Prince, o Príncipe…

Prince

O artista roubando a cena durante um show de Tom Petty, ao solar, de forma magistral, na música “While My Guitar Gently Weeps”, do George Harrison…

É fácil gostar de um artista depois que ele morre. Muita gente só presta atenção no cara depois que ele já era, partiu dessa para melhor. O sujeito não ouvia falar de seu “ídolo”, há séculos e, de repente, ele passa a ser a estrela da sua existência só porque não existe mais. Típico.

Bem, não era fã de Prince, como não era grande admirador do Michael Jackson. De modo que não os conheciam o suficiente a ponto de admirá-los, assim, digamos, loucamente. Apenas o reconheciam como grandes artistas que revolucionaram a música. Cada um dentro de seu estilo e ousadia criativa.

De modo que, desde sua morte, no último dia 21, há bastante tempo que não ouvia falar do Prince. E não porque ele estivesse no ostracismo ou fosse um astro medíocre em franca decadência. Nada disso, ele não só não  gravitava em minha órbita afetiva musical.

Acho que a última vez que ouvi falar do Prince foi quando ele passou a adotar um símbolo maluco impronunciável como nome. Antes disso, quando ele lançou a trilha sonora do Batman do Tim Burton e, claro, por causa de Purple Rain que, não sei por que, eu achava, veja só, que era um cover do Jimi Hendrix. Viu como não sou, realmente, fã do cara?

Acontece que, nos últimos dias, o sujeito parece que andou me perseguindo. Fui ali na Rádio Cultura, gravar um programa sobre pioneiros de Brasília, e um especial sobre o artista estava no ar. Fui pesquisar sobre o George Harrison na internet e lá estava ele solando como se fosse um anjo da guitarra na canção While My Guitar Gently Weeps ao lado do Tom Petty. Estava lendo uns textos do Nick Hornby sobre canções marcantes de sua vida e o Prince é citado.

De modo que, movido por curiosidade obtusa, arregacei as mangas e fui ouvir seus discos fundamentais e o que constatei é que, Elvis pode ter sido o rei, meu chapa, mas Prince era, de fato, o Príncipe. E por vários motivos. Com sua figura andrógena, sensual e provocante, ele, que além de compositor também era de baita produtor e músico, estava à frente de seu tempo.

Quer ver? Lançado em 1982, o psicodélico-funk-rock ‘n’soul, 1999, parece, como de fato o título elucida, vindo de um futuro recente. Antes disso, ela já tinha dito a que veio com o cínico e debochado, Controversy, de 1981. Sign O’ The Times, de 1987 revela os caprichos de um gênio onde ele, entre outras coisas, presta homenagens a ídolos como Joni Mitchell e Sly Stone.

“Sempre disse que um dia eu tocaria todos os tipos de músicas e não seria julgado pela cor da minha pele, e sim pela qualidade do meu trabalho”, disse certa vez durante uma entrevista à MTV. “Tudo o que ouviram dizer sobre mim é verdade: eu mudo as regras e faço o que quero”, alfinetou em 1982.

Mas daí tem o disco que dá título a sua canção mais emblemática, Purple Rain, que vendeu, só nos EUA, mais de 13 milhões de cópias. O álbum, com sua pegada pop, rock, soul cheia de guitarras distorcidas e batidas eletrônicas, teve a pretensão de ter sido lançado no auge da carreira de grandes ícones do gênero como Madonna e Michael Jackson. E detalhe, sobreviveu aos dois.

* Este texto foi escrito ao som de: Purple Rain (Prince And The Revolution – 1984)

Purple Rain

Mais Forte Que Bombas (2015)

Mais Forte Que Bombas 2

Jesse Eisenberg e a revelação deste drama intimista, Devin Druid, numa das melhores cenas do filme dirigido pelo dinamarquês Joachim Trier

Mais Forte Que Bombas é um drama intimista do diretor dinamarquês Joachim Trier que, já vou dizendo, não tem nenhum parentesco com o polêmico conterrâneo Lars Von Trier. Ainda em cartaz na cidade, narra os conflitos de uma família classe média alta norte-americana em crise após a morte da mãe num trágico acidente de carro. Ela é Isabelle Reed (Isabelle Huppert), uma respeitada fotógrafa de guerra que parece ter cansado da vida. Despedaçados, pai e dois filhos tentam seguir em frente.

Mas não é fácil catar os cacos de uma vida afetiva que se foi. Gene (Gabriel Byrne), por exemplo, tenta administrar a própria dor da perda com os filhos Jonah (Jesse Eisenberg) e Conrad (Devin Druid), esse último um adolescente problemático com quem entra em atritos constantemente. “Será que é impossível ter um diálogo entre nós dois”, reclama.

Ao mesmo tempo, um segredo na relação do casal irá desmitificar a figura dessa mulher independente com urgente espírito escapista. Caberá a cada um deles, junto com os demônios pessoais que os acompanham, filtrar a situação e saber lidar com o que sobrou para seguir o caminho com mais leveza.

A fotografia azul plúmbeo do filme denuncia a angústia narrativa da fita que tem um clima fantasmagórico pertinente. Acentua-se com os personagens das fotografias tiraras por Isabelle conversando com os personagens em crise da trama.

Um dos pontos altos Mais Forte Que Bombas é interpretação contundente de todos em cena. Destaque para o jovem Devin Druid, uma revelação daquelas pouco vistas no contemporâneo cinema hollywoodiano. É ele que, com seu silêncio perturbador, norteia as impressões do espectador quanto aos conflitos que dançam na trama. O diálogo que tem com o irmão sobre a superficialidade e crueldade do ensino médio é exemplar.

Enfim, nada mal para o primeiro filme de projeção internacional do dinamarquês Joachim Trier, que se mostra mais sutil quanto aos dramas humanos do que o extravagante Lars Von Trier.

* Este texto foi escrito ao som de: Jackson Browne (1970)

Jackson Browne

Cheiro de chuva no ar…

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Cheiro de terra molhada no ar e de repente minha infância querida me vem à memória com toda a força da saudade… Tempos bons que não voltam mais…

Cheiro de terra molhada no ar. Gosto de chuva na boca. Poderia ser de sangue, como nos tempos das crônicas do Nelson Rodrigues, quando as pessoas morriam sufocadas pela tuberculose, mas o que perpassa os meus pulmões por esses dias cinza é um gosto de umidade sincera. Não sei por que, mas ando bem proustiano ultimamente, de uma melancolia infantil… Que mágico seria sentir o gosto molhado da língua dela na minha boca, só pra aquecer minha alma…

Ela lava o cabelo com o shampoo de criança, o que lhe dá um toque todo especial. É como se estivesse acabado de sair do banho ou tivesse feito algo diferente no cabelo… E isso me faz sentir tão bem, me deixa tão feliz… O vento lá fora está avisando que o frio está chegando, o céu vermelho conspira a favor, mas está tão quente aqui dentro de mim, no meu peito. Especialmente quando penso nela. E isso é o tempo todo, porque penso nela o dia inteiro…

Cheiro de terra molhada no ar. De repente, minha infância querida me vem à memória com toda a força que a saudade tem, me fazendo lembrar do barro molhado junto ao junco, da mangueira gigante onde brincávamos de super-heróis e a Cidadela dos Robinson. E de como escondíamos os pés descalços nas folhagens quando o frio vento da chuva tomava de assalto o quintal. Tempos bons que não voltam mais…

Ontem choveu fraco na hora do almoço, mas o cheiro de terra molhada, misturado com cimento úmido me deu uma sensação boa… Era como se eu sentisse minha alma levitando, meu coração brincando de ser feliz, uma cócega gostosa estivesse dentro da minha cabeça, lá onde ficam as gavetas das boas e doces recordações. Quem disse que cinza não é uma cor bonita? Quem disse que cinza é a cor da tristeza? Cinza é a cor da minha alegria… A escuridão é pior do que essa luz cinza, já dizia um poeta daqui…

…Acho que ele tem razão…

* Este texto foi escrito ao som de: I am the cosmos (Chris Bell – 1992)

Chris Bell

O Corpo (1991)

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Nessa filme baseado em conto de Clarice Lispector, Xavier (Antônio Fagundes) não se contenta apenas com duas mulheres na cama…

Acho que ainda dá tempo de ver esse filme obscuro do cinema nacional no Canal Brasil se você correr. A trama é baseada no conto, A Via-Crúcis do Corpo, de Clarice Lispector, adaptada para as telas por um dos grandes admiradores da escritora, o cineasta José Antônio Garcia (1955 – 2005). O corpo do título ganha duplo sentido no enredo tendo em vista a natureza lasciva dos personagens e o desfecho macabro que um deles terá na história.

Xavier (Antônio Fagundes) é o proprietário de uma farmácia que tem o orgulho de ter em casa duas esposas vividas por Marieta Severo e Cláudia Gimenez. Quando um dos vizinhos questiona esse romance a la Dona Flor e os Seus Dois Maridos às vessas, ele nem se abala. “Enquanto os outros fazem às escondidas, eu faço às claras”, diz, debochando da hipocrisia humana.

Mas duas na cama não são o bastante e logo ele irá arrumar uma amante pelas ruas de São Paulo, a bela dançarina da noite Monique (Carla Camurati). Pronto, está armada a confusão no ceio desse lar outrora feliz, agora incendiado pela chama do ciúme e da traição. Magoadas, elas vão unir forças para se vingar, mas o castigo passa da conta.

Como boa parte dos filmes realizados pelos cineastas paulistas em meados da década de 80 e 90, O Corpo traz um velado exercício de metalinguagem não apenas por conta da referência ao clássico O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, mas pelo clima de cinema noir pelas ruas de Sampa.

Amiga do diretor, Carla Camurati não apenas atua em cena como a musa da trama, mas também colaborou no roteiro do filme que traz atuação impagável de Antônio Fagundes, bastante caricato com seu bigodinho de latin lover. “Essa noite nós vamos perder todos os sentidos”, diz animado, depois de se excitar com o ménage à tróis entre Marlon Brando, Maria Schneider e uma barra de manteiga.

* Este texto foi escrito ao som de: 1999 (Prince – 1982)

Prince 1999

Canções têm cheiro e sabor

Music saves soul

Canções salvam almas, é uma experiência sensorial formidável e narcotizante…

Tudo começou com o vídeo de um garotinho autista surtando junto com o pai num show do Coldplay. Esse é o poder mágico da música, meu chapa. Ela faz você surtar, vê sua própria alma. Quando vi a imagem tentei me controlar, mas não contive e deixei as lágrimas rolarem. Típico e por um motivo muito simples. Canções salvam almas, é uma experiência sensorial formidável.

Bem, a gente nunca sabe como será nossa vida daqui pra frente, se vamos conseguir prevê coisas ruins ou boas, por isso sempre é bom ter por perto uma canção afetiva que possa nos blindar contra as agruras da vida e até mesmo nos salvar.

Outro dia eu estava angustiado, com saudade daquela garota com sorriso mágico que sempre é os quilômetros distantes de mim e me senti perto dela ouvindo um disco inteiro do George Harrison. Era como se ela estivesse lá o tempo todo dentro de mim, como se fosse uma sensação narcotizante deliciosa dançando no meu peito.

Quando eu fazia o segundo grau, todas as manhãs, antes de ir para escola, eu colocava para ouvir apenas a introdução de I’ve got a feeling, dos Beatles, e já era o suficiente para eu me sentir animado para seguir em frente. Era como se aqueles minutos iniciais de uma canção B-Side do fab four, me dessem força para enfrentar a chatice da vida escolar.

Bom, foi Marcel Proust quem imortalizou na literatura os desvarios da memória, ou seja, as impressões e sensações que nossas recordações, boas ou ruins, podem nos trazer a partir de uma simples mordida numa Madeleine. Desde este instante, nada me tira da cabeça de que as canções têm cheiro e sabor…

* Este foi escrito ao som de: One Man Guy/Rain/Can You Please Crawl Out Your Window? (Nick Hornby – 2003)

31 canções

Drácula de Bram Stoker (1992)

Drácula de Bram Stoker

Adaptação de Francis Ford Coppola para a clássica história de terror chama atenção pelo erotismo romântico exalado pelos personagens

Após o enorme sucesso dos dois primeiros filmes da trilogia O Poderoso Chefão, Francis Ford Coppola – então tido como um menino mimado do cinema da década 70 -, se deu ao luxo de realizar algumas produções ao longo da carreira por mero capricho, apenas pra se divertir.

Foi o caso em 1979, por exemplo, quando deu dinheiro para Carroll Ballard se divertir com o o épico juvenil, O Corcel Negro, a melosa história de amizade entre um menino e um cavalo. Sete anos depois, dirigiu o sobrinho Nicolas Cage na fábula romântica, Peggy Sue – Seu Passado a espera. Já nos anos 90, criou a sua versão para um das histórias de terror mais famosa da literatura, Drácula de Bram Stoker, que vi outro dia em DVD.

Sendo sincero tinha até esquecido desse filme. Para falar a verdade o confundia com outro clássico do gênero do Neil Jordan, Entrevista com Vampiro, aquele com o Tom Cruise, lembra? Pois bem, vencedor de três Oscars – Figurino, Maquiagem e Edição de Efeitos Visuais -, o vampiro de Coppola é diversão pura do começo ao fim.

No auge da beleza, Gary Oldman é Vlad, o carniceiro rei romeno medieval que gostava de empalar seus inimigos só para ver o sague jorrar. Reza a lenda que, ao voltar dos campos de batalha e constatar que a amante se suicidara por pensar que ele tivesse morrido em combate, é condenado ao vampirismo por renegar a igreja e os princípios cristãos.

Quatro séculos depois, ele irá reencontrar a amante reencarnada na pele de uma bela jovem recatada vivida por Winona Ryder. Mas suas chances de viver um grande amor do passado estarão ameaçadas com a chegada do caçador de vampiros, Van Helsing, Anthony Hopkins em atuação formidável.

De uma beleza visual impressionante – detalhes acentuados tanto no figurino quanto na direção de arte -, o Drácula de Francis Ford Coppola chama atenção pelo romantismo erótico potencializado pelos clássicos personagens do escritor irlandês Bram Stoker. Um clássico da literatura de terror adaptado para às telas com elegância suntuosa por quem domina como poucos a arte do cinema.

* Este texto foi escrito ao som de: Sketches of Spain (Miles Davis – 1960)

Sketches of Spain

Malone Morre – Samuel Beckett

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Para o poeta Paulo Leminski, tradutor de alguns textos do escritor e dramaturgo no Brasil, o intelectual irlandês era o arauto da solidão e da incomunicabilidade

Ler Samuel Beckett é, para o bem ou para o mal, uma experiência literária marcante. Depois de se aventurar pelas páginas de um romance ou texto dramaturgo deste irlandês contemporâneo de James Joyce, você passará amá-lo ou odiá-lo. Comigo foi assim, depois de ler Esperando Godot (1952), por exemplo, não fiquei indiferente à sua obra e estilo.

Bem, já disseram que Beckett é um mestre em fazer “alguma coisa com nada”. Assim é em Esperando Godot, onde dois personagens passam o tempo todo à espera do personagem-título que não vem. Nada acontece, ninguém chega e é desse vazio de acontecimentos que é feita a literatura de Beckett, um escritor experimental da linguagem.

“Não há mais a dizer, embora nada tenha sido dito”, disse certa vez o escritor e dramaturgo. “Nada é mais real que nada”, continuou provocando.

Escrito em 1951, Malone Morre parte desse princípio ao contar a história de um senhor de 90 anos se definhando num quarto de asilo, hospital ou de sua própria casa. Sim, porque a escrita enigmática e cheia de duplo sentido de Samuel Beckett nos induz a pensar que pode ser todos esses lugares e nenhum deles também.

Reduzido à podridão de sua existência, Malone se debate em cima da cama na tentativa desesperadora de fazer um movimento mínimo possível, mas tudo que ele consegue fazer é pensar e é deste pensar, norteado por discurso niilista, pragmático e sóbrio, que é construída a narrativa de Beckett, sempre marcada por linguagem experimental.

Tradutor deste texto no Brasil, o anárquico poeta Paulo Leminski teorizou que Beckett usa sua literatura quase inacessível como metáfora da decadência da escrita contemporânea. “Beckett é o poeta da solidão e da incomunicabilidade”, refletiu em texto escrito no posfácio dessa edição lançada pela Editora Códex.

Amigo, admirador e secretário de James Joyce na época em que esse escrevia a revolucionária obra, Finnegans Wake, Samuel Beckett é um intelectual das letras que mete medo no leitor. Mas é um medo necessário, que nos faz despertar de certa letargia das ideias. A partir de suas fábulas do nada, somos convidados a refletir sobre esse mundo sombrio, egoísta e decadente que nos cerca.

Como já dizia o filósofo judeu do pós-guerra, Walter Benjamim. “Toda alegoria é uma ruína da realidade.”

* Este texto foi escrito ao som de: Sessão das 10 (Sociedade da Grâ-Ordem Kavernista – 1971)

Sessão das 10

 

Ela é uma experiência sensorial dentro de mim

Fada verde

“Dizem que a fada verde que vive no absinto só está interessada em nossa alma. Eu só queria que ela fosse a minha fada verde e minha alma fosse aprisionada por ela e para sempre…”

…Dizem que o absinto é o afrodisíaco do ego e que a fada verde que vive nele só está interessada em sua alma. Será?

Ela é uma experiência sensorial incrível dentro de mim com aquele sorriso cintilante mágico vindo – eu sei lá de onde -, em minha direção. Será um fantasma? Uma miragem? Um sonho? Não sei dizer. Só sei dizer que, todas às vezes que a vejo e sinto, a sensação que tenho é de ter um bando de pássaros psicodélicos passeando dentro do meu peito solitário. É como se eu sentisse cócegas em meu cérebro dormente. Impressões sensoriais oníricas incríveis…

Tudo que o meu coração precisa é de luz, a luz da existência dela, que é o que preenche todos os vazios da minha’lma lusitana. Sim, porque sou todos os heterônimos de Pessoa e nessa confusão de identidade e crise existencial só consigo me encontrar no abraço de sua presença ausente, só me acho quando estou com ela e estar com ela é algo tão raro e distante…

Confissões de um adulto infantil… Nos últimos dias tenho chorado muito, mas duvido que ela se importe com isso. Mesmo assim, seria capaz de capturar suas lágrimas e transformá-la em diamantes de esperança, se ela também, fosse capaz de chorar por mim. O que duvido, mas pretensão minha querer que uma deusa do desprezo se importe com a minha insignificância…

…De qualquer forma, guardo as joias de seu pranto de indiferença num relicário de desejo…

Acho que foi Clarice Lispector quem disse que: “Sou um coração solitário pulsando com dificuldade no espaço”. Este cara sou eu! Então, a única coisa que me resta fazer é ter cuidado com a escuridão do meu coração…

…Dizem que o absinto é o afrodisíaco do ego e que a fada verde que vive nele só está interessada em nossa alma. Será? Eu só queria então que ela fosse a minha fada verde e aprisionasse para sempre a minha alma… Posso não ser dela, mas ela será minha eternamente…

… E se ela fosse minha pelo menos uma vez na eternidade, mas não tive essa sorte. Acho que ela estava olhando para o outro lado quando eu estava passando. Ou devo ser mesmo invisível, como essa minha melancolia de rapaz belle époque. Meu romantismo démodé assusta as garotas…

 Ok, ela pode ter a ilusão de ter seu Rei Arthur de plástico ao seu lado, não me importo porque, mesmo que ela – minha eterna Guinevere -, não saiba, serei para sempre seu fiel e verdadeiro Lancelot…

Outro dia, quando ninguém estava olhando, escrevi uma canção de amor só para ela…  Um registro assim de um cara chamado desespero para uma garota chamada sonho… De todas as minhas aventuras amorosas, real ou não, ela, com seus sapatos vermelhos de camurça e joelhos delineados por mãos de anjos, é a mais querida… Ela foi e sempre será o meu conto de fadas preferido, o mais real e querido…

…Pudesse eu viver 100 anos só pra sentir a chama da existência dela acesa dentro de mim todo esse tempo… Corpo dormente, Alma doente, espírito demente… Vou conseguir sobreviver sem ela?

* Este texto foi escrito ao som de: All Things must pass (George Harrison – 1970)

George_Harrison_-_All_Things_Must_Pass

 

Mente Criminosa (2016)

Mente Criminosa

No filme, Kevin Costner é Jericho Stewart, um psicopata que sofre o transplante de memórias de uma agente da CIA para impedir uma conspiração internacional

O enredo é mirabolante, mas engenhoso. Imagine que você morreu, mas seu cérebro continua a funcionar na cabeça de um criminoso insensível. Mais interessante ainda se o malvado em questão seja ninguém menos do que Kevin Costner, num papel exultante rejeitado por Nicolas Cage. Esse é o plot de Mente Criminosa, ainda em cartaz na cidade.

Teve gente que não gostou do filme do israelense Ariel Vromen por ser delirante demais, mas quer saber? Tem coisa pior por aí. Depois de ser torturado até a morte, o agente da CIA Bill Pope (Ryan Reynolds) ganha uma sobrevida quando suas memórias e informações são transplantadas para outra mente.

Ele tentava desvendar uma conspiração de ordem internacional pelas ruas de Londres e agora seu chefe Quaker Wells (Gary Oldman) tenta solucionar o caso dependendo da ajuda do psicopata Jericho Stewart (Kevin Costner). Uma tarefa para lá de difícil.

Num primeiro momento, o transplante revolucionário feito pelo neurocirurgião Dr. Franks (Tommy Lee Jones) parece ter dado errado. Mas com o passar do tempo as recordações de toda uma vida confunde agora a mente criminosa de Jericho e, de repente, do dia para noite, ele passa a ser um pai de família sentimental e protetor. Mas quem não ficaria quando a mulher em questão é a charmosa atriz Gal Gadot, por acaso a mulher maravilha.

Repleto de perseguições, pancadarias e tiroteios, o filme conta com boas atuações. É o que traz de melhor, o que garante o ingresso e isso já basta, como trazer um Gary Oldman no papel de um agente da CIA rabugento e nada altruísta.

Não vou me espantar se um dia desses, eu morrer, e minhas recordações, sensações sentimentais, impressões sensoriais forem parar na mente de outra pessoa. Espero que eu fique na cabeça de alguém que preste.

* Este texto foi escrito ao som de: The Concert for Bangladesh (George Harrison – 1973)

Bangladesh

O demônio do desprezo

Desprezo 2

“A indiferença é a maneira mais polida de desprezar alguém”, Mário Quintana, em um de seus vários momentos de lucidez sobre a natureza humana…

O ser humano é de uma complexidade obtusa e ululante. Uma esfinge de não sei quanto milhões de anos. Outro dia mesmo me pediram para desenhar sobre isso, ou seja, a complexidade humana e, não sei por que, me veio à cabeça aquela equação maluca do Einstein sobre a teoria da relatividade, onde números e letras se confundem numa sopa de alfabetos e cálculos indecifráveis. Eis o que é a natureza humana. Uma mistura de letras e números sem explicações. Deprimente…

Sei disso porque, todos os dias quando me levanto olho no espelho e não entendo nada. Ou melhor, vejo mil fragmentos de mim mesmo, estilhaços de uma vida inteira que poderia ter sido e que não foi… No dia seguinte faço o mesmo exercício e tudo fica cada vez pior, mais confuso e sufocante. Maçante e delirante. Enfim, asfixia da alma e alma asfixiada dá câncer.

E tudo o que eu queria era ir e voltar sem me perder nas confusões em que me meto por causa do amor, do trabalho, da vida, de tudo. Um coração mais leve e uma cabeça serena para deitar num travesseiro de tranquilidade. Um lugar para repousar o meu corpo dormente como se eu estivesse numa outra estação, flutuando entre o vazio e o nada. Utopia? Sim, porque não é fácil ser um sobrevivente de cada dia.

Ser sensível e frágil nessa sociedade cada vez mais egoísta e doente é um suicídio, o mito de Sísifo. E tenho fragilidade de um Charlie Brown segurando o Snoopy. Ou seja, uma folha cai da árvore lá no Japão ou Oceania e pronto, já é o suficiente para me sentir down a estação inteira. Tudo isso pra dizer que não suporto o desprezo em qualquer hipótese. De todos os sentimentos humanos, esse é o mais vil, hediondo e desprezível para mim.

E o desprezo vindo de quem nós admiramos é o maior dos crimes. O pior tipo de desprezo que possa existir é aquele que vem da pessoa que amamos. Maldade humana então deixar tão triste quem tem tanto para dar e nada para receber. Mesmo que esse receber seja apenas um gesto de delicadeza, atenção ou humanismo afetivo. Por vaidade, egoísmo ou autismo ela tem o prazer de me desdenhar. É algo tão automático que ela nem percebe quando faz isso. É como se fosse a coisa mais natural de sua existência.

“A indiferença é a maneira mais polida de desprezar alguém”, filosofou certa vez o poeta Mário Quintana.

Penso assim. Só por que ela é alguém é especial para alguém não quer dizer que tem o direito de sair por aí desprezando as pessoas.

“…Toc, toc, toc, um demônio de soberba e descaso bate em sua porta todos os dias e ele não sabe se defender com sua ingenuidade de um Charlie Brown segurando o Snoopy. Ela está lá, te olhando com aquele sorriso largo e sádico de beldade do seu coração e ele só quer desaparecer, sumir, enfim, ser deletado da existência humana. Morrer até poderia ser uma boa saída, mas ela daria uma gargalhada de Mefisto e zombaria do sofrimento dele num piscar de olhos. Essa atitude é o que ela tem de melhor. Então não derrame suas lágrimas de novela das 8h, meu chapa, porque isso não vai comovê-la…”

Passei o fim de semana lendo e ouvido George Harrison só pra me lembrar dela, ficar mais próxima dela, sentir ela, com seu ela fosse um pedaço de mim e a garota-desprezo foi um totem de indiferença. Agindo como se eu não estive lá. Era como se eu não existisse o tempo todo. “Deixe-me ficar dentro de seu coração”, dizia um trecho da canção do ex-beatle e ela só se afastando com sua atitude mais ignóbil e desdenhosa.

Bem, já me disseram que não passo de um adulto mimado cheio de caprichos no coração. Pode até ser, mas Hitler também era um adulto mimado, não sei se de caprichos no coração, mas deu no que deu… Há um deus da carnificina dentro de mim… Quando ele despertar será pior para mim e para todos aqueles que me cercam

Insônia… Dias de abril desgraçado…

* Este texto foi escrito ao som de: Chet (Chet Baker – 1958)

Chet