Physical Graffiti (1975)

Com o álbum 40rentão o Led Zeppelin se consolidou de vez como a maior banda de rock pesado

Com o álbum o Led Zeppelin se consolidou como a maior banda de rock pesado

Outro dia saí do interior de Goiás rumo a Brasília e, num percurso de 150 km, gastei exatamente o tempo de um disco do Led Zeppelin. Qual álbum? Physical Graffiti, claro, o formidável registro duplo da banda inglesa que neste início de ano completa 40 anos de estrada. E já vou dizendo que confesso que demorei muito tempo para digerir esse trabalho. Acho que fiquei um pouco assustado com sua diversidade, grandiosidade e riqueza sonora, que fugia um pouco daquela unidade dos três primeiros discos do grupo e do clássico, Led Zeppelin 4, o que tem Stairway to heaven. Physical Graffiti lembra um pouco o álbum Branco dos Beatles. Com a diferença de ser um álbum duplo com quatro bolachões cheio de mistério.

A capa é a mais urbana e obscura de todas já realizada pelos quatro integrantes, com suas mensagens cifradas e referências à cultura indiana, ocultismo e tudo o mais. Quer ver? Se você olhar bem, irá notar na fachada do edifício St. Mark’s Place (Nova York), meio que num jogo de amarelinha, palavras como Pig e Graf, essa última, uma referência às aeronaves do início do século 20. O que eles quiseram dizer com isso não tenho a menor ideia.

Um sucesso de crítica e público que ao longo dos anos virou objeto de culto não apenas entre fãs apaixonados, mas especialistas, Physical Graffiti, como toda obra-prima, emergiu do caos. Na época todos os integrantes estavam mergulhados em seus vícios e alguns amargavam tragédias pessoais, como o vocalista Robert Plant, que perdeu o filho de cinco anos vítima de uma rara infecção de estômago.

Physical GraffitiO disco começou a nascer com a composição de oito longas canções gravadas após o sucesso de House of the Holy (1973). Sete outras faixas vieram de sobras de trabalhos anteriores e o resto é história.

A magnitude dos arranjos espanta em faixas como Kashmir e a mística In the light, evocando instrumentos indianos e sonoridade macabra. “E se você sentir que não pode continuar/Sob a luz você encontrará o caminho/(…) Todo mundo precisa da luz”, canta Robert Plant com voz distorcida.

Na crua Bron-Yr-Aur, Jimmy Page exibe seu virtuosismo de violonista folk da maneira mais simples possível. A violência singela de In my time of dying, turbinada por guitarras distorcidas e bateria forte, é um passeio pessoal sobre o tema da morte cheio de evocações bíblicas. “Quando minha hora chegar/Não quero ninguém de luto/Só o que quero que faça é que levem o meu corpo para casa”, diz um dos trechos.

Contudo, a faixa que mais mexe comigo não tem nada a ver com o estilo explosivo condensado pela banda, a viajante, Down by the seaside, com seus falsetes gostosos e órgão retro. Nela é nítido o flerte da banda que consolidou o estilo hard rock com o rock progressivo, por exemplo. Em Trampled under foot John Paul Jones, o mais músico dos quatro integrantes, dá um aceno simpático ao vibrante som da Motown, prestando homenagem ao ídolo Stevie Wonder.

É por tudo isso que estou esperando ansioso o lançamento, aqui no Brasil, de uma edição especial do álbum trazendo, entre outras coisas, um disco só de extras.

Uma pena que, após esse tour de force, a banda começou a perder a força, parando de vez com a trágica morte do baterista John Bonham, em 1980, após se afogar em seu próprio vômito. Como diz o trecho de uma das letras mais famosas do rock. “Nem tudo que brilha é ouro.”

* Este texto foi escrito ao som de: Physical Graffiti (Led Zeppelin – 1975)

Physical Graffiti 2

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Musas do cinema – Simone Spoladore

A atriz em cena clássica de "Lavoura Arcaica", sua estreia num longa-metragem...

A atriz em cena clássica de “Lavoura Arcaica”, sua estreia num longa-metragem…

Foi durante os bastidores de uma edição do Festival de Brasília. De repente, após alguns drinks, lá estava eu nos braços da Simone Spoladore, bailando na frente de todo mundo. Nervoso, pisei em seus pés de princesa da Disney algumas vezes. Por um momento, achei que estivesse sonhando, mas no dia seguinte, ao abri minha edição da Cosac Naify de Esperando Godot, do Samuel Beckett, lá estava uma dedicatória singela dela para mim. Até hoje, quando me lembro disso tudo, dá um click aqui dentro do meu coração. Da última vez que a vi em Brasília, de cabelo curtinho e louro, também senti um click em meu coração. De modo que, se tenho uma musa no cinema brasileiro ela se chama Simone Spoladore.

Pele alva, olhos de ressaca, lábios delicados e aquela áurea meio blasé de atriz européia. Foi assim que essa atriz curitibana de 35 anos conquistou meu coração. E a primeira vez que a vi no cinema foi justamente bailando feericamente nos minutos iniciais de Lavoura arcaica (2001). Depois me encantei por ela na minissérie, Os Maias, adaptação de Eça de Queiroz no qual ela faz a lasciva cortesã Maria Monforte.

Uma atriz de princípios, Simone Spoladore não é um rosto fácil na televisão, isso porque, avessa ao glamour, prefere privilegiar os instintos profissionais ao sucesso. “O bom ator também está nas escolhas que faz”, disse certa vez.

O que ela gosta de fazer mesmo é cinema, mas como boa curitibana que é, foi no teatro que a atriz começou a carreira e é lá que ela, volta e meia, se realiza como profissional. O primeiro papel foi aos 16 anos, interpretando uma adolescente pervertida na comédia Meno male, de Juca de Oliveira. A consagração aconteceu atuando em peças do ousado diretor e amigo, Felipe Hirsch.

Sensível e inteligente, ela já revelou algumas vezes que a personagem dos sonhos é Ofélia, de Hamlet. Acho que tem tudo a ver não apenas com sua beleza clássica, mas também com espírito inquieto e ousado da atriz.

Top Five – Simone SpoladoreDesmundo

Lavoura arcaica (2001) – A atriz estreou em longas-metragens com o pé direito, na pela de uma filha de imigrantes libaneses que tem uma relação incestuosa com o irmão na elegante adaptação da obra homônima de Raduar Nassar pelo diretor Luiz Fernando Carvalho. É deliciosa a forma com que ela mescla ingenuidade e lasciva num mesmo personagem.

Desmundo (2003) – A melancolia dos olhos languidos da atriz explode o tempo todo na tela aqui ao encarnar a sofrida personagem Oribela, uma órfã portuguesa obrigada a casar com o colono Francisco de Alburquerque.

Alice (2005) – Curta-metragem dirigido por Rafael Gomes, o filme narra os desencontros sentimentais e afetivos de dois namorados em meio às agruras e distâncias de uma grande metrópole. A atriz forma um belo par com o talentoso ator Fernando Alves Pinto.

Insolação (2009) – Dirigido por Felipe Hirsch, colega de teatro da atriz, o filme, que se passa em Brasília, é baseado em vários contos russos e narra o desespero amoroso de personagens desolados e sufocados por estranha sensação febril. Um deles é Lúcia, a personagem da atriz.

Nove crônicas para um coração aos berros (2010) – No filme de episódios do brasiliense Gustavo Galvão ela é uma prostituta em conflito com a profissão. Uma delícia de ver o contraste dos traços singelos da atriz e as belas curvas de seu corpo.

* Este texto foi escrito ao som de: Odessa (Bee Gees – 1969)

Odessa

A vida como ela é…

Uma desilusão amorosa pode ter motivado o co-piloto alemão ter feito o que fez...

Uma desilusão amorosa pode ter motivado o co-piloto alemão ter feito o que fez…

O jornalista Samuel Wainer meio que inventou o Nelson Rodrigues do jeito que a gente o conhece. Mas antes disso, ele havia reinventado a imprensa no Brasil nos anos 50 com o revolucionário jornal A última hora, dando um sopro de ousadia e Inteligência ao segmento. Foi ele, por exemplo, quem sugeriu ao cronista e dramaturgo que escrevesse uma coluna diária baseada em fatos trágicos da vida tiradas dos noticiários, dando inclusive o nome que ilustra o título desse texto. Nelson Rodrigues sugeriu Atire a primeira pedra, mas prevaleceu, claro, o desejo do chefe.

E assim, durante anos, diariamente lá estava Nelson Rodrigues escandalizando a hipócrita sociedade brasileira com suas histórias bizarras. O triste episódio envolvendo o co-piloto alemão Andreas Lubitz bem que poderia ter sido um daquelas tramas inventadas pelo autor a partir de tragédias do cotidiano. Na última terça-feira (24), o avião da empresa alemã Germanwings em que ele era co-piloto caiu nos Alpes franceses matando 150 pessoas. Há indícios de que o acidente tenha sido provocado deliberadamente pelo jovem piloto.

A vida como ela éDias depois do acontecido, após ouvir especulações sobre o que teria motivado o rapaz a fazer isso, brinquei dizendo que talvez ele tivesse brigado com a namorada e, num surto de desespero e depressão, fez o que fez. Pois bem, parece que Andreas Lubitz estava depressivo e resolveu tirar sua vida e de 150 passageiros porque havia rompido com a noiva recentemente após um relacionamento de sete anos. Ou seja, A vida como ela é…

Gozado, mas lembrei imediatamente de quando levei um fora de um amor platônico que alimentei e queria me suicidar, mas ao invés disso resolvi criar um blog. Ok, a sugestão indireta para a ideia foi da minha analista, mas mesmo assim funcionou. Até porque, seu eu tivesse tirado minha vida, ela não teria dado a menor pelota.

O amor é um sentimento efêmero, passageiro, que pode ser curado com o tempo e tempo, já dizia o poeta Renato Russo, é o melhor dos mercúrios-cromos. Já a vida interrompida é algo irreversível. Ainda mais a vida de 150 pessoas inocentes que não tinha nada a ver com o peixe.

De mais a mais, estou torcendo para que as causas que levaram o co-piloto Andreas Lubitz ter feito o que fez seja outro. E sabe por quê? Porque nenhuma pessoa, nenhum amor não correspondido deve ser fonte motivadora para tamanha tragédia. Ainda mais se for uma bruxa sádica como foi no meu caso. Um pouco de amor próprio não faz mal a ninguém.

* Este texto foi escrito ao som de: Day after Day: live (Badfinger – 1974)

Badfinger

Mapas para as estrelas (2014)

No filme Julianne Moore e Mia Wasikowska são duas almas ligadas pelo fogo

No filme, Julianne Moore e Mia Wasikowska são duas almas ligadas pelo fogo

Não há nada das bizarrices dos seres humanos no drama Mapas para as estrelas que o dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues já não tenha contado em suas histórias. Contudo, o estranho canadense David Cronenberg recheia sua crônica sobre o mundinho fake e fútil de Hollywood escrito por Bruce Wagner (A hora do pesadelo 3) com uma pitada sombria de suspense de horror e cinismo. Daí a presença da vencedora do Oscar de Melhor Atriz deste ano Julianne Moore ganhar um peso a mais de ironia. Aqui ela é Havana Segrand, uma atriz no auge da carreira que tenta exorcizar os fantasmas do passado almejando aquele que será o papel de sua vida, interpretar a própria mãe – morta num incêndio -, nas telonas.

“Sabe o que é inferno? Um mundo sem narcóticos”, debocha o fantasma de sua mãe.

Linda, milionária, solitária, homossexual e meia esquizofrênica, ela vive numa bolha aparte regada a muito cigarros, antidepressivos e ostentação banal. “Nossa, não sei como eu consegui gastar $ 18 mil dólares hoje?”, desabafa fútil para a reprimida Agatha (Mia Wasikowska), sua empregada que, assim como ela, guarda um passado trágico. São duas almas ligadas pelo fogo.

O que Havana não sabe é que Agatha é filha de seu psicoterapeuta almofadinha (John Mapas para as estrelas 2Cusack). Ele fez fortuna vendendo livros de autoajuda, é uma estrela da televisão, mas é incapaz de resolver seus próprios problemas. Um deles é do filho Benjie (Evan Bird), o super astro de uma comédia de sucesso que tem o ego maior do que qualquer estrela de verdade de Hollywood. A filha Agatha, no passado colocou fogo na casa e quase matou toda a família por que não conseguiu se casar, na pré-adolescência, com o irmão.

“Nossa vida é rica, foi refeita com as cinzas que eu deixei”, lhe joga na cara o pai. ““Ninguém entra fortuitamente em nossas vidas. Nós a chamamos”, ensina ele a sua cliente mimada Havana.

A forma natural, quase despojada com que David Cronenberg apresenta esses personagens caóticos é um sundae com gosto amargo. Isso porque há o tempo todo na narrativa um clima de decadência promíscua, maldade humana no ar, mas surge aqui e acolá brechas para certa ingenuidade.  A cena em que Havana Segrand comemora a morte do filho de sua concorrente profissional é de dar asco. “Esses são os piores. Tem que disputar o espelho com eles”, diz amarga, sobre o fato de casar um ator.

O pragmatismo inocente com que o motorista de limusine Jerome Fontana (Robert Pattinson) sonha em alcançar fama e sucesso na carreira de ator é cômico.

“Motoristas de limusine são lobos”, comenta cheia de malícia Havana, que não se furta de um rápido affair com ele no banco de trás do luxuoso carro por puro sadismo.

Conhecido pela morbidez com que encara a realidade que o circunda, o cineasta David Cronenberg mais uma vez aqui dá uma lição de como fazer cinema. Bom cinema, diga-se de passagem. Mais do que isso, o niilismo e falta de crença com que vê o ser humano é um estímulo para levar a vida como se fosse uma piada sem graça.

* Este texto foi escrito ao som de: So long, Bannatyne (The Guess Who – 1971)

The Guess Who

As gravuras religiosas de Rembrandt

A dramaticidade e atmosfera dos traços do artista holandês me emocionam sobremaneira

A dramaticidade e atmosfera dos traços do artista holandês me emocionam muito

Para mim, que não entendo nada de artes plásticas, o pintor holandês Rembrandt van Rijn (1606 – 1669) é o poeta das sombras e da luz, o que os especialistas chamam, liricamente, de chiaroscuro. Posso estar falando uma baita de uma besteira, mas é o que eu sinto quando vejo seus trabalhos, que me dão uma espécie assim de paz de espírito. Isso porque acho que a vida é assim, feita de sombras e luzes.

Ainda me lembro, como se fosse hoje, do meu espanto diante da interpretação sensorial que o cineasta inglês Peter Greenaway fez da pintura, A ronda noturna (1640-42), durante uma visita dele a Porto Alegre no início dos anos 2000. Já conhecia outros trabalhos do mestre holandês, mas até hoje a impressão dessa obra marcante me comove.

E é justamente esse tipo de sentimento, de sensação gostosa que quero voltar a sentir quando for ver a exposição Rembrandt e a figura bíblica, em cartaz a partir de amanhã no Museu Nacional dos Correios. São 78 gravuras do artista, 52 delas sobre temas religiosos. Confesso que não sabia que o pintor holandês havia dedicado tempo e pinceladas evocando imagens de Cristo e da passagem bíblica.

HolandaPintado em 1653, As três cruzes revela influências de mestres como Leonardo da Vinci e Caravaggio. A dramaticidade da cena, do sofrimento de Jesus estão expressos no contraste dos angustiantes riscos e traços sobre luzes e sombras. Baseada no Evangelho de São Mateus, A gravura dos Cem Florins (1648/49), era um daqueles trabalhos do artista que ele tinha carinho particular. A ponto dele, mais tarde, ter comprado a tela de volta na época por 100 floris.

Fugindo do tema religioso, Autorretrato com Saskia (1636) mostra o pintor num autorretrato ao lado da esposa, preconizando, em séculos, a invenção do selfie.

Visitada por quase 30 mil pessoas ao longo de dois meses durante sua temporada carioca, a coleção pertence ao museu sueco de Zorn, localizado na cidade de Mora, e pela primeira vez teve permissão para ser exposta em outro país. Trata-se de uma oportunidade única aos amantes da boa arte.

Vale lembrar que esse estilo de trabalho, ou seja, a gravura, era tido como algo menor no universo das artes e o artista holandês ajudou a popularizar a técnica, dando dramaticidade ao seus temas utilizando água-forte, buril e ponta seca. O resultado visual, a partir do clima atmosférico criado pelos seus desenhos é realmente impressionante.

* Este texto foi escrito ao som de: Five leaves left (Nick Drake – 1969)

Nick Drake

Monty Phyton – O sentido da vida (1983)

A trupe bancando professores e alunos durante uma aula sobre sexo...

A trupe bancando professores e alunos durante uma aula sobre sexo…

Revi o filme outro dia e só me lembrava da cena do restaurante. Aliás, a última vez que vi a fita foi nos meus tempos de universitário e sempre achei que aquele episódio de um Cristo matusquela na cruz fazendo piada de sua triste condição estivesse aqui. Não está. O que prova que não sei nada sobre o grupo cômico inglês Monty Phyton. Pior, descobri que na verdade eu não sou muito fã desse humor escrachado que acabaria sendo muito copiado aqui no Brasil, dando origem a programas como o TV Pirata e a turma do Casseta & Planeta.

De qualquer forma, ainda quero ver Em busca do Cálice Sagrado (1975) e A vida de Brian (1979). Quem sabe esse trecho que me marcou muito esteja em um desses trabalhos. Terceiro filme da trupe, O sentido da vida se resume a esquetes inspirados no formato televisivo das piadas do grupo com temas que vão do nascimento a morte. E, ao contrário do que o título sugere, eles não conseguem explicar o sentido da vida por meio de cenas cômicas e pseudo filosóficas e a ideia é justamente essa.

As sacadas visuais e referências à clássicos do cinema são hilárias, como o início do filme, O sentido da vidaonde uma fachada de um prédio em reforma se transforma num navio em alto mar e funcionários burocratas de uma seguradora, em figurantes do filme Ben-Hur. A crítica aqui é ao capitalismo desenfreado e de como o dinheiro e a ganância, enfim, a burocracia que nos cerca, faz nossa vida intolerante e mais difícil.

Nota-se a estética visual da época. Algumas canções paródias do grupo são norteadas por desenhos e artes gráficas que lembram o filme The Wall do Pink Floyd.

Daí segue para uma série de absurdos e situações surrealistas – marca registrada dos textos do grupo -, sobre o comportamento da sociedade diante de temas como religião, controle de natalidade e sexo. “Culpem a Igreja Católica por não deixar usar aquela coisa de borracha”, diz um protestante, criticando o fato de famílias com filhos numerosos.

Marcado por humor iconoclasta, algumas piadas do grupo beira a grosseria e, bancando o hipócrita, fiquei incomodado como a cena da canção do esperma, por exemplo, com crianças cantando obscenidades. A passagem do restaurante, com um glutão porco vomitando o tempo todo não tem graça nenhuma. Nenhum pouco inteligente.

Não me esqueço de um professor da faculdade grandão e meio bobão tentando explicar uma piada desse filme e eu o achando um tremendo pateta. Pateta foi o que eu senti ser quando vi o filme que não consegui ri de cena nenhuma. E pensar que alguns críticos comparam o humor do grupo ao sucesso musical dos Beatles… Gosto do Terry Gilliam – um dos integrantes da trupe e o único norte-americano -, dirigindo filmes sérios como Os doze macacos.

Há piada para tudo. Basta ter gargalhada.

* Este texto foi escrito ao som de: Foxtrot (Genesis – 1972)

Genesis

Os bastidores da origem de Brasília

Vasco Santos durante visita ao Arquivo Público do DF no início do ano

Vasco Santos, filho do ex-prefeito, durante visita ao Arquivo Público do DF este ano

Quando se fala nos pioneiros de Brasília o nome de Paulo de Tarso Santos quase não é citado. Vem à mente JK, claro, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro e Bernardo Sayão, mas nunca Paulo de Tarso Santos. Na verdade, o grande público nem sabe quem foi essa importante figura política da cidade nascido em Araxá (MG) e radicado em São Paulo. Bem, se você quer conhecer um pouco sobre ele basta ler o livro, Meu amigo Paulo de Tarso. Escrito pelo filho Vasco Santos, a obra, lançada em 2010 pela Documenta Histórica Editora, traça os últimos 55 anos da história de Brasília e da política brasileira a partir da trajetória desse grande político. Uma leitura mais do que recomendada para os 55 anos da nossa cidade.

“Este livro tem três objetivos, (…) um deles é que o povo se lembre de Paulo de Tarso, um home que jamais cedeu à corrupção e sempre defendeu os princípios de justiça, não violência e reconhecimento da capacidade cultural de todos os cidadãos, a ser orientada para o desenvolvimento”, escreve o autor.

Filho de um dos fundadores do Banco Bradesco, Paulo de Tarso se formou e Direto, mas logo entrou para política ao se filiar ao PDC (Partido Democrático Cristão) nos anos 50. A narrativa gostosa de Vasco Santos tem início assim, com a origem da família destrinchando os descendentes com raízes no interior de Minas Gerais e São Paulo, onde foram fundadores da cidade de Marília. Paulo de Tarso abandonou a advocacia e abraçou a política quando um oficial de justiça lhe perguntou se ele podia penhorar um velocípedes.

Bom, mas para quem é da cidade ou como eu, mora aqui há anos, alguns episódios e Paulo de Tarso Santos 3passagens sobre os primórdios de Brasília são deliciosos. Por exemplo, um dos primeiros trabalhos do meu pai foi na administração do hospital Sarah Kubistchek, chamado por ele e os meus primos que ele levou para trabalhar lá de “Pioneiras Sociais”. Mas duvido que ele e os pioneiros que trabalharam lá sabiam porque o “Sarah “era chamado assim.

A razão era porque o sistema de assistência social na cidade começou por iniciativa de um grupo fechado de mulheres que mantinha uma instituição chamada de as “Pioneiras Sociais”. O grupo era liderado pela primeira-dama Sarah Kubitschek e Coracy Pinheiro.

Outra descoberta é que a Festa dos Estados, um encontro muito popular na cidade que, infelizmente, não acontece mais, nasceu de uma vontade de matar a ociosidade de uma primeira-dama, D. Maria Nilse, mulher de Paulo de Tarso. E teve início como uma festa junina, onde, por meio da influência dos parlamentares, se arrecadava donativos e fundos para ações sociais. A ideia foi turbinada por uma quermesse com barracas de cada estado do país.

“A aeronáutica deu uma ajuda inestimável através do recolhimento e transporte dos donativos até Brasília, através do Correio Aéreo Brasileiro”, detalhe Vasco Santos. “Como minha mãe era presidente, presenciei várias reuniões de preparação, onde se organizavam os donativos para serem levados à quermesse. (…) Na barraca de São Paulo conheci o ídolo nacional Eder Jofre, no auge da fama”, recorda.

Político influente que se projetou nacionalmente graças ao apoio que deu a Jânio Quadros, eleito presidente em 1961, Paulo de Tarso transitava com desenvoltura entre gregos e troianos, desafetos e aliados. Quando soube da nomeação de Paulo de Tarso para a prefeitura de Brasília, Israel Pinheiro, outrora presidente da Novacap e primeiro prefeito da nova capital logo o convidou para um jantar. O conterrâneo JK foi mais direto e duro em sua acolhida por meio de um bilhete.

“Vê se não me faz passar vexame”, disse.

* Este texto foi escrito ao som de: Sou (Marcelo Camelo – 2008)

Sou

Os matadores (1997)

Maria Padilha em cena do filme como uma fogosa esposa infiel...

Maria Padilha em cena do filme, bancando uma pistoleira fogosa em cena cheia de erotismo…

O paulista Beto Brant é um dos poucos cineastas do cinema contemporâneo que mexe comigo de forma marcante. Seu cinema visceral e autêntico, como poucos, foge dos clichês temáticos e narrativos do eixo Rio-São Paulo, levando o espectador para viagens geográficas, sociais e sensoriais das mais motivantes. E ele já mostrou a que veio logo de cara, com uma estreia impactante como diretor e roteirista, talvez uma das mais promissoras do cinema nacional dos últimos tempos. Isso foi em 1997, com o faroeste, Os matadores, que tive oportunidade de rever outro dia na Mostra Beto Brant do Canal Brasil.

O filme marca também o início da parceria entre o cineasta e o escritor e jornalista Marçal Aquino, principal roteirista de seus filmes, autor do conto que dá origem a essa história. Na trama, que se passa na fronteira do Brasil com o Paraguai, dois matadores profissionais relembram os feitos de Múcio (Chico Diaz), o pistoleiro mais profissional da região. Um deles é da região é tem experiência de sobra no métier. O outro é um ladrão de carro chinfrim carioca que resolveu dar uns rolés por aquelas bandas e tira onda de machão.

“Você já matou alguém?”, desafia o mais velho, ao mesmo tempo em que relembra os feitos e amizade por Múcio. “Gente nervosa aqui tem vida curta. Lá de onde você veio é assim?”, ironiza, alternando um copo de cerveja com outro de pinga.

A região, como se sabe, é terra de ninguém, onde impera a lei do mais forte. No caso, os Os Matadoresgrandes proprietários de fazendas, gente que movimenta milhões com o agronegócio e também desmatando árvores. Um desses chefes é vivido pelo ótimo ator Adriano Stuart, que também dirigiu filmes e programas dos trapalhões. Ele é casado com a lasciva e linda Helena (Maria Padilha), uma mulher charmosa e fogosa que tem um caso com Múcio, um dos capangas do marido.  A tórrida cena dos dois entre tapas e beijos, na fuga dos amantes, num quarto de hotel é deliciosamente empolgante.

A narrativa de Beto Brant, mesclando flashbacks e o presente, talvez por influência do jornalista Marçal Aquino, é quase documental. Mas tem muito do olhar empírico tanto de Aquino, quanto do diretor Beto Brant. O primeiro, quando jovem, entrou no caminhão do irmão e correu o mundo. Um dos lugares que conheceu foi o cenário do filme. O segundo também viveu uma pequena parte da vida na região. Daí a precisão do registro nas andanças do personagem de Murílio Benício – o bad boy carioca sempre com chiclete na boca -, pelas ruas da fronteira entre os dois países.

A beleza brejeira do lugar se confunde com o caráter rude dos personagens, muito bem construídos dentro de suas contradições. Alfredão, por exemplo, interpretado com perfeição pelo ótimo Wolney de Assis, é aquele sujeito típico que moldou o caráter a partir da aspereza que cerca o lugar. Mas é capaz de fazer de tudo pela família, inclusive de dar sua própria vida, o que ele não precisa fazer, já que deu no pé antes que algum pistoleiro lhe tirasse.

* Este texto foi escrito ao som de: Cabeça dinossauro (Titãs – 1986)

Cabeça dinossauro

Astros do cinema – Burt Lancaster

O ator, no auge da carreira, com seu sorriso cheio de dentes

O ator, com com seu sorriso cheio de dentes, em cena do filme que lhe rendeu um Oscar

Uma das imagens mais belas e impactantes do cinema que guardo em minha memória não está relacionada, diretamente, às telonas. É a do simpático e grandalhão ator norte-americano, Burt Lancaster, estático, como uma estátua grega, com sua figura de Hércules, durante o velório do cineasta Luchino Visconti. A imagem você pode ver nos extras de um dos filmes do mestre italiano lançado pela Versátil Filmes.

Descendentes de irlandeses protestantes que viviam no Harlem Spanish, o nova-iorquino Burt Lancaster, com seus 1,88m, foi um craque do basquete na juventude e começou a carreira como artista fazendo acrobacia pelos circos da vida. Durante a 2ª Guerra Mundial chamou atenção dos produtores de teatro e cinema com seu tipo atlético, sorriso cheio de dentes e carisma ao organizar espetáculos para distrair as tropas.

Dali para Hollywood seria um pulo e foi pulando e fazendo acrobacias em clássicos como O gavião e a flecha (1950) e O pirata sangrento (1952), que o ator fez nome no cinema. Em 1953 causou furor e abalou as estrutura do Código Hays ao rolar com a deliciosa Deborah Kerr no drama pungente, A um passo da eternidade (1953). A consagração viria em 1960, com o Oscar de Melhor Ator pela impactante interpretação no papel de um pastor charlatão que muda de lado tocado não pela fé em Deus, mas no amor.

A independência como astro foi conquistada ao montar uma produtora de cinema em meados dos anos 50, junto com os amigos Harold Hechet e James Hill. O que não o impediu de amargar fracassos, como diretor de filmes, em duas produções. Homem de princípios corretos, em 1966 interrompeu as filmagens de O trem para participar da marcha pelos direitos civis, aquela em que Martin Luther King declama o poema, Eu tive um sonho. Questionado na época, o ator foi contundente numa entrevista.

“Foi-se o tempo em que bastava deixar seus filhos brincar com as crianças negras para ficar em paz com sua própria consciência. Tenho 50 anos. Cheguei muito mais longe. Na vida e na carreira, que jamais ambicionei. Mas só porque triunfei tenho que abandonar o sonho da minha juventude?”, disse.

Homem de caráter dentro e fora das telas.

Top Five – Burt LancasterA um passo da eternidade

Entre deus e o pecado (1960) – Adaptação de obra de Sinclair Lewis pelo diretor Richard Brooks, o filme faz virulenta crítica ao messianismo com que algumas igrejas e líderes manipulam os fiéis. Mas de nada valeria esse olhar contestador, não fosse a impecável e magnânima atuação de Burt Lancaster.

O leopardo (1963) – Reza a lenda que o cineasta Luchino Visconti repudiou a sugestão do nome do ator para o papel do príncipe Salinas, dizendo que não queria saber de nenhum caubói em sua trama épica. Cedeu e não só se surpreendeu com a atuação do ator, como ganhou um amigo para vida inteira. Daí a cena mágica narrada no início deste texto.

A um passo da eternidade (1953) – Nesse drama de guerra do diretor Fred Zinneman, Lancaster é um oficial que tem um caso com a mulher de seu superior numa base militar no Havaí, durante a 2ª Guerra. O filme já valeria por si só pela clássica cena de Lancaster e Deborah Kerr, seminus, aos beijos numa praia, mas também pela densidade psicológica com que expões os frágeis personagens.

Violência e Paixão (1974) – E a amizade entre Visconti e Burt Lancaster foi tão intensa que o ator não vacilou em aceitar o convite do diretor – na época doente e bastante debilitado pela idade -, para interpretar um intelectual gay nesse drama incisivo.

A rosa tatuada (1955) – Mas um texto do dramaturgo Tennessee Williams levado às telonas com sucesso, traz o ator na pele de um caminhoneiro de origem italiana que se apaixona por uma costureira trágica vivida pela intensa atriz Anna Magnani. A química entre os dois astros do cinema é intensa.

* Este texto foi escrito ao som de: Achtung baby (U2 – 1991)

U2 - One