Zeus em crise existencialista

Woody Allen "filma" a si próprio e Charlotte Rampling no filme dentro do filme

Em Memórias (Stardust memories/1980), Woody Allen vive um cineasta em crise existencial e profissional. Ele está cansado de fazer comédias e quer ser reconhecido como um diretor sério. O seu mais recente filme, um drama com toque de Bergman e abre metaliguisticamente a trama, é execrado pela crítica e pessoas mais próximas. Abatido, participa, meio a contragosto, de uma mostra sobre sua obra realizada no hotel Stardust Memories, ao mesmo tempo em que se perde em conflitos amorosos e memórias inquietantes. Entre jornalistas, produtores e fãs fervorosos ele alimenta seu rol de piadas niilistas ao sabor de um enredo felliniano e figuras malucas. A referência aqui é Fellini Oito e meio. Uma curiosidade: Memórias registra a primeira aparição nas telas de Sharon Stone, que faz uma pontinha longo nas primeiras cenas, como figurante do filme existencialista e bizarro do personagem vivido por Woody Allen.

(Um jornalista pergunta ao personagem de Allen)

– Muita gente o chama de narcisista.

– Sei que acham que sou egoísta e narcisista, mas isso não é verdade. Na verdade, se eu me identificasse com algum personagem da mitologia não seria com Narciso.

– Com quem seria?

– Zeus!

 (Outro jornalista insiste)

– Eu li que o senhor estudou filosofia na Faculdade.

­- Não, não é verdade. Eu fiz um curso de Filosofia Existencial na Universidade de Nova York e, no final, eles me deram dez perguntas e eu não consegui responder nenhuma. Deixei tudo em branco… Tirei nota máxima!

 (Num diálogo com a empresária e produtores de seu filme)

“Pra você sou ateu, para Deus sou a leal oposição.” (Personagem de Woody Allen no filme Memórias)

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Alguém aí me tira daqui!

Estou no novo trabalho há três meses. Acho que entrei numa roubada. Porque?!! Ora, não acontece nada meu Deus! E eu que não acredito em deus… Fico chocado, constrangido de ficar num lugar onde a burocracia é um estado de espírito. Também tem muita gente aqui. Um oceano de gente. Aliás, gente demais para pouco trabalho. Trabalho de menos para muito dinheiro. Estou asfixiado, me sentindo um zero à esquerda… Acho que não duro mais três meses… Por favor, alguém aí, me tire daqui!!!

Elsa & Fred às moscas no Cine Brasília

A solidão é grande, sufoca… É preciso aplacar a dor que cresce desenfreadamente dentro de mim com todas as armas disponível. Às vezes, como na canção, a solidão até que me cai bem. Às vezes não… E nessa angústia do dia sim, do dia não, a busca incessante por algo que fazer nessa cidade vazia, fria… Filmes pode ser uma boa opção para quem gosta da companhia de Mastroianni, Bergman, Ingrid, Fellini, Woody Allen, Monica Vitti e tantas outras estrelas. E o meu céu tão vazio, tão frio… Como o meu peito, como essa cidade…

Perdido, entro na sala do Cine Brasília. O silêncio é ensurdecedor. Pego a sessão das 19h. O filme Elsa & Fred, comédia dramática espanhola vivida pelos veteranos Manoel Alexandre e China Zorrilla. Os dois, na pele de um casal de velhinhos simpáticos e solitários. Ele, amargo e triste com a perda recente da esposa. Ela, esbanjando otimismo, esconde na vontade de viver as marcas de grave doença. A diferença entre os dois constrangem o pequeno público do cinema. Me espanta também a vastidão do Cine Brasília que, assim como eu, como Fred e Elsa, anda às mosca…

O Bem Amado de Guel Arraes decepciona!

Marco Nanini revive o clássico prefeito Odorico Paraguaçú em remake.

Refilmagem de O Bem Amado é uma decepção. Pelo menos no conjunto o novo filme de Guel Arraes decepciona. Muito pela repetição do estilo de contar história adotado pelo diretor de Lisbela e o prisioneiro, que dá claros sinais de desgaste. Saturação mesmo, no fazer cinema. Também pelo tiques que o artista herdou da televisão, onde começou a carreira e realiza grande parte dos projetos junto com nomes de peso como Jorge Furtado e João Falcão.

Mas podem ficar tranquilos que quem for assistir ao filme não vai perder dinheiro já que as gargalhadas estão garantidas. Tem passagens engraçadíssimas no remake. Na sessão que fui ontem (26/07) tinha gente engasgando com pipoca de tanto ri. Aliás, tinha muita gente no cinema. Não sei se era dia de promoção ou coisa do gênero, mas o fato era que tinha gente escorrendo pelas paredes. Prova de que, apesar de regular, a nova versão criada pelo genial Dias Gomes irá fazer sucesso arrebatador. Pelo menos é o que espera a produtora Paula Lavigne, que teve que captar R$ 10 milhões para tirar o projeto do cartola.

Muito do mérito dessas “duas estrelas e meia” se deve ao desempenho dos atores. Em especial, claro, a Marco Nanini, que até exagera um pouco nas já exageradas caretas e trejeitos do protagonista. Mas quem rouba a cena mesmo é Tonico Pereira – acostumado a fazer tabela com Nanini em A grande família – e Zé Wilker, talvez um dos melhores atores da sua geração. O primeiro na pele de um jornalista da oposição, o comunista Vladimir. O segundo encarnando o mítico “matador” Zeca Diabo, imortalizado na novela e séria global por Lima Duarte.

Na trama, que se passa nos anos 60 e numa Sucupira nada nordestina, Odorico Paraguaçu (Marco Nanini) é eleito prefeito da cidade após o assassinato do atual titular. Cravejado a tiros pela vingança do temido Zeca Diabo (Zé Wilker). Empossado, tem como meta de governo a construção de suntuoso cemitério, erguido, evidentemente, às custas de verba superfaturada e muita tramóia. Nesse intervalo, o corrupto prefeito se envolve e enrola de forma promíscua com as famosas irmãs Cajazeiras (Andréa Beltrão, Drica Moraes e Zezé Polessa) e o servil Dirceu Borboleta (Matheus Nachtergaele). Tendo como pedra no sapato o jornalista comunista Vladimir, vivido por Tonico Pereira, em atuação soberba.

O que me incomoda na nova versão de O Bem Amado é o fraco roteiro de Cláudio Paiva e Guel Arraes (de A grande família) que se apóia em plot chocho, pouco envolvente. Em alguns momentos o enredo chega ser cansativo e o desfecho é broxante, entregando todos os cacoetes e vícios do diretor pernambucano. Acomodado, Guel se deixa repetir usando as mesmas fórmulas narrativas que o ajudaram a consagrar seu talento em sucessos como O Auto da Compadecida e o já citado Lisbela e o prisioneiro, passando à retina dos espectadores (pelo menos os mais atentos e exigentes), a impressão de filme repetido, um certo e inconsciente trauma déjà vu. Os personagens Neco (Caio Blat) e Violeta (Maria Flor), por exemplo, guardam um grau de parentesco com a dupla Leléu (Selton Mello) e Lisbela (Débora Falabella), de (mais uma vez) Lisbela e o prisioneiro. O ponto alto do projeto é a trilha sonora (que já está à venda na praça) encabeçada por Caetano Veloso, que emociona o público ao entoar o poema Esta terra, do pernambucano José Américo.

Um dos responsáveis por revolucionar a narrativa dramatúrgica na televisão e no cinema à reboque de maneirismos técnicos e linguagem revolucionária, Guel deixou se acomodar, está estacionado no próprio sucesso. O que é um desperdício. É preciso se reinventar!