She’s leaving work, but my heart too?

Ela partiu mas vai morar para sempre em meu coração

Ela partiu mas vai morar para sempre em meu coração

Como sempre fui o último a ficar sabendo. Assim como naquela música dos Beatles, foi numa quarta-feira que ela deixou o lugar das minhas mágoas e angústias. Silenciosa e discreta como ela sempre foi e é, partiu com o coração quase em colapso, mas decidida a trilhar um novo caminho e essa vontade e coragem dela de mudar e tomar novos rumos me contagia, embora sua ausência, assim como naquela canção setentista crucifique minha alma, minha mente.

Por onde ela andará agora? “Você sabe quem eu sou, mas não sabe onde eu estou”. Mas acontece que eu sei quem ela é e onde ela está, senão e somente aqui, dentro de mim. Sorriso mágico ilumina meu ser em frangalhos e, se eu sobreviver algum dia, gostaria de morar em seu colo de conforto e paz.

Meu estômago dói e uma febre terçã poda meu entusiasmo no talo enquanto fantasmas do passado assombra meu presente. O futuro é incerto, complexo e patusco. É isso que dá estar cercado de gente cretina. Pessoas cretinas dão câncer, acredite. Por isso que sinto falta dela, de sua postura edificante e nobre, de quando ela, sem dizer uma palavra, apenas com sua presença de it girl, dava um sentindo a minha vida. Só que demorei muito tempo a perceber isso porque estava em busca da atenção de quem não me merecia.

Ela nunca me julgou pelos erros que cometi, nunca zombou dos meus sentimentos equivocados, atrapalhados, mas sinceros. Nunca se comportou como uma pessoa esnobe, pedante e sádica diante da fragilidade emocional do próximo e disso eu nunca vou me esquecer.

Agora Sugar man bombardeia minha cabeça, me sinto um Rodriguez de mim mesmo e tenho vontade de confessar coisas absurdas, como o meu rancor doentio por algumas coisas e pessoas. Devo ir para África do Sul? Pois é, eu tenho esse grande defeito, ou seja, guardar mágoas seculares dentro do meu peito e isso me faz mal, muito mal. “Soon you know I’ll leave you/And I’ll never look behind/’Cos I was Born for the purpose/That crucifies your mind”.

So, she’s leaving work, but my heart too? Confesso que ando meio sem rumo, sem o que ler no domingo, mas claro, ela mora e sempre vai morar em meu coração porque ela é a deusa do meu sossego, o ídolo dos meus desejos.

* Este texto foi escrito ao som de: Cold fact (Rodriguez – 1970)

Cold fact 3

Cenas de um casamento (1973)

O mestre Bergman nos bastidores da série televisiva

O mestre Ingmar Bergman nos bastidores da série televisiva

Se for para morrer, que seja assim, de uma maneira elegante, existencial (por mais contraditório que isso seja) e, porque não, inteligente, ou seja, de uma overdose de Ingmar Bergman. E para não dizer que não tentei este fim de semana me dediquei à vida, obra e pensamento de um dos maiores nome do cinema moderno, o sueco realizador de filmes inesquecíveis como O sétimo selo (1956), Persona (1966), Sonata de outono (1978) e tantos outros. E para quem não sabe, Ingmar Bergman é uma das minhas paixões para vida toda.

Claro, o fato de eu estar na reta final de sua autobiografia de 1987, Lanterna mágica, reeditada recentemente pela Cosac & Naify, me motivou a, mais uma vez, mergulhar nos trabalhos densos desse poeta da alma angustiada.

Aliás, repito novamente aqui, como Bergman tinha um texto delicioso de ler. A biografia que escreveu nem parece uma obra de memórias sobre sua trajetória de quase 90 anos de vida, mas uma coletânea de ensaios sobre passagens marcantes de um homem que o tempo todo lutou com os vários demônios que o cercaram como o medo do fracasso, o medo de ter medo de tudo, os demônios do rancor e da ira.

De tão bem escrito, Lanterna mágica é quase um romance onde o personagem central, o nosso inconfundível Bergman, Cenas de um casamentonos encanta pela sinceridade incômoda com que expõe erros e vaidades, excessos e fracassos pessoais e profissionais.

Um texto delicioso que perpassa o filme de episódio, Cenas de um casamento (1973), projeto que foi sucesso na televisão sueca no início dos anos 70 e que agora podemos conferir em DVD. Exibido outro dia no Telecine Cult, as tramas, que tive oportunidade de ver pela primeira vez nos meus tempos de faculdade, meio que pintam de forma irônica, amarga e divertida, como era turbulenta a vida conjugal do cineasta que foi casado várias vezes.

Mergulhados num cenário dominado pelos vários matizes de verde, o casal cínico e bem sucedido da série o tempo todo brinca e se encrenca, e tenta nos enganar e a enganar eles próprios com o teatro infantil de viver a aparência de um casal ideal, quando sabemos que é justamente o contrário.

Uma lição mais do que elucidadora para pensarmos duas vezes antes de inventar essa ideia ridícula de viver a dois, quando o espetáculo da solidão é muito mais edificante.

Para fechar, o documentário, A ilha de Bergman, surpreendente registro dos anos finais do mestre em sua paradisíaca Farö, onde, bem simpático, engraçado e revelador, fala de como foi um pai negligente, um marido e profissional de gênio difícil, que o teatro, mais do que o cinema, é dos aspectos religiosos em seus filmes.

“Não devemos falar em deus, mas sobre a Santidade dentro do homem expressada por pessoas iluminadas como os músicos, profetas e santos”, filosofa.

* Este texto foi escrito ao som de: Ring Ring (Abba – 1973)

Ring Ring

Jukebox Sentimental – Just getting older

Os irmãos Gallagher no auge da banda, um dos ícones do britpop...

Os irmãos Gallagher no auge da banda, um dos ícones do britpop…

Depois de Hey Jude, dos Beatles, e Moonshadow, do Cat Stevens, a música que me deixou, assim, digamos acachapado por um longo, longo tempo após a primeira audição foi Don’t look back in anger, do Oasis. Aliás, a banda dos meninos de Manchester que foi uma febre nos anos 90, na onda do britpop, acabou virando o som daquela década para mim e (What’s the story) Morning Glory o álbum mais tocado em minha vitrola sentimental na época.

Também pudera, só tinha hit atrás de hit, provando que Noel Gallagher entraria para a história como um dos maiores compositores de sua geração. Só naquele disco de 1995, podíamos nos deliciar com sucessos como Roll with it, Some might say, Cast no shadow e a psicodélica Champagne Supernova, entre outros.

Um dos trabalhos mais vendido em todos os tempos, na Inglaterra, (What’s the story) já atingiu até hoje a marca de 24 milhões de cópias em todo o mundo e uma delas é a minha, que guardo com bastante carinho na minha estante mágica.

Bom, muita gente fala que o Oasis é uma banda plagiadora e arrogante, um monte de bobagem do tipo, mas não entende que aquela sonoridade retro deles que vai de Beatles, sobretudo, a The Who, passando por Sex Pistols e T. Rex, também Oasis logoThe Kinks e Burt Bacharach, é uma forma criativa e sensível do Noel Gallagher homenagear e amalgamar em suas composições as mais diversas influências musicais.

Prova de que o cara, a cabeça e o coração do Oasis, tem uma vasta cultura musical. No mais, qual o problema se o Renato Russo cansava de fazer isso com suas letras?

Bom, tudo bem que Don’t look back in anger foi a canção da banda britânica que me deixou de joelhos, com aquela introdução a la Imagine e clipe maneiro, e que Champagne Supernova é o registro psicodélico mais contagiante que escutei pós Sgt. Peppers e o movimento Flower Power, mas na galeria de sucessos escritos por Noel há uma infinidade de joias.

Uma delas é a obscura, Going nowhere, mas me encanto fácil com a reflexiva Just getting older, uma espécie de ensaio sobre a chegada da velhice. “São nove horas e estou cansado/Me enjoei de todos os discos e roupas que comprei hoje/Estou sofrendo um colapso ou só envelhecendo?”, diz as primeiras frases.

Faixa obscura de um single  de 2002, que continha ainda a hipnótica Idler’s dream, o arranjo não poderia ser mais Burt Bacharach. Violão folk mesclado com órgão proustiano, voz suave que abre para uma parede de guitarras possantes, uma das marcas registradas do Oasis. Tudo bem que é uma faixa que se torna enjoativa após inúmeras audições, mas qual canção não seria? Difícil mesmo é não se apaixonar por essa pérola do pop britânico na primeira vez que escutar, é só tentar.

* Este texto foi escrito ao som de: Just getting older (Oasis – 2002)

Hindus times

Uma estação com cheiro de frio

"O inverno está chegando e com ele minha melancolia crônica".

“O inverno está chegando e com ele minha melancolia crônica”.

Mira o horizonte e sinta o cheio de frio no ar, o inverno está chegando e com ele minha melancolia crônica. Esse cheiro metálico e cortante, como num processo proustiano, me faz voltar no tempo e me lembrar de momentos felizes e tristonhos. Mais tristonhos do que felizes, mas tudo bem, eu também concordo com o Renato Russo, assim como ele, a tristeza até que me cai bem.

Cheiro de frio no ar e lá estou eu com os meus 14 anos, talvez 15 anos, não sei, caminhando lentamente, subindo o morro de asfalto que leva a escola da minha adolescência. E quantas bocas eu quis beijar naquela escola da minha aurora e não beijei, quantos sorrisos mágicos quis laçar, mas descobri que não tinha vocação para caubói.

E às margens desse morro de asfalto sinuoso adormece um canteiro de grama alvejado do mais branco sereno. Branco é a cor da paz, mas não aqui dentro de mim. O frio cortante com cheiro de tristeza faz meu rosto ficar dormente, assim como meu coração de espantalho quase sem vida, quase sem nada.

O príncipe dos caprichos não quer dividir o quarto. Raivoso como um anão de Velásquez, esboça sua infantilidade cretina porque se julga melhor do que os outros. E não tem nada a ver com o frio metálico e cortante que dança lá fora, na solidão da noite, no silêncio do escuro.  Tem a ver com a soberba implacável que vagabundeia dentro de cada um de nós.

Visto minha blusa azul marinho da Honda e me acho o tal subindo a ladeira sinuosa de asfalto que me leva à escola da Hondaminha adolescência. Ali perto tinha uma ponte caindo aos pedaços onde eu e os meus amigos nos aventurávamos atravessando o passadiço apodrecido. E se nós caíssemos lá no rio de águas sujas e fria? Quem avisaria minha mãe que as correntezas da água suja e fria do rio abaixo da ponte podre me levasse embora para a Terra do Nunca onde não existe nenhum Peter Pan?

O frio me traz boas e más recordações, mas más do que boa, mas mesmo assim gosto do vento metálico e cortante soprando em minhas narinas. Porque é uma sensação real, uma sensação que me faz sentir que sou verdadeiro, uma sensação que, de certa maneira, me blinda diante da hipocrisia e falsidade que ronda à humanidade desde os primórdios.

Um dia eu vou embora para minha Pasárgada, lá não serei amigo do rei, nem terei a mulher dos meus sonhos e nem dormirei na cama que escolher, mas o Sol será o da meia noite e a garotas, alvas, cheias de sardas, esbanjado sorrisos mágicos como a aurora da minha tristeza fria e melancólica.

Tudo que quero é o conforto da solidão fria dos meus livros. Quero que o meu túmulo seja feito de livros e que eles aqueçam minha alma quando ela estiver cinza, triste e sem vida.

* Este texto foi escrito ao som de: Teaser and the firecat (Cat Stevens – 1971)

Teaser and the firecat

Homem de ferro 3 supera em barulheira

Novo filme da grife trz ensaio sobre o ego e a obsessão

Novo filme da grife trz ensaio sobre o ego e a obsessão

De todos os super-heróis que habitaram a minha infância o que mais gosto e sempre amei é o cavaleiro das trevas. Pelo humanismo niilista que perpassa sua persona, pela alma traumatizada que carrega, enfim, pela psique atormentada que move seus atos heroicos. Tudo bem, ele é cheio de cacarecos como cinto de utilidades, batmóvel e não sei mais o quê, mas é um justiceiro de carne e osso.

O irônico Tony Stark também é um super-herói de carne e osso, quando não está se divertindo com sua armadura pirotécnica, claro. Mas ao contrário de Batman, minha predileção pelo Homem de Ferro não se deve dos tempos de históricas em quadrinhos e desenho animados, mas pelas ótimas adaptações para o cinema, digam-se de passagem, das poucas que se salvam desse exército da Marvel nas telonas.

Muito do sucesso de Iron Man se deve ao carisma do ator Robert Downey Jr., perfeito no papel do arrogante, egocêntrico, mas divertido Tony Stark. Engraçado que não me lembrava desse lado histriônico do personagem na minha infância.

Mas tudo bem porque eu também não me lembro dos dois filmes anteriores da grife Marvel de maior sucesso no momento. Só sei que dos três, este é o mais barulhento de todos, não que isso seja ruim em se tratando de histórias entre Homem de ferro 3.1mutantes. De qualquer forma, incrível o que os computadores podem fazer hoje em dia em se tratando de manipulação de imagem.

Pegando carona na onda de terrorismo e do fantasma de Osama Bin Laden, dessa vez nosso herói enlatado tem como inimigo um líder fanático (Ben Kingsley) de um desses países do Oriente Médio que quer se vingar de todas as maldades causadas pelos Estados Unidos. Ele se autointitula o Mandarim e quer dá uma lição na América. “Você sabe quem eu sou, mas não sabe onde estou”, provoca ele, desafiando o presidente da maior potência do mundo.

Acontece que o inimigo em questão é mero fantoche na mão do verdadeiro vilão (Guy Pearce) da história que, com seus poderes mutantes, irá colocar em teste, mais do que nunca, as habilidades de engenheiro do homem dentro da máquina mecânica que voa.

Mais apurado nas piadas, instigantes nas subtramas, como a que envolve o garotinho descolado – embora não sabemos de onde ele veio -, é contundente na crítica ao ego e a obsessão que ronda a vida de nós, pobres mortais, Homem de ferro é garantia de diversão na pior das hipóteses. Na melhor, só se você conseguir ingressos de graças para a sessão com direito a acompanhante. De preferência se ela for a gatinha sardenta da Gwyneth Paltrow.

* Este texto foi escrito ao som de: Master of reality (Black Sabbath – 1971)

Master of reality

A história de Ceres e Bernardo Sayão

O homem figura símbolo do vale do São Patrício

O homem-símbolo do vale do São Patrício

A cidade goiana de Ceres é um dos principais municípios do Vale do São Patrício. Embora, na minha infância, eu fosse muito à vizinha Rialma, separada apenas pelo mítico Rio das Almas, nunca atravessei uma das duas pontes que a separa para conhecer a, digamos assim, sua irmã mais prendada. As lembranças que tenho de Rialma são dos asfaltos de paralelepípedos e a arquitetura art decó de algumas casas e armazéns, embora eu só viesse saber o que seria art decó anos depois. De Ceres nenhuma, a não ser que na mitologia grego-romana fizesse referência à deusa dos cereais, dos grãos, da colheita ou algo assim.

Pois bem, outro dia fui a Ceres e finalmente conheci a cidade fundada por Bernardo Sayão, o carioca que, a pedido de JK, largou a tranquilidade das praias do Rio de Janeiro para desbravar terras inóspitas no coração do Brasil e rasgar o país com o sonho da Belém-Brasília.

Ceres bandeiraBom, a história de Bernardo Sayão, por mais parca que seja eu conheço, mas jamais imaginava que um dos diretores mais importantes da NOVACAP (Companhia criada por JK para construir a nova capital, daí sigla), tinha sido fundador de Ceres, isso em meados dos anos 50, após ser o primeiro administrador da Colônia Agrícola de Goiás na região.

Daí que fui entender o porquê do busto do pioneiro na entrada da cidade, as avenidas e ruas com seu nome ou alusão a sua figura em quase todas as praças, nomes de lojas e cantos, enfim, a reverência e referência a sua figura quase que messiânica. Aliás, Bernardo Sayão dá nome às principais ruas, avenidas e espaços de várias cidades às margens da Belém-Brasília.

Essa relação de Ceres com seu fundador é muito bonita e interessante, mas confesso que esperava mais da cidade que achei assim um tanto quanto insossa, sem graça, destituída de aventuras boêmias e outras mais.

A cidade tem lá, sim, suas igrejas belas, católicas ou não, mas me interessei mais pela figura de Bernardo Sayão, um colosso de pessoa que andava com naturalidade entre os peões das obras que administrou, enfim, que fez do seu jeito brejeiro e simples de ser, uma das figuras símbolos da construção de Brasília.

* Este texto foi escrito ao som de: O cantadô (Rolando Boldrin – 1974)

Rolando Boldrin

O palhaço que não ri (1957)

Maior rival de Charles Chaplin, Keaton morreu pobre

Maior rival de Chaplin, Keaton morreu pobre

Quem foi Buster Keaton (1895 – 1966)? Ninguém menos do que o maior rival de Charles Chaplin no cinema. Mestre na pantomima, o astro do cinema mudo morreu pobre e quase no ostracismo. Admito com sincera vergonha que nunca vi um filme dele na vida e a cena mais marcante dele que tenho em mente e numa rápida aparição em Crepúsculo dos deuses (1950), clássico de Billy Wilder em que o diretor ironiza com o estilo que é bem peculiar, dos grandes nomes do cinema em decadência.

De feições melancólicas, sua trajetória de apogeu e decadência foi contada no cinema em 1957 por Sidney Sheldon em, O palhaço que não ri, o escritor de romances policiais que pelo menos três vezes na vida se meteu a dirigir filmes. Ainda bem que foi pelo menos três vezes.

Protagonizado por Donald O’Connor, o eterno parceiro de Gene Kelly na obra-prima Cantando na chuva (1942), o filme é convencional, simplista e sem clímax. Não fosse o carisma e competência de O’Connor, eu tinha desligado a televisão antes dos trinta minutos de exibição.

Buster Keaton 2Na trama, várias passagens da trajetória de Keaton vêm à tona como o início da carreira com os pais, ainda menino, no vaudeville, os primeiros passos no cinema, quando este ainda estava engatinhando e criando os primeiros ídolos – Keaton – um deles, a decadência após a chegada do som nas telas, os problemas com a bebida.

Bom, li depois não sei onde, que o roteiro do próprio Sidney Sheldon distorceu, e muito, momentos críticos da vida do artista, dando um tom novelesco tão característico às cinebiografias não confiáveis. Prova desse embuste narrativo está no desfecho meloso e condescendente demais com o propósito de Keaton, que foi consultor técnico da fita.

À revelia dos problemas do filme, não há como passar indiferente à atuação de Donald O’Connor que, versátil, ágil e bom ator, consegue dá dignidade à figura pálida de Keaton, um palhaço de alma melancólica que, de fato, não ria, pelo menos externamente. Os momentos mais quentes dessa fita morna são aqueles em que o ator reproduz nas telas cenas marcantes de Keaton no auge da carreira, com as gags do sujeito perseguido por uma cidade inteira por conta de uma banana e piada do casal que não consegue dormi juntos.

De resto, não deixa de ser um trabalho que mostre, pelo menos para aqueles que nunca ouviram falar de Buster Keaton e seus contemporâneos, que um dia já existiu cinema sem som, onde a alma do palhaço, mesmo que melancólico, era o que tinha de melhor em cena.

* Este texto foi escrito ao som de: The greatest songs of the fifties (Barry Manilow – 2006)

Barry Manilow

O terrorista dentro de cada um de nós

Os terroristas agora estão no meio de nós

O terrorismo na América é um reflexo do culto à violência deles

O recente atentado terrorista à cidade de Boston, no último dia 15 de abril só vem mostrar que o mundo há tempos anda de pernas para o ar. Pior, que a situação para os americanos, desde o fatídico 11 de Setembro, não melhorou em nada e tudo indica que as coisas podem piorar. E ao escrever isso, só tenho a dizer uma coisa, que os Estados Unidos estão colhendo o que plantaram, ou seja, violência e discórdia.

Desde a 2ª Guerra Mundial é assim, quando duas bombas atômicas arrasaram Nagasaki e Hiroshima, numa demonstração imbecil de poderio bélico. A partir dali em diante, a América e o seu povo fanático por guerras e armas assinaram uma sentença de autodestruição suicida que se materializa em forma de vários atentados.

E confesso que não tenho comiseração com relação ao povo norte-americano não porque é uma sociedade doentia que cultua a violência. Só que os “Rambos” da vida real não resgatam soldados na selva vietnamita, nem salvam a Europa contra o Eixo do mal. Os “Rambos” da vida real agora soltam bombas covardemente no meio da multidão, machucando e matando milhares de inocentes.

Aliás, essa imagem apocalíptica já tinha sido cantada pelo Arnaldo Jabor na época do Manhattan Connection, quando ele Boston 2disse que o terrorista do futuro estaria no meio de todos, em qualquer lugar, em toda parte, sendo qualquer um e com um botão apenas mataria milhares de vidas em pleno metrô de Nova York. Tudo bem, Jabor errou a cidade e o local, mas acertou em cheio na situação.

Bom, não sei o que passava na cabeça dos irmãos Tsarnaev, talvez não muita coisa ou nada, quem sabe muita merda e não acredito que eles sejam os verdadeiros culpados desse episódio específico, mas o fato é que estamos refém do terrorista que existe dentro de cada um de nós, do terrorista que está no meio de nós que pode ser eu, você ou o vizinho do lado.

Sim, porque foi Oscar Wilde quem disse que há dentro de nós o céu e o inferno, o bem e o mal e é diante deste maniqueísmo simplista que rege o signo da vida, que nossas almas estão mergulhadas desde que nascemos. “Ou evoluímos ou desapareceremos”, disse certa vez Euclides da Cunha, autor de Os sertões. E quer saber? Do jeito que as coisas andam, é melhor que desaparecemos mesmo.

Quando acontecem umas porcarias dessas e é o tempo todo, me lembro daquela frase que abre o filme Os 12 macacos, do Terry Gilliam, que gosto tanto: “A raça humana deveria ser extinta da face da terra”.

É isso aí!

* Este texto foi escrito ao som de: Different gear, still spending (Beady Eye – 2011)

Beady Eye

Os segredos do exótico hotel Marigold

Personagens em conflitos que se encontram na Índia

Personagens em conflitos que se encontram na Índia

Quando a comédia dramática, O exótico hotel Marigold estava em cartaz em Brasília não pude ver por vários motivos, falta de tempo, grana, cansaço, excesso de trabalho. Mas outro dia consegui pescar o filme no canal Telecine Premium e é com muito gosto que escrevo sobre ele ali porque é um trabalho espirituoso, gentil, sóbria acerca da vida e das contradições que ela nos apresenta. Dirigido pelo britânico John Madden, o cineasta que nos encantou com o soberbo, Shakespeare apaixonado (1997), a fita é um sundae pelo humor com que mostra as facetas mais ridículas do ser humano.

É a história de um grupo de aposentados que, por vários motivos, estão em ruínas sentimentais e financeiras, e que se encontram no maravilhoso hotel Marigold, na Índia. Pelo menos é o que apresenta o anúncio do pacote turístico, mas tudo não passa de propaganda enganosa quando todos chegam lá.

Confinados em suas limitações materiais e espirituais, cada um, a sua maneira e estilo, se deixam, aos poucos, revelar a verdadeira faceta que escondem por trás de grotescas maquiagens e sorrisos falsos. Em pouco tempo o casal de servidores públicos que vivem um casamento feliz de aparência não mais toleram mentiras na relação, uma recém-viúva dependente do marido se mostra diletante na hora de enfrenta a vida sozinha, a governanta desprezada pelos patrões que teve a vida toda deixa a amargura e preconceito que carrega com defesa diante do descaso para abraçar o próximo com gentileza e amparo.

Hotel MarigoldAssim são os hóspedes do exótico hotel Marigold, uma mescla do que há de pior e do melhor da raça humana, sintetizados no autêntico humor britânico. “Tudo dá certo no fim. Se não deu é porque não chegou ao fim”, diz um ditado indiano que capta com excelência e irreverência o espírito do filme.

Além de Dev Patel, o ator sensação do drama, Quem quer ser milionário (2008), abrilhantam o elenco de O exótico hotel Marigold, os ótimos, Judi Dench, Maggie Smith (a bruxa experiente da saga Harry Potter) e Tom Wilkinson, que em minha opinião, faz o melhor personagem da trama, um juiz homossexual que regressa ao país onde encontrou o grande amor de sua vida, anos atrás, para um momento de redenção e prazer pessoal.

“O único fracasso verdadeiro é o fracasso da tentativa. Medimos nosso sucesso conforme lidamos com as nossas decepções. Como sempre deve ser”, diz a insegura, mas persistente personagem de Judi Dench.

Tudo bem, você já assistiu, com certeza, obras marcantes tendo como cenário o país de Mahatma Gandhi, pela ótica ocidental como, Passagem para Índia (1984), A viagem para Darjeeling (2007), Comer, rezar e amar (2010) e tantos outros, mas com certeza poucos tiveram a sinceridade poética e densidade humanista dessa comédia dramática sobre a beleza de viver, o que para os indianos não é um privilégio e não um direito. “Quando alguém morre passamos a pensar em nossas vidas”, filosofa um dos personagens dessa recente pérola do cinema introspectivo.

* Este texto foi escrito ao som de: All things must pass (George Harrison – 1970)

All Things must pass

Jukebox Sentimental – Goin’ to Acapulco

O bardo na persona de palhaço entristecido, voz metálica...

O bardo na persona de palhaço melancólico…

E lá estava eu e o Tiago Superoito, perdidos pela Paulicéia desvairada, em busca de Bob Dylan no Festival Internacional de São Paulo. O ano eu não lembro, só sei que encontramos o bardo norte-americano bem ali, se não me engano, na Rua Augusta, casa cheia por conta do filme-colagem de Todd Haynes, I’m not there.

Foi então que escutei pela primeira vez a baladona Goin’ to Acapulco e me deu vontade de deixar todo mundo para trás e pegar o próximo avião para o México. “Indo para Acapulco/Indo na corrida/Indo ver uma garota/Vai ter divertimento/Sim, vai ter algum divertimento”, diz o refrão da letra que nem era cantada por Dylan, mas por Jim James e a banda Calexico.

Contudo, a imagem era forte, impactante, com uma banda em farrapos tocando no coreto de uma praça onde se encontrava uma jovem virginal no caixão. Num cenário de Salvador Dalí, uma girafa, crianças de presépio e soldados derrotados da Guerra Civil americana, a face do vocalista com traços de um palhaço entristecido, voz metálica, num quase dueto com os arranjos de metais da canção. Nada era mais desolador do que a figura de Richard Gere estático no meio da multidão, mergulhado num caos de solidão e dor.

Pois é, de todos os sucessos de Dylan, eis a canção do grande artista que mais me sensibiliza. Pelo menos neste momento porque houve um tempo em que a nebulosa, Not dark yet era o hit da minha vitrola sentimental. Gravada em 1975 com os meninos da The Band, Goin’ to Acapulco ganhou versão imponente para a trilha sonora de I’m not there graças aos meninos do Calexico e Jim James.

Letrista original e prolixo, criador de imagens poderosas, Bob Dylan sem sombra de dúvidas é um dos maiores poetas de seu tempo. Like a rolling Stone, It’s all over now, baby Blue, Sad eyes Lady of the Lowlands, Girl from the North Country, Blowin’ in the wind, enfim, uma infinidade de canções que habitam o inconsciente coletivo de milhares de pessoas. Para mim, suas poesias musicadas surgem como espécie de reboco de preenchimento de minh’ alma atormentada.

* Este texto foi escrito ao som de: The basement tapes (Bob Dylan/The Band – 1975)

The basement tapes