Chinatown (1974), o melhor filme de Polanski

Jack Nicholson, nariz retalhado, em papel que catapultou de vez sua carreira

Jack Nicholson, nariz retalhado, em papel que catapultou de vez sua carreira

Quando o ator Jack Nicholson chamou Roman Polanski para conversar sobre Chinatown, projeto ambicioso do então roteirista novato, mas com boa reputação, Robert Towne, o cineasta franco-polaco vinha de dois fracassos retumbantes de crítica nos cinemas: o épico shakespeariano, Macbeth (1971) e o porn solf, Que? (1973). Com altas contas de luxo para pagar e ambicionando dar a volta por cima não apenas do ponto de vista profissional, mas, sobretudo, pessoal, depois da tragédia envolvendo a mulher Sharon Tate, o diretor não pensou duas vezes em voltar para Hollywood.

Assim, ao começar as filmagens em setembro de 1973, Polanski sabia que não apenas tinha em mãos uma boa história, como se esforçou para transformá-la num exercício de estilo e estética que passasse longe de tudo o que já havia sido feito no cinema dentro do gênero noir. Não é a toa que Chinatown está entre os seus melhores trabalhos, assim como uma das obras-primas da sétima arte. O produtor Robert Evans sintetizou bem a importância da fita certa vez. “Não é só bom, como ainda é o melhor”, disse categoricamente.

Na trama intricada e labiríntica escrita por Robert Towne, um turbilhão de acontecimentos chocantes como assassinato, corrupção e incesto atravessam o caminho de uma bela mulher vivida por Faye Dunaway. Aparentemente desorientada, ela busca ajuda do detetive particular Jake Gittes, Jack Nicholson no papel que daria uma reviravolta em sua carreira.

Chinatown 2Já empenhado nas primeiras pistas, o que ele achava se tratar apenas de mais um caso corriqueiro, se transforma em um grande emaranhado de mistérios envolvendo poderosos da cidade e uma companhia de abastecimento de água. “O futuro, senhor Jake, o futuro”, diz o nebuloso personagem criado pelo veterano cineasta John Huston. “Políticos, edifícios feios e prostitutas se tornam respeitáveis com o tempo”, ironiza ele em outro momento importante da história.

O desfecho sem final feliz – imposto e reescrito por Polanski aos 45 minutos do segundo tempo – e a natureza crua e perversa dos personagens, o tempo todo atolados num lamaçal de mentiras e jogos de interesses, é o toque de mestre que possibilitou que o diretor de O bebê de Rosemary transportasse de maneira fiel e ao mesmo tempo original o público para o universo sórdido das tramas policiais condensadas nos anos 30 e 40 pelos escritores Dashiell Hammett e Raymond Chandler.

Com um figurino de época e fotografia deslumbrantes, um roteiro ganhador do Oscar impecável e atuações marcantes, tudo pareceu conspirar a favor de Polanski na época e, para fechar com chave de ouro esse momento dourado, ele resolveu fazer uma ponta no filme, na impagável cena em que arranca um naco do nariz de Jack Nicholson.

Quando o produtor Bob Evans sugeriu que Robert Towne roteirizasse o romance O grande Gatsby, o último se esquivou delicadamente tirando da gaveta o roteiro de Chinatown. “Não quero tentar ser melhor do que Scott Fitzgerald”, foi a resposta. “Mas podemos filmar isso”, emendou marotamente.

Como se vê. Um dos raros momentos de humildade em Hollywood em que saiu ganhando os poderosos da Meca do cinema e o que é melhor, o público.

* Este texto foi escrito ao som de: Blue train (John Coltrane – 1957)

John Coltrane

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Jukebox Sentimental – Long as I can see the light

Creedence Clearwater Revival, a salvação do rock em meio ao período psicodélico

Creedence Clearwater Revival, a salvação do rock em meio ao período psicodélico

Acho que já contei isso a dois ou três brothers meus. Nos meus tempos de guri e das grandes descobertas, o dia de sábado era especial para mim e meu irmão gêmeo porque alguma novidade sempre pintava no pedaço. Os buracos combalidos de minha alma frágil e solitária eram preenchidos quando a gente saía com o coroa, passava na feira, fechava a lista da mamãe, comprava uns gibis na banca do bairro e o velho, com sua boina estilosa de Pablo Neruda, trazia a trilha sonora da semana.

Foi graças a ele, por exemplo, com todas as diferenças shakespearianas que tivemos ao longo da vida, que me amarrei em Cat Stevens, um dos meus primeiros ídolos de coração depois dos Beatles e, se hoje tenho os californianos do Creedence Clearwater Revival em alta na minha jukebox sentimental, se deve àquela mágica fita cassete da basf com cartolina cor de rosa cheia dos sucessos da banda.

Caramba, hits como Molina, Have you ever seen the rain?, Hey tonight, Who’ll stop the rain, Proud Mary, Bad moon rising, Wrote a song for everyone, Lodi, o cover Suzie Q – numa versão reduzida -, a elétrica Up around the bend e a baladona sentimental, Long as I can see the light – para mim a mais tocante de todas -, têm um frescor juvenil em minha memória.

“Coloque uma vela na janela/Pois eu sinto que devo ir/Apesar de estar indo embora/Eu voltarei logo para casa”, dizem os primeiros versos da acachapante, Long as I can see the light, com seu solo comovente de sax conduzido pelo gênio, John Fogerty, principal compositor e líder do grupo.Creedence

Aliás, banda interessante essa Creedence Clearwater Revival, cujo nome surgiu da fusão do nome de um amigo de John, Tom Fogerty – um dos integrantes do grupo -, com uma cerveja bastante popular na época. Alheios à euforia psicodélica de seus pares do famoso distrito californiano de Haight-Ashbury, eles, autênticos representantes do country rock, apostaram numa sonoridade enxuta, melódica e contundente apoiado nas letras cheias de referências ao sul da América de John Fogerty, dono de uma guitarra potente e inconfundível voz rascante. A base do prestígio popular do Creedence estava na simplicidade root.

Última faixa do álbum mais ambicioso e prestigiado da banda, Cosmo’s factory, gravado em julho de 1970, Long as I can see the light tem certo clima beatnik com sua aura aventureira. E é justamente isso que dá vontade de fazer ao ouvir a canção, ou seja, botar o pé na estrada.

“Arrume minha mochila e vamos andando/Pois estou destinado a vagar por um tempo/Quando eu tiver partido você não terá que se preocupar por muito tempo/Enquanto eu puder ver a luz”, escancara outro trecho da arrepiante faixa.

Poucas vezes o rock foi tão andarilho, enfim, livre, leve e solto…

* Este texto foi escrito ao som de: Cosmo’s factory (Creedence Clearwater Revival – 1970)

Cosmo factory

Só garotos de Patti Smith

Os tresloucados Bob Mapplethorpe e Patti Smith perdidos em Nova York

Os tresloucados junkies Bob Mapplethorpe e Patti Smith perdidos em Nova York

Até hoje eu não me perdoo por deixar de ter comprado, num sebo da cidade, um cd da Patti Smith que estava dando sopa em cima do balcão. E não era um disco qualquer não meu camarada, tratava-se do clássico Horses, um dos álbuns precursores do movimento punk e o pior que eu sabia de tudo isso, inclusive quem era ela e comi mosca. Não me perdoo e ponto final. E quer saber? Não é a primeira vez que isso aconteceu. Anos antes, fiz a mesma coisa com o primeiro disco do Elton John, assim, de bobeira, mas como diria o Billy Wilder, ninguém é perfeito.

Mas enfim, o nariz de cera em cima é para falar que estou lendo Só garotos, livro em que a poetiza e cantora norte-americana lançou há três anos, contando sua história de vida ao lado do visceral fotógrafo Robert Mapplethorpe. Mas calma, ainda não cheguei à fase roqueira dela, nem nos surtos de sadomasoquismo gay de Bob, flanando bem no início da trajetória de ambos e vou contar para vocês: que começo impactante.

Escrito com pegada literária sofisticada que nos faz parecer estarmos diante de um romance cujos personagens centrais são a menina Patti e esse tal de Robert, o livro é cheio de revelações. Para começo de conversa, Patricia Lee Smith, nascida numa segunda-feira, na zona norte de Chicago, numa dia de nevasca braba, em 1946, teve uma infância pobre onde ficava observando a mãe passar roupa sentada na escada de casa e brincava, entre outras coisas, de colecionar vaga-lumes em potes de conservas.

PattiMas desde cedo mostrava ter sensibilidade aguçada já que se interessava na hora das orações, pelos segredos mais íntimos da alma. “De que cor ela é? Eu desconfiava de que a minha alma, travessa, podia fugir enquanto em sonhava e não conseguir mais voltar”, indagava, sem saber direito do que falava. Quando tinha dinheiro, o papel levava os filhos para conhecer museus e a mãe garçonete lhe presenteava com livros sobre arte.

Ao engravidar de um sujeito tão inexperiente quanto ela no assunto, deu a criança para um casal culto de amigos e, no melhor estilo Jack Kerouac, pegou a mochila e botou o pé na estrada, parando em Nova York, uma espécie de Terra Prometida de seu imaginário adolescente. O dinheiro da passagem foi conseguido numa cabine de telefone, depois de surrupiar o dinheiro de uma carteira esquecida.

Aliás, por extinto de sobrevivência, passou a fazer pequenos furtos para alimentar o corpo e alma, como da vez em que levou um livro do poeta e amor platônico, Arthur Rimbaud, de uma banca de revistas da rodoviária da Filadélfia. “Encontrava alívio em Arthur Rimbaud. (…) Ele possuía uma inteligência irreverente que me acendera e tomei-o por um compatriota, um parente e até um amor secreto”, confidencia lá pela página 30.

Os tempos de dureza na Big Apple são narrados com uma sinceridade incômoda, com relatos de seus pernoites em bancos de praças, metrôs e cemitérios, de quando dividia sanduíches de alface com estranhos na rua e fugas de tarados potenciais que lhe pagavam o jantar em troca de algo mais. Foi numa noite de fugas dessas que ela estreitou os laços com um menino chamado Bob, que conheceu quando ele foi comprar uma joia na loja em que ela trabalhava.

“Oi, lembra de mim?”, ela disse. “Claro”, ele respondeu sorrindo.

“Você pode fingir que é meu namorado?”, ela insistiu desesperada. “Claro”, ele devolveu novamente, como se não tivesse se importando com a aparição e o pedido dela.

O resto é história…

* Este texto foi escrito ao som de: Horses (Patti Smith – 1975)

Horses Patti Smith

O verão de Skylab da Julie Delpy

Atriz francesa transforma suas memórias da pré-adolescência em tema universal

Atriz francesa cult transforma suas memórias da pré-adolescência em tema universal

O problema de quando acaba um evento como o Festival de Brasília, mesmo com todas as decepções e transtornos como o deste ano, é que fica aquele vazio cinematográfico no ar, enfim, uma solidão entre os cinéfilos angustiantes. Eu, por exemplo, não terei contato mais com a gatinha Amélie Poulain, mas como já dizia a dupla, Mick e Keith, a gente não pode ter tudo o que quer, não é verdade? Explico. Pelo menos a primeira parte.

Fui dar uma conferida nas estreias deste fim de semana por aí e me desanimei. De modo que o filme escolhido de hoje é uma comédia deliciosa que já está em cartaz faz um bom tempo na cidade. E se estiver em cartaz ainda, porque não tenho certeza disso e o enfado foi tão grande que nem tive o trabalho de conferir, vale dois ou três comentários sobre a fita dirigida pela bela, Julie Delpy, a musa de toda uma geração por conta dos sucessos Antes do amanhecer (1995) e Antes do pôr do sol (2004).

Intrinsecamente pessoal, O verão do Skylab tem como esteio as memórias de pré- adolescente da atriz, roteirista e cineasta ao lado da família no interior da França, quando ela e boa parte do clã, acreditava, veja só, naquele ano de 1979, que um pedaço do foguete da Nasa poderia cair em algum lugar da região do país.

Em meio a esse clima pseudoapocalíptico perduram as intrigas familiares, os embates e Skylab 3diferenças políticas entre uns e outros, revelações íntimas bombásticas, enfim, todos aqueles tipos de conflitos morais e recônditos presentes na obra do dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues. Só que aqui visto por um prisma europeu. Ou melhor, pela ótica de uma jovem europeia vivida pela excelente atriz mirim, Lou Alvarez, alter ego, por assim dizer, dessa fase de Julie Delpy.

Naïf, sincera, desajeitada e adorável no seu jeito simples de ser, ela absorve todas essas incongruências da natureza humana de seus pares por um filtro destituído de maldades e preconceitos, provando que o mundo e o olhar das crianças e adolescentes são mais interessantes. Ou seja, como diria aquele principezinho louro criado por Antoine de Saint Exupéry: como são chatos esses adultos.

Madura e totalmente à vontade numa produção doméstica, Julie Delpy encarna aqui a figura da mãe no passado, enquanto que o pai na vida real, uma persona divertidíssima, vive o seu matriarca ficcional, um homem amargurado pelos dilemas político-sociais de seu tempo, mas, por isso mesmo, hoje com a cabeça no mundo da lua.

Impagável a cena de um dos cunhados dessa grande família num idílico encontro, rastejando pelado em busca da cunhada na calada da noite, assim como a inusitada e embaraçosa visita a uma praia de nudismo da jovem “Julie Delpy” que se apaixona por um dos garotos peladão. O momento mágico é aquela festinha entre amigos regada a muito romantismo juvenil e furiosa trilha punk da época.

Despretensioso e verdadeiro, O verão de Skylab de Julie Delpy parte de um enredo pessoal, intimista para falar do universal. Por isso que todos nós que temos uma família numerosa, cheia de criaturas bizarras e irreais que acostumamos nos encontrar naqueles imperdíveis e, muitas vezes infindáveis fins de semana, nos identificamos de imediato com a história. Que menina versátil e especial essa Julie Delpy, não é verdade?

* Este texto foi escrito ao som de: Setting sons (The Jam – 1979)

The Jam

Film, do Phonopop: gostoso como uma matinê

Segundo tempo para Bruno Daher, Ju, Fernando Brasil e Tharsis Campos

Segundo tempo para Bruno Daher, Ju, Fernando Brasil e Tharsis Campos

Recordo como se fosse hoje aquela noite em que vi e ouvi o Fernando Brasil mandando ver na solar, Sunny afternoon, do Kinks, uma das minhas canções prediletas da banda inglesa dos irmãos Davies, ali no Gate’s Pub. Isso numa época em que o Gate’s Pub era bom. Ou seja, na época do Rubens, o que já faz bastante tempo. Com um violão maneiro à tira colo, pose brit em cima do palco, o cara mandou bem e me chamou atenção.

Depois roubei um EP acho que da Dani – minha amiga que hoje não é mais minha amiga – do Green Folkies, projeto alternativo do cara com o violinista e tocador de banjo, Flávio Pennachio, e mais uma vez o cara me chamou a atenção. Ali a dupla debulhava de maneira bem original canções folks de mestres como Bob Dylan, Donovan, Johnny Cash, Neil Young e tantos outros do gênero, além de versões softs de bandas como Beatles e Stones.

Bom, como não acredito nessa história de que dois raios caem num mesmo lugar, nem fiquei tão surpreso assim quando soube que o Fernando Brasil era vocalista e um dos principais compositores da banda Phonopop, cultuado grupo do rock independente de Brasília. Agora não lembro se foi o Pedrão ou o Falheiros quem me apresentou os caras, só sei que curti e hoje minha relação com o grupo é no mínimo de respeito, o que já acho muito.

Fernando Brasil fala com certo desprezo – e pior para ele – do primeiro registro da banda, Já não há tempo, gravado há oito anos, mas foi graças a esse trabalho, que admiro muito, que hoje ainda Green folkiescontinuo a prestar atenção no som que eles fazem. Distanciado da pegada britpop deste álbum de estreia, Film, o mais recente disco do grupo lançado este ano não caem de maneira tão impactante aos meus ouvidos, mas é um álbum competente, honesto.

A referência cinematográfica do título e da capa se resume ao efeito sonoro da introdução de O náufrago e à citação felliniana em português de Doce vida – com seu desfecho A day in the life dos Beatles -, mas o registro, depois que você se acostuma com as 11 faixas, é tão gostoso como uma matinê.

Posso estar enganado, mas há influências de U2 da fase Pop, aqui e acolá, o que faz do disco um pouco mais ousado no que diz respeito à produção com relação a Já não há tempo, mas não quer dizer necessariamente melhor, afetivamente falando. Além da singela Ninguém, me chama atenção a nervosa Flores no chão e a psicodélica Puro veludo, com seu baixo dançante e riffs de guitarras quentes como chicotes.

“Tente sentir a pulsação, a distorção nas suas entranhas/(…) Meu sangue queima na sua boca de veludo”, diz um dos versos sensuais dessa última canção.

Assim como Entre a piscina e o trampolim, dos amigos Suíte Super Luxo, Film é prova mais do que convincente de que o atual rock de Brasília continua atuante. Espero que eterno.

* Este texto foi escrito ao som de: Film (Phonopop – 2013)

Film

Do incômodo dos vencedores no festival dos amigos

Paula Gaitán, diretora de "Exilados do vulcão", o grande vencedor do FBCB

Paula Gaitán, diretora de “Exilados do vulcão”, o grande vencedor do FBCB

Um clima de desconforto pairou na festa de encerramento da 46ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Afinal, a premiação deste ano de um dos eventos cinematográficos mais importantes do país foi uma balela? Há quem diga que sim e tinha gente revoltada após o final da entrega dos prêmios.

Da experiência que tenho da cobertura do FBCB, digo, sem pestanejar, que esse incômodo reinante pós-festa é vigente há alguns anos. Por quê? Ora bolas, por conta dessa cultura viciada, engessada e burocrata que há tempos vem contaminando a mostra de cinema de Brasília.

A impressão que se tem é que o Festival de Brasília deixou de ser um espaço de ousadia e polêmica, eterna vitrine do que há de mais autêntico no cinema nacional para se tornar uma festa entre amigos regada a afetos múltiplos, nostalgia fora de época e celebração do fútil. E digo isso com pesar meu chapa, porque panelinha é o câncer da humanidade e no cinema, infelizmente, também é assim.

“Todos os cineastas me traíram!”, bradava em alto e bom som o inquieto Glauber Rocha, no fim da vida, inconformado com os rumos tortos que o cinema brasileiro estava tomando.

Bem, fazendo dele as minhas palavras em tom de paródia grito: “Todos vocês do Festival de Brasília me traíram!”, digo, meio que verbalizando as vozes das massas, do público do festival, daqueles inconformados e insatisfeitos com os caminhos que o Festival de Brasília e porque não o de outras cidades, como o de Gramado, vem seguindo nos últimos anos.

Sim, porque o que Glauber defendia era um cinema brasileiro cada vez mais independente e FBCBautoral, voltado para o Brasil em todas as suas confluências estéticas, políticas e sociais. Um cinema desprendido da influência hollywoodiana e do mercado estrangeiro, enfim, um cinema brasileiro. O que pedimos e queremos é que o Festival de Brasília volte às suas origens, resgate a identidade de palco de discussões de um Brasil plural e real e que aqueles que se propõe a mostrar esse país -, talvez desconhecidos de todos nós -, sejam prestigiados e premiados decentemente pelos seus próprios méritos. Enfim, que sejam reverenciados de maneira correta e justa.

Portanto, não transforme o mais importante e emblemático espaço do cinema nacional em conluio entre amigos e interesses diversos. Porque foi desagradabilíssimo, por exemplo, ficar ouvido discurso de representantes do banco x ou do patrocinador y, enfim, burocratas engravatados que não sabem direito qual a diferença entre televisão e cinema, falar sobre a importância do audiovisual no Brasil, o que já estamos carecas de saber. E por falar em careca, o deputado Wasny de Roure, representando a Câmara Legislativa, estava tão deslocado em cena, quanto gringo visitando ensaio de escola de samba.

Lá fora, após o final da mostra, tinha gente questionando a banalização da premiação, do festival em sim. Concordei em parte com o discurso e cabe aqui uma reflexão pertinente.

Afinal, os prêmios de melhor ator coadjuvante para o cineasta Carlos Reichenbach e o diretor de fotografia Aloysio Raulino (fotógrafo do longa, Riocorrente, de Paulo Sacramento), ambos recentemente falecidos, assim como o de Melhor Filme para Exilados do vulcão, de Paula Gaitán faziam referências a toda uma simbologia existente por traz dessas pessoas? Da história que essas pessoas têm com o cinema brasileiro? Da importância que algumas delas tem e tiveram com o Cine Brasília e o Festival de Brasília?

O público, consternado, sensibilizado teria dado o prêmio de júri popular ao longa, Os pobres diabos, por conta da série de problemas técnicos que o filme de Rosemberg Cariry teve durante sua exibição?

Bem, jogo a batata quente para vocês.

O que quero deixar frisado aqui é que, independente das insatisfações e polêmicas em questão é que gostei muito de Exilados do vulcão ter levado o maior prêmio da noite, porque é um projeto que comunga com muita coisa que aprecio e defendo com relação ao festival e a história do Cine Brasília. Ou seja, o de ser uma obra autoral e autêntica do cinema de invenção, do cinema de criação. Tudo a ver com o perfil do festival.

* Este texto foi escrito ao som de: Cosmo’s Factory (Creedence Clearwater Revival – 1970)

Cosmo factory

Paula Gaitán sob o signo de Glauber Rocha

Estreia da diretora no gênero ficção, o filme flerta com o cinema de poesia

Estreia da diretora no gênero ficção, o filme flerta com o cinema de poesia

As pessoas estão tão acostumadas a ver filmes mastigados, entregues assim de bandeja que, quando assistem a um projeto, digamos mais ousado, estranham. Por isso que a debandada ontem, durante a exibição na Mostra Competitiva Ficção do filme, Exilados do vulcão, de Paula Gaitán, foi grande. Quando olhei para trás, lá pela metade do filme, notei que a sessão estava pela metade. O que é uma pena porque algumas pessoas perderam a chance de se deleitarem com uma obra que é puro cinema, enfim, cinema de verdade.

Era de se esperar, já que Paula, ex-mulher do genial cineasta Glauber Rocha, e Eryk Rocha, filho do diretor aqui produtor do projeto da mãe, só fizeram manter a tradição de flertar com o experimentalismo nos trabalhos que realizam. “Tenho uma relação de amor com essa cidade desde A idade da Terra (último filme de Glauber rodado em Brasília), cidade onde o Eryk nasceu e que sempre acolheu nossos filmes de forma maravilhosa”, disse a diretora colombiana radicada no Brasil desde os anos 70.

Destaque do último dia do Festival de Cinema de Brasília, o filme é uma viagem sensorial na trajetória de um grupo de pessoas que gravitam em torno de um vulcão imaginário localizado no fim do mundo. O lugar, de tão inóspito, lembra outro planeta e esse sentimento de estranhamento proposital norteia o tempo todo a trama do longa que explora o tema da memória e dos sentimentos abstrato que o circundam de forma poética e alegórica.

Exilados do vulcão 2“Ela tem o rosto da cor do céu e a chama do desejo”, diz um dos personagens.

Sim, Exilados do vulcão não é um filme fácil. Cinema de detalhes no melhor estilo, a fita aposta numa narrativa cheia de elipses, mensagens subtendidas e fragmentos visuais para construir uma história de mistérios. E montar este quebra-cabeça cinematográfico é que entedia as pessoas que têm preguiça não de ver um filme, mas de compreendê-lo em sua natureza mais enigmática.

Assim, para quem não tem imaginação lírica ou algo que chegue perto disso, o apito do trem e trovões incessantes, cortinas fluorescentes que se transformam em larvas, luz intensa que explodem em labaredas de fogo passam tão despercebidos como uma folha que caí ao léu. E o mais interessante é que Exilados do vulcão é o tipo de filme que anda fazendo falta no Festival de Cinema de Brasília, evento que precisa cada vez mais voltar às suas origens, resgatar sua identidade política e experimental.

Bom, não vi todos os filmes do evento, mas do pouco que vi notei que a mostra ainda continua descaracterizada em sua essência e a desculpa não é a falta de filmes, já que a produção cinematográfica brasileira vai muito bem, obrigada. O problema, como já disse aqui e repito, está na comissão de seleção dos filmes que têm medo de ousar ou se deixam levar pela política do favorecimento deste e de outro, enfim, da viciada e engessada política cultural local.

Certa vez, tive oportunidade de participar da escolha dos filmes vencedores de uma edição e confidencio aqui que o pau come entre o júri porque os debates são acirrados, balizados por sentimentos bairristas e, em alguns casos, por falta de critérios. Em poucas palavras uma vergonha e não é disso que a maior e mais importante festa do cinema brasileiro, assim como do público que a prestigia, merecem.

* Este texto foi escrito ao som de: Through the devil softly (Hope Sandoval – 2009)

Hope Sandoval

Que? – Roman Polanski (1972)

Mastroianni soltando a fera que há dentro de si para Polanski

Marcello Mastroianni soltando a fera que há dentro de si para Polanski

Astro galã dos filmes de Fellini, Antonioni e tantos outros nomes do cinema italiano e europeu nos anos 50 e 60, o belo Marcello Mastroianni resolveu chutar o pau da barraca na década seguinte e mandar para os ares a imagem de latin lover que havia eternizado. Assim, contrariando seu público feminino e masculino, o ator mergulhou de cabeça em papeis grotescos e enredos rocambolescos no qual sobressaíssem, mesmo que de forma inconsciente, a desconstrução dessa persona incômoda.

A comilança, de Marco Ferreri, de 1973, foi um desses trabalhos. Registro obscuro na filmografia de Roman Polanski, seu Que?, de 1972, seria outro. No primeiro, Marcello encarna um devasso amoral que só quer saber de comer, comer e comer: comidas e meninas. No segundo, vive o misterioso Alex, dono de uma mansarda à beira do Mediterrâneo onde o sexo entre seus amigos e convidados inesperados não tem limites.

Contado assim, desse jeito, até parece que o filme do cineasta franco-polaco é pornográfico, o que não é, mas beira ao pornô soft, quase uma versão suave do clássico do gênero Emanuelle. Produzido por Carlo Ponti, a fita reverbera na mesma temática de Armadilhas do destino, filme de Polanski de 1966, onde personagens nebulosos, sem nenhum vínculo entre si, são obrigados a conviver numa situação absurda.

Que 3Após sofrer uma tentativa de estupro, a jovem ingênua Nancy (Sydne Rome) foge de seus agressores noite adentro e vai parar nessa casa cheia de pecado cujo anfitrião é Alex (Mastroianni). Ela tenta explicar o que lhe aconteceu a pouco, mas as pessoas ao seu redor estão interessadas em outra coisa que tem a ver com o motivo que a levou ali.

O roteiro de Polanski e seu parceiro de toda uma vida, Gérard Brach, tem esteio no absurdo para colocar em foco as imoralidades humana. A cena em que nossa heroína em apuros, é persuadida a ficar nua, diante de um velho moribundo interpretado pelo ótimo ator inglês Hugh Grifith (o árabe amigo de Ben-Hur), além de impagável, dá a medida certa das escatologias polanskianas que surgem na tela. O desfecho não poderia ser mais emblemático, com Nancy fugindo nua, entre porcos num caminho cheio de merda, numa metáfora de nossa condição.

Ao ver o filme me veio à cabeça, sim, A comilança, de Marco Ferreri, também trabalhos do espanhol Luis Buñuel como A bela da tarde (1967), O discreto charme da burguesia (1972) e Esse obscuro objeto do desejo (1977). Para se vê que o pequeno Roman, que no filme encarna o estranho Mosquito, com um bigode de barão, mais uma vez estava à frente de seus mestres.

Ah, sim, e recordam dos personagens grotescos de Mastroianni que falei no início do texto? Pois bem, aqui até posar com uma ridícula fantasia de tigre e sendo chicoteado numa cena de sadomasoquismo ele se submete. Nada mão para um ator que gostaria de ser lembrado como um Tarzan bem matusquela.

* Este texto foi escrito ao som de: Chelsea girl (Nico – 1967)

Nico

Jukebox Sentimental – Heartcore (Merthiolate Hamlet)

LucQ Albano (esq.), do Suíte Super Luxo, um  dos melhores letristas da nossa geração...

LucQ Albano (esq.), do Suíte Super Luxo, um dos melhores letristas da nossa geração…

Se Renato Russo foi o poeta da geração 80 e parte da dos anos 90, dentro da minha cosmologia músico afetiva, LucQ Albano, do Suíte Super Luxo, com seu semblante de Lou Reed, foi o arauto dos dias de angústia que vivi (e ainda vivo) na virada do século. E só porque, entre outras coisas, assim como o líder da Legião Urbana, ele é um letrista formidável, daqueles que expõe com autenticidade os problemas da nossa alma escancaradamente, de forma dolorosa e passional, embora ele esteja longe de ser uma máquina. Sim, porque não há como passar despercebidos ou ficar impune a versos como:

“Meu bem, pare de sofrer discutindo com a tevê/Ela é tão superficial, enquanto eu sou tão real”, reflete em Ad hoc, faixa de abertura do álbum de estreia do grupo, El Toro!

E o culpado por essa cumplicidade entre banda e fã foi o meu amigo Pedro Brandt, talvez um dos grandes especialistas sobre o rock de Brasília. Formada há exatos dez anos, a SSL, hoje com dois discos gravados (o segundo se chama Entre a piscina e o trampolim – 2012), só não explodiu nacionalmente porque os homens das gravadoras, os donos do mercado fonográfico são acéfalos, arrogantemente, acéfalos. Mas tudo bem, como diria o velho Quintana, eles passarão, enquanto a banda… Passarinho dentro do meu peito.

SSL 2Bem, confesso rubro que ainda não assimilei direito o som de Entre a piscina e o trampolim, mas El toro!, meu caro, El toro! está entre os melhores discos da minha vida! Um daqueles registros de estreias arrebatadoras que nos deixam de joelhos como, sei lá, Definitely maybe, do Oasis.

Guitarras raivosas suspensas, química fulminante entre baixo e bateria e letras confessionais, incômodas e universais. Adoravelmente incômodas e confessionais. “Ardem como merthiolate/As tuas lágrimas em minhas mãos/Nós já apertamos a mão do Mal/Mas já beijamos a mão de deus”, diz os versos viscerais de Heartcore (Merthiolate Hamlet), a minha preferida entre tantas outras do disco como A fantástica praia dos leões, Ad hoc, Máquinas passionais, Apetite e a adolescente, 2º Grau.

Outro dia, tempo cinza, sombrio, acionei a tecla repeat do som do carro e fiquei ouvindo a tarde inteira Merhiolate Hamlet e quase tive, digamos, assim, uma overdose do Id.  “Não me deixe meu amor/Me ajude saber quem eu sou”, ouvia introspectivamente, com lágrimas nos olhos, os falsetes deste verso, me vendo retorcido no retrovisor do carro.

E quem eu sou afinal? Que rei sou eu? Rei? Estamos falando de altezas e o mendigos e precisamos destronar, matar o príncipe e a bruxa macbethiana sádica, enfim, purificar nossas almas. E quer saber? LucQ Albano é que tem razão. Nossas almas shakespearianas precisam de band-aid e merthiolate. “Teu cartão de crédito não pode mais nos corromper” ele diz e eu complemento: “Nem seu cinismo pode me contaminar, baby”.

Bem, se você ainda não ouviu ou não conhece Suíte Super Luxo é porque não é deste planeta ou sofre de autismo auditivo. Corre o risco de ser as duas coisas.

* Este texto foi escrito ao som de: El toro! (Suíte Super Luxo – 2003)

El toro

De bom tamanho de Alex Vidigal

Uma dupla de matadores que não mete medo, mas faz bom cinema

Uma dupla de matadores de aluguel que não mete medo, mas faz bom cinema

Carlos Reichenbach e Alex Vidigal. Os dois nomes não poderiam ser mais emblemáticos juntos num mesmo dia do Festival de Brasília, porque, de uma maneira ou de outra, eles estão direta e indiretamente ligados seja no campo imagético, das sensações ou das referências. Enfim, guardada às devidas proporções e distanciamento, um é o mestre e o outro é o discípulo dedicado que fez as lições de casa certinha. Ou ainda está fazendo.

Sim, porque um dos jovens e promissores talentos do cinema da cidade, Vidigal é um cara que respira 24h cultura em todos os seus segmentos, mas o cinema está entre suas grandes paixões. E sei disso porque começamos juntos nesse apaixonante e prazeroso ofício de amar a sétima arte acima de todas as coisas, quando ainda éramos estudantes na faculdade e frequentadores assíduos da Academia de Tênis e o Cine Brasília, esse último templo da arte de Glauber Rocha, Luís Buñuel, Antonioni, Godard e tantos outros nomes do gênero.

Uma usina de referências culturais em jovem, Alex Vidigal, sem que ele tivesse conhecimento real disso, me alimentou e instigou muito com sua ampla e curiosa teia de referências musicais e cinematográficas e sorte de seus alunos de audiovisual que o tem como mestre. Por isso que ontem, durante a Mostra Brasília, senti muito orgulho de vê-lo subir ao palco do Cine Brasília para apresentar pela primeira vez naquele espaço sagrado seu filme De bom tamanho.

“Eu frequento o Cine Brasília desde os 10 anos de idade e é estranho ver esse lugar assim, deste De bom tamanhoângulo”, brincou, referindo-se ao fato de muitas vezes estar do outro lado da sala, na condição de espectador contemplativo. Com sua cabeleira de Valderrama, simpatia de Quentin Tarantino e figurino de camaleão mutante ele apresentou a equipe e agradeceu ao júri por ter escolhido um “filme não educado” para participar da mostra. “Acho que precisamos é disso no cinema de Brasília, uma veia de falta de educação”, ironizou.

E é verdade. De uns tempos para cá Brasília anda tendo muitos cineastas e muitas produções cinematográficas, mas poucos são os diretores de cinema de fato que, à revelia da vaidade, da necessidade gratuita de querer aparecer a todo custo, estão comprometidos com uma leitura mais ousada e autêntica no exercício de levar sonhos para as telonas como operários da sétima arte na cidade. Alex Vidigal, Iberê Carvalho, Santiago Dellape, Gustavo Serrat são alguns nomes dessa nova e jovem geração de cineasta que, com estilo peculiar de contar suas histórias, pouco a pouco vem fazendo diferença nesse mar do brasiliense.

Estrelado pelos atores André Deca e Edu Moraes, dois talentos da cidade, em pouco mais de 10 minutos De bom tamanho conta a história de uma dupla de matadores de aluguel preocupados com algo mais do que a profissão mal-encarada que eles têm. O texto de Vidigal é afiado, irônico, divertido e carregado de duplo sentidos maneiros, mas de nada isso seria importante se a direção de atores não estivesse à altura dos diálogos sacados. Daí vem a câmera firme, confiante e denunciante de quem está atrás dela sabe muito bem o que está fazendo. Ainda bem.

À noite, ao ver o drama Avanti popolo, de Michael Wahrmann, no qual o diretor Carlos Reichencbach, que nunca foi ator, encarna um pai amargurado que espera o filho desaparecido nos porões da ditadura por quase 40 anos, fiz o link natural entre os dois diretores de gerações diferentes que são figuras presentes no Cine Brasília.

Bom, infelizmente Carlão não está mais entre nós, mas cabe a Vidigal e sua geração manter a acesa a chama de um cinema audacioso, verdadeiro e autêntico do qual Reichenbach e sua geração defenderam. Um cinema que aprendemos admirar e amar.

* Este texto foi escrito ao som de: Curtis (Curtis Mayfield – 1970)

Curtis