Viver é fácil como os olhos fechados (2013)

No filme Javier Cámara é um professor de inglês que sonha em conhecer John Lennon

No filme Javier Cámara é um professor de inglês que sonha em conhecer John Lennon

Canções salvam vidas. E os Beatles provaram isso. Os Beatles e uma infinidade de artistas e é sobre essa certeza que fala a comédia dramática espanhola Viver é fácil. Aliás, o título é uma brincadeira com uma das músicas mais famosas do fab four e prova que o diretor David Trueba, além de bom contador de histórias, é também beatlemaníaco. E dos doentes.

Madrid, 1966. Antonio (Javier Cámara)) é um professor de inglês que sonha em conhecer os integrantes da banda de maior sucesso no mundo. Um sonho que compartilha com o resto da humanidade. Mas a sorte lhe sorri como um facho de luz quando Lennon, cansado das turnês, decide dar um stop na carreira e bancar o ator no interior da Espanha. Ele é um dos destaques do elenco da comédia, Como ganhei a guerra, de Richard Lester, o mesmo cineasta que dirigiu os meninos de Liverpool em A hard’s days night (1964) e Help! (1965).

“No meu carro se respeita os Beatles”, bronqueia ele com Juanjo (Framcesc Colomer), um jovem que fugiu de casa e procura um novo rumo na estrada.

Ele é um adolescente desajustado em casa em conflito com um pai autoritário. Pior, assim com a bela Belén (Natalia de Molina), também passageira nessa carona delirante, sofre com a opressão do regime do coronel Franco, há décadas no comando do país com mão de ferro. “Não é pelo cabelo. É por tudo”, lamenta ele com a nova amiga. “Nesse país há muita gente com medo”, filosofa Antonio, sem perder o foco. Ou seja, conhecer Lennon.

Simples, comovente sem ser piegas e engraçado na medida certa dos dramas que cercam cada personagem, Viver é fácil é do tipo de filme que ganha a alma do espectador pela sinceridade com que expõe angústias e expectativas universais. Temas como a perda da inocência, o rito de passagem, o medo de encarar os desafios e os próprios medos, a busca pela liberdade, enfim, o ímpeto de não desistir dos sonhos por mais ridículos que eles sejam. E só porque a vida é “alegre e melancólica”, como ensina o protagonista, um loser bonachão solitário com um coração enorme que mal cabe no peito.

John Lennon é quem tinha razão. “Viver é fácil/Com os olho fechados/Tudo o que se ver são mal-entendidos”, imortalizou o beatle em Strawberry Fields Forever.

* Este texto foi escrito ao som de: Magical Mistery Tour (The Beatles – 1967)

Magical Mistery Tour

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Testemunha de acusação (1957)

O brilhante ator Charles Laughton na pele de um advogado doente persistente

O brilhante ator Charles Laughton na pele de um advogado doente persistente

Billy Wilder é um dos meus cineastas preferidos e a razão dessa paixão insana pelo artista está no cinismo realista com que ele encarava a vida. Fosse Billy Wilder o diretor de Os dez mandamentos (1957), iria cobrar pedágio aos judeus para que o “povo de deus” pudesse atravessar o mar vermelho. Rodado em 1957, Testemunha de acusação é uma prova contundente da falta de fé do diretor diante da humanidade.

Baseado em peça de sucesso da dama do teatro Agatha Christie, o filme, indicado a seis Oscars, narra, a princípio, o drama do desempregado Leonard Vole (Tyrone Power), acusado de matar uma viúva ricaça. Seu único álibi é o testemunho da esposa vivida por Marlene Dietrich, uma femme fatale ariana que parece conspirar, por bons motivos, contra o amado que a salvou dos escombros da 2ª Guerra Mundial.

Só vamos saber realmente do que se trata essa ardilosa teia de intrigas imorais e interesses escusos no último minuto do enredo, cheio de reviravoltas, por sinal. Mas, enquanto, isso não acontece, ao longo das quase duas horas de fita nos esbaldamos com a generosa atuação do magnânimo ator inglês Charles Laughton, aqui na pele do advogado doente de defesa da vítima, uma velha raposa dos tribunais. Com seu jeito bonachão, irônico e pragmático de ser, o ator veterano ofusca as estrelas dos astros Tyrone Power e Marlene Dietrich. Aliás, ela faz uma deliciosa dobradinha com a enfermeira zagueirona encarnada pela competente Elsa Lanchester. “Em nossas cortes aceitamos as evidências de testemunhas que só falam búlgaros e que devem ter um intérprete. Aceitamos as evidências de surdos-mudos que não falam, contato que digam a verdade”, ironiza.

Uma daqueles clássicos thrillers de tribunal, o grande charme da narrativa de Testemunha de acusação está no humor amargo e teor cínico que o diretor Billy Wilder empresta o tempo todo ao texto de Agatha Christie, dando assim a sua inconfundível marca. Ou seja, o tempo todo sabemos que foi a autora de clássicos como Assassinato no Expresso Oriente e Morte sobre o nilo, quem escreveu a trama, mas ninguém desconfiaria se dissesse que o texto foi escrito pelo velho Billy. Assim como o brilhante Charles Laughton, uma raposa das telonas.

* Este texto foi escrito ao som de: Eletric Warrior (T-Rex – 1971)

Eletric Warrior

Vandré – O homem que disse não

“A vida não se resume a festivais…”, o artista, durante o fatídico festival.

Um dos meus ídolos de adolescência foi o cantor Geraldo Vandré e, sim, tudo por conta da canção icônica, Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando), hino contra a repressão política nos anos 60. Como militante estudantil sonhava em salvar o mundo das injustiças e arbitrariedades humanas, me sentindo motivado quando ouvia o cantor paraibano de voz tonitruante bradar versos contundentes contra os militares naqueles opressivos anos de chumbo. “Vem vamos embora que esperar não é saber/Quem sabe faz agora não espera acontecer”, diz o refrão potente.

Talvez motivado por essas recordações de adolescente que fui com certa sede ao poço para ler a biografia Vandré – O homem que disse não, do jornalista mineiro, Jorge Fernando dos Santos. Lançada pela Geração Editorial, a obra, evidentemente, não é autorizada pelo artista polêmico e recluso. Mas isso não é problema porque o Gay Talese não conseguiu falar com o Frank Sinatra certa vez, e mesmo assim, rascunhou um perfil belíssimo sobre o grande cantor de belos olhos azuis.

Contudo, o livro deixa um pouco a desejar porque o jornalista Jorge Fernando usa como principal fonte para o seu trabalho outra biografia escrita sobre o ídolo da MPB, o livro Geraldo Vandré: Uma canção interrompida, fruto de dez anos de pesquisa do jornalista, Vitor Nuzzi. O que não configura um problema em si, mas confesso que isso me incomoda um pouco.

Enfim, de qualquer forma, Vandré – O homem que disse não traz impressionante relato sobre a trajetória do artista que ganhou o respeito do grande público e da imprensa especializada por enfrentar sozinho, os militares, apenas com um violão em punho e versos sinceros, para depois sair de cena e nunca mais cantar no Brasil, sumindo literalmente, do mapa.

“Protesto é uma coisa de quem não tem poder”, diria na famosa entrevista com Geneton Moraes Neto, para a GloboNews.

Os bastidores de sua passagem pela televisão e os festivais que cantou são um deleite a parte, assim como a revelação do temperamento difícil do artista que vivia se desentendendo com todo mundo ao seu redor. Um deles o cantor Geraldo Azevedo, então membro do Quarteto Livre, grupo musical que acompanhava o artista em suas apresentações.

Outras passagens relevantes no livro dizem respeito a fuga de Vandré do país, supostamente ajudado por certo capitão do exército. “Quem tirou o Vandré do país foi um oficial do Exército. Um capitão botou ele num jipe e tirou ele do país”, Telé Cardim, uma ex-líder de torcida dos festivais.

No livro, o autor apresenta várias versões para a origem da canção que foi abolida em território nacional por quase 30 anos. Uma delas é de que Caminhando foi a resposta de Vandré a raivosa Revolution dos Beatles. Já o poeta e jornalista Francisco de Assis Angelo escreveu no encarte do CD Nação nordestina, de Zé Ramalho, que o músico se inspirou no movimento das pessoas nas ruas, de cima do prédio da Cinelândia, no Rio. Rascunhada num papel de embrulhar pão, a canção teria sido um desabafo do artista contra os esquerdistas que o acusaram de fazer show na época, para o governador biônico de São Paulo, Abreu Sodré, de quem ele era amigo.

“Acabei de fazer uma música para cantar sozinho. Não sei se vai dar pé”, revelou ele ao jornalista Tárik de Souza e o músico Paulo Cotrim, na mesa do extinto Juão Sebastião Bar.

* Este texto foi escrito ao som de: Pra não dizer que não falei das flores (Geraldo Vandré – 1968)

Vandré 2

Ponte dos espiões (2015)

Novo filme de Steven Spielberg escorrega em patriotismo chorumela...

Novo filme de Steven Spielberg escorrega em patriotismo chorumela…

Pior não é nem falar que o novo filme de Steven Spielberg, Ponte dos espiões, é ruim. Mas que é ruim e foi escrito pela dupla de irmãos, Ethan e Joel Coen, dois dos mais badalados cineastas e roteiristas norte-americanos dos últimos anos. E que por sinal, eu gosto muito. Baseado em história real, o drama gira em torna do advogado James Donovan (Tom Hanks), um profissional correto encarregado de defender os interesses de empresas com problemas, convocado pelo governo dos Estados Unidos para uma missão patriótica em plena Guerra Fria: Defender um espião russo de acordo como manda a constituição de seu país, ou seja, com todos os direitos que ele, como todo cidadão norte-americano, tem.

Acontece que em tempos de guerra acirrada, não fica bem um advogado da nação defendendo o inimigo, mesmo que ele esteja cumprido, eticamente, seu trabalho. Logo irá despertar a ira da sociedade, da imprensa, tendo a integridade física da família ameaçada.

Mas “homem persistente” que é Jim Donovan não vai desistir fácil do caso e recorrerá a Suprema Corte, com o argumento de que seu cliente “comuna” no futuro, poderá ser trocado por prisioneiros norte-americanos, situação previsível na trama.

É quando entra os espiões das pontes em cena, que serão trocados numa Alemanha dividida pelo muro da discórdia. “Qual é o próximo passo quando você não sabe qual é o jogo?”, faz pergunta Abel, o prisioneiro russo dotado de carisma comovente.

Mais uma vez se apegando a sentimentalismo boboca e humanismo hipócrita, Steve Spielberg constrói aqui um enredo em que o patriotismo e ufanista norte-americano vem à tona a reboque de omissões históricas constrangedoras. A falsa bondade norte-americana que ele desenha em suas fitas, com os protagonistas encarnando um superman de carne e osso, não esconde o maniqueísmo boboca em que evidencia a soberania política norte-americana. A cena do julgamento do soldado yankee num tribunal comunista é patética, assim como o tratamento diferenciando dado aos prisioneiros dos dois lados do sistema.

Uma pena porque, esteticamente falando, Ponte dos espiões tem um tratamento visual delicioso de se ver, trazendo bela reconstituição de época e boas atuações, não de Tom Hanks, evidentemente. Aqui, mais uma vez, mais do mesmo.

* Este texto foi escrito ao som de: Throwing Copper (Live – 1994)

Live

Pare o relógio do meu coração

Preciso de pilhas novas, preciso de motivação... Alguém como VOCÊ!!

Preciso de pilhas novas, preciso de motivação… Alguém como VOCÊ!!

Pare o relógio do meu coração, só pra eu ver se há alguém aqui dentro de mim depois que você partiu e me mostrou o caminho do fim. O que aconteceu? Quando o combinado era fugirmos juntos? Eu e você e para bem longe, longe das pessoas ruins, longe de coisas tristes, longe de tudo, só eu e você, enfim, para gente tentar esquecer que a vida já foi foda e insuportável algum dia, mas que agora seria normal, com você aqui perto de mim… Do meu lado…

Para o relógio do meu coração, só pra eu tentar entender o que aconteceu. Se isso que está rolando é de verdade ou um pesadelo meu. Por favor, me ajude, quero viver dentro de uma Jukebox ou em algum lugar no seu coração, que me parece ser quente e confortável de se viver e porque não morrer? Morrissey é quem tinha razão, morrer ao seu lado deve ser uma forma divina de morrer… Algo como uma música imortal dentro da minha cabeça…

Pare o relógio do meu coração, só por um minuto, só por hoje, ou até nunca mais. Só assim eu terei paz, quem sabe algo mais. Como um café do McDonald’s ou o mel dos seus doces lábios escorrendo pela minha boca. Sonhar não custa nada… Para mim utopia é uma forma positiva de encarar a vida, mesmo que distante ou impossível de conseguir o que se quer… VOCÊ!!

Pare o relógio do meu coração… Toc, toc, toc, tem alguém aí? Ou é apenas um fantasma sem lugar para ir? Ontem à noite pensei ter ouvido sua voz, sentido seu cheiro, me aquecido em seu calor, mas quando acordei estava mais frio lá fora que este sol infernal aqui dentro. Às vezes é divertido fantasiar que você é minha e que posso contar contigo, mas a realidade dessa mentira me faz tão mal… Me deixa tão down…

Para o relógio do meu coração, faça isso agora, faça isso já. Porque não consigo falar contigo, não da maneira como eu queria que fosse, como dois grandes amantes, perdidos na insanidade do nosso amor. Isso me deixa desnorteado, sem rumo, sem prumo, sem saber o que fazer. A melhor saída é não existir? E como não existir sem você? Preciso de pilhas novas, preciso de motivação… Alguém como VOCÊ!! Preciso de uma razão para viver… De novo… VOCÊ!!

* Este texto foi escrito ao som de: Ghost stories (Coldplay – 2014)

MilaBlueWingF 2

MilaBlueWingF 2

O vinho perfeito (2013)

Ele era um bancário medíocre que passou a ser um expert na bebida de Baco...

Ele era um bancário medíocre que passou a ser um expert na bebida de Baco…

O clichê aqui é usado quase como um crime, mas vamos lá, se até o Eduardo Cunha segue impunimente por aí… Em cartaz no Libert Mall, O vinho perfeito (2013) é um filme para quem gosta de vinhos e de suspenses, embora a fita de Ferdinando Vicentini Organi não seja nem uma coisa, nem outra. Nem mesmo um crime perfeito, como o trocadilho do título sugere tem. Aliás, até agora não sei sobre o que é a trama, só sei que fui ver o longa-metragem outro dia por conta do bonitão francês Lambert Wilson.

Um bancário medíocre que leva vida banal ao lado da esposa Adele (Giovanna Mezzogiorno), Giovanni (Vincenzo Amato) passa a adquirir dons quase mágicos ao conhecer um misterioso professor (Lambert Wilson). De uma hora para outra ele vira gerente da agência em que trabalha e um expert na bebida de Baco.  A ponto de escrever sobre e participar dos badalados eventos do gênero. Até o dia em que misteriosa e charmosa mulher cruza em seu caminho, fazendo com que seja suspeito de um crime bárbaro.

Mas será que foi ele mesmo quem matou a mulher? Ou tudo não passa de uma alucinação do espectador ou do roteiro confuso? Isso é o que quer saber o investigador da trama e nós que pagamos o ingresso. E O vinho perfeito vale o ingresso? Não.

Apesar da pinta de filme charmoso europeu na linha de qualquer coisa tipo, sei lá, A grande beleza (2013), de Paolo Sorrentino, ou um daqueles registros com Alain Delon dos anos 60, O vinho perfeito se passa por projeto sofisticado do ponto de vista narrativo, cheio de pegadinhas, para ser, nada mais do que uma produção pseudo em tudo. Nem com vontade de tomar vinho eu fiquei. Nenhum problema, porque também não tinha dinheiro. Há…

* Este texto foi escrito ao som de: Chasing yesterday (Noel Gallagher’S High Flying Birds – 2011)

Chasing yesterday

Em qualquer país sério…

Só no Brasil um sujeito patético como o Eduardo Cunha se mantém tanto tempo no poder...

Só no Brasil um sujeito como o Eduardo Cunha se mantém tanto tempo no poder…

Em qualquer país sério o Eduardo Cunha já teria rodado há muito tempo. No entanto, o presidente da Câmara dos Deputados debocha do governo vigente que não tem apoio político e nem respeito do povo, este último, ridicularizado por essa caricatura de imperador romano mimado de Cecil B. DeMille. Sim, porque Eduardo Cunha é uma afronta à sociedade brasileira, que deveria sair às ruas para pedir sua cabeça numa guilhotina imaginária em plena Praça dos Três Poderes e não ele o impeachment da presidente Dilma. Mas não somos a França e nem estamos na Revolução Francesa. Mas no século 21, Brasil, uma republiqueta de merda em algum lugar do hemisfério sul.

Em qualquer país sério a política não se prostituiria em jogos escusos de poder e interesses entre situação e oposição, numa farandola ridícula sem ritmo em que nós, os contribuintes, somos jogados às traças do descaso, enquanto que um deuzinho de araque como esse Eduardo Cunha, se esbalda brincando de príncipe suíço. Nunca o nome de deus foi tão vilipendiado em vão e olha que eu sou ateu e não estou nem aí para Jesus, Maria e a santíssima trindade ou qualquer bobagem do gênero.

Num país sério, escândalos como o do petrolão e do Eduardo Cunha não passariam tanto tempo impunes, os criminosos não zombariam da justiça, nem da sociedade e os culpados já teriam sido devidamente punidos e a dignidade e moral do povo restabelecidos. Mas como fazemos parte de uma nação de hipócritas e covardes morais, nos resta sentar no meio-fio e chorar lágrimas de esguichos.

O dia em que o Brasil virar um país sério a humanidade acaba…

* Este texto foi escrito ao som de: Help! (The Beatles – 1965)

Help

Central do Brasil (1998)

"Central do Brasil" é um projeto especial na trajetória do cinema de retomada...

“Central do Brasil” é um projeto especial na trajetória do cinema de retomada…

Continuo achando que Abril despedaço ainda é o melhor filme de Walter Salles, mas Central do Brasil é um projeto especial não apenas na carreira do cineasta, mas na trajetória do cinema de retomada nacional. Mais do que Cidade de Deus (2002), se querem saber e não tem nada a ver com a indicação da fita para o Oscar. Tem a ver com a grandeza pessoal da história que conquistou o público por algo que nunca deveria deixar de fazer parte das tramas que dançam nas telonas: a simplicidade.

Sozinha na vida, Isadora (Fernanda Montenegro) é uma professora aposentada que sobrevive escrevendo cartas para analfabetos na estação Central do Brasil. Cartas essas que ela escreve e promete colocar no correio para pessoas que, por algum motivo nessa vida torta que carregamos nas costas, estão perdidas em busca de um ente querido, alguém que a distância e os problemas pessoas de naturezas diversas não querem que fiquem juntas.

“Essas cartas ficam anos nesse purgatório”, debocha a melhor amiga e vizinha vivida pela sempre divertida e competente Marília Pêra.

Gente solitária como o pequeno Josué (Vinícius de Oliveira), que mora no Rio de Janeiro com a mãe, sem parentes e amigos, sem eira e nem beira e que sonha em conhecer o pai que nunca viu e vive em algum lugar do sertão nordestino. Mas um dia a mãe morre debaixo de um ônibus e sobra para a amarga, seca e, às vezes má, Isadora, cuidar do menino. O “moleque”, como ela o chama, caiu de paraquedas no seu colo e ela não sabe se o vende por milhares de dólares para um grupo de contrabandistas de crianças ou se perde com ela na estrada em busca do pai.

Ela escolhe então a segunda opção e embarcamos assim num road movie cercado de descobertas dolorosas, realistas e porque não humanistas. “Minha mulher é a estrada. Eu não tenho família”, diz um caminhoneiro com que a dupla de desajustados pega carona rumo ao destino incerto.

Escrito por Marcos Bernstein e João Emanuel Carneiro – hoje novelista de sucesso -, Central do Brasil fala, entre outras coisas, sobre a descoberta do outro. Do pai ausente que nunca será encontrado, dos irmãos de Josué que ele nem imaginava que existiam, dessa figura estranha e sobrevivente que é Isadora. Uma ilha de mistério e surpresa vagando sem rumo nesse mar de incerteza que é a vida.

* Este texto foi escrito ao som de: Construção (Chico Buarque – 1970)

 Construção - Chico Buarque

Kraftwerk – Publikation

David Bowie, fã da banda alemã em Berlim, nos anos 70...

David Bowie, fã da banda alemã de Krautrock, em Berlim, nos anos 70…

Paris. Anos 70. Depois de se apresentar pela capital francesa, David Bowie e sua corte fecham o nightclub L’Ange Bleu, badalada casa noturna localizada na Champs-Elysées, para mais uma festa privada daquelas. Acompanhado do amigo de farra e palco Iggy Pop – o eterno Stooge -, se esbalda. De repente, se deixa deslumbrar com a chegada de dois convidados. Eram Ralf Hütter e Florian Schneider, integrantes e fundadores da banda alemã de krautrock, Kraftwerk, que foram recebidos por todos no ambiente com um aplauso de cinco minutos em pé. Iggy mal conseguia conter a adoração pela dupla e Bowie se mostrava extasiado.

“Veja como eles são fantásticos”, dizia empolgado o camaleão do rock.

O episódio ilustra o tamanho do prestigio – apesar do status Cult que envergava -, da banda alemã nos anos 70 e Bowie seria um dos primeiros artistas de respeito na cena musical vigente a prestar atenção no som robótico dos caras. A ponto de se deixar influenciar de maneira sintomática, como mostra o álbum de 1977, Low. Mas não apenas a música era notada pelos artistas de vanguarda da época, também a estética apurada da banda e todo um conceito comportamental velado que existia por trás da figura mecânica dos quatros integrantes.

“Nós o conhecemos quando ele tocou em Düsseldorf, em uma de suas primeiras turnês europeias. Ele viajava de Mercedes, e a única coisa que escutou todo o tempo foi Autobahn”, lembraria anos mais tarde Ralf, em depoimento a David Buckley, autor de Kraftwerk – Publikation, biografia da banda lançada recentemente no Brasil pela Seoman.

O responsável por todo esse alvoroço e respeito foi Autobahn, quarto álbum do Kraftwerk lançado em 1974, um divisor de águas na carreira dos meninos de Düsseldorf, o Sgt. Pepper deles, responsável, talvez, por internacionalizar o Krautrock. “Em última análise, o que Autobahn fez foi estabelecer uma separação entre o Kraftwerk e as outras bandas alemãs”, resume o autor. “Para muitos é o primeiro disco a refletir de fato o som do Kraftwerk como ele é hoje mundialmente reconhecido”, continua Buckley.

O clima viajadão da faixa-título que assimila o orgulho alemão por máquinas velozes, além de contagiante sensação de movimento, tempo e espaço faz com que entremos num carro rumo a uma autoestrada, como elucida o título alemão, e correr o mundo. O ritmo das palavras que abre a canção: Wir fahr’n, fahr’n, fahr’n auf der Autobahn – Nós rodamosm rodamos, rodamos pela autoestrada, é chupado do hit dos Beach Boys de 1966, Barbara Ann. “O Kraftwerk estava criando o equivalente alemão ocidental à ‘música de estrada’ californiana”, registra o autor.

Era o jeito alemão de ver, sentir uma vida com sol.

* Este texto foi escrito ao som de: Neu! (Neu – 1975)

Neu

Um amor a cada esquina (2014)

Bogdanovich quebra jejum de filmes de ficção em bom estilo...

Cineasta Peter Bogdanovich quebra jejum de filmes de ficção em bom estilo…

Peter Bogdanovich é um dos grandes nomes da chamada fase “Nova Hollywood”, que teve início em 1969 com Easy Rider, além de ser um dos meus cineastas preferidos. Daí certa indignação da minha parte por um de seus filmes mais recente, Um amor a cada esquina (2014), em cartaz no Libert Mall, não ter tido a divulgação merecida. Whatever, encabeçado pela superestimada Jennifer Aniston e Owen Wilson, o filme é uma daquelas comédias dramáticas de erros e acertos inteligentes e divertidas como há pouco eu não via no cinema. A pegada é Woody Allen, e pode-se dizer que Um amor a cada esquina é Peter Bogdanovich tentando ser o cineasta nova-iorquino. Sorte nossa.

O cenário, claro, Nova Iorque. É ali que vive a prestigiada atriz, Isabella Patterson (Imogen Poots), que conta como, há quatro anos, era uma jovem prostituta que sonhava largar a vida fácil para ser estrela dos palcos e do cinema. Tudo aconteceu num minuto nova-iorquino, ou seja, ela conheceu um jovem ator de teatro (Owen Wilson) que, numa noite de prazer, lhe oferece U$ 30 mil dólares para que ela não se prostitua mais.

“Acho que faço o tipo romântico”, desconversa.

Acontece que Arnold faz uso dessa estratégica romântica sobre dá nozes para esquilos e vice-versa com frequência e casos do passado vão tumultuar seu presente, irritando a esposa e confundindo os colegas da nova peça que tenta dirigir. Sobretudo porque a mocinha que acabou de ganhar o papel principal da montagem é o seu último caso. Pronto, está armado o circo onde encontros e desencontros no melhor estilo das comédias malucas dos anos 30 e 40, as screwball comedies, colocam o tempo todo personagens em situações embaraçosas. A sequência do restaurante é impagável, não tem como não rachar de rir da passagem do motorista de táxi temperamental. “Acho que ele não suportou nossa tensão”, ironiza Arnold.

Conexões inteligentes com clássicos como Bonequinha de luxo – com a eterna Audrey Hepburn -, um roteiro bem amarrado e atuações afinadíssimas de todo o elenco faz dessa trama divertida deliciosa até o último rolo. E quando digo até o último rolo é até o último rolo mesmo. Fã de Alfred Hitchcock, Bogdanovich, que não filmava uma ficção desde 2001, dar o ar de sua graça numa rápida sequência. Só queria saber qual é aquele filme preto e branco que aparece no final.

* Este texto foi escrito ao som de: Trans-Europe Express (Kraftwerk – 1977)

Trans-Europe Express