Feliz ano velho, Feliz ano novo?!

Minhas sobrinhas são a única luz no fim do túnel na minha vida

I

Então é assim. Mas um ano se foi e sinceramente não sei o que escrever, o que dizer. Portanto, não esperem palavras de carinho e ternura, mensagens otimistas e toda essa baboseira de Natal e Ano Novo. Não faço esse tipo, estou velho demais para coisas assim, com barba branca até. Sempre achei falsos esses votos de fim de ano. Isso sim é forçar a amizade. O que posso dizer é que muita coisa acontece em um único ano de 365 dias.

Se eu faria tudo diferente? Claro que não. Mas é possível aprender com os erros porque vocês sabem, a vida é uma grande lição, um dia após outro. Queria que tudo fosse como naquela canção do Nando Reis: “É bom olhar para trás e admirar a vida que soubemos fazer…”, mas nem sempre funciona desse modo e eu que tenho tanto medo do futuro…

Que balanço faço do ano que passou? Fui um vitorioso ou um loser? Não saberia dizer e confesso que algumas vezes tive vontade de desistir. Renato Russo tinha razão quando escreveu que “a escuridão ainda é pior do que essa luz cinza”. A minha sorte é que tenho duas sobrinhas que amo e que me adoram. Elas, e não Jesus, nenhuma religião ou coisa que o valha que foram e são a minha luz no fim do túnel. Nunca tive dúvidas sobre isso. Deus não anda caindo do céu!

Posso dizer que sou um sobrevivente, com uma alma menos doente, com um coração menos triste, talvez com uma cabeça mais arejada. Não sei dizer qual será o meu destino amanhã, quais caminhos seguir, que planos irei traçar porque tomorrow never knows e o Ano Novo é um enigma então, Feliz ano velho?

O que posso dizer é que vou pensar mais em mim e às favas com o egoísmo. O altruísmo é algo que anda démodé hoje em dia, acreditem, o individualismo é a droga do momento. Por isso que gosto de um diálogo exemplar de A condessa descalça, aquele clássico de 1954 protagonizado por Humphrey Bogart e Ava Gardner. É quando o personagem de Edmond O’Brien, num surto de vaidade egocêntrica dispara: “Antes eu era bom para todo mundo e sempre esquecia de mim. Vi que não deu certo, então tentei ver as coisas de um outro jeito. Ser bom com todo mundo e comigo também. Mas as coisas ainda andavam estranhas. De modo que agora só vou ser bom comigo”, declara.

É mais ou menos isso.

Edmond O'Brien (à direita) e Humphrey Bogart: "Agora vou ser bom só para mim"

II

Não me esqueço do dia em que ela passou por mim no último dia do ano, com nariz empinado, soberba exalando pelos poros, sem dizer uma palavra. Naquele momento poderia dizer de boca cheia que sadismo era o seu nome. E tudo o que eu queria era um aceno, um sorriso de confraternização, um feliz ano novo, tchau e nada mais. Mas deve ser tão inebriante a autosuficiência e eu mendigo de mim mesmo.

Mil ligações sem respostas, inconveniências via Embratel com fogos de artifícios explodindo num céu de amargura e tristeza. Há dois anos o réveillon foi um momento ruim para ela, um pesadelo de uma vida toda para mim e toda vez que me lembro disso tenho vontade de chorar, de desaparecer. Se eu pudesse conversar com ela sobre tudo o que aconteceu, mas o que posso dizer é que entre nós as coisas se resumiram a “uma vida toda que poderia ter sido e que não foi”, como já dizia o velho Bandeira. “E que não foi… E que não foi… E que não foi…”.

E pensar que ela tinha me prometido que um dia iríamos “conversar sobre tudo que aconteceu”… Promessas não cumpridas doem com câncer…

…O que me conforta é chegar em casa e sempre ter um desenho da minha sobrinha com a frase: “Te amo, padrinho!”.

2010 foi o ano em que minha segunda sobrinha nasceu, mas também o ano em que vislumbrei o maravilhoso pôr-do-sol de Punta Ballena

III

2010 foi o ano em que minha segunda sobrinha nasceu, a pequena Stella, em fevereiro, no dia 09, seis dias antes do aniversário da minha estrela da manhã e da noite. Foi o ano em que troquei um ambiente de trabalho carregado, tomado de pessoas cínicas, sádicas e príncipes “Calexas”, num mundo não de fadas e sim de ogros e bruxas, por um ar mais, digamos, respirável.

Nesse ano de Copa de Mundo, 2010 foi da Espanha de Velásquez e Pedro Almodóvar, campeã mundial pela primeira vez. A Espanha dos antepassados da minha adorável Ana.

2010 foi o marco zero de um projeto ambicioso que não tenho a mínima ideia se conseguirei finalizar. O ano em que realizei o sonho de ver o show de um beatle no Brasil. Paul McCartney e seu carisma contagiante serão sempre uma lembrança agradável em meu peito, em minha memória. 2010 foi o ano do inesquecível pôr-do-sol de Punta Ballena, contemplado das varandas de sonho de Casapueblo. O ano em que o sol do Uruguai ficou tatuado em mim, para sempre.

IV

“Cancele minha inscrição para a ressurreição. Envie minhas credenciais à casa de detenção, tenho muitos amigos lá”.

“Alguns nascem para o suave deleite; outros para os confins da noite.”

 (Jim Morrison)

* Esse texto foi escrito ao som de: Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro (Nando Reis), V (Legião Urbana), Parachutes (Coldplay).

Paul Newman numa sinuca de bico

Paul Newman é "Fast" Eddie Felson, um jogador de sinuca no memorável The hustler

Ainda me lembro como se fosse hoje. As sensacionais tacadas de Rui Chapéu, um mestre da sinuca brasileira, transmitidas pela Rede Bandeirantes, todo domingo. Com sua famosa boina, gravatinha borboleta e impecável figurino branco, ele arrancava suspiros dos convidados da emissora no estúdio e dos telespectadores em casa, todos embasbacados com suas jogadas incríveis.

Nosso interesse pelo jogo, meu e de meu irmão, não era gratuito porque todas às vezes que viajávamos de férias para casa de nossa tia, no interior de Goiás, passávamos tardes inteiras em volta de uma mesa de sinuca. Eu, meu irmão e meus primos. Antigos proprietários de um comércio, eles perderam tudo após malfadado gerenciamento, mas preservaram a mesa. Para nossa sorte.

Mais tarde, desafiávamos a autoridade de nossas mães jogando partidas escondidas pelas biroscas perto de casa. O medo era uma amiga constante já que, todos menores de idade, éramos vítimas fáceis tanto do Juizado de Menores, quanto dos policiais.

Paul Newman desafia Jackie Gleason (à esquerda), o Minnesota Fats, o rei do pedaço, para um duelo de 36 horas

Uma vez, minha tia nos surpreendeu jogando uma partida perto de casa. A confusão estava armada. Meu primo, o menor de todos, bem que tentou se esconder debaixo da mesa, mas esqueceu de levar com ele o taco de bilhar, que o entregou.

Bons tempos aqueles revividos depois de ver o clássico The hustler, filme de 1961 estrelado por Paul Newman e que acabou de sair em DVD duplo no Brasil pelo selo Cinema Reserve, da Fox. A edição de luxo traz como bônus um DVD inteiro com informações adicionais como entrevistas com os astros da fita – entre eles o próprio Newman -, histórias de bastidores e uma conversa com os maiores especialistas do esporte nos Estados Unidos.

Dirigido por Robert Rossen (A grande ilusão), um filho de judeus que nos anos 50 havia sido perseguido pelo Macarthismo – Desafio à corrupção, como a produção ficou conhecida por aqui, causou polêmica por levar às telas os bastidores do submundo do bilhar, um “hobby”, até aquele momento, visto como um passatempo para vagabundos e desocupados.

Em The hustler, George C. Scott tenta comprar a alma de Newman: "25% de algo é melhor do que 100% de nada", diz Eddie, justificando a inescrupulosa parceria

A abordagem realista, povoada de um olhar social, que era o estilo de Rossen, um homem do teatro de conscientização, humanizou aquela realidade pouco conhecida do grande público. A polêmica em torno do filme se dissipou depois das nove indicações ao Oscar, entre elas a de melhor filme e diretor. Paul Newman, na época um astro em ascensão, também não foi esquecido por sua espetacular atuação. Mas The hustler levaria apenas as estatuetas de melhor direção de arte e fotografia.  

Baseado na novela de Walter S. Tevis, a história já era conhecida dos palcos, quando foi adaptada 20 anos antes. Com roteiro do próprio Robert Rossen e Sidney Carroll, a fita segue os passos do jovem Eddie Felson (Paul Newnam), ou Fast Eddie, o trapaceiro do título original. Arrogante, dono de si e talentoso com o taco, ele viaja o país ao lado do parceiro Charlie (Myron McCormick).

Juntos, eles dão golpes de mestre nos “patinhos” do pano verde com um truque barato, mas eficiente, que consiste em mostra vulnerabilidade na mesa durante as primeiras partidas, até as apostas aumentarem. Daí é só administrar as tacadas certeiras e recolher a bolada no fim da rodada. O truque, que resume toda a ideia do filme, arrematada no título, é mostrado de forma magistral logo nos primeiros minutos.

Agora Fast Eddie quer desafiar o rei do pedaço, ninguém menos do que Minnesota Fats, interpretado pelo ótimo Jackie Gleason. O confronto é inevitável, mas humilhado após extenuantes 36 horas de partida, chega ao fundo do poço apenas com uma ideia fixa na cabeça: a revanche. Oportunidade sinalizada após um acordo de Fausto com o cruel e calculista apostador Bert Gordon (George C. Scott, aqui num dos seus primeiros papéis no cinema). “25% de algo é melhor do que 100% de nada”, diz Fast Eddie, justificando a inescrupulosa parceria.

O campeão mundial de sinuca Willie Mosconi (à esquerda), dando umas dicas a Paul Newman sobre as melhores tacadas

Com as cenas das partidas entre Fast e Fats rodadas no Ames Billiard Academy da rua 44 com a Broadway, famoso salão de bilhar de Nova York, The hustler traça um retrato vigoroso, realista e denso do submundo da sinuca, trazendo à tona toda a psicologia, artimanhas e podridão que se escondem entre uma tacada e outra. Mas do que um filme sobre os bastidores desse esporte elegante, o diretor Robert Rossen queria realizar um drama sobre a personalidade humana. “Querida, lembre-se. Não é um filme sobre bilhar, mas sobre caráter”, disse certa vez a sua montadora Dede Allen.

Tal premissa é potencializada com a figura da frágil e insegura Sarah (Piper Laurie), uma jovem alcoólatra com um passado nebuloso e um futuro nada promissor. Realidade anunciada no estranho relacionamento com o egoísta e imprevisível Fast Eddie. “Temos um contrato de depravação. É só fecharmos as persianas”, ironiza ela, sem esconder seu amor por ele.

Trágico e revelador, o filme, que contou com assessoria de luxo do campeão mundial de bilhar Willie Mosconi – inclusive um dos figurantes da trama – -, tem desfecho exemplar, com Eddie, sim, limpando Minnesota Fats e seu bando na mesa, mas amaldiçoando sua carreira nos salões de bilhar por um bom tempo. Até Martin Scorsese reviver o personagem de Paul Newman em A cor do dinheiro, nos anos 80. Mas essa é uma história para um outro post…

* Esse texto foi escrito ao som de: The doors (The doors), Strange days (The doors) e Sticky fingers (The Rolling Stones).

A Manhattan mítica de Woody Allen

Em sua obra-prima, Manhattan, Woody Allen faz da cidade de Nova York uma personagem da trama

Não sei se vocês perceberam, mas sou um sujeito deliberadamente movido por obsessões. Beatles, Keith Richards, Billy Wilder, minhas sobrinhas, a gatinha
Ana Maria, Bob Dylan, Audrey Hepburn, Oscar Wilde, Jack Lemmon, Alfred Hitchcock, Cat Stevens. Enfim, a lista é bem extensa. Woody Allen, com seus filmes pessoas e intimistas, é uma delas.

Desprezado por alguns, amados por muitos, bem ou mal todo mundo que já sentou numa poltrona de cinema viu pelo menos um filme seu ou, na pior das hipóteses, trechos de algum trabalho com sua assinatura. Eu vi todos e posso dizer de olhos fechados: tenho um carinho enorme por cada um deles.

Mas nenhuma obra desse gênio da sétima arte me toca, emociona tanto quanto Manhattan, seu relicário sentimental e afetivo sobre a cidade que o projetou artisticamente e que ele ajudou a mitificar nas telonas do mundo inteiro. Não há como falar de Nova York e não lembrar de Woody Allen ou de algumas de suas histórias.

Uma sinfonia de imagens da Big Apple ilustra a obra-prima Manhattan

Porque tenho um carinho todo especial por esse filme não sei. O fato é que, se eu fosse para uma ilha deserta ou se me mandassem de foguete para Lua ou Marte, com certeza levaria uma cópia desse clássico dirigido em 1979.

Acho que gosto da forma como ele declara o seu amor à cidade, da maneira inteligente e sutil com que entrelaça os conflitos e anseios dos personagens pelas ruas e pontos simbólicos da grande metrópole, de como seu senso de humor sofisticado e fina ironia servem de contrapeso diante da densidade que perpassa os temas abordados despretensiosamente como o adultério, passando por amores não correspondidos, insegurança, vaidade, o medo do não reconhecimento, o desejo de afirmação tanto profissional quanto existencial.

Tudo em Manhattan funciona. Desde a exuberante trilha sonora de George Gershwin, um dos ídolos de Allen, à charmosa fotografia em preto e branco assinada por Gordon Willis. Do roteiro cativante e sensível, escrito a quatro mãos com Marshall Brickman, ao elenco formidável com a sempre elegante Diane Keaton e o ótimo Michael Murphy.

Woody Allen e a bela Mariel Hemingway: "Você é a resposta de Deus a Jó", galanteia

E tem aquele início essencialmente “Woody Alleniano”, pontuado por indecisões descritivas do diretor sobre sua cidade, seguido de uma sinfonia de imagens da Big Apple. O enredo é de uma simplicidade tocante mas, como em toda história de Allen, recheada de manias visuais e obsessões intelectuais que vão desde o diretor sueco Ingmar Bergman, passando pelo teatro universal de Shakespeare, hits de jazz e escritores como Flaubert e Nabokov, o Central Park. “Bergman é o único gênio do cinema”, diz seu personagem em dado momento da trama.

Ah, sim, sem falar das paranóias e conflitos existenciais que permeiam seus personagens, um caleidoscópio multifacetado de sua intricada personalidade.

Dirigido após o grande sucesso de público Annie Hall (Noivo neurótico, noiva nervosa) e do sucesso de crítica Interiores, aqui Woody é Isaac Davis, Ike, roteirista de televisão que aspira escrever um grande romance sobre Manhattan, como mostra os primeiros minutos indecisos da fita. Depois de amargar uma humilhação sexual ao ver sua segunda esposa (Meryl Streep) o abandonar por outra mulher, resolve namorar uma sofisticada jovem de 17 anos (Mariel Hemingway), uma garota, segundo ele, “que ainda faz tarefa”. “Sou mais velho que o pai dela”, faz troça.

A beleza do escuro na fotografia com a sensual cena do planetário, Allen e Diane Keaton são meras silhuetas

O amor entre os dois é verdadeiro e recíproco, mas ele sente que não há futuro na relação. Uma realidade cada vez mais pertinente quando ele conhece a jornalista Mary (Diane Keaton), amante de seu melhor amigo, um professor universitário também com aspirações literárias. É a partir desse triângulo amoroso confuso e cheio de nuanças sentimentais surpreendentes que Allen desenvolve uma sincera, singela e pessoal homenagem à cidade do seu coração, aqui, mas do que nunca, uma personagem do filme.

“(…) Queria fazer um filme em tela grande, mas não um filme de guerra, ou típico filme em tela grande e sim um filme íntimo, romântico”, confessou, certa vez ao jornalista e amigo Eric Lax, que recentemente lançou no Brasil o livro Conversas com Woody Allen, no qual reúne entrevistas com o cineasta realizadas desde o início da carreira. “Eu queria mostrar a cidade do jeito que a sinto”, recorda.

Extremamente pessoal mas ao mesmo tempo universal, Manhattan é cheio de diálogos sutis e momentos de delicadezas como aquele em que Ike, carregado de culpa, afaga com os dedos, o pranto da namorada Tracy, depois de dizer que está apaixonada por outra. “Você está desperdiçando um afeto verdadeiro na pessoa errada”, consola.

Amargurado, Allen lista uma série de coisas que valeriam à pena viver, apesar de tudo, entre elas Groucho Marx e as frutas decorativas de Cézanne

Não tem como não suspirar com a lírica cena do planetário, gravada no Americam Museum of Natural History, na qual Woody e Diane Keaton surgem na tela apenas como meras silhuetas. Além de ser de uma genialidade artística inenarrável, esbanja sensualidade e o próprio cineasta é o primeiro a ter consciência disso quando bota na boca de seu personagem o seguinte comentário:

– Mas você estava tão sexy. Estava ensopada pela chuva e eu estava com um impulso louco de jogá-la na superfície lunar e cometer uma perversão interestelar com você.

Liricamente erótico, mas nem um pouco vulgar.

Gosto de pelo menos duas passagens no filme. Uma é aquela em que Ike e Tracy passeiam de carruagem pelo Central Park e ele, cheio de galanteios, elogia a beleza ingênua da namorada citando passagens da Bíblia. A cena foi inspirada numa passagem do clássico Nasci para dançar, de 1936, estrelado por Jimmy Stewart:

– Você é a resposta de Deus a Jó, brinca ele.

Quer cena mais romântica?!

A outra é quando, sozinho, amargurado com o fora que ganhara de Mary, elabora uma lista das coisas que, apesar de tudo, valem a pena viver, citando, entre outras coisas, o comediante Groucho Marx, as frutas decorativas de Cézanne, a obra Educação sentimental, de Flaubert, Marlon Brando, Frank Sinatra e o rosto de Tracy, com quem acaba ficando no fim.

Na minha lista das coisas pelas quais valeriam a pena viver entraria o cineasta Billy Wilder, Yesterday, dos Beatles, com certeza, o clássico A noite, de Antonioni, minhas sobrinhas, evidentemente, os olhos cintilantes e os cabelos caídos sobre o rosto da Ana Maria Campos, minha eterna gatinha, claro, e  Manhattan, uma obra para a vida toda.

* Esse texto foi escrito ao som de: Blue train (John Coltrane), Time out (The Dave Brubeck Quartet), Strangers in the night (Frank Sinatra) e algumas composições de George Gershwin.

Oscar Wilde e sua fábula sobre a vaidade

Extravagante, excêtrico e genial: Oscar Wilde foi um homem à frente do seu tempo

Outro dia terminei de reler O retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde. Tinha até me esquecido do quanto o romance era tão bom, embora lembrasse que ficou marcado na minha cabeça como um dos livros mais marcantes que tinha lido até aquele momento. É como Crime e castigo, do Dostoievski ou O som e a fúria, de Faulkner. Você lê uma vez e fica para sempre.

Sou assim. Volta e meia gosto de reler algumas obras que passaram pelas as minhas mãos. Acho que a releitura é tão importante quanto a primeira leitura, nunca tive dúvida sobre isso. E, às vezes, até mais gostosa, interessante, reveladora. Terminei de reler o livro durante a última viagem que fiz. Folhei as últimas páginas no aeroporto de Montevidéu, no Uruguai.

Oscar Wilde foi uma figura controversa, um artista à frente do seu tempo. Tanto do ponto de vista artístico, quanto no que diz respeito ao comportamento. Nem me lembro mais a primeira vez que ouvi falar do escritor. Acho que me chamou atenção primeiro foi o título desse romance.

Enfim, só recordo que tinha uma coleção da Martin Claret com breves perfis de personalidades do mundo político e cultural e eu devorava todos. Tinha do Chaplin, do Teilhard de Chardin, do John Lennon, do Jim Morrison, Mahatma Ghandi, vários. Consegui um do Oscar Wilde.

Edição de junho de 1890 da Lippincott's Monthly Magazine, revista que publicou o romance antes de ser editado em livro, um ano depois

Aquela figura garbosa, estilo dândi, com seus cabelos compridos e elegância impecável despertaram minha atenção. A vida conturbada, repleta de polêmicas e muito glamour também ajudaram a criar um interesse maior, mas foi lendo sua obra que minha admiração por esse artista singular sedimentou completamente. Acreditem, o U2 não foi a melhor coisa que a Irlanda produziu nas artes. Antes dos meninos de Dublin existiram Samuel Beckett, George Bernard Shaw e Oscar Wilde.

Em O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde cria uma fábula impactante, nebulosa e questionadora sobre a vaidade, o grande mal do século dele, o 19 e, sobretudo o do nosso. Aliás, a vaidade é um dos grandes pecados da humanidade. A grande mácula do homem, a mancha negra inerente a toda personalidade. Como diria Shakespeare não sei se em Hamlet ou em Macbeth: “Vaidade da vaidade, sempre vaidade, tudo é vaidade”. Se não for isso é algo parecido.

Publicado em junho de 1890, primeiramente como atração principal da revista Lippincott’s Monthly Magazine, é editado, após revisão do autor, em livro, no ano seguinte, a obra, o único romance escrito por este dramaturgo genial, hoje é considerado um dos clássicos modernos da Literatura Ocidental. Tanto que a BBC colocou o título entre os 200 romances mais populares de todos os tempos.

Uma das inúmeras gravuras que retratam essa fábula sobre a vaidade e o culto à beleza

Lembro com clareza de quando li pela primeira vez o livro. Foi uma edição emprestada da Biblioteca Demonstrativa de Brasília (BDB), bem conservada em sua capa dura preta. Mais tarde, consegui comprar a minha num sebo, também em capa dura, só que vermelha. Um charme. Ah, os sebos! Quando morrer não quero ir nem para o céu, muito menos para o inferno. Quero perambular pelos sebos do mundo.

A história gira em torno da amizade entre três amigos: Dorian Gray, o herói central, o afetado pintor Basil Hallward e Lorde Henry Wotton, um cínico e hedonista aristocráta que surge na trama numa espécie de alter ego do próprio autor.

Um belo dia, quando Basil pintava o retrato de Gray, uma maldição toma conta do ambiente. A desgraça se apossara da vida do jovem rapaz para sempre, após existencialista diálogo sobre a efemeridade da beleza. A beleza, a verdadeira beleza, acaba onde principia a expressão inteligente. A beleza é uma forma de gênio… Mais elevada que o gênio, pois dispensa explicação”, ironiza Lorde Henry. “O senhor dispõe só de alguns anos para viver deveras, perfeitamente, plenamente. Quando a mocidade passar, a sua beleza irá com ela; então o senhor descobrirá que já não o aguardam triunfos, ou que só lhe restam as vitórias medíocres que a recordação do passado tornará mais amargas que destroçadas”, filosofa.

Com conteúdo homoerótico, o romance seria maior do que o escândalo que marcaria a vida do artista (à direita)

 

Atormentado pelas palavras do amigo, Dorian desabafa. “Eu irei ficar velho, feio, horrível. Mas este retrato se conservará eternamente jovem. Nele, nunca serei mais idoso do que neste dia de junho… Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!”, exaspera-se. “Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!”, roga, eternizando o feitiço e selando, assim, o seu destino.

Retocado com lampejos de horror, O retrato de Dorian Gray tornaria-se num símbolo da juventude intelectual da época, juventude essa que via com olhos malditos a cultura vitoriana impregnada no inconsciente e âmago da sociedade do século 19. De modo que a obra se tornaria numa espécie de signo do decadentismo daqueles tempos e Wilde, mesmo que a contragosto, o pai da corrente. Por ironia, as ideias do dândi irlandês atingiriam a cena musical dos anos 80, influenciado bandas de rock com The Smiths.

Envadecido de sua beleza, Dorian Gray, agora ciente do poder que tem em mãos, é o senhor da sua juventude. Mas o demônio, como já bem enfatizara Goëthe em sua obra clássica Fausto, é criatura nefasta, hedionda e, em troca, atormenta o inconsciente e alma de seu “protegido”. O desfecho é exemplar.

as ideias de Oscar Wilde influenciaria, nos anos 80, a poesia do grupo inglês The Smiths

A bissexualidade do dramaturgo e escritor Oscar Wilde, assim como o seu estilo extravagante e excêntrico, o denunciam pelas atitudes, comportamentos e diálogos de seus personagens. Diga-se de passagem, as discussões, ideias e opiniões extravassadas pelos herois da trama é o que há de melhor em O retrato de Dorian Gray. “Gosto dos homens que têm um futuro e das mulheres que têm um passado”, diz Lorde Henry, assim como seu criador, um frasista de primeira grandeaza. “O fundamento de todo escândalo é uma certeza moral”, diz, noutro momento.

Não há como não perceber o conteúdo homoerótico que perpassa a história – um elemento que anos depois seria a tragédia da vida do dramaturgo e escritor -, mas o discurso que impera é o da crítica, mesmo com tons de sofisticada ironia, à vaidade e ao culto à beleza. E olha que estamos falando do século 19, mais de cem anos antes do glamouroso mundo da moda e das deusas de celofane do cinema e da televisão.

A crítica de wilde é perceptível não apenas na vaidade explícita do jovem Dorian, mas também, de forma abstrata, no platonismo dilacerante que o pintor Basil Hallward tem pela figura de seu retratado, um “Adônis que se diria feito de marfim e pétalas de rosa”. Esse culto acaba por revelar uma velada vaidade do artista que tem na beleza física de Dorian, uma espécie de fonte de inspiração para todo o seu trabalho.

Como se vê, Wilde, com toda a sua arrogância aristocrática, era, de fato, um homem à frente do seu tempo. “Não existe livro moral ou amoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo”, escreve na apresentação dessa obra-prima.

* Esse texto foi escrito ao som de:  Goats head soup (The Rolling Stones), Mind games (John Lennon), The queen is dead (The Smiths) e Pop (U2).

Cap.8 Do caos surgem Exile e Angie

Keith Richards e os grandes portões de ferro de sua mansão em Nellcôte, no Sul da França

Keith Richards entrou a década de 70 afundado em drogas. Assim ele conta, com requintes de detalhes e esbanjando sinceridade, no oitavo capítulo de Vida, sua autobiografia lançada em novembro deste ano, no Brasil. Mas curiosamente, a fase seria uma das mais produtivas dos Stones, onde surgiram os maiores clássicos escritos pela dupla Jagger e Richards. “Mas é claro que a droga não tem nada a ver com isso”, avisa o guitarrista.

Enrolado até o pescoço com o sistema tributário na Inglaterra, a banda parte em peso para o Sul da França, em 1971. Lá, Keith alugaria uma enorme mansão em Nellcôte, uma charmosa vila localizada de frente para a baía de Villefranche. “Quando conheci Nellcôte, achei que seria capaz de ficar fascinado com o exílio”, narra Keith no livro. “Era uma casa muito surpreendente, bem na base de Cap. Ferrat (…). Fora construída por volta de 1890 por um banqueiro inglês. Tinha um jardim enorme, um pouco crescido demais, por trás de grandes portões de ferro. Se você se sentisse um pouco mal de manhã, era só dar uma volta pelo château para se sentir luminoso outra vez”, descreve.

Ali, junto com amigos como Bobby Keys (saxofonista) e Spanish Tony (guarda-costa), se envolveriam nas maiores confusões com traficantes de drogas e, entre uma carreira e outra, jam sessions intermináveis e muitas brigas internas, dão início as gravações daquele que seria a obra-prima do grupo: o álbum Exile on main st. Do caos nasceria uma obra-prima. “Olhamos estúdios em Cannes e em outros lugares e percebemos que os franceses estavam querendo sugar muito dinheiro pelo serviço”, lembra Keith, que reuniu a banda e técnicos no subsolo da mansão. “Havia um porão grande em Nellcôte e tínhamos nosso estúdio móvel. O Mighty Mobile, como o chamávamos, era um caminhão com equipamentos para gravação em oito canais…”, conta.

Serpenteados por fios de microfones e amplificadores os Stones gravam, em 1971, o mítico álbum Exile on main st.

Subdivididos em uma série de salas, a ventilação do espaço era ruim. O que levou Jagger e Richards escreverem Ventilator blues. “O mais estranho era tentar descobrir onde você tinha deixado o saxofonista. Bobby Keys e Jim percorreram o local para encontrar um ponto onde a sonoridade os agradasse…”, debocha Keith.

Faixas como Rocks off e Rip this joint seriam criadas num minúsculo aposento de telhas com Keith entre cabos de microfones serpenteando e dobrando a sua volta. Tumbling dice surgiu do fato que o local se tornou num antro de jogatina entre as pessoas que circulavam pelo local. “Considerando que era basicamente um calabouço, foi divertido trabalhar ali”, ri, o guitarrista, passado quase 40 anos depois.

Detalhando o processo de criação de alguns sucessos daquele álbum duplo como All down the line, Happy e Cassino Boogie, o artista lembra como a crítica foi cínica com relação ao projeto. “É surpreendente que a música que fizemos naquele porão ainda esteja por aí, pois o álbum nem foi muito elogiado quando apareceu”, recorda ressentido. “Compreendo agora que Exile foi feito em circunstâncias extremamente caóticas e com métodos de gravações inovadores, mas este parecia ser o menor dos problemas. A questão era: temos as músicas e temos o som?”, comenta.

Ouvindo o disco hoje, que tem seus bastidores registrados num documentário lançado recentemente, podemos dizer que sim, o grupo tinha as músicas e o som perfeito sim, já que o trabalho está entre os melhores discos de rock daquele período. Em minha opinião , é um dos mais geniais trabalhos da banda.

Memórias do subsolo: Do caos, a dupla Jagger e Richards criam as faixas do clássico disco

Depois de ter a casa arrombada e suas guitarras roubadas, enfrentar problemas com a justiça francesa, por conta de drogas, Richards e o grupo deixou o país, onde ficou proibido de entrar por dois anos. O material gravado em Nellcôte seria encaminhado para Los Angeles, onde foi finalizado. No livro, Keith narra que passou um pedaço ruim na grande metrópole americana já que não conseguia encontrar drogas da boa. “(…) A droga de boa qualidade tinha desaparecido de todos os lugares da Costa Ocidental. Ficamos reduzidos a raspas de sapatos mexicanos. (…) Era merda de rua de verdade, marrom, que vinha do México”, lamenta.

O período de vacas magras o fez rever a vida e, pelo menos naquele momento, pela primeira vez, nesses anos todos, Keith Richards decidiu largar as drogas. Assim, arrumou as malas e, junto com Anita e o filho Marlon, seguiram para a Suíça, rumo a uma clínica de desintoxicação. Angustiado com as crises de abstinências e com a notícia do nascimento de sua segunda filha, Angela, compôs, numa tarde, sentado na cama do quarto, um dos grandes sucessos do grupo naquele período, a baladona Angie. “Não era sobre ninguém em especial, era um nome, como em ‘ohhhh, Diana”, revela. “Eu não sabia que Angela iria se chamar Angela quando compus Angie. Naquele tempo, a gente não sabia qual seria o sexo da coisa antes que ela estourasse”, emenda.

Um castelo de cristal à beira-mar

Construída ao longo de quatro décadas, a Casapueblo, antiga moradia de verão do artista plástico uruguaio Carlos Vilaró, é uma verdadeira obra de arte ao céu aberto

Encontrei com um amigo meu no Festival de Cinema de Brasília, em novembro e comentei:

– Tô indo para o Uruguai em dezembro…

Ele deu a dica:

– Ah, você vai ao Uruguai é?! Então não pode deixar de ir à Casapueblo, em Punta Del Leste, a casa do Carlos Páez Vilaró.

Eu, de dentro da minha santa ignorância, deixei escapar:

– Carlos quem?! Nunca ouvi falar…

Mas mesmo assim, o lugar, que já tinha visto pela internet, despertou minha curiosidade por sua arquitetura mítica, quase um castelo de cristal no meio do nada. Mas admito que nunca tinha ouvido falar desse grande artista plástico Carlos Páez Vilaró, um nome tão importante da arte latino-americana no mundo quanto o argentino Jorge Luis Borges, o chileno Pablo Neruda e os mexicanos Diego Rivera e Frida Kahlo.

Então, com uma câmera na mão e o coração cheio de expectativa partir, numa tarde de terça-feira, rumo à Casapueblo, localizada a 11 km de Punta Del Leste, numa região de casas luxuosas chamada Punta Ballena, que fica uns 2 mil metros da rodovia que liga o balneário à Montevidéu.

Localizada numa região chamada Punta Ballena, as rendondezas da Casapueblo reservam vistas panorâmicas do mar Atlântico

O lugar é lindo, tem uma vista panorâmica do mar encantadora, exuberante mesmo, algo inenarrável de explicar. Guardarei na memória as imagens captadas pelas minhas retinas por um bom tempo. Algumas das que a máquina registrou estão nesse post. Toda vez que me deparo com lugares maravilhosos como esses, lembro sempre das minhas sobrinhas e da minha estrela da manhã e da tarde. Ana, minha adorável gatinha, estive em Casapueblo e lembrei de você.

Confesso que não imaginei que fosse me emocionar tanto. Uma sensação de alegria e euforia sentida só quando visitei uma das casas do poeta chileno Pablo Neruda, em Santiago, no Chile, ano passado.

"O Sol do Uruguai está tatuado em mim", Carlos Páez Vilaró, hoje com 87 anos

Casapueblo era a antiga casa de verão de Carlos Páez Vilaró, um artista que tem uma paixão enorme pela cultura afro, paixão essa potencializada pelas inúmeras viagens que fez ao continente africano e à Ásia, e adornou sua monumental obra sob o signo do Sol, com uma mistura viva, forte e intensa de cores. “Tenho tatuado em mim o Sol do Uruguai”, chegou a dizer certa vez o grande pintor e escultor, que ainda vive no auge dos seus 87 anos.

Amigo de personalidades como o pintor espanhol Pablo Picasso e do guerrilheiro argentino “Che” Guevara, era ali, nessa casa-arte que ele costumava receber seus grandes amigos de longa data como os brasileiros Jorge Amado e Vinícius de Morares, além de nomes consagrados mundialmente como o escritor peruano Mário Vargas Llosa.

Com um estilo que remete às construções da costa do Mediterrâneo, com suas paredes brancas como gelo, próximas ao mar, quase um castelo de cristal, Casapueblo traz no seu interior as marcas do artista uruguaio, que transformou seu recanto numa imensa obra de arte que abriga além de museus, uma sala de cinema, um bar, um hotel de luxo e restaurante.

Milhares de turistas visitam Casapueblo anualmente...

Vale dizer que o lugar homenageia Carlos Miguel, filho de Vilaró, um dos sobreviventes de um famoso acidente aéreo nos Andes, ocorrido em 1972. Na época, as autoridades responsáveis pelo resgate tinham desistido das buscas 15 dias depois da tragédia, mas Vilaró, num grande exemplo de esperança e determinação, não desistiu de procurar pelo filho amado e, consultando cartomantes, bruxas e entidades de candomblé, arregimentou um grupo de resgate e conseguiu rastrear as pegadas das 16 pessoas que sobreviveram ao acidente. Entre elas Carlos Miguel. A experiência rendeu o livro Entre eu e meu filho, a Lua, escrito pelo artista plástico.

Mas voltando à Casapueblo, as curvas ditam a regra do espaço. Desafiando a lógica da gravidade, a enorme construção branca se esparrama por uma imensa cordilheira e desperta atenção pela sua sinuosidade arquitetônica. Uma curiosidade que ganha tonalidade lírica é que, construída com a ajuda dos pescadores da região, Carlos Páez teve ideia para essa obra de arte ao céu aberto observando a rotina de um pássaro típico do Uruguai, o “forneiro”, popularmente conhecido no Brasil como o “João-de-barro”.

...todos em busca do deslumbrante e inesquecível pôr-do-sol que a região reserva aos seus visitantes dia após dia

Erguida ao longo de quatro décadas, o espaço recebe milhares de turistas o ano inteiro, todos em busca do deslumbrante e inesquecível pôr-do-sol que a região reserva aos seus visitantes todos os dias. Eu estive lá e conferi esse momento mágico.

O Uruguai é um país pequeno, mas guarda grandes segredos em suas entranhas.

Em Punta del Leste o sol é um signo

O charmoso balneário de Punta del Leste conta com praias exuberantes

Punta del Leste, charmoso balneário uruguaio localizado no distrito de Maldonado, é o point das praias, cassinos, mulheres bonitas e o paraíso das compras tanto dos brasileiros, quanto dos argentinos. Conheça Montevidéu, sim. Mas se for ao Uruguai, não deixe de passar pelo menos dois dias nesse recanto do Sol na América do Sul. Passei quatro dias nessa pequena cidade com pouco mais de 11 mil habitantes (que na alta temporada chega a receber cerca de 400 mil pessoas) e me encantei. E olha que não sou tão fã de Sol assim. Quemei tanto que estou parecendo um daqueles figurantes da Galiléia dos filmes bíblicos.

Ok, a água das praias dessa região é fria que chega queimar a pele, mas o Sol, signo maior e símbolo da cidade, assim como do país – já que está estampado na bandeira – é exuberante dentro de um céu azul celeste que não tem nenhuma nuvem das 7h da matina até às 9h30 da noite. Não por menos que o artista plástico uruguaio Carlos Paéz Vilaró elegeu o astro rei como o grande símbolo de toda a sua monumental obra, mas este é assunto para outro post.

Aboletados de iates, barcos e cruzeiros, os portos de Punta del Leste lembram o Principado de Mônaco

Numa comparação grosseira, Punta Del Leste lembra Búzios, nosso paradisíaco recanto de belíssimas praias, localizado no município do Rio de Janeiro. Só que mais glamoroso. E com um detalhe, traz como ponto turístico A mão do afogado, monumento que parece ter saído do último rolo de O planeta dos macacos, quando Charlton Heston e sua namorada nativa se deparam com uma Estátua da Liberdade soterrada pela areia.

Noutra comparação provinciana, a região tem o aspecto físico, arquitetônico do principado de Mônaco, na Europa. Pelo menos na parte à beira-mar, aboletado de iates, lanchas e barcos de todos os tamanhos e modelos. Os gigantescos cruzeiros também são presenças marcantes. Mas trata-se de um paralelo leviano já que não conheço esse microestado, muito menos a Europa, ainda…

Despertou-me a atenção as ruas limpas, as praças e canteiros bem cuidados de seus bairros, de uma chiquesa só. No centro comercial da cidade, mas especificamente na rua Juan Gorlero, pode se encontrar de tudo. Destaques para as La conpañia del Oriente e Indian Emporium, até os mais elegantes cafés e restaurantes. Outras opções são as livrarias, espalhadas por todas as partes. Os uruguaios e os argentinos lêem mais que os brasileiros. Trata-se de uma triste realidade.

Eu e um leão-marinho em Punta del Leste

Do nada, um leão-marinho apareceu morto na Praya Brava, em Punta del Leste, assustando os turistas

De apito no peito e bóia numa das mãos, o “guarda-vidas” avista algo no horizonte. Abandona o posto e, caminhando lentamente em direção à praia, pede para um grupo de pessoas saírem da água.

Da areia, um monte de gente começa a gritar e correr desesperadamente. A cena clássica do filme Tubarão, de Steven Spielberg, aquela em que todo mundo foge daquilo que não sabe o que é direito, acontece bem ali, na minha frente. Tem alguma coisa estranha na água e está indo em direção à areia.

– Hijo, hijo, mira, mira!, grita, quase em prantos, uma das mães.

Mi dios!, roga uma outra, tentando segurar os sutiãs.

A princípio, vendo de longe, pensei que fosse uma tartaruga gigante. Mas o bichano tinha patas enormes. Seria uma foca?! Bem que uma das ruas próximas ao arpoador se chama Las Focas. Vai saber… Parece mais um leão-marinho. É difícil de distinguir a “coisa” que, machucada e suja de sangue, está em estado de decomposição, sem a cabeça. Fede à carniça. O cheio é insuportável.

A multidão, aliviada do susto, se esguera, entre tapas, para tirar foto do estranho animal que acabara de aportar na Praya Brava, em Punta del Leste. Registro também o episódio sem tirar da cabeça os versos de I am the walrus, dos Beatles. “I am he as you are he as you are me and we are all together. See how they run like pigs from a gun, see how they fly”. Só que eu não sou um leão-marinho. Nem o homem-ovo. Eu nem sei quem sou… Talvez eu não seja ninguém…

A cultura da carne e do mate

No Uruguai, o sujeito perde a mulher, mas não a cuia de mate...

A juventude uruguaia tem mais atitude do que a juventude brasileira. É mais autêntica, age sem rodeios ou frescuras burguesas. Diria que os jovens uruguaios são menos hipócritas no que diz respeito ao comportamento. Percebe-se isso andando pelas ruas da cidade.  Aliás, o povo uruguaio é bem espontâneo, direto. Acho que é uma característica das pessoas do Sul. Os gaúchos são assim também.

É possível conhecer muito de um lugar andando pelas ruas, sentido as sensações, pulsações, vibrações que emanam das calles. Por isso que quando visito uma cidade que não conheço, que nunca fui, deixo que as ruas do local me levem por suas entranhas, vou andando até dar bolhas nos pés, assar as pernas.

Bem, e se a juventude uruguaia tem atitude, a beleza das mulheres desse pequeno país sulamericano tem sua particularidade. Elas são bem mais charmosas e elegantes que as brasileiras, exibidas e oferecidas. Além dos traços europeus, que saltam aos olhos não só das uruguaias – mas também das argentinas -, como os olhos claros, sardas pelo rosto, tem o lance da postura, do estilo, sempre firme e austera. É algo bem introspectivo, nada chamativo, extravagante demais.

Outra coisa que me chamou atenção andando por essas bandas daqui é que, tanto no Uruguai, quanto na Argentina, a cultura da carne e do mate está bem presente. É algo bem sintomático. Se a carne recebe tratamento requintado na cozinha e nas mesas dos restaurantes, o mate é vendido como artigo de luxo nas lojas do ramo.

E não só isso. É comum você ver pelas ruas homens e mulheres andando para cima e para baixo com um kit à tira colo que traz uma garrafa térmica, uma cuia e mate claro, alguns personalizados, com a cara do dono. No Uruguai, o sujeito ou a chica esquecem a mãe, os filhos em casa, mas não desgrudam da sua cuia de mate por nada. E quando digo desgrudar não estou exagerando. Eles andam com a garrafa abraçada ao peito como se fosse uma relíquia, algo muito precioso. Chega a ser caricato, se nao fosse algo genuinamente cultural.

Não sei como o McDonalds daqui ainda não adotou a bebida no cardápio. O frisson com o mate é tamanho que alguns até arriscam dirigir segurando uma cuia numa das mãos. Aqui no Uruguai o camarada leva uma multa por digirir bebendo mate, mas não bebida alcoólica.

Primeiras impressões de Montevidéu

As ruas de Montevidéu parecem com as de Buenos Aires, as duas cidades são quase irmãs

Há um certo charme europeu que paira sobre as ruas, prédios, casas de Montevidéu, no Uruguai. É uma aura bem peculiar, introspectiva dessa cidade com pouco mais de 1,5 milhão e meio de habitantes.

A semelhança da capital uruguaia com Buenos Aires, na Argentina é sintomática. As duas cidades sulamericanas são quase irmãs, seja no aspecto físico, seja no que diz respeito à identidade cultural. Um exemplo, são as praças das duas cidades, adornadas com estátuas magníficas dos seus heróis garbosos, denotando uma simbologia bem própria.

Mas voltado à Montevidéu, uma coisa que não sabia é que a capital uruguaia tem mar, praia. Sabia, claro, observando o mapa, que o país era banhado pelo Atlântico, mas nunca imaginava que Montevidéo fosse litoral.  Já Punta del Leste é um balneário mundialmente conhecido, até minha afilhada de dez anos sabe disso.

Enfim, visitei as praias de Montevidéu e confesso que não fiquei empolgado, a pesar de admirá-las. Uma delas, Pocítos, localizada na parte nobre da cidade e que tem o nome do bairro, é simpática, mas não tem a mesma exuberância do nosso litoral.  A água do mar uruguaio tem um aspecto estranho, meia enlameada, amarelada, nada convidativa. Ainda mais quando o clima estiver entre 18º e 21º.

Já o centro de Montevídeu é bem poluído visualmente, com outdoors e propagandas comerciais por todos os lados. Buenos Aires também é assim. Posso dizer o mesmo de Santiago, no Chile.

Charmoso mesmo na capital uruguaia sao os arredores, lugares como o Mercado del Puerto, um local que agrega tradição e elegância pelos bares, restaurantes, padarias e ruas. As casas especializadas em vender frutas e verduras são um show à parte, com suas mercadorias exportas com uma pintura.