Steve Jobs (2015)

Steve Jobs 2

Michael Fassbender (esq.) dá vida nas telas ao homem que revolucionou o mundo virtual. Versão de Danny Boyle humaniza o empreendedor pelo seu lado bom e ruim

Ao contrário do que aconteceu com metade do planeta. Não derramei uma gota de lágrimas por causa do Steve Jobs quando ele morreu. Deve ser porque não sei ligar o computador. De qualquer forma, tenho a leviana humildade de reconhecer sua importância para o progresso da humanidade no que diz respeito à praticidade on line. O que explica o fato de outro dia eu ter ido assistir à cinebiografia sobre o cara dirigida pelo britânico Danny Boyle.

Na pele do mago da internet, o formidável e charmoso Michael Fassbinder, que destrincha a turbulenta, mas impressionante trajetória pessoal e profissional do personagem em três momentos diferentes. Como eu já suspeitava, o cara era de uma arrogância shakespeariana. Mesmo assim, me flagrei surpreso com o episódio do desprezo dele pela filha que ele relutou em assumir. Também pelo lado mesquinho, apesar da fortuna.

Os bastidores de como ele e um sócio (Steve Wozniak) que sempre desprezou e parece ter sido o principal agente no processo criativo das novidades cibernéticas dos últimos tempos vem à tona como um vomito aos olhos do espectador. A ponto de questionarmos, de fato, se Steve Jobs merece mesmo ser o guru de toda uma geração bitolada com tudo o que é moderno e virtual.

Para mim, o que pesou nesse filme foi o fato de constatar que Jobs era um cara de carne e osso e, como qualquer um, passível de fragilidades, erros e excessos. Essa humanização da personalidade cultuada por todos é um dos pontos altos do filme. As atuações de Fassbinder e Kate Winslet são outro atrativo no filme.

Bem, para quem não gosta do Steve Jobs e se recusou, terminantemente, a assistir ao filme sobre ele com o fraco Ashton Kutcher, essa versão honesta da história do cara até que surpreende.

* Este texto foi escrito ao som de: Cellophane Symhony (Tommy James and the Shondells – 1969)

Cellophone Symphony

Anúncios

A noite do meu bem (Ruy Castro)

Ary Barroso

Ary Barroso e Lucio Alves, além de artistas geniais, eternos boêmios da noite carioca com suas boates luxuosas cheias de pecado e recreio…

Nos anos 50, quando as boates eram moda na rotina noturna dos boêmios do Rio de Janeiro, Aracy de Almeida – aquela baixinha invocada e jurada do programa do Sílvio Santos, lembra? – era uma das estrelas dos palcos da noite carioca. Desbocada e talentosa, não precisava rebolar enquanto cantava para mostrar ao que veio. Como ela mesma gostava de dizer, sem a menor falta de modéstia, era aquela sobre quem não restava a menor dúvida.

Pois bem. Nas noites de sexta e sábado, na badalada Vogue, de propriedade do Barão Stuckart, quando tinha que fazer três entradas, a última, já depois das quatro da manhã, ela entregava os pontos, cantava uma ou duas músicas, olhava para a plateia e dava o seu recado:

– Cansei de cantar. Vão tomar no cu!

Sei se abalar, voltava para mesa aplaudidíssima e a vida, como tinha de ser, continuava.

Noutra ocasião, numa das famosas festas do afamado Clube dos Cafajestes, Ary Barroso, convidado cativo da turma, se atrapalha com a maçaneta de uma das portas do lugar. Ao entrar onde não devia, vê um dos integrantes se atracando aos beijos com uma belíssima negra e, com os óculos e o nariz quase nas intimidades da moça, se encanta com o contraste entre a cor da pele e da vagina e, como bom rubro-negro que era, exclama:

– “Ela é Flamengo!”.

Essas duas delícias de histórias fazem parte do livro A noite do meu bem, o mais novo projeto do jornalista e biógrafo, Ruy Castro que, como tudo o que ele se debruçou até hoje, é um sundae. Por isso e só por isso, ele é um dos meus ídolos do jornalismo. Depois de contar a história da Bossa Nova, falar das trajetórias de Nelson Rodrigues e Garrincha, ele revela agora como foi a aurora e o crepúsculo da noite carioca, na quintessência da boemia.

E, ao falar do surgimento das badaladas boates que fizeram a noite do Rio de Janeiro nos anos 40, 50 e 60, Ruy Castro mergulha fundo, de corpo, alma e coração, no universo dos sambas-canções, trazendo à luz o talento, sucesso e carismas de uma fauna de músicos, cantores, jornalistas e titulares da noite na cidade maravilhosa. Gente como Aracy de Almeida, personagem que abre este texto, uma das artistas que mudaria o eixo da música brasileira.

Outras estrelas desse nicho excêntrico formidável? Dick Farney e Lucio Alves. Elizeth Cardoso e Linda Baptista. Lupicinio Rodrigues e os irmãos Carlinhos e Jorginho Guinle. Ary Barroso, Dorival Caymmi, Herivelto Martins…

* Este texto foi escrito ao som de: A divina Elizeth (Elizeth Cardoso – 1990)

Elizeth Cardoso

O Morro dos Ventos Uivantes (1939)

O Morro dos Ventos Uivantes

Clássica versão com Lawrence Olivier e Merle Oberon é uma das mais impactantes e sombrias adaptações da obra de Emile Brontë

 

Antes de morrer em 1848, aos 30 anos, vítima de tuberculose, Emile Brontë escreveu um único romance registrado com o pseudônimo de Ellis Bell. Desde então a história de amor entre um serviçal e sua ama tem emocionado milhares de pessoas mundo afora, imortalizada talvez como uma das mais marcantes aventuras do gênero de todos os tempos. Como essa adaptação para o cinema do mestre William Wyler, indicada a nove Oscars.

Na trama que se passa nas desertas charnecas de Yorkshire, Inglaterra, uma mansão sombria e solitária no meio do nada esconde perturbadores fantasmas do passado. É ali que vive com o coração cheio de mágoa e dor Heachtcliff (Lawrence Olivier), cuja trajetória na casa começou ainda menino, depois de ser salvo da sarjeta por um golpe de misericórdia e humanismo.

Sua chegada ao local plantou uma semente de cálida esperança no coração da jovem Cathy (Merle Oberon), mas despertou a hostilidade do irmão mais velho (Hugh Williams), um garoto mau caráter que cresce viciado em jogo e uma taça de vinho. Quando o patriarca da casa morre, Heathcliff é rebaixado à condição de criado, sofrendo as piores humilhações. O que não o impedi de nutrir paixão arrebatadora por Cathy.

“Nada é real lá embaixo. Nossa vida é aqui”, diz ele, ao trocar ardentes beijos de desejos com a amante no Morro dos Ventos Uivantes.

Marcado por densa narrativa social, o livro de Emile Brontë causou polêmica na época por romper com certo romantismo na criação dos personagens, desenhando personalidades distorcidas pela ganância e adoração ao materialismo. Um claro exemplo dessa abordagem é Cathy, uma menina no começo dócil que se deixa corromper pela vaidade, se tornando uma nobre fútil e esnobe.

“É isso que eu represento para você?! Um par de mãos sujas?”, se desespera Heathcliff.

Embora não seja a única adaptação do clássico texto de Emile Brontë para os cinemas, essa versão seja uma das mais famosas e importantes, com seu velado clima de terror. O final da trama melodramático, mas exemplar, é redentor. Provando que o amor pode ser e sempre será maior do que a morte ou qualquer empecilho.

* Este texto foi escrito ao som de: Black Sabbath (1970)

Black Sabbath

As diabólicas (1955)

As diabólicas

Lançado em 1955, o filme, com seu clima sombrio e flerte com o terror, inspirou Hitchcock a fazer “Psicose”. Aliás, o mestre do suspense roubou até a estratégia de marketing do filme francês

Você que já viu “Psicose” mais de uma vez e sempre tem calafrios com a trama criada pelo mestre do suspense, Alfred Hitchcock, precisa saber que esse clássico do cinema encontra ressonâncias na obra-prima, As diabólicas, do diretor francês, Henri-Georges Clouzot. Baseado na obra da dupla, Pierre Boileau e Thomas Narcejac, o filme de 1955 traz um dos enredos mais engenhosos já criados sobre um crime perfeito.

 

Num pensionato de propriedade da esposa Christina (Véra Clouzot), o sádico Michel Delasalle é um diretor temido e odiado pelos alunos. Despreza a esposa e também a amante que trabalha junto com os dois. Revoltadas com o tratamento nada amoroso do negligente amante, as duas resolvem unir forças e tirá-lo do caminho. Mas o que era para ser um plano perfeito se revela uma grande surpresa para o espectador.

Ufa! A ousadia da trama já se revela no libidinoso e escancarado triângulo amoroso, uma afronta para o conservador anos 50. Depois tem o clima sombrio e claustrofóbico em que essas duas damas tramam diabolicamente, flertando com suspense sofisticado e velado áurea de terror. Elementos que Hitchcock soube aproveitar com inteligência em “Psicose”. E viu tanto do que gostou que copiou a estratégia de marketing de Clouzot, que ele tinha em conta.

O grande mérito do roteiro está na sofisticação com que ele prende a atenção do espectador a partir do momento em que os personagens revelam o nefasto plano. Estabelecida a cumplicidade entre a tela e a poltrona, o resto é tensão em torno de como terminará a história. O público é pego de surpresa.

Um dos nomes importantes do cinema francês antes do surgimento da nouvelle vague, Henri-Georges Clouzot, desacreditado pela turma do Cahiers du Cinema. O tempo e os deuses do cinema lhe fizeram justiça.

* Este texto foi escrito ao som de: Goo (Sonic Youth – 1990)

Goo

Nada de novo no front – Erich Maria Remarque 2

Nada de novo no front 2

No romance, a mistura de relatos humanos e realidade dos conflitos são chocantes, beira à loucura claustrofóbica… Fome, medo, frio, opressão física e psicológica… Está tudo lá…

 

Quase ninguém parou para pensar sobre isso. Mas a verdade é que o cinema sempre glamourizou as guerras nas telonas. Sobretudo o cinema norte-americano, salvo uma ou outra exceção. Algumas produções europeias até impressionam pelo realismo com que tratam o tema, como um filme polonês que vi recentemente – e do qual não lembro o título -, mas de resto é tudo pirotecnia visual.

A literatura universal tem sido mais honesta com o público em relação aos conflitos mundiais e o romance alemão, Nada de novo no front, de Erich Maria Remarque, que estou acabando de ler, é uma prova obtusa dessa premissa. Como já foi descrito aqui, ex-combatente da 1ª Guerra Mundial, o autor não faz uso da maquiagem narrativa para amenizar os horrores no front.

No romance, a mistura de relatos humanos e realidade dos conflitos são chocantes, beira à loucura claustrofóbica. Paul, o narrador da trama, faz relatos tristes e atormentados da situação. Fome, medo, frio, saudade, opressão física e psicológica, angústia, enfim, o cheiro de podridão nos campos e crateras da morte. Está tudo lá. As notícias que chegavam do front para os familiares daqueles que estavam lutando eram apavorantes.

“Desamparados como crianças, e experientes como velhos, somos primitivos, tristes superficiais… Acho que estamos perdidos”, é dito em dado momento. “Para cada veterano, morrem de cinco a dez recrutas. (…) Cento e vinte homens jazem por aí cheios de tiros; é uma desgraça, mas o que temos a ver com isto, uma vez que estamos vivos?”, alguém lembra em dado momento.

Uma das passagens mais perturbadores do livro é aquela em que um soldado sabe que vai morrer e pede para os colegas fazerem o inventário de seus pertences. O objeto mais cobiçado são as botas. Um artigo de luxo em tempos de decadência moral humana.

* Este texto foi escrito ao som de: Blood sugar sex magik (Red Hot Chili Peppers – 1991)

RHCP

Snoopy e Charlie Brown – Peanuts, o Filme

E

Snoopy

Produzido e escrito pela família de Charles Schulz, autor das tirinhas, filme humaniza os dramas de personagens inspirados no dia a dia de seu criador

m outubro do ano passado um dos cãozinhos mais queridos do planeta, o beagle Snoppy, completou 65 anos de vida. Para celebrar a data, a família do cartunista Charles Schulz, criador das tirinhas e personagens que marcaram uma geração, resolveu produzir a animação Snoopy – O filme, em cartaz na cidade desde a última quinta-feira. As histórias em quadrinhos encantaram milhares de pessoas pela simplicidade e sinceridade em que retratava o cotidiano de crianças de típico subúrbio norte-americano.

 

É o que se vê no filme que tem uma estética visual leitosa de encher os olhos. A trama é norteada pelo loser Charlie Brown, um menino atrapalhado e cheio de complexos que tem como melhor amigo o cãozinho Snoopy. Travesso, sonhador e criativo, o pequeno beagle sempre dá asas à imaginação por meio de enredos mirabolantes que escreve em sua máquina de escrever azul, além, claro, de salvar o dono amigo, sempre vítima de bullying na vizinhança e na escola.

Aqui, Charlie se vê numa encrenca daquelas ao se apaixonar pela garota mais encantadora do bairro, uma ruivinha cheia de charme que acaba de mudar para a vizinhança. Um tímido empedernido, ele vai passar a trama inteira tentando arranjar um jeito de se aproximar da garota, mas sempre se mete em confusão. “Eu não sei fazer nada direito”, reclama.

O encantamento das histórias das tirinhas está justamente no realismo em humanizar os dramas dos personagens por meio de situações passíveis de acontecer a qualquer um.

Quem um dia não se apaixonaou pela garota mais bonita da escola e não ficou com aquele friozinho na barriga e as pernas bambas?

Para quem não sabe, a formidável galeria de personagens criados por Schulz teve como inspiração pessoas da convivência do autor. A personagem razinza e mandona Lucy, por exemplo, foi inspirada na primeira mulher do autor. Já Charlie Brown é o próprio Schulz que, assim como o seu alter ego, tinha um pai barbeiro que falava alemão em casa e, por ser sempre o menor da turma, era alvo de chacota na escola.

* Este texto foi escrito ao som de: Tigermilk (Belle & Sebastian – 1996)

Belle & Sebastian - Tigermilk

Um Chá das 5 Com a Garota Sonho

Café 2

…E ela chegou meio assim deslizando em nuvens carregadas de mil megatons com aquele sorriso mágico que só ela tem…

Foi um dia desses. Bem ali do outro lado da cidade. Um chá das cinco (seis?!) com a garota mais legal do universo. Mais bonita também. Acho que estou sem dormir até hoje, dormente de felicidade da cabeça aos pés. Alguém aí me belisca, por favor?

Era um fim de tarde chuvoso e plúmbeo e ela chegou meio assim deslizando em nuvens de mil megatons com aquele sorriso mágico que só ela sabe ter, vestindo uma elegante blusa laranja e echarpe das mil e uma noites. Parecia a rainha do Egito ou uma princesa da Renascença, mas era apenas a musa dos meus sonhos, bem ali, na minha frente. Em carne e osso. Desejo e charme.

Pediu um delicioso cherry brownie com textura divina que comemos bebendo com chá de frutas vermelhas e pitadas de delicadeza. Que gosto gostoso de comer e beber. Tão doce e gostoso como aqueles lábios sinuosos insinuantes olhando para mim. Havia uma cereja sobrando ali e não era a que enfeitava o bolo. Mais britânico impossível, de modo que me vi numa daquelas histórias de Oscar Wilder ou Emile Brontë.

Mas daí veio a melhor parte. Um presente de aniversário atrasado que valeu à pena esperar. Um cobiçado box do Woody Allen com 20 filmes dos quais não tenho a metade. Céus, como eu almejei aquela coleção já que nunca tive dinheiro pra comprar e ela estava bem ali, dada pela pessoa mais querida do planeta. Gostei tanto, que até dormi abraçado com ela. Ainda bem que não estragou. E estou com dó de tirar da embalagem.

Coleção Woody Allen 2Acredito na força dos gestos. Na beleza da lembrança. Na ternura da atenção. Por isso me emocionei tanto. E vindo de quem veio, foi o melhor presente que ganhei em décadas. Acho que nunca mais vou ganhar um presente tão bom quanto esse. Ela é tão gentil e doce. Tão meiga e bela. Com uma voz tão melíflua, aveludada e acolhedora. E não negligencia meus sentimentos mesmo sabendo o que sinto por ela. Será que algum dia eu vou conseguir encontrar alguém assim para viver do meu lado para sempre?

Gosto dela por inteiro, mas me deixo encantar pelos detalhes. Os detalhes de seu rosto, com aquele nariz de princesa da Disney, as pintas dançando no rosto, o sorriso aconchegante, o risco da boca. Já contei aqui como Deus pintou aquela boca, não?

Foi assim. Inspiradíssimo, um dia Ele acordou com a ideia de uma modelo e começou a trabalhar nos detalhes. Deixou a boca por último e a desenhou com o dedinho mindinho da mão direita. Quando terminou sua obra-prima, cheio de orgulho tocou-a com a ponta do indicador e disse: “Fala!”.

E ela falou… E ela existiu… E a partir daquele momento mágico ela passou a existir aqui dentro de mim… Para sempre… Posso não ser dela, mas ela será minha eternamente… Mais tarde, transbordando de inveja, Michelangelo não se conteve e fez a mesma coisa quando esculpiu a estátua de Davi.

Bem, quando eu era pequeno, eu nunca sabia responder aos adultos quando eles perguntavam o que eu queria ser quando crescer. Agora que sou adulto eu sei como quero morrer. Deitado no colo dela, com seus dedos delgados alisando meus cabelos…

Naquele final de tarde chuvosa e plúmbea, que acabou se transformando numa deliciosa noite fria e aconchegante, depois que ela foi embora, fui para casa me sentido o sujeito mais feliz do mundo e quase sai dançando por aí como o Gene Kelly em Cantando na Chuva…  

E enquanto eu ia embora com o coração derretendo de felicidade como se ele fosse um sundae sob um sol de desejo, uma pergunta pertinente não queria calar dentro da minha cabeça. Será que o beijo dela tem gosto de cereja, pedaço de nuvem ou sonho? Não posso dizer, mas eu sei que deve ser muito bom… A coisa mais gostava do mundo… E que eu talvez nunca prove…

Dizem que é maldade humana deixar um Deus tão triste… Se eu pudesse ser um Deus só por um dia… Se eu pudesse ser dela a vida inteira… Mas já é a melhor coisa do mundo ser sua amiga a vida inteira…

* Este texto foi escrito ao som de: A head full of dreams (Coldplay – 2015)

Coldplay 2

O voo do Camaleão do rock… Dentro de mim…

Lazarus 2

Mestre na arte da reinvenção, astro das mil facetas eternamente em mutação, David Bowie saiu de cena assim como entrou: com elegância…

Por que algumas pessoas morrem, quando elas bem que poderiam ser deuses ou simplesmente eternas? Uma frase clichê. A manhã de ontem amanheceu mais triste com a morte do astro pop David Bowie. Na verdade, a notícia pegou todo mundo de surpresa. Sim, porque todo mundo talvez achasse que ele fosse eterno mesmo. Outra pergunta boboca de desespero. Como viver num mundo sem David Bowie agora? Muito fácil, ouvindo suas músicas por que, essas sim, são e serão eternas. E ontem mesmo quase tive uma overdose, assim, de David Bowie. Fui de Space Oddity a Low sem intervalo nenhum. Senti meus ouvidos sangrarem… Mas… Sobrevivi… Acho…

Mestre na arte da reinvenção, astro das mil facetas eternamente em mutação, David Bowie foi um visionário andrógino por extrapolar os caminhos da música com um tipo de performance que flertava com moda, teatro e audiovisual. Ou seja, era multimídia quando a palavra nem era conhecida direto. E assim, extravagante e inovador, se tornou um dos artistas mais importantes das décadas de 70 e 80. Portanto, não seria exagero dizer que Bowie influenciou mais artistas do que os Beatles.

Bom, como na maioria dos jovens que gostava de música, David Bowie entrou em minha vida via Nenhum de nós. Você estava lá, sabe do que estou falando, a banda gaúcha que conquistou as ondas sonoras do país no final dos anos 80 e início dos anos 90 com o hit Astronauta de mármore, versão do sucesso Starman, um dos clássicos conceituais do álbum The rise and the fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972).  Low (1977) até hoje me deixa pregado no chão ou no teto quando ouço…

Mas o primeiro David Bowie que comprei foi The man who sold the world (1970), num sebo bem ali na Augusta, em São Paulo. E sempre gostei daquela capa estilosa, um misto de ousadia, provocação e deboche. Sim, porque depois daquela foto, os homens podiam vestir saias e porque não! E enquanto o resto da humanidade estava sendo preguiçosa, lá estava o Starman sendo inovador e contestador.

Nascido em 8 de janeiro de 1947, David Robert Jones aprendeu a tocar saxofone aos 13 anos e aos 15 montou sua primeira banda. Várias tentativas fracassadas depois levaram a concluir que a carreira solo seria o mais correto, se lançando apenas como David Bowie em 1969, com o álbum Space oddity, um marco com suas referências veladas às corridas espaciais.

“Estou dando um passo para fora da porta/E estou flutuando de um jeito mais peculiar/E as estrelas parecem muito diferentes hoje”, diz um trecho da canção.

No filme do José Eduardo Belmonte, A concepção, eu descobri que existia o álbum Hunky Dory (1971) só por causa da belíssima Oh! You pretty things. Depois de se metamorfosear de Ziggy Stardust, veio a fase alemã com trabalhos sui generis como Low (1977) e Heroes (1977). Foi quando conheci preciosidades como Iggy Pop, Lou Reed e Kraftwerk. Outro dia, vendo Francis Ha (2012), me surpreendi ouvindo Modern love, do álbum Let’s dance (1983).

O último disco do astro britânico, Blackstar, é sombrio e seco, trazendo como música de trabalho Lazarus, curiosamente uma referência bíblica do amigo de Jesus ressuscitado por ele. O clipe, bizarro, mete medo. Mesmo assim, uma bela despedida. David Bowie saiu de cena como entrou, ou seja, com elegância.

* Este texto foi escrito ao som de: Honky Dory (David Bowie – 1971)

Hunky Dory

Ninotchka (1939)

Ninotchka

Antes Greta Garbo tinha mostrado que sabia falar com o advento do som no cinema, depois a sisuda atriz sorriu para as câmeras…

Sou movido por algumas obsessões. O cineasta norte-americano de origem austro-húngara, Billy Wilder, é uma delas. Por causa disso revi outro dia a clássica comédia Ninotchka, que quando assisti pela primeira, nem sabia que tinha sido co-escrito por ele, apenas que era um filme com a deusa escandinava Greta Garbo.

 

Hoje vejo que o filme dirigido por Ernest Lubitsch foi um marco na carreira do roteirista que, dado ao seu gênio como escritor e cinismo diante da vida, se tornou um dos mais brilhantes diretores da era de ouro de Hollywood. Ao ver Ninotchka dá para perceber o quanto esse rito de passagem foi natural e pertinente.

Na trama, Greta Garbo é uma oficial do regime de Stálin em Paris para descobrir o paradeiro de três enviados à capital francesa para vender as joias que pertenceram à família do Czar. Mas eles se deixam corromper pelo capitalismo que toma conta da cidade e não volta mais. Ao descobrir que a bela compatriota esta na cidade, eles tentam fazer a cabeça da garota, tarefa nada fácil e só conseguida pelo coração, quando ela se apaixona pelo malandro Melvyn Douglas.

Lançado em 1939, o filme é um deboche sofisticado e inteligente com relação às ideologias e os efeitos nocivos que elas trazem para a vida das pessoas. Mas tudo é encarado com muito humor e elegância. Na fita, Greta Garbo, que antes havia falado, com advento do som no cinema, agora sorri pela primeira vez nas telonas. E o momento é mágico.

Algumas passagens da fita são marcantes. Como aquela em que ela explica porque os pássaros no seu país trocam o frio inverno soviético, pelos ares alegres de Paris. Uma forma sutil de mostrar que ela, então uma camarada incorruptível, tinha se “vendido” ao capitalismo. O símbolo dessa transformação é um ousado chapéu.

Poucos percebem, mas o eterno vamp Bela Lugosa faz uma ponta no filme no papel de um autoritário chefe russo. Coisas de Ernest Lubitsch com uma pequena ajuda de Billy Wilder.

* Este texto foi escrito ao som de: I’m your man (Leonard Cohen – 1988)

LC - I'm your man

Os oito odiados (2015)

Os oito odiados

Brincando com o gênero norte-americano por excelência, Quentin Tarantino traz nas entrelinhas questões morais e sociais que até hoje afetam a sociedade norte-americana

Dizer que o cinema de Tarantino é repetitivo é cuspir para cima, não sabe o que diz. Assim como Woody Allen, Domingos de Oliveiras e meia dúzia de tantos outros diretores, o cineasta norte-americano recicla o seu estilo de contar histórias nas telonas, sempre apresentando algo diferente, irreverentemente contundente. No final, tudo se resume a diversão, o mínimo que os fãs dele esperam.

 

Em Os oitos odiados, seu oitavo filme – daí a gozação do título -, Tarantino conta a história de oito pessoas perdidas num Velho Oeste estilizado e filmado em esplendoroso formato 70mm. Diga-se de passagem, infinitamente melhor do que essa bobagem de filme 3D. A trama começa com uma diligência cruzando a neve no meio do nada, levando um caçador de recompensas (Kurt Russell) e sua prisioneira (Jennifer Jason Leigh) para o seu destino fatal: a forca. A cena em que a câmera numa grua desliza ao redor de uma estátua de Cristo crucificado é hipnotizante de tão bela.

Logo a carruagem é parada e outro caçador de recompensa vivido por Samuel L. Jackson é convidado a completar a viagem. Não sem antes se envolver num diálogo absurdo típico dos filmes do Tarantino tendo como tema a Guerra Civil norte-americana, racismo e uma carta escrita por Abraham Lincoln. Tudo com muito humor e cinismo crítico social e histórico.

A segunda parte da trama, mais interessante e que se passa num restaurante de beira de estrada, é o que resume o estilo trash kitsch pop do diretor. Ali é aonde os oito personagens do título irão se encontrar e travar um duelo verbal de vida e morte que jorrará sangue na tela, quase respingando no público.

Com total controle do roteiro e da mise-en-scène que ele propicia, Tarantino, na linha dos irmãos Cohen, brinca aqui o gênero norte-americano por excelência, o faroeste, para falar sobre questões sociais e morais que até hoje afetam a sociedade norte-americana. Do ponto de vista cinematográfico é um filme para se deleitar descansado e com bastante paciência. E, apesar da violência exagerada e caricata, sua marca registrada, por sinal, trata-se de um filme seríssimo. Embora um pouco superestimado, Quentin Tarantino é um dos grandes do cinema contemporâneo.

* Este texto foi escrito ao som de: Highway to hell (AC/DC – 1979)

Highway to hell - ACDC