A velha raposa da política JK

De uma simpatia contagiante, Juscelino Kubitschek também era um político maduro e esperto

De uma simpatia contagiante, Juscelino Kubitschek também era um político maduro

Para quem me conhece sabe que sou um sujeito movido por obsessões hediondas. O presidente Juscelino Kubitschek é uma delas. E é uma obsessão que veio tarde, uma obsessão tardia. Não sei por que, mas sempre achei que JK fosse uma figura aquém da de Getúlio Vargas. Ledo engano. Trata-se de figuras políticas de estilos diferentes, homens distintos.

Nascido em Diamantina (MG), descendentes de tchecos, Juscelino era um homem obstinado, otimista, ufanista e de uma energia singular. E trazia no rosto um sorriso sincero, afável, acolhedor, cheio de simpatia. Fundador de Brasília, empreitada que conseguiu levar até o fim a custa de muita teimosia, também colecionava histórias divertidíssimas, hilárias. A seguir, duas delas:

O ódio de Café Filho

Substituto de Getúlio, que acaba de suicidar, Café Filho era odiado por JK. Em 1955, então governador de Minas Gerais, Juscelino engole a raiva e vai até o Palácio do Catete despachar com o presidente. A pauta: café, já que Minas é o maior produtor do produto do país. Como todo bom mineiro, JK chega à sede presidencial desconfiado, cheio de zelo, mas é recebido como um rei. Gentilezas, sorrisos, afetos, eis que em dado momento Café Filho sugere que ele senta na cadeira de presidente. JK resiste, mas acaba sentando mediante tamanha insistência e é cravejado à queima-roupa:

JK - Time– É a primeira e última vez que você vai sentar nessa cadeira. Os militares não querem sua candidatura – vaticina.

Mordido de raiva, JK engole a raiva, segura a língua e vai embora soltando fumaça.

Lá embaixo, cercado de jornalistas, se vinga a sua maneira, bem à mineira, quando um repórter lhe faz uma derradeira pergunta:

– Governador, é o café?

– Qual? O vegetal ou o animal!

A caderneta preta de JK

Anos 50. Governo de Minas Gerais. Mais uma vez JK coloca em prática hábito que seria uma de suas marcas no governo de Minas. Velha raposa, todos os fins de semanas a periferia da capital mineira. Os encontros eram rápidos e marcantes para aquela gente humilde que não estava acostumada a ver uma “autoridade” tão de perto. Bem à vontade no meio do povo, sorriso largo no rosto e simpatia ofuscante, JK ia dando o comando, domando a massa:

– Com calma! Vamos com calma que eu vou anotar tudo isso! – dizia Juscelino, colocando ordem na multidão de homens andrajosos e mulheres desdentadas com filhos ao colo, que pediam de tudo. De água encanada, a vaga na escola, trabalho, luz elétrica, a “tapação” dos buracos até uma ajudazinha no enxoval da filha.

– Anote aí, Dr. Penido, o nome completo dessa senhora e tudo o que ela quer. Fale alto e devagarinho, minha senhora… – dizia, apontando para o Chefe da Casa Civil, Osvaldo Penido, que acompanhava o movimento e anotava tudo numa caderneta preta.

Cinco meses depois, num daqueles sábados de praxe ele vira-se para o assessor e ordena em voz alta e solene para todos que estão próximo ouvir:

– Dr. Penido, não se esqueça da caderneta que hoje vamos ter povo!

Vexado, o Chefe da Casa Civil lhe informa que todas as folhas do livro estão preenchidas e pergunta o que fazer:

– E agora, o que faço?

Meio impassível responde:

– Uaí, joga fora e compra outra!

Anos mais tarde o cineasta Glauber Rocha se inspiraria nesse episódio para filma uma cena no clássico de 1967, “Terra em Transe”.

* Este texto foi escrito ao som de: Milagre dos peixes (Milton Nascimento – 1973)

Milton Nascimento - Peixe Vivo

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