One Direction no iCarly

Gibby, do iCarly, e a banda britânica, One D, admiração mútua

O melhor sinal de que um programa está indo bem de audiência é quando o número de convidados não é apenas quantitativo, mas qualitativo também. Assisto e aprendi a gostar do iCarly, programa do canal Nickelodeon, da Sky, graças às minhas sobrinhas, uma de 12 anos (minha afilhada) e outra de dois anos e meio, que não perdem um capítulo. Por tabela, eu também não deixo de ver um episódio. Assim, somos três meninões ali, na sala de estar, vendo as peripécias do Freddie, da Sam, do Spencer, do Gibby e claro, da Carly.

Por isso que recebi com tristeza a notícia de que o programa irá acabar. O último capítulo, gravado agora em junho, será exibido em novembro. Que pena! Nunca me canso de surpreender com o iCarly. Primeiro por causa da sinceridade dos personagens. E segundo por conta da criatividade de Dan Schneider, o criador e roteirista de grande parte das histórias, sempre nos trazendo temas contundentes, mas mostrados de forma bem peculiar e irreverente.

Mas eu estava falando dos convidados do programa e, olha veja só, me surpreendi outro dia vendo a banda britânica One Direction no seriado. Eu sei, eles não se encaixam no quesito qualitativo, mas são espelhos de um reflexo mútuo, o que posso fazer, cacete. O grupo musical é a grande sensação da garotada no momento, mais do público teenage feminino já que conheço um monte de colegas que têm filhas que escabelam por causa deles. E adivinhe, minha sobrinha mais velha anda surfando nesta crista da onda. Vou atrás e corro o risco de me afogar.

A outra ponta da surpresa reverbera no próprio iCarly, como mencionei no início do texto. Com cinco anos de estrada, eles já tiveram a oportunidade de receber gente como os atores Tina Fey e Jimmy Fallon (meu deus, quem são essas peças?!), o sempre agitado Jack Black (que adoro, apesar dos excessos) e até (santo Cristo!), a primeira-dama, Michelle Obama. E não só isso, o mega, hiper e super, casal Brad Pitt e Angelina Jolie declarou ser admiradores da trupe. Agora foi a vez do One D.

Como disse, conheço a banda por causa das filhas das minhas amigas e da minha sobrinha, mas do pouco que sei, os acho bem farofa, francos de doer, meio que um simulacro dos Backstreet Boys, enfim, mas citando aqui o filósofo de origem árabe, Averróis (1126 – 1198), autênticos frutos de seu tempo. Para escrever este texto ouvi algumas músicas e gostei dos falsetes da balada, Gotta be you, o resto, me parece um pop bem desgastado. Prefiro a sonoridade niilista do Sigur rós, por exemplo, ou o pop sofisticado do Coldplay, que não consigo mais ouvir por causa daquela garota esnobe e sádica que gosto. Contudo, por amor às minhas crianças…

Nesse episódio do iCarly, eles estão em turnê em Seattle e aproveitaram a oportunidade para fazer um participação no seriado já que também são fãs deles. Acontece que a Carly está doente, vítima de germinoses contraídas numa viagem que fez ao México ou ao Texas – que é mais ou menos a mesma coisa -, e um deles contraí o vírus, um bem bonito, que tem cara de judeu do leste europeu. Pronto, é o mote perfeito para as estripulias da trupe que apronta um milhão de confusão ao tietar a banda britânica. “Caros, só um momento, um recado rápido, eu não estou namorando no momento, só para deixar claro”, diz a assanhadinha Sam. “E eu faço ótimas massagens, só para deixar claro”, não perde a chance o igualmente fã, Gibby.

Enfim, toda essa história só para mostrar que somos capazes de fazer o possível e impossível para agradar nossas crias. Já prometi à minha afilhada que vou levá-la ao show da Lady Gaga fará no Brasil este ano e sou capaz de outras loucuras só para vê-la feliz. Inclusive ver o One Direction no iCarly. Que tio formidável eu sou, né?

* Este texto foi escrito ao som de: Up all night (One direction – 2011)

E aí… Comeu? é a comédia do ano

Filosofia de boteco e sacanagem são os ingredientes dessa comédia

Pode apostar, aos 53 anos, o escritor e dramaturgo Marcelo Rubens Paiva tem um dos melhores textos da nossa literatura e dramaturgia. Gosto dele desde que li pela primeira vez Feliz ano velho e não parei mais. Seu estilo direito e desbocado, sempre de mal com o mundo e com todos me contagia. Com ele não tem meio termo e é por essas e outras que fui assistir a comédia E aí… Comeu? já sabendo que o roteiro era seu, mas, ignorante e mal informado que sou, sem desconfiar que o filme é uma adaptação de peça homônima que ele escreveu em 1998. Daí certo preconceito da minha parte por conta do título, digamos, assim… Vulgar. Mas quer saber? Há muito tempo, mas há muito tempo mesmo que eu não ria tanto no cinema. De modo que empurrei para a próxima semana o filme que iria escrever.

Dirigido por Felipe Joffily (Muita calma nessa hora), a trama, genuinamente carioca, mas universal, gira em torno de três amigos que só pensam em duas coisas inerentes àqueles que pertencem ao infame clube do Bolinha: bebida e mulher. Sim, é a história de Fernando (Bruno Mazzeo), Honório (Marcos Palmeira) e Afonsinho (Emilio Orciollo Netto), uma trinca de safados debochados que todas as noites se encontram no Bar Harmonia para colocar em dia seus dilemas, abrir o coração para desabafos e tecer teorias nada lisonjeiras sobre o sexo frágil. Uma terapia de birosca sempre acompanhada pelo garçom Seu Jorge (O próprio).

“Nós somos Constantinopla e elas os turcos”, diz Honório, o casado da turma, sem esconder a prepotência masculina. “Toda mulher com mais de trinta anos que nunca casou não pode ver um pedaço de pinto que fica louca”, emenda ele, um comunista à moda antiga, que, apesar da gabolice, acha que tem o controle da situação, mas desconfia que a mulher (Dira Paes) o esteja traindo.

Já Fernando faz o estilo romântico apaixonado, uma espécie em extinção que chora por causa da mulher que o deixou (Tainá Müller) e, enquanto tenta entender o que aconteceu, é assediado por uma Lolita (Laura Neiva) que mora em seu prédio de fazer inveja tanto a Nabokov, quanto a Stanley Kubrick. “Você poder dar chopinho, vinho ou Danoninho”, ensina um dos amigos, quando ele pergunta o que oferecer a uma garota que só tem 17 anos.

Amparada pela fortuna da família, “Fonsinho” sonha em um dia ser escritor, por isso passa noites, madrugadas adentro escrevendo o final de um livro que nunca termina e paquerando mulheres casadas, segundo ele, bem mais interessantes do que as solteiras e nesse ponto estou com ele e não abro mão. Para mim, as mulheres de aliança na mão fazem o estilo, recatada e impoluta, mas é um vulcão de desejo que entra em erupção quando o marido não está olhando. Vou confessar uma coisa para vocês, sempre tive fascinação pela mulher do próximo.

Mas enfim, “Fonsinho”  tem mania de comer putas, todas que o dinheiro fácil dele pode comprar, é um fetiche, quase uma doença, mas seu cartão de crédito sem limites não consegue ter o que mais deseja, o amor de Alana (Juliana Schalch), uma garota de programa quente que roubou seu coração, seu juízo e a mania de querer ser o que não tem o menor talento, ou seja, escritor. “A falta de amor não é bom nem na literatura, nem na vida. O amor tem que ser vivido”, ensina o tio experiente vivido por José de Abreu.

Meio Woody Allen, quase um Luís Fernando Veríssimo, 100% Marcelo Rubens Paiva o filme traz roteiro sincero, ágil, esperto, repleto de diálogos impagáveis, inacreditavelmente sujos, mas colocados de forma tão espontânea e natural que nem notamos. As atuações de Marcos Palmeira e Bruno Mazzeo estão impecáveis. Mas é Seu Jorge, com uma ponta de luxo quem rouba a cena. “Mulher que quando a gente tira a calcinha e não tem nada é quem nem kinder ovo sem a surpresa”, diz o personagem Fernando, explicando as suas predileções pelo sexo feminino com penugem e não raspadinho.

Ao misturar filosofia de boteco, com muita sacanagem e irreverência, É aí… Comeu? tem tudo para ser a grande comédia do ano. Dá até vontade de sair do cinema e levar a gatinha para se divertir. Mas como sou do tipo que não come ninguém, pelo menos quem eu quero, então… “Desce mais um aí garçom!”.

* Este texto foi escrito ao som de: Sou uma criança (Erasmo Carlos – 1989)

Rebel truce: A história do Clash

Documentário mostra a evolução do movimento punk a partir do Clash

Nunca fui de me escabelar pelo grupo britânico The Clash, como faz o jornalista, escritor e crítico de música Arthur Dapieve que, assim como eu, nem cabelo tem. Prefiro os Beatles, os Stones e o The Who. Mas admito que até hoje não prestei a devida atenção à banda, pelo menos o quanto ela merecia, por sua importância na cena musical, seja ela qual for. Claro, como todo fanático por música que se preza tenho em minha discoteca o clássico, London calling (1979), segundo especialistas, um dos 20 discos mais importantes da história do rock, e pode até ser mesmo, mas na minha discoteca básica não ficou entre os 50. E outro dia, de bobeira num sebo, achei baratinho o Combat rock (1982) e não vacilei, comprei. Afinal, should i stay or should i go é sensacional.

No mais, nunca entendi direito porque o grupo era classificado de punk, já que em sua cozinha sonora rolava uma salada picante de ska, reggae, rockabilly, o bom e velho rock ‘n’ roll , dub, funk e até, veja só, um pouco de jazz. Tudo bem, o primeiro álbum dos meninos, de 1977, pode até ter uma pegada genuinamente punk, com seu discurso político de rua, mas é só. Nada a ver com o estilo cru e agressivo dos Sex Pistols. Posso estar enganado, mas tem muito do Clash no Paralamas do Sucesso, é só comparar.

“Muito das pessoas que compraram este disco não gostava de punk, nem do Clash, mas sim por causa das músicas”, observou um jornalista que acompanhou de perto o movimento musical do final dos anos 70, no documentário, Rebel truce: the history of the Clash (2007), exibido outro dia na Sky, acho que no Multishow HD. 

Não sei quem dirigiu a fita, nem acho que seja um trabalho de peso assim, mas com certeza é um bom exercício para quem quer entender o que foi a onda punk e sua evolução, claro, tendo como prisma a trajetória do Clash. Pelo menos foi para mim, matando dois coelhos com uma paulada só. “O Sex Pistols fazia as pessoas bater a cabeça, o Clash dava um motivo”, comenta outro crítico de música, próximo dos integrantes da banda formada por Joe Strummer e Mike Jones, uma espécie assim de Lennon & McCartney, Jagger & Richards, do movimento. “Não temos nada a esconder”, diz um Strummer cheio de arrogância, à época do lançamento do primeiro trabalho.

Assim como o Aborto Elétrico aqui no Brasil, a seminal banda de Renato Russo que tirou do armário todos os punks de Brasília, a London SS foi a semente que germinou o Clash. No começo, era apenas um grupo de amigos entediados com a cena musical tomada pelo reggae e o glam rock, interessados em falar sobre garotas, dinheiro e trabalho, temas inerentes da classe operária. Incentivados por gente como Patti Smith, na crista da onda com o impactante, Horses (1975) e a turma dos Ramones que, volta e meia fazia shows em Londres, eles foram à luta. “Eles tinham profundidade, autoridade e carisma”, diz um dos DJs, comparando o Clash com a banda de Joãozinho Podre.

O mais legal de Rebel truce é a radiografia feita de cada álbum, com seus acertos e erros, destacando a importância crua do disco de estreia, passando pela amplitude sonora de London calling, à megalomania suicida de Sandinista (1980), na época um álbum triplo que foi um retumbante fracasso. Em 2003, um ano depois da morte de Joe Strummer, a banda entraria para o Rock & Roll Hall of Fame, com certeza um lugar onde, punk ou não, poucos pisam.

* Este texto foi escrito ao som de: London Calling e combat rock (The Clash – 1979/1982)

Clara Arreguy lança Rádio Beatles

Beatlemania é só um dos temas do novo romance da jornalista e escritora mineira

Conheço a jornalista Clara Arreguy há pelo menos cinco anos, talvez mais, acho que bem mais mesmo e, se tem uma coisa que admiro nela é o senso de justiça e humanismo. Certa vez, me meti numa encrenca daquelas e, mesmo não tendo vocação para João Batista, pediram minha cabeça numa bandeja de prata por algo que não fiz, que nem me deram a chance de defender. Pois ela foi minha advogada de defesa, meu anjo da guarda e protetora, me salvando daquela roubada com dignidade e coragem. Nunca me esqueci disso e hoje ela tem um grande amigo para sempre.

Mas além de justa e humana, essa atleticana de alma inquieta é de uma sensibilidade ímpar, com um ouvido que é uma beleza quando o assunto é música. Batemos altos papos sobre Chico Buarque, Clube da Esquina e, evidentemente, Beatles, uma paixão em comum. E é ao som do fab four que ela lança mais um livro, Rádio Beatles, título da Outubro Edições que será lançado, hoje, a partir das 19h, no restaurante La Parrilla (Brasília Shopping – W3 Norte).

O enredo gira em torno de Caio, um engenheiro cinquentão que, ao chegar à metade de sua trajetória existencial, resolve olhar pelo retrovisor do tempo e questionar tudo que viveu até ali. Para ele, grande fã dos meninos de Liverpool e pai de três filhos músicos, frutos de um casamento de três décadas, sua vida seria completamente diferente, talvez melhor e mais interessante se tivesse seguido os caminhos da arte.

Suas reflexões sobre o passado e um presente que poderia ter sido e que não foi, como diria aquele verso de Manuel Bandeira, se confrontarão com episódio determinante envolvendo seu filho caçula. Autora de outros quatro livros – Segunda divisão (Lamparina, 2005), Tempo seco (Geração Editorial, 2009), Catraca inoperante (Outubro, 2011) e “Fafich” (Editora Conceito), Rádio Beatles, que conta com orelha de Fernanda Takai, do Patu Fu, é o terceiro romance de Clara Arreguy, obra que, segundo ela, fala sobre paixão, mudanças na maturidade e, claro, música.

“Gostaria que os leitores viajassem na mesma onda que o personagem Caio: com o coração e com coragem”, destaca a autora que confessa, não chega a ser uma beatlemaníaca, como o protagonista de sua história, mas mergulhou fundo nas músicas e trajetórias dos integrantes da maior banda de rock de todos os tempos. “Não sou fã no sentido de saber tudo, ter tudo, ver tudo ou colecionar tudo, mas gosto da banda desde sempre, minha família é grande e os meus irmãos mais velhos já ouviam quando eu comecei a dar por mim”, conta Clara, que na adolescência andava de roupas brancas, cabelos escorridos e oclinhos redondos só para parecer com seu ídolo, John Lennon.

A ideia para o seu mais novo romance nasceu, veja só, ouvindo música, ao som da banda cover dos Beatles, em BH, Hocus Pocus, da qual faz parte seu irmão Beto. “Estava assistindo ao show quando pensei em escrever sobre um beatlemaníaco que amasse a música, mas que, por escolhas da vida, não tivesse seguido este caminho. Assim surgiu o personagem Caio”, recorda.

Bom, sei qual é o estilo do texto da autora, não apenas porque já trabalhamos juntos no passado, mas porque também tive a oportunidade de ler seu primeiro romance, o divertido Segunda divisão, obra que, como boa torcedora que é ela narra os dramas e surpresas de uma decisão de Campeonato de Segunda Divisão. Tudo pela ótica de uma foca (jornalista em início de carreira) vidrada por futebol.

Lembro que me diverti muito e com certeza vou deleitar-me com seu mais recente trabalho, quando o tiver em mãos. Primeiro porque sou doente pelos Beatles. Segundo porque sou amante de boas histórias.

* Este texto foi escrito ao som de: White Album (The Beatles – 1968)

A vingança de Mad Max

Filme projetou Mel Gibson para o estrelato

Não sei se Mad Max foi um dos primeiros filmes australianos, mas com certeza é um dos mais importantes, responsável por colocar o país dos cangurus e dos aborígenes na trilha das grandes produções cinematográficas. Mas por ironia do destino a fita, exibida outro dia no canal TCM, da Sky foi feita com poucos recursos e tem todo jeitão de trabalho independente. Também pudera, realizado com parcos US$ 400 mil, o longa-metragem faturou mais de US$ 100 milhões, enfim, é até hoje a maior bilheteria do cinema australiano.

E não só isso. Além de catapultar de vez a carreira do diretor George Miller (também de As bruxas de Eastwick, Happy feet) revelou o ator norte-americano Mel Gibson para o mundo. E gozado, assim como os Bee Gees, sempre achei que o astro das telonas era australiano. Não é, apenas viveu bastante tempo por lá, assim como os meninos dos Bee Gees, ingleses da Ilha de Man.

Ele é o louco do título, um patrulheiro rodoviário de futuro caótico e niilista que, levado por motivação insana, quer vingar a morte do filho e da mulher, os dois vítimas de uma gangue de delinquentes formada por psicopatas violentos e suas motos turbinadas. Olhando por um prisma referencial, não há como não se lembrar da afamada turma de Alex, o demente de Laranja mecânica 1971, assim como dos comparsas de Marlon Brando em O selvagen (1954).

O cenário é de desolação total, com sua estética do caos reproduzida e ambientada nos ermos desertos da Austrália, um lugar onde as armas e estranhos carros ditam as leis da estrada e da vida. Não duvide, mas estamos diante do colapso da humanidade, causado sabe-se lá como e porque, mas isso não interessa muito não. De uma simplicidade contagiante, com suas perseguições em fúria filmadas nas altas estradas, a trama fala de vingança, o principal combustível que move o jovem Max à sua jornada de loucura e violência. Mel Gibson está estiloso com seu figurino dark de couro pilontando um V8 turbinado, mesmo que seja estranho, de dá vertigem mesmo ver o volante do lado direito, uma das particularidades da Austrália, ex-colônia britânica.

Aliás, se tem uma coisa que sobra no filme é violência, com cenas de estupro, mutilações no estilo de batalhas medievais urbanas, pedaços de mão voando ao léu e talvez aquela que seja uma das mais famosas sequências veladas de acidente no cinema, a que mostra os sapatinhos infantis e uma bolinha de criança quicando no asfalto.

Bom, depois de Mad Max muitas coisas aconteceram nas vidas de Mel Gibson e do diretor George Miller, que rodou outras duas sequências da história, uma em 81 e outra em 85, este último com a diva Tina Turner na pela de uma guerreira gladiadora. Claro, a primeira, filmada em 1979, sem sombra de dúvida, é a melhor da tríade, insuperável. Resta saber agora se a próxima sequência que deve ser lançada no ano que vem, irá superar as expectativas dos fãs.

Bem, acho meio difícil já que o diretor George Miller não irá contar com Mel Gibson não nova produção da saga e sabe lá por quê. Na verdade o ator anda meio louco de pedra depois que invocou com religião e fez aquele filme violentíssimo sobre os últimos momentos de Cristo. Até andou batendo em namorada. Mas tudo bem, não teremos Mel Gibson, mas vamos contar com a beleza da linda Charlize Theron. E só por ela vou ver o filme.

* Este texto foi escrito ao som de: Who’s next (The Who – 1971)

Minha afilhada e o bruxinho Harry Potter

Graças ao bruxinho aí minha afilhada agora não pára de ler…

Não sei vocês, mas eu e minhas duas sobrinhas não perdemos um capítulo do iCarly, programa infanto-juvenil do canal Nickelodeon, da Sky. Tudo bem, a mais velha, minha afilhada, gosta mais do Silvio Santos do que da turma de Seattle, de modo que, quando os horários chocam é aquela confusão. Mas de boa, porque eu também gosto do eterno homem do baú.

Mas porque mesmo estou falando das minhas sobrinhas e do iCarly?! Ah, sim, lembrei, lembrei! É porque outro dia vi uma piada no seriado sensacional. Foi quando o Spencer, o irmão descolado da Carly que ganha a vida como artista plástico, ficou revoltado ao ler uma crítica negativa sobre o seu trabalho no jornal impresso da cidade. Pior, equivocadamente, sabe-se lá como, o diário deu uma nota falando de seu falecimento. Igualmente indignada, a Carly pergunta:

– Então, Spencer, agora você vai reclamar sobre isso com o pessoal do jornal, certo?

– Naaaaaaaaaaaaaaaaão, claro que não, ninguém lê mais jornal hoje em dia!

Oportuna, irreverente, a anedota é uma cutucada na geração hi-tech de hoje, inclusive a própria turma do sitcom teenage, que só quer saber dos apetrechos tecnológicos e não vivem sem eles. Daí o susto que levei ao perceber que minha gatinha de 12 anos, também invocada com as parafernálias do futuro, finalmente desabrochou para leitura e tudo graças ao bruxinho Harry Potter. Sim, graças ao personagem da escritora britânica J. K. Rowling ela agora deu para ler tudo que cai em suas mãos.

A guria já está lendo o terceiro livro da saga, Harry Potter e o prisioneiro Azkaban e, outro dia, na banca lá perto de casa, me fez comprar umas cinco revistas de curiosidades e não sei mais o quê. Fazer o quê, né? Comprei e com muito gosto. Nesse último sábado mesmo, ela passou boa parte do dia devorando as revistas. Eu lendo o Jorge Amado e ela uma tal de Mundo estranho. Lembrei-me do tempo em que eu lia as revistas Capricho com a minhas primas.  

Enfim, que bom que Harry Potter e seus amigos cheios de sortilégios estão despertando o interesse da garotada pela leitura. Afinal, essa é a grande função dos bons livros. Eu mesmo, quando tiver um tempo sobrando, vou pegar um deles para ler. Recordo que comecei a gostar de leitura para valer devorando os livros da série Vaga-Lumes, lembra? A ilha perdida, O escaravelho do diabo, O rapto do garoto de ouro, Os passageiros do futuro foram algumas histórias que fizeram a minha cabeça na pré-adolescência, foi quando me apaixonei de verdade pelos livros, pela leitura, pela literatura.

Depois vieram os clássicos Alice no país das maravilhas, O pequeno príncipe e a encantadora e ecológica história de Tistu, O menino do dedo verde, para mim, a melhor de todas. Na sequência foram as tramas de aventuras como A ilha do tesouro, Vinte mil léguas submarinas, A guerra dos mundos e tantas outras. De lá para cá não parei mais de ler e quero que as minhas crianças tenham essa mesma obsessão que tenho pelos livros, pela leitura.

Internet, computador, Iphone, Ipod, Ipad, Iqualquer coisa, tudo isso é bacana e interessante, mas nada tira a magia dos livros, do cheiro dos livros, do papel impresso. Por isso que não troco minha estante mágica por nada no mundo, na vida e ensino isso para as minhas sobrinhas. Até já mandei fazer uma estante bem bacana para elas organizarem os livros e filmes que ganham. Estante bonita é estante cheia. Cheia de bons livros para ler e filmes para ver.

* Este texto foi escrito ao som de: Restart (2009)

Videoteca Básica (17) O sétimo selo

A morte mítica de Bergman: Discurso melancólico, mas eloquente….

O cineasta sueco Ingmar Bergman é o poeta visual da alma. E suas angústias existenciais foram externadas de forma perturbadora numa filmografia que transcende o bem e o mal, o certo e o errado, enfim, todas essas bobagens sobre o céu e o inferno, a salvação e a vida eterna, mesmo que essas dualidades tenham surgidas de forma ironicamente simbólicas no sinistro, O sétimo selo, para mim, de longe, seu melhor trabalho. Sim, se um dia eu for para uma ilha deserta, sei lá, até mesmo Marte ou a Lua, e puder levar apenas um filme escolheria este.

E por quê? Ora, saiba a razão acompanhando no CCBB, até o dia 22 de julho, mostra com a filmografia deste mestre da sétima arte. O sétimo selo, evidente, está entre os 50 títulos exibidos no encontro. Curiosamente, Bergman começaria a carreira no teatro, que sempre foi a sua grande vocação artística e o cinema denso que construiria seria calcado por essa arte milenar, daí a narrativa simples, mas permeada por discurso incisivo, mas eloquente. Para Bergman, as palavras tinham mais força do que a imagem e vendo os seis filmes entendemos o porquê. Por isso Woody Allen, um admirador ferrenho do cineasta sueco, valoriza tanto as pretinhas em sua obra autoral.

Rodado em 1956, a partir de um texto que escreveu para o palco, o filme é uma obra-prima do início ao fim. A primeira vez que vi o filme foi na faculdade e de lá para cá minha admiração passional por Bergman nunca mais morreu. Aliás, para um garoto de formação católica que morria de medo da morte e que depois passaria negar a existência de deus, a fita cairia como uma catarse existencial, suscitando mais dúvidas do que esclarecimentos, diga-se de passagem, o mesmo drama que atormenta o personagem central da história.

Na trama, Max Von Sydow é Antonius Block, um cavaleiro medieval que passou dez anos lutando nas cruzadas e ao voltar para sua terra natal, a Suécia, encontra um cenário de terror e desolação, sofrimento e dor com morte espalhada por todos os lados devido a Peste Negra. “Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo houve um silêncio no céu por cerca de meia hora. E vi sete anjos diante de Deus e a eles foram dadas sete trombetas”, começa o filme, com a citação bíblica do livro do Apocalipse.

Ele segue viagem solitariamente com seu fiel escudeiro rumo ao lar, na esperança, depois de tanto tempo, ainda encontrar a esposa, mas, num belo dia, se depara com a morte mítica, chacoalhando seus ossos, foice numa das mãos, a ampulheta do tempo na outra. “Você está preparado?”, ela provoca. “Meu corpo sim, mas eu não”, devolve o cético Block.

Na tentativa de ganhar tempo ele a desafia para uma partida de xadrez, dando início a uma das mais inesquecíveis sequências do cinema.  “Bem apropriada, não acha?”, diz a morte, ao ver que jogará com as pedras negras.

Existencial até o osso, O sétimo selo, com toda sua simbologia bíblica e medieval, surge como uma parábola do nosso tempo sobre a dúvida em relação à existência de deus e o sentido da vida. Questão que o tempo todo atormenta o cavaleiro Antonius, sempre em busca de respostas. “Você nunca cansa de questionar?”, ironiza o Anjo Negro. “O vazio é um espelho que reflete no meu rosto”, diz, diante da imagem de um Cristo crucificado com face perturbadora. “É tão inconcebível tentar compreender Deus? Porque ele se esconde em promessas e milagres que não vemos?”, continua Block, como se estivesse num fosso de dúvidas.

A cena final com a morte dançando sua valsa macabra junto a suas vítimas é uma das mais belas do cinema. E também uma das mais assustadoras. Filmada de uma forma por Bergman, dentro de intensa fotografia, preta e branca, como se fosse borrões espectrais de uma existência. O que afinal acaba sendo a nossa passagem por aqui.

* Este texto foi escrito ao som de: Pink moon (Nick Drake – 1972)

Triste aqui dentro de mim

“Por onde andam os pássaros do amor?/Os seguirei aonde for”

E essa dor que persiste

Nessa noite tão triste

Aqui dentro de mim

Solidão que insiste

Esse vazio que existe

Aqui dentro de mim

Por onde andam os pássaros do amor?

Me diz, me diz que os seguirei aonde for.

Porque já não sou mais o mesmo e não vou mesmo

Chegar até o fim, sem você aqui dentro de mim…

E não estou feliz, bobo é quem me diz,

Verdades que não condiz…

E esse desprezo que resiste

À razão e insiste,

Machucar aqui dentro de mim

Uma dor que persiste

Nessa noite tão triste

Aqui dentro de mim

Será que existe luz no fundo do poço?

Me diz, me diz, sou o mesmo moço

Ou um fantasma sozinho aqui

Enquanto você me trata assim?

Sem você sou menos do que nada,

Nada é como você me faz sentir nessa tortuosa jornada…

* Este texto foi escrito ao som de: Valtari (Sigur Rós – 2012)

Prometheus e a origem de tudo

Em novo filme Ridley Scott revisita uma de suas crias mais famosas

O que é o cinema senão a arte de nos surpreender. Assim, sendo, posso dizer de boca cheia que o cineasta inglês Ridley Scott me surpreendeu mais uma vez com o seu novo projeto, Prometheus. E olha que não sou assim de me deslumbrar fácil com o estilo do diretor. Para falar a verdade, demorei bastante tempo para deixá-lo descer goela baixo. Mas desceu.

Comecei a ser mais tolerante com ele depois de Gladiador (2000), onde, fiel às suas bases, o artista britânico faz uma homenagem aos grandes épicos do cinema hollywoodiano, entre eles, claro, ao maior de todos, Ben-Hur. Depois, com o intimista Thelma & Louise (1991). Mas antes, – e eu nem me lembrava mais disso – teve o icônico, Blade Runner – O caçador de androides (1982), para mim, um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos, tão importante quanto ou mais do que 2001: Uma odisseia no espaço.

Contudo, a gênese de tudo está em Alien – O oitavo passageiro (1979), um filme que eu nunca vi por nojo daquela estética gosmenta, dark e perigosa que paira o tempo todo sobre a trama e que seria uma espécie de prisma para os filmes do gênero que viriam. E é justamente nessa construção atípica do futuro que está a grande contribuição de Ridley Scott para o cinema hi-fi e no qual está inserido Prometheus.

Filmado numa Islândia desolada, totalmente deserta, um lugar onde Scott, outrora um homem de sucesso da publicidade, explorou com propriedade sua condição de esteta da imagem (preste atenção na epifania visual da abertura), o filme é uma reflexão niilista sobre a origem de tudo, da vida, de deus, da raça humana, daí a referência no título mais do que sugestiva ao mito do deus grego que, desafiando “forças superiores”, roubou o fogo do Olimpo, sendo condenado o resto da vida a padecer preso a uma rocha, com o fígado sendo devorado, dia e noite, por um abutre.

No distante ano de 2093, a nave Prometheus chega a uma nova Lua com 17 tripulantes a bordo, todos em busca de respostas para aquelas clássicas perguntas existenciais que ao longo dos séculos atormentam a humanidade. Afinal, quem somos, de onde viemos e para onde vamos? Eles dormiram por dois anos durante a viagem e agora, em terra firme, vão a cata de elementos substanciais que deem cabo da origem de tudo sob o comando do casal, Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green).

Mas nada passa despercebido aos olhos da comandante, Meredith Vickers, a sempre estonteante Charlize Theron. Ela é a filha do magnata e idealizador da expedição espacial, Peter Weyland (Guy Pierce) e vive às turras com David (o excelente Michael Fassbender), um ser robótico andrógeno aparentemente sem alma que é a mais perfeita peça de seu criador e, por isso mesmo, mais próximo do filho que ele nunca teve.

Subestimado pela tripulação por ser uma máquina, portanto, “inferior” aos seres humano, David urdi em surdina sua vingança sabotando a missão ao surgir como a versão humanoide do nefasto computador Hal-9000, de 2001 – Uma odisseia no espaço. Os motivos que o levam a fazer isso, só vamos saber na próxima sequência do filme, se houver uma, mas desde já fica registrado aqui, nas entrelinhas, o eterno embate entre homem e máquina, tema pertinente em vários filmes do gênero, entre eles os icônicos, 2001 – Uma odisseia no espaço, e claro, Blade Runner, do próprio Ridley Scott, com os inesquecíveis replicantes.

Igualmente sombrio, mas não tão sujo e caótico quanto seus trabalhos anteriores, do ponto de vista estético, evidentemente, Prometheus mergulha o espectador numa teia de terror e suspense futurístico refletindo sobre assuntos metafísicos contundentes como a crença, o sentido de uma religião e a existência de um ser superior. Mas Ridley Scott faz isso sem abrir mão do espetáculo visual até porque em suas mãos, os efeitos especiais ganham vida inteligente. Uma prova está na horripilante sequencia em que a bióloga Liz Shaw extirpa de seu corpo, o feto da monstruosa criatura alienígena.

“Grandes coisas têm pequenos inícios”, diz um dos personagens secundários da trama. E não duvide disso ao ver Prometheus.

* Este texto foi escrito ao som de: I might be wrong: Living recording (Radiohead – 2001)

Existem mais de 500 fobias, qual é a sua?

Medo de anões é uma das fobias que a humanidade sofre…

Uma pesquisa realizada, recentemente, nos Estados Unidos – só podia ter sido lá mesmo -, revelou que há espalhadas pelo planeta mais de 500 fobias, de modo que faço a pergunta cretina, à queima-roupa: qual é a sua fobia? Bem, a minha é aversão ao desprezo, mas isso não chega bem a ser uma fobia e sim birra de gente preconceituosa e esnobe. Então descobrir que sofro de gamofobia, ou seja, medo de casamento. E tenho mesmo. Não me vejo nem aqui, nem em Marte, casado com alguém. Primeiro porque sou egoísta pacas. Segundo porque liberdade para mim é uma coisa muito séria, sagrada. Não divido o espetáculo da minha solidão com ninguém.

Mas eu nem sabia que sofria desse treco. Descobri, vendo, no último sábado, o programa Alternativa Saúde, da GNT, apresentado pela atriz Patricya Travassos, lembra dela? Pois bem, há um monte de gente doente por aí e também uma porção de paranoias, algumas, de tão absurdas, chegam a ser inacreditáveis. Quer ver? O ator Billy Bob Thorton (A última ceia), por exemplo, tem fobia de móveis antigos, um troço tão esquisito que nem nome tem.

Minha afilhada e um primo têm pavor de anão, eles nem sabem, mas sofrem de nanofobia. Segundo ela, a minha sobrinha, o que dá agonia são os braços dessas pequenas e bizarras criaturas. Vai entender. Bom, pelo menos de uma coisa tenho certeza, ela nunca vai trabalhar em circos. Nem quem tem coulrofobia, enfim, fobia de palhaço.

Já o meu irmão gêmeo, que é mais normal e ajuizado do que eu, morre de medo de galinhas. A patologia dele se chama aletrorofobia e, em seu caso, fácil de explicar já que uma galinha lhe deu uma carreira daquelas quando ele era pequeno. Tudo porque, na sua infinita ingenuidade, achou que estava tudo bem em brincar com um dos pintinhos da bichana de penas. Não estava.

É meu chapa, a coisa é séria. Em alguns casos, triste porque como deve viver, por exemplo, um camarada que sofre de biofobia, ou seja, medo da vida? Não vive, né? Ou ainda autofobia, medo de si mesmo, que pode ser encarada também como ausência de vaidade.  Já quem tem sexoafobia, medo de sexo, de fato, tem problema, é um doente. E quem sofre de hadefobia e calipsefobia, respectivamente medo de inferno e do apocalipse basta só jogar a bíblia no lixo e não passar em frente de nenhuma igreja.

O assunto é tão cabeludo que o cineasta Kiko Goifman resolveu explorar o tema no pseudo-documentário, Filmefobia, vencedor do Candango de melhor filme de 2008, no 41º Festival de Brasília. Eu achei a obra um tanto quanto pretensiosa e bizarra, para ser sincero não gostei nem um pouco, mas acho que é um projeto necessário, até pela salutar discussão sobre o que é verdade e o que é mentira no cinema.

O respeitado crítico de cinema, Jean-Claude Bernardet é um pesquisador que explora as fobias de 20 pessoas, entre elas a do próprio diretor Kiko Goifman, que não pode ver sangue. Durante as filmagens ele desmaiou duas vezes, mas felizmente voltou do espasmo a tempo de dizer: “corta”.

O início do filme-documentário é medonho e me fez lembrar minha afilhada. Começa numa ilha deserta onde uma câmera distante captura a imagem de duas pessoas lutando na areia. Uma menor do que a outra, passando a ideia de um adulto e uma criança brincando, mas logo constatamos que se trata de um anão que, como, um daqueles diabinhos no grande circo de Roma, nos tempos dos césares, atormenta a vida de um gladiador.

Como diz aquele provérbio sueco: “O medo atribui às pequenas coisas, grandes sombras”.

* Este texto foi escrito ao som de: Billion dollar babies (Alice Cooper – 1973)