O príncipe e o mendigo

Mark Twain se tornaria clássico por popularizar histórias universais

Levei seis meses para ler Crime e castigo, de Dostoievski. Meu estado de espírito na época era tão deprimente, me encontrava tão triste que me arrastei por dias a fio na tragédia do estudante Raskolnikov. Talvez por identificação, mergulhado naquela angustia existencial vivida pelo personagem. Agora estou a um mês labutando na leitura do clássico O príncipe e o mendigo, de Mark Twain (1835 – 1910). Não por identificação, mas por melancolia talvez. Ando numa fase “Arthur Rimbaud”. Caminho para os capítulos finais do clássico escrito em 1882, que só conhecia de adaptações para o cinema. Nunca tinha lido nada de Twain até então.  O livro é ótimo, uma leitura agradabilíssima.

Poucos autores que se propuseram a escrever temas universais se tornaram clássicos. Missão difícil tendo em vista o fato de que todos os assuntos abordados, em maior ou menor escala, acabam sendo universais. Entre os que tiveram esse sucesso está o norte-americano Twain que, seguindo o exemplo de colegas de pena como o inglês Charles Dickens (1812 – 1870), popularizou em suas tramas bem escritas, a injustiça humana em todas suas facetas e os conflitos tenebrosos entre opressores e oprimidos. O romance O príncipe e o mendigo capta em sua essência essas premissas.

A obra representou um salto na carreira literária de Twain por sua imersão no romance histórico e por trazer ambietação diferente de seus trabalhos anteriores, com histórias sempre focados no Sul dos Estados Unidos, a exemplo do grande sucesso As aventuras de Tom Sawyer (1876).

Twain, nascido Samuel Langhorne Clemens, era conhecido por ser uma amante das viagens, e foi numa dessas, em passagem pela Inglaterra que teve a ideia para o livro. O enredo apresenta um velado tom de fábula, mas a narrativa esbarra em fortes matizes realistas. O romance, embora ambientado no século 16, é extremamente atual, daí uma das características de ser uma obra universal.

Passada em Londres, narra a história de dois sujeitos que nasceram no mesmo dia e com semelhanças incríveis na aparência. Tal qual cara de um, focinho do outro. Se fossem irmãos não seriam tão idênticos. O problema é que Tom Canty era um autêntico representante do povo da sociedade de sua época. Vivia num buraco imundo e fedido chamado Offal Court, nas proximidades de Pudding Lane, como narra o autor, num cortiço aboletado de gente. “A casa (…) era pequena, deteriorada e frágil, mas estava apinhada de famílias desgraçadamente pobres”, descreve Twain. “A família de Canty ocupava um quarto no terceiro andar. A mãe e o pai tinham uma espécie de armação de cama no canto, mas para Tom, a avó e suas duas irmãs não havia restrições, tinham todo o chão para si e podiam dormir onde escolhessem”, segue.

Papéis trocados numa reflexão contundente sobre injustiça social e hipocrisia

A fome acoitava seu estômago dia e noite e  para sobreviver, vivia na condição de mendigo, pedindo esmolas pelas ruas da cidade. Tarefa exercida com a maior das cautelas tendo em vista que mendigar na Inglaterra do século 16 era crime. E, se Canty chegasse em casa sem um níquel nos bolsos, era recebido a pontapés e socos pelo pai.

Já Edward Tudor era filho do herdeiro do trono do Rei Henrique VIII e ostentava uma vida cheia de conforto e luxo. Ao seu redor não faltava amor e carinho, atenção e respeito. A bajulação e a pompa faziam parte de sua rotina.

Um dia, como num passe de mágica, acontece dos dois ficarem frente a frente e o espanto é geral. Trocam de papéis e, por um acidente de ocasião, são obrigados a viver um a vida do outro. Tom é conduzido ao glamour e fausto da corte real e Edward se perde pelas ruas sujas e cheias de marginais da Londres do século 16.

A partir desse episódio surreal o que se vê é um exercício de reflexão sobre a condição humana realizado pelo autor a partir da questão da desigualdade social. Mas Twain, habilidoso que é, realiza tal tarefa sem se perder em maniqueísmos bobos ou juízos de valores. Coloca na mesma balança os dois pesos e medidas da situação vivida por ambos. Os lados bons e ruins de cada lado já que, como dizia o dândi Oscar Wilde: “cada um de nós carrega dentro de si o bem e o mal”.  

A mensagem esboçada por Twain é a que contamina cada um de nós, ou seja, o ridículo hábito de julgar as pessoas pela aparência. E quem não faz isso?! E se você jura que não é do tipo que se deixa levar por tal leviandade, então que passe pela prova da “pedra”, implantada há dois mil anos atrás por Jesus. Aliás, Cristo é quase um símbolo dessa injustiça já que ninguém acreditava que aquele filho de carpinteiro nascido numa manjedoura fosse o Rei dos Reis. Ou seja, a hipocrisia e maldade humana estão o tempo todo estampados nas páginas de O príncipe e o mendigo.

Interessante como o escritor, em alguns momentos ridiculariza os dramas vividos por cada um dos personagens, abusando da ironia como no episódio em que explica a função dos “meninos das chicotadas”, infelizes criaturas encarregadas de receberem os castigos no lugar dos príncipes, quando esses faziam arte. Acreditem, mas existiam coisas como essa na Inglaterra, séculos atrás. Os brutais castigos sofridos pelos sentenciados por crimes são narrados por Twain com riqueza de detalhes. “Entre os prisioneiros estava um velho advogado, punido por ter escrito um panfleto contra um lorde da corte. Acusado de injustiça, fora punido por esse ato com a perda de suas orelhas, o pagamento de uma multa de cinco mil libras, além de ser marcado com ferro em brasa nos dois lados da face e permanecer na prisão pelo resto da vida”, escreve.

O livro é repleto de lições de moral. Uma delas, com inclinação bíblica, diz respeito à questão de nunca julgarmos os outros sem antes ter passado, ter sentido na pele, a mesma situação que o seu próximo. Quando o príncipe se depara com as injustiças, abuso de poder e desmedida violência implantadas sob a égide do governo de seu pai, entra em crise existencial. Diante do que vê, promete rever às leis abusivas criadas pelo antigo governo.

Conheço muitas pessoas que se passam por príncipes, mas que na verdade são verdadeiros “mendigos de alma”, tamanha a pobreza de espírito.  Assim como conheço muitas pessoas simples com alma de príncipe pela grandeza de caráter.

Como se vê, ninguém é o que aparenta ser.

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O dia mais triste do ano

Quando alguém que a gente gosta não vem para a festa...

Hoje é meu aniversário e daí?! Me diga, que graça tem comemorar o dia em que ficamos mais velhos? Quando percebemos que o relógio do tempo, tic tac, tal qual uma ampulheta imaginária batendo dentro de nós, deixa, dia após dia, escorrer a areia da vida? Às vezes queria ser como aquele personagem do conto de F. Scott Fitzgerald, o Benjamin Button, nascer velho e morrer jovem. Às vezes não queria ter existido…

Não tem medo da morte. Tenho medo de não existir para as pessoas que amo, que quero bem!

A única vantagem de comemorar sua data é que nesse dia podemos saber, de fato, quem realmente gosta da gente. É uma equação emocional que envolve números pequenos que levam a uma soma de sentimentos verdadeiros.

Sempre fugi de comemorações, de aplausos inesperados, de abraços e sorrisos forçados diluídos em festinhas surpresas. A melhor demonstração de felicidade por você existir acontece por meio dos pequenos gestos, por meio de sentimentos sinceros codificados em delicadas manifestações abstratas, quase invisíveis!

Por isso que sou melhor quando tenho que lembrar o dia daquelas pessoas que amo… E algumas delas são infinitamente especiais por existir e serem lembradas…

Um dia alguém com um sorriso de sonho e estranha delicadeza caiu como um anjo sobre minha cabeça, traçando um novo caminho em meu horizonte. Meus dias eram de Idade Média e ela, sem saber, me conduziu para uma era de Renascimento que brilhava incessantemente dentro do  meu peito!

Era com ela que eu queria comemorar meu dia hoje, nem que fosse 15 minutos mágicos num café qualquer da cidade, mas o dia no calendário é apenas mais um qualquer na sua rotina… Ou seja, mais um ano que ela não vem…

O desprezo é a pior forma de solidão. E a pior forma de desprezo é aquele que faz você se sentir como se não existisse. Talvez seja por isso que tento desenvolver um estilo de vida que não necessite necessariamente da minha existência…

Acreditem, hoje é o meu dia, o dia mais triste da minha vida!

A raposa e a foca

Era para ser uma dessas histórias que se encaixariam com perfeição nas fábulas de La Fontaine (1621 – 1695), não fosse o episódio narrado a seguir a mais pura verdade. Pelo menos foi o que garantiu um professor da faculdade com nome de imperador etíope.

Reza a lenda que, em meados dos anos 80, uma jovem repórter recém contratada da Rede Globo recebera a incumbência de entrevistar o então experiente político Tancredo Neves (1910 – 1985). A foca em questão é hoje uma consagrada jornalista de política da sucursal brasiliense da Vênus Platinada. Na ocasião, bastante nervosa e, segundo o professor com nome de imperador africano, despreparada, ela vacila diante do grande representante da política mineira e nacional. Aflita, não se contem e desaba em prantos.

Com a bondade que cabe somente aos bons velhinhos, Tancredo, que carregava nas costas o peso de dois mandatos de deputado por Minas (estadual e federal), além do governo daquele mesmo estado e a pasta do ministério da Justiça na gestão de Getúlio Vargas, na titubeia e consola:

– Mas minha filha porque você está chorando?

Pergunta inconsolável.

A velha raposa exibindo o neto Aécio Neves

Após explicar à velha raposa que aquela era a primeira grande entrevista que realizava na vida e que não tinha se preparado suficiente, a ponto de nem saber direito quem era o entrevistado, de nem saber o que perguntar, a jovem repórter é aconselhada:

– Por que você não pergunta se eu vou ser candidato?

Indagou, após uma marota piscadela, o matreiro político, referindo-se à vaga de presidente da república que seria disputada naquele longínquo 1984. A primeira eleição realizada no país após o fim, lento e gradual, da ditadura militar, elegendo um presidente civil.

Esperto, o cansado de guerra Tancredo Neves matara, com uma cajadada só, dois coelhos: daria de presente furo jornalístico que projetaria a jovem foca ao estrelato, na carreira, ao mesmo tempo em que se lançaria, publicamente, candidato ao cargo mais importante do país.

A velha raposa tinha acabado de sair da toca mais uma vez…

P.S. Quer saber o nome da foca, hoje uma consagrada jornalista de Brasília?

Ao mestre com carinho

Livro sobre os primeiros anos de vida de Renato Russo é um belo trabalho de reportagem

Acho que é a terceira ou quarta vez que leio Renato Russo – O filho da Revolução. E a cada leitura uma descoberta nova. É um livro para se ler com lupa nas mãos. E engana-se quem pensa que é uma obra para quem é fã de música, do Renato Russo ou da Legião Urbana. É um livro para quem gosta de Brasília, sobretudo. Escrito por um grande amigo, o jornalista Carlos Marcelo, a obra é ambiciosa, sem ser pretensiosa.

Um dos profissionais mais brilhantes da sua geração, Carlos (aliás, um dos poucos Carlos do bem que conheço), fez recorte interessante e, até então, inédito da vida do autor de Faroeste caboclo. Desvencilhando do comum, do óbvio, o autor propôs contar como surgiu o mito Renato Russo, traçando um perfil detalhado do artista do seu nascimento até o fatídico show no Mané Garrincha, aqui em Brasília. E por que o show do Mané Garrincha? Porque o desastrado evento foi marcante tanto para a carreira de Renato, que depois do incidente prometeu nunca mais tocar na cidade – promessa que cumpriu – quanto para quem esteve lá naquela noite.

Mas o livro não se restringe somente a esse recorte. Há dois personagens nas páginas do livro: Brasília e Renato Russo. Excelente jornalista que é o autor faz oportuno paralelo da trajetória de Júnior (como Renato era conhecido entre familiares e amigos íntimos) com acontecimentos importantes no mundo, e claro, aqui no Brasil. Nada é gratuito, seja no plano nacional ou internacional, Brasília ou Renato Russo é o tempo todo o centro das atenções. E as citações são as mais inusitadas e surpreendentes, prova do minucioso trabalho de pesquisa, garimpagem mesmo, realizado. Detalhe que se entende também à parte iconográfica do projeto. Com o apoio da família, Carlos Marcelo recheia sua obra com inúmeras fotos raras de Renato. Enfim, resumindo, Renato Russo – O filho da revolução é uma grande reportagem.

No livro, o Jornalista Carlos Marcelo mostra que a trajetória de Renato Russo se confunde com Brasília

Paraibano de nascimento, mas radicado em Brasília desde os 15 anos, Carlos Marcelo, também autor do livro Nicolas Behr – Eu engoli Brasília, conhece como poucos a cena cultural que pulsa em Brasília. Atento, sensível e com um olhar singular no que diz respeito à cultura, conhece cada célula artística que vibra pelos cantos dessa cidade cosmopolita. Afetivamente, de coração, adotou o Planalto Central como sua segunda casa e declara essa paixão por meio de um trabalho íntegro e sólido. Tive oportunidade de trabalhar com ele durante um período da minha vida e o aprendizado foi grande. Relendo seu livro pela terceira ou quarta vez o aprendizado continua.

Um cara chamado desespero…

E quando Deus é uma farsa?

Desgrenhado e com a alma em pedaços, o cantor sobe ao palco e, mirando a plateia no escuro, afina o violão. Em seguida gagueja:

– Ei, vocês aí, não acreditem no amor. É algo que pode machucar muito…

Silêncio geral do outro lado.

– É isso mesmo, não acreditem no amor… Dispara!

O silêncio continua perturbador.

– Você sofre pra caramba e não sabe o que fazer. Quer afogar as mágoas na bebida, mas o after day, com a cabeça em pandarecos é pior. Pensa em suicídio, mas daí lembra que tem filhos pra criar, lembra de Deus, mas ele é um cretino completo, não poderá te ajudar, exceto Ele mesmo. Daí o único refúgio, a única salvação é você recorrer a canções como essa… Começa a dedilhar, pra em seguida arrematar:

– Essa vai assim: De um cara chamado desespero pra uma garota chamada sonho…

http://www.youtube.com/watch?v=QIfPIwWn-vg

Brasília cosmopolita

Adulto e crianças encantadas com as firulas visuais de Escher

Chego atrasado 20 minutos no CCBB. De longe, do estacionamento, avisto uma multidão passeando pelas calçadas do espaço. Estranhamento total. São raros os dias em que o local está agitado. Percebo então que são estudantes. Milhares deles. Acompanham a mostra O mundo mágico de Escher. O artista gráfico holandês (1898-1972), do qual nunca tinha ouvido falar, vem encantando adultos e crianças com sua obra repleta de efeitos visuais. O cara era mesmo um mago da ilusão de ótica. Espero que eu consiga levar minha afilhada para ver também.

Entre os visitantes, pessoas com sotaques diferentes. Argentinos, chilenos e representantes dos países andinos. Todos acompanhando a mostra. Perdido, tentando buscar informações, um casal italiano também quer participar do evento. O guardinha da guarita rebola para entender o que eles estão perguntando e ajuda como pode.

Acompanho de longe a confusão dessa Torre de Babel. Eu, com meu inglês de primário, meu português provinciano, não tenho como ajudar. Saio de perto. Ando alguns passos e dou de cara com um monte de gente com olhos apertados. “São os amarelos, os amarelos”, gritaria Nelson Rodrigues de dentro de seu Óbvio ululante! Percebo que são convidados da embaixada da Coréia do Sul que vieram para a abertura da mostra de filmes daquele país.

Sem fôlego é um dos destaque de mostra com filmes da Coréia do Sul no CCBB

Acho bacana o público poder conferir essa mostra. O cinema asiático está em conta no conceito dos cinéfilos de todo o mundo. Aqui no Brasil não é diferente, em Brasília nem se fala. Outro dia, tinha gente brigando nos tapas para conseguir cadeira para ver produções recentes das Filipinas.

De hoje até o dia 31, dia das bruxas, serão exibidos no espaço seis filmes realizados recentemente no país que virou um tigre da economia mundial. O sucesso nesse setor tem refletido em outros segmentos da sociedade sul-coreana, como a cultura. Premiado em várias partes do mundo, o cinema da Coréia do Sul tem despontando com sua mistura de habilidade técnica com temática sócio-humanista.

Destaque da abertura de ontem (26), no espaço, o drama Sem fôlego (2009) fez jus ao título e deixou público sufocando com a história de famílias vítimas de violência no lar. Trata-se de uma realidade triste vivenciada no país, realidade universal, que ganha matizes contundentes pelas mãos do diretor Yang Lk-Joon. Há muita violência nas telas. Closes fechados e câmera nervosa na mão perseguem diálogos sujos, personagens angustiados por traumas do passado e ameaçados por futuro sem perspectivas. Sobretudo no âmbito emocional já que cicatrizes indeléveis são como fantasmas dentro de alma dilacerada por tragédias familiares. Até porque, são as crianças, as mais afetadas pelo problema. O desfecho é perturbador, quase bíblico, tudo a ver com essa Torre de Babel de emoções e olhares do mundo.

Comer rezar amar surpreende

Em Comer rezar amar Julia Roberts busca um sentido para a vida

Fui ver o filme Comer rezar amar, com a Julia Roberts cheio de preconceito. Pensei que fosse mais uma daquelas historinhas de auto-ajuda ou tramas de mulherzinha mas não é. Claro, o diretor Ryan Murphy, gay assumido, deu um toque afetado à trama, inspirada no livro da autora Liz Gilbert, mas não posso me aventurar muito nesse terreno já que não li o livro homônimo da escritora norte-ameircana Elizabeth Gilbert… E nem vou ler…

Não gosto da Julia Roberts. Acho ela feia, desengonçada, nem um pouco feminina e com uma cara de Alligator. Até o guru dela no filme concorda com a cara de Alligator. Assista e vocês vão ver. Mas admito que ela fez bons filmes como Closer e Erin Brockovich. Aqui nesse drama romântico ela é uma escritora em busca de um sentindo para a sua vida. Com boas atuações, o filme mira certeiro um público alvo: aqueles que gostam de armar suas malas e escolher um lugar ao léu no mapa-múndi. Mas também os que estão em busca de nova guinada na vida. Quem busca paz de espírito em algum lugar do hemisfério ou dentro de si mesmo. Esse lugar pode ser “uma cidade no Norte de Ontário”, como canta o bardo canadense Neil Young (incluído na trilha sonora), ou dentro do seu peito. “A única coisa pior do que ficar é ir embora”, avisa a personagem de Roberts logo no início.

Na trama, Liz é uma escritora bem sucedida em crise no casamento e consigo mesma. Um dia ela descobre que Deus existe e cisma que Ele, no alto de sua onipresença, irá tirá-la desse momento de angústia e dor. E Ele é generoso. Materializa-se para ela não como uma entidade espiritual invisível, etérea, mas por meio de exótico pacote de viagem que a conduz à Itália, Índia e Indonésia. Com mala à tira colo, deixa para trás ex-marido, um namorado de ocasião e amigos. É dentro desse roteiro inusitado e paradisíaco, quase uma jornada existencial, que ela irá confrontar os segredos e descobertas que remetem ao título do livro/filme.

O charmoso Bardem vive amante brasileiro "perdido" na ilha de Bali

Aparentemente ingênua, a história de Comer rezar amar tenta passar a mensagem de redenção da alma por meio das coisas simples da vida. Entre elas desse demônio irascível chamado amor, seja ele fraternal, espiritual ou carnal. E funciona. Faz isso sem ser pretensioso, e o que é melhor, com muito senso de humor.

Gosto no filme da parte “italiana”, onde cercada de amigos, ela descobre os sinuosos labirintos das ruas de Roma, a cidade das ruínas e da boa comida. Palco de muitos clássicos italianos. Dá até vontade de puxar uma cadeira do tradicional restaurante Taverna Trilussa e pedir uma taça de vinho ou beliscar um sorvete na Palazzo del Freddo. (Não conheço esses lugares, nunca fui lá, li sobre eles numa revista de turismo que falava sobre o filme).

Também gosto do personagem de Richard Jenkins, o sujeito que é a cara do James Taylor (E é mesmo). É ele, com sua rabugice de papelão e tragédias pessoais, quem irá trazer o público à realidade. Do “conto de fadas” vivido pelo casal Liz e Felipe, o brasileiro interpretado pelo sempre charmoso ator espanhol Javier Bardem. “Antes de perdoar os outros, tente perdoar você primeiro. É o que estou tentando fazer”, filosofa. O perdão liberta a alma desse manicômio de caricaturas do qual ela pertence.

Van Gogh enlouqueceu de solidão

Ampliei minha galeria virtual de filmes clássicos na adolescência, acompanhando a programação do canal Cult da Net. Lembro que minha mãe, meu irmão, uma vez ou outra entravam no quarto, olhavam meio de soslaio para aquelas imagens em preto em branco, brigando com o cinza metálico na televisão e soltavam a frase impiedosa: “É doido mesmo!”. Também lembro que a maioria daqueles filmes raros nem sonhavam em ser lançados em DVD até porque, DVD, naquela época, era coisa de outro mundo.

Mas as coisas mudaram. Quase tudo pode ser encontrado hoje em dia nas prateleiras das melhores lojas do ramo. Como diria o velho bardo Bob Dylan: “Futuro é coisa do passado”, acreditem. Uma dessas preciosidades que estavam engavetadas no meu inconsciente e que acaba de sair em DVD é Sede de viver (o título em inglês Lust for life é bem melhor) cinebiografia sobre pintor holandês Vincent Van Gogh. Dirigido em 1956 por Vincent Minelli, o projeto trazia como protagonista o versátil e viril kirk Douglas como o atormentado artista. Impressionante a semelhança de Kirk com Van Gogh. De longe, ninguém saberia dizer quem é um ou quem é o outro. E sua atuação é impecável, assim como a do mexicano Anthony Quinn, na pele do intempestivo pintor francês Paul Ganguin. Quinn, aliás, ganharia um Oscar de ator coadjuvante por seu desempenho neste drama.

Kirk Douglas impressiona na pele do pintor Van Gogh

A história, uma adaptação de novela escrita em 1934 por Irving Stone, tem como espinha dorsal as inúmeras cartas trocadas entre Van Gogh e o irmão Theo (James Donald), espécie de anjo da guarda do pintor. Por meio delas, o roteirista Norman Corwin pode construir uma trama envolvente e repleta de tensões dramáticas.

De uma família calvinista, Van Gogh fez de tudo para seguir a carreira do pai, um pastor conservador com quem vivia às turras, mas o amor pela pintura foi mais forte e, com o apoio irrestrito do irmão, abandona tudo para se dedicar exclusivamente à sua arte. De alma humanista, sonhava aliviar o sofrimento do próximo com seu dom, daí o fato de seus primeiros registros retratarem o homem simples do campo ou operários. O filme registra bem esse lado ingênuo, quase utópico do artista que, ao longo dos seus 37 anos, só colecionou fracassos. Impressiona a crueza da sequência em que a prima Kay, por quem ele era perdidamente apaixonado, à rejeita. “Ela disse que sua insistência a enoja”, avisa a família dela.

Com o coração dilacerado por amor não correspondido, a alma castigada pela hipocrisia das pessoas que o cercavam e a razão perdida na escuridão da mente, Van Gogh aplaca sua solidão mergulhando a cara nas telas, que pintava incessantemente. Sobre esse detalhe vale a nota. Espanta o fato de o artista ter vendido apenas um quadro em vida do vasto acervo que deixou aos cuidados do irmão Theo.

É essa injustiça do qual ele foi vítima, tanto no meio artístico e, sobretudo no meio social, segregado por parentes e amigos, inclusive, que o achava louco, enquanto ele na verdade era doente, que interessava o diretor Vincent Minelli. Do primeiro ao último take, Minelli ressalta com matizes fortes, que o artista não se suicidou, mas foi suicidado pela sociedade do seu tempo. Que um dos artistas mais brilhantes do século passado enlouqueceu e morreu de solidão!

Metalinguagem – Sensível e de uma esperteza sem igual, o diretor Vincent Minelli, que adorna a trama com impecável direção de arte, não perdeu oportunidade de recorrer à metalinguagem para contar a trágica história de um dos precursores do impressionismo. Pegando emprestado em todos os museus do mundo, inclusive do Brasil, as telas do artista, ele dá um toque quase impressionista à narrativa por meio da explosiva fotografia da dupla Russell Harlan e Freddie Young. Ela salta aos olhos, assim com a pintura visceral do Van Gogh.

Livro sobre os Stones repleto de detalhes

O livro é uma colcha de retalhos, mas de boa qualidade

Certa vez Mick Jagger e Keith Richards marcaram uma reunião para discutir o álbum seguinte da banda num luxuoso hotel. Conversaram muito, mas também beberam pra caramba, talvez porque pensassem que aquela seria a última vez que fizessem isso novamente. E só os dois já que o restante do grupo já tinha ido dormir fazia tempo. No dia seguinte, com a cabeça estourando, Mick pega o telefone e grita com Charlie Watts:

 – Onde está o meu baterista? Onde está meu maldito baterista? Mexa essa bunda imediatamente!

Watts colocou o telefone no gancho, fez a barba, vestiu sua impecável camisa branca, amarrou a gravata, se alinhou no terno bem cortado, sem se esquecer dos sapatos feitos à mão. Pegou o elevador e, na primeira oportunidade que teve, agarrou Mick Jagger pelo colarinho, dando um sopapo com a esquerda que o jogou em cima de uma travessa de salmão:

– Numa mais me chame de seu baterista, você que é meu maldito cantor!

Lenda ou não, o episódio é narrada com riqueza de detalhes no livro Mick Jagger e os Rolling Stones, escrito pelo alemão Willi Winkler. O título engana é bem verdade, já que a obra não conta a trajetória da banda há mais tempo na ativa pela perspectiva de seu líder, assim como não se trata do projeto oficial sobre o grupo inglês, mas agrada. Agrada porque o autor tem personalidade, estilo próprio, elementos que dão identidade ao trabalho escrito em 2002 e só agora lançado no Brasil pela Larousse.

Com uma pegada totalmente beatnik, o jornalista percorre as principais passagens da trajetória dos Stones e prima pela riqueza de detalhes de alguns episódios da atribulada existência da banda londrina. Engana quem diz que o livro é para iniciantes no mundo do rock ou até mesmo na biografia do celebrado grupo. Há passagens ali que podem pegar de surpresa até mesmo o mais antigo sócio do fã clube stoneano.

Esperto, Winkler, que assistiu ao primeiro show do grupo nos Estados Unidos, em 1978, em Los Angeles, na época da turnê de divulgação do disco Some girls, em pleno reinado punk, centra sua narrativa tendo como personagens figuras emblemáticas que fizeram parte do convívio do grupo. Entre eles, claro, o pirado produtor Andrew Loog Oldham, o cara responsável por promover o grupo na mídia quase que a fórceps, além das namoradas Marianne Faithfull e Anita Pallenberg. Foi Oldham quem bolou a ideia de criar uma imagem diferente dos seus pupilos, destoando dos “bonzinhos” Beatles, a reboque da maliciosa frase: “Você deixaria sua filha casar com um Stones?”.

"Você deixaria sua filha casar com um Rolling Stones?".

Também coube ao produtor o mérito da baladona vitoriana As tears go by, composta, após ele trata Mick e Keith na cozinha de sua casa. “Escrevam uma canção! Estarei de volta em duas horas”, teria avisado. “A música já havia sido lançada antes do Natal (…), dessa vez cantada por Mick Jagger, num registro que ele não usava mais desde a escola, e a voz foi envolta por um quarteto de cordas que remetia de maneira mais que evidente ao classicismo de Paul McCartney em Yesterday, lançada no ano anterior.

Outro ponto alto do livro é o mergulho na biografia do genial, mas perturbado Brian Jones, o fundador do grupo que teve sua propriedade arrancada das mãos pelo ambicioso Mick Jagger. Sensível, fraco e quase sempre drogado, Jones aos poucos foi perdendo espaço na banda, na medida em que, sucumbiu de maneira irresponsável ao lema sexo e rock ‘n’ roll. As aventuras do talentoso músico no Marrocos, na época o paraíso do haxixe, são detalhados com esmero por Winkler no livro. “Não me julguem com muita severidade!”, frase enviada por Brian via telegrama aos pais em 1967, quando fora preso pela última vez por conta de seu envolvimento com as drogas.

As influências de Kerouak e sua turma ficam evidentes no texto de Winkler na parte em que escreve os acontecimentos e confusões que geraram o conturbado show em Altamont, nos Estados Unidos. Desde o início um equívoco que poderia ter sido evitado não fosse os voos megalomaníacos do vocalista Mick Jagger. “Os jornalistas, os roadies e muitos fãs salvaram-se subindo ao palco. Os Hell’s Angels continuaram bebendo e surrando, e mais três pessoas morreram naquela noite. (…). É surpreendente que a morte de um negro por um branco bêbado não tenha levado a uma inquietação racional ou, como se dizia na época, a um ‘levante de negros’”, questiona, em dado momento, o autor. “A moda dos hippies cessou, os anos 60, o conto de fadas de tempos imemoriais tinham definitivamente passado”, emenda, com certa melancolia e ironia. O livro pode até ser acusado de ser uma colcha de retalhos da vida dos Stones. Mas de boa qualidade.

Mick Jagger comanda a trupe no conturbado show de Altamont

Stanley Kubrick e o medo do Juízo Final

Stanley Kubrick: o diretor norte-americano às vezes gostava de brincar de DeusStanley Kubrick morreu (9 de março de 1999) e, pasmem, foi direto para o céu. Uma semana depois, morrendo de inveja, desembarca na área celeste ninguém menos do que Steven Spielberg. Mas como um judeu vai parar no céu?! Enfim… Diretor de filmes como Tubarão (1975) e A lista de Schindler (1993), o sujeito é recebido nas portas do paraíso por São Pedro em pessoa que vai logo dizendo: – Deus adora os seus filmes e quer que você se sinta em casa aqui. Qualquer coisa é só falar comigo, diz Pedrão, dando tapinhas sutis nas costas de Spielberg, que não titubeou:

 – Escute, Stanley Kubrick morreu poucos dias antes de mim e fiquei sabendo que ele está por aqui. Gostaria muito de conhecê-lo. Esse encontro é possível?!

Cofiando sua barda de 2 mil anos São Pedro reclama:

– Poxa, tanta coisa por aí e você me pede logo isso. Você sabe que o Kubrick não gosta de falar com ninguém…

Sem desanimar Spielberg não desiste:

– Mas o senhor não disse que era para me sentir em casa, que estaria às ordens para qualquer coisa…

Nervoso e sapateando nas sandálias também de 2 mil anos Pedrão faz tempestade:

– Disse, mas não faço milagres. Não sou Jesus!

Em seguida, puxa Spielberg pelos braços para dar uma volta Éden. Pouco tempo depois Spielberg avista, entre as nuvens, um senhor de vastos cabelos brancos desgrenhados vestindo uma velha jaqueta do exército numa bicicleta. Tremendo de emoção, balbucia para o santo:

 – Olha, o Kubrick!

 Com a calma reservada somente aos homens santosm, de bem, São Pedro mais uma vez cofia sua barba e esclarece:

– Não, aquele não é o Kubrick. É Deus. Ele pensa que é Stanley Kubrick.

Protagonista do clássico de guerra Nascido para matar (1987), de Kubrick, o ator Matthew Modine contou essa história ao seu antigo diretor pouco antes dele morrer. Testemunhas disseram que Kubrick quase antecipou sua ida para o céu de tanto ri.

Embora uma anedota, a história acima elucida o quanto o diretor norte-americano de alma renascentista poderia ser megalomaníaco e egocêntrico. A ponto de querer ser Deus. Mas, apesar de tudo, nutria esse egocentrismo e mania de grandeza de forma bastante peculiar e contida. Mas que Kubrick às vezes gostava de brincar de ser Deus isso ninguém duvida o alguém aí não viu 2001 – Uma odisséia no espaço (1968)? Embora um filme menor, mas cerebral, Dr. Fantástico, que revi outros dias, também é uma tentativa de ser onipresente, mas de uma maneira bem bizarra, cínica. E com um senso de humor incomum. Dirigido em 1964, em plena paranóia da Guerra Fria, o longa satiriza de forma perturbadora o militarismo, tanto por parte soviético (naquela época a Rússia se chamava União Soviética), quanto norte-americano.

Começando a despontar como um excelente ator de comédias sofisticadas, Peter Sellers – o eterno astro de a Pantera Cor de Rosa – atuaria nessa celebrada história de humor em três papéis. Mas como Kubrick, com um ego do tamanho de um mamute, permitiu que alguém aparecesse mais do que ele em uma produção sua?! “Na verdade mr. Sellers iria atuar em quatro papéis, mas infelizmente torceu o tornozelo”, lamentaria anos mais tarde o diretor.

Enfim… Baseado num seriíssimo livro que ninguém prestou atenção na época (exceto os militares e Stanley, claro), Alerta vermelho, escrito pelo ex-tenente da Força Aérea Inglesa Peter George (que co-roteirizaria sua história junto com o próprio Kubrick e o romancista Terry Southern), tinha como tema central a luta armamentista travada entre os dois blocos – o de esquerda (os comunistas) e o de direita (os capitalistas) -, e o medo eminente de uma guerra nuclear. Kubrick potencializou esses conflitos mostrando o quanto o poder quase sempre cai nas mãos de imbecis como os políticos e os militares. A trama, de uma simplicidade quase ululante, vai se tornando complexa aos poucos, ganhando aspectos de velada comédia pastelão por meio dos diálogos insólitos.

Depois que um general enlouquecido (Sterling Hayden) ordena um ataque nuclear à inimiga maior União Soviética, o presidente dos EUA corre histericamente contra o tempo para evitar a explosão acidental. Para isso, pede que os próprios inimigos derrubam os aviões da pátria. Vivido por Peter Seller, irreconhecível, no papel, ele terá como ajudantes nessa empreitada o capitão Mandrake (mais uma vez Seller, agora na pele de um burocrata), o general George C. Scott (quase que antecipando em alguns anos o personagem que o imortalizaria em Patton) e o sombrio conselheiro Dr. Fantástico, que em tempos não muito distantes, servia como ex-cientista nazista junto ao Führer.

Peter Sellers é Dr. Fantástico: o personagem vivia à sombra de Hitler

Esse terceiro personagem vivido por Sellers, meio que sintetiza o clima pesado do filme. Dominado por seu doente braço direito, que insiste o trair trazendo o passado à tona com saudações nazistas, Dr. Fantástico apavora seus superiores com a possível existência de uma “Máquina do Juízo Final” e das conseqüências que ela traria à humanidade se caísse em mãos erradas, ou seja, nas mãos dos russos. Extremamente atual, o filme conta com vários momentos divertudos. A cena final dotrama, na qual ele anuncia o fim do mundo para a alta cúpula do pentágono tem clima de filme de terror, apesar das palhaçadas faciais de Sellers, mas a imagem que os cinéfilos gostam de lembrar, é aquela em que o piloto do avião (Slim Pickens) cavalga uma enorme bomba nuclear rumo à grande explosão. É como que Kubrick, de dentro de sua elegante ironia, dissesse o quanto são caipiras esses homens que adoram fazer guerra. “O filme mantém o mesmo clima de suspense (do livro). Mas, por mais que eu trabalhasse nele, mais me intrigava os aspectos cômicos… A comédia pode ser mais realista do que o drama porque ela leva em conta o bizarro”, diria na época. Ri das próprias desgraçadas e mazelas às vezes pode doer mais.