Diretores – Alain Resnais

A idealização do amor fugaz entre dois mundos na visão abstrata e poética do cineasta

A idealização do amor fugaz entre dois mundos na visão abstrata e poética do cineasta

Se o cinema algum dia teve um inconsciente ele se chama Alain Resnais. Muitas vezes cerebral e enigmático, ou mesmo hermético, o diretor francês que foi um dos pioneiros da nouvelle vague incomodou e despertou interesses dúbios, confusos e fascinantes, para o bem ou para o mal, na crítica e espectador. De modo que uma coisa é certa com relação a esse esteta da imagem morto recentemente: não há como sair ileso de uma sessão de seus filmes. Eu mesmo até hoje tento decodificar alguns de seus trabalhos em minha memória e, tudo que consigo sentir são sensações do infinito, seja lá o que isso signifique.

Comecei o texto falando de inconsciente e me lembrei agora de duas palavrinhas mágicas necessárias todas as vezes que o cineasta estiver em voga: memória e tempo. Sim, porque poucos diretores filmaram com tamanha propriedade e estilo esses dois temas abstratos. Colagens oníricas, fantasias do inconsciente, sofisticação visual plástica, personagens-esfinges conduzidos por narrativas sofisticadas não-linear. Elementos imprescindíveis de um cinema labiríntico onde sensações e impressões marcam nossa alma, de forma nostálgica e deliciosa.

Top Five – Alain ResnaisAmores parisienses

Hiroshima, mon amour (1959) – A história de amor entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês nos escombros de uma cidade devastada pelos horrores da guerra. Com texto da escritora Marguerite Duras, o filme trabalha com lirismo apaixonante, opostos como duas culturas diferentes, presente e passado, sonho e inconsciente, culpa e incertezas. Uma daquelas histórias em que o amor fugaz vale à pena.

O ano passado passado em Marienbad (1961) – Num imenso e luxuoso palácio barroco repletos de corredores sem fins e quartos amplos, dois personagens fantasmagóricos e soturnos se perdem num labirinto de enigmas onde passado e presente, sonho e realidade, vida e morte se confundem liricamente. Vi o filme uma única vez no CCBB para numa mais esquecer, não entendi muita coisa, mas amei intensamente a natureza plástica da fita com suas lajes de granito, estátuas com alma e jardins sonhos.

Meu tio da América (1980) – A ironia do título que na fita se resume a uma única frase é só a ponta de um iceberg de experiência científica-experimental-narrativa sobre a trajetória de três personagens e suas transformações sofridas pela influencia do ambiente em que vivem. “Ratos e homens. Qual é a diferença?”, ironiza o narrador.

Amores parisienses (1997) – Para um cinéfilo que sempre amou os musicais, essa comédia musical norteada por trechos de grandes clássicos da canção francesa – que vai de Edith Piaf a Charles Aznavour -, é um sundae. A trama se concentra nos encontros e desencontros amorosos e profissionais de duas irmãs de vida, estilos e temperamentos diferentes. A charmosa atriz Sabine Azéma é uma delícia em cena com seu cabelo chanel.

Medos privados em lugares públicos (2006) – Confesso que quando vi o filme me assustei um pouco com o tom de fábula e cenários propositalmente fake propostos pelo diretor, mas quando você embarca com alma nesse conto amargo sobre solidão urbana a pseudosimbologia cênica e narrativa da trama é o de menos.

* Este texto foi escrito ao som de: La bohéme (Charles Aznavour – 1966)

Charles Aznavour

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Chaves e não Chavez: “Isso, isso, isso!”

Por seu poder de unificar toda a América, o personagem foi comparado ao revolucionário Simón Bolívar

Pelo poder de ter unificado toda a América, o personagem foi comparado a Simón Bolívar

Quando o presidente venezuelano Hugo Chávez morreu, em março de 2013, por causa da correria do dia a dia, da pressa insana com que a vida nos submete, enfim, em razão da pressão do sistema, não prestei atenção direito nas manchetes, nas notícias, e achei que, quem tivesse “morrido” era o Chaves, personagem marcante e ingênuo criado pelo humorista mexicano Roberto Bolaños. Bobagem porque, como já sabemos, os ídolos não morrem, são eternos em nossos corações e recordações, mas mesmo assim, chorei antecipado.

Mas felizmente, naquela época, foi um alarme falso e quem tinha morrido era o engodo do presidente Chávez, com toda a sua empáfia de tirano hipócrita e autoritário. Na época, me lembro de uma conhecida petista matusquela, daquelas chatas que sobem numa caixa de querosene jacaré para fazer discursos inflamados e lunáticos em defesa de ultrapassados ideais esquerdistas, sair em defesa do déspota venezuelano, argumentando sobre as coisas boas que ele havia realizado em prol de seu povo, mas claro, omitido a truculência do seu regime.

Tudo o que eu queria dizer para ela era de que o único Chaves que valia à pena era o daquela Vila mítica que existia num cortiço e que, se a Venezuela fosse governada por este Chaves,  e não pelo embuste Chávez, não só o país, mas o mundo seria um lugar bem melhor.

Chaves 2Bem, assim como a maioria das pessoas que estão lendo este post agora, cresci vendo Chaves e suas estripulias no SBT. “Pipipipipipipi”, era o jeito que chorava, quando alguém o sacaneava. “Ninguém tem paciência comigo”, dizia quando alguém se irritava com ele.

Um dos maiores fenômenos culturais da televisão latino-americana, o personagem Chaves – exibido em mais de 100 países ao longo de quatro décadas -, com seu jeito simples, ingênuo e romântico de ser foi um daqueles clássicos casos em que a criação cresceu mais do que o criador. Juro que, só pouco tempo atrás é que fiquei sabendo que existia um tal de Roberto Bolaños por trás do Chaves e foi “sem querer querendo”, como dizia um dos famosos bordões do personagem criado no início da década de 70. E o personagem cresceu tanto a ponto da revista Forbes comparar o menino pobre e abandonado que vivia dentro de um barril ao revolucionário Simón Bolívar, por seu prodígio de ter unificado um continente inteiro em função de um mesmo programa.

Reza a lenda de que Silvio Santos não tinha simpatia pelo personagem e só aceitou em incluir na grande de sua recém-criada emissora, por saber do sucesso do programa e personagem no México e em outros países de língua espanhola. Mais uma vez, o Midas da televisão brasileira acertou em cheio. Campeão de audiência no horário nobre da emissora, Chaves, deixou a poderosa Rede Globo várias vezes no chinelo.

Uma história, digam-se de passagem, com lampejos bíblicos, ou alguém aí já se esqueceu de que o pequeno Davi um dia venceu o gigante Golias? Não contavam com astúcia do pequetito Chespirito, né? E tem gente ainda que acredita que o grande homem da América Latina foi o ridículo e pulha Chávez.

* Este texto foi escrito ao som de: Martinho da Vila (1969) Martinho da Vila

Saint Laurent (2014)

Gaspard Ulliel (esq.) na pele do estilista, aqui em bacanl regada à drogas com Louis Garrel

Gaspard Ulliel (esq.) na pele do estilista, aqui em bacanl regada à drogas com Louis Garrel

O que o escritor de A peste, Albert Camus, e o estilista Yves Saint Laurent têm em comum além de serem conhecidos mundialmente como cidadãos franceses? A nacionalidade argelina, o que pouca gente sabe com relação ao segundo. Eu pelos menos desconhecia esse detalhe, sendo que o primeiro é nascido na pequena Mondovi, com cerca de 40 mil habitantes. O segundo, na cidade de Oran, que serviu de ambiente para uma das tramas do primeiro que não me lembro qual agora. Mas enfim, por que mesmo estou me perdendo nessas divagações inúteis? Ah, sim, me lembrei, por causa da cinebiografia Saint Laurent, que vi outro dia em cartaz ali no cinema do Libert Mall.

Como o título elucida, é filme francês sobre a trajetória de um dos mais importantes nomes da moda de todos os tempos. Quer dizer, não é bem uma trajetória porque a fita dirigida pelo francês Bertrand Bonello faz um recorte entre os anos 1967 e 1976, quando o jovem Saint Laurent começa a despontar à frente da empresa que montou com suas iniciais (YSL), ao lado do marido e sócio Pierre Bergé, até o ano em que o estilista realizaria aquela que para ele seria o grande momento de sua carreira, com um desfile de moda que entrou para história. Entre essas datas, rápidos flashes dos últimos momentos da vida do sujeito que reinventou o jeito de vestir as mulheres no século 20, interpretado pelo ator austríaco fetiche do cineasta italiano Luchino Visconti, Helmut Berger.

“Nada é mais belo do que um corpo nu. A roupa mais bela que pode vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Mas, para aquelas que não tiveram a sorte de encontrar esta felicidade, eu estou lá”, teria dito certa vez.YSL

Impressionante no papel-título, Gaspard Ulliel revela em cena um Saint Laurent frágil, ensandecido pelo sucesso e fama, obcecado pelo perfeccionismo, mas que não abriu mão dos prazeres da vida, se entregando cegamente às drogas e orgias homossexuais. Mas os podres do cara são mostrados com elegância e finesse, com o agravante de que as drogas sobressaem mais do que as cenas de sexos. Numa delas, na hilária sequência da overdose do cãozinho do estilista, depois de se empanturrar com sobras de barbitúricos e pílulas espalhados pelo chão deixados por ele e o amante Jacques, vivido pelo galã francês Louis Garrel.

Mas o que me tocou no filme com quase três horas de duração, além da bela direção de arte – que captou com perfeição os figurinos e cenários desse período (1967 – 1976) -, e atuações sóbrias do elenco principal, foi a delicadeza com que o roteiro chama atenção para o lado sublime da moda, destacando essa modalidade não como um mero produto de mercado e da publicidade, mas a elevando a status de arte. E o faz isso associando a paixão de Saint Laurent pela arte de mestres como os pintores Matisse e Mondrian, artistas que o inspiraram a criar verdadeiras obras de arte desfilando nas passarelas.

Agora me resta comparar essa produção com outra realizada recentemente sobre o estilista e ainda inédita em Brasília dirigida por Jalil Lespert com o aval do marido de Saint Laurent, Pierre Bergé. Morto em 2008, aos 71 anos, o estilista numa esteve tanto na moda.

* Este texto foi escrito ao som de: Initials B.B. (Serge Gainsbourg – 1968)

Serge S G

“Você tem cara de palhaço!”

A pequena Júlia fez lembrar desse clássico de Jerry Lewis na pele de um palhaço que chora

A pequena Júlia fez lembrar desse clássico de Jerry Lewis na pele de um palhaço que chora

Ontem fui levar minha sobrinha à escola e, enquanto a professora não chegava, lá estava eu cercado de umas 4 ou 5 crianças, todos amiguinhos da minha pequena quando, de repente, uma delas, mirando meu narigão, não vacilou: “você tem cara de palhaço, hahahahaha!”, disse, na maior sinceridade ingênua.

Confesso que na hora tomei um susto, mas depois a ficha caiu e levei numa boa. Para ser sincero, foi o melhor elogio que recebi nos últimos tempos. Lembrei-me na hora de um dos meus ídolos da infância, o Jerry Lewis, num filme em que ele aparece caracterizado de palhaço. Uma pena eu não lembrar mais o título, nem a fita ser exibida nos canais pagos da vida, mas não me esqueço de uma cena emblemática. É quando ele, na arena do circo, fazendo dezenas de crianças rirem com suas palhaçadas, percebe uma garotinha paraplégica na primeira filha distante e tristonha. Então ele senta ao lado dela e insiste nas caretas e brincadeiras, mas nada da guria sorrir. Desolado por não conseguir roubar um sorriso da menina, o alegre palhaço então começa a chorar e é quando ela cai na gargalhada.

Os trapalhõesA pequena Júlia Diniz, a amiguinha da minha sobrinha que me chamou de palhaço, felizmente não é paraplégica, nem tristonha, muito menos distante. Mas uma garotinha elétrica e, como tantas outras de sua idade, de uma sinceridade ingênua comovente. É algo que adoro nas crianças. Por isso que gosto tanto delas e elas de mim. Por isso que não tenho paciência nenhuma com adulto e toda calma do mundo com os pequenos. “Vem a mim as crianças”, já dizia Jesus.

E quer saber? Não é a primeira vez que sou chamado de palhaço. Meses atrás, minha sobrinha de 4 anos, revirando os DVDs em minha estante mágica, viu a fita de O professor aloprado, o clássico com Jerry Lewis (olha ele aí outra vez!) e veio me dizer correndo:

– Ti, ti, ti, parece com você, parece com você!Essa empatia entre eu e a criançada é imediata, espontânea e direta. Aonde eu chego se tem criança, logo elas ficam em volta de mim e sou a atração. Talvez seja por causa do nariz grande mesmo e daí? Sem me fazer de rogado logo começo a inventar uma brincadeira, fazer palhaçadas, caretas e, num piscar de olhos, estamos todos rolando no chão. Quando levo minha sobrinha ao parquinho então é a mesma farra. Acho que além do nariz, tenho também alma de palhaço e, parafraseando o John Lennon, que bom ser o palhaço do meu bairro já que as pessoas ditam sérias não têm tempo de brincar com seus filhos e sobrinhos, porque estão muito ocupadas em ganhar dinheiro e ser alguém importante na vida.

Não sei por que, de repente esse papo de criança me fez ficar saudoso dos meus tempos de criança. De quando brincava de carrinho no quintal de casa e não perdia um filme dos trapalhões na tevê. Movido por uma nostalgia sem igual, mexi nos meus vinis e descobri ali um disco do Carequinha. Como era bom ser “criança feliz, feliz a cantar, alegre embalar, seu sonho infantil”. Bons tempos que não voltam mais. O jeito então é curtir as duas sobrinhas que ajudo a criar. E que me faz o palhaço mais feliz do mundo.

*Este texto foi escrito ao som de: Os grandes sucessos do Carequinha (1975)

Carequinha

O outro lado da rua (2004)

Bela e melancólica fotografia do filme inspirada nas pinturas de Edward Hopper

Bela e melancólica fotografia do filme inspirada nas pinturas de Edward Hopper

Clássico de Hitchcock filmado em 1954, Janela indiscreta – uma das minhas fitas preferidas dirigida pelo mestre do suspense – já rendeu várias homenagens no cinema e serviu de prisma para outros trabalhos nas telonas.O outro lado da rua, estreia do roteirista Marcos Bernstein como diretor, é um deles. Lembro que na época do lançamento do filme a crítica especializada descascou o filme e eu fui um dos únicos que saí em defesa desse drama de suspense intimista melancólico.

Na trama, Fernanda Montenegro é Regina, uma viúva solitária que amarga a solidão depois de uma separação traumática e relação ruidosa com o filho, pai do neto que uma das fontes de sua alegria. A outra é, na aparente falta do que fazer, passar o tempo bisbilhotando a vida alheia da janela do seu apartamento. Binóculos em punho ela tem lugar cativo e estratégico na varanda principal da sala e assim vai levando as coisas até que um dia vê algo suspeito do outro lado da rua.

É o ponto de partida para o espectador descobrir mais detalhes da vida dupla que leva com o codinome de Branca de Neve, alcaguete oficial da polícia. “Eu acredito nas coisas que vejo”, diz orgulhosa.

Mas aos poucos ela percebe que o juiz aposentado Camargo (Raul Cortez), de suspeito deO outro lado da rua um crime passa a vítima de um erro e é desse impasse que nasce uma relação afetiva que coloca em evidência o amor na terceira idade. “O homem envelhece melhor”, observa ela, com certo amargor no ar.

A narrativa leve construída sob finas camadas de delicadeza encontra ressonância na melancólica fotografia que tem na obra do pintor norte-americano Edward Hopper – um dos meus heróis das artes-plásticas -, como referência. É ela que, assim como nas pinturas do artista, irá acentuar o clima de desolação e solidão dos personagens. Sobretudo de dona Regina, uma senhora amarga que o tempo todo tenta fingir que as coisas estão bem.

Do ponto de vista da encenação e atuação o filme realça a situação de abandono da personagem em dois momentos marcantes do filme. Um, quando ela desesperada, depois de presenciar um assalto, pega o celular e desabafa ligando para o fixo de casa, conversando com o seu próprio fantasma. O outro, em sequência icônica, quando o diretor imagina a solidão que ela vive a colocando, sozinha, no meio do nada de uma rua deserta de Copacabana. Uma cena que foi realizada numa rápida manhã de feriado na Cidade Maravilhosa.

Daí vem a cena de amor entre os protagonistas que me levou, imediatamente, à passagem do clássico do Cinema Novo, Chuvas de verão(1978) do mestre Cacá Diegues, quando os atores Jofre Soares e Miriam Rios rolam no chão nus, crivados de paixão. Como se vê, na há idade para o desejo.

* Este texto foi escrito ao som de: Let it Bleed (The Rolling Stones – 1969)

Lei it bleed

Lady Sweet – Musa da delicadeza

Perdi o sono ontem imaginando seu cheiro, tentando sentir seu calor, ouvir sua voz em minha imaginação...

Perdi o sono ontem imaginando seu cheiro, tentando ouvir sua voz em minha imaginação…

Ela é a musa dos meus pensamentos dia e noite com seu sorriso mágico e jeito delicado de ser. A garota que aplaca minhas angustias cotidianas, meus desesperos mais insanos só por existir. Mas nem sempre foi assim. Demorei um bom tempo para perceber que por trás daquela beleza de princesa da Disney, existia algo mais especial, um mundo de gentileza sem igual que eu não imaginava existir e que hoje é minha mais incessante fonte de vida. É nela que me inspiro para seguir a vida com um pouco de sabedoria e paciência, é ela a inspiração para eu ser uma pessoa melhor.

Ontem perdi o sono pensando nela. Imaginando seu cheiro, tentando sentir seu calor, ouvir sua voz em minha imaginação. E acredite, ela tem uma voz de veludo, uma voz doce de nuvem, de carícia e sonho que faz qualquer ser humano acreditar que a vida vale à pena, mesmo quando não vale à pena. Três, quatro horas da manhã e a insônia me castigava sem piedade, mas viver a vida inteira acordado pensando nela não é um castigo, mas um deleite dos deuses. Pudera todas as maldições do coração ser assim. Viver eternamente pensando em sua amada.

Delicadeza 3Como naquela canção de Scott Walker, ela é uma “duquesa com o mar persa correndo em suas veias”, a estrela da manhã e da noite brilhando em seus olhos e um feitiço de encanto e doçura esparramado num sorriso que é um lago de ternura. Gosto da maçã saliente de seu rosto, das duas pintas cheias de mistérios que ladeiam sua boca, do rubro caminho de seus lábios finos, dos olhos languidos carregados de meiguice. E é isso. Ela tem o dom da ternura em todos os seus traços e nem se dá conta disso, talvez anestesiada pela espontaneidade das verdadeiras musas. Desejava eu ter o talento de um daqueles pintores renascentistas só para imortalizar o seu sorriso mágico em uma obra de arte, transformar sua beleza numa obra-prima.

Mas eu sei que uma parte de mim é sombra e solidão. Porque ela está distante e, por direito, nos braços de outra pessoa. Alguém que a enlaça em seus braços todos os dias, como se ela fosse um jardim de rosas feito de carne e osso. E beija o néctar de sua boca como se ele fosse o elixir da eterna vida. Porque estar ao lado dela é ser eterno e inatingível. Mas outra parte é esperança e desejo. Desejo de um dia abraçar sua alma, me embriagar na saliva dos seus beijos. “Você nem sempre consegue tudo o que quer/Mas se você tentar, às vezes você consegue o que precisa”. (Jagger/Richards).

Lady Sweet transitava como a mulher-gato toda de preto e cabelos claros no meio da multidão. Sorriso mágico no rosto e uma áurea de delicadeza que até hoje me faz sentir como se existisse uma borboleta batendo asas dentro do meu peito e fazendo cócegas… E essa sensação tão boa que brinca lá dentro de mim me faz sentir como se eu fosse uma anjo da felicidade e alegria, mesmo quando muita coisa ao redor é cinza e triste…

 * Este texto foi escrito ao som de: Scott (Scott Walker – 1969)

Scott 4.1

Paul McCartney debaixo d’água é ainda melhor

Depois que vi a garota de sorriso mágico, tudo no show começou a melhorar

Depois que vi a garota de sorriso mágico, tudo no show começou a melhorar

O atraso de uma hora de Paul McCartney no primeiro show do artista em Brasília, realizado ontem (23/11), no Estádio Mané Garrincha, quase me tirou do sério, ainda mais vindo de um autêntico cidadão britânico. Mas com certeza deve ter sido por causa da chuva ou alguma burocracia da produção local, ou seja, o pessoal ligado à Arena. Enfim, com o toró que estava caindo, o que todos queriam mesmo era que a apresentação começasse logo, mas quando isso aconteceu, mesmo depois de tensas vaias, foi uma festa. E com Paul debaixo d’água foi ainda melhor. É como naquela clássica canção dos Beatles de 1967: “Eu admito que está ficando melhor”.

E para aqueles que estavam vendo o ex-beatle pela primeira vez na vida então foi uma apoteose de emoção. Tinha uma menina atrás de mim, uma adolescente que quando nasceu os meninos de Liverpool já estavam separados há tempos, que chorava copiosamente. Só me restava ser solidário em meu silêncio de fã, já que um dia eu também fui assim.

Simpático, carismático e profissional, mesmo depois do atraso vergonhoso e das vaias constrangedoras o artista não perdeu o rebolado e brincou o tempo todo com a plateia, elogiando beleza da cidade. “Vocês moram numa cidade bonita”, disse.Mulher-Gato

Marinheiro de terceira viagem, confesso que achei a primeira metade do show entediante, morno até, com dois ou três momentos empolgantes, com Paul cantando Let me roll it e Band on the run, só melhorando mesmo, depois que o ex-beatle começou a emendar uma sequência esmagadora de hits daquela que foi a melhor e maior banda de rock de todos os tempos.

Foi quando, atravessando o público, com o sorriso mágico estampado no rosto, vi a garota dos meus sonhos toda de preto e cabelos claros, parecendo a Mulher-Gato ou a Batgirl, com seu charme de musa da renascença. As pernas bambearam, acho até que o coração parou de bater por um instante e talvez por isso mesmo que não tive coragem de aproximar e roubar-lhe um abraço, quem sabe um beijo de recordação, ao som de Live and let die ou Hey Jude.

Dali em diante, como naquela velha canção dos Beatles de 67, admito que tudo pareceu ter ficado melhor: a chuva fria, o atraso que já era coisa do passado, as mesmas piadas e teatrinho dos músicos dos shows passados, o repertório saudosista marcado por canções icônicas que fizeram minha adolescência e de milhares de pessoas que ali estavam. Inclusive da minha gatinha de eterno sorriso mágico. Tão mágico quanto uma canção de Paul McCartney, uma canção dos Beatles.

* Este texto foi escrito ao som de: Let it Be (The Beatles – 1970)

Let it be

Diretores – Akira Kurosawa

O cineasta japonês conquistou os olhos do Ocidente para a filmografia asiática

O cineasta japonês conquistou os olhos do Ocidente para a filmografia asiática

A figura do Samurai no cinema japonês é o equivalente ao caubói no faroeste americano. Um personagem milenar imortalizado nas telas com dignidade pelo cineasta japonês Akira Kurosawa, um dos grandes nomes do gênero responsável por colocar o cinema asiático no circuito ocidental. A beleza visual e plástica de seus filmes, mesmo realizados em preto e branco, é uma marca exuberante da trajetória do diretor que começou a carreira nos anos 40, construindo a partir daí uma filmografia que abarcaria mais de 30 filmes. Cinco deles comentados humildemente aqui.

O auge da carreira seria com o espetacular Rashomon, clássico 1950 premiado no Festival de Veneza em 1951, assombrando não apenas a crítica japonesa, mas também o mundo cinematográfico internacional, que desconhecia por completo, até então, a força simbólica e narrativa empolgante dos filmes japoneses de época.

Respeitado mundo afora, o diretor, que tinha como grande paixão a pintura e chegou a ganhar a vida como ilustrador, veja você, tentaria suicídio no início dos anos 70 por falta de trabalho. “Acho que para saber o que aconteceu comigo depois de Rashomon o procedimento mais razoável seria me procurar-me nos personagens dos filmes que rodei (desde então)”, chegou a dizer certa vez.

Curioso que meu interesse pelo cineasta japonês nasceu de um equívoco cinematográfico. Na ilusão de que o faroeste, Sete homens e um destino, teria inspirado Kurosawa a dirigir uma de suas obras-primas, Os sete samurais. Quando na verdade, foi justamente o contrário. Inpirando John Sturges a fazer seu filme seis anos mais tarde.

Os sete samuraisTop Five – Akira Kurosawa

Dersu Usala (1975) – A primeira vez que vi essa comovente fita foi num festival de cinema da saudosa Academia de Tênis e deixei a sala com os olhos marejados. Não é apenas uma das mais belas histórias de amizade já retratada no cinema, mas um impactante ensaio humanista em defesa do homem naturalmente bom. A fotografia hipnótica do filme, com as belas paisagens da Rússia é um show à parte.

Sonhos (1990) – Talvez o mais pessoal dos trabalhos do diretor, nesse filme de episódios o diretor exorciza seus fantasmas de infância e traumas de toda uma vida com histórias reflexivas e humanistas. O ponto alto traz o diretor Martin Scorsese bem à vontade na pele do pintor holandês Vincent Van Gogh.

Ran (1985) – Ao adaptar Shakespeare (no caso aqui Rei Lear) para o Japão dos samurais o diretor não apenas reinventa o gênero que ajudou a consagrar nas telas, como sua própria carreira. A fotografia, elevada a status de pintura, é uma das protagonistas das belas cenas de batalhas da fita.

Os sete samurais (1954) – Influenciado pelos épicos de John Ford, Kurosawa conta aqui a história de sete ronins que são contratados para proteger uma vila de camponeses. Apesar de demasiadamente longo, o filme é diversão pura, com atuação impecável do ator-fetiche do diretor, Toshiro Mifume.

Rashomon (1950) – A história de um assassinato e estupro narrado pela ótica de quatro pessoas rendeu a Kurosawa o reconhecimento internacional. Um primor de engenharia narrativa inspirada pelas vanguardas francesas, o filme inspiraria diretores como Quentin Tarantino.

* Este texto foi escrito ao som de: A rush of blood to the head (Coldplay – 2002)

A rush blood

Paul McCartney: anatomia de um show

Foi dela a primeira voz de um Beatle que ouvi e cantando logo "Hey Jude"

Foi dela a primeira voz de um Beatle que ouvi e cantando logo “Hey Jude”

Por que ir ao show do Paul McCartney amanhã em Brasília? Ora bolas, por que simplesmente é um estado de espírito, um momento de graça. É como se você tivesse morrido e ido para o céu, se existisse um paraíso. E falo isso de experiência própria, com a bagagem de quem já foi em duas apresentações do artista. Uma em São Paulo, outra em Goiânia. Nas duas chorei horrores, mas deixei o show com a alma leve, quase levitando.

Aos 72 anos, Paul McCartney ainda é uma lenda do rock, ex-integrante da banda mais popular e querida do planeta e autor de letras e canções apaixonantes que flertam com jazz, vaudeville, cabaret, pop sofisticado, pequenas peças clássicas e mais qualquer coisa que você queira associar. E eu sei, eu sei, já disse isso aqui zilhões de vezes, mas repito mais uma vez para reforçar: ele, Paul, é o meu beatle preferido, sempre foi. O mais bonito, o mais talentoso e o mais melódico. Confessando uma coisa para vocês, foi a primeira voz que ouvi do fab four. Sei lá, eu deveria ter uns 11, 12 anos e simplesmente congelei quando ouvi pela primeira vez Hey Jude. Era como se um anjo tivesse tocado em meu coração. E foi mesmo, um anjo chamado Paul McCartney.

Aliás, por falar em anjos, vá ao show como se estivesse indo a um templo rezar e ouça canções como Hey Jude, The long and winding road, Let it be e Maybe I’m amazing como se fossem orações. Garanto que sua alma vai levitar. Ok, confesso que o set list não mudou muito das últimas apresentações que vi. Whatever! Só o fato de ver o cara bem ali na sua frente, perto de você, já é uma sundae. Sem falar da energia positiva que emana do lugar ao longo das 39 canções que o cara canta no palco.Out there!

O nome da turnê, Out there!, com quase 3h de duração, é tirado da canção Everybody out there, uma das músicas de seu mais recente álbum New, cuja faixa título e mais outras duas canções, fazem parte do show. Daí vem os clássicos da carreira solo como a charmosa Listen to what man Said, a grudenta Let me roll it e a épica Band on the run, ambas do formidável álbum homônimo de 1973. Também a pérola Live and let die trilha icônica de uma das aventuras de James Bond, e delícias como Hi, hi, hi e Here today, um relicário de 1982 escrito em homenagem ao amigo John Lennon.

Daí meu chapa, é correr para o abraço porque são 25 canções mágicas dos Beatles, começando com a alegre Eight days a week e terminando com a esmagadora sequência de três hits que finalizam o álbum Abbey road: Golden slumbers, Carry that weight e The end. Nada mal para quem se recusava a cantar canções de sua antiga banda nas turnês que fazia nos anos 70, não é verdade?

No meio do caminho surpresas como something e Back in the U.S.S.R.. A primeira, um dos maiores sucessos escritos por George Harrison. A segunda, clássico da dupla Lennon & McCartney cantada por Ringo Starr no Álbum branco como um recalque do bem das canções dos meninos da Califórnia, The Beach Boys. Também a psicodélica, Being for the Benefit of Mr. Kite!, música do revolucionário Sgt. Pepper’s (1967) cantada por John Lennon.

Você vai ao show do Paul McCartney amanhã? Então esqueça o mundo e boa sorte!

* Este texto foi escrito ao som de: Uma miscelânea de canções cantadas por Paul McCartney (1962 – 2014)

McCartney 2

Uma nova chance para amar (2014)

No filme Ed Harris e Annette Bening tentam preencher o vazio da vida explorando amor maduro

No filme, Ed Harris e Annette Bening tentam preencher o vazio da vida explorando amor maduro

Em cartaz no Libert Mall, esse drama intimista é um daqueles filmes despretensiosos e, aparentemente pequenos, quando damos uma olhada no cartaz, mas que na verdade promovem grandes revoluções dentro de nós quando deixamos a sessão. É a história de Nikki (Annette Bening), uma decoradora que tenta curar a dor da perda do marido arquiteto (Ed Harris), morto afogado, após uma viagem ao México realizada cinco anos atrás.

Sozinha, na mansão que ele desenhou para ela com piscina que só o vizinho Roger (Robin Williams, em um de seus últimos papeis) usa, Nikki tenta se esquivar do passado, mas cada canto da casa ou tudo que ela a faz lembrar os momentos em que passou ao lado do grande amor de sua vida. Um dia, após uma visita ao museu, ela esbarra com um sósia de seu marido e uma esperança pulsa em seu peito.

Ed harris 2Ele é Garrett (mais uma vez Ed Harris), um pintor californiano divorciado e descolado que agora dá aulas de arte na universidade. Desimpedido, bonitão, ele não tem nada a perder ao se envolver com uma mulher charmosa e atraente como Nikki, não fosse esse relacionamento uma cilada-segredo que ela esconde e ele, ingênuo e perdidamente apaixonado, nem se dar conta de que está envolvido. “Eu estive procurando por você a vida inteira e não quero deixar você ir embora”, se declara com os olhos brilhando.

Com sua narrativa enxuta, Uma nova chance para amar envolve o espectador do começo ao fim ao mostrar esse amor maduro, mesmo que de “mentira”, de duas pessoas que tentam preencher o vazio com que leva a vida. Mas o preço que eles têm que pagar é bem alto, tanto do ponto de vista sentimental, quanto moral.

Confesso que desde Beleza americana que não via um trabalho tão marcante da atriz Annette Bening, muito charmosa em cena como uma mulher sofrida em busca de nova perspectiva. E por falar em charme, o sessentão Ed Harris, que em outros verões viveu o pintor Jackson Pollock, em atuação impecável por sinal, é a alma do filme em papel duplo. Uma pena que um ator de talento tão expressivo como ele, raras exceções, sempre tenha feito personagens secundários. Além de um amante encantador, o seu Garrett é daquelas figuras que adoramos nos apaixonar pela rebeldia ingênua com que leva a vida.

Já apresentando um olhar melancólico que denunciaria sua depressão com desfecho trágico, o astro Robin Williams faz um papel menor na pele de um amigo também viúvo que não tem seu amor correspondido pela vizinha.

O final, uma surpresa que o espectador terá que descobrir e deleitar sozinho, eu não sei por que, me fez lembrar aquela melancolia que paira nos quadros do norte-americano Edward Hopper (1882 – 1967), um dos meus pintores prediletos.

* Este texto foi escrito ao som de: Hourglass (James Taylor – 1997)

James Taylor - Hourglass

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