Oscar 2011: O discurso do Rei brilha!

"Com esse Oscar cheguei ao topo da minha carreira", Colin Firth, agradecendo o prêmio

Bem, como havia escrito no post anterior, a festa do Oscar é um grande lobby. Mas este ano parece que as coisas foram, digamos, mais corretas. No mínimo menos surpreendentes. Mas sempre com aquela velha política de retratação da academia. Ou seja, tampando o Sol com a peneira.

Ninguém me tira da cabeça que o Russell Crowe merecia ter ganhado o Oscar com O informante ou ainda com Uma mente brilhante, mas compensaram o erro dando a estatueta com um filme menos brilhante e sua atuação nada visceral em O Gladiador, de Ridley Scott.

Colin Firth, o charmoso ator de O discurso do Rei teve um desempenho ímpar, no drama Direito de amar, sensação no ano passado nos circuitos de cinemas de arte, mas foi desprezado. Ainda bem que seu papel como o Rei George VI está à altura do trabalho anterior. “Com esse prêmio chego ao topo da minha carreira”, discursou o astro britânico, numa variação mais pertinente e prudente do que aquela bobagem irritante do personagem de Leornardo DiCaprio em Titanic: “Eu sou o rei do mundo!”. Colin Firth é sim, o grande monarca do cinema no momento.

Gosto de O discurso do Rei. Acho que foi o grande filme de 2010. É um projeto pequeno, intimista do ponto de vista de história mesmo, de roteiro, que parte de uma premissa idiossincrática para construir um discurso universal sobre a superação. Colin Firth está soberbo como o monarca gago e o autraliano Geoffrey Rush, minha aposta como ator coadjuvante, impecável. Pena não ter levado, embora me parece que Christian Bale está ótimo em O vencedor. Tenho que conferir.

Christian Bale (direita), com Mark Wahlberg em O vencedor, rouba a cena no filme e o Oscar de Geoffrey Rush

O que chama atenção na produção britânica é que o filme é bem feito. Tem um roteiro redondo, com o qual levou Oscar na categoria, além de figurino e direção de arte maravilhosos. Mérito do diretor Tom Hooper, umilustre desconhecido que é verdadeiro artesão da televisão e que aprendeu rápido a dominar a arte do cinema. “A grande moral dessa história é que ouve sempre suas mães”, disse na cerimônia, explicando que foi por causa da matriarca que teve motivação para mergulhar de cabeça no projeto. “Ele fez uma leitura de um discurso do Rei e me disse que tinha uma boa história ali Ouvi ela”, emendou.

Fiquei com muito medo de que as principais estatuetas da noite fossem para A rede social, que ainda não vi, mas me parece um daquelas produções pretensiosos da geração MTV, da geração yuppie. Não sei, acho que é um preconceito meu que deve se dissipar, ou não, depois que eu assistir ao filme. Vamos ver.

A gracinha Natalie Portman, grávida, confirmou as expectativas, com sua marcante atuação no drama de terror Cisne negro. O filme é realmente surpreendente, com sua trama densa, intensa e labiríntica.

A gatinha Anne Hathaway bem que poderia apresentar o Oscar no ano que vem, né?

Quanto à Bravura indômita, a homenagem dos irmãos Cohen ao faroeste e ao ícone do gênero John Wayne, foi o grande perdedor da noite. Mas não acredito que isso tenha arranhado o prestígio, nem o talento da dupla mais badalada do cinema no momento. Aliás, eles bem que mereciam essa ducha de água fria porque estavam bem superestimados. O mesmo problema da turma de a A rede social.

A maldição do Oscar mais uma vez pairou sobre o Brasil, tirando a estatueta de melhor documentário de Lixo extraordinário. Mas quer saber, até que foi bom, do contrário teríamos que agüentar aquele oba oba ufanista da imprensa brasileira.

Mas sabe o que achei mais bacana nessa edição, os vestindos da minha gatinha Anne Hathaway, uma fofa de simpatia. Tomara que ela esteja lá no ano que vem, senão vou ter que assistir ao prometido Crepúsculo dos Deuses, do mestre Billy Wilder.

Confira os principais Oscars da noite:

 

Melhor Filme

O discurso do Rei

Melhor director

Tom Hooper (O discurso do Rei)

Melhor ator

Colin Firth (O discurso do Rei)

Melhor atriz

Natalie Portman (Cisne negro)

Roteiro original

David Seidler (O discurso do Rei)

Ator coadjuvante

Christian Bale (O vencedor)

Atriz coadjuvante

 Melissa Leo (O vencedor)

O oscar é uma festa de lobistas

Ter uma estatueta dessa pode dizer muita coisa, mas também não quer dizer nada

Hoje tem entrega mais uma cerimônia do Oscar. É a 83ª edição. Já perdi as contas de quantas vezes assisti ao evento. Também não sei quantas vezes cobri a festa pela televisão para o jornal. O que posso dizer é que não estou nenhum um pouco empolgado com essa baboseira toda que se tornou a entrega da estatueta mais cobiçada do planeta.

Na verdade, já faz um bom tempo que não dou a mínima, nenhuma pelota mesmo para quem venceu o que e em qual categoria. Me interessa ver o filme pelo mérito próprio que ele tenha em todas as suas feituras, arranjos, independente de quantas indicações ele tem. Já foi o tempo que eu ficava que nem torcedor bobo na arquibancada esperando ver quem seria o grande vencedor da noite.

Vi que o Oscar é uma grande bobagem, farsa, embuste, quando em 1997 o dramalhão Titanic arrebatou 12 estatuetas, igualando-se ao número de Oscars da obra-prima épica Ben-Hur. Imagina, aquela coisa ridícula com o Leonardo DiCaprio gritando “Eu sou o rei do mundo!” na proa de uma navio fantasma levar 12 prêmios?! Foi a gota d’água.

De modo que estou por fora este ano. Não sei de nada de indicações, quem concorre a quê e em quantas categorias. Vale dizer que vi poucos filmes que estão concorrendo. Dos poucos que vi nem achei grande coisa assim, embora sejam obras acima da média da grande enxurrada de lixo que os produtores vem jogando nas salas de cinema.

O que sei é que este ano o número de filmes indicados na principal categoria, Melhor Filme, aumentou. São dez. Antes eram cinco. Desses, só vi cinco. Bravura indômita, Cisne negro, O discurso do rei, Toy Story 3 e A origem.

A indicação de Toy story 3 como melhor filme é uma aposta no segmento que mais tem crescido no cinema: a animação

Gosto mundo do Christopher Nolan, o diretor inglês que dirigiu pérolas como Memento, insônia e revitalizou a saga do cavaleiro das trevas em Batman begins, um dos meus heróis prediletos. Ele tem um dom incrível para trabalhar no cinema com elementos abstratos como o inconsciente, os sonhos, delírios e devaneios da mente, ingredientes que tem tudo a ver com a mítica e magia do cinema.

Mas acho que ele escorregou em A origem, que não entendi patavina de nada. Me senti um otário, como nas sessões de Matrix. Mas eu acho que o problema sou eu, que não tenho inteligência suficiente para entender a engenhoca onírica que ele criou em seu filme. Prefiro mais coisas “pé no chão”, como Woody Allen ou Billy Wilder.

Toy story 3 concorrendo ao Oscar de melhor filme até parece uma piada, mas entendo a coragem dos produtores norte-americanos que visam, com essa ousadia, valorizar um mercado que vem crescendo ano após ano: o da animação. E o que é melhor, com as melhores histórias nas telonas. Vi Toy story 3 com a minha afilhada. Ela gostou, então eu gostei também.

Estrelado pela gatinha Natalie Portman, Cisne negro foi uma grande surpresa, até porque o nova-iorquino Dan Aronofsky é um diretor estilo montanha-russa, cheio de altos e baixos. É capaz de ridicularizar sua arte com pretensões como Fonte da vida, mas surpreender em trabalhos de peso como O lutador, que tem em O vencedor, o concorrente equivalente este ano. Seu Cisne negro é um exercício denso, intrigante e versátil do ponto de vista de roteiro sobre o bem e o mal, as duas facetas que dominam nossa personalidade. Acho que Natalie tem tudo para levar a estatueta de melhor atriz. Mas se perder, não será uma tragédia.

O charmoso britânico Colin Firth é a minha aposta na categoria melhor ator, com todo respeito a Jeff Bridges

Agora a briga feia mesmo será entre os pesos-pesados Bravura indômita e O discurso do rei, duas obra que sintetizam em todos os seus atributos, o que é a arte do cinema. Bravura indômita, dos irmãos Ethan e Joel Cohen, tem o mérito por si só por apenas fazer uma grande homenagem à sétima arte e um dos seus ícones, John Wayne, sem macular a obra original de 1969. Por tabela, eles reverenciam o western, gênero cinematográfico norte-americano por excelência.

Tenho medo de remakers, imaginam se inventam reproduzir um clássico como Casablanca nos dias de hoje? Seria uma droga, como fizeram com o singelo Sabrina, de Billy Wilder. Mas em se tratando dos irmãos Cohen tudo é permitido e acho que eles mandaram bem. Gosto da atuação magistral de Jeff Bridges, como o canastrão xerife J. “Rooster” Cogburn, mas acho o charmoso Colin Firth mais ator em O discurso do rei, o meu filme predileto no páreo. Aliás, essa produção inglesa dirigida por um ilustre desconhecido, Tom Hooper, é o grande projeto do ano.

O filme parte do menos para chegar ao mais. Tendo como escopo o tema batido da amizade, cria uma história cheia de situações intimistas que valorizam, em sua plenitude, as atuações marcantes de Colin Firth e Geoffrey Rush, a dupla sensação deste ano. Ficaria feliz e menos ludibriado se O discurso do rei saísse com os principais Oscars debaixo do braço.

Mas acho que na hora da transmissão vou ver mesmo é um filme do Billy Wilder, talvez Crepúsculo dos deuses, em homenagem às falcatruas e malandragens dessa cerimônia que se tornou uma feira lobista. Ou vocês acham que O que isso companheiros?, Central do Brasil e Cidade de Deus chegaram à festa como concorrentes só por suas qualidades?

* Esse texto foi escrito ao som de: Achtung baby (U2 -1991)

Bob Dylan à sombra de Woody Guthrie

Woody Guthrie e sua "maquina de matar fascista". Ninguém retratou o sofrimento do seu povo no período da Grande Depressão

Se você gosta de Bob Dylan como eu, sabe que o bardo norte-americano não existiria sem a figura mítica do cantor folk Woody Guthrie seu grande herói da adolescência. Munido com uma “máquina de matar fascistas”, gaita tonitruante e canções com forte cunho social, Woody retratou como poucos em canções a América oprimida dos anos pós-Grande Depressão de 1929. As décadas de 30 e 40 seriam os anos de Woody e sua música social.

Ousado, abusado e humanista ao extremo, Woody Guthrie fez de suas canções espelhos de uma época sofrida para seu povo massacrado pela ganância e soberba dos grandes proprietários de terra e industriais. Uma realidade capitada com primor pelo escritor John Steinbeck em As vinhas da ira e que outro John, o Ford, com sua sensibilidade de irlandês de coração grande, estendeu para as telas no clássico filme homônimo de 1940. Acho que foi uma das atuações mais marcantes de Henry Fonda.

Se Woody Guthrie conhecesse o Lula, os dois seriam grandes amigos, com certeza, dado a grande carga humanista com que ambos conduziram suas trajetórias. Nascido Woodrow Wilson Guthrie, em Okemah, Oklahoma, em 1912, Woody, como tantos outros da sua geração, cresceu vilipendiado pelas desgastantes tempestades de areia que castigavam o horizonte do pequeno vilarejo que vivia e a fome eminente nesses anos de crise.

Com talento nato para pintura e a música, um dia botou num dos bolsos uma gaita e no outro um feixe de pincéis, partindo rumo à terra dos sonhos: Califórnia. Deixou para trás a mulher, dois filhos e um bilhete com os dizeres: “Mando buscar vocês!” Seguindo as trilhas dos seus pares, vagou por dias em cima dos trens, aprendendo com os trabalhadores migrantes de Oklahoma canções de folk e blues. O futuro lhe reservaria grandes emoções e um aprendizado cujo legado pode ser conferido tanto na obra dos escritores beatniks, quanto no trabalho de nomes como Ramblin’ Jack Elliott e Bob Dylan, evidentemente.

Tal epopéia pode se conferida na ótima cinebiografia Esta Terra é minha Terra, filme de 1976 dirigido pelo diretor maldito Hal Ashby, um alcoólatra junkie que realizou obras significativas nos anos 70 como Ensina-me viver, Shampoo e Amargo regresso. Vi o longa esses dias, que tem o título em português de uma das canções de Guthrie, no Telecine Cult e amei porque conhecia muito pouco da vida e obra de Woody Guthrie, uma vergonha para quem idolatra Mrs. Robert Zimmerman, como eu.

A narrativa é bem convencional, tendo como protagonista David Carradine, muito antes dele dar seus golpes mortais no seriado Kung-fu e no filme Kill Bill, de Quentin Tarantino, e tocando violão de verdade, sem truques de montagens. Mas de uma força simbólica impressionante. Vendo o filme e escutando Bob Dylan depois, sobretudo os seus primeiros registros, pude conferir o quanto a obra e trajetória de Woody impregnou o trabalho do bardo nos anos 60.

David Carradine viveu nas telas o cantor folk Woody Guthrie, em filme dirigido por Hal Ashby

O raciocínio é bem simples e direto. Sem Woody, não teríamos Blowin’ in the Wind, A hard rain’s a-gonna fall, muito menos The times they are a-changin’ e a mítica figura de Dylan com seu violão folk a tira-colo, boina bolchevista na cabeça e gaita na boca, tal famosa nos anos 60. Quem vê o filme identifica e entende essas apropriações. Posso estar dizendo besteira, mas talvez o movimento beatnik não nascesse com tanta força e tivesse o impacto que teve sem não fosse as canções e discursos inflamados de Guthrie, que poderia ser visto muito bem como um ativista de esquerda. Isso numa América capitalista e gananciosa.

Dylan amava Guthrie e moldou sua carreira nos anos 60 tendo como paradigma a figura do cantor folk, seu mentor e idealista, tanto no visual quanto na proposta criativa. A partir de uma forte referência, criou uma identidade própria que virou mito no século 21.

Eu li acho que na autobiografia que Bob Dylan escreveu, não sei, não lembro, que ele teve a chance de ver seu ídolo uma vez, em Nova York, ou em outra cidade, não recordo, antes que ele morresse em 1967, vítima da doença de Huntington. Muitos questionam esse encontro, mas o fato que, lenda ou não, Bob Dylan sempre teve plena consciência de sua dívida com o velho Woody Guthrie. E nos também.

* Esse texto foi escrito ao som de: Bob Dylan e The freewheelin’ (Bob Dylan – 1962/1963)

Eu, Luana Piovani e minha bruxinha

Luana Piovani bancando a Lolita no auge dos seus 17 anos: e essas camisinhas menina?

Houve um tempo em que a tevê aberta era boa. Mais isso foi há muitos e muitos anos atrás. Agora existe um canal só para nos fazer lembrar que já existiu um tempo em que a televisão era boa. Só que para ter esse momento proustiano a gente tem que pagar. E caro. Há muita bobagem, besteira, lixo nas programações, grades da TV a cabo. Mas se peneirar aqui e ali dá para tirar alguma coisa boa.

Meus canais por assinaturas prediletos são o Telecine Cult, GNT, Globo News, TCM, uma canal de viagem da Discovery Channel chamado TLC e o Viva, da Rede Globo, que num exercício de metalinguagem oportuno, vem revivendo os grandes programas, minisséries e novelas da emissora.

Não perco um capítulo da minha novela preferida, Vale tudo, o último grande folhetim que assisti. Depois de Vale tudo e da vilã Odete Roitman, tudo virou pastiche, um simulacro medíocre. Agora estou revendo uma minissérie que curti bastante na minha adolescência e que revelou rostos hoje conhecidíssimos na televisão e cinema nacional que é Sex Appeal.

O autor era o Antônio Calmon, que escreveu também Armação ilimitada (quem aí não se lembra do Juba e Lula) Vamp e Top model, a novela das sete que eternizou a canção Hey Jude dos Beatles no meu inconsciente, ainda que fosse uma versão cafona. Com abordagem sofisticada, bem pop, Sex appeal tinha no elenco, além da sempre charmosa Elizabeth Savalla, Mário Gomes, Otávio Augusto, Kadu Moliterno e a dupla Walmor Chagas e Cleyde Yáconis, os dois vivendo um casal divertidíssimo, donos e diretores da agência de modas Sex Appeal.

Abordando temas delicados, até então mostrados de forma velada na teledramaturgia brasileira, entre eles o submundo das drogas, a minissérie foi responsável por lançar nacionalmente a beldade Luana Piovani, na época uma gatinha com apenas 17 anos. Na verdade não só ela, mas também a Danielle Winits, a Camila Pitanga e a Carolina Dieckmann. Mas a minha musa sempre foi a Luana Piovani. Nossa, como era linda ela com aqueles lábios carnudos deliciosos Santo Cristo! Na verdade, eu assistia a minissérie só para ver a Luana Piovani seus grandes olhos azuis, sorriso angelical. Acho que foi por isso que o Antônio Calmon deu o nome da personagem de Angel, não sei.

Adorava também uma música tema dela com o ator Nico Puig, outra revelação no folhetim, e que nunca consegui saber de quem era. Bem, de qualquer forma tinha a marcante Eu tive um sonho, o hit do Kid Abelha da época. Enfim, coisas que vem e que vão embora, mas que ficam.

Luana Piovani e esse blogueiro na época da peça O pequeno príncipe em Brasília

Anos depois, no elenco do filme O homem que copiava, do Jorge Furtado, eis que ela vai à Brasília para lançar o projeto. E eu lá, na coletiva que aconteceu num daqueles hotéis chiques do Setor Hoteleiro Sul. Todo mundo querendo só falar com o Jorge Furtado e com o Lázaro Ramos e eu babando nas sardas gostosas da Luana Piovani.

Nem lembro se fiz alguma pergunta a ela. Na época eu era muito tímido, ainda sou. Só lembro que ela, já uma estrela, estava incomodada, chateada mesmo com o fato dos holofotes e as atenções estarem focados apenas no cineasta Jorge Furtado e no Lázaro Ramos, o homem que copiava.

Na saída, o nosso fotógrafo, como todo bicho fotógrafo que é, besta que só ele, foi fazer gracinha e pediu que ela fizesse uma pose para uma “foto legal”. Desfilando com enormes sandálias de salto alto e exibindo uma mini saia deliciosa, ela pára no meio do corredor, cruza os braços e dispara furiosa:

– Você não acha que eu vou perder o meu tempo fazendo uma pose para você, né?!

Não sei o fotógrafo metido a besta, mas eu tive vontade de furar um buraco e entrar nele. De qualquer forma, o episódio foi revelador e serviu para quebrar o mito que havia criado em torno da figura angelical dela. A decepção foi grande. Algumas pessoas são assim. Se mostram uma coisa e na verdade escondem verdadeiros diabinhos dentro de si. Me apaixonei por uma pessoa que eu achava que fosse um anjo e que se revelou uma bruxa. O pior é que eu ainda gosto dessa bruxinha malvada.

Mas voltando a Luana Piovani. Anos depois, tive oportunidade de entrevistar ela novamente. Por coincidência mais uma vez em Brasília e no mesmo hotel chique da coletiva de O homem que copiava. Na época, ela desembarcara na capital do país para divulgar a peça O pequeno príncipe, da qual era produtora executiva e protagonista.

A entrevista foi bacana e o fotógrafo, agora outro, não o mesmo do ridículo episódio, se comportou direitinho. Depois da entrevista exclusiva que deu ao jornal que eu trabalhava, ela, um poço de simpatia, ficou um tempão jogando conversa fora, falando de quanto o livro do Saint-Exupéry mexeu com ela na infância, de como gostava de Brasília e tal. Até comentei que minha sobrinha adorava O pequeno príncipe também e ela achou uma gracinha:

– Leva ela para ver a peça, vocês vão adorar!

Levei minha sobrinha para ver o espetáculo na Sala Villa-Lobos, no Teatro Nacional e ela adorou. Não por causa da Luana Piovani, que ela nem tinha noção de quem fosse, mas pelo personagem, que ela ama até hoje. Eu também gostei da montagem, pelos mesmos motivos da minha sobrinha. Por causa do fofo personagem infante, não pela Luana Piovani. Acho que o encanto tinha se perdido, o feitiço se quebrou.

* Esse texto foi escrito ao som de: Cássia Eller (Cássia Eller – 1993)

Cap.4 Bowie descobre Bob Dylan e o Blues

No The King Bees David Bowie (centro), ainda Jones, registraria seu primeiro produto musical

O primeiro emprego de verdade de David Bowie foi numa agência de publicidade. A vaga de designer júnior, pleiteada pelo seu mentor escolar Owen Frampton – pai de Peter Frampton, que nos anos 70 se tornaria um dos ícones do rock britânico – ficava na J. Walter Thompson (JWT), poderosa filial do ramo situada em Londres. De modo que todos os dias o adolescente David tinha que pegar o trem para o trabalho. Na volta, se perdesse a condução, corria o risco de dormir nos gelados bancos da estação ou ficar perambulando pelas ruas da agitada metrópoles. E às vezes era isso que ele queria que acontecesse.

Embora não tivesse ficado empolgado, achava o novo trabalho melhor do que a ocupação de assistente de eletricista conseguida pelo pai John Jones. Adorava andar pelas ruas flamejantes, brilhantes e efervescentes da capital inglesa, cheias de cafés, lojas de discos e roupas descoladas. Um dia, zanzando entre uma prateleira e outra, numa discoteca, viu o primeiro disco de Bob Dylan. Foi mais ou menos nessa época que, entediado com os cantores pop e ídolos adolescentes que pipocavam na Inglaterra pré-Beatles, se encantaria com o blues vindo do delta do Mississipi.

“Desenvolver um interesse apaixonado por blues parecia uma alternativa para essa oferta de bandas vazias e oportunistas”, escreve o jornalista Marc Spitz, autor da biografia Bowie, lançada ano passado no Brasil pela Benvirá. “Artistas de blues como Little Walter e Sonny Bou Willianson encheram os bolsos com pedidos de shows além-mar. Marginalizados em seu próprio país, eles eram recebidos como heróis quando voavam para Londres para se apresentar em cafés meio podreiras, porém lotados, do Soho”, continua Sptiz.

Mas os artistas negros de blues vindo da América não seriam as principais novidades que preencheriam a vida do jovem David Jones. Danças agitadas, literatura existencialista francesa e o cinema vanguardista de nomes auspiciosos como Fellini, Godard e Antonioni, além da pop art de Andy Warhol, também faziam parte desse grande caldeirão cultural que explodia na cena londrina naquele início dos anos 60 junto com o movimento mod (abreviatura de modernismo).

Embarcando nessa onda, os Kon-rads, a nova banda de David Jones (que na verdade só mudou de nome já que os integrantes eram praticamente os mesmos) começa a fazer sucesso nas feiras das escolas e festival. Muito pela dedicação do jovem Jones, que largou o emprego de designer júnior na J. WT para se dedicar em tempo integral ao sonho de ser uma estrela da música.

O plano funcionou porque naquele verão de 1963 a banda atraiu a atenção de Eric Easton, o agente da Decca Records, gravadora que tinha acabado de contratar os bad boys dos Rolling Stones. Eles até gravaram um singles, I never dreamed, com David como co-autor da faixa e participando no backing vocal, mas a espaçonave não decolaria daquela vez.

Vasculhando as prateleiras de uma loja de disco de Londres Bowie descobre Bob Dylan

A faixa esquecida se tornaria raridade entre os fãs porque, acompanhando de perto a beatlemania crescer não apenas na Inglaterra, mas também nos Estados Unidos, a reboque de sucessos como She loves you e I wanna hold your hand, o jovem Jones saiu à cata do seu Brian Epstein em casas badaladas no Soho como o Café Gioconda e Marquee Club. “O Soho era uma parte de Londres aonde você poderia ir e esquecer que estava na Inglaterra”, descreve alguém que conhecia bem o local na biografia Bowie.

Agora como os The King Bees, depois de um curto período sendo os Hooker Brothers, David Jones e sua trupe iriam mais longe, subiriam alguns degraus. Ao tocar na festa de um judeu rico, o grupo ganhou a confiança do importante empresário do ramo de máquinas de lavar, a ponto de este indicar um bem relacionado amigo no meio musical.

Leslie Conn foi o responsável por conseguir o primeiro produto oficial de David, ainda que como Jones. Assim, em 05 de julho de 1964, ele e seus amigos abelhudos gravaram pelo selo Vocalion Pop, um braço da Decca, um single contendo as faixas Liza Jane e o cover Louie Louie go home. O pequeno registro também não fez sucesso, mas deu sinais do que estava por vir. Porém, o novo caminho seria trilhado sozinho pelo jovem ambicioso, que adotaria um novo nome. “Isso é bom para vocês, que estão na faculdade”, disse ao amigo George Underwood. “Eu deixei a agência (de publicidade) e estou mergulhado nisso até o pescoço”, avisou.

* Esse texto foi escrito ao som de: Panis et circencis (Mov. Tropicália – 1968) e Gal Costa (Gal Costa – 1969 I e II)

Odete Roitman é irmã de Miranda Priestly

Um ódio shakespeariano movia a relação entre a mãe e filha no sucesso Vale tudo

O mordomo arruma com atenção os talheres, copos e pratos sobre a mesa e, cruzando as mãos acima da barriga, dá um suspiro de satisfação. Atento a todos os detalhes, o pequeno Bruno, com um sorriso cínico pergunta por cima dos óculos de nerd:

– É sempre assim todo o dia Eugênio?

Esboçando sua cara de bonachão orgulhoso do trabalho que faz, o empregado responde polidamente:

– Sempre assim senhor Bruno, todos os dias. Cada coisa em seu devido lugar e cada pessoa no seu lugar à mesa.

Levantando as pontas dos pés, com um ar de demônio de desenho animado estampado no rosto, o pequeno traquina emenda:

– Uh, sei… E onde é que a dona Odete senta, hein?!

Indignado com a pergunta cretina, o mordomo Eugênio dispara:

– Ora senhor Bruno, onde mais a dona Odete poderia sentar senão na cabeceira!!

Bem, o mordomo esnobe em questão é o ator Sérgio Mamberti. O diabinho inquisidor, no auge dos seus 12, 13 anos, é o ator Danton Mello, que acabaria pregando o copo na mesa, dando um banho de água na diabólica Odete. Ambos numa cena do sucesso Vale tudo, novela da Rede Globo escrita em 1988 por Gilberto Braga que praticamente parou o Brasil.

Andei revendo alguns capítulos reprisados no canal pago Viva, da Rede Globo, e posso dizer de boca cheia: como era boa essa novela, né? Definitivamente não fazem mais novelas como antigamente. Lembro que eu parava tudo para ver o folhetim. Era só escutar as guitarras eletrizantes e a voz marcante de Gal Costa cantando Brasil, o hit de Cazuza, para sair correndo.

Só tinha cobra no elenco, mas todo mundo adorava odiar a sádica, venenosa, irritante Odete Roitman, que acabaria sendo assassinada no último capítulo numa das cenas mais antológicas da teledramaturgia brasileira. Depois que ela morreu, a novela ficou sem graça. Beatriz Segall, que vivia impecavelmente a megera, parece que era mais ou menos antipática na vida real também porque outro dia vi uma entrevista dela não sei onde que ela falava que detestava que as pessoas a parasse na rua para perguntar sobre sua personagem.

O Brasil adorava odiar Odete Roitman. No dia em que ela morreu a novela perdeu a graça

Havia várias tramas dentro da história, que trazia um componente shakespeariano eletrizante que era a relação de amor e ódio entre Maria de Fátima (Glória Pires) e sua mãe Raquel Accioli, vivida pela Regina Duarte. Periférico ao conflito das duas tinha a conturbada relação entre Ivan Meireles, Antônio Fagundes, que amava Raquel, mas se casou por interesse com a insegura e alcoólatra Heleninha (Renata Sorrah), filha de Odete Roitman, que por sua vez também era mãe do burguês todo certinho Afonso (Cássio Gabus Mendes).

Afonso era o genro que toda sogra queria ter porque era o único sangue bom do clã Roitman. Mas ingênuo, caiu nas teias da diabólica Maria de Fátima, com que acabou tendo que casar, mas que o traía com o bon vivant César (Carlos Alberto Riccelli). Não dava o braço a torcer, mas ele gostava mesmo era da gatinha Solange, vivida pela Lídia Brondi, que tomou chá de sumiço e nunca mais botou os pés numa novela. Ela era editora de moda da sofisticada revista Tomorrow e vivia às turras com o pedante Mário Sérgio (Marcos Palmeiras), amigo de Sardinha (Otávio Müller), que dividia apartamento com Solange, ufa!

Basta dizer que esse núcleo da revista era a parte que eu mais gostava porque era bem descolada. Sabia que toda vez que a personagem de Lídia Brondi aparecia chorando, eu ia escutar o Cazuza cantando a balada pop bossa nova Faz parte do meu show: “Te pego na escola e encho a tua bola com todo o meu amor/Te levo pra festa e texto o teu sexo com ar de professor”.

Cazuza tinha duas canções na trilha sonora da novela: Faz parte do meu show e Brasil, tema de abertura

A gente que era classe média, média baixa, torcia pelo sucesso de Raquel, mulher batalhadora, guerreira que saiu de baixo vendendo sanduíche na praia até virar uma grande empresária do ramo. Humilde, honesta e dedicada, ela era antítese da diabólica Odete Roitman, criatura nefasta que adorava humilhar, pisar, desfazer das pessoas.

Outro dia, vendo O diabo veste Prada, divertido filme sobre os bastidores da moda com a fofinha Anne Hathaway e Meryl Streep, cheguei a conclusão que a insuportável Miranda Priestly (Meryl Streep) e Odete Roitman são irmãs de gênio, antipatia e soberba. Uma a sombra da outra. E pensar que existem pessoas assim.

Vale tudo mexeu com o jeito das pessoas assistirem novela. Foi a última grande novela que assisti e vendo hoje Insensato coração, vejo o quanto Gilberto Braga, que também escreveu Anos Rebeldes, perdeu a mão. Com uma abordagem mais pop e direta, a novela das oito tinha como tema central a honestidade do cidadão brasileiro, num país em que a corrupção e a desonestidade estavam em moda. Quem viu não vai esquecer nunca a banana que o personagem mal-caráter de Reginaldo Faria dá para todo mundo no final do folhetim. Acho que José Arruda e sua quadrilha não assistiram Vale tudo. Ou melhor, acho que eles assistiram, sim.

* Esse texto foi escrito ao som de: Moseley shoals (Ocean colour scene – 1996)

Clint Eastwood flerta com forças do além

Em Além da vida Matt Damon vive um médium atormentado com a "maldição" de falar com os mortos

Aos 80 anos Clint Eastwood não precisa provar mais nada a ninguém. Ator de sucesso nos anos 60 e 70, seguiu as décadas seguintes como produtor e diretor respeitado pela crítica e seus pares. Vencedor de quatro Oscars, dois como diretor e dois na categoria melhor filme (todos por Os imperdoáveis e Menina de ouro), ele já viveu nas telas o homem de Alcatraz, andou sem nome pelos desertos da Espanha, bancou o radialista mulherengo, não fez feio como treinador de boxe e até foi babá de chimpanzé. Ainda tem tempo para tirar onde de exímio pianista e amante do jazz. Dono de uma sensibilidade singular, o experiente astro está de volta ao cinema com o drama espiritual Além da vida.

Nem dei muito pelota ao ler a sinopse do filme, mas fui fisgado ao ler que o velho Clint não só produziu o projeto, como também dirigiu a fita. Não sei se ele conhece Chico Xavier, mas percebe-se, vendo o filme, que tem bastante intimidade com o tema espírita. Talvez seja o peso dos 80 anos nas costas, vai saber.

O começo é medonho, com um tsunami hollywoodiano engolindo uma praia de luxo na Tailândia e os turistas do mundo inteiro que nela estão. As ondas hi-tech destroem tudo que vê pela frente e pega de surpresa inclusive a jornalista francesa Marie (Cécile De France), uma das personagens centrais dos três contos que formam a narrativa de Além da vida.

Ele sobrevive à ira da natureza, se chateia por perder a matéria do século, mas o acontecimento mexeu com ela, que jura ter ido do outro lado da vida. De volta a Paris, rever sua vida profissional e decide investir num livro contando sua experiência. Encontrará pedregulhos pelo caminho.

Um dos gêmeos dessa trama metafísica terá que lidar com a dor da perda

Em São Francisco (terra natal de Clint Eastwood), George Lonegan (Matt Damon) é um operário que renega seu dom de médium e passado de sucesso em busca de uma vida normal. Ele está de saco cheio de conversar com os mortos, quer se livrar dessa maldição e tenta driblar os assédios do ambicioso irmão, que o quer de novo no negócio “dos espíritos”. Mas tudo que ele quer é ter tempo de sobra para ler os livros do seu autor predileto, o britânico Charles Dickens. “Uma vida focada na morte não é uma vida”, alega George.

Na outra ponta do vértice, em Londres, os irmãos gêmeos Marcus e Jason (George e Frankie McLaren), são como unha e carne. Dedicados na escola, eles vivem a rotina de driblar toda semana os oficiais de justiça que querem tirá-los da mãe viciada em heroína. Mais uma tragédia irá mudar para sempre a vida de um deles quando Jason, doze minutos mais velho, é atropelado e morto no centro da capital londrina, enchendo de dor e dúvida o “caçula” gêmeo. Desnorteado, o que fiocu busca explicações para tentar preencher o vazio que atormenta sua ingênua mente.

Ator de sucesso e cineasta de prestígio, Clint Eastwood é um habilidoso contador de histórias

Seguindo a trilha do cinema sinuoso do mexicano Alejandro González Iñarritu (Babel e Amores brutos), Clint Eastwood e o roteirista Peter Morgan (A rainha e Frost/Nixon) costuram três histórias carregadas de conflitos metafísicos e dramas pessoais. Lida com o tema da morte sobre três perspectivas diferentes sem descambar para o piegas, mesmo que acentue um tom excessivamente melodramático, que é o estilo do diretor, se você já assistiu a filmes como Sobre meninos e lobos e Menina de ouro.

Além da vida não é um daqueles enredos que tentam empurrar a doutrina espírita goela abaixo dos espectadores. Até porque esse não é o estilo do diretor, dono de uma elegância criativa ímpar e com grande sutileza para abordar assuntos espinhosos, como foi o caso da eutanásia, no já citado Menina de ouro.

Tal qual um juiz, Clint, que mais uma vez provou ser um ótimo diretor de atores (preste atenção no desempenho sutil e sereno de Matt Damon), abre a questão para o debate e, sem julgamento de valores ou preconceitos, aponta os vários caminhos que podem ser seguidos após a morte. A cena em que o pequeno Marcus tem os sentimentos negligenciados por uma charlatã diante de uma plateia de desalmados é exemplar.

Os desavisados podem até se sentirem enganados pelo título banal em português que dá uma ideia equivocada de salvação pós-vida. Se existe vida depois da morte, paraíso e inferno ou um Jesus caindo do céu, cabe a cada um dos espectadores descobrirem ao término da sessão. Mas é sempre bom, uma vez ou outra, saber pelo menos quem está contando a história. E contar boas histórias é o que o velho Clint Eastwood tem feito de melhor nos últimos anos.

* Esse texto foi escrito ao som de: The early years (Roxy Music – 1989)

 

Discoteca Básica (4) As quatro estações

Sereno e místico As quatro estações está entre os melhores trabalhos da Legião Urbana

E no princípio existia o Verbo. E também existiam os Beatles. No auge dos meus 13, 14 anos, só tinha ouvidos, mente e coração para as canções do Fab four. Tinha virado obsessão. Era só Beatles, Beatles, Beatles, iê, iê, iê e nada mais. Minha obsessão era os Beatles e ponto final. Minha mãe, que adorava o grupo de Liverpool, não aguentava mais sempre os mesmos discos, as mesmas canções. O rock nacional pegando fogo, no auge mesmo com bandas como Titãs, Nenhum de Nós, Paralamas do Sucesso, Engenheiros do Hawaii e a Legião Urbana estourando nas rádios com Eduardo e Mônica e Faroeste caboclo e eu ali, sem desgrudar dos LPs de Help! e Abbey Road.

Um dia escutei os versos “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” e click, caiu a ficha. Claro que não acreditei naquilo, mas descobrir que existia um outro mundo além dos portões beatlemaníacos que eu havia criado. Existia a Legião Urbana. E existia Renato Russo, com sua melancolia niilista, seu lirismo decadente de poeta românico. E o que era melhor, bem ali, em Brasília, a Eldorado dos meus sonhos de adolescente angustiado.

Angústia. Eis a palavra que define minha sintonia com as letras do vocalista e líder da Legião Urbana. Angústia e tristeza porque, assim como a maioria dos meninos e meninas da minha geração, percebi que, o que aquele cara estranho de voz grossa, trejeitos nervosos e melancolia crônica estava cantando, era para mim. A frase virou um clichê, mas a Legião Urbana cantava as dores, angústias e desilusões da juventude. “Me sinto tão só/E dizem que a solidão até que me cai bem…”.

O primeiro disco de rock brasileiro que me fisgou, fez a minha cabeça de verdade foi As quatro estações. Versos como “quero me encontrar mas não sei onde estou/(…) Não é a vida como está e sim as coisas como são” ou “sei rimar romã com travesseiro…” me jogaram no chão. As primeiras canções que aprendi a tocar no violão foram do disco Help!, dos Beatles, e de As quatro estações, da Legião. “Me diz porque o céu é azul…”, gostava de gritar dentro do meu quarto frio e cinza. Cinza monocromático, aliás, era a cor da capa do disco que só trazia os três integrantes da formação original já que Negrete, apelido do baixista Renato Rocha, tinha cascado fora. Foi cuidar da sua coleção de motos e da pequena chácara que tinha.

Místico, descambando para o esotérico sem ser messiânico – como acusaram alguns críticos na época -, e apresentando uma sonoridade mais madura, onde baladas pops fazem dobradinha com rocks viscerais, o quarto álbum de estúdio dos meninos de Brasília era de uma virulência niilista impressionante. Depois li que o disco foi gravado num clima de decadência total. “Se a gente tivesse que gravar um outro ‘As quatros estações’ estávamos fritos”, desabafou, na época, o baterista Marcelo Bonfá. “A gravação do disco foi o nosso calvário”, diria o guitarrista Dado Villa-Lobos. “Mas foram os momentos mais criativos da banda em estúdio”, concordaria.

"É preciso armar as pessoas como se não houvesse amanhã...".

Suicídio (Pais e filhos), desilusão amorosa (Maurício), drogas (Há tempos), AIDS (Feedback song for a dying friend), sexualidade (Meninos e meninas), Camões (Monte Castelo), fé (Se fiquei esperando meu amor passar), repressão (1965 – Duas tribos). Estava tudo ali, naquele disco com capa cinza monocromático, mas dito de uma maneira lírica, contundente, serena e sincera. “Ainda que eu falasse as línguas dos anjos…”.

Durante muito tempo As quatro estações foi o meu álbum de cabeceira. É o meu disco preferido do grupo brasiliense e vendeu horrores, acho que o mais vendido da banda. Curioso que quase todas as faixas viraram sucessos radiofônicos e grande parte eram destituídas de refrões fáceis.  O vinil tocava direto na vitrola e Depois dos Beatles, minha mãe não queria ouvir mais a voz do Renato Russo, que ela jurava que era do Jerry Adriani. Mas carola que era, gostava quando ele cantava em Se fiquei esperando meu amor passar: “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade”.

Eu tinha um grande amigo que adorava a Legião Urbana. Ele amava As quatro estações. Eu era fanático com os Beatles. A obsessão dele era com a Legião Urbana. Um dia ele morreu, afogado no mar da Bahia. E toda vez que escuto Vento no litoral (canção do álbum seguinte, V) ou alguma música do As quatro estações, me lembro dele. “Já que você não está aqui o que posso fazer é cuidar de mim”.

* Esse texto foi escrito ao som de: As quatro estações e V (Legião Urbana – 1989/1991)

Irmãos Cohen homenageiam John Wayne

Jeff Brigdes revive mítico personagem vivido por John Wayne em 1969, no ótimo Bravura indômita

Quando John Wayne morreu, em 1979, o western, gênero cinematográfico norte-americano por excelência, ficou com tanta saudade que também bateu às botas. Daí, só seria reinventado anos depois com os “spaghetti italianos” de Sergio Leone e pelas lentes incisivas de Clint Eastwood, no forte Os imperdoáveis, e dos irmãos Cohen em Onde os francos não têm vez, que mais uma vez voltam à baila concorrendo ao Oscar deste ano com 10 estatuetas.

Agora com a releitura do faroeste genuíno Bravura indômita, de 1969, numa homenagem que fazem não só ao gênero que é – ou pelo menos foi – um dos pilares da indústria do cinema na América, como um dos seus grandes ícones, o astro John Wayne.

Para quem acompanha a carreira da ousada dupla, sabe que o estilo dos Cohen é arrojado, com dedicação exclusiva na construção de roteiros inteligentes e instigantes que desembocam quase sempre em histórias absurdas, mirabolantes, recheadas de boa dose de humor negro e reflexão contundente da ridícula condição humana.

Basta prestar atenção em filmes como Fargo, E aí meu irmão, cadê você?, Matadores de velhinhas, Queime depois de ler, e claro, o niilista Onde os francos não têm vez, no qual eles desconstroem a narrativa clássica dos filmes de western com clima soturno de ficção científica e trama de suspense. Ninguém vai esquecer da bizarra figura de Javier Bardem como um psicopata que parece ter vindo de outra galáxia. Uma obra-prima, para dizer pouco.

As tramas dos irmãos Cohen (foto) são arrojadas, mirabolantes e com contundente reflexão sobre a rídicula condição humana

Em Bravura indômita, Ethan e Joel Cohen voltam às origens e apostam na simplicidade para prestar uma homenagem, como já foi dito e escrito, ao cinema, a um dos gêneros que o ajudou a tornar eterno, o faroeste, e um de seus símbolos mais carismáticos, Wayne, que ganharia seu primeiro e único Oscar em 1969 pelo seu Bravura indômita.

Isso depois de mais de 100 filmes nas costas. E quer saber? Até ele não acreditou já que, estupefato com a surpresa, não perdeu a piada e, com a estatueta nas mãos, disse que se soubesse do resultado daquela noite teria colocado um tapa-olho na cara 35 antes. Esse era o John Wayne.

Bem, Jeff Bridges não é John Wayne, e nem quer e poderia ser, já que, dentro de sua experiência e grande versatilidade de ator, agrega estilo e conceitos diferentes, mas dá conta do recado com bravura e talento.

Como o mestre no passado, ele encarna o corajoso, destemido e meio canastrão xerife caolho J. “Rooster” Cogburn. Pode ser o terror dos bandidos, mas não assusta nem intimida a prepotente jovem de 14 anos Mattie Ross (Hailee Steinfeld), que está atrás de um justiceiro para vingar a morte do pai. O escolhido foi ele, mediante o pagamento de $ 100 dólares, claro. Uma fortuna. Assim, os dois, juntos com o superestimado ranger LaBoeuf (Matt Damon), viverão grandes aventuras até encontrar o assassino da jovem Mattie, do lado do Oeste. Ele e sua gangue, para variar.

Na pele do corajoso mas canalha xerife "Rooster" Cogburn, John Wayne ganharia seu primeiro Oscar, depois de mais de 100 filmes nas costas

Com uma trilha sonora linda, a nova versão de Bravura indômita é bem comportada do ponto de vista de narrativa e quase não tem muitas modificações com relação ao original de 1969, dirigido por Henry Hathaway. A impressão que se tem é que a dupla queria dar um descanso às ideias e concentrar as energias na técnica, já que o filme é muito bem dirigido, com uma direção de arte e figurinos impecáveis e soberba direção de atores. Jeff Bridges, um dos atores mais carismáticos e queridos de Hollywood, tem tudo para bisar o Oscar com sua atuação cheia de dignidade e humor.

Comparando os dois filmes, basta dizer que o desfecho dos irmãos Cohen, que rateou o elenco com rostos já conhecidos de outras produções da dupla, é bem mais lírico e lúgubre, com ênfase no discurso que valoriza o tema da amizade, que é também o “discurso do rei” com a dupla Colin Firth e Geoffrey Rush.

Interessante é que os irmãos Cohen fizeram questão de deixar a marca registrada deles na fita com detalhes irreverentes como o tapa-olho trocado de Jeff Bridges ou a panorâmica câmara horizontal na famosa cena em que o xerife “Rooster” Cogburn coloca a rédea na boca e, com as duas mãos armadas, dispara furiosamente contra quatro bandidos. Um detalhe para cinéfilos. Na primeira versão, nessa fantástica cena do duelo, quase uma alegoria das batalhas medievais entre o xerife e os bandidos, John Wayne segura numa das mãos uma winchester 22, exibindo uma habilidosa bravura indômita. Há coisas que o tempo não domina, não pode mudar.

* Esse texto foi escrito ao som de: Gal canta Caymmi (Gal Costa – 1976), Maria Bethânia e Caetano Veloso ao vivo (Maria Bethânia e Caetano Veloso – 1978) e Velô (Caetano Veloso – 1984).

Radiohead: Cadê a melancolia de antes?

A banda britânica Radiohead antecipa lançamento de novo disco na internet. Nas lojas só em maio...

Bem, eu ia escrever sobre o “novo” filme dos irmãos Cohen, Bravura indômita, mas eis que recebo o e-mail de um grande amigo com o link das novas músicas da banda britânica Radiohead. Muita gentileza da parte dele já que adoro o grupo de Oxford, mas não entendo patavina de computador, internet ou transações virtuais. E pensar que já pediram minha cabeça numa bandeja de prata, tal qual João Batista, sob acusação de arrombar computadores alheio. Imagina, eu, que nem sei ligar a máquina. Pura cretinice de burguês sádico.

Enfim, vamos lá, o “esquisitão/weirdo” Thom Yorke e companhia têm fama de serem moderninhos. Estigma que os acompanham desde o lançamento, em 2000, do estranho Kid A, que muita gente gosta, mas que até hoje não desceu muito bem pelos meus ouvidos. Lembro que estava alucinado com os dois trabalhos anteriores, Ok computer (1997) e The bends (1995) – o meu favorito – e aquele disco, meio techno, meio Low  (do David Bowie), foi uma ducha de água fria. Onde estavam aquelas melodias tristonhas, sombrias como uma tarde de inverno dos trabalhos anteriores? Perguntei.

Bem, ser fã do Radiohead é isso, ou seja, tem que ter nervos de aços já que cada lançamento é uma nova emoção, para o bem ou para o mal. Depende da frenquência que você está. Daí é só sintonizar e deixar o som rolar porque cada disco é feito para atender uma tribo diferente: os technos moderninhos ou os solitários melancólicos, do qual faço parte. Os alternativos descolados ou os losers.

Por isso a apreensão geral, a enorme expectativa em torno do mais recente trabalho da banda, The king of limbs, lançado essa semana pela internet e que pude ouvir toda à tarde de ontem (18), graças ao link que este amigo meu, que saca de música, mandou.

Não posso dizer que gostei por completo porque o novo disco do Radiohead soa diferente de tudo que escutei até agora. Mas também tem fragmentos, faz conexões não apenas com o já citado Kid A e Amnesiac (2001) – o trabalho posterior -, assim como In rainbows, o último disco lançado em 2007. A complexidade emotiva e intensidade sonora das canções do grupo são tantas que é preciso ouvir mais de uma vez, talvez a tarde inteira, talvez a vida inteira.

Confesso que não fiquei indiferente ao trabalho que será lançado na íntegra, em maio. The king of limbs é um trabalho simples, meio estranho, apático até, mas feito com uma sinceridade criativa bem peculiar em meio a barulhinhos chatinhos, vocais e guitarras etéreas, esquisitices sonoras que evocam uma atmosfera de futuro e passado.

O vocal de Separator, última faixa do disco, é comovente, envolvente. O piano triste, latente, frio de Codex tem algo de Morning Bell/Amnesic, do álbum Amnesic. “A água é clara e inocente”, canta Thom Yorke, com voz melancólcia. O violão enigmático e folk de Give up the ghost brilha com a intensidade de um sol da manhã, provando mais uma vez que Thom Yorke é o mestre das canções intimistas, devolvendo, dentro de um clima de medo e angústia, seus fantasmas e demônios. Figuras essas bizarras que explodem na misteriosa e feia capa do disco, nos falsetes espectrais de Yorke.

Faixa mais pop de The king of limbs, Lotus flower já tem até clipe de divulgação na internet, com o vocalista dançando desengonçadamente, quase uma caricatura do conceituado mímico Marcel Marceau (1923 – 2007). A música é bacana, mas um decalque de House of cards ou There there, do disco Hail to the thief, só que numa voltagem mais low.

O resto de The king of the limbs – título tirado tanto de um carvalho milenar que fica na floresta Savernake, no condado inglês de Wiltshire, quanto de um capítulo do Corão, livro sagrado dos mulçumanos – é demasiadamente experimental, vanguardista, às vezes pretensiosamente chato, mas completamente audível.

* Esse texto foi escrito ao som de: The king of limbs (Radiohead – 2011)