Francofonia – Louvre Sob Ocupação (2015)

Francofonia

Na mise-en-scène de Sukorov, um Napoleão soberbo se gaba da grandeza de seu feito: “Eu criei tudo isso!”, diz, apontando para o museu

Um amigo meu me mandou uma mensagem entusiasmado outro dia, via whatsap falando sobre o novo filme do russo Aleksandr Sokurov, Francofonia – Louvre Sob Ocupação (2015), ainda em cartaz na cidade. De fato, trata-se de uma obra-prima do cinema de arte, uma bela homenagem do diretor às artes plásticas. Uma alegoria bem ao seu estilo imponente ao culto da beleza visual e do amor à cultura.

Diga-se de passagem, é um dos trabalhos mais fáceis de Sokurov, um artista dado a experimentações narrativas arrojadas. Quem não se lembra de A Arca Russa (2002), um passeio num único plano-sequência de 99 minutos pelo Hermitage, museu de São Petersburgo.

Aqui, como o título entrega, ele narra o período em que os nazistas invadiram o Louvre durante a 2ª Guerra Mundial. Dirigia o espaço na época o entusiasta das artes Jacques Jaujard, um exemplo de funcionário público, que é obrigado a submeter o patrimônio de todo um mundo à política de proteção das obras artísticas conduzido pelo conde Wolff-Metternich, o soldadinho de chumbo do führer.

Na mise-en-scène alegórica encenada por Sokurov, Napoleão Bonaparte, um amante conhecido das artes plásticas, se encontra com Marianne, espécie de personificação da democracia, conduzindo o espectador numa viagem pela história. “Liberdade, fraternidade e igualdade”, diz a mocinha faceira. “Eu criei tudo isso”, se gaba o ditador francês.

O presente se faz presente com as imagens de um cargueiro abarrotado de pinturas sendo castigado por uma tempestade torrencial. Que metáfora esconde essa imagem de Shakespeare? Enfim, impressionante a associação que o diretor faz entre memória, história, cultura, legado patrimonial e culto à beleza.

* Este texto foi escrito ao som de: Surrealist Pillow (Jefferson Airplane – 1967)

Jefferson Airplane Surrealistic Pillow

 

 

“Sua boca dentro da minha…”

Minha boca dentro da sua boca

“Gosto do risco da sua boca, do formato de pêra de suas narinas, o seu nariz de princesa da Disney, a pinta sensual no canto da boca…”

 

“Uma conversa virtual distante num lugar qualquer…”

 

– Nossa que saudade estou de te ver de perto, ao vivo e a cores, ouvir sua voz…

– Bobo…

– Sério!!

– (Risos)

– Sabe, qual é a coisa que você mais deseja nessa vida?

– Hum, não sei, realmente não sei… Sei lá, ressuscitar pessoas, ter o dom da cura… E você?

– Sentir o gosto da sua boca dentro da minha!

– Meu Deus! Como você é bobo…

– Sim, bobo de amor por você!

– Exagerado!

– “Jogados aos seus pés eu sou mesmo exagerado!”

– (Risos!!), adoro o Cazuza!

– Eu também, mas prefiro você!

– Para!!

– Te amo, de coração, você é a coisa que mais desejo no mundo!! Vem cá, não tem espelho na sua casa, não?

-Tem porquê?

– Pra você ver o quanto você é linda!

– Aff!!!

– Sério! Adoro o risco da sua boca, o formato de pêra de suas narinas, o seu nariz de princesa da Disney, essa pinta sensual no canto da boca, as sobrancelhas charmosas… O sorriso mágico de anjo exterminador…

– “O formato de pêra de suas narinas”, nossa! Você endeusa demais as pessoas!

– Sim!! Só as que merecem, você é uma delas… Te adoro por tudo isso, por toda essa beleza exterior, mas gosto mais o que você tem dentro, que é esse lado humano…

– Gracinha!! 🙂

À deriva… Sufocado até o pescoço…

À deriva

“Se sentindo à deriva em alto mar longe dos braços dela, tão confortante quanto a segurança de uma margem depois do perigo”

À deriva no meio do oceano… Sufocado pela água até o pescoço, respiração ofegante, coração fraco, o limite é um sinal de morte. De morte… Será que ele vai conseguir chegar até o outro lado da margem que são os braços dela?

O clima é de angústia no meio do mar, a luta desenfreada pela sobrevivência, e, de repente, do nada, um movimento de onda, a soberba de quem tem o controle da situação, o mar é esnobe em sua imponência e grandeza, há um toque de sadismo inconsciente e natural que o faz lembrar-se dela nos seus piores momentos… E tudo o que ele queria era chegar com vida até às margens dos braços dela…

Mesmo assim, como um bravo espadarte do romance de Ernest Hemingway, ele luta pela vida até os últimos momentos. Mas vale à pena? Bem, como diz o clichê, a esperança é a última que morre nesses suicide’s days…

 E como aquela onda de soberba que o pegou de surpresa no meio desse mundaréu de água, eis que surge do nada, uma formiga chata que caminha, displicentemente, pelo seu corpo dormente de sal. Como ela veio parar aqui?! Diante da situação surrealista, ele se desespera. Logo confunde esse minúsculo inseto com sua própria existência e então se sente não do tamanho dele, mas bem menor. Baixa autoestima pode ser pior do que depressão, câncer. Aliás, baixa autoestima talvez seja um câncer velado, uma depressão silenciosa…

A conexão com Kafka foi direta e logo ele estava se sentido tão sujo e asqueroso como uma barata desse pequeno romance absurdo. Metamorfoses kafkanianas… Ele só se sente confortável em sua imponente ilha de vítima, só assim ele é feliz, só assim ele se sente amigo do rei, quando é vítima de sua própria situação… O drama da existência…

E assim, em busca de sua fortaleza sentimental, ele tenta sobreviver vencendo seus medos mimados egoístas e a doente possessão de ciúmes daquilo que ele não tem… Daí a perfeição dessa metáfora da solidão em alto mar… É isso, ele precisava se libertar dessa triste e angustiante sensação de ter o que nunca teve…

Ele nunca vai conseguir chegar ao conforto dos braços dela que é a sua salvação. Era o que ele pensava, incessantemente, enquanto lutava pela sua própria vida, em alto mar… Tudo o que ele queria era apenas um pouco de atenção sincera dela… Por isso se sentia assim…

À deriva, com águas sufocantes até o pescoço… Morrer sufocado de desprezo talvez seja a pior das mortes…

* Este texto foi escrito ao som de: Scott 4 (Scott Walker – 1969)

Scott 4

A Incrível Jornada de Jacqueline (2016)

Le vache

O carismático ator Fatsah Bouyahmed e sua inseparável amiga rumo a um evento importante que irá coroar esse bela amizade 

Fatah (Fatsah Bouyahmed) é argelino e tem uma vaca de estimação que parece ser mais importante para ele do que a mulher e os dois filhos. O carinho pela mimosa é tão grande que ele é capaz de enfrentar a ira da patroa e roubar um cobertor para proteger o animal. O sonho dele é que um dia possa participar da Feira Agrícola de Paris, o que acontece de tanto insistir. O problema é que o evento não tem verba para leva-lo e nem ele. O jeito é ir a pé.

Tem início assim um road movie inusitado em que esse homem e sua vaca sai do Norte da África e cruza a França para chegar a tempo ao evento. Pelo caminho, uma série de aventuras e desventuras, com o espontâneo Fatah conquistando todos com sua simpatia ingênua. “Je suis Charlie”, vai logo dizendo ele, assim que coloca os pés no país, numa referência à frase que tomou de assalto o mundo após o atentado ao jornal Charlie Hebdo.

Mulçumano, ele não bebe álcool, mas depois de participar de um divertido karaokê na estrada, toma um porre de aguardente de pera, o famoso poire e fica mal na fita com o seu povo, que ficou na torcida por ele. Quando literalmente a vaca Jacqueline vai para o brejo, é salvo por um humano e gentil nobre francês falido (Lambert Wilson), dando início a uma sólida amizade.

O grande charme de A Incrível Jornada de Jacqueline está na despretensão e leveza em abordar temas pertinentes num mundo cada vai mais hostil como a amizade e o sentimento de solidariedade. Sobretudo tendo como personagem a figura de um árabe que, aos olhos do Ocidente, de uma forma equivocada, infelizmente, tem uma imagem negativa. Talvez a ideia do filme seja essa mesmo, ou seja, a de humanizar esse povo tão injustiçado.

Se para evocar o espírito da intolerância e do bom senso entre os povos for necessário a figura de uma inofensiva vaca, que assim seja feito.

* Este texto foi escrito ao som de: Yourself or Someone Like You (Matchbox 20 – 1996)

Matchbox 20

49 Contos de Tennessee Williams

Tennessee Williams

Olhar perturbador e imoral que o dramaturgo e escritor norte-americano traçava do ser humano lembra Nelson Rodrigues

O dramaturgo norte-americano Tennessee Williams está para a literatura teatral da América o que foi o Nelson Rodrigues para os palcos brasileiros. Cínico, cruel, direto e incômodo, ele trazia à tona o que o ser humano tem de mais deprimente e imoral. Se você, assim como eu, nunca leu um de seus textos dramáticos, não tem problema, basta ver as adaptações para o cinema tão intensas e verdadeiras que realizaram. Gata em Teto de Zinco Quente é um deles.

Gostei tanto de rever o filme outro dia estrelado pela bela Liz Taylor e Paul Newman, que saquei de minha estante mágica um livro já antigo guardado ali. São 49 contos escritos pelo dramaturgo e escritor, alguns inéditos e publicados no Brasil pelo projeto, Contos Completos da Companhia das Letras.

O texto e o universo bem particular de Tennessee Williams já se faziam notar longo na tenra juventude. Na introdução do livro de quase 700 páginas, o jornalista Gore Vidal explica que o primeiro escrito publicado por Tennessee William foi quando ele tinha 17 anos, o último o inverso desses números, ou seja, 71.

“Todas as coisas que lhe sucederam, reais ou imaginárias, estão aqui. Exceção feita a uma ou outra incursão pelo reino do fantástico, ele permanece próximo da vida tal qual experimentou ou imaginou”, escreve Vidal. “Estes contos são as verdadeiras memórias de Tennessee Williams”, observa.

Um dos contos brindes dessa coletânea é uma espécie de autobiografia tardia sobre sua conturbada relação com a família. No conto O Homem da Poltrona Estofada o clima é amargo. “Sua cor original era azul, um azul que não tinha nada de especial, como se ela houvesse absorvido em seu tecido e estofo todos os pesares e ansiedades de nossa vida familiar, como se tais emoções houvessem se tornado seu próprio estofo e pigmentação”, compara.

Em Alguma Coisa de Tolstói Tennessee William traça um perturbador ensaio sobre o egoísmo humano a partir de uma história de separação. Ele é um judeu dono de uma livraria sem ambição apaixonado por sua mulher. Ela uma jovem artista cansada de uma vida comum. Depois de 15 anos longe de casa ela retorna e o reencontro é melancólico e exemplar.

Assustador e ao mesmo tempo pertinente a investigação que Tennessee Williams faz da natureza humana.

* Este texto foi escrito ao som de: The Libertines (2004)

Libertines

Eu e o Pokémon Go e as minhas sobrinhas…

Pokémon Go 3

Paguei a língua bem mais rápido do que eu esperava com relação ao Pokemón Go. Já estou procurando os bichinhos com as minhas sobrinhas…

Ok, ok, paguei a língua e daí? E bem rápido! Mais rápido do que esperava. Agora estou que nem a média dos bobocas soltos por aí, caçando Pokémon Go em tudo quanto é canto. Na boa, pensava que fosse mais fácil, jurava que era no cuspe. Não é e confesso que dá um peteleco na bolinha é um sacrifício daqueles. Sempre tive problemas com o mundo virtual, gosto de coisas críveis, palpáveis, entende… Enfim, sou do mundo real.

Não é preconceito ou pedantismo eu não gostar de vídeo games ou jogos do tipo. Simplesmente não entendo. Preciso sentir, do contrário, na existo. Acho que uma boa leitura ou atividades lúdicas como desenhar, pintar ou brincar com jogos interativos é mais interessante. Mas acontece que os tempos mudaram. “Somos mais parecido com o nosso tempo do que com os nossos pais”, já dizia um filósofo árabe que nunca lembro o nome.

Acho que é isso. Catar seres inanimados nos dias de hoje é um comportamento do nosso tempo, goste ou não. Fazer o quê. Parafraseando o Euclides da Cunha: “Ou adaptamos, ou desapareceremos”.

Os pontos negativos e contra com relação a essa febre virtual que tomou de assalto a juventude nos últimos dias. Talvez hipnotizado pelo feitiço do fake, todos sejam alvos vulneráveis de bandidos. Normal com o governo matusquela que temos.

Os pontos positivos é que, absurdamente numa contradição ululante que não sei explicar, o Pokémon Go agrega, socializa. Num mundo cada vez mais antipático e distante em que vivemos isso e um feito e tanto. Hoje mesmo, saindo do apartamento das minhas sobrinhas, uma delas gritou empolgada quando pegou um desses bichinhos nipônicos.

“Eu peguei um Pokémon!”, ela disse. “Eu também peguei um”, disse um vizinho, que nunca tinha falando com a gente até então.

Achei isso tão boboca quanto pegar um Pokémon. Mas mágicos.

* Este texto foi escrito ao som de: (Caetano Veloso – 2006)

Cê

Negócio das Arábias (2016)

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No filme Tom Hanks está literalmente perdido no deserto como esse bobocas que estão agora à cata de Pokemóns por aí

O novo filme de Tom Hanks já se trai no título boboca, em detrimento do original, bem melhor e mais convidativo, algo como “Um Holograma Para o Rei”. Baseado em livro de Dave Eggers, traz a história de um executivo norte-americano em crise profissional tentando vender apetrechos tecnológicos para os milionários homens das arábias.

Mas a viagem não será nada fácil e por um motivo muito simples: choque de cultura. O clima é massacrante, o lugar inóspito e solitário, a comunicação falha, o Sheik nunca chega de viagens intermináveis ao Ocidente, de onde ele veio. Para piorar as coisas, Alan Clay arruma um caroço estranho nas costas que parece câncer e se envolve sentimentalmente com uma médica saudita (Sarita Choudhury).

“O divórcio é complicado nesse país”, diz ela. “Divórcio é complicado em qualquer lugar.

Com direção do alemão Tom Tykwer (Corra, Lola, Corra), o filme é bem esquisito com sua narrativa enfadonha e insossa tentando falar sobre temas pertinentes como crise existencial e mudança de perspectiva. Às vezes, é o que se tenta mostrar, a saída para os nossos problemas esteja onde menos esperamos, mas pena que um assunto tão urgente nesse mundo fake seja desperdiçado num roteiro tão boboca quanto procurar Pokemón Go por aí.

Desde que ganhou os dois Oscars justos por Filadélfia (1993) e Forrest Gump (1994), que Tom Hanks vem patinando em atuações medíocres. Dessa vez ele foi ao fundo do poço.

* Este texto foi escrito ao som de: 10.000 Destinos Ao Vivo (Engenheiros do Hawaii – 2000)

10 mil destinos

Tédio com um “T” bem grande…

Inferno

O existencialista Jean Paul Sartre é quem tinha razão: “O inferno são os outros”. A vida é um exercício, consiste na arte de conviver com pessoas que não toleramos…

Entediado, muito entediado, tão entediado que não quero mais existir. Por favor, alguém aí pode me emprestar uma borracha? Bem, agora que as Olimpíadas começaram, a vontade que tenho é de sumir, fugir para bem longe, desaparecer. Se bem que há um bom tempo ando desenvolvendo um estilo de vida que não precise, necessariamente, da minha existência.

O mundo ideal seria longe de gente chata, egoísta, vaidosa, egocêntrica, preguiçosa e cínica. Talvez por causa de um desses detalhes meu sonho utópico se realize e eu não passe mas a existir. A vida é um exercício, consiste, entre outras coisas, na arte de conviver, todos os dias, com gente que não suportamos. Sartre é que estava certo: “O inferno são os outros”.

Enquanto isso, no reino dos bobos, tem gente tendo orgasmos de besteira por conta de um bichinho virtual que pula que nem perereca num horizonte de tédio. Saindo do Libert Mall, um susto diante de cena patética ao me deparar com uma adolescente e a mãe, ambas com cara de debilóides, caçando o tal do Pokemón Go no meio da rua. E pensar que o treco mal chegou… Tudo bem, não tem gente que acha que Jesus vai cair do céu para nos salvar?

Foi meu amigo Baco quem me ensinou que o álcool liberta o espírito. Pode até ser, mas quando o efeito passa, o vazio é pior…

Na firma, teve gente que ficou chateado porque não ganhou folga por conta dos eventos esportivos realizado no novo Mané Garrincha. Servidor é foda, não faz nada e ainda quer ter direito a tudo. É o tipo de raça que deveria ser extinta da face da Terra.

Passo pelo tocador de sanfona em frente ao Conjunto Nacional e ele tem um chapéu melhor do que o meu e com mais dinheiro do que eu. O cheiro da rodoviária lá embaixo me causa náusea o que me faz lembrar de novo do Jean Paul Sartre e os seus amigos existencialistas. O problema talvez seja esse, essa angústia existencial que me corrói, talvez seja a crise dos 40 anos, sabe como é, né? Barba branca na cara e uma alma em frangalhos aqui dentro…

Cansado de me matar por pessoas que não valem à pena, não merecem minha atenção. Não quero mais que meus sentimentos lustrem o ego de bruxas sádicas indiferentes que tentam comprar minhas opiniões, corromper meus impulsos e orgulho com um mero cartão de crédito. Tem gente que se acha acima do bem e do mal só porque é especial. Mas é do pântano da desilusão, do precipício do desencanto que nasce a verdade. E a verdade, meu chapa, pode doer, machucar ou até mesmo matar…

Tédio com um “T” bem grande…

* Este texto foi escrito ao som de: Closing Time (Tom Waits – 1973)

Closing time 2

Nahid – Amor e Liberdade

Nahid

Produção iraniana simples retrata a triste realidade das mulheres num país marcado pelo machismo milenar

Uma pena não vigorar no Irã a Lei Maria da Penha porque o que ia ter de homem preso não estava no gibi. Contudo, um dos redutos mais machistas do planeta, muito difícil disso acontecer por lá já que nem no Brasil nada rola com eficiência nesse sentido…

…O que diga o drama pungente, Nahid – Amor e Liberdade, em cartaz na cidade. Na trama, a complicada história da personagem-título (Sareh Bayat) que, após se separar do marido, se vê em condição humilhante para obter a guarda do filho. Isso porque, mesmo o ex-cônjuge sendo um viciado em drogas e jogos, além de abrir mão da pensão a que tem direito para ficar com o filho Amir (Milad HosseinPour), ela é “obrigada” a continuar solteira.

Acontece que, jovem e bela, ela não nega fogo a ninguém e encanta os olhos do solícito e charmoso, Mas’ood (Pejman Bazghi), proprietário de um hotel num balneário. Essa relação clandestina irá afetar não apenas na guarda do filho, mas no seu plano de levar uma vida independente.

“A Lei está do meu lado, Deus está do meu lado”, diz seguro de si Ahmad (Navid Mohammadzadeh), o marido trombadinha.

Com direção segura da roteirista Ida Panahandeh, esse drama doméstico iraniano simples, assim como o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2012, A Separação, chega às telas do Ocidente como uma espécie de protesto-denúncia sobre a massacrante realidade das mulheres no Irã.

Longe de ser uma trama piegas ou melodramática, Nahid, premiado na mostra Um Certain Regard em Cannes em 2015, conduz o espectador numa intricada teia de suspense em que a luta pela liberdade e o amor parecem ser o eterno combustível de sobrevivência das mulheres desse triste país que parece que ainda não saiu da Idade Média…

* Este texto foi escrito ao som de: Atlantic Crossing (Rod Stewart – 1975)

Atlantic Crossing - Rod Stewart

Olimpíadas no Brasil pra quê?

Símbolo-Olimpiadas-Rio-2016

Esse símbolo abstrato que criaram para o evento este ano não quer dizer nada, quase que a essência do que será os Jogo Olímpicos para a população brasileira…

As pessoas dizem que sou chato, mas me diz uma coisa. Pra quê Olimpíadas no Brasil se tudo vai mal? A política nunca foi tão ruim desde que a democracia apontou no horizonte e o caos social vai da educação à saúde, passando pela falta de segurança. Algumas pessoas, deslumbradas, não estão nem dormindo, contando os dias para começar os Jogos Olímpicos no Brasil. Eu sou o contrário, estou contando os dias para terminar e o treco nem começou.

Na verdade, quando elegeram o Brasil a sede da nova Olimpíada, os governantes e empresários já começaram a coçar as mãos, pensando na grana que ia ganhar roubando. Aqui é assim, neguinho é de uma expertise ululante quando o negócio é maracutaias, tramoia. Já quando é para resolver os problemas da população é uma burocracia desgraçada.

Bem, e ainda tem a história do vexame que vamos passar. Ou melhor, que já estamos protagonizando. Não quero ser espírito de porco, não, mas tudo que previa de errado que ia acontecer na Copa, e não aconteceu, vai acontecer no Brasil. Que história foi aquela de rim roubado de um atleta australiano? E tinha que ser logo com um deles, que já criaram confusão com as más condições da Vila Olímpica e foram ridicularizados pelo Eduardo Paes.

Fico vendo aquele símbolo abstrato que criaram para as Olimpíadas 2016 e não entendo nada. É como se ele fosse a essência do que será esse evento aqui para o Brasil. Agosto vai ser o mês do desgosto para uma nação com mania de grandeza… Como dizia o Raulzito, parem o mundo que eu quero descer…

* Este texto foi escrito ao som de: MTV ao Vivo (Nando Reis e os Infernais – 2005)

Nando Reis Acústico]