De quando temos tudo e nada

Um é a França paralisada, nas mãos da França imigrante

Uma polêmica de vez em quando até que faz bem. Dúvida? Paulo Francis e Nelson Rodrigues que o diga. Mas se você é do tipo São Tomé, então dê uma conferida no drama com pinta de comédia, Intocáveis, a grande sensação do cinema francês do momento. Grande sensação mesmo porque o filme já se tornou na segunda maior bilheteria da história da França desde sua estreia. Ridículo, mas é a mais pura, crassa e hedionda verdade. Não sei por que motivo. Para mim é um típico caso de tempestade em copo d’água.

Enfim, dirigido pela dupla, Éric Toledano e Olivier Nakache, a fita, baseada em fatos reais, narra a insólita amizade entre o multimilionário tetraplégico Phillipe (François Cluzet) e o senegalês Driss (Omar Sy).

O primeiro é um homem refinado e sofisticado vivendo numa mansão de Luís XIV, mas preso pelo resto da vida a uma cadeira de rodas motorizada após grave acidente. Ele se sente como um bife cogelado sendo carregado e paparicado por criados, para cima e para baixo e, a única alegria que sente é quando ouve, no último volume, os discos dos grandes compositores clássicos.

“Não sinto nada, mas é doloroso”, lamenta, com frieza e pragmatismo.

Já o grandalhão Driss é um imigrante africano vivendo na periferia de Paris. Sua convivência com a família é turbulenta e nas ruas o futuro parece incerto e nada promissor. Um dia, num golpe de sorte, após uma entrevista de emprego despretensiosa, acaba conseguido o que menos espera e, da noite para o dia, sua vida muda radicalmente quando se torna os braços e as pernas de uma França esnobe e xenófoba.

“O pessoal da periferia não tem compaixão”, avisa alguém da família, cheio de preconceito, temendo o pior. “Fui criado para mijar nas pessoas”, se arrepende nosso herói aleijado.

Aparentemente um filme bobo, com piadas grosseiras, Intocáveis, com seu jeitão rude de passar mensagem e pretensão de querer ser produção hollywoodiana, no coração da Europa, ganha o público pela autenticidade e franqueza dos diálogos, enfim, honestidade com que fala de dor e perda, mas também sobre o direito de viver. É a história de personagens que têm tudo e nada ao mesmo tempo ou ao contrário, de quem tem nada e tudo num passe de mágica, e das contradições que esses caminhos seguem.

“Você está acostumado com tragédias, eu não”, diz, incomodado, o simpático Driss.

Ora a cara do Dustin Hoffman, ora lembrando o Al Pacino, o experiente François Cluzet tem o desafio, e o faz com talento e destreza, de passar as emoções apenas do pescoço para cima e vai longe quando consegue algo mais com bem menos. Já o despojado e bonito Omar Sy – na vida real filho de mãe mauritana e pai senegalês – o primeiro ator negro a ganhar o César (o Oscar francês), é a alma de Intocáveis, um filme que tem o mérito de fazer rir falando de tragédias e tristezas.

Quanto às polêmicas em torno do filme, acusado, entre outras coisas, de ser manipulador, pelo lado norte-americano, e hipócrita, pelos sisudos europeus, pura bobagem de quem não tem nada a dizer ou escrever.

* Este texto foi escrito ao som de: As quatro estações (Vivaldi – 1723 )

Catetinho – O palácio de tábuas

A 1ª residência oficial de JK em Brasília era um colosso de madeira

Reza a lenda que os rascunhos da primeira morada de Juscelino Kubitschek, o Catetinho, foram rabiscados por Oscar Niemeyer, num guardanapo do extinto Juca’s Bar, numa noite de 1956, no Rio de janeiro. Ali mesmo, sensibilizados com a distância que separava JK de seu sonho, quase utopia, uma “vaquinha” foi realizada entre os amigos do presidente e, do montante, deu-se início à construção, imortalizada entre suas matas, regatos e fontes de água cristalina de: o Palácio de Tábuas. O resto é história.

Bom, há quem conteste o episódio acima, inclusive com documentos, mas, entre a história oficial e a folclórica, fico com a segunda até pelo caráter, lírico, caricato e, porque não dizer, boêmio. Afinal, eram tempos de bossa nova, alegria e progresso.

O gozado é que estou escrevendo sobre o Catetinho e, no que eu me lembro, acho que nunca fui ao local. Quer dizer, não me lembro de ter feito uma visita assim, real, verdadeira, ou seja, não me embrenhei de corpo e alma pelo passado da cidade que escolhi para viver. A gente tem dessas coisas, ou seja, de querer conhecer o mundo para depois conhecer nossa aldeia, nossas raízes, nossas origens.

De modo que vou tomar vergonha na cara e, na próxima semana mesmo, farei uma expedição ao Palácio de tábuas. Mas enquanto isso não acontece, vão aqui quatro ou cinco informações sobre o lugar que foi o primeiro cantinho de JK, no cerrado central. E o lugar tem história.

O nome, uma brincadeira do músico Dilermando Reis, amigo pessoal de JK – que foi o primeiro artista de prestígio nacional a tocar na solidão do cerrado -, fazia referência a até então sede do governo federal, localizado no Rio de Janeiro, o Palácio do Catete, onde anos antes, Getúlio Vargas cometeria suicídio.

O prédio de madeira, erguido sobre pilotis, foi construído em 10 dias, a partir do esforço de 20 operários que, trabalharam duro, numa jornada diária de 18h para erguer a primeira residência oficial de Juscelino Kubitschek. Para o próprio presidente mineiro o lugar era um símbolo.

“Foi ele (o Catetinho) a flama inspiradora que me ajudou a levar à frente, arrastando o pessimismo, a descrença e a oposição de milhões de pessoas, a ideia de transferência do governo”, registraria o presidente no seu livro, Porque construí Brasília.

Inaugurado em 10 de novembro de 1956, o Catetinho era também porto seguro de muitos homens de confiança de JK, como o engenheiro Juca Chaves e o arquiteto Oscar Niemeyer, além do xerife do cerrado, enfim, o chefe de obras da construção de Brasília, Israel Pinheiro, que tinha um quarto exclusivo, cativo, no palácio.

E, foi no Catetinho que a dupla sensação da música brasileira no momento, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, se hospedariam em 1958 para escreverem a mítica Sinfonia da Alvorada, buscando inspiração na paisagem deslumbrante formada pelas matas de galeria, o som das águas da fonte, festas dos pássaros e bichos do lugar. Tom Jobim, amante dos bichos e da natureza descreveu assim, certa vez, um passeio que fez pela selva do Catetinho. “De repente, de perto, como um grito, veio o piado do macho chamando a fêmea. Silêncio. E de longe chega a resposta. É uma conversa que parece vir do fundo dos tempos”.

Construção concebida a partir dos princípios modernistas, em 1959, a pedido do próprio JK, o Catetinho foi tombando como, Patrimônio Histórico e Cultural de Brasília pelo IPHAN.

Homenagem mais do que justa.

* Este texto foi escrito ao som de: Sinfonia da Alvorada (Tom Jobim e Vinícius Moraes – 1960)

O lado Ivo Pitanguy de Almodóvar

Drama é um ensaio psicanalítico sobre a obsessão e a perfeição

Luís Buñuel foi o maior cineasta que a Espanha já teve. O extravagante Pedro Almodóvar é o maior cineasta que a Espanha tem. Há uma sutil diferença aqui, assim como em minha predileção por ambos que é o seguinte: os filmes do diretor surrealista é uma unanimidade em meu gosto, ao passo que alguns trabalhos de Almodóvar me incomodam. E por uma razão bastante simples. Não gosto da apologia homossexual, escancarada ou velada, que há em seus roteiros.

E não há nenhum preconceito nessa afirmação já que todos os meus ídolos são gays: Oscar Wilder, Renato Russo, Visconti… Só acho gratuita a forma com que ele defende essa bandeira em suas fitas. Lançado no Brasil em novembro do ano passado, o denso e incômodo, A pele que habito, que eu ainda não tinha visto e pesquei outro dia, na Sky, tem sim, suas insinuações gay, mas é desenvolvida de forma tão inteligente, envolvente e provocativa que nem dei pelota para isso.

Baseado no romance Tarántula, do francês Thierry Jonquet, o filme conta a história do amor bizarro e obsessivo que possuiu o cirurgião plástico, Robert Ledgard (Antonio Bandeiras). Ele perdeu a mulher e a filha em circunstâncias estranhas, obscuras, dolorosas e agora tenta recuperar o amor que sentia por ambas a partir da criação da pele perfeita, aquela em que ele irá habitar como se fosse uma moradia, pedaço de sim, parte do corpo e alma, memória e sensação de seus entes queridos. “Tenho loucura em minhas entranhas”, garante.

Mas à medida que essa brincadeira de ser Deus avança e solidifica sua condição de verdadeiro artesão, escultor do corpo humano, Robert, cego por obsessão doentia de vingança e perfeição, aos poucos, sem que perceba, vai perdendo o controle da situação para logo mergulhar na completa escuridão de seus atos.

“As histórias se repetem”, ensina a mãe, apenas mais um dos frágeis personagens que o cerca, envolvida nessa teia de sadismo e loucura.

Ao tirar onda de Ivo Pitanguy, Almodóvar realiza aqui um trabalho bizarro sim, mas também um verdadeiro ensaio psicanalítico não apenas sobre a beleza humana, mas pela busca da perfeição, esteja ela aonde for. Daí a valorização mais do que oportuna pela precisão e pela delicadeza. “Fui feita sob medida para você”, diz a personagem de Vera, vivida pela linda e deliciosa atriz, Elena Anaya, simplesmente uma escultura de carne e osso. Preste atenção em como o seu corpo desliza, suavemente, diante das câmeras, como naquela cena em que ela está nua, de costas, para o seu algoz.

Pelo preciosismo visual, com câmeras sobrevoando a intimidade dos personagens e abordagem de temática artística sofisticada, o filme lembra alguma coisa do sempre elegante cineasta britânico, Peter Greenaway, mas também tem um toque todo especial do mestre Buñuel, do que ele tem de mais sombrio e, porque não, de Nelson Rodrigues. É só se lembrar daquele episódio em que o marido desprezava a mulher que era bela, mas que se apaixona, perdidamente, por ela, após trágico acidente que a deixa deformada.

Só que, em A pele que habito, Almodóvar trabalha de forma engenhosa e persuasiva as nuanças sensoriais e psicológicas do espectador, ora o fazendo venerar, glorificar e endeusar a beleza da linda Elena Anaya para, logo em seguida, causar repulsa e nojo quando descobrimos que ela nada mais é do que mero instrumento da demência de seu criador.

Curioso como a narrativa dúbia e cheia de mistérios construíd pelo diretor foi feita sob medida para confundir com os nossos instintos mais primitivos e dementes.

* Este texto foi escrito ao som de: Jagger littler pill(Alanis Morissette – 1995)

Da soberba e hipocrisia do judiciário

As pessoas ligadas ao judiciário são as que mais comentem injustiças

A soberba desse pessoal do Supremo me enoja. Na boa, pegando carona no clássico bordão daquele personagem do Chico Anysio, o Justo Veríssimo, quero mais que eles explodam, vão para o raio que partam, que morram afogados na própria vaidade e arrogância.

Sendo sincero, meu caro, de uma clareza, assim, ululante, ultrajante mesmo, nunca gostei de juiz, advogado, promotor ou delegado, enfim, de qualquer pessoa ligada ao judiciário. Ô raça desgraçada e cretina, bando de fascistas de toga. E digo isso de experiência própria, de quem, sentiu, na pele, os abusos e leviandades da classe, de quem teve o desprazer de conviver com a turba ignara. Acredite se quiser, mas as pessoas do judiciário são as que cometem mais injustiças.

É um pessoal que tira proveito do poder que tem apenas em benefício próprio. Claro, como toda regra há exceções, casos isolados, pessoas honestas e corretas, mas, no geral, é isso mesmo. Só aquela novela de aumento de salário dos juízes, que achavam pouco os proventos de quase R$ 30 mil, já me deu nos nervos, faniquito mesmo, de sapatear no barro como uma bailarina espanhola.

De modo que fico vendo esse julgamento do mensalão, a bajulação da mídia provinciana e submissa diante do Supremo e dá vontade de bater a cabeça contra a parede, dá vontade de comer a própria língua. E o pior que os jornalistas que fazem a cobertura do STF são tão esnobes quanto, conheço alguns que se acham a autoridade em pessoa, falam alto, colocam o dedo em riste em sua cara, pedem sua cabeça. Um noje. E pensar que a vida de um condenado, por mais injusto, cruel e errado que ele seja, está nas mãos de pessoas tão comuns e sujeitas ao erro, falhas quanto eu e você.

Daí essa imagem impoluta e de transparência ser pura hipocrisia, uma farsa. Peguemos, por exemplo, a figura dos advogados, profissionais que trabalham não por amor à profissão, mas ao dinheiro, em devoção a quem paga mais, não importando, que, quem pague esse mais seja o maior dos criminosos ou contraventores. Por isso, mais do que justo a expressão “Advogado do diabo” e quer saber, Al Pacino estava divino, soberbo, mas no bom sentindo, claro, na pele do, “coisa” ruim, que se passa por advogado.

Veja bem, não que eu seja contra quem trabalhe por dinheiro e só por dinheiro, por quem pague mais até porque, ganhar mais é o que todo mundo sempre quer e esse é o sentido do trabalho mesmo, não é verdade? Enfim, mais cedo ou mais tarde, seja eu, você, o Zé do chica bon ali na esquina ou a Xuxa Meneghal, o que todo mundo quer é dinheiro e ponto final.

O que me incomoda e me deixa de cabelo em pé, babando na gravata é o cinismo e essa falsa moralidade das pessoas que trabalham no judiciário, de acharem que estão acima do bem e do mal só porque são soldados de areia da justiça, de quem acha que é dono da lei. É que nem esse povo que não sai da igreja, que se acha melhor e mais puro do que todo mundo só porque estão mais próximo de deus, mas de que deus?

Mas, voltando ao mensalão, fico vendo pela tevê e pelas páginas das revistas aqueles juízes do Supremo duelando vaidade, poder, arrogância na corte e penso desolado, com uma tristeza de dá dó, assim: “É essa a cara da justiça brasileira?!”, “Ser a mais alta autoridade do judiciário no Brasil significa isso?!”. Prefiro vender sabão de barra na rodoviária gritando assim: “Vamos limpar esse pais, minha gente, é só ‘dois real’, ‘dois real’, meu povo!”.

Ao ver esses juízes do Supremo surfando na crista da onda, nesse mar de corrupção e políticos sujos que é e virou o Brasil, julgando sem a menor credibilidade e seriedade a banda podre do país, perco a fé, esperança na justiça, talvez por isso que ela, a mãe Têmis, já tenha nascida cega, para não ver e morrer de vergonha, desgosto dos filhos imorais que ela tem por aí. Em muitos casos, em se tratando da justiça, o melhor é nem ver mesmo.

* Este texto foi escrito ao som de: The Stooges (1969)

Política = Corrupção e conivência

Ano de política é ano de circo, de palhaçada, de piada sem graça.

Política virou sinônimo de corrupção, não tem jeito, é fato. Com exceção de meia dúzia de gatos pingados, o resto não tem salvação, é como naquele trecho do clássico livro de Ariano Suassuna, O auto da Compadecida, quando todos estão no purgatório sem saber se ficam ali mesmo ou se vão para o inferno. Só que no caso de grande parte desses pilantras, é sem julgamento mesmo, ou seja, inferno neles.

Daí que, quando chegam as eleições, a imagem que nos vem à cabeça, na hora da propaganda eleitoral, é como aquela de uma charge que vi outro dia no jornal. O pai de família liga a televisão, na hora do horário eleitoral e, do outro da telinha alguém já começa assim: “Respeitável público”.

E é isso mesmo, ano de eleição é ano de circo, de palhaçada, de piada sem graça.

Mas pior do que político corrupto e essa patuscada envolvendo o ano eleitoral é uma sociedade submissa, conivente e acomodada. E é só chegar as eleições para gente ver tudo isso de forma clara e nojenta. Enfim, um bando de idiotas sem ter o que fazer, bajulando aquele camarada que já sabemos que vai roubar quando estiverem no poder. Até porque, alguns, na maior cara de pau, já entram na política com esse intuito mesmo, fazer um pé de meia a custa do dinheiro público e da confiança dos eleitores. Que explodam as reivindicações, necessidades e urgências daqueles que vão dar o voto.

Agora se a sociedade é submissa, conivente e acomodada, o sistema é falho, sim, porque não tem o menor cabimento a quantidade de gente despreparada tentando assumir um cargo político por aí. Alguns, meu caros, não sabem nem falar, são semianalfabetos e toscos mesmo, ridículos até e o pior de tudo é que muitos conseguem chegar lá e a culpa é de quem? Sem falar dos oportunistas que aproveitam da ingenuidade do povo para conseguir se eleger.

Em minha opinião a justiça eleitoral deveria ser mais criteriosa e competente, impedindo essas brechas e criando critérios e mecanismo eficientes para as pessoas se candidatarem. Além da ficha limpa, o sujeito deveria apresentar também um grau de instrução no mínimo decente, ser mais preparado para a vida pública, para administrar o dinheiro público, assumir um cargo de poder. Do contrário, vamos deparar sempre com cada figura medonha que vou te contar. É porque ainda tem essa, o caras não sabem nem se promoverem.

Por exemplo, você voltaria ou teria coragem de votar em alguém como o Vagner do raio-x ou Creusa do sanduíche? Só passando fome, certo? Ou ainda no Luiz da Construcasa ou no Nassin da Praia? Detalhe, o lugar onde o Nassin quer ser eleger não tem praia, lago, muito um rio sem peixe. Temos ainda o, Pina da Garagem e o Divino Salvador, esse último, além de uma vaga na câmara dos vereadores, parece também querer tomar o lugar de Cristo na cruz.

E o que os candidatos fazem para chamar a atenção dos eleitores é pior do que atração de circo. Vale de tudo, desde uma singela e hipócrita piscadinha, até perna nas costas e evocações a personagens caricatos como Tiririca, que foi esperto e agora ganha uma nota preta sem tirar onda de palhaço. “Sou o Tiririca da sua cidade, se eu não ganhar o mundo vai acabar e pior vai ficar”, diz um cretino, sem peroba na cara.

E os slogans?!  “Vote certinho, vote no neguinho” ou ainda “E tem melhor?”.

É por essas e outras que rasguei meu título de eleitor. Voto meu político nenhum pega porque, como naquela música do The Who, “não quero ser enganado de novo”.

* Este texto foi escrito ao som de: Who’s next (The Who – 1971)

V. Básica (26) Simbad e o olho do tigre

O marujo Simbad entre o tigre de dente de sabre e um troglodita…

Bem antes dos efeitos especiais dominarem as telonas, mundo afora, existia Ray Harryhausen, pioneiros do gênero, talvez um dos mais importantes artesões que o cinema já teve, por sinal, ainda vivo, no auge de seus 92 anos. Mas se você não conhece a figura, fique tranquilo porque, com certeza, em algum momento da vida já esbarrou em algumas de suas bestiais criaturas, criadas a partir de iluminada imaginação.

Pode ser tanto Pégaso ou a assustadora Medusa, mitos gregos revisitados pelo artista em Fúria de titãs (1981) – um de seus trabalhos mais conhecido -, ou esqueletos surgidos do fogo, feras pré-históricas medonhas, trogloditas, animais mecânicos e babuínos quase humanos, personagens do clássico, Simbad e o olho do tigre, um dos filmes que marcaram minha infância e de milhares de pessoas nas gloriosas sessões da tarde.

Protagonizado por Patrick Wayne, filho de John Wayne, a fita embarca nas aventuras do mítico marujo de Bagdá pelos sete mares, em busca de terra desconhecida no fim do mundo onde está localiza o Santuário das Curas. É para lá que ele deve levar o príncipe de Charnak, Kassim (Damien Thomas), amigo a quem deve a vida para salvá-lo da maldição da bruxa Zenobia (Margaret Whiting), que o transformou num babuíno.

“Já consultamos os mais conceituados médicos, sábios, sacerdotes e astrólogos, daqui a Alexandria, e nenhum diagnóstico”, desespera o vizir local, tio da vítima. “Por ele eu arriscaria minha vida, por você eu daria”, diz o marujo das mil e umas noites, a Farah (Jane Seymour), princesa a quem jura salvar o irmão para pedi-la em casamento.

A solução para o insólito caso são os conhecimentos e façanhas lendárias do sábio grego, Melanthius (Patrick
Troughton), o eremita de Kasgar, refugiado em remota ilha do Egeu, lugar onde homem nenhum colocou os pés. “A mente é uma coisa notável. O pensamento é transferível. Ele viaja pelo espaço, até pelas mentes”, ensina o filósofo.

É ele quem irá conduzir Simbad, o marujo, e sua tripulação, rumo ao sagrado templo, encontrando pelo caminho, numa trilha de sombras e segredos envolvendo ciências ocultas como magia negra, alquimia e, claro, fantasia sem fim, as mais incríveis aventuras e feras. “Dizem que é o presente do vento a Apolo”, poetiza o sábio, ao depara com os fenômenos escandinavos da Aurora Boreal.

Lançado em 1977, o filme, massacrado pela estreia retumbante de Guerra nas estrelas, foi visto com olhos criteriosos pela crítica que classificou as animações, stop motion, de Harryhausen, de toscas, embora inseridas numa trama envolvente. Pior para eles que não entenderam que essa aventura contagiante era um dos poucos exemplares do gênero em que a imaginação ainda era sincera e pura, sem as verborragias e os vazios dos efeitos especiais de hoje.

Familiarizado tanto com os sortilégios dos sete mares, quanto com as regalias e intrigas da realeza, Simbad, sempre um homem viril com sua espada árabe nas mãos, é protagonista dos momentos mais marcantes da fita, entre eles o épico duelo com o tigre de dente de sabre do título, na cena final.

Mas é o velho sábio Melanthius o símbolo máximo dessa aventura, o elo perdido entre o homem primitivo, de espírito aventureiro e fragilizado pelo medo do desconhecido, mas também curioso das grandes descobertas da vida. “Arquimedes vai se matar de inveja”, faz troça ao aceitar embarcar nessa grande jornada, evocando outro ícone do conhecimento.

* Este texto foi escrito ao som de: Neil Young Unplugged (1993)

Uberaba’s blues!

Desde 1939 a matriz é Patrimônio Cultura graças a Lúcio Costa

Uberaba não tem quebra-molas. Ou melhor, tem quebra-molas, sim, só que para dentro, ou seja, enfiado no asfalto. É estranho, diferente, mas quer saber? Funciona! E em Uberaba as garotas são lindas, a maior parte delas de fora, já que a urbe de pouco mais de 300 mil habitantes é uma cidade universitária. Mas as nativas também encantam.

E em Uberaba tem um lugar, a cervejaria São Tomé, em que deus também é nome de uma cerveja belga que custa R$ 209 e não sei por que já que a cidade mineira é cheia de igrejas por todos os lados. Talvez seja por isso que Lúcifer, a concorrente nos infernos e nos bares, custe apenas R$ 59. Bom, como não acredito em nenhum dos dois, por isso fui de Quilmes, que era o que o meu bolso podia pagar.

Mas falei nas igrejas de Uberaba e aqui abro um parêntese: apesar de não acreditar em deus, não ser uma pessoa religiosa, enfim, de fé, adoro esses santuários, sobretudo vazios, talvez pelo silêncio, pela paz que nos impregna e não sei, não, mas dizem, acho que foi o Nelson Rodrigues quem disse, não lembro, mas deus está presente nas igrejas vazias. Acho que deve ser mesmo, se ele existir.

Contudo, admiro a arquitetura das igrejas, admiro a luz e os vitrais translúcidos.

E Uberaba é uma cidade cheia de Igrejas, igrejas imponentes, predominantemente católicas, como a de São Domingos, com suas paredes vermelhas em estilo medieval. Mas a mais bela de todas, em minha opinião, é a pequena matriz de Santa Rita.

Construída em 1854 e tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1939, por sugestão de Lúcio Costa, a igreja, localizada, estrategicamente, no cume de um morro, no centro da cidade, abriga o fantástico Museu de Arte Sacra, com imagens de santos de barros, telas pintadas por artistas locais com temática religiosa, evidentemente, e objetos antigos como as suntuosas indumentárias dos padres e bispos da cidade.

E em Uberaba a cultura do boi também é uma presença constante, embora os moradores mais antigos atestem que já foi mais forte e intensa, como afirma o ex-prefeito da cidade e ex-secretário de agricultura de Tancredo Neves, Arnaldo Rosa Prata, com quem tive a honra de conversar.

Mesmo assim, resquícios dessa cultura estão presentes, por exemplo, no Parque de Exposição da cidade. Lá, a qualquer hora do dia, da noite, é possível deparar com currais cheios de gado, cada um, com animais mais belos do que o outro e valiosos porque o que mais tem em Uberaba é o comércio de sêmen de boi. Quase um laboratório em cada esquina.

E, claro, Uberaba é a cidade dos doces de leites, das geleias e dos queijos. O que mais vemos andando pelas ruas da cidade mineira são bancas de doce com milhares e milhares de compotas. No Mercado Municipal de Uberaba só tem bancas de doces e doces de todos os tipos e qualidades. Doce de leite com coco, doce de leite misturado com chocolate, o famoso doce de leite Zebu e o Nata Suíça.

E na boa, prefiro mil vezes os tabletes de doces, Zebu, do que os tablets de computador. Tanto que deu vontade de me besuntar todo de doce ou mergulhar todo numa calda de doce de leite, como aquele personagem nerd de um filme que se afoga num barril de chope.

Enfim, Uberaba é a cidade das igrejas, dos quebra-molas invertidos e dos doces de leites.

* Este texto foi escrito ao som de: Mud slide slim and the blue horizon (James Taylor – 1971)

Em busca de um casamento de verdade

Meryl Streep e Tommy Lee Jones, numa relação de porco-espinho…

Assim como na vida, de tempos em tempos o cinema norte-americano nos surpreende com algumas comédias deliciosas, aparentemente, despretensiosas, mas com um apelo moral sofisticado. Apesar do título boboca em português, Um divã para dois é um desses filmes.  Protagonizado pela dama de Hollywood, Meryl Streep e o sempre completo, Tommy Lee Jones, o mais novo projeto de David Frankel, diretor de fitas como, O diabo veste Prada (2006) e Marley e eu (2008), agora tem como foco a relação a dois. Mas numa fase da vida em que o sexo não faz mais tanta questão assim: a terceira idade.

Depois de trinta anos juntos, kay (Meryl Streep) e Arnold (Tommy Lee Jones) começam a se cansar de ambos e da rotina banal que criaram para si. O problema é que a convivência entre o casal anda tão fria, egoísta e rotineira que eles nem notam a enorme distância que existe entre os dois. Um dia, como os ovos com bacon preparados por ela, uma esposa dedicada, para o marido negligente, tudo começa a frigir.

“Quando minha mulher me ameaçou fiz o que todo homem faz, fui para um bar”, ensina um amigo mal-intencionado de Arnold, quando este comenta que a mulher anda estranha. “Depois chego em casa e mando ela se ferrar”, arremata o machista grosseiro.

Sentimental e hormonalmente desamparada, Kay então busca ajuda junto a um especialista em crise conjugal, Dr. Bernie Feld (Steve Carrell), transformando os conflitos, as diferenças e distância entre os dois numa constrangedora e divertida sessão de nervos e desejos reprimidos. “Quero um casamento de verdade”, argumenta ela. “Uma semana aqui e eu estarei falido”, resmunga o marido incrédulo.

Com um roteiro inteligente e ao mesmo tempo sensível assinado por Vanessa Taylor, Um divã para dois, que já caiu no gosto do público brasiliense, graças ao boca a boca, mostra como uma vida a dois pode ser um caos de aparências e mentiras veladas, nos fazendo avaliar, sobretudo, sobre os perigos do casamento, entre eles o da ação implacável do tempo.

“Se ele começar com aquela bobagem de sentimentos reprimidos eu caio fora”, avisa o marido, constrangido diante de um terapeuta, segundo ele, charlatão.

Em cena, a sempre elegante Meryl Streep e Tommy Lee Jones, com aquela eterna carranca de maracujá machucado, até pelas afinidades e entrosamento no set, lembram a clássica dupla Spencer Tracy e Katharine Hepburn, ambos desarmando o público, cena a cena, só com a interpretação dos olhares.

É de matar de ri, por exemplo, vê-los que nem porco-espinho, na cama, tentando uma aproximação frustrada, assim como a cena de Meryl Streep pagando um boquete no marido numa sessão de cinema francês. Agora, dá para imaginar a Meryl Streep fazendo boquete? Nela ela, pelo menos sua personagem.

Quase uma comédia de Woody Allen, pela maneira sofisticada e divertida que expõe as fragilidades e intimidade do casamento, o filme ganha pela simplicidade em que conta a história de pessoas comuns em crise. De modo que para muitos casais com problemas na relação, uma ótima terapia é uma sessão da fita, agarradinho a dois, sem medo de ser feliz. Até porque amor e respeito mútuo sempre foram bem maiores do que só sexo.

* Este texto foi escrito ao som de: The invisible band– (Travis – 2001)

O Palácio dos Ferroviários em Araguari

O imponente museu dos ferroviários em Minas Gerais

Embora nunca tenha andado num, sempre fui fascinado por trens, locomotivas. Acho que é uma máquina engenhosa, grandiosa e imponente. De modo que achei supernatural que a sede do museu dos ferroviários, localizado na cidade mineira de Araguari, tenha a mesma imponência. O Palácio dos Ferroviários, como o espaço é chamado, destoa das casas colônias da pequena urbe e dos novos projetos arquitetônicos que, aos poucos, vão surgindo no lugar. Passear no interior do museu é como estar numa página de livro de história.

Eu não sabia, mas construída em 1928, a estação de trem de Araguari era importante ponto de baldeação da Estrada de Ferro Goiás para as pessoas que vinham de São Paulo com destino ao estado de Goiás. A linha começava em Campinas(SP) e terminava em Anápolis (GO). Dali, por meio de outros transportes, as pessoas seguiam para o Nordeste e região norte do País.

No museu, tivemos contato com inúmeras fotos da época em que a estação funcionava a pleno vapor, além de objetos como enormes ferramentas para a manutenção da máquina e acessórios como trava de trilho, lanternas, uniformes, poltronas dos vagões.

Num galpão afastado, próximo à estação, onde funcionava uma grande oficina, localizamos um vagão de trem intacto. Segundo informações do coordenador do espaço, a ideia é restaurar essa preciosidade para visitação pública. E vale a pena mesmo porque tive a chance de entrar nele e fiquei encantado. E olha que o vagão está todo corroído pelo tempo.

Usado pelas autoridades, enfim, os barões e grandes fazendeiros da época, ou seja, os homens do poder e suas famílias, o vagão-leito, apesar de pequeno, bem apertado mesmo, tinha instalações práticas e confortáveis, acredite, com duas camas e uma pia. No final do corredor ficava um banheiro coletivo. Enfim, um exemplo clássico de quem tinha status na época e ao entrar no vagão do início do século passado me senti, assim, como um daqueles personagens do clássico de Buñuel, A ilusão viaja de trem.

Cidade curiosa e cheia de personagens caricatos, do ponto de vista histórico, claro, essa pequena Araguari. Para quem não sabe, e eu não sabia, foi ali que ocorreu o famoso caso dos irmãos Naves, presos e brutalmente torturados no regime de Getúlio Vargas. Acusados de um roubo que não cometeram os dois irmãos viraram símbolo de erro judiciário e do abuso de poder.

O incidente aconteceu nos anos 30 e nos anos 60 a trágica história da família Naves virou filme pelas mãos de Luís Sérgio Person. De modo que é fácil andar pelas ruas da cidade e esbarrar com alguém que acompanhou as filmagens da fita. Um deles é o jornalista Odilon Neves, responsável pela ida da equipe de cinema para cidade. Dona Gessy, coordenadora do Arquivo Público Municipal da cidade é outra que lembra, com lágrimas nos olhos, do elenco do filme andado pelas ruas da pequena Araguari. “Ah, meu filho, foi uma comoção danada, a cidade parou”, lembra. “Quem fazia um dos irmãos era o Juca de Oliveira e o Anselmo Duarte, muito bonito, fazia o policial carrasco da história”, detalha.

Radialista de renome na cidade, o jornalista Odilon Neves nos contou ainda o dia em que ajudou o general Douglas McCarthy, perdidos pelos céus do Brasil, aterrissar em Araguari em busca de combustível para o seu avião. “No seu livro, Sagazes da vida, ele dedicou dezessete páginas a mim, dizendo que eu sou o seu filho brasileiro que ele encontrou aqui”, diz orgulhoso.

Espero voltar à simpática cidade de Araguari.

* Este texto foi escrito ao som de: Slideling (Ian McCulloch – 2003)

Paul McCartney – The love we make

Documentário traz Paul e amigos em concerto que celebra a cidade de NY

Quando as duas torres gêmeas do World Trade Center caíram após ataques terroristas em 2001, Paul McCartney estava prestes a embarcar em Nova York, mas o voo foi cancelado devido aos acontecimentos bárbaros. Comovido com a tragédia, o ex-beatle então resolveu prestar uma homenagem à cidade que um dia acolheu tão bem o fab four, no início da carreira, e às dezenas de bombeiros, policiais e equipes de resgates que morreram tentando salvar seus pares.

“Meu pai foi bombeiro na 2º Guerra, sei muito bem o que vocês passaram”, revela o cantor e compositor, esbanjando simpatia e consternação, entre bombeiros de Nova York.

O filme, dirigido por Albert Maysles (Gimme Shelter), foi lançado em celebração aos dez anos do fatídico dia que marcou a vida da sociedade norte-americana e nada mais é do que o registro da jornada pessoal do artista pela Big Apple, após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Dessa experiência nasceria o concerto em homenagem à cidade, mas até o show acontecer de fato somos convidados a passear com Paul pelas ruas de Nova York, vê-lo sendo abordado pelos fãs enlouquecidos, ensaiando com a banda, participando de entrevistas nos programas de rádio e televisão locais, articulando os detalhes da apresentação com celebridades como James Taylor, Pete Townshend, Eric Clapton, Jim Carrey e Bill Clinton.

“Pode dizer o que quiserem dos anos 60, mas não podem dizer que nós não demos conta do recado”, diz o ex-presidente, bastante emocionado, ao lado de Sir Paul McCartney e James Taylor.

Quase todo rodado em preto e branco, The love we make – título tirado da música The end, dos Beatles – conta com narrativa espontânea e mostra um Paul descontraído, à vontade com o povo nas ruas, com os artistas em cima do palco. A simplicidade de quem foi e é um dos maiores artistas de nosso tempo incomoda. “Julia, pode acreditar, sou eu!”, brinca ao celular de um fã que pediu que ele falasse com a mulher do outro lado da linha.

Vendo o Paul assim, uma simplicidade de pessoa, às vezes fico sem entender o salto alto de algumas pessoas que se acham acima do bem e do mal sem ser ninguém. Conheci uma garota que se acha uma alteza só porque anda cercada por políticos corruptos e autoridades do judiciário canastrões. E logo com esse bando de marginais. Mas o fato é que não dá para discutir ou entender pobreza de espírito.

Ao passo que grandes celebridades são tão simples que acabam nos constrangendo. Paul McCartney é só um exemplo, mas posso citar também Albert Einstein, que foi o homem mais importante de seu tempo e andava como se fosse um homem comum do povo, uma pessoa que tratava de igual para igual tanto uma autoridade política, o leiteiro do bairro, uma criança curiosa ou alguém humilde solicitando ajuda.

Mas voltando ao documentário The love we make, basta registrar que, após os incidentes terrorista, o ex-beatle, inspirado no eterno parceiro, John Lennon, escreveu a canção Freedom, que é um simulacro afetivo em cima de do hit Give peace a chance. Nada mais oportuno esse paralelo já que poucos artistas amaram tanto Nova York quanto Lennon. Se tivesse, vivo com certeza ele aria sua homenagem à cidade que escolheu para viver e morrer.

“Este é o meu direito/Um direito dado por Deus/Para viver uma vida livre/Para viver em liberdade”, canta Paul, simples, direto e comovente.

* Este texto foi escrito ao som de: Freedom (single) – (Paul McCartney – 2001)