Marcelo Serrado sai do armário na TV

Na pele do afetado mordomo Crô, Marcelo Serrado caiu no gosto popular

O personagem mais marcante que o ator Marcelo Serrado, o mordomo Crô, da novela Fina Estampa, já interpretou, em minha opinião, foi o Edgar, o melhor amigo de João Alfredo (Cássio Gabus Mendes) na minissérie, Anos Rebeldes, lembram? Nossa como eu gostava de ver os dois juntos e como era bonita aquela amizade, mas deu no que deu. Ora bolas, eles tinha que se apaixonar pela mesma garota? De lá para cá, não me lembro de seu rosto em outras atuações memoráveis.

Hoje, aos 44 anos, pode-se dizer que esse talentoso jovem de múltiplas facetas está próximo do auge na carreira. Graças ao afetado e divertido personagem que encarna na novela global, o ator caiu no gosto popular ou como dizem por aí: a biba está bombando, minha “Rainha do Nilo”, minha “Divina Ísis”.

Em entrevista recente à deliciosa jornalista Mônica Sanches, da GloboNews, ele explicou como criou essa persona tão rica e querida. “Na verdade ele é uma colcha de retalhos, feito de várias pessoas que conheço e que são assim. Foi um personagem que me deu muito trabalho para criar, não tem milagre”, explicou. “Esse personagem tem alma, tem sentimento”, disse ainda.

Na entrevista, o ator conta também que o sucesso do seu personagem é tamanho que virou ícone da comunidade gay e seu figurino e visual copiados em festas. “As pessoas chegam fantasiadas de Crô nos locais, dá para acreditar?!”, se diverte Serrado.

Bem, a teledramaturgia brasileira teve vários tipos homossexuais de sucesso, embora, no momento, não me recorde de alguns. Mas um que ficou marcado em minha memória foi o casal de lésbica do novelão Vale tudo (1988), vivido pelas atrizes, Cristina Prochaska e Lala Deheinzelin, mas a questão era mostrada de forma tão obscura que muita gente achou que as duas não passavam de meras sósias de uma pousada em Búzios. O que elas também eram de fatos.

Gostava muito também do irreverente Jacque LeClair, de Ti-ti-ti (1985), mas o Jacque Leclair do Reginaldo Farias, não esse do remake vivido do pelo Alexandre Borges, que ficou caricato e afetado demais.

Já no cinema, além da dupla de caubóis de, O segredo de Brokeback mountain, outro dia me surpreendi ao ver Al Pacino, soltando a franga no policial, Parceiros da noite (1980), filme dirigido pelo temperamental, William Friedkin (O exorcista). Aliás, Al Pacino não sei não porque em, Um dia de cão (1975), do mestre Sidney Lumet, ele é um bandido que rouba um banco, arruma a maior confusão com as autoridades e a mídia para conseguir dinheiro para fazer a cirurgia de mudança de sexo do namorado. Pode?!

Brincadeiras à parte, o fato é que, sucessos como o do personagem Crô, criado por Marcelo Serrado, só evidencia que a mentalidade das pessoas está mudando. Ou seja, o preconceito e a intolerância ainda persistem, mas estamos evoluindo em relação alguns tabus e comportamentos o que é muito bacana. Afinal, como já dizia o jornalista e escritor Euclides da Cunha, autor de Os sertões: “Ou evoluímos ou desaparecemos”.

* Este texto foi escrito ao som de: “Viva hate” (Morrissey – 1988)

Anúncios

Retrospectiva de Lars von Trier em BsB

Polêmico por natureza, o dinamarquês Lars von Trier é um dos artistas mais instigantes do seu tempo

Não tem jeito, odiado ou amado, reverenciado ou achincalhado, seja lá em que situação for, o cineasta dinamarquês, Lars Von Trier, sempre será notícia. Às vezes envolvendo suas polêmicas declarações, como o recente comentário de mau gosto, no ano passado, no Festival de Cannes, sobre o nazismo, mas, sobretudo, pelo talento ímpar e autoral em que conduz suas histórias claustrofóbicas na tela. Não tenha dúvidas de que esse artista singular está na vanguarda do cinema contemporâneo, daí a presença maciça do caloroso público na mostra retrospectiva da sua obra que acontece, até o dia 05, em dois espaços de Brasília: o Cine Brasília e o CCBB.

Programa imperdível porque o encontro exibe obras raras da carreira de Lars, inclusive filmes que nunca foram lançados nem em DVD no Brasil, trabalhos como os angustiantes, Epidemia (1987) e Medéia (1988), este último, realizado para a televisão dinamarquesa.

Fui lá conferir, tanto no CCBB, quanto no Cine Brasília, algumas produções que não conhecia e as sessões estavam aboletadas. Professor de cinema de Lars von Trier no passado, o simpático Peter Schepelern marcou presença, contextualizando a obra do ex-pupilo e contando saborosas histórias de bastidores de alguns de seus filmes mais marcantes. “Infelizmente o Lars não pode estar presente aqui com vocês, o que foi ótimo para mim”, brincou, arrancando gargalhadas do público.

Acompanhar a mostra foi ótimo para mim, porque tive a oportunidade, finalmente, de ver, entre os vários filmes exibidos no CCBB e no Cine Brasília, o musical Dançando no escuro, uma de suas obras mais prestigiadas e instigantes, protagonizada pela cantora islandesa Björk. O filme, que conta ainda com a sempre bela e charmosa Catherine Deneuve, é denso, perturbador e exemplar como uma passagem bíblica, narrando a história de uma mãe que trabalha que nem uma escrava para juntar dinheiro para pagar a cirurgia do filho que tem, assim como ela, sérios problemas de visão. Mas não se iluda, Dançando no escuro é um musical, mas um musical de Lars Von Trier, que desconstrói, bem ao seu estilo, um dos gêneros norte-americano, por excelência.

A mãe em questão é interpretada pela própria Björk, que encarna uma emigrante checa que parte para a América para ganhar a vida. E a vida não é nada fácil para ela, que dribla as adversidades que a cerca imaginando uma vida agradável e cheia de arco-íris como se ela fosse um grande musical. “Não gosto de musicais, não entendo porque alguém de repente sai cantando e dançando do nada”, se zanga um dos personagens, que sonha em conquistar o amor da jovem atormentada.

Mas seu horizonte promete se tornar cada vez mais cinza, nebuloso e se saída. O desfecho do fim é tenebroso e teve gente saindo da exibição no Cine Brasília, aos prantos. Confesso que fiquei com nó na garganta e, de tão confuso, nem me animei sair para um happy hour.

Ah, sim, atriz amadora, na verdade marinheira de primeira viagem, a cantora Björk, uma fofa com aquela carinha cheia de sardas, arrasou em atuação intensa. Preste atenção nos minutos finais da fita. Daí o talento do diretor, um sádico assumido, em conduzir suas estrelas. “Nem precisa dizer que a Björk e o Lars tiveram problemas em cena. Porque os dois são excêntricos e malucos”, revelou Peter Schepelern.

Vendo o musical Dançando no escuro, fiquei mais fã da Björk e, com certeza, admirador para a vida toda do anárquico Lars Von Trier. Pois bem, dizem que “deus” ama os suicidas e parece que os loucos e os excêntricos também.

* Este texto foi escrito ao som de: Arrival (Abba – 1976) 

Os carros que marcaram minha vida

Do primeiro carro a gente nunca esquece...

Outro dia, lendo a Coluna Eixo Capital, me deparei com uma notinha curiosa a respeito de um deputado distrital, cuja namorada teria sido premiada com um carrão num daqueles suspeitos sorteios de Shopping Center. Outra notícia bisonha sobre a realidade dos políticos de Brasília, mas, mais do que o fato em si, o que me chamou atenção, foi o texto de uma das meninas sobre o tal “charmoso” e “elegante” carro envolvido no episódio.

Bem, não sei por que, mas como num passe de mágica, sofri um daqueles processos proustianos reminiscivos e fiz uma viagem no tempo, me lembrando dos carros que marcaram minha vida, da minha infância aos dias de hoje. Mas que fique claro, não sou, nem um pouco, deslumbrado com essas máquinas motorizadas, até porque para mim, carro bom é aquele que me leva aonde quero chegar sem problema nenhum, seja ele um fusqueta, uma Ferrari ou uma Nave Espacial.

O primeiro carro que marcou minha infância, por sinal, foi o primeiro carango que me lembro de ver desde que me entendia como gente. Era a Variant creme do seu Afonso, nosso vizinho dos primeiros tempos de Brasília. Seu Afonso era um senhor simpático e alto, com um bigodão que lembrava o vovô Miguel. Mas a Variant do seu Afonso era aquela bem parecida com uma Brasília, só que maior e com o design mais quadrado, diferente do tradicional modelo que conhecemos.

Não me lembro de ter andado na Variant creme do seu Afonso, mas vai ficar para sempre em minha memória o bigodão dele e o volante com uma enorme banana negra ou boomerang no meio.

Naqueles tempos de criança em Brasília, guardo com carinho também da época da escola O pequeno príncipe e da primeira namorada que tive. Ela era bem feinha por sinal, coitada, por isso não tirava o olho da guria do meu irmão, uma gatinha bem branquinha e cheia de sardas. Eu não sabia ainda, mas começou ali minha obsessão por sardentas. Não me esqueço também do carro do pai da namorada do meu irmão, um Opalão Comodoro bem maneiro, com capota branca e o resto marrom.

Já o primeiro carro da família foi um Corcel 73 branco e não sei dizer se papai comprou o nosso por causa daquela música do Raul Seixas que dizia assim: “Eu devia estar feliz por que consegui comprar um Corcel 73…”. Só sei que recordo até hoje do volante estiloso com um aro dentro e o símbolo de um cavalo bem no centro. Como vocês já perceberam, volantes é o meu forte e toda vez que vejo aquele filme O corcel negro, me dá saudades do Corcel 73 branco do papai.

Mais ou menos nesse período um tio nosso costumava passar os fins de semana lá em casa e a gente achava o maior barato a Brasília verde musgo dele. Tudo bem, mais tarde, Os mamonas assassinas podem ter feito o maior sucesso com sua Brasília amarela de rodas gaúchas, mas a Brasília da minha infância, da minha vida, era a Brasília verde musgo do tio João.

Agora inesquecível mesmo era a Camionete C10 alaranjada do tio Geraldo, com seu câmbio manual e cheiro de gás combustível. Eu sempre achava que um dia aquela camionete laranja do tio Geraldo ia explodi com todo mundo lá dentro e tudo. Certa vez, viajei uma noite inteira sentado no chão da Camionete e nem era castigo, apenas um truque para enganar a polícia rodoviária. Coisa de adulto, mas, embora a viagem tivesse sido desconfortável, foi marcante e eu ficava imaginando e morrendo de curiosidade para saber o que se passava lá fora, naquele breu todo.

Papai teve diversos outros carros depois, mas aquela Belina Del Rey Scala luxo dourada era um escândalo de linda e toda a vez que eu olhava para o símbolo do carro, ficava imaginando se a gente não fazia parte de algum reino distante. Coisas de menino, mas como era espaçosa a nossa Belina Del Rey Scala. Qualquer dia desses, num surto de nostalgia eu vou comprar uma dessas só de farra.

…Hoje, quando vejo um Pegeout estilo weekend azul céu, azul sonho, meu coração bate acelerado e tenho tremedeira pelo corpo inteiro…

E nem sei se minha eterna estrela da noite e da manhã ainda anda por aí com seu Pegeout estilo weekend para cima e para baixo…

* Este texto foi escrito ao som de The cars (1978)

Triste balada de George Clooney no Havaí

Em Os descendentes, o bonitão George Clooney é um pai desajeitado que vive crise familiar devastadora

George Clooney você conhece. É o bonitão mais charmoso e ativo de Hollywood no momento. Condição que ocupa, naturalmente, já faz algum tempo. Mas talvez você tenha dúvidas de quem seja Alexander Payne. E para que não haja equívocos vamos lá. Assim como Clooney, Payne é elegante e boa pinta, mas está longe de ser ativo já que, vez ou outra, vai para trás das câmeras para nos contemplar com obras ácidas e incômodas como o recente drama, Os descendentes. Vi o filme ontem, na primeira sessão do Shopping Iguatemi – céus como odeio shoppings! – e posso dizer de boca cheia: Que trabalho sensacional!

Baseado no livro homônimo escrito por Kaui Hart Hemmings – desde já um best-seller – a fita é o seu quinto trabalho depois de sucessos como, As confissões de Schmidt e Sideways – Entre umas e outras. Os três títulos são igualmente excelentes, mas com Os descendentes, o cineasta norte-americano de origem grega se supera. Isso se chama maturidade e ele nem chegou ao seu auge. George Clooney parece que sim.

Em Os descendentes ele é advogado Matt King (George Clooney), envolvido em tragédia pessoal depois que a mulher se acidenta gravemente numa passeio de lancha. Ela agora vegeta sem chances de vida em cima de uma cama e a situação jogou o marido e as duas filhas problemáticas numa crise devastadora. “Meus amigos acham que só porque eu moro no Havaí estou no paraíso, mas não surfo há 15 anos”, ironiza ele, logo na primeira fala do filme.

Enquanto dividi a dor com as filhas, ao mesmo tempo em que aprende a lidar com elas, se vê obrigado a revolver outro problema de família, agora do seu lado, já que é herdeiro, junto com uma carranca de primos, de generoso pedaço de terra num dos lugares mais lindo do planeta. Uma herança que passou de um tataravô, de geração para geração, desde 1860, e que agora está para ser vendida para poderoso grupo da indústria de turismo. Os problemas da vida pessoal irão fazê-lo refletir sobre o destino a tomar quanto à transação financeira do terreno.

“Às vezes me chamam de avarento, mas meu pai é que tinha razão. Dê dinheiro aos seus filhos para eles fazerem alguma coisa, não para eles não fazerem nada. Não quero que minhas filhas cresçam mimadas”, reflete o personagem, no auge de sua desolação.

Cruel, irresistivelmente impudente na maneira como expõe as vísceras da fragilidade da natureza humana em suas histórias, o diretor Alexander Payne, filme a filme, parece construir divertidos e perturbadores ensaios sobre os atos falhos que nos cercam dia a dia, tal qual uma sombra do mal, e a maneira caótica com que tentamos resolvê-los. Estilo que o coloca na trilha do mestre do cinismo Billy Wilder.

Um exemplo clássico dessa realidade pincelada por Payne está na figura do nosso herói Matt King, que ostenta sua majestade apenas no sobrenome que carrega. Com barba por fazer, cabelos bem grisalhos e sem um pingo da maquiagem do glamour, George Clooney parece vestir bem este figurino diante da triste balada que embala seu personagem. Um dos melhores que deu vida, portanto, digno de Oscar de Melhor Filme.

Outrora homem de negócio atarefado que muitas vezes abriu mão de estar ao lado da família por subserviência ao trabalho e ao dever, agora se vê perdido diante dos simples afazeres domésticos. A cena em que é obrigado a fazer a filha caçula rebelde pedir desculpas a uma colega mimada de escola é hilária, assim como a falta de tato em lidar com o namoradinho meio debilóide da filha mais velha, também revoltada.

“Porque as mulheres da minha família são autodestrutivas?”, se pergunta.

O amadurecimento dele e das filhas é colocado à prova e fortalecido não apenas ao lidar com a triste realidade que os cercam, mas com a sabedoria familiar com que lidam com grande revelação que irá mudar o rumo de suas vidas. Bem, o velho mestre Nelson Rodrigues é quem tinha razão. “Toda família, sem exceção, esconde cavernas, pântanos que não convém desenterrar”.

* Este texto foi escrito ao som de: On and on (Jack Johnson – 1997)

Discoteca Básica (48) – Nashville skyline

O encontro dos dois titãs aí, em 1969, resultou na tocante balada Girl from the North country

E o tão esperado encontro entre os dois maiores bardos do folk norte-americano finalmente aconteceria, em 1969, quando Bob Dylan e Johnny Cash entraram no estúdio para gravar a baladona, Girl from the North country. E esse registro mágico e de uma beleza ímpar, por si só, já seria mais do que suficiente para fazer de Nashville skyline, um dos meus discos prediletos de Mr. Zimmerman, não fosse o fato de o álbum ser uma obra-prima da música em todos os sentidos. Uma obra-prima da primeira a última faixa.

Gravado na sequência do genial John Wesley Harding (1967), bem que os dois trabalhos poderiam ser um álbum duplo, tamanha a cumplicidade entre as duas obras, ambas, uma espécie de volta às raízes do maior nome da música norte-americana. Rabecas, steel guitars, arranjos countries, a famosa gaita dilanesca, claro, e letras que parecem ter sido saídas de um saloons.

“Bem, se você estiver viajando pelo norte do país/Onde o vento sopra forte na fronteira/Fale de mim para quem mora lá/Ela foi certa vez, meu verdadeiro amor”, cantam Dylan e Cash, na arrasadora faixa de abertura.

Tudo no disco soa diferente, até a voz fanha de Dylan, mais encorpada e forte, parecendo complementar o poderoso e emblemático sopro de trovão que sai da boca de Cash, quase um barítono. A capa traz um Dylan de barba e figurino root, talvez remetendo às suas origens judaicas e, se há dúvidas de que Jakob Dylan é filho de quem é basta dar uma conferida no instantâneo.

O amor carnal e lírico como só o próprio bardo seria capaz de escrever, espargi na sensual, Lay lady lay. “Por que esperar algum tempo pela pessoa que você ama/Quando ele está bem está bem acima de você/Deite dama, deite/Deite através da minha grande cama de latão”, clama.

Os rumores de que um forasteiro esta para chegar à cidade é o tema da gostosa Tell me that it isn’t true, enquanto que em, Tonight I’II be staying here with you, o ouvinte é arrebatado pelas juras de um amor eterno. “Jogue minha passagem pela janela/Jogue minha maleta por lá também/Jogue meus problemas pela porta/Eu não preciso mais deles/Porque essa noite vou ficar aqui com você”, diz feliz da vida.

Bem, há vários discos de Bob Dylan lançados, antes e depois, desta joia do country rock, que poderiam entrar com louvor em minha discoteca básica, tais quais: Blonde on blonde (1966), Blood on the tracks (1975), The basement tapes (1975) e Time out of mind (1997). Mas se eu fosse para Lua algum dia ou mesmo o inferno e só pudesse levar um álbum desse grande artista do século 21, sem sombra de dúvida que seria Nashville skyline. Ouça o disco e saiba o porque.

* Este texto foi escrito ao som de: Nashville skyline (Bob Dylan – 1969)

As verdades e mentiras do mundo “Islã”

A bela atriz Leila Hatami, dividida entre a opressão do sistema e o marido incompreensivo

Acho que o último filme iraniano que assisti foi do mesmo diretor desse A separação, badalada produção daquele país que promete arrebatar o Oscar de Melhor filme estrangeiro este ano. Pelo menos o Globo de Ouro o cineasta Asghar Farhadi já abiscoitou. O outro filme dele que vi foi, Procurando Elly, um drama tão visceral quanto o seu mais novo projeto, exibindo em Brasília apenas no novo complexo de cinema do Liberty Mall, inaugurado esses dias.

O mais novo espaço dedicado à sétima arte é aconchegante, com visual bem europeu e programação alternativa com o que há de melhor do cinema estrangeiro de qualidade. Um bom exemplo é a fita iraniana, vencedora do Festival de Berlim e também premiado nas categorias melhor filme e melhor ator e atriz com a dupla Peyman Moaadi e Leila Hatami.

Eles são Nader e Simin, o casal em crise conjugal da trama. O primeiro é um legítimo homem da sociedade iraniana, conservador e fiel aos dogmas medievais ditados pelo sagrado Coral, a Bíblia do Islã. A segunda, uma mulher sufocada e cansada da vida que leva há 14 anos ao lado do marido, num lugar onde os limites de liberdade, em todos os sentidos, são questionáveis.

No meio desse turbilhão de tabus religiosos e sociais, está a jovem Termeh (Sarina Farhadi), adolescente filha do casal (filha do diretor) que sofre com a crise do lar e com a doença do avô paterno, vítima do Mal de Alzheimer. Ela não quer ver os pais separados de jeito nenhum e quando a mãe lança a ideia de deixar o país, o desespero e incompreensão diante da relutância do pai e da situação, ganham contornos satânicos dentro de si.

O drama da família é potencializado com a acusação de agressão física contra a empregada grávida, encarregada de cuidar do velho moribundo, numa cena rocambolesca, digna dos melhores dramas italianos.

A partir desse episódio insólito, o diretor Asghar Farhadi cria uma sinuosa teia de armadilhas onde o jogo de verdades e mentiras colocam em xeque, dentro de narrativa nua e crua, questões como humilhação, honra manchada, impotência diante da burocracia da justiça e da opressão de um regime teológico inadequado para os dias de hoje, por mais cultural que isso possa ser ou parecer. Preste atenção, por exemplo, na ridícula cena do xixi nas calças.

Norteado pela estética do cinema neo-realista italiano e de uma ousadia perturbadora, poucas vezes os conflitos e os dramas do ceio familiar foram tratados de forma tão sincera e visceral como em A separação. Em meio a esse mar revolto de tristeza e desencontros humanos, sobressai a deslumbrante beleza da atriz iraniana Leila Hatami, uma das mulheres mais belas do mundo.

Uma beleza que me faz lembrar os traços meio árabes e meio exóticos da jornalista Lilian Tahan, um encanto de delicadeza.

* Este texto foi escrito ao som de: An other cup (Yusuf Islam – 2006)

Os indicados ao Oscar 2012!

O mestre Woody Allen comanda o elenco principal de Meia-noite em Paris. Cineasta foi indicado em três categorias

Filmes são como partidas de futebol. Há sempre um milhão de gente dando palpite, torcendo a favor ou contra, naquela euforia para que seu ator ou atriz predileto seja premiado, enfim, quando a gente menos espera, tem neguinho que apostou uma grana alta no bolão e se brincar, até saindo, no tapa, por não concordar com alguma observação maldosa sobre seu diretor querido. Não tem jeito, faz parte da natureza humana o espírito de competição, para o bem ou para o mal.

E todo ano é assim quando a Academia de filmes de Hollywood escolhe os indicados ao Oscar, a maior festa do cinema no mundo. E ficamos apenas na festa mesmo porque, no fundo, tudo não passa de uma celebração lobista que dita regras nem tão confiáveis assim, do que é bom, ou melhor, na sétima arte. Até porque, o melhor isso e aquilo, são sempre aqueles que nos agradaram e nos fizeram feliz.

Portanto, mesmo que não ganhe nada, minha torcida ficará, desde já, para o mestre Woody Allen, indicado em três categorias: Melhor Filme, Diretor e Roteiro pelo nostálgico e encantador Meia-noite em Paris. Bem, ninguém tira o prêmio dele de melhor roteiro, mas se o diretor nova-iorquino levar os outros Oscars será a glória, nada menos que a volta por cima de um dos grandes nomes do cinema, hoje, com 75 anos. Aliás, só o reconhecimento da Academia já é uma vitória.

Tudo pelo poder, o cínico filme dirigido e escrito por George Clooney é uma obra-prima e foi praticamente ignorada da festa do Oscar 2012, mas tudo bem porque estou morrendo de vontade de ver Os descendentes, não só por causa do ator bonitão, mas também pelo talento do diretor Alexander Payne, um expert em retratar com acidez as intimidades e mazelas do cidadão comum norte-americano. Payner, de origem grega, aliás, mostrou tais atributos nos excelentes: Sideways – Entre umas e outras e em As confissões de Schmidt, o último, com o sempre impagável Jack Nicholson.

Já Martin Scorsesse, o eterno guardião e a memória viva do cinema norte-americano, mais uma vez está no páreo com um filme que presta uma homenagem às origens da sétima arte, assim como à filha Francesca, garotinha de 12 anos que o pediu que fizesse a fita. O seu, A invenção de Hugo Cabret, é o primeiro trabalho do diretor de Taxi driver e Touro indomável para o público infanto-juvenil, assim como o primeiro projeto em 3D. Ao abraçar esse projeto, Scorsese mostra aos produtores que transformaram essa atual modalidade de fazer cinema em verdadeiros caça-níqueis, que é possível fazer cinema de arte mirando futuro.

E por falar em cinema de arte, O artista, filme franco-norte americano, de Michel Hazanivicous, faz a trajetória inversa, ou seja, uma viagem ao passado, para prestar uma homenagem ousada, bela e encantadora a dois gêneros que foram, durante muito tempo, cada um em seu período, pilares da indústria cinematográfica americana: o cinema mudo e os musicais.

Assim como eu, muita gente não sabe quem é Michel Hazanivicous, e a maioria anda torcendo o nariz para um filme feito em preto e branco, ainda por cima mudo, feito em pleno século 21. Mas e daí, se eles não têm memória cinematográfica, muito menos sensibilidade para ver o que é uma obra inteligente e visceral.

Para os ufanistas de plantão, que andam chorando por aí a desclassificação de Tropa de elite 2, fica não apenas o consolo de ter Sérgio Mendes e o espalhafatoso Carlinhos Brown, indicados na categoria melhor trilha sonora, com música da animação Rio, mas também a certeza de que o Oscar é meramente festa para americano ver. Portanto, só a gente ter sido convidado, já é grande coisa. E se querem torcer por um filme estrangeiro que valha a pena, por ironia do destino, o mais cotado é o iraniano A separação, obra que retrata o pesadelo da triste e opressora realidade daquele país, é que vem emocionando as pessoas do mundo inteiro.

Fique de olho

George Clooney – Quando vi o ator pela primeira vez no Plantão Médico, não botei muita fé, não. O achava até medíocre, mas o tempo é o senhor da razão e pai das injustiças, de modo que, aos poucos, fui me simpatizando pelo charmoso ator, que é um dos nomes mais fortes, íntegros e atuantes de Hollywood no momento. Tudo pelo poder traz sua assinatura na direção e no roteiro, além de atuação brilhante, mas tudo indica que ele deve se consagrar por Os descendentes. Ainda não vi o filme, mas já promete só pela direção do sempre cáustico Alexander Payne.

O artistaTem gente que anda saindo das sessões desse charmoso filme indignado, pedido devolução de ingresso e tudo. Brincadeira, mas com tanta informação hoje em dia, e as pessoas ainda não perceberam que a fita é uma homenagem das mais sofisticadas ao cinema mudo e aos musicais. Ah, sim o ator Jean Dujardin é ou não é a cara do Gene Kelly?

O mestre – Ao homenagear a literatura francesa e uma das cidades mais encantadoras do mundo, Paris, Woody Allen, com a sofisticação e sagacidade de sempre, cria uma de suas obras mais instigantes. Indicado em três categorias, Meia-noite em Paris é um relicário afetivo sobre a arte e uma das épocas mais charmosas da cultura mundial. E fala sério, só de conseguir arrancar um desempenho digno do sem graça, Owen Wilson, já é um baita de um reconhecimento, não?!

* Este texto foi escrito ao som de: Twelve dreams of Dr. Sardonicus (Spirit – 1970)

15 de julho… 15 de fevereiro…

Jim Sturgges e Anne Hathaway levam 20 anos de suas vidas para descobrir que se amam, mas...

Uma das frases do livro, O pequeno príncipe, que guardo com carinho na minha gaveta de memórias é essa: “Amar não é um olhar um para o outro, mas ambos na mesma direção”. Pois bem, tal sentença parece nortear os passos dos personagens Emma (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgess), do drama romântico Um dia, que vi outro dia.

E antes de seguir com o texto confesso que chorei muito e ainda me dá vontade de chorar quando me lembro de cenas do filme. Mas e daí? Qual o problema de ser sentimental? Assim como eu, muitos saíram do escurinho da sala com lágrimas nos olhos. E quer saber? Fiquei com vontade de comprar o livro que desdenhei por achar ser um desses best-sellers bobocas que, toda semana, perfilam a lista de revistas “especializadas”. Só não fiz isso porque não tinha dinheiro.

Baseado no romance homônimo escrito pelo britânico David Nicholls, Um dia é uma daquelas fitas que a gente tem vontade de assistir agarradinho com a pessoa amada debaixo do cobertor. Conta a história do amor não correspondido, amor com endereço errado e desencontrado de dois jovens que se amam muito como amigos, até descobrirem que se amam muito como amantes. Até entenderem que o destino de ambos, como na história de Saint-Exupéry, é seguirem na mesma direção.

“Se eu pudesse te daria um presente para a vida toda: confiança”, diz o mocinho vivido pelo fofo Jim Sturgess.

É um amor que nasceu no dia 15 de julho de 1988, em Edimburgo, após a formatura do casa. Por sinal, dia de São Swithin. Ela quer ser uma grande escritora e ele se tornar rico e famoso. Até que isso aconteça – e isso irá acontecer -, muita água passará por debaixo da ponte, 20 anos, para ser mais preciso, mas os acontecimentos na vida dos dois personagens serão marcados, pela ótica do espectador, daí para frente, sempre pelo dia 15 de julho.

Aparentemente simples tal recurso narrativo se mostra simpático, envolvente até, porque atiça nossa curiosidade diante da linha do tempo dos personagens. Personagens bem comuns, diga-se de passagem, desses capazes da gente encontrar num café da esquina, atravessando a faixa de pedestre ou se besuntando de protetor solar na praia.

E é essa a grande magia do texto sarcástico, maduro e às vezes contundente de David Nicholls, que também assina o roteiro do filme. Um texto britânico na sua essência e não como não lembrar do escritor Nick Hornby outro conterrâneo de Nicholl, com o dom da irônia. Um texto que fala de pessoas simples como você e eu e o seu vizinho, de gente que erra e fracassa, enfim, pessoas que, como qualquer outra, estão cheias de problemas e leva a vida entre altos e baixos, mas sempre em busca da felicidade. Mesmo quando ela é ceifada, como mostra o supreendente final da fita. Uma história que fala de como os sentimentos são traiçoeiros e nos machucam quando não sabemos domá-los ou quando a própria vida é cruel.

Cheia de sardas, com aquele nariz com a ponta vermelha – igual a da rena natalina -, Anne Hathaway está uma gracinha, embalada ao som de Tracy Chapman, Tears for fears e Robbie Williams, nos encantando como um anjo que é. Ela com vestido azul turquesa e com aqueles cabelos curtinhos é uma delícia. O que me fez esquecer o 15 de julho deles e me apegar ao meu 15 de fevereiro…

* Este texto foi escrito ao som de: Tracy Chapman (1988)

A justiça brasileira em pirâmides de luxo

No Brasil, os juízes vivem em catedrais de luxo, enquanto o povo enfrenta longa espera judicial

Na mitologia grega, a figura da justiça é personificada pela clássica imagem da deusa Têmis, cujos olhos, paradoxalmente, são tampados por uma venda. Talvez seja por isso que muita coisa “estranha” anda acontecendo no judiciário de uns tempos para cá. Para o bem ou para o mal. Para falar sincero, mas para o mal do que para o bem. Bem, eu, que não sou cego, nem tenho venda nos olhos, apenas um matusquela qualquer, estou de olho em tudo e em todos. Assim, “p” da vida com essa turma de toga no Brasil.

Mas acontece que sou um simples nobody, um sujeito sem direito às regalias, salários robustos e qualquer tipo de imunidade ou privilégio. Sou, assim como você e o seu vizinho, um legítimo representante do povo. De modo que só me resta abraçar a eterna indignação, velha companheira de sempre.

Convivi um tempo diretamente com essa gente e confesso que fiquei assustado com tanta soberba, opulência e demonstração desnecessária de poder. Em alguns casos, chega ser caricato, patético até. Claro, nem todos agem ou são assim. Mas os que agem e são assim, são ridículos.

Não me esqueço do dia em que fiz parte de uma comitiva de homens do judiciário brasileiros que ciceroneava grupo de representantes de magistrados de língua portuguesa pelas principais instituições do ramo. Todos, inclusive eu, ficaram boquiabertos com o luxo, o fausto, o conforto em que a justiça brasileira trabalha hoje em dia. São verdadeiros faraós em suas pirâmides do poder. Se a população, ao menos, pudesse contar com um retorno mais célere, transparente e modesto desse segmento diante de tamanhos excessos.

Deslumbrado com enorme onipotência física dos tribunais, não me contive e comentei com o colega do lado, todo empolgado com sua “rolleiflex”:

– Bicho, se eu soubesse que trabalhar no judiciário era esse luxo todo, não teria feito Jornalismo, mas Direito…

Exibindo um orgulhoso sotaque lusitano, o jovem que me acompanhava nem titubeou:

– Pois bem, lá em Portugal não é assim!

De tanta vergonha, não sabia onde enfiar a cara depois de comentário maldoso diante do magistrado português. De qualquer forma, tive uma grande lição com relação aos nossos homens do judiciário. Mania de grandeza para mim é sinônimo de pobreza. E pobreza de espírito.

* Este texto foi escrito ao som de: Acústico MTV Ira! (Ira – 2005)

Farö – A ilha de Ingmar Bergman

“Não devemos falar de Deus, mas na santidade dos homens”, ensina o mestre Ingmar BergmanSe o cinema tivesse um Deus seria personificado pela figura física do cineasta sueco Ingmar Bergman, um dos nomes mais importantes da sétima arte, morto em 2007. Universal, sem abrir mão do seu estilo introspectivo, denso e intenso na abordagem de temas contundentes, o cineasta está, seguramente, no top five dos meus grandes mestres das telas. Filmes como Luz de inverno, Através de um espelho e o apocalíptico O sétimo selo, ainda hoje estão presos em minhas entranhas.

Aliás, quando revejo pela enésima vez essa fita de 1957, que mostra o embate incômodo travado entre o cavaleiro medieval e a morte, em torno de um tabuleiro de xadrez, sinto um medo metafísico. “Existe Deus? Não existe Deus? O filme não trás respostas a essas questões”, esclareceu certa vez o cineasta.

Eterno homem de teatro, Bergman, que quando menino chorou ao assistir pela primeira vez uma peça, se debandou para o cinema já artista maduro, fazendo das telonas palco de incisivas discussões existenciais, religiosas e humanistas. Mas de um humanisto religioso e existencial bem a sua maneira. “Não devemos falar de Deus, mas na santidade dos homens”, ensina.

Um pouco da personalidade e intimidade do célebre diretor pode ser conferido no documentário, A ilha de Bergman, lançado no Brasil em 2006 pela Versátil Vídeo. Dirigido por Marie Nyreröd, o filme aborda, num espaço curto de pouco mais de uma hora, o início da carreira de Bergman na Suécia, a consagração internacional com o perturbador O sétimo selo, os romances conflituosos com as atrizes Liv Ulmman e Bibi Andersson, a necessidade crônica de estar só. “O teatro e o cinema são, indiscutivelmente, duas formas de trabalho de imensa carga erótica”, explica em dado momento.

É emocionante ver imagens raras, em 16 mm, das filmagens de seu filme mais famoso, assim como ouvir o diretor explicar de onde tirou a ideia para o sombrio roteiro de O sétimo selo, seu trabalho mais prestigiado. baseado na obra eclesiástica do pintor Albertus Pictor. “O cerne deste filme é o medo insano da morte”, revela Bergman.

Outro momento marcante é quando o diretor revela os motivos que o levaram a escolher a paradisíaca ilha de Farö, localizada no Mar Báltico, como sua residência oficial. “Aqui as pessoas respeitam minha necessidade de solidão”, conta, detalhando ainda que o primeiro filme que rodou na região foi o belo e cinza, Através de um espelho. Persona, sua obra predileta, também teve cenas rodadas ali.

Num rasgo de sinceridade, Bergman conta ainda que Cenas de um casamento, filme feito especialmente para a televisão sueca, foi inspirado em seus tempos de marido adúltero. E não só isso, admite sua negligência como pai, revelando que ainda Gritos e sussurros, sua obra mais angustiante, nasceu da necessidade de se libertar dos demônios maternos aprisionados dentro de si. “Os demônios não gostam de ar fresco. Ele gosta que você fique na cama com medo”, observa.

* Este texto foi escrito ao som de: Sail away (Randy Newman – 1972)