A verdade do espelho…

Auto-retrato- Escher 1935

Não tem nada a ver com Escher, tem a ver com a solidão da existência… Com a mentira que somos nós, seres humanos…

O espelho…

A verdade do espelho… Eis a única coisa para acreditar, o único amigo para confiar;

O resto é balela, como empilhar uma pirâmide de biscoito,

Como tentar voar com asas feitas de cera.

O ser humano é um tédio, o ser humano dá câncer…

A maior mentira já inventada e não tem nada ver com crise de meia-idade.

Tem a ver com o vazio da existência…

Mentira que o tempo é mercúrio-cromo;

Mentira que existe um deus para nos salvar;

Não há nenhum Jesus caído do céu, o paraíso é uma lenda cristã…

Não tente fantasiar a realidade…

Porque quando você acordar, o dia continuará cinza,

Como sempre foi, meu chapa, apesar desse sol de plástico…

 

Uma caminhada de 20 minutos e o suor escorrendo pelo rosto…

O relógio parou, as horas são inúteis, quando se tem uma alma doente;

Mas Lou Reed já tinha me avisado… São ondas de medo por toda parte!

Ela não gosta de ninguém, além do próprio ego…

Culpa desse signo desgraçado que ela tem,

O cinismo é a sua melhor roupa,

Por isso prefiro fugir sempre, se tem medo do lobo não vai à floresta…

Prefiro me esconder dentro de uma sessão de cinema

É onde eu me sinto salvo, pelo menos aparentemente…

 

A verdade do espelho, quebrado em mil estilhaços, um pedaço de mim está ali no chão, não sou uma esfinge, não tente me decifrar.

À noite, quando chego em casa, a cama é meu túmulo…

 

…Tomara que um dia, eu não acorde nunca mais…

 

* Este texto foi escrito ao som de: The Blue Mask (Lou Reed – 1982)

Blue Mask

Paraíba – Vida e Morte de um Bandido (1966)

Jece Valadão 3

Jece Valadão (dir.) tocando o terror na sociedade carioca dos anos 60 como um marginal bom de briga e de fuga

O cineasta, roteirista e produtor Victor Lima (1920 – 1981) dirigiu grandes nomes do humor brasileiro no cinema. Foi de Ankito a Mazzaropi, passando por Costinha e Golias, sem falar dos trapalhões Renato Aragão e Dedé Santana. Sua parceria com o eterno machão das telonas, Jece Valadão, nesse thriller de suspense e aventura rodado em 1966, no entanto, foi uma grande surpresa.

Baseado em fatos reais, filme conta trajetória do bandido Paraíba (Valadão), terror da sociedade carioca que realizou inúmeros assaltos e assassinatos, ridicularizando autoridades de seu tempo por meio de fugas cinematográficas. É o que mostra a fita, que conta com participações de Jardel Filho e Ítalo Rossi. O primeiro, na pele de um jornalista só interessado na história do bandido. O segundo, o padre responsável por saldar sua dívida com o divino.

“Tenho medo de morrer, Padre”, confessa, antes de se lembrar de seu passado de crimes e morrer.

Diferente de outros trabalhos do diretor, que se deixou lambuzar pela chanchada nacional dos anos 50, esse filme tem uma pegada “cinemanovista” impressionante para o estilo de Victor Lima, trazendo premissas sociais nas entrelinhas da narrativa.  Quando o jornalista tenta desenterrar uma consciência desse personagem, ele logo se esquiva. “Eu nem sei o que é isso”, desconversa. “A fome nos obriga a fazer coisa que não deve”, diz, justificando a vida errante.

Alguns pontos da fala do personagem título são impressionantes, se traçarmos um paralelo com a épica canção de Renato Russo, Faroeste Caboblo, quando ele, tal qual João de Santo Cristo, confessa que roubava o dinheiro da caixinha do altar. “Meu pai ia pra igreja todo domingo, o sonho da minha mãe era que eu fosse padre”, confessa.

Além de Jardel Filho e Ítalo Rossi, outros grandes nomes do cinema e da televisão brasileira despontariam com participações importantes no enredo. Milton Gonçalves, por exemplo, é o comparsa fiel que se deixa trair pelo rancor de uma mulher ressentida. Wilson Grey, um gago diligente, e Darlene Glória no papel de femme fatale sensual rainha do crime que enfeitiça Paraíba pela beleza e uma vida de luxo.

“Que foi? Decepcionou?”, debocha, ela, ao se exibir nua na banheira de sua mansão.

O realismo da trama é visceral, ainda mais quando Victor Lima resgata um amistoso entre Brasil e a antiga U.R.S.S., jogado um ano antes do lançamento da fita, servindo de pano de fundo para o grande assalto da trama. O desfecho desse plano audacioso? O convite é assistir a esse clássico no Canal Brasil.

 * Este texto foi escrito ao som de: Avôhai (Zé Ramalho – 1977)

Zé Ramalho

Lou Reed – Transformer (Parte 3)

Lou Reed

Lou Reed perambulando pelas ruas da cidade que soube retratar como poucos em canções com narrativas sujas e pegada outside…

Como se fosse um gato safo na cena nova-iorquina, Lou Reed teve várias vidas. Talvez mais do que sete delas, reciclando sua imagem e som ao sabor dos ventos pessoais que sacudiam sua psique e do draconiano mercado fonográfico, mas nunca se vendendo ao sistema por completo. O legal de biografias como essa de Victor Bockris lançada no Brasil em edição atualizada, é o de vislumbrar os bastidores dessas transformer (ções).

Depois da rápida, mas fecunda passagem pelo Velvet Underground, Lou Reed seguiu por sinuosa carreira solo, cujo ápice seria sua parceria com David Bowie no mítico álbum, “Transformer”, lançado em 1972.  Mas muitos outros trabalhos de sua vida pós-VU merecem respeito. Gosto em particular de New York, lançado em 1989.

“Esse disco oferece a perfeita mídia musical para a descrição pesada e carregada de Reed e seu ataque violento contra uma NY devastada pela AIDS, na qual amigos estão sempre ‘desaparecendo’”, escreveu Jonathan Coot, um dos principais críticos de rock dos Estados Unidos.

E de fato a obra é um retorno aos seus tempos de Velvet Underground, onde transitava pelas ruas da Big Apple vasculhando as latas de lixo em busca de comida e sujeira moral, mas aqui, com uma pitada de niilismo social contemporânea contundente.

No livro, Victor Bockris mostra como o genial Berlin, lançado logo após o formidável sucesso de Transformer, foi um registro incompreendido e negligenciado pela sombra do trabalho anterior. Lendo as páginas da biografia, me deixo cativar, entre outras coisas, pela obscuridade do álbum de 1974, Sally Can´t Dance, no qual me cativa a delicadeza melancólica da faixa Billy, uma crítica velada e mordaz do artista à Guerra do Vietnã.

Nesse período, ele andava sempre grudado à beldade Rachel que, lá pela página 200 e qualquer coisa vamos descobrir que é um travesti, com quem Lou viveu seu período  mais intenso afetivamente.

Uma novidade para mim são os sucessos dos discos ao vivo do artista lançados nos anos 70. No livro, o autor mostra a decadência e conflitos pessoais de Lou antes, durante e após essas apresentações e as desgastantes quedas de braço com as gravadoras pelo controle dessas obras.

O livro de Victor Bockris registra também com perspicácia os bastidores dos álbuns ao vivo de Lou Reed, mostrando não apenas o vigor e visceralidade de suas performances em cima do palco, como as  arranjos diferentes de grandes sucessos, mas a desgastante queda de braços com as gravadoras.

Graças a essa biografia, fui além da obra de Lou Reed no Velvet Underground.

* Este texto foi escrito ao som de: New York (Lou Reed – 1989)

Lou Reed 2

Mr. Zimmerman… 7.5…

Dylan

Bob Dylan tirando onda de baixista durante as gravações de “Highway 61 Revisited”, álbum icônico de 1966

Mr. Zimmerman… Era assim que John Lennon chamava Bob Dylan na sua reflexiva canção God e, até então, o bardo folk norte-americano se resumia para mim apenas à canção: Blowin’ In The Wind. Foi na faculdade, aos poucos, que fui descobrindo um universo inteiro de confluências artísticas e político-sociais que me levariam até aquele nome.

 

De lá para cá, duas biografias na minha estante mágica, muitos recortes de revistas e jornais, sites e publicações similares depois, e uma discografia com quase 40 discos repletos de músicas antológicas, posso dizer sem medo de errar que o artista de 75 anos é uma das mais importantes referências e influências do pop rock.

Não há nada na música, desde que deixou tudo para trás, aos 20 e poucos anos, para fazer canções de protestos, lá no início dos anos 60 – influenciado por Jack Kerouac e os beatniks -, que não tenha passado por ele direta ou indiretamente. A gaita nas canções dos Beatles é uma influência de Dylan e toda vez que você ouvir John Lennon cantar Hey, You’ve Got To Hide Your Love Away, lembre-se dele também.

Se você gosta de Zé Ramalho cantando Avohai e Chão de Giz e se surpreendeu com o surgimento dos meninos do Vanguard, nos anos 90, a culpa é de Mr. Zimmerman. Lembro que, após começar a prestar atenção no artista, passada a febre terçã em torno do Fab four, uma das primeiras músicas dele que me apaixonei foi a contemplativa Forever Young, escrita para um dos seus filhos.

De voz anasalada e beleza tímida, Bob Dylan, um poeta genuíno, se impôs pelo talento com que descreveu, com visão poética e cinismo socialista, os conturbados anos 60, se tornando, mesmo a contragosto, o porta-voz de toda uma geração. “Jamais quis ser um profeta ou salvador”, reclamou certa vez. Culto, dono de um repertório temática ilimitado, vendeu mais de 100 milhões de discos, reinventando o folk para criar o folk rock.

Abaixo, uma rápida reflexão sobre seus cinco discos que mais gosto, pela ordem de lançamento…

…Top Five – Bob Dylan

The Frewheelin’ Bob Dylan (1963) – A capa apaixonante, com o bardo folk perambulando com a namorada, Suze Rotolo, por Greenwich Village, é icônica. Foi o álbum que cristalizou o Bob Dylan que conhecemos com canções reflexivas como Blowin’ In The Wind, A Hard Rain’s A-Gonna Fall e Masters Of War. É um dos registros do qual o artista tem mais orgulho de ter feito e o ex-beatle George Harrison sempre citou como uma referência.

Bringing It All Back Home (1965) – Com produção de Tom Wilson, aqui Bob Dylan, influenciada por bandas como os Beatles, abraça de vez o rock ‘n’ Roll tocando guitarras pela primeira vez num disco seu. A capa surreal é cheia de simbologias e referências culturais. Apesar de sucessos marcantes como Mr. Tambourine Man e Subterranean Homesick Blues, a minha preferida é a romântica e enigmática: She Belongs To Me.

Highway 61 Revisited (1965) – Divisor de águas na obra do artista, o disco é responsável, entre outras coisas, por ele ter sido chamado de Judas durante turnê britânica em 1966. Letras surrealistas marcadas por canções longas e ásperas, Highway 61… rompeu os limites das rádios que só tocavam canções curtas com refrãos pegajosos. A hipnótica, Like a Rolling Stone talvez seja sua canção mais emblemática. “Foi a melhor música que escrevi”, admitiria.

Blonde On Blonde (1966) – Primeiro álbum duplo da história do rock, Blonde On Blonde representa talvez o auge da carreira de Dylan como letrista e cantor do gênero. Com sua capa desfocada e canções chapadonas, surgiria como prenuncio para trabalhos experimentais nos anos seguintes. Não há como deixar se emocionar com baladonas como Just Like a Woman e Sad Eyed Lady Of The Lowlands.

John Wesley Harding (1967) – Depois de sofre grave acidente de moto no final de 66, Dylan se reclusa em Woodstock e surge com essa pérola do country norteado por metáforas bíblicas e homenagens às raízes folk. O grande sucesso é a antológica, All Along The Watchtower. Note na capa como ele está a cara do filho Jakob Dylan e o registro seria seguido pelo igualmente root e tocante, Nashville Skyline (1969).

* Este texto foi escrito ao som de: Highway 61 Revisited (Bob Dylan – 1965)

Dylan 66

Os Bons Companheiros (1990)

Goodfellas 2

Joe Pesci, Ray Liotta e Roberto De Niro, três amigos mafiosos no poderoso thriller de Martin Scorsese sobre a evolução da máfia na América

Para alguns críticos, Os Bons Companheiros (1990) é um dos melhores filmes de Martin Scorsese, e eles têm razão. Mas exageram ao dizer que a produção baseada no livro Wiseguy, de Nicholas Pileggi, seja a maior fita sobre gângster já feita, até se lembrarem, claro, de O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola.

Opiniões à parte, o fato é que eis aqui uma grande obra do cinema realizada por um mestre da sétima arte. Na trama, a história de Henry Hill (Ray Liotta), um garoto meio irlandês e meio italiano que, assim como o cineasta, cresceu cercado de mafiosos na comunidade ítalo-americana do Brooklin.

“Pra mim, ser gângster era melhor do que ser presidente dos EUA”, diz o personagem logo na abertura do filme, convidando o espectador a percorrer um plano-sequência mágico que revela o submundo do crime no bairro na década de 50.

Daí para frente o que se vê é uma jornada pela busca do poder marcada por muita violência, ações criminosas e traições nas décadas de 60, 70 e 80 conduzidas por Hill e seus amigos Tommy (Joe Pesci) e James Conway (Robert De Niro), então uma lenda do contrabando. “Ele era o tipo de cara que torcia pelos ladrões no cinema”, exulta Hill.

Baseado em fatos reais, Bons Companheiros, como o título elucida, fala de relações de amizade fraternas ruídas pela ganância desenfreada. Com muita elegância e pleno domínio a narrativa, Martin Scorsese mostra a evolução da máfia na América de roubos e contrabandos para o tráfico de drogas. Tudo embalado ao som da melhor trilha sonora dos anos 50 a 70.

Impagável, o pequenino Joe Pesci vira um gigante na ela para abiscoitar, junto com a bela Loirrane Bracco, o Oscar de atores coadjuvantes.

* Este texto foi escrito ao som de Let it Bleed (The Rolling Stones – 1969)

Let it Bleed - Stones

Deus não existe! Existe o céu… Ela!

Céu 3

“Outro dia ela estava dentro de esvoaçante vestido branco, soltando balões vermelhos pelo céu”

Confundo o cheiro do perfume dela com os outros perfumes quando ando pela rua

Só sobrevivo, assim, dentro deste estado anestesiante, é quando minha’lma flutua…

Sou meio o Lou Reed do amor, preciso estar bem doidão para me sentir melhor…

E, ao contrário do que parece e muitos pensam, não gosto de ficar tanto tempo só.

 

Só não encontrei a pessoa certa ainda, aquela doce pequena de sentimentos perfeitos.

Ou seja, alguém que me entenda, me proteja e, claro, aceite os meus rudes defeitos.

Mas não quero juras de amor eterno encapsulado num relacionamento fake e maçante…

Gosto de corre riscos, sou aventureiro do impossível, me interessa a fuga dos amantes,

 

Outro dia, ela estava dentro de esvoaçante vestido branco, soltando balões pelo céu,

Era como se fosse um anjo do cotidiano, riscando minha frágil imaginação de papel

Queria deixar meus dedos deslizar por seus cabelos lavados com shampoo de criança

Sentir novamente o gosto quente do seu beijo, por um dia, voltar a acreditar na esperança…

 

Não me iludo fácil, não sou tolo, Deus não Existe! Existe o céu… Ela!

Que um dia, quando menos esperar, quero ver atravessar minha janela

E me abraçar como se fosse o último dia de todos os tempos de nossas vidas

Carregar pelo infinito, por toda a eternidade, nossas doces Ilusões perdidas.

 

Um, dois, três, quatro dias é muito distante para ficar longe da minha estrela guia,

Já estou com saudade de sua voz aveludada e sorriso maroto cheio de alegria

Se eu sobreviver até lá, vou raptá-la em meu corcel alado, fugir sem olhar para trás,

Longe dessa confusão cínica que me sufoca, construir com ela meu reino de paz…

 

* Este texto foi escrito ao som de: The Blue Mask (Lou Reed – 1982)

Blue Mask

Do Outro Lado do Paraíso (2016)

Do Outro Lado do Paraíso

Filme baseado em livro de Luiz Fernando Emediato traz emocionante história de amor entre pai e filho em tempos de crise social

Baseado em livro do jornalista e escritor Luiz Fermando Emediato, “Do Outro Lado do Paraíso” abiscoitou sete prêmios na mostra paralela do Festival de Cinema de Brasília. Não concorreu na mostra competitiva porque já tinha sido exibido em Gramado, barrado numa regra boboca sobre ineditismo do evento brasiliense. Do contrário, tinha levado, no mínimo, o prêmio de Melhor Direção do pleito principal.

Estrelado por Eduardo Moscovis e o jovem ator, Davi Galdeano, o belíssimo filme estrelado por André Ristum fala sobre esperança. Em tempos de crise política e clima caótico no país, nada mais pertinente. Sobretudo porque o filme, que se passa na época do Golpe de 64 no Brasil, é bastante atual, infelizmente. Sim, golpe há 50 anos atrás e golpe nos dias de hoje.

Antônio (Moscovis) é um homem simples do interior de Minas que acredita no país e busca o paraíso na Terra. Um dia ouvi falar de uma nova cidade que está surgindo no Planalto Central e ele não vacila. Troca a casa por um caminhão e segue com a família para essa tal de Brasília. É o ano de 1963 e ele nem imagina que forças ocultas estão na espreita. “Todo mundo tem o direito de tentar uma vida melhor”, argumenta contra a resistência do sogro (Jonas Bloch).

São anos de polarização política, direita x esquerda, Azul retrógrado x os comunistas vermelhos na disputa pelo poder, reformas de base e justiça social. Logo Antônio irá arranjar encrenca com os militares, vai preso e o sonho de uma vida melhor se esvai como a página rasgada de um livro sem final feliz.

Produção mais cara do Distrito Federal, Do Outro Lado do Paraíso traz uma direção segura e tocante de André Ristum, que apresenta uma história emocionante sobre relações familiares em tempos de crise social, sem cair no sentimentalismo rasteiro. Com fotografia linda, som impecável, o filme mostra ainda competente trabalho de reconstituição de época de uma Taguatinga ainda dando seus primeiros passos como uma cidade é perfeita, assim como as interferências documentais garimpadas em diversos arquivos do país.

Eu, se fosse você, não deixava de ver ess preciosidade sobre uma parte dos primórdios de Brasília…

* Este texto foi escrito ao som de: Rosa dos Ventos – O Show Encantado (Maria Bethânia – 1971)

Rosa dos ventos

Wall.E (2008)

Wall.E 2

Uma animação que fala sobre o amor entre robôs e a esperança, apesar de tudo, na raça humana

A animação Wall.E, em cartaz na cidade dentro de programação retrô, não é fácil de ser assimilado pelas crianças. Muito deste distanciamento resvala no fato do filme ser, em grande parte, sem diálogos. Mas não quer dizer que seja um projeto desinteressante. Pelo contrário, é bastante cativante com sua história sobre amor entre robôs. Uma abordagem mais do que sensível para falar sobre a falta de sensibilidade entre os humanos.

Uma produção da Disney/Pixar, o filme, dirigido por Andrew Stanton, passou batido pela minha percepção da primeira vez que vi, mas agora me tocou muito. A ponto de considerar um dos melhores trabalhos do gênero. É a história do robozinho metódico Wall.E, que cumpre com dedicação operária a missão para qual foi construído: reciclar lixos.

Um trabalho solitário que faz no que sobrou do planeta Terra, uma devassidão do caos há pelo menos 700 anos. Mas, apesar de ser robô, demonstra sensibilidade fora do comum, ao se emocionar vendo trechos, por exemplo, do musical Hello, Dolly (1964), e por meio da amizade que nutre com baratinha atrapalhada, uma cortesia do mundo dos insetos desde que Kafka escreveu o claustrofóbico A Metamorfose.

 Um dia, do nada, aterrissa por lá uma nave espacial vindo sabe-se lá de onde, trazendo à bordo uma robô fêmea de nome Eva. Ela tem um design arrojado e a missão de encontrar vida no que sobrou do planeta Terra. O que acontece quando ela se depara com uma plantinha simpática encontrada no meio de paisagem árida tomada por toneladas de lixo.

Meio atrapalhado no estilo Charles Chaplin, Wall.E acaba se envolvendo numa grande aventura intergaláctica ao embarcar por acaso num cruzeiro gigante espacial. E ali onde vive agora os humanos, enfim, homens e mulheres rechonchudos que flutuam para cima e para baixo em cadeiras confortáveis, conduzindo a vida artificial que levam em torno do comando de botões e da voz.

Com narrativa contada por meio de imagens, músicas e ruídos, Wall.E traz uma preocupação vela sobre os crimes ambientais e, apesar da premissa pessimista que perpassa boa parte da trama, traz uma mensagem de esperança na humanidade. Será? Prefiro acreditar nas máquinas… Máquinas passionais, como canta a banda Suíte Super Luxo…

* Este texto foi escrito ao som de:  El Toro !(Suíte Super Luxo – 2004)

El Toro

Lou Reed – Transformer (Parte 2)

Lou Reed e Nico

Poucos sabem, mas o líder do Velvet Underground, em sua fase hétero, andou dando umas bicotas na alemã Nico, para quem escreveu canções como “Femme Fatale”

Lançada no Brasil pela editora Aleph, a biografia de Victor Bockris sobre o roqueiro junkie Lou Reed, um dos nomes mais influentes do rock ‘n’ roll, traz algumas informações, senão inéditas, pelo menos surpreendentes para uma galera fã do Velvet Underground e da carreira solo do artista. Eis abaixo drops pinçados ao logo de 240 páginas e treze capítulos.

* Os eletrochoques – Vítima do estilo de vida conservador dos pais Sidney e Toby, Lewis é levado ao psiquiatra, pedindo que ele curasse os sentimentos homossexuais do filho. Resultado, várias sessões de tratamento de choque que marcariam a vida do artista nova-iorquino para sempre.  Ao fim de oitos semanas de tratamentos, tudo o que ele sabia dizer era: “Eu odeio psiquiatras. Eu odeio psiquiatras. Eu odeio psiquiatras.”

* Delmore Schwartz e Bob Dylan – Dois poetas do início dos anos 60 foram determinantes para a formação artística de Lou Reed. Um deles foi o beatnik Delmore Schwartz, uma das figuras mais carismáticas e atraentes do circuito de universidades de Nova York. O outro era o bardo folk Bob Dylan, quem ele imitava tocando gaita nos tempos de estudante na Syracuse University.

* The Ostrich – “O Avestruz”. Esse era o nome do primeiro sucesso escrito por Lou Reed, lançado pela banda fictícia, The Primitives. Dançante, a canção dizia de forma alegre ao personagem-dançarino que ele colocasse a cabeça no chão e deixasse seu parceiro pisar nela. A faixa teve uma vida curta.

* Lou Reed, sex symbol em NY – Danny Fields, um dos integrantes da Factory – empresa-estúdio de Andy Warhol -, diz em relato ao livro que em meados dos anos 60 todos estavam apaixonados por Lou Reed. “Todos estavam apaixonados por ele naquela época. Por volta de 1966, ele era o garoto mais sexy da cidade”, narra. “Ele era um dos maiores objetos sexuais para todo mundo em Nova York durante seus anos no Velvet Underground”, continua.

* I’ll Be Your Mirror e Femme Fatale Lou Reed e a vocalista do VU Nico tiveram um rápido flerte durante sua meteórica permanência no grupo, mas o suficiente para que ele escrevesse canções de amor psicológico como essas duas faixas. Há uma corrente que defende que Femme Fatale foi escrita para atriz e modelo Edie Sedgwick.

*Antonioni e o Velvet Underground – O diretor italiano Michelangelo Antonioni quisera filmar a banda para uma sequência de seu famoso filme, Blow-Up, Depois Daquele Beijo, mas mudou de ideia e optou pelos meninos do Yardbirds.

Brian Epstein e o Velvet Underground – No verão de 1967 uma cópia do primeiro álbum do Velvet Underground chegou às mãos de Brian Epstein, o famoso empresário dos Beatles. Após retornar de uma viagem do Acapulco, México, com seu namorado, ele comentou com Lou Reed acariciando seu braço, após um encontro furtivo: “Meu amante e eu passamos nossas férias inteiras ouvindo o seu disco”, disse. Antes do fim daquele ano Epstein morreria de uma overdose sem nunca ter feito nada pelo VU.

* Lou Reed x John Cale – Segundo um amigo próximo de Lou Reed, a relação do líder do Velvet com John Cale, seu principal colaborador entre 1967 e 1968 era meio que simbiótica. “Eles se amavam, mas também se odiavam”, comentou.

* Jim Morrison paparica o Velvet – No começo da carreira do Velvet, celebridades do showbiz gostava de paparicar a banda. Durante uma turnê na Costa Oeste, estrelas do cinema como o ator Ryan O’Neal e da música como o líder do The Mamas and The Papas, John Phillips, além de Cher eram vistos na plateia. Entre esse grupo, também um certo estudante de cinema da UCLA desconhecido chamado Jim Morrison.

* Este texto foi escrito ao som de: White Light/White Heat (The Velvet Underground – 1968)

White Light 2

Madeleines Sonoras

Lembranças sonoras

Canções também podem se transformar em madeleines sonoras, nos transportando no tempo por meio de boas lembranças, saudades e sensações afetivas…

Ainda não tive tempo de ler Marcel Proust. Mas graças ao Nelson Rodrigues, que o citava sistematicamente, guardo com carinho no peito uma das imagens mais fabulosas já criadas sobre memória, saudade e sensações afetivas abstratas ou não. É aquela em que o autor de Em Busca do Tempo Perdido faz o personagem de sua trama sentimental mordiscar uma Madeleine e mergulhar, levando o leitor junto, a uma grande aventura literária.

Canções também podem ser transformar em madeleines sonoras, como bem me chamou atenção, outro dia, num rápido bate-papo via face, meu elegante amigo Gustavo Falleiros. Falávamos sobre o Lou Reed e ele se lembrou de que o chocante eterno líder do Velvet Underground foi o responsável por sua conversão ao rock. Uau!! Revelação mais do que surpreendente para qualquer fã do gênero musical.

Ainda mais que esse segredo delicioso veio embrulhado numa sequência de lembranças afetivas formidáveis, quando ele emendou dizendo que tudo por “culpa” de uma programação infernal da Rádio Nacional, que reproduzia na íntegra, a lista dos melhores discos de rock de todos os tempos até então. “Foi a primeira vez que ouvi Venus in Furs”, confidenciou, referindo-se à lasciva canção do disco de estreia da banda nova-iorquina.

Daí, num piscar de olhos, meu chapa, eu viajei no passado e me lembrei dos meus tempos de adolescente, quando passava tardes inteiras, hipnotizado, ao som da Rádio Executiva FM, de Goiânia, me exilando do auge da música sertaneja. O mundo lá fora era só Zezé Di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, e eu me protegendo com o escudo musical do melhor da MPB e do Rock ‘n’ Roll.

 Tempos de grandes descobertas sonoras. Certo dia, enquanto um crepúsculo deslumbrante riscava o céu lá fora, num fim de tarde frio e triste, enquanto eu estava deitado no chão da sala, curtindo minha solidão de Robinson Crusoé, fui pego de surpresa por uma canção folk meio medieval com arranjo de cordas eletrizantes cantada por um sujeito de voz melíflua…

… Era o Mick Jagger cantando “As Tears Go By” e, desde então, diga o que quiserem, essa é a minha música predileta dos Stones…

… Bem, todas às vezes que escuto God Only Knows, dos Beach Boys, tenho a sensação de falar com Deus numa igreja vazia iluminada por vitrais espectrais… E sempre que ouço Coldplay, me lembro daquela garota de sorriso mágico que não consigo tirar da cabeça, dia e noite, como se ela fosse uma gostosa febre terça…

Mas voltando ao Lou Reed, hoje à noite, escutando aqui Pale Blue Eyes do Velvet, com aquela voz suja e sensual do cantor, me veio à cabeça o rosto delicado e angelical dela, cheio de pintas e com aquela boca com o risco mais lindo do mundo, como se ele tivesse sido feito pelo dedo de Deus… Ok, eu sei, ela não tem pálidos olhos azuis, mas tem o par de olhos castanhos mais deslumbrantes que já vi, com uma doçura de Capitu que faz meu coração afogar numa gostosa ressaca…

* Este texto foi escrito ao som de: Pet Sounds (Beach Boys – 1966)

Pet Sounds