Os vilões que adoramos odiar

Talvez o Coringa de Heath Ledger seja o mais incômodo dos psicopatas já criados pelo cinema

Talvez o Coringa de Heath Ledger seja o mais incômodo dos psicopatas já criados pelo cinema

Se você alguma vez na vida já ficou incomodado com algum vilão que viu no cinema, no teatro ou na televisão, então é porque o ator que encarnou o papel é formidável. Pelo menos naquele momento em que ele é a pura, crassa e hedionda encarnação do mal. A regra é clara meu chapa, tanto no cinema quanto na televisão, no teatro ou na literatura, não existe uma boa história sem um bom violão e muitos desses sujeitos até adoramos a odiar, como é o caso do personagem Félix, vivido pelo ótimo ator Mateus Solano, em Amor à vida, da tevê Globo. E olha que ultimamente nem vejo mais novela, mas confesso que, vez ou outra, quando ninguém está olhando, eu dou uma paradinha no que estou fazendo só para conferir os chiliques do cara que são hilários.

“Gente boazinha demais me cansa”, diz o seu personagem, dono dos bordões mais hilários da televisão brasileira. “Você nem imagina a gracinha de pessoa que eu sou”, costuma dizer ele todo dissimulado e cínico.

Bem, motivado pelo Arquivo N de ontem da GloboNews, que destacou os grandes vilões da história da emissora carioca, resolvi escrever aqui sobre alguns dos antagonistas que me marcaram no cinema, no teatro, na literatura, e claro, na televisão. E começo com duas víboras da teledramaturgia brasileira que são deliciosos fantamas da minha infância. Um é o maldoso e sádico Aristide Ferreira, o Barão de Araruna, em atuação inesquecível de Rubens de Falco na novela, Sinhá Moça (1986). O outro a indecente e irritante Odete Roitman, vivido pela espetacular Beatriz Segall na novela da minha vida, Vale tudo (1988). Até hoje não existe uma personagem tão imponente em sua arte de fazer maldade como ela e olha que gosto também da Perpétua de Tieta, encarnado pela atriz Joana Fomm.

Depois veio o nojento, Vanoli de Que rei sou eu? (1989), com um Jorge Dória impecável e Dorian Grayo recentemente Olavo, criação do ator baiano Wagner Moura para a novela Paraíso tropical (2007), papel que deu visibilidade nacional ao excelente ator. “Na época eu já era pouco conhecido, mas com o papel virei um ator popular”, confessou o ator na época, que criou um vilão simpático, humanizado, dentro de suas contradições mais sórdidas.

No cinema me vem à cabeça o inseguro, terno e conflituoso psicopata Norman Bates, personagem do clássico do suspense, Psicose (1960), de Alfred Hichtcock. Juro que já vi esse clássico do cinema umas quinze vezes e até hoje, do começo ao fim, mesmo sabendo do caráter do personagem, torço por ele.

Outros vilões do cinema inesquecíveis que recordo agora é o Al Capone de Robert De Niro, a inescrupulosa vivida por Anne Baxter em A malvada (1950) e a gosmenta Bruxa Malvada do Oeste do clássico infantil, O mágico de Oz (1939). O xerife implacável do faroeste Os imperdoáveis (1992), Little Bill Daggett, interpretação magnânima do veterano Gene Hackman, é outro que não me sai da cabeça, mas recentemente o espanhol Javier Bardem assombrou os cinéfilos com a persona andrógina Anton Chigurgh, de Onde os fracos não têm vez, o atípico faroeste dos irmãos Ethan e Joel Cohen. Gozado que li o livro do Cormac McCarthy, mas a caracterização do personagem no livro não me deixo com tanto calafrios como a construção do astro espanhol.

Mas alguém aqui pode me dizer se existe um psicopata mais fantástico do que o Coringa personificado pelo ator Heath Ledger em Batman – O cavaleiro das trevas (2008)? Duvido.

No teatro, todos os vilões de Shakespeare são deliciosamente apaixonantes e asquerosos, enquanto que na literatura ainda me assusto com o vaidoso jovem Dorian Gray, de Oscar Wilde, que faz do culto à sua beleza um dos mais mortais dos pecados.

E quem disse que ser mal não é gostoso? Eu pelo menos não me considero um vilão, mas que adoro odiar, isso sim, eu adoro!

* Este texto foi escrito ao som de: Boy (U2 – 1980)

Boy - U2

Juan e Evita (2011)

Filme retrata período em que ambos nem eram os grandes ídolos da América Latina que se tornariam

Filme retrata período em que ambos nem eram os grandes ídolos da América Latina que se tornariam

Grande heroína do povo argentino, Evita Perón (1919 – 1952), conhecida mundialmente como a mãe dos pobres, foi uma dessas personalidades míticas latino-americanas que habita o inconsciente coletivo de milhares de pessoas com a força da alma populista. Mesmo aqueles que não têm uma noção clara de quem foi ela, sobretudo para os Hermanos, há de vislumbrar um esgar de respeito. Bem, parte da vida dessa grande mulher poderá ser conferida no drama, Juan e Evita – Uma história de amor, em cartaz em Brasília.

No filme dirigido pela cineasta, bailarina e coreógrafa Paula de Luque, a relação Eva com o estadista Juan Domingo Perón, é mostrada de forma emotiva. Lançado na Argentina em 2011, só agora o filme chega ao Brasil e tem conquistado o público pela simplicidade singela com que expõe a intimidade desses dois grandes ídolos da América Latina.

A história, dividida em três partes, percorre o período de um ano e meio entre 1944 e meados de 1945, recorte que abrange com intensidade o início da relação amorosa entre uma jovem atriz em ascensão e um coronel do exército prestes a se tornar vice-presidente de seu país e ministro do trabalho. Ela, ainda de cabelos pretos e um tanto quanto tímida, ainda sujeita à condição paternalista do amante. Ele, um experiente e carismático militar cercado de traidores, mas querido das massas e com o destino rumo ao poder incerto.

Juan e Evita 3“Não vou dizer adeus, mas até sempre”, gostava Perón de terminar assim, seus discursos, com caliente fervor.

A sutileza do roteiro da diretora Paula de Luque – baseado em obra homônima escrita por Jorge Coscia -, está em agregar fatos históricos e ficção com elemento narrativo poético, como mostra um dos momentos-clímax da fita, quando imagens documentais em preto e branco invadem o colorido da fantasia. Outro ponto positivo do filme é o fato de trazer à baila um período da vida de Evita e Perón um tanto quanto obscuro – pelo menos para nós brasileiros -, numa época em que eles não eram tratados ainda como ídolos da massa e nem sabiam que iriam chegar aonde chegaram.

“O meu filme fala de uma Eva anterior a que nós conhecemos. A emoção está no amor. Acredito que Juan e Evita emociona por eles ainda não saberem bem do que se trata esse relacionamento, nem no que isso se tornaria para eles”, me disse por e-mail a diretora Paula de Luque, em entrevista que fiz para o site Meiaum. (Confira entrevista completa aqui). “Eles não são tratados como dois heróis latino-americanos e sim como um homem e uma mulher. Ambos com suas misérias e suas nobrezas, seus amores e ódios, seus fracassos e como eles se sobrepõem a isso”, destacou a jovem cineasta, que também dirige o Festival Internacional Unasur Cine, mostra que reúne produções da América do Sul.

Além da impecável direção de arte e reconstituição de época deslumbrante, Juan e Evita nos brinda ainda com a simpática atuações de Osmar Núñez e Julieta Díaz, ambos nos papéis-título. Aliás, a verossimilhança dos dois atores com os seus personagens baseados na vida real é incrível, sobretudo a dele.

Contudo, o que me ficou na memória do filme foi um detalhe histórico, diria que até político, que aparentemente não tem nada a ver com os personagens do filme. É o seguinte, como a trajetória de Domingo Perón é parecida com a de Getúlio Vargas. Pior, como a trajetória de ambos é similar a de muitos estadistas latino-americanos do século passado.

* Este texto foi escrito ao som de: Tango Gardel (Carlos Gardel – 2013)

Carlos Gardel

Lou Reed – Farpas de veludo

A força da poesia marginal e adulta desse grande artista nunca morrerá...

A força da poesia marginal e adulta desse grande artista nunca morrerá…

Alguns artistas, de tão especiais e importantes para a humanidade que são, deveriam ser eternos, no mínimo semideuses entre humanos medíocres. Lou Reed, morto no último domingo, aos 71 anos, seria uma dessas figuras míticas e tudo graças ao grande legado que deixou por meio daquilo que fazia de melhor, ou seja, escrever canções e cantá-las. “Música é tudo. As pessoas deviam morrer por ela. Estão morrendo por qualquer outra coisa, então porque não pela música?”, perguntou certa vez, cheio de ironia.

Exagero? Bom, toda lista descente de grandes álbuns de todos os tempos já lançados tem lá, entre os dez trabalhos mais influentes do pop rock, o primeiro disco do Velvet Underground, banda montada por Lou Reed e o amigo de escola John Cale em meados dos anos 60. Lembro que, de tanto ler sobre o trabalho, criei uma expectativa monstro antes de ouvi-lo e quando isso aconteceu foi inesquecível, marcante, indelével. São raros os domingos de manhã que não me fazem lembrar da solar, Sunday morning. 

Produzido pelo artista plástico vanguardista, Andy Warhol, o disco da banana, como ficou conhecido, não vendeu muito, mas influenciou toda uma geração de adolescentes antenados que, ao escutá-lo, deixaram os brinquedos de lado para montar sua banda. Brian Eno e David Bowie nunca negaram a influência de Lou Reed e o Velvet em suas trajetórias e hoje é possível encontrar ressonâncias da sonoridade suja e experimental do VU no som do Sonic Youth, Weezer, Strokes, entre outras.

Mas um elemento inerente ao grande talento de Lou Reed, sem sombra de dúvida, era a força de Lou Reed 3sua poesia adulta e marginal, cheia de farpa de veludos que colocava em evidência o lado selvagem da vida com personagens malditos como prostitutas, travestis, traficantes, ladrões e doidões. “Holly veio de Miami, Flórida/Atravessou os EUA pegando carona/Depilou as sobrancelhas no caminho/Raspou as pernas e então ele virou ela”, começa a letra de seu maior sucesso, a selvagem, Walk on the wild side.

Quer saber? Qualquer dia desses vou escrever uma peça de teatro e incluir um trecho de Walk on the wild side na trama, só para homenagear esse grande artista do underground.

Mas voltando ao estilo de Lou Reed, poucos artistas foram tão incisivos ao interpretar a linguagem das ruas como ele e às vezes sua trajetória se misturava, confundia com os personagens que deu vida, como mostra a letra entorpecente e cambaleante de Heroin, um hino às drogas. “Quando coloco a agulha na minha veia/Então lhe digo que as coisas não são mais as mesmas/Do que quando estou sozinho/E me sinto como se fosse filho de Jesus”, canta.

Bissexual assumido que dividiu durante muito tempo escova de dente com um travesti de nome Raquel e circulava entre garotos e garotas de programas, o artista, um mau humorado incorrigível também sabia falar sobre o amor e as coisas perfeitas da vida. A prova está em algumas faixas de seu trabalho mais importante, Transformer, disco de 1972 produzido por David Bowie e Mick Ronson. Eu seria capaz de passar uma noite inteira só ouvido os espaciais versos de Satellile of Love ou me perder no lirismo da deliciosa crônica de Perfect Day. “Você vai colher só o que plantou”, diz os versos finais dessa última.

E foi verdade. Lou Reed só colheu o que plantou.

* Este texto foi escrito ao som de: Transformer (Lou Reed – 1972)

Lou Reed 2

Busca Frenética (1988)

Harrison Ford, todo enroscado com a deliciosa Emmanuelle Sieger, no thriller de suspense do maridão Polanski...

Harrison Ford, todo enroscado com Emmanuelle Seigner, no suspense do maridão Polanski…

Quando ganhou o Oscar de melhor diretor pelo drama de guerra, O pianista, Roman Polanski, desde o final dos anos 70 proibido de pisar nos Estados Unidos, acusado de crime de pedofilia, recebeu as estatuetas das mãos do ator Harrison Ford em Paris, onde vive desde então. A amizade entre os dois artistas se estreitou, se fortaleceu, quando os dois fizeram juntos, o thriller de suspense, Busca frenética, exibido este mês no canal por assinatura TCM.

Na trama, o pacato e feliz cirurgião Richard Walker (Harrison Ford) é um típico cidadão norte-americano que tem sua vida drasticamente mudada de cabeça para baixo, depois de a mulher ser raptada por misteriosa célula de terroristas árabes no hotel que acabaram de se hospedar. Com pano de fundo o tema da Guerra Fria, e sombras dos filmes mais eletrizantes do mestre do suspense Alfred Hitchcock, Busca frenética apresenta Paris, a “cidade luz”, pela porta dos fundos, com seus inferninhos cheios de drogados e personagens sujos.

“Eu queria me livrar de tudo que fosse obviamente parisiense e tentar mostrar a cidade de hoje”, disse na época Polanski. “Era a maneira como a vejo e não como americanos poderiam imaginar que ela é”, enfatizou.

Frantic 2Desesperado, Walker só terá a mulher (Betty Beckley) de volta se devolver aos seus algozes um dispositivo sofisticado que permite ser usado como detonador de bombas nucleares. Irritado e enojado com a burocracia das autoridades francesas e até mesmo norte-americanas, representada pela embaixada daquele país, ambas ridicularizadas por Polanski na fita, o cirurgião resolve solucionar o caso por conta própria, contando com a ajuda da esbelta junkie, Emmanuelle Seigner.

Polanski teve a ideia para o filme depois que leu uma notícia de jornal sobre o roubo numa firma de eletrônica, em San Francisco, de um desses aparelhinhos capazes de explodir o mundo pelos ares apenas com um clique. Para escrever o roteiro intenso e bem amarrado, cheio de reviravoltas, além do parceiro habitual Gerárd Brach, contou com a ajuda do amigo de longa data, Robert Towne, elemento chave no grande sucesso, Chinatown.

Além das piadas pontuais do diretor, sempre armado com seu ferino senso de humor, como na sequência do burocrático boletim de ocorrência na polícia francesa e da passagem na embaixada estadunidense, Busca frenética conta com alguns momentos técnicos exemplares. Um deles está na cena em que a câmara voyeur de Polanski acompanha o banho relaxante de Harrison Ford longo quando chega a Paris, de dentro do box.

Estigmatizado pelos papeis de aventura em filmes como Guerra nas estrelas e Indiana Jones, Harrison Ford surpreende aqui com seu carisma e simpatia, caras e bocas, com direito a comer bolinha de papel no café da manhã e se equilibrar em cima dos telhados parisienses. Ah, sim, em tem o momento em que aparece nu, tampando o sexo com um bichinho de pelúcia. Coisas que só Roman Polanski poderia fazer. E olha e Harrison Ford fica pelado diante da atriz Emmanuelle Seigner, então mulher desse polaco infernal. O pior ainda estaria por vir em Lua de fel.

* Este texto foi escrito ao som de: Singles (The Smiths – 1995) 

The Smiths s

Jukebox Sentimental – All I want is you

As canções dos irlandeses do U2 marcaram meus tempos de secundarista

As canções dos irlandeses do U2 marcaram meus tempos de secundarista

Nos tempos da MTV, a música podia até ser boa, mas se o clipe tivesse um pouco de criatividade, às vezes conseguia sobressair mais do que a canção. E olha que isso acontecia com frequência e não queria dizer que um fosse melhor do que o outro, mas apenas uma questão de ponto de vista artístico, gosto, olhar ou sensação. Talvez tudo isso junto.

Quando vi e ouvi a épica balada sobre desprezo do U2, All I want is you, gostei primeiro do clipe maneiro, com seus personagens circenses meio fellinianos, meio que saído de um filme de Ingmar Bergman. Só depois, mas depois mesmo que a letra sentimental e cheia de sombrias e comoventes imagens líricas me conquistou com versos como: “Você diz que quer que sua história permaneça em segredo/Mas exceto por todas as promessas que fizemos/Do berço à sepultura/Tudo que eu quero é você”.

Dirigido por Meiert Avis, que já tinha filmado outras canções da banda – destaque para Where the streets have no name e With or Without – o roteiro simples e direto de Barry Devlin, conta a história de amor não correspondido de um anão de circo por uma uma linda trapezista de longos cabelos negros. Uma paixão platônica com triste fim.

As cenas em preto e branco rodadas em Roma, conta com atores italianos no elenco e os U2 3protagonistas são o formidável Paolo Rissi (o anão) e a esbelta Paola Rinaldi (Trapezista). Ela sabe do amor às escondidas do pequeno homem, até se mostra levemente lisonjeada com a situação e não esconde pena por não atender às expectativas alheias desse amor confesso, mas seu coração já tem dono.

Quando ele descobre isso, desesperado tenta dar fim à vida, mas o final enigmático nos deixa em dúvida quanto o sucesso da empreitada. É mágica a sequência em que a alma dele ou sabe lá de quem nós interpretamos que seja, sai flanando por entre esses personagens bizarro e até entre os integrantes da banda, andando displicente por uma praia. Detalhe atenuado por arranjo de cordas deslumbrante assinado por Van Dyke Parks.

“Você diz que quer que seu amor dê certo/Que dure comigo pela noite”, diz os versos desse trecho emocionante.

Incluída em 2004 na lista da Greatest Love song de todos os tempos, All I want is you é da fase em que eu estava aprendendo a tirar canções no violão como os acordes dessa faixa e outros registros de Rattle and Hum, entre eles, Van Diemen’s Land. Aliás, se tem um disco do U2 que escutei bastante na minha vida foi o Rattle and Hum, por sinal, um dos mais subestimado pela crítica.

Qualquer uma das 17 canções do álbum tem cheiro dos meus dias de secundarista, período que era eletrizado pelo som da banda irlandesa. Adoro os falsetes do Bono Vox – os mais lindos do pop rock, assim como suas letras cristãs, musicadas por um trio de primeira formado pelos britânicos Larry Mullen Jr. (bateria), Adam Clayton (baixo) e o guitarrista mais charmoso e discreto de Londres, The Edge. Não restam dúvidas de que o U2 é a banda mais importante da música nos dias de hoje. E All I want is you é uma das várias prova disso.

* Este texto foi escrito ao som de: All I want is you (U2 – 1989)

U2 All I Want is You

Um certo capitão Rodrigo

Tarcísio Meira na encarnação mítica do personagem de Érico Veríssimo...

Tarcísio Meira na encarnação mítica do personagem de Érico Veríssimo para a televisão brasileira

Com certeza Rodrigo Cambará, um dos personagens mais marcantes da saga, O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, está entre minhas personas preferidas da tríade, cinema, literatura e música. Diria que ele ficaria assim, pau a pau, na minha admiração ficcional, com o angustiante e romântico poeta Paulo Martins – o mártir maldito de Terra em transe, de Glauber Rocha –, assim como o sincero e tresloucado Brás Cuba, de Machado de Assis. Ah, sim, também tem o estoico e durão Rick de Casablanca, o sujeito que, tal qual como eu, nunca fica com a mocinha no final da história.

Bem, galante, falastrão, performático, mulherengo, seresteiro, valente e corajoso, esse certo Capitão Rodrigo também é um dos personagens masculinos mais fascinantes que conheci na literatura. Sua chegada à vida da vila de Santa Fé é marcada de mistério e estranheza, quase que como num sopro de vento. Montado em seu alazão garbo e altivo, violão jogado nas costas, chapéu de barbicacho, uniforme impecável, lenço rubro no pescoço e olhos penetrantes de gavião, logo foi conquistando a antipatia e simpatia de todos daquelas redondezas do Rio Pardo.

Mas o único coração que capotou por sua figura imponente foi o da bela e arisca, Bibiana – neta da positiva, Ana Terra -, menina linda com seu lindo sorriso mágico e duas pintas hipnotizantes no canto da boca.  “Foi então que uma figura lhe chamou subitamente a atenção. (…) Estava parado a contemplá-la. (…). Seu corpo foi tomado de uma sensação estranha, uma espécie de medo que ele lhe viesse falar. Era também como uma cócega, como se aquelas formigas todas lhe estivessem passeando pelo corpo”, observa o autor, com olhar lascivo, quando os dois personagens românticos se encontram no cemitério da cidade.

Capitão Rodrigo 2Horas antes, ao adentrar pela cidade, Rodrigo Cambará, com seu porte de soldado soberbo, passado repleto de glórias para contar, se aportou na venda de Nicolau, o único estabelecimento do gênero no lugar.

– Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! – foi logo se apresentando.

Bom, no meu inconsciente de menino, a figura altiva de Rodrigo Cambará está muito vinculada ao charmoso ator Tarsísio Meira, quem interpretou o personagem na inesquecível minissérie da Globo, O tempo e o vento. A imagem dele caracterizado de soldado com a emblemática bombacha e sotaque gaúcho faz parte dos meus tempos de calça curta e inocência.

Reinventado de forma expressiva por Thiago Lacerda na adaptação da história para o cinema por Jayme Monjardim, Rodrigo Cambará, na minha visão simplória, é a quintessência do homem viril e másculo. “(…) Só sei que lá pelo anoitecer acordei completamente nu numa cama não sei de quem, num quarto não sei onde e ao lado duma mulher não sei de quem nem de onde”, gaba-se ele em dado momento da narrativa do tomo O continente Volume 1.

Se eu pudesse ser como esse certo capitão Rodrigo, ia descartar o lado guerreiro, amante das batalhas e das lutas dele e me concentraria no lado galanteador. Quem sabe eu conquistaria minha “eterna” Bibiana.

Como diz o personagem Pe. Lara, grande amigo do Capitão Rodrigo, se referindo a ele:

– O senhor é um sujeito das Arábias!

* Este texto foi escrito ao som de: A gift from a flower to a garden (Donovan – 1967)

Donovan

Gravidade (2013)

Inquietações metafísicas no silêncio e no vazio das estrelas

Ousadias narrativas e inquietações metafísicas no silêncio e no vazio das estrelas

Quando a gente pensa que já viu e sentiu tudo no cinema, eis que surge, para surpresa e espanto de todo mundo, o cineasta mexicano Alfonso Cuarón e o seu asfixiante, Gravidade, em cartaz algum tempo na cidade. Confesso que relutei em ver o filme com medo de ser mais uma daquelas viagens espaciais megalomaníacas cheias de firulas visuais e pouco conteúdo narrativo. Nada disso. Bem, se tem uma coisa que sobra em Gravidade é conteúdo, mesmo que a reboque de muito barulheira e pirotecnia visual. Mas aqui, tais excessos até cabem e como cabem e quando você conferir essa ficção científica humanista irá entender a razão.

Tripulantes da espaçonave Explorer, o experiente astronauta Matt Kowalski (George Clooney) tira onda em seu jet pack, surfando, literalmente sobre estrelas, enquanto que a mau-humorada e novata Ryan Stone (Sandra Bullock), se sentido enjoada e irritadiça, tenta fazer os reparos necessários do ônibus espacial. Um terceiro personagem só é visto à distância. “E pensar que ele fez Harvard”, ironiza Kowalski, quando vê seu colega de viagem dando piruetas no nada.

Acontece que a tranquilidade e o silêncio do espaço são quebrados com os destroços de dois satélites russos que se chocam em órbita, restando a todos se abrigarem o mais rápido possível na espaçonave. Em questão de segundos uma tempestade de estilhaços irá mudar a vida de todos para sempre.

Com um toque de suspense, homenagens sutis ao clássico do gênero, 2001: Uma odisseia no espaço do mestre Stanley Kubrick -, e criatividade narrativa associada à grande excelência técnica, Gravidade é um achado no turbilhão de bobagens que o cinema tem produzido Gravidade 2ultimamente. Sobretudo na seara ficção cientifica. Mais ainda pela forma com que o diretor de filmes como Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban se propõe a colocar isso nas telas, a partir de uma fábula espacial sobre a sobrevivência e a incomunicabilidade.

“Eu trabalho num laboratório onde as coisas caem no chão”, reclama a personagem de Sandra Bullock, especificando a natureza estranha e cansada do ambiente em que pisa, ou melhor, flutua.

Desde a impactante sequência sem corte do início, à emocionante cena poética de uma gotícula de lágrima flutuando no espaço, passando pelo momento em que Ryan se escandaliza com os latidos de cães chineses em terra firme, Gravidade demonstra ser um arrombo de produção cinematográfica. A grandiosidade do visual do filme e as interferências sensoriais técnicas são de uma sofisticação rara no gênero, mas me sensibilizou mais as inquietudes metafísicas de Cuarón, longe da profundidade de Kubrick, claro, mesmo assim pertinentes.

Assim, questões universais como o medo da morte e do desconhecido, a dor da perda, o instinto de sobrevivência são vigentes até mesmo no espaço sideral, onde meros sete minutos parecem ser uma eternidade. Preste atenção na sensibilidade existencial dos três minutos finais do filme.

O grisalho mais charmoso do pedaço George Clooney sempre esteve bem no meu conceito no que diz respeito aos papeis que desempenhou no cinema. O mesmo não posso dizer de Sandra Bullock, uma das atrizes mais sem sal que já vi. Dou o meu braço a torcer. Em Gravidade ela é a alma do filme, numa atuação de tirar o fôlego. E não tem nada de metáfora aqui. Não é que a menina dessa vez acertou!

* Este texto foi escrito ao som de: In the court of the Crimson King (1969)

King Crimson

“Eu não explico o inexplicável”

Nelson Rodrigues acreditava que deus estava nas igrejas vazias

Nelson Rodrigues acreditava que deus estava nas igrejas vazias, uma definição perfeita de conforto

Um dia o escritor e jornalista Otto Lara Resende, ao entrevistar Nelson Rodrigues, lhe perguntou, à queima-roupa, sobre a existência do onipresente.

– Mas diga Nelson, como você explica a existência de deus?

Exagerado em sua dramaticidade, o autor de textos e peças formidáveis nem titubeia, sapecando em tom de parábola bíblica:

– Eu não explico o inexplicável meu caro Otto – disse o grande dramaturgo e cronista, com voz pastosa, colocando as duas mãos sobre o peito.

“Eu não explico o inexplicável”. Bem, não acredito em deus ou em santidades, nem em providências divinas, mas está aí uma frase que me persegue desde então tal qual um pêndulo de Foucault, tão presente quanto a sombra que carrego desde minha existência. Uma frase que me apego piamente quando me sinto pequeno diante das rasteiras da vida, daquilo que não podemos vencer, do medo de existir, da vulnerabilidade do que não podemos entender.

É uma frase que me faz refletir sobre o ser insignificante que habita dentro de cada um de nós quando olhamos, por exemplo, a imensidão do mar ou o infinito do céu. Ou quando ficamos frente a frente com o desconhecido, com as surpresas desagradáveis do destino, esse personagem faceiro e cheio de sortilégios.

InfinitoOntem fui pego de surpresa com uma notícia muito triste e, de tão triste e chocante que era, nem soube direito o que dizer muito menos assimilar o impacto que ela teve sobre mim. Estático, petrificado, me congelei dentro de minha incapacidade de reação diante da dor alheia, um sentimento frustrante quando somos capazes de nos colocarmos no lugar do outro, do próximo. Seja ele próximo ou não. Algo difícil de fazer em dias de tonitruante egoísmo.

É nessas horas que eu gostaria de saber rezar, colocar em prática a fé que não tenho, enfim, esboçar um mínimo de gesto cristão que pudesse afagar o vazio do inexplicável, o sofrimento de uma pessoa querida, admirada. “Eu não explico o inexplicável”.

Triste é quando a gente quer ajudar e não sabemos como fazer isso. A impotência diante do inatingível é angustiante.

Enquanto escrevo este texto, duas lágrimas amigas rolam dos meus olhos, embaçando o meu sono cansado, umedecendo meu coração frágil, velho de guerra. Amanhã nunca se sabe, já cantava os Beatles naquela canção psicodélica de 66. Que o presente nos faça forte. Como dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche: “Aquilo que não nos mata, nos torna mais forte”.

Amanhã, a primeira coisa que vou fazer quando acordar será abraçar minhas suas meninas. “Não explico o inexplicável”, disse certa vez Nelson Rodrigues. Mas ele também estava certo quando disse que deus frequenta as igrejas vazias. Às vezes, quando me sinto desesperado, essa é a ideia de conforto e paz de espírito que tenho. Que o calor da esperança abrace todos nós.

* Este texto foi escrito ao som de: Ágaetis Byrjun (Sigur Rós – 1999)

sigur rós 2

Os Piratas de Roman Polanski (1986)

Walter Matthau (dir.), obrigado a deliciar-se com um rato, em clássico da pirataria

Walter Matthau (dir.), deliciando-se com um rato. Piada de humor negro do diretor franco-polonês

A garotada que hoje venera Johnny Depp, na encarnação debochada de um pirata afetado, bem que deveria pagar crédito até a eternidade a Roman Polanski. Isso só por ele ter antecipado, em quase 20 anos, o gênero com a deliciosa aventura: Piratas. Um retumbante fracasso de crítica e público, o filme lançado em 1986, foi uma brincadeira cara e travessa que quase naufragou a carreira do baixinho franco-polaco, mas a recompensa viria anos mais tarde em forma de culto a uma produção que se esmera pela grandiloquente engenharia técnica e deslumbrante beleza visual.

Com locações em cenários paradisíacos  na Tunísia, Malta e Ilhas Seychelles, a trama gira em torno do pirata, Thomas Bartholomeu Red, Walter Matthau em atuação impecável. Ele e seu ajudante Frog (Cris Campion) ficaram quatro anos perdidos numa ilha deserta, mas conseguiram construir uma jangada matusquela que esta à deriva em alto mar, com os dois em cima, cercada de tubarões.

Massacrados pela fome e pelo Sol, eles sofrem de delírios o tempo todo e, antes que um tente comer o outro, a dupla de piratas desolados avista no horizonte um enorme galeão espanhol, o Netuno. Mas a esperança dos poucos minutos de salvação logo se dissipa diante da soberba e crueldade nobre do capitão da embarcação, Don Afonso de La Torre (Damien Thomas), que os colocam a ferro no calabouço debaixo de chicote. Lá, o esperto e safo Red tem contato com o grande segredo de seus vilões, o autêntico trono em ouro maciço de Kapatek-Anahuac, tesouro asteca que será objeto de cobiça dos piratas e dos espanhóis ao longo de duas horas de fita.WN

“Porque eu fui espanhol e não asteca”, lamenta um moribundo aristocrata espanhol no leito de morte, quase sufocando pela doença da soberba.

Um expert em trabalhar suas tramas em ambientes fechados, boa parte de Piratas se desenrola no convés desse grande navio do século 16 que é, diga-se de passagem, um dos principais personagens do filme. O roteiro bem amarrado escrito junto com Gerárd Brach e John Brownjohn revela outro grande talento de Polanski, que é o de conduzir o espectador em narrativas em espiral, onde tudo termina como começou, aqui, com os dois piratas, mais uma vez perdidos em alto mar, sem saber aonde vão parar.

O tom de brincadeira do filme, quase uma comédia de humor negro repleta de aventura, lembra a paródia que o diretor fez dos clássicos dos vampiros no início da carreira, lá nos anos 60, quando ele ainda era um novato que buscava um lugar ao Sol, no Olimpo dos deuses do cinema. A veia cômica de Polanski o tempo todo surge nas telas em passagens impagáveis, como a asquerosa sequência do rato e a cena em que Matthau e seu atrapalhado ajudante ficam pendurados numa corrente gigante.

À revelia do grande fracasso que foi Piratas merece ser revisto pelas novas gerações não apenas porque é o tio-avô do blockbuster, Piratas do Caribe, mas pelo grande espetáculo visual que proporciona. Tanto pelas reais cenas de batalhas, quanto pela belíssima reconstituição de época.

A título de informação. O grande navio usado no filme com suas 14 mil toneladas, hoje se encontra em museu a céu aberto na cidade de Gênova, Itália.

* Este texto foi escrito ao som de: Violent femmes (1983)

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Tarde entre mestres da Renascença

Com quase 2 m de altura, "O assassinato de Abel' é de uma virulência visual incômoda...

Com quase 2 m de altura, “O assassinato de Abel’ é de uma virulência visual incômoda…

No último sábado (19) coloquei minhas sobrinhas no carro e fomos para o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Mostra de Cinema Infantil? Que nada. Atrações circenses nos gramados verdes de lá? Também não. Tiramos à tarde toda para ver a exposição Mestres do Renascimento – Obras-Primas Italianas, em cartaz no espaço até janeiro de 2014. Foi no mínimo uma experiência marcante, emocionante, diria. Tudo bem, a menor, de três anos, só queria saber de correr para lá e para cá. Mas a mais velha, de 13, curtiu de montão a oportunidade já que é um assunto que ela está aprendendo na escola.

São quase sessenta obras entre pinturas, esculturas e desenhos dos principais nomes do período artístico talvez mais importante das artes. E estar frente a frente com algumas delas, grande parte criadas quando o Brasil ainda nem tinha sido descoberto pelos portugueses, é mágico. Por isso que, se um dia eu puder escolher viver em algum período histórico, escolheria com certeza a Renascença.

Ungidos pelo signo da igreja católica – quem mandava de fato no pedaço entre os séculos 15 e 16 -, a arte e a estética renascentista tem como tema predominante anjos rechonchudos, madonas alvas com olhares tristonhos ou enigmáticos, santos, a figura unânime de Cristo, enfim, as contradições metafísicas e artistas entre o céu e o inferno.

Não entendo muito de artes plásticas e me sinto frustrado por isso, mas me sensibilizo fácil por aquilo que não compreendendo com a razão e sim, com a emoção dos olhos e do coração. De modo que os traços libidinosos do único Leonardo Da Vinci na exposição, Leda e o cisne (1510 – 1515), por exemplo – uma representação simbólica das influências da Grécia antiga na arte do grande artista – são puro deleite para minha percepção limitada.

MestresÉ de uma sensualidade erótica, hipnotizante até, os contornos da asa do cisne – representando a figura de Zeus – em volta da cintura e coxa calipígia de Leda, esposa de Tíndaro, rei de Esparta. E aqui o tema da traição surge de forma lírica e clássica.

A temática volta à tona também nas telas Morte de Lucrécia (1525 – 1530), de Giovanni Antonio Bazzi (Il Sodoma) e Maddalena (1530 – 1535), de Ticiano. Na primeira, a dramaticidade dos traços de Giovanni Bazzi denuncia o triste e falso fim da incestuosa e adúltera nobre, Lucrécia Borges, na verdade vítima de complicações decorrentes de um parto, aos 39 anos. No segundo, uma versão diferente da prostituta salva do apedrejamento por Cristo, sempre retratada de forma sensual, mas pelo olhar de Ticiano, aos prantos, mortificada de arrependimento e autocomiseração.

Mas nessa primeira visita à exposição Mestres do Renascimento, fiquei impressionado mesmo foi com o tom sombrio de duas telas cercadas de simbologias intensas, ambas marcadas pela técnica do claro-escuro. Em São Jerônimo (1550 – 1580), de Jacopo da Ponte (Il Bassano), o santo erudito estudioso da Bíblia aparece quase como uma figura barroca dentro de uma sinistra caverna. Pelo chão, objetos que rementem à morte e ao tempo, como uma macabra caveira e uma ampulheta.

Com quase 2m de altura, não há como passar despercebido da virulência sufocante da imagem da tela Assassinato de Abel (1550 – 1555), de Jacopo Robusti, o Tintoretto. A concepção da luz e do espaço dentro de uma perspectiva dramática da passagem bíblica que estamos careca de saber é surpreendente.

Entre uma obra e outra uma dúvida pairou sobre minha confusa cabeça. Seria a tela, Cabeça da virgem (1518 – 1520), de Rafael, inspiração para o holandês Johannes Vermeer para a sua deslumbrante, Moça com brinco de pérola? Acho que não… Ou talvez sim…

Bem, fui embora do CCBB com vergonha de não poder explicar a exposição direito para as minhas sobrinhas, mas orgulhoso e feliz da vida de ter levado as gurias ao encontro de grandes mestres da arte. Fiz a minha parte.

* Este texto foi escrito ao som de: Faust (1971)

Faust