Os números de 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog. Cerca de 55 mil turistas visitam Liechtenstein todos os anos. Este espaço foi visitado por 230 mil pessoas em 2012… Segue abaixo uma  retrospectiva dos principais posts e números interessantes que ajudaram o luciointhesky.wordpress.com ficar na ativa 365 dias do ano… Obrigado pela atenção e visita de vocês e um ótimo 2013 a todos!

Clique aqui para ver o relatório completo

Videoteca B. (46) As pontes de Madison

Dois amantes e apenas uma ponte como testemunha...

Dois amantes e apenas uma ponte como testemunha…

Quem um dia nunca sonhou em viver um amor de contos de fadas daqueles que durasse para sempre, mesmo que este, “para sempre”, fosse apenas quatro ou cinco dias? Bem, o bom e velho Clint Eastwood provou que isso é possível quando dirigiu o apaixonante, As pontes de Madison, em 1995. E olha que o eterno caubói das nossas matinês já ia lá pela casa dos 60 anos. Nada mal, hein?

Baseado em história homônima escrita por Robert James Waller, o filme gira em torno do amor proibido entre a dona de casa Francesca (Meryl Streep) e o fotógrafo mundano, Robert Kincaid – Eastwood, em uma de suas melhores fases como homem de cinema maduro. É o ano de 1965 e ele é um renomado repórter fotográfico da revista National Geographic perdido no meio do estado do Iowa em busca das famosas pontes cobertas de Madison.

Quis o destino que ele, um homem viajado, calejado e experiente da vida batesse na porta dessa mulher exemplar e prendada, enfim, dedicada ao lar, ao marido e aos filhos de corpo e alma. Do contraste de dois mundos diferentes que eles representam, diluídos em opiniões, estilos de ser e viver díspares, quem poderia imaginar que nasceria dali um amor para vida toda, mesmo que ambos não estivessem necessariamente juntos o resto da vida. E eis aí a magia deste amor impossível e penso que todos os amores impossíveis são mágicos, por isso, eternos, daí minha identificação com essa história meiga e de uma simplicidade emocionante.

“Não quero precisar de você porque não posso ter você”, diz ele, com a sabedoria de quem desejou muitas mulheres e não conseguiu ter nenhuma.

Narrado em flashback, a partir das leituras dos filhos fazem dos diários deixados por nossa heroína, As pontes de Madison arrebata o espectador sensível pela sutileza com que expõe dramas do cotidiano que lidamos todos os dias como o preconceito, a hipocrisia, o medo da opinião alheia e, porque não, do próprio sentimento de libertação ceifado As pontes de Madison 2pela ignorância ou falta de perspectiva. Esse lado repreensivo explode o tempo todo nas telas por meio da pudica Francesca, uma mulher que o tempo todo está se desculpando ou justificando por coisas erradas que não fez e cuja maior ousadia do lar está em tomar uma simples cerveja durante o banho.

“Não estamos fazendo nada de errado. Nada que você não possa contar para os seus filhos”, diz ele, tranquilizador, emendando um discurso fabuloso, tocante, sensível e maduro sobre as divisórias que a sociedade hipócrita impõe diante dos relacionamentos, sejam eles de que tipo for. “Você pode se perder quando viaja muito”, filosofa.

Aos poucos, o que era para ser apenas um pedido de informação se transforma numa tarde de chá, na sequência uma noite de jantar a luz de velas para finalizar numa trepada da vida deles. Assim, do que poderia ser uma linda amizade brota um eterno romance às escondidas e não existe, meu caro, não existe, repito, nada mais belo do que a fuga desenfreada dos amantes.

É bonito de vê-los, por exemplo, conversando sobre as coisas banais da vida, ao redor da mesa de jantar, caminhando ao luar ao som de um bom blues de Dinah Washington ou citando versos de W. B. Yeats. “Tenho a impressão de que tudo que fiz até aqui foi para encontrar você”, declara ele galanteador e arrebatador.

Encantada, deslumbrada, hipnotizada, essa mulher frágil, cujas ambições e sonhos foram encaixotados num estilo de vida medíocre, passa agora fantasiar situações e momentos que, outrora, seriam impossíveis. De modo que o simples perfume da roupa desse desconhecido e estranho invade suas entranhas em forma de pecado e até a mera presença dele no chuveiro ganha traços pecaminosos dentro de sua cabeça provinciana.

“Tudo em Robert Kincaid começava a ganhar um contorno erótico”, confessa ela em seu diário evocando os milagres da pedra de Bolonha.

O final, com aquela chuva torrencial simbólica, como se fosse lágrimas de lamentações por um amor, uma relação não consumada é de cortar o coração. Mas somente os corações daqueles que têm sentimentos à flor da pele e estão dispostos a fazer qualquer coisa por uma grande paixão.

Não sei você meu caro, mas eu faria loucuras por uma grande paixão…

* Este texto foi escrito ao som de: What a diff’rence a day makes! (Dinah Washington – 1959)

Dinah Washington

Tudo sobre cinema nas estantes…

Central do Brasil, filme de Walter Salles lembrado em edição icônica

Central do Brasil, filme de Walter Salles lembrado em edição icônica

É sério, há muito tempo que eu não ganhava um presente tão bacana de uma pessoa tão querida. Digo assim, um presente legal, sincero e especial vindo de uma pessoal legal, sincera como ganhei este fim de ano de uma gatinha especial, que foi o catatau, Tudo sobre cinema. Para falar a verdade, já fazi um tempinho que estava namorando esse livro pelas vitrines da vida e agora o tenho em mãos. Puro êxtase, só para citar o Frejat do Barão Vermelho.

Um lançamento da editora, Sextante, a obra, que traz capa icônica com Al Pacino em cena de O poderoso chefão, é organizada por Philip Kemp e conta com texto de experientes críticos da sétima arte, além de ilustrações soberbas e um glossário pertinente para orientar o leitor com relação aos termos estrangeiros e inerentes à indústria que, em pouco mais de cem anos, revolucionou o mundo, assim como fez a fotografia e hoje a internet.“O cinema é a verdade em 24 quadros por segundos”, já dizia o avant-garde, Jean-Luc Godard.

A obra conta ainda com uma infinidade de curiosidades que irá fazer o deleite de quem aprendeu a amar a arte de Rodolfo Valentino, Charles Chaplin, Orson Welles, Billy Wilder, Robert De Niro e tantos outros.

Como obra de pesquisa rápida, prática e confiável o livro é formidável. Estão ali informações de diferentes momentos do cinema, assim comoas variações radicais sofridas pela arte ao longo dos anos a partir de influências sociais, culturais e econômicas díspares. Tudo disponibilizado de forma cronológica desde os primeiros registros audiovisuais às mais descoladas produções em 3D exibidas nos mais modernos complexos.Tudo sobre cinema

“Será que alguma forma de arte se espalhou tão rapidamente ou de um modo ou de um modo tão universal quanto o cinema?”, pergunta o crítico, historiador de cinema Philip Kemp, na introdução da obra. Difícil de responder.

Ao embarcar numa ligeira viagem pelas páginas de Tudo sobre cinema percebi que o mais bacana de ver no livro são as imagens deslumbrantes de grandes clássicos das telonas. Algumas raras como a do jovem Martin Scorsese e seus atores preferidos, Robert De Niro e Harvey Keitel, nos bastidores do filme de 1973, Caminhos perigosos.

Fora isso, tem o elemento surpresa materializado nas informações de várias produções de países que nem sonhamos um dia ter realizado um longa-metragem, despertando em que tem interesse e curiosidade, a volúpia de conhecer novos olhares na tela.

Reconhecido mundialmente como uma escola importante e criativa, o cinema brasileiro está representado com figuras de peso da nossa seara como o sempre genial e inesquecível Glauber Rocha (1939 – 1981), além dos cineastas da nova safra do cinema nacional. Esses últimos, enquadrados no tomo o novo cinema latino-americano, têm como representantes, Fernando Meirelles, Walter Salles e José Padilha, diretor responsável pela maior bilheteria do país com o seu impactante, Tropa de elite.

Em suma, até quem não gosta de cinema ou nunca prestou atenção direito aos filmes que vão ver nas sessões escuras aboletadas de pipoca e amassos, irá tomar um susto se algum dia tiver a oportunidade de ter em mãos essa obra valiosa.

* Este texto foi escrito ao som de: Time out (The Dave Brubeck Quartet – 1959)

Time out

A origem dos Guardiões

Um herói do folclore anglo-saxão em terras brasileiras...

Um herói do folclore anglo-saxão em terras brasileiras…

E não é que o Natal de 2012 já acabou?! Grande coisa para um sujeito como eu que não está nem aí para o Papai Noel e quer que o espírito natalino exploda. De qualquer forma eu tenho duas sobrinhas e todo fim de ano é aquele teatro em família. O que eu não faço pelas as minhas pequenas…Assim, o Natal para nós três ainda não acabou e outro dia mesmo lá estava eu num desses shoppings da vida me virando em três, quatro, cinco, para dar conta das exigências das duas peraltinhas.

Bom, depois dos presentes, uma foi ver O Hobbit com a coleguinha de inglês e não gostou. Achou longo de mais, não chato, apenas longo demais…

– Tipo assim padrinho, cansativo…

Tudo bem, a guria tem doze anos e já com personalidade de sobra para ter opinião formada sobre quase tudo, o que acho formidável.

Ela gostou mais de A origem dos guardiões, que vimos algumas semanas antes. O mais novo filme da DreamWorks é o grande lançamento de Natal de 2012, então fica em cartaz até o final do ano.  Não sei se gostei, acho que foi por causa dos efeitos em 3D, que acho uma bobagem, uma enganação de marca maior, mas tudo bem porque faz parte da indústria pop toda essa embromação visual e, de qualquer forma, fui para levar minhas sobrinhas.

Também porque os personagens dessa nova aventura natalina me pareceram um tanto quanto desajustados com relação à nossa realidade cultural. Sim, porque alguém aí já viu falar nesse tal de Jack Frost? Sei lá, a primeira vez que ouvi esse nome pensei que fosse algum político norte-americano ou coisa que o valha e quase acertei.

Típico personagem folclórico dos países anglo-saxões, o herói em questões aparece na trama como um dos guardiões da inocência das A origem dos guardiões 3crianças. Descolado, bonitinho, invisível e com o dom de controlar o inverno, ele até lembra o galã das aventuras vampirescas da escritora Stephenie Meyer, aquele quase albino, só que mais frágil, inseguro, já que não entende porque a garotada não o nota quando ele surge do nada no meio delas.

Na verdade, ele não sabe direito porque se encontra nessa condição meio fantasmagórica, até descobrir que seu passado o condena – não porque ele quer – e é apenas uma espécie de anjo da guarda das crianças na época de Natal e a pergunta cretina que faço, de si para si é: Porque só apenas no Natal?

Whatever… O que importa dizer é que, junto com outros guardiões das meninada, não tão populares por aqui, entre eles o Sandman, um gordinho mudo e para lá de fofinho, e a Fada dos Dentes, além, claro, do Coelho da Páscoa e o eterno Papai Noel, eles unem forças para combater o temido Breu, senhor da escuridão e das trevas que, dia e noite, atazana o sono inocente de meninos e meninas com pesadelos medonhos.

Divertido, com piadas maneiras, grande parte delas protagonizadas pelo hilário Coelho da Páscoa que, na versão originial foi dublado por Hugh Jackman, A origem dos guardiões não chega a ser uma empolgação, pelo menos para mim, mas dá conta do recado, sobretudo diante dos peraltinhas de hoje em dia que só querem saber de videogame e outras aventuras cibernéticas que nem sem falar o nome.

Eis aí um dos grandes desafios dos estúdios de Hollywood, ou seja, tirar a garotada da frente da tevê e do computador, que hoje cabe na palma da mão. Mas para mim, ainda me encanta e fascina a ingenuidade das produções da Disney dos primóridos como Branca de Neve e os sete anões e Cinderela, o desenho preferido da minha sobrinha de três anos.

Aliás, um dos elementos de A origem dos Guardiões que remete às clássicas animações americanas é a abordagem moral, aqui materializada na falta de autoestima do personagem central, o “nevento”, Jack Frost. Sei lá, talvez possa seja pura identificação minha.

* Este texto foi escrito ao som de: Madman across the water (Elton John – 1971)

Madman

 

Videoteca Básica (45) Vidas amargas

James Dean na pele do jovem Cal, carente por amor familiar

James Dean na pele do jovem Cal, carente por amor familiar

James Dean nasceu mito. Era lindo, talentoso e transpirava ousadia. Ah, sim e morreu jovem. Aos 24 anos, em 1955, num acidente de carro na Califórnia, a caminho de uma corrida de automóveis que nem chegou a ver. Isso com apenas três filmes nas costas, Juventude transviada (Rebel without a cause – 1955), Assim caminha a humanidade (Giants – 1956) e Vidas amargas (East of Eden – 1954), que escolho para minha videoteca básica.Baseado no épico homônimo escrito por John Steinbeck (1902 – 1968), uma obra literária arrebatadora que está entre os melhores romances que li, o filme, assim como o livro, me fascina pela força da narrativa que agrega elementos bíblicos como inveja, ciúme, hipocrisia, culpa, ressentimentos, o amor não correspondido em todas as suas facetas. Algo, diga-se de passagem, que conheço muito bem.

A trama da fita adaptada para às telas pelo mestre Elia Kazan (Sindicato de ladrões e Uma rua chamada desejo), em 1954, surge aqui apenas como um dos capítulos do título escrito por Steinbeck em 1952, não lembro direito qual, talvez o último, mas, de qualquer forma, que registro arrebatador. Tudo gira em torno do mito do livro do Gênese na desajustada história entre os irmãos Caim e Abel, no cinema, metaforicamente representados pelo correto, Aaron (Richard Davalos) e o rebelde e desnorteado, Caleb (James Dean), em estreia nas telonas de tirar fôlego.

Angustiado, inseguro, rejeitado desde a tenra idade, Cal carrega no sangue o gene do mal, o lado escuro da vida, mas não é assim porque quer, a A leste do édenvida e as circunstâncias o fizeram assim e é contra essas dualidades da vida que ele luta dia e noite. O gênio difícil e intempestivo herdou da mãe (Jo Van Fleet), uma mulher misteriosa que foi embora de casa cedo, farta da hipocrisia do marido (Raymond Massey), o deixando com dois meninos para cuidar à sombra das leis rígidas de Deus.

“Seu pai ainda pensa que está vivendo na Bíblia, né?”, debocha a matriarca desse lar destruído. “Todo filho herda o lado bom e ruim dos pais. Só recebi a parte ruim”, admite Cal, num misto de culpa e rancor.

No meio desse fogo cruzado familiar, está a figura singela e também amargurada da jovem Abra (Julie Harris), namorada de Adam, que não consegue esconder seu afeto e sentimentos com relação aos dois irmãos.

Com roteiro bem amarrado e poderoso escrito por Paul Osborn, Vidas amargas conta com uma narrativa carregada de sutilezas, mas cheia de surpresas desagradáveis. Bem construídos dentro de suas contradições, os personagens do filme mais parecem pesados paquidermes dentro de uma loja de porcelanas, divididos entre o bem e o mal. À medida que a trama caminha para o desfecho, somos envolvidos num turbilhão de revelações e desabafos que nos remetem àquele raciocínio contundente de Nelson Rodrigues.

“Toda família carrega pântanos, cavernas que não convém desenterrar”, duvida?

Cheio de questionamentos morais acerca da frágil condição humana esse drama impactante é um clássico sobre o “paraíso perdido”, sobre os vazios e os caminhos sem rumos, muitos deles sem volta, que o homem toma algum dia na vida. Daí a dubiedade da trama e de seus personagens que escorregam com habilidade entre a faceta escura do mal e a luz falsamente brilhante do bem.

“Não quero mais nenhum tipo de amor. Não compensa. Não tem futuro tudo isso”, diz, com um esgar de razão, o renegado Cal.

Um coração de pedra às vezes não faz mal a ninguém.

* Este texto foi escrito ao som de: The times they are a-changin’ (Bob Dylan – 1964)

Bob Dylan - The time are a-changin'

Os 105 anos de Dona Canô…

Dona Canô acalentada pelos filhos ilustres

Dona Canô acalentada pelos filhos ilustres

E lá se foi Dona Canô, no auge dos seus 105 anos. E a velhinha era uma pessoa tão iluminada, mas tão iluminada que partiu bem no dia de Natal, o que chega ser quase uma coisa sagrada. Mas de qualquer forma ela já era uma pessoa iluminada aqui na terra por ter dado a luz a dois grandes ícones da MPB: Caetano Veloso e Maria Bethânia.

Nascida Claudionor Viana Teles Velloso, em setembro de 1907, Dona Canô, com aquele eterno semblante de matriarca centenária, vó-mãezona, ganhou o apelido famoso de um amigo que não sabia pronunciar seu nome. Mãe de oito filhos, dois deles adotivos, essa figura humana inquestionável e de uma força e lucidez incríveis, entrou para o inconsciente coletivo do povo brasileiro como alguém que emanava sabedoria, mas, sobretudo, candura num rosto que, apesar da idade avançada, lembrava o de uma criança.

Não sei vocês, mas havia uma semelhança física entre ela e a poetisa goiana, Cora Coralina (1889 – 1985), que me emocionava. Sei lá, pode ser uma idiossincrasia minha, mas era uma associação, correlação que sempre me vinha à cabeça.

“Apenas fiquei conhecida por causa de meus dois filhos que nunca se esqueceram de onde vieram nem da mãe que têm”, declarou ela certa vez, referindo-se às raízes baianas de Santo Amaro da Purificação de todos os eles.

Mas com a morte de Dona Canô, fiquei aqui pensando, matutando o seguinte com os meus botões: como o ano de 2012 foi impiedoso Niemeyercom os octogenários, nonagenários e centenários do planeta, não? De Hebe Camargo a Dom Eugênio Salles, passando pelos hollywoodianos, Ernest Borgnine e Gore Vidal, sem deixar de mencionar os intelectuais Carlos Fuentes e Eric Hobsbawm, além dos nossos ícones do humor, Chico Anysio e Millôr Fernandes, não teve jeito, a senhora morte foi impiedosa.

“Eu sempre sei do que estou falando. Tirando isso não sei mais nada”, deixou como reflexão para a humanidade Millôr Fernandes, um expert em cunhar pérolas sobre sua espécie em várias situações. “Da vida só me tiram morto”, esculhambava o mestre das tiradas geniais.

De todas essas perdas, a que mais me sensibilizou, até pela surpresa, apesar de seus 104 anos, foi a morte de Oscar Niemeyer. Isso porque o velhinho, um dos maiores gênios dos traços e dos rabiscos, queria ser eterno. Mas a saudade não será eterna, sem fim porque todas as vezes que andar por Brasília e me deparar com seus marcantes monumentos, irei me lembrar de Oscar Niemeyer.

“A vida é um sopro”, deixou como lição um dos maiores arquitetos do mundo.

É, como provaram todos esses velhinhos formidáveis, a vida, de fato é um sopro. E é por isso que vou ali vivê-la, abraça-la intensamente junto dos meus entes queridos. Mesmo quando eu estiver com vontade de não estar mais aqui…

* Este texto foi escrito ao som de: Abraçaço (Caetano Veloso – 2012)

Caetano Veloso

Natal na roça

“Eu quero uma casa no campo/Onde eu possa tocar meus rocks rurais..."

“Eu quero uma casa no campo/Onde eu possa tocar meus rocks rurais…”

Eu me lembro bem do último Natal que passei na roça. Isso foi há muitos e muitos anos atrás, lá pelas bandas de Buritis, Minas Gerais, onde a família do meu pai tem fazenda. Ou melhor, para falar a verdade não lembro muita coisa nada porque, bebi tanto, mas tanto que dormi num carrinho de mão. Como isso foi acontecer não sei, só se que foi assim que tudo rolou e toda turma gosta de lembrar o episódio com bazófia. Mas como já disse, isso foi há muito tempo atrás, quando eu era um adolescente alcóolatra.

Agora que sou um quase coroa alcóolatra voltei a passar o Natal novamente na roça, mas agora pelas bandas de cá, ali quase chegando em Pirenópolis, numa fazenda na região do Santo Antônio do Rio do Peixe, recanto mais do que tranquilo do vô “Gnelo” e da vó “Neiva”, duas criaturas humanas encantadoras.

E quer saber? Tinha até me esquecido do quanto é bom passar alguns dias no campo e é por isso que, algum dia, eu vou embarcar naquela velha canção setentista da Elis que fala justamente sobre esse estilo de vida telúrico. “Eu quero uma casa no campo/Onde eu possa tocar meus rocks rurais/E tenha somente a certeza/Dos amigos do peito e nada mais”, diz um dos trechos da letra escrita por Zé Rodrix e Tavito.

Fartura na mesa a qualquer hora do dia, a rotina de dormir tarde e acordar cedo com o canto dos galos e o cheiro de merda de vaca no ar, numa sensação proustiana delirante, extasiante, enfim, o jeito simples, caboclo e autêntico do homem da roça com suas raízes Orquídiasfecundas cravadas dentro de si, de levar a vida, tudo isso me emociona.

Tem também as longas caminhadas no meio do mato em busca de orquídeas, com carrapicho prendendo na roupa, mosquitos indecentes voando em nossas fuças, o banho gelado do rio no fundo da sede, com sua água tranquila e misteriosa que não sabemos de onde vem nem para onde vai, tal qual o ser humano, almas tortas, gauches na vida. Tudo isso me impressiona.

A vida no campo é simples, porque a natureza é de uma simplicidade ululante e por isso mesmo agregadora. Daí a sabedoria densa, intensa das palavras do heterônimo de Pessoa, Alberto Caiero, que dizia: “Não acredito em Deus porque nunca o vi/Se ele quisesse que eu acreditasse nele/Sem dúvida que viria falar comigo/(…)Mas se Deus é as flores e as árvores/E os montes e o sol e o luar/Então acredito Nele…” escreve ele no poema Guardador de rebanhos.

Bom, meu Natal este ano foi na roça e a família toda estava lá. Muitos esqueceram suas diferenças e vaidades e curtiram a ceia à luz de vela porque o Papai Noel nos deixou na mão sem energia. Mas tudo bem, sem problema, faz parte do espírito natalino não ter energia no Natal, mas e daí? Para compensar, ganhamos um luar deslumbrante, cheio de estrelas no céu uma delas a do menino Jesus, trazendo em sua cauda brilhante, toda a simbologia que a figura do Cristo Rei nos traz…

Este texto foi escrito ao som de: Elis (Elis Regina – 1972)

Elis 2

Gilberto Gil – La passion sereine

No documentário o foco é a influência afro na música do artista

No documentário o foco é a influência afro na música do artista

Imagine um documentário em que a trajetória do gênio Gilberto Gil é apresentada pelo pequeno gigante Grande Othelo. E que, além disso, o filme narrasse a vida do artista a partir de suas descendências africanas, o situando a partir desse detalhe dentro da nossa cultura. Não se surpreenda, mas este registro existe e se chama Gilberto Gil – La passion sereine. Dirigido em 1987 pela francesa, Ariel de Bigault, para uma série realizada com artistas brasileiros para a televisão de seu país, o filme é uma verdadeira relíquia para os fãs de um dos talentos mais completos do Brasil.

Tive a oportunidade de conhecer esse trabalho a partir do desprendimento de uma pequena notável, gatinha gente fina que garimpou o título numa dessas lojas com cara, jeito e vocação de sebo enfurnada, veja só, num shopping Center. Sorte minha e de vocês.

Com uma hora de duração, a narrativa de La passione sereine percorre os principais momentos da carreira de Gilberto Gil a partir de depoimentos e bate-papos descontraídos dele, com nomes consagrados da nossa MPB como, Jorge Ben, Jorge Mautner e Caetano Veloso. Personalidades da cultura baiana e especialistas na divulgação da influência africana no Brasil, como o historiador, professor e escritor, Joel Rufino dos Santos, também dão o ar de suas graças.

“Foi aqui que tudo começou. A Bahia tem a precedência”, diz Gil, com sorriso Gil 2contagiante e encantador, largo e expansivo como o mar da Bahia. O mesmo mar da Bahia que o fazia sentir falta do Brasil junto com aquele velho baú de prata e a luz do luar que cantou na envolvente, Back in Bahia. “Isso eu já não posso dizer por que sou mineiro, né?”, diz Grande Othelo, num misto de inocência e malandragem, referindo-se à sua origem uberlandense.

Aliás, é gostoso de ver o carinho de Gil com Othelo e de abraço afetuoso que o envolve ao longo do documentário que conta ainda com a apresentação do artista num show em que os destaques de seu repertório são canções que falam da importância da influência da cultura negra na música brasileira como Andar com fé, Eu vim da Bahia, Oração pela libertação pela África do Sul, Filhos de Gandhi, e tantas outras.

“O Gil para mim é a música em pessoa, visto de perto, uma potente usina musical”, se derrete o irmão, camarada de todo o sempre, Caetano Veloso.

As recordações do menino do sertão baiano que se apaixonou pelo violão de João Gilberto, mas também pela sanfona mítica de Luiz Gonzaga veem à tona, assim como o lado político e social do grande compositor, que anos mais tarde se tornaria ministro da Cultura. O melhor que este país já teve, diga-se de passagem. Uma dica desse futuro que se revelaria em breve surge em sua preocupação, por exemplo, registrada no documentário, diante do conjunto arquitetônico da cidade de Salvador.

“Uma riqueza que podemos encontrar em várias cidades brasileiras, mas igual aqui na Bahia, nunca”, diz, sem esconder o bairrismo.

Também faz parte de suas memórias a árvore genealógica da família de Gil que fala com carinho de sua bisavó, uma ex-escrava alforriada que ascendeu na preconceituosa sociedade baiana. Neto e filho de avó e mãe professora, pai médico, o menino Gil teve as benesses de uma vida sólida que lhe deram a base de uma formação auspiciosa, o transformando num dos artistas brasileiros mais consagrados no Brasil e no mundo. “Uma coisa rara para um menino negro como eu que vim do sertão”, diria ele, um dos artistas mais importantes do Brasil e do mundo.

A emoção vem à flor da pele ao falar do grupo os filhos de Gandhi e de como a indumentária branca e o exotismo do mundo árabe o fascinaram a ponto de querer pertencer a um dos blocos de carnavais mais cultuados da Bahia. Mais Gil impossível…

* Este texto foi escrito ao som de: Expresso 2222 (Gilberto Gil – 1972)

Gil 3

Videoteca Básica (44) Os desajustados

Marilyn Monroe e Clark Glabe, deuses do cinema duelando charme em seus últimos papéis...

Marilyn Monroe e Clark Glabe, deuses do cinema duelando charme…

O que o amor não é capaz de fazer, não é verdade? Tudo e nada. Nada e tudo. Peguemos por exemplo o drama Os desajustados (The Misfits), último filme dos astros Marilyn Monroe e Clark Glabe. Rodado em 1961 por John Huston, essa obra clássica foi escrita especialmente pelo escritor e dramaturgo Arthur Miller para sua esposa… Marilyn. Precisa dizer mais alguma coisa? Sim, porque só amor é capaz de fazer um gênio do teatro descer do templo que é a sua arte para escrever um texto para sua amada no cinema.

Fora isso, basta dizer que Os desajustados é um dos filmes mais tristes de Hollywood, espécie de réquiem, canto dos cisnes de três grandes estrelas da sétima arte. Ou seja, além dos citados Gable e Marilyn, também Montgomery Clift, aqui já com o rosto retalhado, detalhe, inclusive, citado no filme.

Na trama, os três vivem os desajustados do título, enfim, três almas frágeis em agonia tentando encontrar o caminho certo na vida torta, gauche que eles levam. “Tenho seis relógios em casa e nenhum funciona”, diz um dos personagens que não tem nada a ver com a trinca citada. Só por aí já dá para sentir o drama.

Linda, exuberante, uma verdadeira catedral de carne, Marilyn Monroe vive a desnorteada Roslyn. Recém-separada, ela agora busca um sentido para sua vida e o porto seguro do momento são os braços do vaqueiro, Gay Langland (Clark Glabe). “Vaqueiros são os últimos homens de verdade, não se pode confiar neles”, diz sua melhor amiga, aquela atrapalhada do relógio, vivida pela ótima Thelma Ritter.Os Desajustados

Um homem simples, rude até, Gay é um camarada que tem bom coração, mas que também esconde por trás de seu sorriso simpático e relicário de boas intenções que carrega dentro de si, as marcas de um homem calejado pela vida. Assim, todos aqueles fantasmas medonhos que o amedrontam, fazem dele alguém sábio diante da dor alheia, mesmo que ele não saiba lidar com ela, a dor alheia, de forma imediata.

“Nada é para sempre. Tudo muda sempre”, ensina ele a sua nova e surpreende paquera. “Todos nós morremos um dia. Com ou sem motivo. Morrer é tão natural quanto viver. Quem teme a morte, teme a vida”, continua.

Juntos, trombando em seus próprios sentimentos e feridas, ambos vão tentando encontrar o caminho da felicidade, mesmo que para isso eles tenham que sair bastante arranhados. “Não se pode viver sem que algo morra”, diz nosso caubói herói, cheio de filosofia rupestre.

Talvez em seu melhor papel, não deixa de ser comovente ver Marilyn Monroe aqui na condição de uma verdadeira catedral de carne se despedaçando de fragilidade e insegurança. Nunca a beleza esteve tão à deriva no cinema. “Talvez você precise aceitar a parte má junto com a boa, senão você não vai parar nunca de correr”, ensina mais uma vez seu príncipe rude.

O tempo todo fugindo de tudo, de todos, ela é uma garota frágil perdida com três homens sem rumo e prumo no meio do deserto de Nevada, no meio do nada, numa terra de ninguém, enfim, mergulhada num bolsão de solidão e culpa. Daí as imagens líricas e simbólicas do duelo do homem com a natureza, do homem com o seu lado selvagem, do homem com os cavalos, no balé onírico com os mustangues, no final da fita.

Um dos grandes do cinema, John Huston, um eterno homem das letras, se fez aqui e em outros títulos das telonas que consagrou, como O falcão Maltês (The maltese falcon – 1941), O tesouro de Sierra Madre (The treasure of the Sierra Madre – 1948), entre outros, um gênio do cinema. Sorte nossa!

* Este texto foi escrito ao som de: Bandwagonesque (Teenage fanclube – 2001)

Teenage

Que venha 2013, que venha Elton John!

O astro inglês em 1972, no auge da carreira...

O astro inglês em 1972, no auge da carreira…

Não teve jeito, passei na frente do livro O fole roncou, dos meus amigos Carlos Marcelo e Rosualdo, e terminarei o ano lendo a biografia do Elton John, que nem é tão boa assim, mas sabe como é, né? O cara vai tocar aqui no Brasil ano que vem e eu, que já comprei o ingresso, quero estar afinado com a trajetória de um dos grandes artistas do nosso tempo.

Já contei isso aqui, o meu primeiro deslumbramento com Mr. Reginald Dwight, ou melhor, Elton John, foi quando ouvir a canção, Skyline Pigeon, que passava horas a fio na televisão, para a divulgação de uma coletânea do artista, e não esqueço dia em que vi o disco Empty sky, dando sopa na vitrina de um sebo e eu não tive coragem de comprar. Coragem não, não tinha dinheiro mesmo, de modo que fiquei bastante tempo sem saber que uma das minhas canções preferidas dele estaria naquele disco de 1969 que negligencie na vitrine de um sebo da minha cidade natal.

Enfim, a vida é feita de surpresas e esperas, esperas e surpresas, não necessariamente nessa ordem. “Voe para longe pombo correio, voe além dos sonhos que você deixou há tempo para trás”, diz o refrão, de uma simplicidade comovente.

Depois soube que a faixa, uma das mais queridas por aqui pelos fãs brasileiros, fez parte da trilha sonora do disco internacional da novela global, Carinhoso, tema do casal, Eduardo e Marisa, vividos pelo falecido Marcos Paulo e Débora Duarte.

Mas voltando à biografia do Elton John, como já disse, ela nem é tão boa assim, mas foi a única que encontrei dando sopa ali na
Livraria Cultura. Escrita pelo escritor especialista em música, David Buckley, um inglês de Liverpool que também escreveu livros sobre o David Bowie, Roxy Music e o R.E.M., a obra peca por não ser autorizada pelo grande ídolo da música pop que já vendeu mais de 250 milhões de discos até hoje.Elton John 3

E, se não é uma biografia autorizada, logo, os depoimentos de Elton John só se fazem presente a partir das inúmeras entrevistas pescadas pelo autor em diversos veículos de imprensa mundo afora. Contudo, a obra conta com a participação de várias pessoas ligadas diretamente ao astro inglês como os amigos da primeira banda criada por ele em Londres, a Bluesology, além do próprio Bernie Taupin, seu parceiro mais bem sucedido, coautor dos maiores sucessos da carreira de Elton John.

“Não sei escrever letras e não canto muito bem, mas acho que posso compor melodias”, diz Elton, admitindo suas limitações como compositor e reconhecendo, humildemente, seu lugar no hall da fama.

Nascido em 25 de março Reginald Kenneth Dwight, Elton John desde pequeno mostrou um ouvido bom para música e aos quatro anos já estava exibido suas habilidades com as teclas de um piano de brinquedo. Aos 7, o pequeno Reg ganharia do pai, meio que a contragosto, um presente que nortearia para sempre seus caminhos no showbizz, o mítico disco de Frank Sinatra, Songs for swinging lovers.

“Na verdade, eu queria uma bicicleta”, admitia anos mais tarde, o artista.

O primeiro grande ídolo foi, claro, Elvis Presley, que viu na capa da revista norte-americana Life. “Minha mãe me apresentou ao rock ‘n’ roll”, diria numa entrevista de 1971.

Depois de Elvis the pélvis viriam Bill Haley e os demônios do piano Little Richard e Jerry Lee Lewis. Em 1967, ainda na condição de um dos mais brilhantes, talentosos e auspiciosos músicos de estúdio de Londres, Elton John ouviria uma música que transformaria para sempre o seu jeito de ouvir, compor e pensar música, a baladona vitoriana, A whiter shade of pale, da banda Procol Harum. O resto meu chapa, é história, que vou contando aos poucos aqui, à medida que for avançando na biografia.

* Este texto foi escrito ao som de: Elton John (1970)

Elton John 2