém morreu/Ninguém morreu…”, canta em Absolutamente morte, Melodia, com um sobrenome feliz, que faz jus ao seu talento.

Na contundente Vale quanto pesa, vomita na cara da amada o sadismo de uma relação convulsiva. “Quanto você ganha pra me enganar?/Quanto você paga pra me ver sofrer?/E quanto você força pra me derreter?/Sou forte feito cobra coral/Semente brota em qualquer lugar/Um velho novo cartão postal”. “Se alguém quer me matar-me de amor/Que me mate no Estácio/Bem no compasso, bem junto ao passo/Do passista da escola de samba/Do Largo do Estácio”, implora em Estácio, Holly Estácio.

Gosto da sinceridade decadente de Farrapo humano, título que provavelmente o artista roubou do clássico de Billy Wilder. “Eu choro tanto me escondo e não digo/Viro um farrapo tento suicídio/Com caco de telha/Com caco de vidro”, desabafa.

Aquela noite, em Atibaia, o show foi inesquecível e este disco do Melodia eternamente um signo em meu peito.

 * Este texto foi escrito ao som de: Pérola negra (Luiz Melodia – 1970)

Um pouco de metalinguagem… E sacarina…

Metalinguagem é quando recorremos à uma linguagem para falar dela própria, certo?

Em Separações, Domingos Oliveira é Cabral, um intelectual existencialista em crise no casamento que rebola como pode para sobreviver, cavando projetos culturais à sombra das influências de seus ídolos. Dostoievski, Rimbaud, Woody Allen, Ingmar Bergman, o teatro niilista de Beckett… A lista é extensa. Ele ama a mulher, mas a relação anda insustentável, sufocante, mesmo assim não abre mão do grande amor de sua vida e, desesperado, a ponto de fazer uma bobagem, num torpor convulsivo, dispara. “Vou transformar meu sofrimento numa obra-prima, numa obra-prima!”, grita.

Pois bem, o blog que você lê agora, evidentemente, não é uma obra-prima, mas nasceu da necessidade de filtrar o sofrimento de um amor não correspondido, de um amor negligenciado e você sabe: os amores não correspondidos, negligenciados dão CÂNCER! Não foi Euclides da Cunha quem disse que: “Ou evoluímos ou desapareceremos?!”. Então, ou eu externava, filtrava minha angústia, meu sofrimento aqui, nesse diário existencialista ou enlouquecia. Meus sentimentos, dormentes me matariam.

Hoje o blog luciointhesky completa um ano de vida e, ao logo desses 365 dias, muitas histórias, episódios engraçados, irreverentes, trágicos aconteceram ao sabor de declarações sinceras que rolaram nessa página virtual, válvula de escape de um amor insano, “crônicas de um amor louco”, já citando o velho Bukowski ou na sentença melancólica do velho poeta modernista Manuel Bandeira de: “Uma vida inteira que poderia ser… E que não foi… não foi”. Meu desejo é que um dia essa frase de uma tristeza siberiana seja usada em minha epígrafe.

Entrevista para estudantes da USP, porta de entrada para empregos, espécie de portal de serviço social, diário afetivo, agenda cultural, muro das lamentações, desabafos on line, outdoor de sacanagem, de tudo um pouco já rolou aqui. Firmei o compromisso de, dentro das atribulações, da correria do dia-a-dia, postar pelo menos um texto por dia e tenho mantido minha palavras, embora ela não vale um botão de rosa, uma moeda de 10 cents.

Até hoje, em um ano de existência, mais de 34 mil pessoas já acessaram as páginas desse espaço que tem no nome, uma brincadeira com uma das minhas grandes paixões, os Beatles. Porque é aquela história. Se você conhece alguém que não goste do fab four, das duas uma: ou ele é uma má pessoa ou nunca ouviu falar do quarteto de Liverpool.

Espero que daqui a um ano mais 34 mil pessoas acessem novamente as páginas de luciointhesky. Seja googando, acesso por interesse próprio ou mera curiosidade. O que vale são as trocas emotivas, afetivas e existenciais. Por quem me conhece já sabe, desenvolvo um estilo de vida que não precise, necessariamente, da minha existência.

* Este texto foi escrito ao som de: Ágætis byrjun. (Sigur Rós – 1999)

Exposição Titanic é para elite brasiliense

Titanic o filme é uma droga, a exposição no Park Shopping cara para dedel…

Não sei se você já viu, mas tem uma tenda enorme no estacionamento do Park Shopping e não é o Cirque du Soleil. Na verdade, não é circo nenhum. É da Exposição Titanic, com relíquias e restos do navio mais famoso do mundo resgatados do fundo do mar. Aquele que naufragou no início do século passado e foi imortalizado no cinema por James Cameron.

Bem, vi o filme e odiei. E, se não fosse outros trabalhos de Leonardo DiCaprio, também teria odiado o bonitão de olhos azuis até hoje. Já James Cameron não tem jeito, não. Ódio profundo até o final dos tempos. Leonardo para mim só o Da Vinci, que, aliás, teve uma exposição muito bacana no Brasil e de graça. Mas comparar Leonardo Da Vinci com o Titanic é a mesma coisa que comparar Os Beatles com a Lady Gaga. Ou seja, um sacrilégio hediondo.

Mesmo assim, botei minha melhor gravata e lá fui eu com essa cara-de-pau que Deus me deu para ver a exposição. Acontece que, para se deslumbrar com o que sobrou do maior navio para passageiro já construído até hoje na face da Terra é preciso desembolsar R$ 40 pilas. Mas se você tiver uma carteirinha falsificada de estudante pode pagar só a metade.

Como não tenho carteirinha e nenhum dinheiro no bolso, fiquei, literalmente, a ver navios. Sim, porque não pago R$ 40 mangos para ver essa exposição nem aqui, nem na China. Muito menos ali no estacionamento do Park Shopping. Onde já se viu uma coisa dessas.

A história conta que só viajou no Titanic que afundou em 1912, quem era da alta sociedade europeia ou os riquinhos da esnobe sociedade norte-americana. A elite meu caro, os burgueses ululantes. E a história na mudou muito não porque só vai ver essa exposição no Park Shopping a esnobe elite brasiliense, aqueles riquinhos babacas e arrogantes que gostam de arrotar cultura e civilidade intelectual só paraexibir suas fortunas ilícitas.

Mas um motivo para odiar o filme que é um melodrama ridículo. Ou seja, já não gostava da faraônica produção hollywoodiana do James Cameron e odeio a exposição que nem vi. Mas sabe o que me deixa mais fulo da vida, babando na gravata. É saber que Titanic de James Cameron tem o mesmo número de Oscars do que Ben-Hur, um dos melhores épicos já realizados até hoje. Ao todo, são 22 estatuetas, 11 estatuetas para cada lado.

Toda vez que me lembro disso, tenho vontade de naufragar como esse colosso do mar. Junto com os R$ 40 que não gastaria para ver a exposição.

Caps. 25 e 26 Bowie sente as mortes de Mercury e Ronson

Bowie (seg. esquerda), na pele de Andy Warhol: "Ele usava a peruca do Andy", debocharia Hopper (à direita)

Depois de gravar Let’s dance, em 1983, pela primeira vez em sua carreira David Bowie estava correndo na contramão, nitidamente atrás de seu tempo. Sufocado pelo Indie rock e pelo Hip Hop, agora o outrora astro do glam rock lutava por um lugar ao Sol, onde pudesse botar novamente sua carreira de grande pop star de volta nos trilhos.

Naqueles anos, enquanto via o Guns ‘N’ Roses pegar fogo nos palcos do mundo inteiro, o artista recordava do tempo em que dava uns “amassos” na mãe do guitarrista Slash, quando ela tomava conta do figurino do filme O homem que caiu na Terra, produção da qual ele era protagonista. Talvez até achasse que o segundo homem do Guns fosse seu filho.

Foi mais ou menos nessa época que, por meio de nova parceria, nos moldes da que mantinha com o produtor Tony Visconti e com os guitarristas Mick Ronson e Carlos Alomar, iria dá um novo sentido em sua vida artística. A bola da vez agora seria o turco Erdal Kizilcay. Juntos, realizariam dois álbuns: Tonight (84), Never let me down (87).

Na época, ignorados, hoje esses dois registros são respeitados pela crítica por uma série de fatores. “Não quero ser um desses escritores de rock sempre do contra só porque isso é prazeroso, mas tendo a concordar com a teoria número dois”, ironiza o escritor e crítico musical Marc Spitz, autor da biografia Bowie. “Se eu quisesse ir nessa linha negativa, certamente tentaria convencer você que Tonight e Never let me down foram subestimados”, opina.

Após o término da turnê Never let me down, uma nova tragédia abateria a comunidade do rock, com a morte do cantor e compositor Freddie Mercury, vítima de AIDS. Grande amigo do líder do Queen, banda com a qual gravaria em 1981 o hit Under pressure, Bowie sentiria o baque. Mas marcaria presença numa grande homenagem em Londres, se reunindo com amigos como Mick Ronson e Ian Hunter, do Mott the Hoople. “Essa homenagem é para nosso grande amigo Freddie Mercury”, anunciaria no palco.

Mas apesar do luto, Bowie arrumou tempo para alegrar o coração e terminou a década de 80 ao lado da supermodelo somaliana Iman. Numa entrevista em 1992, o ídolo do rock purpurina explica como conheceu o amor da sua vida: “Eu a vi umas três ou quatro vezes em eventos diferentes. (…) Na época havíamos saídos de relacionamentos recentes, da minha parte, senti a necessidade de outras relações permanentes”, recorda.

Foi com esse tom cor-de-rosa em sua vida que em 1992 entraria no estúdio para gravar Black tie white noise. “É um trabalho histórico por também reunir Bowie com Mick Ronson, talvez, não sei maior guitarrista, porque rivaliza com Alomar e Gabrels, mas certamente o favorito em termos sentimentais”, destaca o biógrafo Marc Spitz. Doente, por conta de um câncer no fígado, esse reencontro com Ronson teria sabor de despedida. O artista morreria poucos dias depois do lançamento do álbum do amigo.

Baseado num livro de Hanif Kureishi, amigo de Bowie na infância, The Buddha of Suburbia ganhou minissérie na prestigiada rede de televisão britânica BBC, em 1993, e trilha sonora do camaleão do rock. O trabalho serviria para o artista entrar no estúdio novamente, agora para registrar Outside, uma de suas obras mais artísticas em anos.

Logo em seguida, encarnou o artista plástico Andy Warhol na cinebiografia sobre Jean-Michel Basquiat. “David estava usando a peruca de Andy”, brincaria, assustado, o colega de elenco Dennis Hopper. “Ele foi um grande ator. Ótimo para se trabalhar”, elogiaria o ator, morto recentemente.

* Este texto foi escrito ao som de: Sheer heart attack (Queen -1973)

27 anos é uma idade maldita

Estrela pop contemporânea, Amy Winehouse foi embora cedo demais...

Desperto de uma soneca depois do almoço e meu irmão me fulmina com a pergunta soturna à queima-roupa:

 – Você viu quem morreu?!

Prendi a respiração e respondi curioso, mas um pouco agoniado:

– Não, quem?!

– A Amy…

– Que Amy?!

– A Winehouse…

– Ah… Mesmo?!

Poucos minutos a ficha caiu. De tão absurda e inesperada, a notícia chega a ser inacreditável, surreal. Meu Deus, ela só tinha 27 anos, a mesma idade que morreu ídolos meus e de uma legião de fãs comoBrian Jones, Jim Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin. Daí a conclusão nefasta: vinte e sete anos é uma idade maldita para os artistas, um número cabalístico, macabro.

Sendo sincero, não conhecia direito a carreira de Amy Winehouse, uma ou duas canções no máximo, gostava de Rehab, mas o suficiente para saber que ela tinha uma voz poderosa, sui generis no cenário pop e estilo de vida peculiar que já dava sinais de um desfecho triste. Pelo menos achava ela mais interessante do que a Lady Gaga. “A gente não pode ajudar quem não quer se ajudar”, vaticinou a cantora numa de suas canções.

Mas fiquei chateado com a notícia, muito chateado mesmo. Deve ser triste morrer jovem. Mas eu queria morrer jovem, de overdose também. Mas enfim, é lamentável a perda de uma artista promissora por conta de vícios, dominada pelo lado mais obscuro da vida. Ninguém quer que um ídolo, por mais problemático e estranho que ele seja, tenha sua carreira interrompida por tragédias de proporções hediondas.

Consumidora desenfreada de drogas e bebidas, Amy Winehouse, assim como vários pares que tinham um estilo de vida similar, era um símbolo da pressão do sucesso e de uma trajetória pontuada por excessos. O passado também à fustigava. Lembro do dia em que fiquei sabendo do suicídio do Kurt Cobain, um dos meus ídolos do rock. Uma comoção geral e um misto de inveja e tristeza: “Meu Deus, por que diabos ele fez isso?”. Bem que eu queria ter coragem para fazer isso.

Lindo como um Apolo, um Baudelaire do rock dos anos 60, Jim Morrison partiu cedo demais. Um xamã negro da guitarra, Jimi Hendrix morreu jovem demais. Voz rascante do blues americano, Janis Joplin partiu cedo demais. Talentoso guitarrista e a alma musical dos Stones, Brian Jones nos deixou cedo demais. Gênio angustiado do movimento grunge, Kurt Cobain foi embora cedo demais. Estrela do pop contemporâneo, Amy Winehouse também foi cedo demais. “Os bons morrem jovens”, “Meus heróis morreram de overdose”.

* Este texto foi escrito ao som de: I got dem Ol’ Kozmic blues again mama! (Amy Winehouse – 1969)

Meu Deus, videoquê?!!

No futuro, seremos metade máquina e metade homem, que horror!

Meu chefe vira para a equipe e, com a naturalidade de quem chupa um chica bon, avisa:

– Amanhã nós teremos uma Videoconferência com nosso Diretor Executivo.

Fitando o horizonte da minha janela, lá do fundo mais íntimo do meu ser, faço a pergunta cretina para mim mesmo sem medo de ser feliz:

– Meu Deus, Videoquê?!!

A princípio pensei que fosse uma brincadeira, uma piada ou até mesmo pegadinha. Achei que fosse, de fato, um karaokê gravado em vídeo, sei lá, minha imaginação de matuto não foi muito longe. Mas no encontro do dia seguinte, eis que me vejo sentado do lado de um bando de gente diante de uma parafernália de equipamentos, fios e botões a perder de vista. De repente, da telinha do computador, do nada, tal qual um diabinho de desenho animado, puff!, surge o nosso Chefe Executivo esbanjando uma simpatia de fauno renascentista.

A tal de videoconferência nada mais era do que uma reunião virtual com gente de carne e osso, ao vivo e a cores e outras surfando em ondas cibernéticas. Na sociedade do futuro será assim, homens e máquinas em total sinergia com o bem-estar da rotina de trabalho e em prol da praticidade. Mas indiferente à modernidade confesso: tenho horror à tecnologia.

É fato, eu não gosto do computar e ele me odeia. Mas ambos precisamos um do outro, trata-se de uma realidade nefasta o que me faz sentir saudade da minha máquina Olivetti. Na verdade, morro de medo de apertar um botão errado por engano e ser abduzido para Marte, Plutão ou o quinto dos infernos. 

Sempre achei que o futuro nunca iria bater em minha porta. Nunca pensei, por exemplo, que aqueles discos de vinis que eu adorava venerar pelas capas maneiríssimas, um dia ficaria compactas, na forma diminuta de um CD e, como num passe de mágica, desapareceria por completo dentro de uma geringonça sensível chamada I-Pod. Mas hoje, parece que tudo pode e nada tem limite para a imaginação inventiva do homem.

 Admirável mundo novo?

* Este texto foi escrito ao som de: Think Thank (Blur – 2003)

A Moreninha: 1º romance brasileiro

Joaquim Manuel de Macedo: médico e escritor

Minha afilhada de 11 anos chegou da escola com um livro debaixo do braço e disse mais ou menos assim:

– Ó o que ganhei na escola hoje, Padrinho?! Na verdade, era um estojo de lápis com uma cadernetinha. Mas meu colega pediu “pra” trocar porque ele disse que esse livro é “de mulher.” É?!

Sabe qual era o título? A Moreninha, romance de 1844 escrito por Joaquim Manuel de Macedo. Criança é fogo mesmo. Sempre me surpreendo com a sinceridade delas.

Bom, nunca tinha lido essa obra. Na verdade sempre confundia o autor de A Moreninha com o cara que escreveu Memórias de um Sargento de milícias que é o Manuel Antônio de Almeida. Nada a ver. Esse eu também não li, embora esteja dando sopa ali na minha estante mágica.

A verdade é que essa história toda, essa confusão toda me motivou a ler A Moreninha, esse mesmo, que a minha afilhada trocou com o coleguinha na escola e já estou quase no fim. Faltam só alguns capítulos e quando você estiver lendo esse post, provavelmente eu já terei terminado o romance do velho Joaquim.

A obra é um daqueles clássicos títulos que todo mundo fez careta algum dia e esperneou batendo os pés no chão quando a professora ou professor de Literatura pediu para gente ler no Colegial. Eu mesmo não conseguir ler obras como Senhora e Lucíola, ambos de José de Alencar, que na época eram uma chatice só. Pelo menos eu achava.

Hoje quem sabe eu até os leria, porque A Moreninha é muito divertido. Bobinho, mas prazeroso, uma leitura agradável, gostosa. A história gira em torno do romance entre Augusto e Carolina, a heroína do título. Mas também abriga os anseios de uma turma de amigos estudantes que partem para a Ilha de Paquetá em busca de aventuras amorosas e dos prazeres da vida.

Mas, apesar de, aparentemente, ingênuo, A Moreninha é um marco da literatura brasileira por ser o primeiro romance escrito no Brasil, numa época em que literatura de verdade e tida como séria era, basicamente, a poesia. Com sua narrativa carregada de amores platônicos, suspiros juvenis e “lendas” de um Brasil ainda preso às heranças coloniais, com escravos, saraus em Corte e tudo o mais, a obra surge como um suspiro de renovação num gênero que, até então, era mérito dos autores estrangeiros.

Médico de formação, Joaquim Manuel de Macedo abriu um novo horizonte na literatura brasileira com seu folhetim escancaradamente romântico. Para quem algum dia viveu um grande amor platônico da infância e juventude, assim como eu, essa novela será um deleite encantador.

Emocionei-me bastante com a passagem em que os dois personagens centrais se conhecem ainda meninos, zanzando pelas areias dessa ilha paradisíaca. Assim como o instante em que eles se reencontram anos depois, sem saber que, de fato, são os mesmos namoradinhos de tempos ingênuos. Um segredo que, num primeiro instante, o autor reservou somente aos seus leitores. A cena em que o apaixonado Augusto se esconde debaixo da cama, enquanto quatro adoráveis amigas aprontam e bordam no quarto sem saber de sua presença, é uma delícia de irreverente.

Enfim, a poucas páginas de terminar essa agradável história, deixo como lição o equívoco do coleguinha da minha afilhada que, por preconceito de menino, preconceito ingênuo, perdeu a chance de ter em sua estante uma boa trama. Por isso que sempre digo, assim como as pessoas, não subestime os livros pelo título, capa e qualidade do papel. Não vacile, na dúvida, leia os clássicos. Se bem não fizer, mal também não fará.

* Este texto foi escrito ao som de: Uns (Caetano Veloso – 1983)