O segredo da Múmia (1982)

No filme Wilson Grey vive seu primeiro papel principal depois de anos como coadjuvante

No filme Wilson Grey (dir.) vive seu primeiro papel principal depois de anos como coadjuvante

O carioca Ivan Cardoso sempre esteve nos bastidores dos grandes acontecimentos cinematográficos de seu tempo no Brasil e em alguns lugares do exterior. Apaixonado por fotografia e sempre com uma câmera a tiracolo fez registros de várias situações e personagens da seara como atores diretores e mulheres lindíssimas. Muitos desses registros ele publicou no sensacional De Godard a Zé do Caixão, lançado pela Funarte em 2002. Eu tenho minha edição autografada pelo cara.

Mas essa ligação próxima dele com o cinema não é gratuita. Entusiasta da sétima arte, realizou uma série de produções em Super 8 e curtas-metragens antes de finalmente filmar em 1982 seu primeiro longa-metragem, o clássico O segredo da Múmia, que está dando sopa este mês no Canal Brasil.

Com este e outros filmes que realizou o cara viria ficar conhecido como o mestre do terrir, gênero cinematográfico que une numa mesma trama, humor e terror de uma forma assim bem autêntica, bem nossa. Misturando sexo e violência, vida e morte em cores vivas, montados de forma marginal e bastante humor, criou um estilo inconfundível de fazer cinema. Não é chanchada, nem pornô chanchada, nem um filme B norte-americano dos anos 40 e 50. É simplesmente um filme de Ivan Cardoso, é terrir.

“Seria uma metáfora ancestral essa, do terror e do riso, do sexo e da violência e da morte por fim?”, escreveu na época do lançamento o jornalista e crítico musical, Nelson Motta, no O Globo.O segredo da múmia

A trama começa com alguns cartões-postais trazendo os dizeres: “Cairo 1954”. Na sequência, vemos colagens, velhos documentários sobre o Egito Antigo, as pirâmides e a múmia desembarcando no Brasil. Mas vem cá… Múmia no Brasil?! Isso mesmo meu chapa, em se tratando de Ivan Cardoso tudo pode, tudo é permitido e daí clichês do gênero são mesclados com referências clássicas como Frankenstein e a própria Múmia.Aqui a criatura egípcia chega a Terra brasilis fazendo parte de um experimento de cientista maluco vivido pelo formidável Wilson Grey. No passado ele foi vítima de zombaria da mídia e de seus pares por conta de um tal elixir da vida.

“Minhas teorias não foram feitas para ficarem nas bibliotecas. Eu faço experimentos”, avisa desafiador.

Pronto, é a deixa para que deliciosas musas do cinema nacional, ainda no começo da carreira como Nina de Pádua, Maria Zilda, Tânia Boscoli e Clarice Piovesan, desfilarem para lá e para cá nuas, servindo de cobaias para o cientista maluco. Integrantes da alucinada trupe Asdrúbal trouxe o trombone, Evandro Mesquita e Regina Casé, também são destaques no elenco, ela, na pele de uma empregada bem safada, que adora ter motivos para tirar a roupa.

Uma autêntica produção guerrilheira, marginal, Ivan Cardoso, uma figura querida no meio, conseguiu arregimentar um seleto time de atores e amigos do peito para sua fita, entre eles Jardel Filho, Zé do Caixão, o artista plástico Hélio Oiticica, Júlio Medaglia, Paulo César Pereio, Joel Barcellos, entre outros. Mas a estrela, sem dúvida, é Wilson Grey, em seu primeiro papel principal da carreira, depois de tantos filmes como coadjuvante. Uma bela homenagem a quem se doou tanto para o cinema.

* Este texto foi escrito ao som de: 20 supersucessos – Renato e seus Blue Caps (1997)

Blue caps

Diretores – Quentin Tarantino

Uma Thurman e John Travolta em cena antológica de Pulp fiction...

Uma Thurman e John Travolta em cena antológica de Pulp fiction, um dos clássicos do cineasta

Há quem diga que Noel Gallagher do Oasis é um grande plagiador. Bobagem, o que ele faz é reciclar suas influências musicais de forma contemplativa e criativa. Desde que surgiu na cena cinematográfica isso é o que debochado e provocador Quentin Tarantino sabe fazer de melhor. Com seu estilo cheio de referências e homenagens, o diretor norte-americano meio que deu uma cara nova ao cinema norte-americano independente, reinventando, de forma genial e divertida clichês e fórmulas feitas. E que cara foi essa que ele deu a Hollywood? Ora bolas, a dele, claro!

Verborrágicos, violentos, recheados de humor negro e imprevisíveis, os filmes de Tarantino escancaravam o talento singular de um sujeito que passou boa parte da juventude atrás do balcão de uma locadora assistindo filmes e mais filmes. Essa escola da vida foi exemplar.

Iniciando a carreira como roteirista, até acertar a mão com Um drink no inferno e Assassinos por natureza, dirigido por Oliver Stone, confesso que demorei certo tempo para assimilar a badalação em torno do cara, mas caí de joelhos quando vi Pulp fiction.Daí em diante ele não parou mais de me surpreender. Um dos nomes mais importantes e influentes do cinema, Tarantino é responsável por uma onda de jovens cinéfilos arregaçarem as mangas e pegarem em câmeras para fazer seus próprios filmes. Muitos copiando, sem sucesso, é verdade, o estilo do ídolo, mas e daí se o barato já é querer transformar ideias em filmes.

Top Five – Quentin Tarantino

Django LivrePulp fiction (1994) – É um daqueles filmes para dar uma sacudida na indústria cinematográfica e nos espectadores quando todos estão acomodados diante da mesmice. Inovador, estilizado e provocador, traz atuações formidáveis, diálogos espirituosos e criatividade narrativa. É Tarantino no melhor estilo, mostrando que é o Godard de Hollywood.

Cães de aluguel (1992) – Primeiro filme dirigido por Tarantino que o revelou com um novo talento do cinema, traz trama violentíssima em torno de um assalto mal-sucedido. Já aqui ele mostra sem senso de humor em arrancar risadas em situações onde não caberia tal efeito.

Django livre (2012) – Não é só uma fita para quem gosta de faroestes, mas, sobretudo, de cinema, revelando que o diretor, ator e roteirista, atingiu aqui sua maturidade criativa. Belos, cenários e direção de arte, atuações impecáveis, roteiro surpreendente e narrativa envolvente, de tirar o fôlego. Precisa dizer mais? Sim, a impecável dupla de astros Jamie Foxx e Christoph Waltz.

Jackie Brown (1997) – Uma das características do diretor é de homenagear grandes filmes e seus diretores e astros. Aqui ela lança seu foco nas fitas produzidas com atores e cineastas negros na corrente cinematográfica setentista conhecida como Blaxploitation. Pam Grier, uma das musas do movimento, está uma uva.

Kill Bill: Volumes 1 e 2 (2003 – 2004) – Só quem era adolescente e se amarrava em ver filmes de caratê nos anos 70 vai entender essa imersão quase filosófica, do ponto de vista da referência, do diretor no espaço-tempo do cinema.

* Este texto foi escrito ao som de: Let’s stay together (Al Green – 1972)

Al Green

Nas ondas proustianas da Rádio Executiva 92.7

A primeira vez que escutei As tears go by dos Stones foi na emissora

A primeira vez que escutei As tears go by dos Stones foi na emissora

Outro dia, indo de Brasília para Anápolis (GO), tentando desesperadamente sintonizar a rádio na CBN para ouvir o jogo do Portugal x Gana, sem querer, eu acabei captando as ondas sonoras da Rádio Executiva. Barbaridade, mas que emoção! Sim, isso porque a Rádio Executiva de Goiânia foi uma escola musical para mim nos meus tempos de pré-adolescente. Por isso que, ao ser engolfado pela sintonia da emissora naquele momento, no meio da estrada, tive assim um daqueles processos proustianos remissivos e viajei no tempo. E nesse meu road music sentimental, de repente, me vi com 13, 14 anos, deitado no escuro da sala, tendo apenas como iluminação, as luzes verde e vermelha do aparelho de som.

Durante uns três anos, ouvia sistematicamente todos os dias os programas musicais da emissora que tocava de tudo, menos, felizmente, o que estava na crista da onda. E o que estava na crista da onda meu chapa, era só porcaria, uu seja, coisas como música sertaneja, com as duplas Zezé Di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, entre outras, tocando sem parar nas FMs e AMs, além de lambada, axé music e bobagens do gênero.

Na Executiva FM não. Tocava ali a autêntica música popular brasileira, os clássicos de todos os gêneros e ainda tinha programas especiais sobre vários estilos musicais que falavam dos artistas e de suas canções de forma educativa e despretensiosa. Meus primeiros jazz, meus primeiros blues eu escutei na Executiva FM. Muitos artistas que venero hoje eu conheci ali. Outros que já conhecia, Rádio Executivaeu simplesmente me aprofundei ao conhecer melhor suas trajetórias e trabalhos, ligadão na Executiva. Também tinham aqueles que eu nunca soube que eram, mas que até hoje as canções moram em meu inconsciente. Minha busca por saber que eram os donos de algumas vozes é incansável.

Não me esqueço da primeira vez que ouvi As tears go by dos Rolling Stones, que eu nem imaginava que era deles. Era um fim de tarde deslumbrante, com a sala toda escura, a luz do crepúsculo caindo liricamente no horizonte, e o Mick Jagger cantando os versos iniciais: “It is the evening of the Day/I sit and watch the children play…”, ouvi estático, hipnotizado.

Foi mágico.

Gozado que achei que aquela voz melíflua, gostosa de ouvir, fosse de uma mulher. E vários momentos assim aconteceram ao som da Executiva FM, 92, 7. Algumas canções dos Beatles que só foram sucessos em compacto play também. I call your name, imortalizado também na voz dos The Mamas & the Papas, foi uma dessas surpresas agradáveis. Outra confissão. A primeira vez que ouvi Another day de Paul McCartney, um de seus primeiros sucessos solos, foi da Rádio Executiva FM. Um sundae.

Incrível como o rádio tem o poder de infernizar, no bom sentindo, nossas mentes e corações, apenas com a voz do locutor, com as notícias e canções que ouvimos via ondas sonoras. E que apesar de toda a tecnologia dos tempos modernos, ele nunca sai de moda. Aliás, naqueles tempos de pré-internet, eu só conseguia ter as informações que tinha dos artistas que amava, pelo rádio. Comprei muito disco com as dicas formidáveis da Executiva FM.

Quando, anos depois, fui morar em Brasília, levei minha listinha das coisas que ouvia na Rádio Executiva FM para comprar tudo que aprendi ouvindo a emissora.

* Este texto foi escrito ao som de: Secos e Molhados ao vivo no Maracanãzinho (1974)

Secos e molhados ao vivo

Antes do inverno (2013)

O formidável ator Daniel Auteuil aqui vive um neurocirurgião em crise...

O formidável ator Daniel Auteuil aqui vive um neurocirurgião em crise…

Antes do inverno, que foi destaque do Festival Varilux, é um filme francês dirigido por Philippe Claudel em cartaz no Liberty Mall. E seu eu fosse você, na próxima vez que desse um pulinho lá. iria conferir esse drama de suspense de tirar o fôlego. Como sempre os franceses são os maiorais quando o assunto é discute relação conjugal nas telonas. Aqui Paul (Daniel Auteuil) é um neurocirurgião sessentão bem sucedido na carreira que leva uma vida pacata ao lado da esposa e da netinha. De repente, do nada, buquês de flores chegam todos os dias em seu consultório, escritório e casa. “São apenas flores. Não são ameaças de morte”, diz ele, tranquilizando a mulher.

Mas o festival de flores em sua rotina não pára, assim como a inusitada presença de uma jovem de origem marroquina em sua vida da qual ele começa a suspeitar. O pequeno desconforto e a estranha coincidência fazem com que as máscaras em casa e no trabalho caiam, revelando um outro homem. “Tenho um dia cheio amanhã”, revolta-se, quando a mulher quer discutir a relação.

Segundo o diretor, o que ele queria mostrar em Antes do inverno era essa falsa ideia de uma vida feliz que às vezes insistimos em fingir que temos, mostrando que a realidade que nos cerca, com todas as contradições e complexidades, é incerta e mais dura. A doçura e simpatia com que Paul trata os pacientes e as pessoas com quem convive são falsas, atesta seu sócio e melhor amigo. Festival Varilux“Um garoto mimado cheio de ruga e com um coração seco”, contesta ele, cheio de ironia.

O pessimismo do filme, que conta ainda com a bela Kristin Scott Thomas, é pertinente, sobretudo porque coloca em cheque o caráter humano. Ou seja, até que prove o contrário, ninguém é o que aparenta ser. Contudo, há um toque de lirismo nas entrelinhas da trama proposta pelo diretor, no que diz respeito à chegada do inverno na vida de todos nós. No filme, Paul é um homem maduro que aparentemente não sabe lidar com seus problemas. O clima frio, cinza e sufocante que perdura toda a narrativa surge com uma metáfora agonizante diante dos olhos do expectador.

Apesar de todo esse clima de tensão, surpresas desagradáveis e crise, Antes do inverno, traz pelo menos dois momentos emocionantes. Um deles é quando Paul vê consternado as lágrimas rolarem pelo rosto da jovem que o admira durante uma apresentação de ópera. A outra é quando uma paciente em tratamento de câncer de origem polaca lhe faz uma emocionante declaração pessoal.

Em despenho marcante, e com seu habitual charme, o veterano Daniel Auteuil mais do que nunca mostra aqui porque é um dos atores franceses mais festejados do cinema francês.

* Este texto foi escrito ao som de: Et moi et moi et moi (Jacques Drutonc – 1966 – 1969)

Jacques Drutonc 2

Meu adorável desbocado Eduardo Bueno

Para quem não sabe o Peninha é um polêmico caricato, inofensivo, deixe o cara em paz

Para quem não sabe o Peninha é um polêmico caricato, inofensivo, deixe o cara em paz

Em 2007 peguei o telefonei e disquei para o jornalista e historiador gaúcho Eduardo Bueno. Ele estava na crista da onda depois de publicar os livros da coleção Terra Brasilis, mas dessa vez eu ia falar com ele sobre um título inusitado, Passando a limpo – História da higiene pessoal no Brasil. Logo na primeira pergunta dei uma mancada “felomenal” – da qual eu não me lembro agora – e ele não perdoou. “Mas jornalista é burro mesmo, bah!”, disse, implacavelmente.

Pronto, virei fã do cara na hora.

Por isso que eu achava uma pena que o Peninha andava sumido até reaparecer com gás total, falando pelos cotovelos, como é o seu estilo, no sensacional Os extraordinários, exibido pelo SporTV todos os dias depois dos jogos da Copa.  Imperdoável com a burrice alheia e hipocrisia também, ele é uma das estrelas do programa ao lado da bela Maitê Proença, Xico Sá, Paulo Miklos e um dos Casseta & Planeta, que eventualmente aparecem como convidados.

E por ser autêntico e sincero, por falar o que pensa o jornalista e historiador está sendo vítima de perseguição de uma cambada de desocupados que não têm um mínimo de senso de humor. Essa história de chamá-lo de preconceituoso e de querer processá-lo porque fez um comentário infantil e brincalhão sobre o Nordeste e os nordestinos é uma piada de mau gosto. Ora bolas, mas se tem tanto político vagabundo por aí falando merda e ninguém faz nada, não é verdade? Ninguém mesmo, sobretudo essa massa ignara e suas manifestações ridículas e patéticas.

Aliás, por onde anda esses manifestantes de meia-tigela brasileiros? Cadê os protestos irados Passando a limpodaqueles que estavam indignados com a política, com a FIFA, com a Copa do Mundo no Brasil? Imagino que eles estejam nos estádios dando umas de patriotas, se emocionando de mentira ao cantar o hino nacional.

Mas voltando ao Eduardo Bueno é o seguinte. O Peninha, para quem não sabe, não percebeu ainda, faz o polêmico caricato, ou seja, aquele que é inofensivo, que não faz mal a ninguém. É como aquele ditado popular que todo mundo conhece e que diz assim: cão que ladra não morde. Ele lembra o Paulo Francis no Manhattan Connection, com sua explosão de indignação de burguês mimado, nos alegrando todas as noites de domingo. Mas daí o cara exagerou, pegou pesado e a Petrobras que é uma empresa sem graça e sem senso de humor, além de corrupta, não entendeu e processou o cara. Resultado. O velhinho não agüentou e morreu.

Portanto, o Peninha em paz que ele é do bem, é inofensivo, é dos nossos. O Eduardo Bueno é a melhor atração dos Extraordinários, o mais engraçado, o mais culto, o mais desbocado, o desbocado que vocês, desocupados, adoram odiar. E que queres saber? Vou lhes dar um polêmico de verdade que é o genial Arnaldo Jabor, cujas declarações bombásticas, contundentes e pertinentes, não têm nada de infantil. Já o Eduardo Bueno, apesar do sobrenome, tem o mérito, entre outras coisas, de ser melhor do que o Galvão Bueno, o que acho muita coisa.

* Este texto foi escrito ao som de: Bob Dylan’s Greatest Hists (1967)

Bob Dylan Greatest Hits

Almas desesperadas (1952)

Nesse suspense dramático a diva mostra seu talento com atriz num papel perturbador

Nesse suspense dramático a diva mostra seu talento com atriz num papel perturbador

E se você é do tipo que acha que Marilyn Monroe foi nada mais do que uma atriz suculenta em cena -, e ela era deliciosa mesmo -, assista então um dia ao drama de suspense, Almas desesperadas, filme de Roy Ward Baker que vi numa madrugada dessas, no Telecine Cult, todo exultante. Primeiro queria registrar que o filme é um daqueles noir sensacionais B com cara de fita A. Depois que Marylin Monroe está impecável na pele de uma babá aparentemente frágil e insegura que se transforma, num piscar de olhos, numa jovem agressiva, doente, diabólica, perturbada e sinistra. Em terceiro que Richard Widmark, o mocinho da trama, foi um talentoso ator negligenciado por Hollywood. Ele fez filmes importantes, mas poderia ter sido aproveitado melhor.

Aqui ele é Jed Towers, um piloto de avião que não tem sorte com as mulheres. Anda às turras com a namorada cantora, a elegante Lyn Lesley (Anne Bancroft) e quando se engraçada com a menina do outro lado da janela de seu quarto, a meiga Nell Forbes (Marilyn Monroe), se mete numa roubada grande. “A raça feminina está sempre bagunçando minha vida”, admite à personagem de Marilyn Monroe. “Sou o sujeito do outro lado”, se apresenta todo canastrão.

Almas desesperadas 2O que era para ser uma noitada de farra e desabafo regada a doses de uísques, conversas jogadas fora e quem sabe trocas de beijos, termina em episódio de página policial. Isso porque a mocinha pacata vivida por Marilyn na verdade é uma destrambelhada que acabou de sair de uma clínica psiquiatra e acredita que o namorado piloto que morreu num acidente aéreo voltou e está diante de seus olhos.

Em atuação espetacular e surpreender, a diva, ainda no começo da carreira e bem antes de atuar em filmes de grandes diretores, aqui mostra que era bem mais do que uma garota suculenta com um rosto lindo. Preste atenção em como suas feições muda, gradativamente, na medida em que suas loucuras e paranoias entram em cena.

Tão brilhante ainda é o texto de Daniel Taradash baseado em novela de Charlotte Armstrong, que prende a atenção do público de forma envolvente ao longo de quase 130 minutos. Para quem não percebeu boa parte da história se passa dentro do quarto do hotel.

Nas entrelinhas de suspense dramático, o mais velho dos temas: as relações humanas. Cheio de si e meio canastrão, Jeb está sendo chutado pela namorada romântica e humana, por não saber lidar com o próximo. Ele é intransigente e intolerante até com a moça o bar que quer apenas registrar uma foto sua ao lado da amada, e é justamente esse o ponto da questão dessa relação amorosa conflituosa.

“Você é um egoísta de coração duro”, acusada a amada, clamando por uma mudança.

É o que todos nós pedimos desde que o homem é homem e humanidade impera na face da terra.

* Este texto foi escrito ao som de: A & M Gold Series (Burt Bacharach – 2002)

Burt Bacharach 2

Goleou, mas não me convenceu…

A seleção brasileira é tão fake quanto a massa cantando os hinos nos estádios

A seleção brasileira é tão fake quanto a massa cantando os hinos nos estádios

Amigos, eu não entendo muito de futebol, às vezes me faço como aquele personagem de Nelson Rodrigues que, meio apatetado, faz a pergunta cretina de si para si. “Quem é a bola?!”. Mas qualquer criança catarrenta com figurinha da Copa do Mundo grudada entre dedos sabe que a seleção goleou, mas não convenceu. E não convenceu porque é um time fake, tão fake quanto essa massa ignara e autista de brasileiros cantando o hino nacional à capela nos estádios brasileiros. Os dois não têm nada de empolgante e verdadeiro. Do ponto de vista midiático, a seleção brasileira não é formada de estrelas de alto gabarito, mas no quesito futebolístico deixa muito a desejar ainda com relação às cinco estrelas que carregam no peito, essa sim, devem ser valorizadas.

O Brasil tem um grupo bonito, unido e divertido de se vê nas propagandas, desembarcando nos aeroportos, falando nas coletivas, ou correndo nos treinos, mas dentro de campo esse espírito de coletividade não vinga porque é uma equipe pouco entrosada tecnicamente. Acho que eles não tiveram tempo de se conhecerem, familiarizarem, entrosarem tecnicamente, não me parecendo um grupo preparado em torno de uma meta que é levar esse caneco dentro do Brasil. Há muita vontade para isso, mas pouco futebol. Confesso que já vi seleções brasileiras bem melhores em Copas do mundo.

Felipão, em coletiva depois do jogo, jurou que a defesa brasileira não tem um “piguinho” de Brasil x Camarõesproblema, mas foi a única zaga do grupo que levou um gol de Camarões. E que gol bobo. A seleção brasileira tem um sistema defensivo falho e quero ver o que vai acontecer quando eles bobearem diante de um Robben, por exemplo. “Sobre os meus zagueiros eu não tenho nenhum receio, medo, são espetaculares, maravilhosos. Eu que fui um grande zagueiro fui batido algumas vezes”, defendeu o treinador, com sua habitual arrogância infantil.

Ok. Dou o braço a torcer. “Neymala”, com aquele cabelo de gambá, foi o melhor jogador dentro de campo, fez diferença e gols marcantes, virou artilheiro da Copa, mas vai ter que correr muito se quiser ter a sexta estrelinha brilhando no peito. Jogadores como Luiz Gustavo e Fernandinho hoje fizeram diferença, agora quem disse que o Hulk, com aquela bunda de dançarina de É o tchan, joga bola a ponto de estar numa seleção?

Confesso que o Brasil perder essa Copa do Mundo em casa vai ser feio, triste, um vexame, mas não escondo de ninguém que nunca fui a favor desse Mundial por aqui. É uma birra política. Explico. Na minha cabeça de rapaz ingênuo, o Brasil vencer a Copa do Mundo de 2014 significa vitória dessa política porca do PT, que não quero de volta no poder nunca mais. Esse dinheirão todo aplicado em estádios, mobilização e infra-estrutura poderia ser revertido em melhores hospitais, uma educação de ponta, enfim, todos esses clichês do gênero, mas estamos sempre cuspindo para cima quando falamos no assunto. Eu não me vendo por qualquer merreca, nem sou ludibriado rápido assim, com quatro gols numa seleção que já entrou em campo como um leão abatido.

É o tal negócio, a velha política do pão e circo. Ganhar de Camarões é fácil. Quero ver o Brasil bater a Holanda.

* Este texto foi escrito ao som de: Fruto proibido (Rita Lee – 1975)

Rita Lee - Fruto proibido

Pelé eterno (2004)

O atleta do século em sua despedida na temperada norte-americana, nos anos 70

O atleta do século em sua despedida na temperada norte-americana, nos anos 70

Em 1950, então com nove, dez anos, Pelé viu assustado o choro do pai diante da derrota da seleção brasileira, no Maracanã, para os guerreiros uruguaios de Gighia e companhia. Ele, que sempre tinha ouvido o coroa dizer que homem não chorava, ficou espantado com aquela imagem grotesca e patética. Talvez impressionado, não titubeou e fez uma promessa desafiadora. “Não chore não, papai, eu vou ganhar uma copa para o senhor”, disse.

Pois foram necessários apenas sete anos para a promessa se cumprida no mundial da Suécia, em 1958, em cima dos donos da casa, com o arrasador placar de 5 x 2. Dois do jovem craque que assombrou o mundo e que passaria a ser chamado desde então, mais do que justamente, pelo genial cronista Nelson Rodrigues, de rei. Essas e outras histórias estão no documentário Pelé eterno que, aproveitando o momento da Copa, é exibido no Canal Brasil ao longo de todo o mês.

Dirigido por Anibal Massaini Neto e lançado nos cinemas em 2004, o filme conta nos bastidores com um time de primeira. O texto é de Armando Nogueira, o roteiro de José Roberto Torero e narração de Fulvio Stefanini. Mesmo assim a fita tem problemas. Um deles é o tom chapa branca maçante, exaltando a figura do rei Pelé de forma cansativa. Pior porque Pelé entra em campo para dar depoimentos elucidativos, mas desnecessários.

Contudo, Pelé eterno não deixa de ser um importante registro para as novas gerações de garotos verem e notarem o quanto Pelé foi genial, mágico, magnânimo dentro de campo, sendo mil vezes melhor do que Cristiano Ronaldo, Messi, “Neymala”, Robben e tantos outros juntos. “Marcar 1000 gols como o Pelé, não é difícil. Marcar um gol como Pelé, é”, disse categoricamente o poeta Carlos Pele eterno 2Drummond de Andrade, certa vez.

Outro grande mérito do documentário com certeza são as antológicas imagens de arquivos que trazem o jogador em momentos memoráveis, antológicos, inesquecíveis. Algumas, com certeza, clássicas, outras raríssimas, marcantes. Mostra como Pelé ganhou esse apelido simples e único, e como sua figura foi determinante para fazer do futebol o esporte mais popular do planeta. Há quem discorde, meu chapa, mas o cara foi os Beatles dos campos, com a diferença que os meninos de Liverpool eram quatro. O rei do futebol um.

“Se Pelé não tivesse nascido humano, tinha nascido bola”, escreve Armando Nogueira, um dos mais geniais jornalistas esportivos de todos os tempos. “Que os meninos de hoje não se esqueça de dizer aos meninos de amanhã. Até a bola do jogo pedia autógrafo para Pelé”, acrescenta o mestre.

Eleito atleta do século, também atleta do milênio, vencedor de inúmeros títulos internacionais e nacionais, autor de gols sobrenaturais, protagonista de jogos que entraram para história, Pelé é talvez uma das celebridades mais importantes do planeta e o que é melhor. Ele é produto genuinamente nosso. “O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro”, deixou registrado o intelectual, Câmara Cascudo. E quem sou eu para discordar.

Um momento especial do filme é quando mostra que ele recebeu todas as propostas milionárias do mundo para ir jogar no exterior e recusou todas, para ficar no Brasil e no seu Santos querido que lhe deu tantas glórias e alegrias ao povo brasileiro.

* Este texto foi escrito ao som de: África Brasil (Jorge Ben – 1976)

Africa Brasil

Diretores – Sidney Lumet

O diretor, de bigode, dirigindo Al Pacino em um de seus filmes mais populares

O diretor, de bigode, dirigindo Al Pacino em um de seus filmes mais populares

Espécie de consciência crítica e moral da sociedade americana, o cineasta Sidney Lumet foi um dos nomes mais contundentes da nova Hollywood. E também um dos mais prolíficos, realizando uma média de mais de dois filmes por ano. E pelo menos dos filmes que vi do diretor, jamais me pareceu que ele, em algum momento, quis agradar seus pares. Em raras exceções, não tinha o menor pudor, medo ou vergonha de botar o dedo na ferida. Mesmo que os temas de seus filmes cortassem na carne.

Começou a carreira cedo, em 1957, é o primeiro filme que dirigiu foi de arrepiar os cabelos: Doze homens e uma sentença. Vindo da televisão, Lumet encarou bem a transição das telinhas para as telonas, privilegiando um estilo marcado pela boa direção de atores e escolha de temas explosivos que colocavam contra a parede importantes instituições do estado e o questionamento ético de seus representantes.

A pegada neo-realista de suas tramas é visível na intimidade e fúria com que filma os ritmos das ruas. Bem à vontade, os grandes atores com quem trabalhou, parecem pessoas comuns metidos na agitada barulheira do cotidiano. O personagem Frank Serpico de Al Pacino que o diga.

Top five – Sidney Lumet 

Doze homens e uma sentença (1957) – Poucas estreias de um diretor foram tão fulminantes e arrebatadoras. Talvez um de seus melhores filmes, aqui o diretor explora o drama da consciência num filme em que o sádico hábito humano de julgar é a premissa. Henry Fonda está magnânimo na pele de um homem em busca de justiça, se sentindo Daniel na cova dos leões. Note-se que grande parte do filme se passa numa sala. E tome diálogos.Serpico

Vidas em fugas (1959) – Para mim uma das melhores adaptações de uma história do dramaturgo Tennessee Williams para telonas, traz o galante Marlon Brando na pele do andarilho Snakeskin, um artista da noite que afunda de vez os planos de uma vida feliz da amarga Lady Torrance (Anna Magnani. Desajustados, desafortunados, eles se envolve numa perigosa teia de entrega e mal-entendidos que culmina num desfecho bíblico.

Um dia de cão (1975) – Al Pacino aqui é um assaltante atrapalhão que tenta roubar um banco para pagar mudança de sexo de seu amante. No final dá tudo errado, mas antes o diretor tem a chance de fazer uma ruidosa e pertinente crítica sobre a espetacularização da notícia e irresponsabilidade da mídia. Com isso, de forma divertida e ágil, antecipa em alguns anos as pessimistas reflexões do filósofo francês Guy Debord no seu A sociedade do espetáculo.

Serpico (1973) – Assim como em Um dia de cão Al Pacino aqui defende o papel-título com unhas e garras, vivendo um policial de origem italiana que não se deixa corromper pelos colegas profissionalmente imorais. Perversamente crítico, o filme aborda um tema que para o dia a dia da corporação no Brasil ainda parece uma triste realidade.

Antes que o diabo saiba que você está morto (2007) – E se começou a carreira muito bem, porque não encerrá-la de forma gloriosa. E é o que diretor faz com esse drama perturbador sobre a moral humana. Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke são irmãos em decadências pessoais que resolve assaltar a própria loja dos pais. A empreitada dá errada e os dois ficam na mira do pai que, sem saber, está caçando os próprios filhos. Uma nota irônica, morto recentemente por envolvimento por drogas, o ator Seymour Hoffman vive um drogado.

* Este texto foi escrito ao som de: # 10 (The Guess Who – 1973)

The Guess Who

Extraordinários na SporTV

Irreverente e imprevisível, o programa é bem melhor do que bobagens como Pânico

Irreverente e imprevisível, o programa é bem melhor do que bobagens como Pânico

Amigos, o legal de assistir Copa do Mundo na SporTV é que não se ouve em nenhum momento a voz irritante, arrogante e chata do Galvão Bueno. Depois porque após os três jogos do dia e os jornais esportivos exibidos na sequência, temos o formidável programa, Extraordinários. É divertido, imprevisível e inteligente. Não perco um desde que comecei a ver. E o que despertou meu interesse, claro, logo de cara, foi a presença da estonteante atriz e escritora Maitê Proença, uma das minhas musas da adolescência. Depois por conta de um Bueno que até pode ser chato, mas é bem mais interessante do que o Galvão. Trata-se do jornalista, escritor, tradutor e gremista doente Eduardo Bueno.

Autor dos livros da coleção Terra Brasilis, Peninha, como Eduardo Bueno é conhecido entre os amigos, é, de longe, o mais divertido dos participantes do programa que conta ainda com o músico Paulo Miklos e o jornalista cearense Xico Sá. E Eduardo Bueno é hilariante porque fala o que pensa, mesmo que seja barbaridades preconceituosas sobre nordestinos e gays. Até porque no fundo acho que não são afirmações verdadeiras, mas de uma infantilidade quase ululantes. Lembra muito o Paulo Francis, que era genial.

A estrutura narrativa do programa é surrealista, esquizofrênica e liberal, liberal até demais e por Sportvisso dá abertura para situações malucas, frases e observações irresponsáveis, momentos imprevisíveis, como o da musa Maitê Proença surfando em cima do sofá. E os participantes e convidados – quase sempre os meninos do Casseta & Planeta – não falam apenas de com irreverência de Copa de Mundo, comentando sobre as partidas do dia, mas também de cultura, política, comportamento e história. E nessa área Peninha manda ver legal.

Desbocados, mas donos de opiniões contundentes, pertinentes, eles até surpreendam. Outro dia, por exemplo, eles eslhabaram feios as manifestações enfadonhas brasileiras, dizendo que já virou baderna e que agora não tem nada de legítimo.

Conhecido também por seu jeito explosivo e falastrão, duvido muito que o Peninha continue até o final do programa, o que seria uma pena, já que ele é o melhor de todos. “Hoje eu vou falar menos porque ontem fui admoestado pelo diretor de programa que mandou que eu falasse menos”, provocou o jornalista, dono de uma energia verbal sem fim. “O Peninha devia doar sua energia para o governo Dilma, assim nós não íamos ter apagão”, ironizou o Casseta Cláudio Manoel.

Engraçado é ver o fino, tímido e educadíssimo titã Paulo Miklos ser atropelado pelos colegas, mas tudo bem. Tudo é festa, bagunça e diversão. Bem melhor do que programas pretensiosos como Pânico na TV, CQC e o chato e arrogante Galvão Bueno. Uma pena que Os Extraordinários só vai rolar na Copa.

* Este texto foi escrito ao som de: Seu espião (Kid Abelha – 1984)

Seu espeião