Cap. 1 Um “ET” nos arredores de Londres

O número 40 da Stansfield Road, o da esquerda, era a cada onde David Bowie nasceu em 1947...

A parteira pegou o bebê e, como quem olha para um extraterrestre, sentencia: “Essa criança já esteve na Terra antes”. Espantada na hora com a frase, mais tarde a mãe lembraria assim do episódio: “Achei uma coisa bem estranha, mas a parteira parecia bem firme nisso”. Então a enfermeira que ajudaria no parto pegou o recém-nascido para verificar se havia cinco dedos em cada mão, cinco dedos em cada pé. Ao constatar a perfeição da pequena criatura branca como a neve, quase albina, observa: “Era um bebê lindinho, sempre sorrindo e bem tranqüilo”.

Bem, era uma manhã de quarta-feira de 1947, em Stansfield Road, Brixton, bairro localizado no sul de Londres. O calendário da sala marcava dia 8 de janeiro. A maioria das pessoas que ali estavam nem perceberam, mas acabava de nascer a persona de Ziggy Stardust, porque a criança em questão era ninguém menos do que David Jones ou, melhor dizendo, David Bowie, o camaleão do rock.

Só que o mito seria reencarnado de vez, para sempre, apenas 25 anos depois, com aquele mítico disco de 1972. Por enquanto seguiremos os primeiros anos de vida do artista, retratado na biografia Bowie, lançada no Brasil ano passado. Escrito pelo jornalista Marc Spitz, a obra chegou às livrarias de todo o país pegando carona na autobiografia do guitarrista dos Stones Keith Richards, Vida. Outros livros do gênero como a trajetória dos Doors e do Elvis, assim como do Led Zeppelin, podem ser facilmente encontradas ao lado desse registro nas prateleiras.

Conforme prometido, retorno a série de apontamentos sobre capítulos de biografias de estrelas do pop rock. Talvez a próxima seja a do mago das guitarras Jimi Hendrix. Não sei.

Segundo resenhas que saíram na mídia na época do lançamento de Bowie, o livro é fraco porque Spitz, jornalista especializado em rock e cultura pop, não aprofundou no lado mais escuro da carreira do artista. As partes, digamos mais obscuras e pesadas da vida de um dos expoentes do glam rock. Mas alguma coisa de nada é bem melhor do que nada, certo? Ou seja, para quem não tinha nenhuma informação sobre o cantor britânico além dos seus cinco discos iniciais e o etéreo Low, álbum de 1977 realizado em parceria com Brian Eno, o livro vem sendo uma grande revelação, uma importante referência. Pelo menos estou me tornando mais fã dessa andrógena figura. Vou lá pelo capítulo 10 e estou adorando cada página lida.

O único porém que faço com relação à biografia, lançada no Brasil pela editora Benvirá, é que, em dados momentos do livro, Spitz tenta fazer literatura ou, no mínimo jornalismo literário ao entrelaçar as histórias de Bowie com pequenos textos reflexivos e remissivos de sua vida. Geralmente com episódios que têm alguma relação com sua devoção ao artista. Às vezes é interessante. Às vezes não. Foi o mesmo processo utilizado pelo biógrafo do Led Zeppelin Mick Wall e confesso que não tenho muito saco para essas “literatices”, não, na verdade uma grande chatice, sem querer fazer rima.

No primeiro capítulo, como é de praxe, Marc Sptiz mergulha nas raízes de David Bowie, quer dizer, ainda David Jones, contando um pouco sobre quem foram seus pais, ambos típicos adolescentes do pós-guerra. A mãe, Peggy, já havia tido uma primeira criança e trazia nos genes a marca da esquizofrenia. Estigma que mancharia para sempre a família Jones de forma diretamente com a doença mental do meio irmão mais velho de Bowie, Terry.

Bowie com Win Butler, líder da banda canadense Arcade Fire, numa apreseentação em 2005, em NY...

O pai, filho de um sapateiro com uma operária de tecelagem, era um grande amante do cinema e mais tarde, com a herança deixada pela família, investiu parte da fortuna no então (pelo menos naquela época), imprevisível mundo do entretenimento.

Mais tarde, essa sensibilidade para o universo das artes do pai acabaria influenciando de forma sintomática o jovem David Jones. E é isso. A primeira parte da biografia de Bowie se prende à rotina dos primeiros anos do casal Jones, dois jovens que não eram muito ligados ao pequeno David. “A vida na casa de número 40 da Stansfield Road era confortável, mas não exatamente musical”, escreve Sptiz. “O excesso de cuidado não era o forte do casal. (…) Eles passavam a noite ouvindo rádio ou lendo os jornais em silêncio”.

Interessante mesmo é o prólogo da biografia, no qual o jornalista dá um salto vertiginoso no tempo e reporta o leitor para o ano de 2005, numa noite do festival de música e cinema CMJ. Nesse dia, a badalada banda de Montreal Arcade Fire sobe ao palco do Radio City Music Hall, do Madison Square Garden, em Nova York, para interpretar a música Wake up, um dos hits do disco de estréia, Funeral.

Ainda apresentando sinais de debilitação, por causa de recente cirurgia, o artista que revolucionara a cena cultural nos últimos 50 anos, meio que ressurge das cinzas trazendo à tona sua marca registrada, ou seja, a “vampirização” do que há de melhor do que passa ao seu redor. Prática que, ao longo desses anos todos, tem rejuvenescido sua música e, por tabela, seu espírito também.

“Lá, no palco, com Bowie tomando a liderança na música mais conhecida do Arcade Fire, Wake up, o camaleão pareceu colocar sua vulnerabilidade, sua própria impermanência e a imortalidade de sua música, lenda e influência num tipo de ordem produtiva novamente”, escreve o biógrafo.

* Esse texto foi escrito ao som de: The man who sold the world (David Bowie).

Chá-de-bebê o “cassete”!

Ok, a criança pode ser uma gracinha, mas não me venha com essa história de chá-de-bebê...

Ontem abri a caixa do correio e tomei um susto. Não tinha nenhuma aranha, lagartixa ou coisa do tipo. Nem mesmo contas para pagar, acreditem. Apenas um mero convite. Isso mesmo, um minúsculo, hediondo e crasso convite. De tão pequeno que era chegava a ser insignificante. Mas quando abri fiquei pasmo, turvo, diria que branco de susto. E explico o motivo. A mensagem, grafada em delicada letra e enfeitada com arabescos angelicais, referia-se a um “chá-de-bebê”. Isso mesmo, de um tal David Henrique, que nem chegou ainda.

Bem, você sabe como funcionam essas coisas, certo? O casal, feliz da vida (sempre é nos dois primeiros anos de vida matrimonial) casa e, quando está prestes a ganhar a criança, gentilmente convida você, que não tem nada a ver com o peixe, ou melhor, com o pimpolho, a pagar as contas. Isso mesmo, brinquedos, aquele macacãozinho descolado, a bicicleta bacana, as sandalhinhas fofinhas e até a fralda que o pestinha está usando, tudo por sua conta.

Ah, não, fralda não, minha mãe explica, ensina que para fralda já tem um evento específico que o “chá-de-fralda”. “Daí você só tem que levar a fralda, entendeu?”, explica a matriarca.

Imagina, você está lá, de bobeira em seu santo lar, lar doce lar e, de repente, à queima-roupa, é convocado a botar a mão no bolso e comprar um presente que nem mesmo tem o direito de escolher para uma pessoa que nem conhece. É, porque nesses convites cretinos já vem especificado o presente que escolheram você dar. Acho isso, no mínimo, uma falta de educação. Uma deselegância. Chega a ser antipático. Qualquer dia desses vou organizar o chá-de-imbecis.

E não é só isso. Ainda tem o tal de “chá-de-panela”, que é você mobiliar a casa daquele casal hiper feliz nos dois primeiros anos todinha. E funciona. Tenho um primo que fez isso recentemente e ganhou tudo, mas digo tudo mesmo. Ele não comprou nada, nem uma rolha de pia. Não gastou nem com o porta-sabão, entendeu? E nem importa se eles não gostaram do liquidificador que era de uma marca vagabunda ou se a televisão era pequena. O simples fato do mandrião não ter que desembolsar nada o faz dele safo desses contratempos. É ser muito cara-de-pau dos grandes. Ou são as pessoas que compram os presentes muito “songamonga”, trouxa mesmo. Numa boa, qualquer dia desses saio dando panelada em gente por aí.

Qualquer dia desses saio dando panelada em cretino por aí...

Veja bem, não tem problema algum em fazer essas gentilezas para uma pessoa que você gosta, tem apreço e carinho. E olha que adoro crianças. Mas é preciso estar à vontade para fazer isso, certo? Eu jamais mandaria um convite desse tipo para alguém. Ainda mais para os meus amigos. Gosto deles o bastante para constrangê-los assim. Ainda mais porque trata-se de uma obrigação minha. Ninguém é obrigado a comprar fralda para filho de ninguém. Ao menos que se sinta à vontade para tanto, repito.

Com o dinheiro que vou gastar com bebidas, salgadinhos, convites e outras baboseiras do tipo gasto com os presentes que obrigaria as pessoas a comprarem, não é verdade?!

Quem me conhece sabe que sou uma das pessoas mais generosas da face da terra. Me desculpem pela falta de modéstia. Mas é a mais pura verdade. Só não sou mais generoso por falta de grana mesmo.

Adoro dar presentes, sobretudo para as pessoas que amo e admiro. É algo que me dar prazer, é quase um hobby, sem falar que é uma prova de carinho nobre, quando manifestado com sinceridade. Porque você perde o seu tempo escolhendo o presente certo, para pessoa certa, aquela pessoa especial, gasta o seu dinheiro (que nesse caso nem vale a pena mencionar quando a pessoa é muito querida) e ainda não ganha nada em troca.

E o certo é assim mesmo, ou seja, de não ganhar nada em troca já que a satisfação é sempre sua de fazer alguém feliz, de lembrar que ela é importante para você, de manifestar que sente saudades. Quer prova maior de afeição? Mas pelo amor de Jesus Cristo, não me venha com essa história de Chá-de-panela, bebê ou escambal. Chá de fralda o cacete e ponto final.

* Esse texto foi escrito ao som de: Herman’s Hermits Greatest Hits (Herman’s Hermits).

A cavalaria fordiana, o 1st de uma trilogia!

O cineasta John Ford reiventou o faroeste, gênero cinematográfico norte-americano por excelência!

Vi por esses dias Sangue de heróis, um dos poucos filmes do diretor John Ford que não consegui assisti na bacana mostra que teve no CCBB Brasília, ano passado, só com longas do diretor norte-americano. O evento, como diria Nelson Rodrigues, lotou todos os dias, com gente escorrendo pelas paredes, pingando dos lustres. Uma loucura, loucura! Parecia a beatlemania. Era fordmania, bem ali, debaixo do meu nariz. Depois o encontro seguiu para o CCBB de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Dirigido em 1948 pelo cacique da Irlanda (os pais de Ford eram irlandeses), a obra faz parte da trilogia sobre cavalaria do renomado cineasta. Os outros dois são Legião invencível (1949) e Rio Grande (1950). Confesso, escancaradamente, que meu entusiasmo pelo título se deve mais pela presença do ator John Wayne, que adoro bastante, do que pelo mestre John Ford. O que é uma bobagem já que a carreira de um está intrinsecamente ligada a do outro. Com um detalhe, Wayne sempre teve uma dívida enorme com Ford que, ao praticamente reinventar o faroeste, o gênero norte-americano por excelência, forjou a figura mítica de John Wayne. Mas isso é outra história.

O roteiro de Frank S. Nugent é bem fraco, mas traz nas entrelinhas alguns elementos que marcariam o estilo do diretor como o humor e uma preocupação quase obsessiva pela moral dos personagens, construídos com esmero pelo diretor. Isso diz respeito tanto aos protagonistas quanto aos coadjuvantes. Embora não seja o herói da trama, o protagonista de Sangue de heróis, é Henry Fonda, um dos atores preferido de Ford junto com John Wayne. Aqui ele é o arrogante, afetado e cabeça-dura coronel Thursday, o novo comandante do Fort Apache, conglomerado militar em crise por conta de conflito com os índios da área.

Henry Fonda e John Wayne em Sangue de heróis, o primeiro filme de uma trilogia fordiana sobre a cavalaria...

O atrito com os indisciplinados e engraçados soldados (e aqui entra o conhecido senso de humor do diretor) é inevitável, situação que se complica quando a filha Philadephia (Shirley Temple) se apaixona pelo melhor cabo do pedaço Michael O’ Rourke (John Agar). Jonh Wayne encarna o capitão York, experiente militar que usa e abusa de sua sabedoria na luta contra os apaches. Ele só não consegue driblar a teimosia do seu superior, que acabará sendo derrotado pela soberba, num desfecho exemplar.

Recheado de cenas de aventura, Fort Apache, nome original da fita, conta com cenas marcantes, entre elas as sequências em que a câmara corre lado a lado com a cavalaria em fúria. A paisagem desoladora e imponente do Oeste norte-americano é captada de forma telúrica e gosto bastante da atuação de Henry Fonda, que chegaria ao ápice da interpretação sob a batuta do mestre em As vinhas da ira, obra de 1940 adaptada do clássico homônimo da literatura escrito por John Steinbeck. É o meu filme predileto de John Ford.

 Apesar de meio bobinho, a trama de Sangue de heróis foge completamente dos “happies ends” tradicionais dos filmes do gênero, dando a vitória não ao governo americano e à cavalaria, mas aos apaches, e é aqui que entra a questão da moral nos enredos filmado por John Ford. O filme, um marco na carreira do mítico e cultuado

cineasta está longe de ser o meu faroeste preferido do diretor. Gosto de O homem que matou o facínora, obra-prima de 1962 protagonizada por John Wayne (sempre ele) e James Stewart, que certa vez disse o seguinte sobre o amigo e diretor, a respeito de sua personalidade contraditória. “Pegue tudo o que você já ouviu, tudo o que você já ouviu… e multiplique por cem – ainda assim, não terá um retrato de John Ford”. O engraçado seria ver e ouvir Jimmy falando isso.

* Esse texto foi escrito ao som de: R.E.M., U2, Belle & Sebastian, The Who, Coldplay, Bee Gees, Grant Lee Buffallo e Bob Dylan (AMC’s Collect).

Cap. 13 O último solo de Keith Richards

Keith Richards abre o coração ao longo dos 13 capítulos de sua autobiografia Vida...

O décimo terceiro e último capítulo da autobiografia do guitarrista dos Rolling Stones, assim como tem sido nas demais partes do livro, foi revelador. E de uma sinceridade surpreendente também. Aliás, esse foi o tom das memórias de Keith Richards, que da primeira a última página, mostrou-se de uma transparência contundente. Não livrou a cara nem mesmo do eterno parceiro Mick Jagger, com quem guarda uma mágoa secular pela traição do amigo ao tentar alçar carreira solo às custas do sucesso da mítica banda.

Surpreendi-me com as revelações feitas pelo músico ao longo dos treze capítulos que perfilam a obra. Diga-se de passagem, Keith fecha o livro com um número cabalístico. Proposital ou não, não deixa de ser simbólico.

Fiquei surpreso em saber que Richards foi um escoteiro de primeira e que aprendeu a tocar violão por influência do avô materno. Assim como das brigas, birras e rixas com Brian Jones, o verdadeiro “dono” dos Rolling Stones. Os dois duelaram inclusive o amor da mesma mulher, a super modelo e atriz Anita Pallenberg. Keith se deu melhor, claro.

Também foi revelador os detalhes e segredos por trás de canções que marcaram gerações. Quem poderia imaginar que o maior sucesso da banda, Satisfaction, nasceu de uma brincadeira insólita com o gravador, que registrou tudo depois de uma noite de bebedeira? Ou que Jumpin’ Jack Flash não era sobre drogas e sim uma referência esdrúxula de Keith e Mick ao jardineiro do guitarrista.

Mas incrível ainda o fato de que Angie, uma das baladas mais lindas dos anos 70, ter sido escrita após uma crise medonha de abstinência de Keith das drogas. Richards aliás, destrói o mito de que a música foi escrita por Mick em homenagem a Angie Bowie, mulher do camaleão do rock David Bowie. Sim porque a letra não é de Mick, que teria, dize a lenda, comido a mulher do amigo, mas de Keith, que abreviou o nome da filha Angela. Ah, e Mick não comeu a mulher de Bowie, mas o próprio Bowie. Pelo menos é o que diz o folclore do rock.

No momento estou lendo a biografia do ícone do glam rock e até agora nada sobre esse flerte foi mencionado. Mas nem passei do capítulo 6 e ele só gravou o primeiro disco. Muita água vai passar por debaixo da ponte, é só conferir nos post aqui.

Duas lendas do rock, Paul McCartney e Keith Richards até já escreveram canções juntos, mas as letras são inéditas...

Me diverti muito com as histórias de junkie descritas por Keith, que foi pego em pleno voo com seringa e equipamento para preparar cocaína. Resultado, já saiu do aeroporto detido. Também tem a hilária passagem em que detalha como botou fogo num dos banheiros da mansão de Hugh Hefner, o criador da revista Playboy, junto com o saxofonista Bobbie Keys. Lembro até quando li essa parte. Foi no CCBB de Brasília, enquanto esperava para ver uma peça moderninha.

Mas o mais impressionante foi como teve início a briga com Mick Jagger. Sincero e destilando veneno vai logo dizendo: “Você pode ser quem for, mas não tem o direito de pegar carona no sucesso dos Stones!”. Quer prova maior fidelidade e amor à banda?

Pois bem, no último capítulo Vida, sua autobiografia, Keith conta como quebrou uma das costelas ao pegar um livro no topo de uma de suas estantes na enorme biblioteca Connecticut. Aliás, Keith tem revelado ao longo das páginas que é um junkie de primeira, mas também um artista culto, amante da literatura, grande admirador do escritor e historiador inglês Patrick O’Brian. Assim como ele é, apesar de tudo, um cara careta e família que gosta de paparicar os filhos, netos e, quando possível, preparar uma receita de bangers and mash (prato popular no Reino Unido, composto basicamente de lingüiças e purê de batatas.“Eu preparei bangers a vida toda, mas só recentemente descobri por meio de uma mulher da televisão que você tem de colocar as linguiças para fritar numa frigideira fria”, ensina o gourmet.

No último capítulo Keith fala ainda das visitas do amigo Paul McCartney à sua casa de praia em Parrot Cay, na República Dominicana, onde inauguram a parceria McCartney/Richards. As canções, inéditas, ficaram penduradas numa das paredes da casa durante semanas.

Um irreconhecível Keith Richards (dir.) tirando onda de ator ao lado de Johnny Depp em Piratas do Caribe...

Depois de contar como foi parar no elenco de Piratas do Caribe, ao lado de Johnny Depp, Keith, em mais um surto de sinceridade e objetividade, dar detalhes da complicada cirurgia que fez depois de ter caído de um coqueiro durante viagem de férias. “Eles dizem que você tem de ficar sem trabalhar pelo menos seis meses depois da operação. Mas em seis semanas eu já estava de volta ao palco”, gaba-se. “Era o que eu precisava fazer.

Keith Richards termina o livro como terminou, falando da mãe, que morreria em 2007. Após visitá-la no hospital e cantar para ela a canção hispânica Malagueña, recebe o veredicto da matriarca: “Sim, o violão estava um pouquinho desafinado”, comentou com a enfermeira, depois que essa perguntou se ela tinha percebido que o filho famoso lhe tinha feito uma serenata na noite passada. “Minha mãe era assim. Mas eu tenho que tirar o chapéu para ela. Ela tinha um ouvido incrível e uma percepção musical tremenda”, põe o ponto final.

 

* Esse texto foi escrito ao som de: Get Yer Ya-ya’s out! (The Rolling Stones) e Hunky Dory (David Bowie).

O tempo da inocência

O primeiro dia de aula a gente nunca esquece...

As aulas começaram. E o primeiro dia a gente nunca esquece, não é verdade. Entra ano, sai ano e a expectativa, a ansiedade, a euforia é sempre a mesma. Fui levar minha sobrinha na escola outro dia e ela estava apreensiva, nervosa, mas feliz ao mesmo tempo. Esperava rever os amigos. Pior, achava que não iria encontrar os amigos do ano passado. Teve sorte. Metade da sala só de coleguinhas já conhecidos. Voltou para casa exultante no fim do dia.

Na porta do colégio, aquela confusão de carros, mães e pais correndo para lá e para cá com materiais escolares, alunos com mochilas nas costas, cadernos nas mãos, abraços de alegria pelo reencontro. Caderno, não, agora é fichário, né?! Uma regalia que não existia no meu tempo, que ia com um caderno só e olha lá.

Ao sentir aquele clima, quase que num processo proustiano, voltei no tempo e me lembrei dos meus dias de estudantes, da época em que a obrigação escolar era uma rotina e a convivência com os professores uma aventura humanista das mais incríveis. Ou quem sabe uma estadia no inferno, dependendo da alma. Íamos para o colégio de bicicleta todos os dias. Eu, meu irmão e alguns colegas, um deles, bastante querido, já falecido.

O escritor francês Marcel Proust criou uma das imagens mais líricas da literatura para evocar suas memórias...

Saudades daqueles tempos inocentes, das brigas bobas no recreio, das brincadeiras extravagantes, do lanche na lancheira, dos amores ingênuos pela colega do lado, a adorável Camila, também a estonteante Viviane, e a cândida Luciana. Ah, sim, e até mesmo pela professora mais gata da escola. Eu odiava química, por exemplo, mas me esforçava para ir bem na matéria só pra impressionar a professora Fernanda, uma gracinha.

Também tinha a professora Etelvina, uma senhora que, de tão doce, lembrava a vovó que tínhamos em casa e era uma sumidade em história, minha disciplina favorita. De modo que eu era um dos melhores alunos do tema, por tabela, o queridinho dela.

Mas disse processo proustiano nas linhas acima e já explico. Foi o escritor francês Marcel Proust quem criou uma das imagens mais belas, líricas da literatura universal ao evocar suas memórias. É quando o melancólico personagem do épico Em busca do tempo perdido, sua monumental obra sobre o tempo e as lembranças perdidas, mordisca uma Madeleine e, num processo remissivo, volta ao passado, protagonizando as histórias que preenchem as páginas do livro.

Tenho os três volumes do romance guardado na minha instante. Não os li ainda porque se trata de um trabalho especial que deve ser lido num momento especial da minha vida. Quando poderei dizer de boca cheia: “Não dividirei o espetáculo da minha solidão com ninguém. Não dividirei o espetáculo da minha velhice com ninguém!”.

Mas de tanto ler o Nelson Rodrigues citar essa passagem em suas crônicas, era como se eu conhecesse cada vírgula do texto, cada passagem do livro de Proust.

A personagem de Mia Farrow em Simplesmente Alice, de Woody Allen, foi inspirada nas mães que iam pegar suas crianças no chique bairro de Upper East Side...

Pois bem, olhando aquele povo todo ali, com seus filhos na calçada da escola, tive um desses acessos remissivos, embalado pelos sons das crianças tagarelando, recordando de um período em que eu era feliz e não sabia. O tempo da inocência.

Vendo aquelas mães elegantes e maravilhosas, todas exalando aromas oníricos, prontas para o pecado, para o amor, me acabei recordando de um depoimento do cineasta nova-iorquino Woody Allen. Acho que naquele catatau do jornalista Eric Lax, que reúne uma série de entrevistas com o diretor de Hannah e suas irmãs e Manhattan.

Num determinado momento do livro, Allen revela que uma de suas fontes de inspiração para a construção dos personagens estava nos tipos que esbarrava pelas ruas, as criaturas humanas reais, aquelas que o circundava o tempo todo, gente de verdade, de carne e osso. A personagem de Mia Farrow em Simplesmente Alice surgiu dessas observações empíricas. Ele conta que gostava de levar ou apanhar o filho Dylan, na escola no chique bairro de Upper East Side, quando observava as mulheres com seus carrões de luxo indo pegar suas crianças na calçada. “Eu via aquelas mães de tênis e roupa de corrida, com casaco de zibelina ou mink blackglama por cima, e sempre achei incrível”, detalha.

No filme, Mia Farrow é uma mulher bem-casada com um importante e milionário homem da sociedade nova-iorquina, vivido pelo ótimo William Hurt. Um dia, do nada, ela toma um remédio homeopático de um chinês doido e fica invisível. No começo a insólita situação a preocupa, deixando-a amedrontada, mas enquanto não encontra a solução, passa a tirar proveito do imbróglio, como por exemplo, ficando à par das traições do marido, que não pode vê-la agora.

Divertido e bem diferente do resto da filmografia do diretor, o filme é uma fábula moderna sobre o amor superficial, a hipocrisia do lar, a mentira e traiçoes, mas também sobre a mágica, uma das obsessões de Woody Allen.

Bem, no bairro da escola da minha afilhada nenhuma mãe veste casaco de zebelina (seja lá o que diabos isso seja) ou mink blackglama, mas há sempre uma mulher interessante cheirando a sonho aqui ou ali. O que me fez me lembrar da “garota do bom dia” e o seu pequeno arcanjo que, assim como a minha afilhada, está na labuta escolar.

* Esse texto foi escrito ao som de: Wednesday morning, AM (Paul Simon & Garfunkel), I dig everything: The 1966 Pye singles (David Bowie) e Space Oddity (David Bowie).

Discoteca Básica (1) Help! – Beatles

Discografia Básica

A inspiração para essa série veio do blog Tiago Superoito. Já tem um tempinho que ele escreve posts sobre os 100 discos que o marcaram, um trabalho hercúleo, metódico, mas divertido, sobretudo para os fãs de pop rock, música em geral. Não deixa de ser um aprendizado e tanto, além de uma importante fonte de referência.

De modo que começo a minha despretensiosa lista dos álbuns que “fizeram a minha cabeça” ao longo desses 34 anos de vida. Não vou me alongar, serão 50 textos apenas. Claro que não tenho o mesmo talento, conhecimento e cinismo que ele, mas mesmo assim, a título de diversão, vou arriscar. O critério de escolha dos trabalhos aqui comentados segue um ritmo cronológico, quando possível – já que, parafraseando o velho Zé Ramalho, a memória trai -, afetivo, claro, e importância histórica.

Vale lembrar que os registros perfilados pertencem a minha coleção, ou seja, todos escutados exaustivamente e tocados na minha vitrola. Ah, sim, o título “Discografia Básica”, batido que só ele, foi surrupiado das leituras da revista Bizz (Showbizz ?), que sempre trazia, na última página, textos brilhantes escritos por críticos feras sobre os clássicos de todos os tempos. Então, aumente o volume e deixe as ondas sonoras invadirem sua alma, se você tiver uma…

Help! (Beatles – 1965)

Os Beatles na Áustria, numa das cenas do filme Help!

E no princípio os deuses da música, entediados, criaram os Beatles. A partir daí, o cenário musical pop rock nunca mais seria o mesmo, dividido antes e depois do Fab Four. Não tem como não reconhecer o legado e importância do grupo britânico e, o sujeito que não gostar das canções dos quatros meninos de Liverpool, não pode ser uma boa pessoa. Isso é batata!

A primeira vez que ouvi uma canção da banda, pelo menos de uma maneira que me marcou, e me marcou para sempre, foi no final dos anos 80, eu ainda andava de bermudas e pirulito na boca, e gostava de brincar com o meu irmão gêmeo e amigos pelas ruas do bairro. Era a época da novela Top model e o grande sucesso na trilha sonora do folhetim das sete era a versão de Kiko Zambianchi para Hey Jude, talvez um dos maiores sucessos do grupo, essa, na voz de Paul McCartney.

Lembro que um dos personagens, o Gaspar (Nuno Leal Maia), era fã dos Beatles, deu inclusive aos filhos os nomes de alguns integrantes da banda e tinha até uma foto do álbum Sgt. Pepper’s lonely hearts club band (aquela de dentro, com eles sentados e vestidos com o psicodélico) pregada na parede da cozinha cenográfica. Como se vê, não se faz mais novela como antigamente.

A versão de Kiko Zambianchi é bonitinha, mas a original é imponente, com uma história bonita por trás, já que foi uma canção de consolo que Paul McCartney escreveu para Julian Lennon, chateado com a separação dos pais. “Hey, Jude, pega uma canção triste e a torna melhor”, ensina McCartney.

Help!, tem todo um simbolismo na minha vida porque foi o primeiro disco dos Beatles que ouvi inteiro. E me orgulho disso porque também foi o primeiro disco que comprei na vida, com o suor do meu trabalho. E não parei mais de gastar dinheiro com música. Mais tarde, fiquei feliz da vida ao saber que o Paulo Ricardo, do RPM, em entrevista não sei onde, revelou que Help! foi o primeiro disco que ele teve na vida. Acho que de um monte de gente, né?!

Depois lembro que comprei A hard day’s night, que já tinha ouvido de um colega de trabalho. Só que o dele era diferente, com a capa vermelha, ao invés da azul, que a maioria das pessoas conhece. Isso tudo em vinil, gente, o CD ainda estava era uma realidade distante.

Na sequência, vieram os álbuns duplos vermelho e azul, aqueles que dividem em datas, os grandes sucessos do grupo em duas fases. O meu preferido, evidentente, sempre foi o azul, por conter as faixas mais melancólicas. Hey Jude, Something e Here comes the Sun (ambas de George Harrison), Across the universe, The long and winding road e Let it be, que muita gente achou que fosse sobre Nossa Senhora, mas a mother Mary da canção era a mãe de Paul.

Com algumas músicas usadas na trilha sonora do segundo filme da banda, fraquinho, por sinal, Help! aponta para o início de uma guinada na carreira dos Beatles rumo ao amadurecimento. Não é o meu disco preferido da banda, que é o antológico Álbum branco. Mas lançado em 1965, está no meio do caminho com canções ainda da fase “baby, I Love you, I need you, I like you” a coisas mais intimistas como a baladona folk You’ve got to hide your Love away, uma das minhas favoritas do grupo. A faixa era uma tentativa de Lennon soar como Bob Dylan, um dos ídolos do quarteto naquela época. A referência era o álbum Another side of Bob Dylan, um dos vários lançamentos daquele longínquo ano de 1965.

O ex-líder do Oasis Noel Gallagher, canta uma versão melancólica de Help!

O amadurecimento do grupo se deu não apenas com relação às letras das canções, mas aos arranjos também. Saindo da fórmula guitarras, baixo e bateria, John, Paul, George e Ringo, sob a orientação do mago George Martin, se aventuraram e arriscaram em outros instrumentos e arranjos mais elaborados, a exemplo da poderosa Ticket to ride, com belo trabalho de bateria de Ringo Starr, e a gostosinha You’re going to lose that girl. Mas fofa mesma é a bobinha It’s only Love, que não é sobre nada especificamente. Talvez por isso John Lennon, autor da faixa, a odiasse tanto.

A faixa título é um grito de socorro desesperado de Lennon, na época, bastante inseguro com relação à vida e ao repentino sucesso. Era uma das suas músicas preferidas. “Eu realmente quis dizer aquilo… O pedido de socorro era de verdade!”, admitiu anos depois. Mas prefiro a versão melancólica do Noel Gallagher, ex-Oasis, sozino ao violão. É de sentar no meio fio e chorar lágrimas de esguicho.

Mas a música que melhor sintetizaria essa mudança de rumo dentro do grupo é a baladona vitoriana Yesterday, fruto do inconsciente de Paul McCartney, o mais melódico e talentoso integrante da banda e pai da criança. Gravada apenas por ele com um violão, traz arranjos de cordas sofisticadíssimos. A história da balada todo mundo já conhece né? Um dia ele acorda com uma melodia na cabeça e corre para o piano para não perder esse momento de insight. Faz algumas anotações e dá o título de “Scrambled eggs” (ovos mexidos). Hoje é a canção mais tocada e regravada do Fab Four.

No show que fez no Brasil no final do ano passado, em São Paulo, Sir Paul McCartney cantou a música com o violão usado na gravação original, em 1965 Um momento mítico, mágico, inesquecível.

 

 

* Esse texto foi escrito ao som de Help! (The Beatles) e Another side of Bob Dylan (Bob Dylan).

Contos eróticos (3) – Linda como um anjo

Um anjo
 
Alta, magra, cabelos negros volumosos e sorriso cativante, Verinha era uma criatura apaixonante. Diria que

"Alta, magra, cabelos negros volumosos e sorriso cativante, ela era linda como um anjo..."

formidável. Muito mais do que isso. Ela era uma coisa de outro mundo. A primeira vez que Pedro a viu, andando pelos corredores da empresa, teve um sobressalto vertiginoso:

– Meu Deus, é um anjo que caiu do céu?! É um anjo?! Perguntava, de si para si, mordido de desejo. Quando conversou com ela pela primeira vez então, quase morreu de tanta tremedeira, a dor no estômago o açoitava cruelmente. O encontro foi numa manhã qualquer, no cafezinho. Segurando um copinho de plástico, encostada na parede, ela, que trazia preso ao cabelo, um charmoso tic-tac, foi receptiva:

 – Olá, você é novo por aqui, né?!

Gelado de emoção, Pedro, teve a fala quase empedrada:

– Quem, eu?! Sou…

Respondeu, meio abobado.

Vestindo uma saia branca de renda comprida, que combinava com uma blusa também alva, aboletada com detalhes de florzinhas, ela parecia, de fato, um querubim dentro da blusa de lã azul clara que cobria seus ombros largos e braços compridos. Aliás, a blusa de frio azul clara era a indumentária, digamos assim, que melhor captava a sua aura angelical. Perdidamente apaixonado, Pedro exultava:

– É um sonho tudo isso? Será um sonho?!

Mas tinha um, porém. Esse primeiro encontro seria revelador. Já que, meio que escondido entre o copo de plástico e a pequena carteira, brilhava na mão esquerda de Verinha, uma aliança dourada. Como diria um daqueles personagens de Nelson Rodrigues:

– Espeto!

Mas segundos depois, motivado pelos pezinhos delicados e deliciosos de seu anjinho de porcelana, ele dá de ombros e deixa escapar ao léu:

– Azar!

A soberba

"...Mas às vezes soberba como uma Cleópatra..."

Não tinha como negar. O dia-a-dia com aquela gracinha meiga e clara como Branca de Neve, deixara Pedro com o

coração doente de amor, e o da pior espécie, platônico. Pois é do tipo que você deseja, mas não pode alcançar. Ele se sentia, assim, um Ícaro do século 21. Existe algo mais triste? É possível ter algo mais romântico?

O que ele mais gostava em Verinha era sua delicadeza desmedida. Dona de uma educação quase vitoriana e sorriso hipnotizador, ela se tornou o Sol dos seus cinzentos dias. Mas quem ver cara não vê coração. E, como já dizia o velho mestre do cinema Billy Wilder, naquela clássica comédia de 1959, Quanto mais quente melhor: “Ninguém é perfeito!”.

Embora fosse atenciosa e simpática pela frente, zombava pelas costas das investidas ingênuas do pobre rapaz. Achava sua insistência e excessivo zelo um assédio. Para ela, sua atenção e afeto era um incômodo abissal, hediondo, crasso.

– Esse cara não larga do meu pé!

Sempre dizia, deixando escapar uma soberba de Cleópatra.

Noutra ocasião, exagerou, cunhando uma frase que se tornaria, entre as colegas sádicas, uma pérola:

– Ele me parece um sujeito legal, tenho até pena, mas às vezes ele força a amizade, né?!. As amigas, comovidas e solidárias às reclamações da companheira, concordavam qual um coro grego:

– É verdade, é verdade!!!

E assim, entre a vaidade sádica de Verinha e o sofrimento romântico de Pedro, os dias iam passando com a calma que os deuses do tempo outorgara. Até o dia em que o marido da jovem balzaquiana deu o ar da graça. Ou melhor, não deu ar de graça nenhum

O marido boçal

 Viu o marido do seu grande amor, se muito, duas ou três vezes, de relance, coisa muito rápida. Movido por uma paixão galopante, diria que acachapante, desprezava categoricamente a existência do sujeito. Na verdade, nem queria ouvir falar do camarada que, segundo a maledicência jocosa dos amigos, não passava de um grande boçal:

– Daqueles de dar patadas rutilantes no asfalto. – exagerava Armandinho.

– Mas porque, perguntava, curioso Pedro.

– Imagina, eu, com um pedaço de desejo daquele em casa, não deixava andar por aí dando sopa, nem morto.

Arrematava.

Em transe, diante dos gestos, cheiro e calor exalado por Verinha, Pedro suspirava:

– Bobagem…

Mas a verdade é que Carlos vacilava. Atarefado até o pescoço com as empresas, uma em Brasília e outra filial em São Paulo, quase não tinha tempo para a mulher e o pequeno Victor. De modo que a rotina da gata era, “casa, escola do filho, trabalho, casa da mãe para pegar o pequeno Victor, casa de novo e trabalho”. Era quase uma roda-gigante do tédio.

Nos fins de semanas, uma vez ou outra, um cineminha básico, porque ninguém é de ferro. Ou senão, aqueles encontros fellinianos na casa da “parentada”, dele ou dela, dependia do humor de cada um.

Descanso mesmo, só nas férias, quando zarpava para o exterior, sozinha, claro, com o filho ou as tias, ou para praia, porque Verinha, radiante como era, amava o Sol. Já Carlão, o boçal, ou estava atolado até o pescoço com o trabalho, ou perdido no meio de um descampado qualquer com a “turma”, praticando o hobby mais sem graça do planeta: a pescaria. Resumindo, o cara era uma sardinha, de tão indolente.

De modo que não chegou cinco anos e os dois estavam separados, cada um para o seu lado. Desolado de desejo por Verinha, Pedro, uma alma desolada de sofrimento, nem imaginava que sua hora chegara. O problema era ele despertar desse torpor platônico.

A entrega
Um dia, no trabalho, quando menos esperava, eis que o plantão de Pedro coincidiu com o de Verinha. Como era

"Vestida apenas com a meia calça e as sandálias de salto alto, sussurra com uma voz cheia de tesão: Me come seu puto, me come!".

comum nessas ocasiões, o ambiente era quase vazio, tomado apenas pela metade do grupo. A notícia de que a gata mais linda do pedaço estava arisca, solta, se espalhara como rastilho de pólvora. Mas Pedro, agora intimidado pelo desprezo do grande amor da sua vida, nem chegava perto. Afinal, ele não ostentava poder, não era filho de diplomata, não ocupava cargo de chefia. Falar o quê, fazer o quê?

De modo que, para não ouvir a voz do lindo serafim, ficava na sua, curtindo rock britânico o dia inteiro no fone, quando não tinha que atender as exigências do chefe. Mas numa noite, quando ja saía para ir embora, teve a atenção despertada por uma voz melíflua:

– Ei, Pedro, já vai, querido?! Me acompanha até o carro. À noite o estacionamento é escuro, perigoso que só…

Sem querer acreditar, Pedro dava beliscões nos braços. Pensou que fosse até com outra pessoa, uma ilusão auditiva, alguma coisa do tipo já que ela não era de ficar de conversa com qualquer um, ainda mais com um matusquela como ele. Queria que fosse verdade, mas tinha medo do sofrimento póstumo, passado a alegria daquele instante. Mesmo assim, deixo-se virar:

– Eu?! Claro…, tartamudeou.

No caminho, Verinha indagava com a ternura de um colibri, de uma cambaxirra.

– Você anda meio diferente, distante, frio até, o que foi? Tá tudo bem contigo?

Surpreso com a pergunta, Pedro, num rompante de loucura, destrava a língua. As palavras jorravam do seu coração:

– É, talvez, não sei, é difícil de falar sobre essas coisas, dispara, já chegando na porta do carro da gatinha cheirosa como um jardim de camélias.

Inocente, Verinha tenta quebrar o clima tenso. Preocupada, pergunta:

– Mas o que foi, não entendo, posso te ajudar, é alguma coisa comigo?

Com a voz embargada, quase chorando, o rapaz faz a declaração que mexeria com a soberba e o sadismo da jovem:

– A coisa mais triste que tem na vida é desejar alguém e não poder fazer nada, soluça. – Eu te desejo tanto Verinha, mais tanto e não posso fazer nada, nada, você entende? diz, em prantos.

Misturando compaixão e surpresa, meio perdida diante daquela situação insólita, ela passa, delicadamente, a mão direita pela face de Pedro. O gesto foi quase automático. Assim como a reação seguinte de Pedro, que buscou a boca quente e deliciosa de Verinha. O beijo foi demorado, molhado, ardente, como tem que ser ao despertar da mais louca entrega.

"A forma de 'v' do seu sexo traçava perspectiva que remetia a uma daquelas pinturas renascentistas exuberantes..."

De meia calça preta, da cor do seu sexo…

Em questão de minutos, estavam os dois no apartamento dela. Como chegaram lá, com a rapidez e desenrolar da situação, só o acaso poderia dizer.

Deslumbrante, dentro de um vestido gelo que mais parecia um sobretudo ou casaco, sei lá, estilo Nova York, anos sessenta, ela excitara Pedro mais ainda com a meia calça preta, que combinava elegantemente com as sandálias de salto alto que usava.

Não esperou a iniciativa do amante. Num golpe violento desabotôo ela própria a roupa que vestia e, de joelhos, caiu de boca no sexo intumescido do rapaz. A língua sinuosa serpenteava o membro quente, fazendo Pedro gemer de desejo ao som da baladona Wake up, da banda canadense Arcade fire.

 Depois, virando-se para ele, novamente de joelhos, só que dessa vez sobre o assento do sofá e as mãos no encosto, Verinha, “vestida” apenas com a meia calça e as sandálias de salto alto, arrebita o rabo gostoso e sussurra com uma voz cheia de tesão:

– Vem, vem!

Com uma das pernas como apoio, agora era a vez de Pedro lamber o sexo excitado da gatinha singela que desejou por tanto tempo. Movendo a língua abrasadora pelos buracos do pecado de Verinha, a fez gozar em minutos. Nem esperou ela se recuperar do intenso momento de êxtase. De pé, com o pau cheio de volúpia, pegou-a por trás, possuído-a de forma selvagem, com toda a força que os anos de uma paixão não correspondida lhe davam o direito. Com as mãos firmes na cintura da gata domada, dava estocadas viscerais:

– Me come seu puto, me come, gritava, ela, louca de prazer.

Agora, sentada no colo de Pedro, Verinha cavalgava sobre o sexo vertiginoso do parceiro, deixando à mostra a bocetinha riscada de uma delicada penugem, da cor da sua meia calça. A forma de “v” do seu sexo traçava perspectiva que remetia a uma daquelas pinturas renascentistas exuberantes. Molhada de suor, com pequenas mechas de cabelos grudadas pela testa, pelos seios brancos, ela inclina a cabeça para trás e busca a boca do amante. Beija suavemente a língua de Pedro, dizendo:

– Gostoso…

* Esse texto foi escrito ao som de: Funeral (Arcade fire) e Neon bible (Arcade fire).

Cap.12 A 3ª Guerra entre Keith e Jagger

Nos anos 80 Keith e Jagger só não foram nos tapas por comprometimento profissional

A 3ª Guerra Mundial entre os Stones aconteceu quando Mick Jagger, num surto de vaidade e megalomania, traiu seus companheiros, tentando lançar sua carreira solo. Isso se deu no início dos anos 80, mas a gente sempre ouviu falar dessas faíscas e farpas que voam da relação de amor e ódio entre os Glimmer Twins há tempos.

Pois bem, os detalhes desse ruidoso conflito podem ser lidos no capítulo 12 de Vida, autobiografia do guitarrista dos Rolling Stones lançada ano passado, no Brasil. Já terminei de ler o livro e logo vou comentar sobre a biografia do camaleão do rock David Bowie, que já comecei a ler.

Sobre a biografia do Keith posso dizer que adorei. Gostei da sinceridade dele, que esclarece desde o início que a obra é a sua versão dos fatos. “Se Mick ou os outros quiserem rever algumas passagens, que escrevam seus livros”, disse, recentemente em entrevista. “Essa é a minha versão”, sentenciou.

Sua transparência é perturbadora quando falar do amigo de longa data. “No começo dos anos 80, Mick começou a ficar insuportável”, escreve Keith nas primeiras linhas do capítulo. “Foi quando ele se tornou Brenda, ou Sua Majestade, ou simplesmente Madame”, emenda, referindo-se a uma piada interna. Keith conta que as coisas degringolaram quando o vocalista adquiriu um desejo absoluto de controlar tudo. “Na cabeça dele, havia Mick Jagger e os ‘outros’”, ressente-se o guitarrista. “Um ego inflado é sempre algo difícil de se lidar numa banda, principalmente uma banda que está junta há muito tempo, que é bastante unida e que realmente tem como respaldo uma conduta íntegra, ainda que um tanto bizarra, pelo menos entre os integrantes”, comenta.

Assim, o clima nas gravações do disco Undercover, de 1983, estava tenso. Keith conta que, para terminar as gravações tiveram que agendar horários diferentes, de modo que Mick ia pela manhã e ele, um eterno notívago, trabalhava à noite. Curiosamente, o álbum rendeu. Pelo menos essa é a opinião suspeita do próprio guitarrista. Eu nunca escutei esse registro, por puro preconceito, já que tive oportunidade de comprá-lo nos sebos. Ele e o Steel Wheels.  “De algum jeito, o trabalho em si não foi tão prejudicado; o álbum acabou sendo muito bom”, avalia.

Mick Jagger embrenhou-se na carreira solo com a promessa de ser o novo Michael Jackson, garantiu o diretor do selo CBS, Walter Yetnokoff (esq.)

Mas as coisas azedaram de vez quando, naqueles anos, o grupo resolveu renovar o contrato com a gravadora. Os Rolling Stones conseguiram tirar mais de US$ 20 milhões da CBS e seu presidente Walter Yetnikoff. O que Keith e Cia não sabiam é que Jagger abiscoitara um pedaço maior na negociação a reboque de um projeto pessoal envolvendo três discos solos. “Não importa quem você seja, ninguém tem o direto de pegar carona numa negociação dos Rolling Stones”, escreve Richards, até hoje destilando rancor.

Desse dia em diante, a relação entre os dois amigos, quase irmãos, não seria mais a mesma. Segundo Keith, o que o chateou, de fato, foi a forma deselegante com que Mick galgou sua independência. Os primeiros sinais dessa doença denominada, jocosamente, pelo guitarrista de Lead Vocalist Syndrome (Síndrome do vocalista), se deu durante a gravação de um vídeo pelo renomado diretor Hal Ashby (Ensina-me a viver e Amargo regresso). Durante a apresentação, eis que surge no telão a seguinte mensagem: “Mick Jagger e os Rolling Stones”. “Eu poderia ter entendido uma atitude dessas se os Stones estivessem em decadência, (…) eu mesmo gosto de tocar com outras pessoas e fazer outros tipos de trabalho, mas, no seu caso, ele queria ser apenas Mick Jagger sem os Rolling Stones”, lamenta.

Grande fã da banda, sou da opinião que a atitude de Mick Jagger foi uma grande burrada. Keith conta que o líder da banda foi seduzido com a promessa do diretor da CBS, Yetnikoff, de transformá-lo num novo Michael Jackson. Imagina uma coisa dessas. O desempenho dele fora da banda é pífio. Diria que medíocre. Ganhei de brinde Goddess in the doorway, seu mais recente trabalho solo lançado em 2001, e achei uma droga.

Sem falar que ele é metido a ator, sendo protagonista de filmes como aquele sobre a vida do fora da lei Ned Kelly, e FreeJack. Nesse sentido, posso dizer que Keith Richards se saiu melhor sem fazer tanto estardalhaço ao participar, junto com Johnny Depp, de Piratas do caribe.

Mas voltando à autobiografia do guitarrista dos Stones, vale dizer que, por causa dessa atitude egoísta de Jagger, as gravações do disco seguinte, Dirty work foi uma bagaceira geral. A começar pelo título sintomático. “Hoje posso ver como as faixas daquele disco eram cheias de violência e ameaça. (…) Nós quase saímos literalmente na porrada”, confessa. O clima pesado da época foi registrado em faixas como Had it with you, One hit (to the body) e Fight, que traz os “doces” versos: “Vou deixar você todo arrebentado/Porque é isso o que você está provocando/Há um buraco no lugar do seu nariz/Vou chutá-lo para fora da minha porta”. Cacete, precisa dizer mais?!

O tempo, o melhor mercúrio-cromo que uma alma sofrida pode ter, cuidou de fechar as chagas existentes entre os dois. Enquanto trabalhava num show em homenagem ao ídolo Chuck Berry, onde viveu outro pesadelo lidando com o ego mastodôntico desse ícone do rock, recebeu inesperada visita do empresário da banda. Era o mensageiro de Jagger, dizendo que ele queria reatar com o velho amigo e cair na estrada. É quando surge a ideia para Voodoo Lounge.

O nome macabro do álbum e da turnê, revela Keith Richards, surgiu durante as férias do guitarrista em Barbados. Um dia, caminhado pelas ruas da pequena ilha, deparou-se com um gatinho que não largava mais do seu pé. Ele o levou para a casa e deu o nome de Voodoo Lounge, numa referência às práticas religiosas do povo da região. O resto é lenda.

Para finalizar, vale dizer que comprei o disco Voodoo… por uma bagatela esses dias, num sebo, e achei sensacional. Sobretudo na parte em que Keith canta, em faixas como Thru and thru e The worst. Cantando o resto do disco, Sir Mick Jagger é mero coadjuvante.

 

* Esse texto foi escrito ao som de Morrison hotel (The Doors), Buffalo Springfield again (Buffalo Springfield), Pat Garrett & Billy the Kid (Bob Dylan) e Funeral (Arcade fire).

O anjinho, Ana, o meu Sol e os Eagles

De repente, me vejo pajem de um anjinho...

A mãe saiu cedo para o trabalho. O pai também. A irmã mais velha, minha afilhada, dormindo na casa de uma coleguinha, a viu pela última vez na noite passada. Mais tarde ela ia comprar os materiais escolares porque o ano já começou e as aulas estão chegando. De modo que a pequena criança de quase um ano ficara sozinha com o tio, eu. Meio atrapalhado, totalmente encantado, deslumbrado com o bebê que já anda para todos os lados e tartamudeia algumas palavras, tranquilizei a família:

– Pode deixar comigo!

 E a rotina de pajem começou cedo, às 8h30, menos talvez, com o choro do anjinho que, aos gritos, já acorda gritando pela “mamam”, “mamam”. Engabelo a pequena com canções de ninar, caretas estranhas, onomatopéias ridículas. Na boa, todo bebê deve achar nós, os adultos, meio retardados, abobalhados né? Pois toda vez que a gente faz aqueles “”dudududadabiluteia” elas sempre olham para gente com uma cara tipo assim: “Você ‘tá’ falando comigo oh?!”.

Antes de dar o mamar, já preparado e guardado na mamadeira térmica, troco a fralda. Quer dizer, pelo menos tento. Levo quinze minutos ou mais para realizar a operação, que consiste em lavar o bumbum, passar o talco, depois a pomada anti-queimadura, e em seguida a calcinha de bebê, que hoje em dia vem bem simples e moderna, com velcro. Lembro do tempo em que minha mãe colocava fraldas nos meus primos, amarrando-os com um alfinete do tamanho de uma caneta.

Às vezes me vejo personagem de comédia dos anos 80...

Saio dessa operação com a testa suada. Lembrei daquele filme com o Tom Selleck, Três solteirões e um bebê. Mas não pareço nem um pouco com o astro de Magnum. Passo longe do Ted Danson. Estou mais para o Steve Guttenberg, quase um patinho feio e completamente desajeitado. E desesperado também. No filme, um grande sucesso dos anos 80, três amigos solteirões entram na maior roubada com a chegada de um amiguinho inesperado.

Mas no mundo real é sou eu e o bebê e vou falar uma coisa para vocês: dá trabalho danado cuidar de criança. Passo a maior parte da manhã brincando com a sobrinha, uma fofa. Esperta, não sossega um minuto. Meu medo é dela cair, beber o fôlego, machucar. Então sou quase uma sombra, atento ao menor movimento, a todos os detalhes. Não gosto de ver e ouvir criança chorando, me dá uma agonia. Assim, brincamos com a bola gigante, o cachorinho Nikki entra na brincadeira, observamos as pessoas passando pela janela. As horas passam num segundo.

Chega a hora de dormir. Pego o pedaço de gente no colo e começo ninar. A princípio tento a canção religiosa Mãezinha do céu, não funciona mais. O plano “B” é o rock luau Papa uma ma, versão de João Penca e os miquinhos amestrados (lembra deles?) para um sucesso dos anos 60 da super banda Buffalo Springfield, aquela que tinha Neil Young, Steve Stills e Richie Furay. Nada. Apelo para os Eagles então, pego o disco Hotel California, mas vou na faixa oito, na baladona Try and Love again, canção que me faz lembrar do meu amor platônico, do meu anjo proibido, da minha estrela da manhã e da noite.

De repente, uma angustia bate forte no peito. Uma voz lá no fundo pergunta incessantemente: Por onde andará a garota dos meus sonhos? Só o destino saberá, a vida é um grande buraco negro. A gente nunca sabe onde vai dar. Talvez ela esteja seguindo a rota do Sol nesses dias de verão.

Saudades da minha estrela da manhã e da noite, que está tatuada em minha mente como o Sol do Uruguai...

– É que adoro Sol e praia! – Ela me disse certa vez. Nunca me esqueci disso, sempre guardei no fundo do meu ser cada palavra proferida por ela. Assim, lembrei do Sol do Uruguai, que está tatuado em mim, em minha mente, como a imagem singela, meiga, doce dela. Ela sempre foi a mulher dos meus sonhos e o meu sofrimento é esse, ela não passa de uma utopia. Sou como Sísifo, sofrimento eterno.

Enquanto embalo o pequeno anjo, ao som da rascante balada Try and Love again, do Eagles, vou pensando comigo:

 – E se eu ligasse para ela qualquer dia desses?! – Melhor não, responde a realidade dentro de mim.

Da última vez que disquei, ela me pareceu ansiosa, tensa, batendo com força no teclado do computador, como quem diz: “Tô ocupada, cara!”. No mais, que diferença faz se ela me riscou do MSN, do Twitter, da sua vida. Bobeira perder tempo com gente que não valoriza nossa atenção, carinho, sentimento de afeto. Soberba, pobreza de espírito dá câncer.

Mas o aniversário dela está chegando, e o que eu vou fazer? Me questiono novamente, enquanto Randy Meisner, do Eagles canta os exasperantes versos: “One by one/The lonely feelings come/Day by Day/They slowly fade away. Não sei. Já fico desesperado com um mês de antecedência. Acho que vou me esconder dentro da minha solidão, da minha saudade, da minha angústia misturada com uma eterna mágoa.

A pequena sobrinha enfim adormece em meus braços. Me emociono ao ver os cílios finos selando aqueles olhos de serafim, a pequena boca que emite sons celestiais. Melancólico, ao som do hit setentista, deixo uma lágrima rolar pelo canto dos olhos, um nó na garganta me fustiga. Às vezes tenho vontade nem de existir. Mas miro a criança dormindo calmamente no berço, confortavelmente dentro de seu pijama branco com laranja sonho. É quando vejo um Sol de esperança brilhar no meu horizonte cinza. Dizem que amanhã é um novo dia…

* Esse texto foi escrito ao som de: Hotel california (Eagles).