Depois da Tempestade (2016)

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No novo filme de Kore-Eda, um escritor em crise luta para se afirmar profissionalmente e reconstruir os laços familiares

Não sei por que, mas todas às vezes que vou ver um filme japonês que não seja os clássicos – ou seja, Kurosawa ou Ozu, que conheço pouco, por sinal -, eu entro na sessão com a impressão de que vai ser uma merda e o efeito final é o contrário. Foi o que aconteceu, por exemplo, com drama Depois da Tempestade, o mais novo trabalho do cineasta, Hirokazu Kore-Eda, em cartaz no Libert Mall.

A simplicidade da trama beira ao neorrealismo italiano. É a história de Ryota (Abe Hiroshi), um escritor que ainda não decolou, apesar de um livro publicado. Desiludido, ele também está em busca de reconhecimento como homem de família respeitado perante a mãe, a irmã, que ele odeia, a ex-esposa e o filho. Para piorar a situação, ele tem problemas em honra compromissos como pensão do filho e, como se não bastasse, é viciado em jogo.

Enquanto a fama não vem, o jeito é ganhar a vida frilando como dublê de detetive. Aliás, uma aventura que ele desenrola melhor do que escrevendo. Essas ações cotidianas de um homem aparentemente fracassado são ritmadas com a graça e o realismo dos dramas minimalistas dos conflitos domésticos. Bobagens corriqueiras como a falta de grana, implicâncias infantis pessoais com a irmã e a mãe, enfim, ciúmes de um amor que não existe mais.

“Desculpe por ser um filho fracassado”, lamenta o filho Ryota à mãe, uma personagem espirituosa e cheia de sabedoria vivida pela ótima Kirin Kiki.

Tal qual o cinema introspectivo do mestre Yasujiro Ozu, Depois da Tempestade é um conto singelo e sincero sobre o sentimento de familiaridade, da importância de ser feliz com aqueles com quem podemos de fato confiar, nossos parentes. Quem estará nos esperando de braços abertos mesmo depois de uma forte e inesperada tempestade.

* Este texto foi escrito ao som de: Come A Time (Neil Young – 1978)

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As Confissões (2015)

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No filme falando em inglês, francês e italiano, o ótimo ator Toni Servillo é um monge acusado deu crime na alta cúpula da sociedade política econômica

Tem filme novo do ator italiano Toni Servillo na praça. Trata-se do divertido drama de suspense, “As Confissões”, de Roberto Andò. Na trama, ele é Roberto Saulus, um monge italiano, inexplicavelmente, convidado para participar de uma reunião com a cúpula do G8 na Alemanha. Na pauta, a crise financeira global.

Mas ele não é o único estranho no ninho nesse encontro de homens e mulheres poderosos que têm o controle de decidir os rumos da humanidade com uma simples canetada. Integram o grupo uma estrela do rock e uma escritora de livros infantis, ambos levemente inspirados no cantor, Bono Vox e na escritora, J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter. A ideia é que, com esses convidados ilustres, humanize um evento tão sisudo aos olhos do mundo.

Mas, de repente, todos os olhos se voltam para o religioso discreto. Tudo porque, após um encontro as portas fechadas com o presidente do Banco Mundial, Daniel Roché (Daniel Auteuil), o líder financeiro aparece morto. Assassinato? Suicídio? Que confissão ele teria feito ao monge? Que mistério ronda um encontro tão badalado do ponto de vista financeiro que poderá afetar diretamente a humanidade? Será o religioso um criminoso?

A primeira impressão que se tem é que o espectador está diante de um enredo de Sherlock Holmes. “Saulus. Roberto Saulus”, se apresenta o personagem central dessa trama, numa clara referência a um dos detetives mais famosos da literatura universal. Lembra Sean Connery em O Nome da Rosa. Mas, assim como tudo nessa reunião de estrelas da política econômica mundial, tudo é uma farsa.

“Às vezes, ser uma minoria, é um privilégio”, ensina o religioso, esbanjando sabedoria e humildade. “As únicas riquezas que tenho são minha batina, minhas sandálias e o silêncio”, ironiza Saulus.

Falado em inglês, francês e italiano, As Confissões é uma fábula moderna sobre poder, ganância e, sobretudo, a fragilidade humana. Assim como em A Grande Beleza (2013), de Paolo Sorrentino, coloca em evidência mais uma vez o talento do ator italiano Toni Servillo. A cena final dele abandonando esse hotel luxuoso vazio de esperanças, é digna de um Dr. Lao. Ou seja, discreta e, exuberantemente, exemplar. Se é que me entendem.

* Este texto foi escrito ao som de: Everybody’s In Show-Biz (The kinks – 1972)

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As relações humanas e Leonard Cohen…

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“Quando eu quero saber o que pensa os meus sentimentos ouço uma canção barroca do bardo canadense, um dos maiores poetas do rock”

Ah, as tais relações humanas… Como é difícil administrar desejos, emoções e sentimentos, ainda mais que tudo hoje em dia se resume a vaidade e dinheiro. Ou sempre foi assim e eu que não sabia? Essa ingenuidade infantil minha ainda vai me colocar em maus lençóis, me deixar numa roubada… Bem, e vaidade para mim não é ser relevante o suficiente para atrair a admiração do maior número de pessoas possíveis, mas apenas ser importante para a pessoa que você admira…

…Então, ainda bem que no final deu tudo certo. Eu acho. Pelo menos por algum tempo, um breve espaço de tempo. Agora, aqui, dentro de mim, tudo está mais leve, sereno e tranquilo. Aquela tempestade cheia de som e fúria que me fazia perde a razão, o sentindo e o bom senso não me atormenta mais, adeus demônio insano da minha alma melancólica. A noite insone e lenta me cai agora como um sopro acalentador de ternura e sonhos de paz… Good night…

E tudo só porque ouvi a voz de anjo da guarda dela num fim de tarde angustiante em meio à beleza bucólica e sufocante do Catetinho. Só porque senti uma energia do bem emanando no ar enquanto ouvia sua doce retórica de acalanto deslizando pelos meus ouvido calejados de bobagens cotidiana…

Enquanto isso, a voz arrastada do menestrel Leonard Cohen me guiava solenemente. “Senhorita viajante, fique um pouco mais até a noite findar/Eu sou apenas uma estação pelo seu caminho/Eu sei que não sou seu amante…”, cantava o bardo canadense, norteando minha mente depressivamente sem rumo. “Eu sei que não sou seu amante”, era a frase que insistia ecoar em minha mente depressivamente desnorteada…

Todas as vezes que me sinto deprimido, assisto aos filmes do Woody Allen da fase Bergman, que são, deliciosamente, densos e cinzas. Ok, eu sei que fico mais deprimido ainda, mas é uma depressão gostosa, se é que me entende, porque me traz um momento de reflexão… Se é que me entende…

Bem, quando quero saber o que pensa os meus sentimentos, ouço poetas como o Leonard Cohen, que foi um dos maiores letristas do rock. Que escrevia poesias sentimentais existenciais amorosas como poucos. Que falava sobre os desvarios da alma e do coração com uma verdade sentimental sui generis… “Me leve até a esquina/Nossos passos sempre rimarão/Você sabe que o meu amor vai com você/Enquanto seu amor fica comigo”, canta o bardo canadense em Hey, That’s No Way To Say Goodbye, sua primeira canção que ouvi, long time ago, na voz do Renato Russo.

…Sou um rapaz sensível. Do tipo que deixa verter uma gota de lágrima só de ver uma folha bailando no ar no vento febril de outono. Ou se emocionar ao tropeçar com uma pedra solitária em forma de coração numa calçada da vida. Muito dessa sensibilidade tem a ver com a energia sentimental das canções barrocas de Leonard Cohen. Ou simplesmente por conta da voz mágica de anjo da garota que, alegremente, inferniza meu coração delirante… Tudo isso é distante, abstrato e um tanto quanto confuso, mas, paradoxalmente, confortante…

* Este texto foi escrito ao som de: Leonard Cohen (1967)

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Com a alma desbotada, desfocada…

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“Qual caminho seguir? Onde estão as pessoas de verdade, aquelas pessoas que me faziam feliz e existir?”

Com a alma desbotada, desfocada, quase apagando, à margem de mim mesmo, perdido e confuso, solitário e vazio. Qual caminho eu devo seguir? Sem tijolos amarelos no horizonte… Onde estão as pessoas de verdade? Aquelas que eu costumava acreditar? Aquelas que eu achava que me faziam feliz e existir? Uma lanterna de Diógenes, por favor!!

…Nem uma luz no fim do túnel…

Esqueço a lanterna. Então arregaço as mangas e peço binóculo emprestado a um amigo, só pra ver se consigo enxergar melhor a alma das pessoas, talvez eu me encontre ali. Nunca tinha pegado num. Só conhecia um desses trecos dos filmes do 007 ou do Macgyver, que você lembra, né?! Era aquele cara que, com uma agulha e um novelo de linha, construía uma bomba…

Pois bem, fucei daqui, fucei dali e não consegui enxergar nada. Reclamei então com esse meu amigo e ele quase teve um troço, ficou uma fera!! Eu estava olhando do lado errado. Depois ele teve uma crise de risos. Mas o pior não é nem isso. Com o foco ajustado, tudo certo, ainda não consegui enxergar a alma das pessoas, nem a minha…

…Muito decepcionado com NÓS, seres humanos… Cinza por dentro…

Desfocado na vida. Quase apagando… Fade Out… Fade In… Fade Out… De onde vem a maldade humana? No final, tudo se resume a ego e dinheiro, vaidade e dinheiro… Sentimentos sinceros é uma moeda barata no mercado… Sentimentos sincero é algo raro, quase em extinção na praça…

Bem, costumava acreditar em mim mesmo, acreditar nas pessoas, agora somos todos zumbis perdidos no nada sem alma. Passo em frente ao portão do cemitério e o vento sopra frio e enigmático. De repente, vejo todos os mortos me acenando com almas desfocadas, tal qual a minha… Então paro e olho para trás, me dando conta de que a esperança já era, não passa de uma mentira hedionda, abjeta e indecente… No final, tudo é solidão e escuridão…

Espíritos e sonhos destroçados. À margem de mim mesmo, desfocado e vazio, andando bêbado de tédio por aí, o álcool da decepção dança em minhas veias como um demônio insano e rebelde. Com a alma entorpecida, dormente, é mais fácil sobreviver. Não aceito ficar à margem do coração de quem sou dedicado e fiel. A ingratidão é um câncer que come minha alma desbotada dia e noite, e essa dor nas costas que não cessa… E essa dor chata nas costas que não me deixa dormir…

À margem de mim mesmo… Tomara que meu coração pare…

* Este texto foi escrito ao som de: Siberia (Echo &The Bunnymen – 2005)

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Geração em Transe – Luiz Carlos Maciel 2

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Foi o guru da contracultura quem apresentou o texto do avant-garde, Oswaldo de Andrade a Zé Celso nos anos 60

Em 1968, a notícia da morte do estudante Edson Luís, morto por militares no restaurante Calabouço, se alastrou por toda a cidade do Rio de Janeiro como um rastilho de pólvora. O triste episódio pegou de surpresa muitos artistas, entre eles o diretor Luiz Carlos Maciel e o dramaturgo Plínio Marcos, de bobeira num bar perto do Teatro Jovem, onde montariam a peça Barrela, categoricamente, barrada pela censura. Indignado, o autor de textos polêmicos como Navalha na Carne e Dois perdidos Numa Suja não titubeou:

– Todos os teatros do Rio de Janeiro vão fechar em protestos. Nada de espetáculos! – decretou Plínio para um espantando Maciel. – Mas como, Plínio? Como é que essa gente vai fazer isso? – devolveu o amigo, argumentando a realização de uma assembleia com a classe antes.

Espevitado, Plínio nem deixou o amigo terminar a frase, explicando que, com a ajuda dos estudantes, ia fechar, um a um, os teatros da cidade. E assim ia sendo feito, mas, logo no primeiro espaço, onde era encenada, justamente a peça Dois Perdidos Numa Noite Suja, do próprio Plínio, um senhor se levantou e começou a gritar: “Comunistas! Comunistas!”.

Encarregado de discursar interrompendo o espetáculo, o guru da contracultura Luiz Carlos Maciel não soube o que fazer diante da situação, sendo imediatamente salvo pelo esquentado Plínio Marcos, que foi logo dizendo:

– Olha aqui, o senhor é o tipo de espectador que eu não quero nos meus espetáculos. Já houve um engano do senhor te vindo aqui. Quero que o senhor passe na bilheteria e pegue seu dinheiro de volta agora. E nunca mais bote os pés numa peça minha, viu! Nunca mais!”, gritou.

Os estudantes, que acompanharam tudo com o coração na mão, reagiram ovacionando a cena com berros de “fascistas, fascistas!”. Envergonhado, o senhor meteu o rabo entre as pernas e não voltou mais.

Essa é uma das várias histórias deliciosas sobre o teatro político brasileiro nos anos 60, contadas pelo intelectual Luiz Carlos Maciel no seu livro Geração em Transe – Memórias do Tempo do Tropicalismo. Publicado em 1996, a obra relaciona o surgimento de um dos movimentos culturais mais importantes do país, a Tropicália, a partir da figura revolucionária de três artistas: o cineasta Glauber Rocha, o cantor Caetano Veloso e o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa.

Num dos capítulos, Maciel revela que a peça O Rei da Vela, montagem a partir de texto inédito do avant-garde, Oswaldo de Andrade, foi uma ideia sua. Na época Zé Celso estava incomodado com os rumos que o Teatro Oficina tomava e rugia por reformas urgentes. Mas qual texto usar para promover um espetáculo inovador? “Falei da peça com o maior entusiasmo, contei que pensava em montá-la, mas acrescentei que o mais importante era que o texto ganhasse o palco, qualquer que fosse o diretor. Estava com o livro em casa e podia emprestar. E assim foi feito”, revela o autor.

Nasceria assim um marco do teatro brasileiro.

* Este texto foi escrito ao som de: Everything Playing (The Lovin’ Spoonful – 1968)

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Demônio Neon (2016)

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“Demon Neon” trata-se de uma crítica original, cínica e sofisticada sobre o universo milionário passageiro e fútil da moda

O clima de “fábula David Bowie” o tempo todo perdura na trama do ótimo Demônio de Neon, novo filme do Dinamarquês Nicolas Winding Refn. Na trama, Jesse (Elle Fanning) é uma jovem de beleza ofuscante que sonha em ser modelo. Potencial para tanto a garota tem, que mais parece uma boneca de carne e osso desfilando entre as concorrentes invejosas. “Acho você perfeita”, rilha os dentes uma delas.

E é mesmo. Por isso Jesse é um colírio para os agentes e empresários do competitivo mercado da moda, um estorvo para as amigas de trabalho. De modo que não demora muito para ela virar persona non grata no pequeno clube em que agora ela faz parte. “Não sou tão indefesa quanto pareço ser”, avisa a bela garota.

A assepsia visual do filme é propositalmente perturbadora e dialoga com a áurea fashion fake em que essas belas garotas estão metidas ao longo de toda narrativa de Demônio de Neon. Tudo é muito limpo, belo e perfeito, mas no fundo o que os personagens desse filme original deixam transparecer é justamente o contrário. Belas divas diabólicas, um dono de hotel mau-caráter e mercenário (Keanu Reeves), uma maquiadora lésbica e solitária chegada à necrofilia.

Trata-se aqui de uma crítica original, cínica e sofisticada sobre o universo das passarelas. Enfim, a solidão do sucesso, o sorriso soberbo de quem tem certeza de que é perfeita, a futilidade dos diálogos nonsense, uma intrigante e discussão sobre beleza interior e exterior. Uma reflexão contundente sobre a perda da alma…

“Não quero ser ela. Elas é que querem ser eu”, resume a bela Jesse, quando percebe que chegou ao topo do mundo. Será?

* Este texto foi escrito ao som de: Diamond Dogs (David Bowie – 1974)

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