Diretores – Roberto Rossellini

Escândalo: Ingrid trocando o glamour de Hollywood pela Itália do cineasta amante

Escândalo: Ingrid trocando o glamour de Hollywood pela Itália do cineasta amante

A forma crua, sincera e direta de se fazer cinema do neo-italiano foi imprescindível para o surgimento do Cinema Novo no Brasil nos anos 60 e, a figura charmosa e elegante de Roberto Rossellini, mais do que fundamental para cimentar essa importância entre os novos cineastas brasileiros que estavam surgindo no momento. Como era gostoso de ver e ouvir a voz forte de Glauber Rocha falando o nome de Roberto Rossellini naqueles tempos de faculdade. “Desde Roma, cidade aberta, os filmes de Rossellini propunha um cinema humanista como aquele que imaginávamos fazer, um cinema em que não se maquiava a realidade como estávamos acostumados a ver na produção norte-americana”, escreve o cineasta Cacá Diegues em sua autobiografia, Vida de cinema, lançada recentemente.

Mas a capilaridade da influência do diretor italiano não se restringiu apenas à iniciante cinematografia nacional. Com o seu seminal Roma, cidade aberta, para muitos especialistas um dos dez maiores filmes da história do cinema, Rossellini sem saber, deu régua e compasso para toda uma geração de diretores no mundo todo naquela época. De repente, estava na moda ser admirador do neo-realismo. Sem Rossellini, a nouvelle vague também não existiria. “Se as imagens estão aí no mundo à nossa disposição, por que manipulá-las para fazer um filme?”, ensinava o mestre.

Mais tarde, no terceiro ato da vida, o diretor italiano, num sopro de renovação, revelou suas ideias sobre as relações entre cinema e televisão, mídia onde realizaria seus últimos trabalhos. No entanto, como numa romântica história de cinema, nada foi mais emocionante do que o romance do diretor com a diva sueca Ingrid Bergman, um escândalo para época.

Roma cidade abertaTop Five – Roberto Rossellini

Roma, cidade aberta (1945) – Um marco do cinema, o filme nasceu dos escombros da 2ª Guerra Mundial, quando não se tinha quase nenhum recurso para fazer arte na Itália. Substituindo as ruas pelos estúdios, o cineasta revolucionaria a narrativa clássica com um toque especial entre o estilo documental e o despojamento naturalista das atuações.

Stromboli (1949) – Em seu primeiro filme com o amante Rossellini, a bela Ingrid vive aqui uma jovem refugiada lituana que vai morar à beira de um vulcão numa ilha italiana. O cenário exótico imprime uma realidade quase fantasiosa para falar de uma relação marcada pelas diferenças.

Viagem à Itália (1953) – Mais uma vez o diretor questiona os conflitos da vivência a dois nesse drama pungente estrelado pela mulher Ingrid Bergman e o inglês George Sanders. Icônica e simbólica a metáfora dessa conturbada relação na clássica cena em que o casal caminha pelas ruínas antigas de uma civilização.

Paisà (1946) – Posso estar enganado, mas talvez Gillo Pontecorvo tenha se inspirado em algumas cenas desse filme de episódio para fazer o contundente A batalha de Argel. Humanista, Paisà traz histórias de amor, amizade, lealdade e às vezes de terror, entre o povo italiano com os soldados estrangeiros.

Nós, as mulheres (1952) – Filme de episódios dirigidos por grandes mestres italianos, Rossellini se destaca aqui ao dirigir a esposa Ingrid Bergman na bizarra história de um frango e um jardim de rosas.

* Este texto foi escrito ao som de: White album (The Beatles – 1968)

White album

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“Não sou uma estrela, sou uma atriz que trabalha”

Simples, Geraldine quebrou protocolos com seu jeito Chaplin de ser…

Simples, Geraldine quebrou protocolos com seu jeito Chaplin de ser…

Há uma imagem de infância que persegue a memória da atriz Geraldine Chaplin até hoje. Era quando ela tinha dois ou três anos, em Los Angeles, e seu pai, o grande mestre Charlie Chaplin, a acordou no meio da noite para mostrar a neve no jardim da mansão da família. “Ele me pegou em seus braços e ainda me lembro do cheiro de seu corpo e do silêncio da neve”, contou a artista, em entrevista que fiz, ontem, na sala 4 do Liberty Mall, durante o Festival Internacional de Cinema de Brasília (BIFF). “No outro dia, quando acordei, não tinha neve nenhuma, não tinha nada”, disse perplexa, sem saber se tudo não passou de um sonho ou se ainda é uma longínqua recordação perdida de um passado distante.

Momento mágico esse que tive oportunidade em minha carreira. Fiquei encantado com os grandes olhos azuis brilhantes dela, olhos penetrantes, cheios de vida. Divertida, carismática e de uma simplicidade constrangedora, Geraldine vem encantando a todos em sua passagem pela capital brasileira com um jeito Chaplin de ser. Sem cerimônias, perita em quebrar protocolos, ela faz questão de conversar com todos que a abordam, de público a imprensa. E o motivo de tamanha entrega e consideração, diria até que devoção tem explicação. “Não sou uma estrela (risos), sou uma atriz que trabalha e é difícil ser uma atriz que trabalha”, ironizou, quando perguntei sobre sucesso.

Aos 70 anos de idade, 62 deles dedicado ao cinema e aos palcos, Geraldine contou que deixou de ser bailarina para ser atriz porque não tinha vocação para a dança. E que nunca se importou com o fato de ser filha de Charlie Chaplin. “As pessoas dizem que ele foi uma sombra em minha vida e que maravilhoso que tenha sido, abriram se muitas portas para mim”, comentou pragmática.

Falando um espanhol impecável, melhor que o meu português ruim, o que possibilitou que eu entendesse tudo o que elacharlie_chaplin_scomposition_by_pietrocastagna-d4v2gti falou, claramente, a atriz confessou que não conhece muito sobre o cinema brasileiro, mas que não esquece o dia em que viu pela primeira vez, na Espanha, o filme Antônio das Morte (título internacional para O Dragão da maldade contra o Santo Guerreiro), do baiano Glauber Rocha. “Foi muito chocante, aquele filme me golpeou visualmente, ele era um gênio louco”, lembrou emocionada, revelando, bem à vontade, que chegou a fumar haxixe com o amigo, na época de sua passagem por Madri, acompanhado de uma namorada francesa. “Não lembro o ano, mas foi durante um festival”, destacou.

Outro momento surpreendente foi quando, orientado pelo amigo Ulisses, perguntei sobre sua experiência de filmar com o boliviano Jorge Sanjinés, nos anos 90, o drama Para recibir el canto de los pájaros. “Jorge sanjinés é um ídolo, sou encantada por ele desde que vi, nos anos 60, O sangue do Condor”, revelou suspirando. “Foi uma experiência filmar com ele a 5 mil metros de altura”, recordou.

Na noite de abertura do BIFF, na última quinta-feira, no Cine Brasília, palco de grandes momentos presenciados por mim, como esse, Geraldine Chaplin reviu emocionada, Luzes da ribalta (1952), filme que marcou sua estreia nas telonas aos nove anos de idade, sob a direção do pai. “Ele foi um artista único e ele mesmo dizia isso”, me revelou convicta. “Luzes da ribalta é um filme triste, porque fala sobre o terceiro ato da vida”, salientou.

Depois desse encontro formidável, fui embora feliz da vida, com a alma mais leve que uma pluma e com o coração cheio de humanismo e esperança, assim como os filmes do Chaplin.

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1966)

Roberto Carlos - 1966

O casamento de May (2013)

Nesse filme jordaniano, três irmãs dividem conflitos morais entre dois mundos...

Nesse filme jordaniano, três irmãs dividem conflitos morais entre dois mundos…

Eu vi essa fita no Liberty Mall antes de começar o BIFF e, se depois que acabar o evento ela voltar ao espaço, assista. É no mínimo divertida. Dirigido, escrito e protagonizado pela bela Cherien Dabis, artista norte-americana filha de pai palestino e mãe jordaniana, o filme, ao contrário do que se possa imaginar, não é apenas sobre os maçantes conflitos árabes na região. Também, mas a questão surge na trama como tema secundário, envolto aos dramas da personagem-título, que não sabe se casa ou se segue a vida livre, leve e solta. Daí o título sugestivo e irônico. Irônico porque o desfecho é surpreendente.

Escritora de sucesso, May retorna de uma temporada dos Estados Unidos ao ceio da família na Jordânia. Daqui a algumas semanas o noivo chegará para a cerimônia de casamento, mas a receptividade em torno do evento não é uma unanimidade entre os familiares. E por um motivo muito simples: May é uma palestina de origem cristã, e o futuro marido mulçumano. Pronto, está armado o racha com a mãe uma seguidora de Cristo relutante contra a união.

“Não conte comigo para o casamento”, avisa.

MayEnquanto esse conflito de opiniões religiosas se desenrola, May ainda tem que lidar com suas dúvidas com relação ao sentimento que sente pelo homem com que vive. Afinal, ela ama ou não ama o noivo?

Angustiadas, elas dividem suas tensões e conflitos com outras duas irmãs de personalidades e estilos de vida diferentes, dando vazão à trama, sem forma a barra, a um olhar feminino e feminista. Filhas de pai americano (Bill Pullman) e mãe palestina, o tempo todo elas confrontam as ansiedades, hesitações e temores que a angustiam sempre sob o prisma de dois mundos. Dois mundos divididos pela separação dos pais que ainda se amam, mas não se entendem.

A paisagem árida, seca e branca tão peculiar dos filmes árabes está lá. O drama de se viver numa região marcada por conflitos religiosos seculares também, mas mostrado de forma sutil, como na passagem em que, na praia de um clube, a beira do mítico Mar Morto, elas olham para horizonte e refletem: “Ali do outro lado é a Palestina. Nem dá para imaginar que eles estão em guerra”, diz uma delas. “E a gente aqui preocupada com futilidades”, emenda a outra.

O legal de O casamento de May é a abordagem universal dada pela diretora Cherien Dabis aos problemas que a cercam, seja de caráter pessoal ou político-social. Assim, tirando uma cena ou outra, como a de May fazendo jogging pelas ruas de Amã, diante de olhares masculinos impiedosos, nem parece que estamos diante de um filme realizado no Oriente Médio, mas em qualquer parte do mundo. Ah, sim, e como é belo o deserto filmado aqui.

* Este texto foi escrito ao som de: O descobrimento do Brasil (Legião Urbana – 1993)

5.1.2

Porque não acredito em políticos

Achei a Marina Silva Sincera no JN, mas não voto nela e nem em mais ninguém

Achei a Marina Silva Sincera no JN, mas não voto nela e nem em mais ninguém

Em países como Japão e Coréia do Sul, o que mais se vê é político pedindo desculpas pelos erros e falhas que cometeram. Outros, mais radicais, até cometem suicídio por conta de algo que eles têm de sobra e que aqui está em falta que é: vergonha. No Brasil, o país da esculhambação geral, é justamente o contrário. Ou seja, quanto mais sujo, canalha e mala o sujeito for, mas o povo gosta e o cara tem credibilidade. É não deixa de ser irônico e nebuloso que, logo na capital do país, no coração do Brasil, o centro das grandes e mais importantes decisões políticas, tudo seja uma patuscada geral.

“Quando a gente não pode fazer nada a gente avacalha”, diz o personagem-título de o Bandido da luz vermelha, clássico de Rogério Sganzerla.

Tomemos como base o hediondo caso de José Roberto Arruda. Um dos políticos mais inelegíveis do país, por conta de seu passado de corrupção e sujeira e, no entanto se, o STF não brecar o cara, corre o risco de ele ganhar no primeiro turno e com folga. Políticos como Arruda deveriam ser extintos do mundo da política e porque não da face da terra. Mas não, o cara é tratado como um rei do pedaço e daí vira essa bagaceira toda. E fazendo escola.

Sim, porque o secretário de saúde do GDF Rafael Barbosa, assim como o seu chefe, o governador Agnelo Queiroz, foi umharakiri poço de incompetência em sua gestão, mas agora briga por uma vaga na Câmara dos Deputados. Se tivesse óleo de peroba em casa, diante da péssima administração que fez, pediria para ir ali no matinho e não voltava mais. E pior é que, tantos outros como ele não fizeram nada em prol da comunidade e continua insistindo em morder o osso. De modo que, a impressão que fica é que, no Brasil, político bom é político marginal.

Bom, vi a entrevista da Marina Silva no Jornal Nacional. Primeiro queria dizer que achei a postura do almofadinha do William Bonner e da boneca Patrícia Poeta, arrogante. Sempre é, de modo que não sei porque insisto em assistir os dois em ação. Mas enfim, falando da Marina, achei a candidata do PSB convincente e sincera, mas não vai ganhar o meu voto. Nem ela e nenhum outro e por um motivo muito simples. São todos farinha do mesmo saco. Até mesmo a Marina Silva que, com aquela cara de retirante do outro lado do além-mundo, acaba se rendendo ao sistema. É isso mesmo. No final das contas, todos acabam se corrompendo porque, como disse o Rousseau: “O homem nasce naturalmente bom, mas a sociedade o corrompe”.

E isso serve para mim, para você é para o seu Zé do picolé ali da esquina. A política no Brasil é um caso perdido. Sempre foi.

* Este texto foi escrito ao som de: Na loucura e na lucidez (Tatá Aeroplano – 2014)

Tatá Aeroplano

Tudo acontece em Nova York (2013)

A bela Lilas e o ingênuo Leeward, dois artistas em busca de um lugar ao sol

A bela Lilas e o ingênuo Leeward, dois artistas em busca de um lugar ao sol na Big Apple

Escolhi o filme assim de olhos fechados e me diverti com o que vi, apesar do estilo universitário da produção. Escrito e dirigido pelos franceses Ruben Amar e Lola Bessis, até então dois curtas-metragistas de sucesso na Europa, a fita gira em torno de personagens comuns tentando ganhar a vida do jeito que pode e da forma que quer no grande caldeirão de gente que a metrópole de Nova York. A cidade, como todo mundo sabe, é palco das figuras mais entranhas e sonhadoras, como a batalhadora enfermeira Mary (Brooke Bloom), mãe de uma linda garotinha que vive às turras com o marido artista irresponsável.

Músico pop de origem judaica e com uma visão infantil da sociedade e da vida, Leeward (Dustin Guy Defa) não quer nada com a dureza. Para começo de conversa ele é daqueles jovens românticos que não acredita no capitalismo. Pior, faz dessa opinião ultrapassada, motivo para não aceitar qualquer tipo de trabalho, como fazer um jingle para a tevê sobre um suculento sanduíche. “Não quero ferir minha integridade artística”, argumenta.

Mimado pela família, um típico clã judeu nova-iorquino, Leeward, para desespero da mulher, joga para baixo do tapete US$ 5 mil dólares que ganharia fácil fazendo a música desse tal comercial para alimentar o sonho de gravar um disco. A relação entre o casal azeda com a chegada de uma artista plástica francesa (Lola Bessis) que não tem onde ficar, na Big Apple, e sonha em ver seu trabalho exposto numa grande galeria.tudo-acontece-em-nova-york

Simples na abordagem de temas universais contundentes como a luta de artistas por um lugar ao sol, em face da luta contra um mercado cada vez mais opressor, Tudo acontece em Nova York ­– cujo título em inglês é bem melhor, Swin little fish swin – traz nas entrelinhas também a intricada questão das relações humanas. E aqui ela se dá na conturbada relação de Lilas e sua mãe Françoise (Anne Consigny), uma respeitada e atarefada artística plástica que não dá a mínima atenção afetiva e moral para a filha. Desprestigiada por não ver seu próprio trabalho admirado em casa, Lilas, que está com o visto americano expirado, busca apoios alternativos, mas vê que a vida lá fora não está fácil para ninguém.

No outro extremo, temos a figura ingênua, romântica e até infantil de Leeward, um cara do bem que não quer saber de compromissos com o sistema, apenas seguir a vida mostrando sua arte, mesmo que para isso tenha que mentir, fugir às responsabilidades, trapacear. A sequência em que enche o tanque do carro sem pagar é impagável e, mesmo sendo algo incorreto, torcemos pelo seu ato de vandalismo, pelo contexto da cena. E, no entanto, é apaixonante o amor incondicional que ele nutre pela filha, que o ama e o aceita torto como ele é. A vida é assim, um precipício entre o vazio e a realidade das coisas que nos cercam. O que acontece o tempo todo em grandes cidades como Nova York, São Paulo ou até mesmo em Brasília.

* Este texto foi escrito ao som de: Honky Dory (David Bowie – 1971)

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Cacá Carvalho e as máscaras de Pirandello

Na peça, o ator "dá vida" a um morto rabugento

Na peça, o ator “dá vida” a um morto rabugento

O ator paraense Cacá Carvalho é um autêntico homem de teatro, um animal em extinção dos palcos do naipe de um Antônio Abujamra ou Sérgio Britto. Quem já viu o artista desfilando com desenvoltura em cima de um tablado dando vida aos mais fascinantes personagens e textos de consagrados nomes do teatro, entende o que estou dizendo. E eu que só o conhecia do cinema e da televisão, onde interpretou o marcante Jamanta.

Pois bem. Com quase 50 anos de carreira e 61 anos de vida, o artista foi uma das atrações do Cena Contemporânea deste ano com três montagens tendo como enredo a dramaturgia do italiano Luigi Pirandello: O homem com a flor na boca, Umnenhumcemmil A poltrona escura, que conferi ontem no Teatro Garagem.

E, sendo bem sincero, admito que não gostei do monólogo, chato, modorrento e cansativo. Mas me amarrei na atuação visceral, extravagante, às vezes caricata e histriônica do ator que parece ter entrado em transe a partir do momento em que as luzes se apagaram no espaço. Pode parecer uma contradição o que digo, mas uma coisa é o texto. Outra bem diferente é a atuação. E uma terceira o ator consegui cativar a atenção da plateia, mesmo que o texto não seja simpático e agradável aos ouvidos do público.

Em cena, ele “dá vida” a um morto indignado com sua condição de defunto. É mais um desses macabros e insólitos textos do siciliano Pirandello, autor que faz pauta do absurdo para discutir de forma lúdica, infantil e cruel a condição humana em todos os seus meandros. Isolado no meio do palco, desde o início esse estranho personagem apresenta sua mórbida condição ao espectador, entrelaçando momentos conturbados da época em que ainda respirava ao lado de amigos, Cena contemporâneafamiliares, vizinhos estressantes, estranhos e de uma estimada cadelinha.

“O que é a vida? Basta um sopro e tudo acaba”, filosofa com amargo pragmatismo.

Há 20 anos mergulhado de corpo e alma na dramaturgia de Pirandello, em projetos realizados no Brasil, mas, sobretudo na Itália, onde tem reconhecimento e espaço para desenvolver seus projetos cênicos, Cacá Carvalho reúne em A poltrona escura, três das 277 novelas escritas pelo autor italiano: Pés na grama, O carrinho de mão e O sopro. “Pirandello é um autor que habita dentro de nós de várias maneiras. Isso deve acontecer sempre”, disse o ator em entrevista.

Pode até ser, mas não consegui perceber essa presença quase que onipresente do dramaturgo em A poltrona escura. Na verdade, eu esperava que fosse encontrar uma adaptação difícil de assimilar, até pela experiência que tive com o único texto teatral de Pirandello que li na vida, o formidável, Seis personagens em busca de um autor, mas não pensei que fosse me decepcionar tanto. E não só eu, já que dezenas de pessoas abandonaram o teatro antes do fim da sessão.

Depois dessa experiência traumática nem tive vontade de ver as outras adaptações do ator e sua equipe para textos de Pirandello. Contudo, saí da sessão com duas convicções: a de que preciso conhecer mais obras de Pirandello e que Cacá Carvalho é um ator soberbo.

* Este texto foi escrito ao som de: Flaming pie (Paul McCartney – 1997)

Flaming pie

Zathura – Uma aventura espacial (2005)

Danny e Walter são dois irmãos brigões que mudam de comportamento com a chegada de um astronauta

Danny e Walter são dois irmãos brigões que mudam de posição com a chegada de um astronauta

Para quem me conhece sabe que os meus fins de semanas são dedicados, exclusivamente, às minhas duas sobrinhas, as princesas do meu castelo. É quando saímos para tomar sorvete escondido dos pais e da vovó, soltamos pipas, fazemos travessuras no pula-pula dos shoppings ou simplesmente assistimos filmes como o divertido Zathura – Uma aventura espacial, atração fácil na tevê a cabo em que eu e as duas gurias já assistimos zilhões de vezes.

Não foi diferente este fim de semana e me dei conta de que o diretor é ninguém menos do que Jon Favreau, o cara que dirigiu o tocante e recente, Chef, se não me engano, ainda em cartaz na cidade. Fascinado por filmes de ficção científica e aventuras cheias de mirabolantes firulas visuais como Homem de ferro e Cowboys & Aliens, o nova-iorquino Favreau é também um excelente contador de histórias. E mais, sabe falar como ninguém sobre relacionamentos afetivos, em especial, voltado para os conflitos de gerações entre pais e filhos, as amarras entre irmãos. Bom, quem, assim como eu, tem criança em casa sabe muito bem do que estou falando.

Em Zathura – Uma aventura espacial, Danny (Jonah Bobo) e Walter (Josh Hutcherson) são dois irmãos em busca da atenção do pai divorciado (Tim Robbins) que não se entendem. Danny é o caçula mimado e espoleta que quer que o irmão mais velho ranzinza seja mais participativo em sua rotina. A irmã mais velha, Kristen Stewart – bem antes de sonhar em ser a mocinha de Crepúsculo -, é uma típica adolescente egoísta que negligencia o cuidado pelos pequenos.

ZathuraA relação entre os três se estreita quando Danny encontra no porão, após uma briga com o irmão, um antigo jogo de tabuleiro chamado Zathura – Uma aventura espacial. Isso porque a peça interativa tem o poder mágico de influenciar no destino de seus participantes, transformando uma simples brincadeira em uma intricada jornada de autoconhecimento.

Aparentemente banal, a trama é bem inteligente do ponto de vista sentimental, colocando o espectador a par diante dos dramas de se ter uma família em conflito. A briga entre os irmãos é algo tão comum e corriqueiro num lar, quanto a incapacidade de nós, adultos, de entender e saber lidar com esses impasses. No filme Jon Favreau mostra essa relação de forma lúdica dentro do contexto de aventura que a trama se desenrola.

O clímax da história é quando um astronauta (Dax Shepard) vindo de lugar nenhum, traz uma revelação exemplar que irá mudar o comportamento dos três irmãos em casa. Como se vê, filmes despretensiosos podem render boas reflexões, desde que saibamos filtrar por ele eles nossas emoções. Acho que já estou começando a ficar fã desse Jon Favreau.

* Este texto foi escrito ao som de: Ziggy Stardust (David Bowie – 1972)

David Bowie

Diretores – Orson Welles

O gênio indomável, na época em que tocava o terror nas rádios de Nova York

O gênio indomável, na época em que tocava o terror nas rádios de Nova York

Era, batata. Nos anos 30, quando uma ambulância ensandecida atravessava as ruas de Nova York, poderia ser tanto um caso urgente de vida ou morte ou também o jovem Orson Welles repassando os textos que escrevia e interpretava nas rádios da cidade que o assediavam implacavelmente. Para que ele chegasse a tempo de honrar os compromissos, as emissoras acordaram nesse estratagema bizarro. E lá ia ele, de uma estação à outra, ao som de uma sirene barulhenta, revisando adaptações radiofônicas para clássicos de Shakespeare ou obras modernas de então como Guerras do mundo que, para o bem e para o mal, causou tanta confusão, estardalhaço e sucesso na época entre os ouvintes, que o levaria a filmar, pouco tempo depois, com apenas 25 anos, um dos clássicos do cinema, a obra-prima Cidadão Kane.

Gênio precoce, estrela dos teatros da Big Apple que virou a sétima arte de ponta cabeça, Orson Welles foi um autodidata criativo das artes que assombrou a todos com a ousadia narrativa de suas tramas e rebeldia irresponsável com que as colocavam em ação. Talvez por isso, ainda tão jovem, ele tenha incomodado tanta gente e, antes de completar 40 anos, já era considerado nas ruas de Hollywood, um has-been, ou seja, aquele que já era. Pura inveja ou despeito, o que era uma pena.

Ídolo máximo dos cineastas brasileiros Glauber Rocha e Rogério Sganzerla – outros dois gênios precoces do cinema -, Orson Welles será para sempre uma referência no cinema não apenas pelo monumental Cidadão Kane, um filme que seria um divisor de águas na moderna cinematografia mundial, mas pela abusada afronta com que desafiou os dogmas puritanos da Meca Hollywood, onde certa vez disse que se tratava de um parque de diversões. “Comecei por cima. Desde então venho me esforçando para me decair”, ironizou certa vez.

Ah, sim, e Norman Mailer, de quem achava que não entendia nada do assunto, disse certa vez: “A humanidade nunca produziu um homem mais bonito que o jovem Orson Welles em Cidadão Kane”.

Top Five – Orson WellesOthello

A marca da maldade (1958) – Remando contra a maré e contrariando os clichês, escolho como trabalho máximo desse gênio incompreendido das artes esse clássico do cinema noir que um registro desconfortante sobre a corrupção generalizada na fronteira do México com os EUA. A cena de abertura com o antológico plano-sequência é um sundae.

Cidadão Kane (1941) – Esse eu vi na faculdade com ares de deslumbramento com que tanto arrebatou seus admiradores em todo o mundo. Realista, original, criativo e ousado em todos os aspectos, do roteiro ágil à produção impecável o filme, com seus maneirismos narrativos, perfaz, em flashback, a trajetória de um magnata da imprensa. No papel-título, Welles já mostrava que, além de diretor brilhante, era também um ator excepcional. Mas afinal, alguém aí descobriu que segredos escondem atrás de “rosebud”?

Othello (1952) – Filmado com dificuldades na Itália e no Marrocos, só mesmo a mente brilhante de Welles para narrar a tragédia de fúria, ciúme e assassinato do mouro Othello a partir de um mundo perturbador de sombras angustiantes, perturbadores corredores sombrios e efeitos visuais abstratos incômodos.

A dama de Shangai (1946) – Casado com a atriz na época, Welles causou escândalo ao obrigar a bela ruiva femme fatale Rita Hayworth usar cabelos curtos e louros para interpretar a mulher de um aleijado nesse filme noir marcado por reviravoltas fascinantes. A antológica cena final do espelho ainda é uma das mais lembradas pelos cinéfilos.

Macbeth (1948) – Obcecado por temas como traição, ambição e poder, o diretor mais uma vez transforma seu inferno financeiro na produção em obra-prima, com a história do perturbado monarca Macbeth. Figurinos estilizados e sombrias paisagens lunares dão conta dessa versão expressionista de clássico texto de Shakespeare. Mas ainda acha a adaptação de Roman Polanski a melhor.

* Este texto foi escrito ao som de: Venus and Mars (Paul McCartney – 1975)

Venus and mars

Da opressão do sistema

A engrenagem da correria do dia a dia é massacrante...

A engrenagem da correria do dia a dia é massacrante… Chaplin já dizia isso…

A primeira vez que ouvi essa expressão, “opressão do sistema”, foi via Glauber Rocha e achei o máximo, me identifiquei no ato com aquele desespero social que habitava dentro do cineasta baiano. Com o tempo, fui assimilando com mais visceralidade, sentindo na pele e na alma, o que ele queria dizer no embate com as agruras da vida. Por exemplo, outro dia mesmo, minha mãe me ligou dizendo que minha sobrinha tinha sonhado comigo e que estava muda de tanta saudade. Caros, confesso que quando ouvi isso me deu vontade de chorar ali mesmo, no Setor de Autarquias Sul, entre os frios e altos prédios do lugar, me lamentando por ter um trabalho longe delas e que a distância, a correria do cotidiano estava, está nos sufocando. De repente, quem ficou sem fala fui eu.

Por mais que as redes sociais, o telefone encurte esse sofrimento, não há nada que substitui a presença física, o contato diário, o tête-à-tête afetivo. Daí o fato de que hoje tenho muito medo de morrer. Houve um tempo que essa questão não me afligia tanto, até achava bonita a ideia de morrer jovem, mas hoje, não. Hoje tenho medo de faltar para as minhas duas meninas que são tudo para mim. É isso aí, minhas sobrinhas são as princesas do meu castelo.

Mas voltando sobre essa questão sufocante que é a “opressão do sistema”, sempre que me encontro em situações Glauberaliciantes assim, me veem à cabeça aquela imagem clássica, liricamente angustiante do mestre Charles Chaplin, em Tempos modernos, em que a engrenagem parece engolfar todo o humanismo e candura que existente dentro de nós. É a arte de todo o dia a dia, ter, por exemplo, tolerar, diariamente, quem não suportamos. Chefe chato, colegas inconvenientes, amores conflituosos, pesados agônicos do passado, asfixia financeira, enfim, pessoas e situações cujas existências e acontecimentos são desnecessários e daí me bate aquela vontade louca de ter um estilo de vida que não necessite, necessariamente, da minha existência. Enquanto uma galera insiste em ter mais, mais, mais… Eu de cá, no meu canto das sombras, vou dizendo baixinho, como se fosse um mantra: menos, menos…

Eis aí um exercício que realizo todos os dias quando acordo e, no final das contas, tudo o que quero é ficar ao lado das minhas sobrinhas. Elas é que me fazem segurar a barrar, me dão ânimo para seguir adiante sem fraquejar, me dão, por meio de sorrisos ingênuos, mesmo diante da opressão do sistema, a alegria de viver.

* Este texto foi escrito ao som de: Red rose speedway (Paul McCartney – 1973)

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Não pare na pista (2014)

O ator gaúcho Júlio Andrade mais uma vez protagoniza uma cinebiografia

O ator gaúcho Júlio Andrade mais uma vez protagoniza uma cinebiografia

Um filão explorado à exaustão no cinema brasileiro, cinebiografias de pessoas famosas são um tanto quanto complicadas de se realizar. Na maioria das vezes ficam fake demais ou do tipo reverenciadora chata e superficial. Talvez por isso que fui assistir a Não pare na pista, em cartaz na cidade, com quatro pedras na mão. Não vou dizer que achei o máximo, mas também não precisei atirar nenhuma pedra na fita que conta com roteiro de Carolina Kotscho.

Para quem não sabe, Carolina é roteirista do aclamado e bacana Dois filhos de Francisco, que conta de forma singela e verdadeira, a história da dupla Zezé Di Camargo e Luciano. Recentemente ela também nos apresentou o romance entre a escritora norte-americana Elizabeth Bishop e a arquiteta Lota de Macedo Soares, no drama Flores raras.

Com direção de Daniel Augusto, que faz sua estreia em longa de ficção, Não pare na pista está longe de ser a melhor história do escritor e compositor Paulo Coelho, um dos mais bem-sucedidos autores do momento, com milhões de livros vendidos nos quatro cantos do planeta. E eu disse bem-sucedido, longe de ser o melhor. No entanto, à revelia de ser um escritor de talento, Paulo Coelho tem uma história de vida formidável que foi retratada de forma envolvente na biografia O mago, do jornalista Fernando Morais. Essa sim, a melhor história do bruxo brasileiro.

Não pare na pistaNo filme, o autor de O alquimista e Diário de um mago, com base em seus depoimentos à roteirista, é vivido em três fases diferentes de sua vida e acho que foi um acerto do projeto essa divisão da trajetória dentro de uma narrativa não linear onde a relação conflituosa com o pai, a dúvida quanto a sexualidade, o envolvimento com as drogas, prisão e parceria com Raul Seixas vêem à tona.

Duas dessas fases têm como protagonista o ator respeitado ator gaúcho Júlio Andrade que faz Paulo Coelho no auge da carreira nos anos 70 e 80 e outra na fase madura, onde o ator usa uma maquiagem horrorosa de extremo mau gosto. Aliás, não tem muito tempo e o mesmo Júlio Andrade deu vida ao cantor Gonzaguinha nas telas e me pergunto se ele, um ator competente e seguro, não está se deixando levar demais por este papéis biográficos. Corre o risco de ficar estigmatizado.  

A fase mais dramática e interessante da trajetória de Paulo Coelho, a da adolescência problemática, é vivida pelo ótimo Ravel Andrade, que faz uma dobradinha convincente, recheada de rompantes emocionais, com Enrique Diaz, aqui na pele de Pedro, o autoritário pai do escritor, personagem da clássica música da dupla, Raul Seixas e Paulo Coelho, Meu amigo Pedro.

E falando em Raul Seixas, todo mundo sabe que o auge da carreira do roqueiro baiano foi quando ele escreveu grandes clássicos ao lado do parceiro bruxo, daí a importância de Paulo Coelho em sua trajetória. Mas acho que o roteiro se equivoca ao retratar essa relação de forma um tanto quanto banal, quase imbecializada, colocando Raul como um sujeito deslumbrado e inseguro diante de um jovem cheio de ideias novas e estranhas como ufologia e satanismo.

Como eu disse, o meu medo em cinebiografias é que o retratado às vezes é exaltado acima dos fatos.

* Este texto foi escrito ao som de: Gita (Raul Seixas – 1974)

Raul Seixas - Gitâ