Conflitos em sala de aula

O professor como soldado do saber e da tolerância

Sucesso no Festival de Cannes alguns tempos atrás, Entre os muros da escola, do diretor Laurent Cantet, é daquele tipo de filme que nos faz lembrar os tempos de escola. De quando éramos jovens irresponsáveis, arrogantes, pertencentes de um mundo do qual não tínhamos pleno conhecimento, mas que equivocadamente acreditávamos dominar. Chama atenção pela simplicidade da narrativa que segue os passos do cinema verdade, um quase documentário que se desenrola ao mergulhar na psicologia complexa dos personagens. Personagens esses vilipendiados diariamente por conflitos sociais, econômicos, familiares e, sobretudo, raciais. No centro do furação, a figura do mestre, soldado estóico diante da luta em favor de um elemento supremo, quase etéreo, o saber.

Golpe na nostalgia…

Nem vou perder tempo assistindo o novo Karatê Kid. Tem cara de ser uma droga, tenho medo de ferir minha nostalgia. O filme deve ser um golpe para os fãs da versão original… Com o novo personagem do remake o título faz sentido. Esse filho do Will Smith, o Jaden, passa a impressão de ter criado um personagem insurportável.

Remake deve ser um golpe para os fãs...

Febre do seu amor…

Amo e desejo cada detalhe do seu corpo. Às vezes tenho febre quando penso sobre isso com intensidade. Geralmente é quase todo o dia. Mas não sei se você tem sensibilidade para entende isso. Ontem à noite a energia foi embora na cidade. Um clima romântico instaurou no lugar. E eu tão longe de você…

"Desejo cada detalhe do seu corpo..."

Faroeste à italiana

Sergio Leone reinventou o gênero faroeste

Passei o fim de semana mergulhado no universo do diretor italiano Sergio Leone, um dos ícones do faroeste spaghetti. Revi Três homens em conflitos (1966) e a obra-prima Era uma vez no oeste (1968). Fascinado com o estilo do cara que reinventou o gênero norte-americano por excelência. Genial os closes fechados em rostos expressivos, fortes de seus personagens e as lindas sequências panorâmicas. Não dá pra entender porque muitos viam com desdém o trabalho desse mestre da sétima arte, que tinha um talento nato pra contar histórias. Interessante, por exemplo, como ele costura os dramas e conflitos da Guerra de Secessão, tema caro à história norte-americana, com folclore bang-bang. Sem falar que deu uma força e tanto para alavancar as carreiras de nomes como Clint Eastwood, Charles Bronson, entre outros.

Ricca estreia com sucesso na direção

O uruguaio Daniel Hendler faz par romântico com Alice Braga 

Marco Ricca estreia como diretor de cinema com pé direito. Seu filme, Cabeça a prêmio, é um sopro de inteligência e sinceridade narrativa visto como poucos no atual cinema nacional. O cara tem estilo.

Vi o trabalho há dois meses atrás em Florianópolis, no FAM, festival que prestigia as produções de países do Mercosul e me surpreendi com a reação do público. Mais ainda com o resultado do trabalho.

Não li o livro de Marçal Aquino, que deu origem ao roteiro co-assinado pelo próprio autor e Ricca. A influência do cinema do amigo Beto Brant é inegável. Há ressonâncias de O invasor e Os matadores espocando na tela. E a trama tem um quê de Nelson Rodrigues, com aquelas convulsões do universo do autor de A vida como ela é… como traição, conflitos familiares de todas as naturezas e revelações catárticas.

Pelo menos uma sequência do filme é marcante, aquela em que a atriz Ana Braga, tomada por torpor alcoólico, mergulha de roupa e tudo na piscina, meio que simbolizado a decadência de um clã e sinalizando o tom do enredo que traz ainda a atriz Alice Braga e o uruguaio Daniel Hendler.

Ricca é mais do que um rosto simpático nas telas. O cara tem talento, seu futuro promete…

* Este texto foi escrito ao som de: Rei sem trono (Milionário e José Rico – 1978)

Rei sem trono

Filme aborda os dramas de uma adoção

Tocante o drama sobre adoção dirigido pelo colombiano Rodrigo García, afilhado cinematográfico de Alejandro González Iñárritu (Babel). Histórias sinceras que se entrelaçam dentro de escopo bastante realista, atuações convincentes, além de abordagem firme sobre as contradições e conflitos que envolvem todo o ato. Um tema diferente na pauta cinematográfica, humanista, que não se deixa abater nem mesmo pelo leve tom melodramático da trama.

O drama Destinos ligados famílias se envolvem no complicado caso de adoção

Sensações proustianas culturais

Sebo: Um turbilhão de ideias...

Sebo é uma verdadeira caixa de surpresa. Um rápido mergulho nessa caverna do saber é mais do que suficiente para resgatar grandes tesouros da literatura, música, cinema e quadrinhos. Nessas viagens culturais sempre saio com uma preciosidade debaixo dos braços. E o que é melhor, comprados a preços acessíveis. E a rotatividade de produtos na área é grande, com um vai e vem incessante de títulos numa ciranda de informações com sabor retrô inconfundível. Aliás, nada mais gostoso de que o cheiro de um sebo. Tem gosto de passado, as sensações proustianas são marcantes, indeléveis. Preste atenção. E não se escabele se não tiver dinheiro para comprar aquele título que estava procurando há séculos. Mais cedo ou mais tarde ele sempre volta e é essa espera que é prazerosa. Faço coro com o escritor e biógrafo Ruy Castro. Quando morrer não quero ir para o céu nem para o inferno. Quero ir para um sebo…

Anatomia de um sádico…

Sádico é aquela pessoa que quando você está com um espinho cravado no peito, chega e empurra este espinho cada vez mais para dentro. A pior forma de sadismo é aquele manisfetado, revelado pela pessoa que a gente ama. O pior sádico é aquele que está ao lado, próximo, quase uma sombra. Fica sempre um gosto de traição na boca…

O pior sádico é o que está ao lado

O dinossauro Stallone está de volta

 

Com Sylvester Stallone não tem vez. É porrada na certa e fim de papo. Criador de personagens marcantes com punhos erguidos e muita munição na cintura como o pugilista de origem italiana Rocky Balboa e a máquina de matar Rambo, o astro norte-americano volta às telonas com o barulhento e destruidor Os mercenários. Em homenagem aos meus tempos de moleque, quando brincava com facas e metralhadoras de madeiras, perdido num mundo de guerra imaginário, fui conferir qual era a nova do garanhão italiano. Com parte das cenas filmadas no Rio de Janeiro (inclusive com registros no Parque Lage, santuário imortalizada por Glauber Rocha em Terra em transe), o filme patina na velha fórmula do herói outsider capaz das maiores façanhas e prol dos fracos e oprimidos. 

Dessa vez ele é Barney, líder de um grupo de mercenários contratado para salvar um país latino-americano das mãos de sanguinário ditador, espécie de marionete dos interesses de um mafioso norte-americano, por sinal, o homem do dinheiro. Como todo grande urso que se preze, Stallone tem coração que é uma cambaxirra e, entre tiroteios, explosões e outras firulas pirotécnicas, besunta a munição com momentos açucarados, melodramáticos. Recurso que às vezes domina bem e dá certo como já provou a “série” Rocky Balboa e a primeira sequência de Rambo, o melhor de todos, com sintomática crítica à cultura de guerra alimentada há séculos em seu país. 

Muito barulho e tiroteiro em trama com jeitão de déjà vu

 

Em Os mercenários, o momento “sugar” fica por conta de outro grandalhão, o ótimo Mickey Rourke, na pele de um tatuador aposentado dos tempos de matanças e que agora distribuí filosofia e conselhos aos velhos camaradas de guerra. Singela a cena em que o eterno garoto problema derrama lágrimas ao relatar o episódio em que não salvou uma mulher do suicídio na Bósnia. No mais, o filme é só pancadaria, do começo ao fim, sem direto a respiração, com Sylvester Stallone quase um dinossauro de seu tempo e estilo que não perde o show nem a piada. Prova de seu humor negro está na sequência em que debocha do seu passado ao reunir outros astros do gênero como Bruce Willis e Schwarzenegger. 

– Ele vai ser presidente, debocha Stallone, ao responder a Willis o futuro do exterminador.