O ser humano é um grande erro

“Eu não sei de nada, não ouvi nada, não me conte nada”.

O ser humano, como bem disse um padrasto de um amigo meu, certa vez, é um projeto que não deu certo. Está sempre querendo mais do que precisa e, em alguns casos, tem menos do que merece. Aliás, de um modo geral, temos muito daquilo que não entendemos ou pelo menos do que não queremos entender. E sempre estamos querendo algo em troca quando é bem mais fácil fazer o bem sem recompensas. É por isso que gosto daquela frase que abre o filme Os doze macacos, do Terry Gillian. Já a citei aqui pelo menos um milhão de vezes.

“A raça humana deveria ser extinta da face da Terra”.

Fico querendo entender, por exemplo, o que se passa pela cabeça de um político que ganha a confiança de milhares de pessoas, pessoas essas que lhe confiaram todos os seus anseios e esperanças para fazer mal uso do dinheiro público ou, como no caso de alguns, simplesmente roubar. Acho que a moral e o bom caráter andam mesmo em falta, encontrar alguém que as têm nos dias de hoje virou raridade, algo como procurar agulha no palheiro. De modo que, quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha, já dizia o filósofo bandido da Luz Vermelha.

Esse moço, o Júnior Brunelli, deve ser autista ou comeu muita merda (com o perdão da palavra), quando era guri para fazer as bobagens que fez e achar que está tudo bem, tudo divino e maravilhoso, que ele não tem culpa no cartório. E pior, usar como desculpa, justificativas para seus atos impuros, hediondos e cretinos a religião. Não acredito em deus, sempre achei que a religião, as igrejas tiveram e têm mais um sentido político e de jogo de interesses do que qualquer outra coisa está aí a Igreja Católica que não me deixa mentir, mas brincar com a fé das pessoas é golpe baixo, sujo, uma leviandade sórdida.

O problema é que no Brasil o culto à impunidade já virou uma epidemia, uma doença, uma praga que a custo de muita política – mas política do bem – e conscientização, vamos, algum dia, se tivermos sorte e disciplina republicana, conseguir extirpar.

Em qualquer país sério, quando um sujeito é pego num esquema de corrupção como esse do Carlinhos Cachoeira, e me refiro ao Senador Demóstenes Torres – o falso paladino da moral e dos bons costumes -, e outros políticos envolvidos, só de vergonha, já pedia para se afastar do governo imediatamente. No Japão, o camarada comete logo um harakiri (acho que é assim que chama) e fim de papo.

Mas aqui não, tudo vira circo e os palhaços somos nós. Um verdadeiro espetáculo de cinismo e demagogia com o cara tentando se defender do indefensável e ainda tirando onda de vítima, de injustiçado. “Eu não sei de nada, não ouvi nada, não me conte nada”, dizia o bordão do matreiro Sinhozinho Malta, personagem de Lima Duarte em Roque Santeiro.

Não sei, posso estar redondamente errado, mas às vezes penso que o que falta para esse país dá certo de vez é óleo de peroba, só isso.  Se um dia eu fosse político, ao invês de usar a vassoura como fez Jânio Quadros, nos anos 60, em sua campanha, eu usaria óleo de peroba.

Mas vai aqui um recado, é preciso ter uma postura niilista e começar do nada, promover uma reforma política e social radical, virar tudo de cabeça para baixo. O que falta para o Brasil é uma revolução nos moldes daquela francesa do século 18, como aconteceu na França. O que precisamos é de uma Revolução Francesa no Brasil. Do contrário, só nos resta desaparecer, sumir de uma vez para sempre, só para não ter que acordar um dia e olhar no espelho com a certeza de que somos um erro grosseiro.

* Este texto foi escrito ao som de: Wild Wood (Paul Weller – 1993)

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Pink Floyd – The Wall, o filme

Os desenhos de Scarfe causaram impacto pela beleza sombria

O primeiro álbum do Pink Floyd quem me deu foi um colega do curso de inglês que nem lembro mais como se chamava. Só recordo da cara dele de judeu sarraceno, que ele era fã de heavy metal e odiava rock progressivo. Um dia, conversando sobre nossos gostos musicais, falei que adorava a banda inglesa de Roger Waters e ele, rápido no gatilho, disparou:- Ah é, então amanhã vou trazer pra você um CD deles, ia jogar no lixo mesmo… É muito ruim, cara, não sei como você consegue ouvir essa porcaria…

E foi assim que ganhei de presente o primeiro disco do Pink Floyd, o conceitual, The Wall, ou seja, o lixo mais luxuoso da minha vida, novinho em folha. Bem, não é o meu trabalho preferido da banda, que é Dark side of the moon, de 1973, mas The wall, de 1979, é um disco e tanto, sobretudo pela sua feitura megalomaníaca, coisas de Roger Waters e o seu ego mastodôntico.

Tão megalomaníaco e conceitual que, em 1982, Alan Parker transformou a viagem pessoal do líder do Pink Floyd em um projeto cinematográfico pretensioso, tendo como protagonista, Bob Geldof. Bob Geldof você sabe quem é, certo? É o cara que, nos anos 80, idealizou o concerto de caridade, Live aid. Enfim, vi o filme outro dia no canal TCM e achei doidão.

A narrativa desse projeto experimental é todo conduzido pelas faixas do álbum duplo e mais outras surpresas até então inéditas, narrando a trajetória de agonia do astro de rock, Pink Floyd (Geldof), que transforma sua crise conjugal numa espécie de exorcismo dos fantasmas da infância, entre eles, a morte do pai na 2ª Guerra Mundial, os traumas na escola e a solidão de quem está “patinando no gelo frio da vida moderna por onde tem uma trilha”, como canta.

Sua figura fragilizada e meio zumbi se funde, como num pesadelo existencial, também na persona de um líder político e de um ditador que é a caricatura de Hitler, meio que solto numa cena do filme, 1984, baseado na obra homônima de George Orwell.

Visualmente forte, perfeito para se ver nas telas de um cinema como o Cine Brasília, por exemplo, The Wall, o filme, se não inovou, pelo menos causou impacto na época, sobretudo por fundir cenas reais com os desenhos maneiros de Geralf Scarfe. Lá, podemos deslumbrar com uma singela pomba se transformando, do nada, numa águia nazista e flores em arames farpados. Tudo de forma belo e angustiante.

O diretor Alan Parker foi buscar no clássico de Charles Chaplin, Tempos modernos (1931), uma metáfora debochada e crítica ao rígido sistema educacional inglês. Preste atenção na bizarra cena de um pelotão de crianças com caras suínas caminhando rumo a um triturador de carnes. “Nós não precisamos de educação”, cantam elas.

Há quem diga que ao criar The wall, no final dosanos 70, Roger Waters estava mirando no espelho e falando de si mesmo, já que na época vivia uma intensa crise existencial, como se estivesse emparedado por um muro de problemas. “No final das contas foi apenas mais um tijolo no muro”, diz a letra de, Another brick in the wall.

Tem dias em que me sinto cercado por um muro de hipocrisia e mentiras. Tem dias que me sinto como mais um tijolo na parede. Tem dias que sinto vontade de cantar, Goodbye cruel world.

* Este texto foi escrito ao som de: The Wall (Pink Floyd – 1979)

Entre sapos e crimes sem castigos

O filme é bom, mas o livro, claro, é muito melhor…

Digam o que quiserem, mas para mim, Rubem Fonseca é o grande escritor brasileiro ainda vivo e ponto final. É mais ou menos assim, se um dia eu chegar a ser um escritor, o que é uma quase utopia, gostaria de ser um Rubem Fonseca da vida. Eu sei, a pretensão é grande, mas se é para ser alguma coisa que seja o melhor.

Não teve jeito, fui fisgado por seu estilo direto e urbano, de cara, um estilo que desova personagens marginais e amargos, sempre de mal com a vida e com todos, criaturas de carne e osso do tipo que podemos encontrar em qualquer esquina, em qualquer rua.

Lembro que a primeira vez que peguei um livro do Rubem Fonseca tomei um susto, mas um susto daqueles. Tinha lá meus 13, 14 anos, não me lembro bem direito, era um fissionado, quase doente pelos Beatles, essas obsessões que me fazem meio que perder o juízo e lá fui eu seco ler, Lúcia McCartney (1967), achando que fosse alguma coisa sobre o meu beatle preferido. Ledo engano. A personagem do título era uma prostituta que vagava meio perdida pelas curvas tortas da vida.

Só fui me encontrar de verdade com a literatura do recluso escritor lendo o épico Agosto (1990), obra que tem como pano de fundo os últimos dias de Getúlio Vargas e que narrativa, que personagens, que história! Simplesmente a história da História. Agora estou cá me esbaldando com o romance policial, Bufo & Spallanzani (1986), um primor de trama.

A motivação para tirar esse romance da minha estante mágica veio com a adaptação para o cinema do filme homônimo de Flávio R. Tambellini, rodado em 2001. Com os atores Tony Ramos e José Mayer como protagonistas, a fita traz uma trilha sonora cavernosa e experimental assinada pelo ex-legião urbana, Dado Villa-Lobos. Mas como sempre acontece, o livro, claro, é bem melhor do que o filme. Do tipo que, quando começamos a ler, não paramos mais.

Sofisticado com seu exercício de metalinguagem, a trama gira em torno das aventuras amorosas, literárias e criminosas do escritor Gustavo Flávio, ex-funcionário de uma grande empresa de seguros que, para não ficar o resto da vida atrás das grades, torna-se, como que num passe de mágica, escritor.

Consagrado, com vários títulos escritos e traduzidos no exterior, nosso escritor-herói encontra-se novamente em outra enrascada ao ser o principal suspeito do assassinato de uma socialite, sua amante. Cabe a ele sair da cola do insistente inspetor Guedes, ao mesmo tempo em que luta para finalizar mais um romance, o que dá título ao livro de Fonseca, que faz referência ao sapo da espécie bufo marinus e ao fisiologista italiano que o estudo, Lazzaro Spallanzani (1729 – 1799). “Pois fique sabendo que o único verdadeiro pecado do homem é a ignorância”, desabafa em dado momento.

Norteado por diálogos ágeis e envolventes, o livro traz duas histórias numa só, conduzindo o leitor numa cilada narrativa em que personagens dementes e situações estapafúrdias levam a um surpreendente. “Não seja tão convicto. Não existem verdades absolutas”, diz um dos vilões da história.

Grande filósofo do cotidiano, Rubem Fonseca lança um olhar amargo, cínico e cruel diante das vicissitudes quase soberbas da sociedade burguesa que nos cerca, como a luxúria desenfreada e a corrupção atávica, além claro, da hipocrisia nossa de todo o dia. “Na Praça General Osório, um velho curvado defecava ao lado de uma árvore. Guedes notou que da janela de um apartamento a mulher observava o velho com uma expressão de repugnância. Mais tarde ela vai trazer o seu cocker spaniel para cagar na praça, pensou o tira, e não quer misturar as duas merdas”.

Mais Rubem Fonseca impossível.

* Este texto foi escrito ao som de: Trilha sonora de Bufo & Spallanzani (2001)

Sou rancoroso como o Collor de Mello

Collor revela que escreveu livro sobre os bastidores do impeachment

Bom, não sou de vingança e nem nunca serei, mas com certeza, assim como o ex-presidente Fernando Collor, sou uma pessoa rancorosa ao extremo, a ponto de ficar remoendo, ruminando um mal que alguém me fez por dias a fio, meses e até anos. Infelizmente é um defeito horroroso que tenho e que me faz mal até, mas é a mais pura, hedionda e crassa verdade, fazer o quê?!. Daí a frase do autor de, Assim falou Zaratustra, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 – 1900), ser simbólica para mim. “A memória do ressentido é uma digestão que não termina”.

Me lembrei dela ao ver uma entrevista que o Geneton Moraes Neto fez com ex-presidente Fernando Collor, exibida outro dia, na Globo News. Não sei se era reprise, só sei que nunca tinha visto o material e achei, chocante, no mínimo revelador.

Aliás, que jornalista formidável é o Geneton, né? Quando crescer eu quero ser igual a ele. Na entrevista, Collor, hoje um sessentão, lembra 20 anos depois os bastidores do impeachment e os tramites que levaram ao plano econômico que confiscou todo o dinheiro da poupança dos brasileiros naqueles anos de trevas. Também de como pensaram em fechar o Congresso e revelar dossiês sobre os adversários políticos. “Eu achando que seria documentos sérios sobre segurança do país ou coisa do tipo, mas não passavam de fofocas, intrigas constrangedoras”, revela, com ironia.

Ele também fala de ressentimentos, rancores e de um livro que escreveu e que um dia cairá, como uma bomba, na cabeça de todos aqueles que foram protagonistas, coadjuvantes e figurantes de um dos piores momentos da história política recente do Brasil. “Ah, sim. E que impacto”, simplificou.

O irmão de Collor, Pedro, o pivô de todo o escândalo que abalou o país, classificava o ex-presidente, quem ele conhecia muito bem, evidentemente, entre outros predicados nada lisonjeiros, como uma pessoa vingativa e rancorosa. E hoje o então Senador da República já deu claros sinais de que é uma pessoa rancorosa, assim como eu também sou.

Mas voltando à entrevista, Collor comentou ainda, como a decisão de confiscar a poupança foi uma medida técnica radical, nas palavras dele, um golpe de ippon, na tentativa de acabar com a galopante inflação. “Um ato de voluntarismo e muita coragem”, chega a dizer, meio autista, parecendo não ter noção do mal que causou.

Falou também do clima de euforia e sadismo que reinou durante os dias do processo de impeachment e do grande teatro promovido pelo Congresso para tirá-lo do comando do país. Das lembranças dos urros dos sádicos e da patuleia ignara que pouco tempo antes estavam ao seu lado, bajulando e apertando sua mão e logo em seguida, o apedrejando. “Quando saiu o resultado da votação (no Senado) eu estava sozinho na minha sala e ouvia os gritos de vivas, as manifestações de alegria”, recorda sem esconder o rancor.

E nesse ponto eu até concordo com ele, porque nada é mais cretino do que o sadismo humano. Aquela coisa do sujeito estar na merda e o próximo pisotear, achincalhar. Acho que, por mais errado que a pessoa seja, por mais erros que cometeu, tem o direito a um julgamento justo e parcial. Tripudiar em cima do amigo ou desafeto, de quem está por baixo com ares de sadismo é pobreza de espírito.

Mas uma coisa em especial despertou minha curiosidade de jornalista. O tal livro que ele, Collor, confessou ter escrito sobre os bastidores do seu impeachment e que traz revelações bombásticas. Ao Geneton Moraes Neto ele explica que ainda não publicou porque muitas pessoas envolvidas estão vivas. De qualquer forma, o experiente jornalista cavoucou trechos em que ele fala sobre o oportunismo de Itamar Franco e Ulysses Guimarães, segundo Collor, duas raposas traidoras.

O religioso Martinho Lutero, por sinal outro alemão, é que tinha razão: “Nada se esquece mais lentamente do que uma ofensa e mais rápido do que um favor”.

* Este texto foi escrito ao som de: V (Legião Urbana – 1991)

V. B. (12) Nosferatu – O vampiro da noite

“Não poder envelhecer é um terror”, lamenta o fantasma da noite.

Tem gente que acha que eu já virei vampiro, de tanto que falei sobre eles nos últimos dias, mas minha obsessão por essas criaturas da noite não passa de mera coincidência. Só comecem a ficar realmente preocupados quando eu estiver delirando sobre a saga Crepúsculo e bobagens do tipo, até lá tudo bem, até porque ainda não li a clássica obra do irlandês Bram Stoker.

Contudo, vi as duas melhores adaptações do livro para o cinema e aqui vai um breve comentário sobre um delas, Nosferatu – O vampiro da noite, a arrepiante versão do diretor alemão, Werner Herzog. Rodado em 1979, o filme é um remake bem pessoal do cineasta em cima da fita de 1922, que é um estouro de beleza e terror. Não gosto muito de remakes, mas se é para fazer adaptações de obras já consagradas, que seja algo assim.

Um dos representantes do novo cinema alemão, até então, Herzog fez de seu Nosferatu uma experiência pessoal marcante. “Tem muito estilo, é muito criativo”, garantiu ele, numa rara entrevista de bastidores do filme, disponível como material adicional do DVD. “É um filme que vai além da minha própria pessoa, um trabalho de reflexão”, explicou.

Para mim, um dos detalhes que mais chama atenção é a soturna, angustiante e perturbadora trilha sonora do grupo experimental alemão, Popol Vuh, responsável pelas músicas dos principais projetos cinematográficos de Herzog como Aguirre – A cólera dos deuses (1972) e Fitzcarraldo (1984).

Se você for um medroso nato, não conseguirá passar dos minutos iniciais da trama, embalada pelo tema gótico sombrio, Weinen und lahen, e imagens de múmias peruanas. Na sequência, vemos um morcego em câmera lenta rasgando o pesadelo da jovem Lucy (Isabelle Adjane). Ela se mostra ansiosa porque o marido corretor (Bruno Ganz, imortalizado anos depois no papel de Hitler em A queda) irá atravessar os temidos Montes Cárpatos, na Transilvânia, em busca do castelo do Conde Drácula, interessado em comprar uma propriedade na “civilização”.

“Um lugar cheio de lobos, bandidos e estranhos”, garante um dos camponeses de vila próxima à região.

Logo, a criatura da noite surge em meio à escuridão plúmbea com seu rosto pálido e gélido, garras mefistofélicas, encarnado por um brilhante Klaus Kinski, o ator-fetiche de Herzog, soterrado por maquiagem do medo. “Ouça, as crianças da noite fazem a sua música”, comenta ao visitante, ao ouvir os uivos enigmáticos dos lobos espremidos entre o sibilar frio e cortante do vento. “Adoro a escuridão e a sombra. É onde posso ficar sozinho com os meus pensamentos”, comenta, com seu discurso do mal.

De um modo geral, Nosferatu – O vampiro da noite segue narrativa não muito diferente das versões vertidas para as telonas, mas o toque estiloso de autor dado por Herzog transforma o terror em arte aqui, por meio de belas cenas como aquela da câmera invertida focando o monstro notívago carregando o seu negro caixão ou ainda a do perturbador diálogo diante do espelho, em que a imagem do vampiro não aparece refletida, numa sequência sem uso de qualquer tipo de efeito visual.

Há ainda a tomada do macabro balé de caixões das vítimas da peste, entre ratos e mortos na praça da cidade. No final, plástica sequência de um cavaleiro em trajes negros atravessando um deserto flutuante, rumo ao desconhecido. “Não poder envelhecer é um terror”, lamenta a melancólica criatura das trevas. Alguém aí duvida disso?

* Este texto foi escrito ao som de: Nosferatu: Phantom der nacht (Popol Vuh – 1979)

O vampiro de Curitiba Dalton Trevisan

Avesso à exposição pública, o escritor é vencedor do Camões

Provavelmente você já ouviu falar em Paulo Coelho. Agora alguém aí sabe me dizer quem é Dalton Trevisan? Não?! Bem, simplesmente o homem mais procurado do país e olha que ele não é nenhum criminoso, apenas o maior contista brasileiro que acaba de ter o seu talento reconhecido ao ser agraciado com o Prêmio Camões 2012.

Agora se você não sabe quem é Dalton Trevisan não o culpo, pois afinal a última foto legítima tirada dele foi em 1972, há exatos 40 anos. De modo que a melhor maneira de saber quem é o escritor somente lendo os seus livros e, fuçando minha estante mágica, encontrei quatro títulos: Pico na veia (2002), Arara bêbada (2004), 33 contos escolhidos (2005) e uma de suas obras mais conhecidas, Cemitério de elefantes (1965). Acho que tenho também Capitu sou eu (2003), mas não encontrei. Será que emprestei para algum salafrário que não me devolveu?

Não importa. Relevante é que, aos 87 anos, o incógnito Dalton Trevisan ainda produz seus textos enxutos e afiados como uma navalha. “Venceu (Prêmio Camões) sem o marketing, 40 livros bem feitos”, resume o amigo Aramis Chain, dono de livraria que há pelo menos 30 anos é frequentado pelo “vampiro de Curitiba”, como o escritor é conhecido, alusão a um de seus sucessos literários. “Ele não é esse vampiro grotesco. É simplesmente uma pessoa que não quer dá entrevista. É um vampiro do bem”, brinca Caetano Galindo, escritor curitibano da nova geração.

Após a notícia do prêmio Camões a Globo News bem que tentou falar com o escritor em sua grande casa cinza de esquina, de aspecto mal assombrada, igual a uma daquelas de filme de terror, localizada num bairro não identificado da capital paranaense, mas a empreitada se mostrou em vão.

Recluso, avesso à exposição pública, o sonho de abiscoitar uma entrevista inédita com o eterno “vampiro” curitibano se mostrou logrado, mas o repórter e crítico de literatura, Claufe Rodrigues conseguiu um furo sensacional. Talvez as únicas imagens recentes do escritor, que apareceu assustado, num rápido relance, diante das câmeras. “Isso é tudo o que se vai conseguir de Dalton”, resumiu eufórico com a certeza dos pragmáticos.

Nascido em 1925, Dalton Trevisan trabalhou durante sua juventude na fábrica de vidros da família (atualmente inexistente), antes de ingressar no curso de Direito. Chegou a exercer a profissão por sete anos, mas o sonho de ser escritor era maior, uma certeza que viria com um Prêmio Jabuti, em 1959, que ele, evidentemente, enviou outra pessoa para recebê-lo.

Com livros traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão, Dalton suga suas tramas curtas e exemplares do cotidiano, das ruas, do coloquial de Curitiba, uma cidade que aprendeu amar e odiar ao mesmo tempo, tecendo críticas constantes dos submundos e do dia a dia da classe média local.

Dessa experiência tão particular e idiossincrática, reuniu uma vasta gama de situações e personagens inserido dentro de literatura densamente psicológica e angustiante, mas mais do que tudo, simples e concisa. E está aí, em minha opinião, o grande legado de Dalton Trevisan. Dizer muito sem escrevendo pouco. “Todo escritor brasileiro deve uma elipse ao Dalton” atesta Carlos Tezza, autor paranaense, autor do premiado, O filho eterno.

Acho que todo escritor e leitor brasileiro deve bem mais do que uma mera elipse ao Dalton Trevisan.

* Este texto foi escrito ao som de: Jazz profile (Herbie Hancock – 1997)

A sorte de quem tem de ser amado

O jovem sortudo bajulando o seu lindo amuleto…

Não olhe agora, mas Nicholas Sparks é o novo queridinho da literatura no momento. Sim, e conheço algumas pessoas que são reféns daquelas listinhas de livros mais vendidos da semana que fizeram do jovem escritor norte-americano a nova sensação pop de suas estantes. Com certeza não da minha. De qualquer forma a obra do sujeito virou uma epidemia nas telonas de cinema e outro dia eu vi um filme baseado num de seus livros que achei interessante. Quer dizer, é bem cafoninha, mas gostei e só porque sou sentimentalóide às vezes.

The lucky one no original, Um homem de sorte é uma daquelas fitas para se assistir agarradinho com o love do lado tendo a certeza de que nunca vai perdê-lo e pena que eu não tive a quem me agarrar quando fui ver o filme. Acredite meu chapa, não existe coisa mais melancólica do que a solidão das salas de cinema.

A história parece coisa de cinema. Depois de uma noite de fúria no olho do furacão de uma guerra, a do Iraque, o sargento Logan Thibault (Zac Efron) é fisgado por pequeno reflexo em meio ao caos. Ele ainda não sabe e os espectadores também não, mas trata-se de seu anjo da guarda lhe dando uma piscadela por meio da fotografia de uma linda e sorridente jovem. No verso, o oportuno e afetivo recado: keep save (se cuida). Segundos depois, o lugar de onde ele saiu para pegar a foto seria bombardeado, matando dois colegas de combates. Eu avisei que era coisa de cinema. “Às vezes achar a luz significa passar por grande solidão”, avisa o nosso herói sortudo logo nos instantes iniciais da trama.

Bom, com o amuleto guardado a sete chaves no bolso, o novato oficial volta para casa determinado a descobrir quem é a garota da foto, enfim, o seu anjo da guarda que lhe salvou a vida. E vai encontrá-la numa daquelas típicas cidades do interior norte-americana, onde a vizinhança e os amigos mais próximos trazem no sorriso a máscara do preconceito e da intolerância. “Vim aqui procurar você”, avisa o ex-militar, com cara de anjo.

Mas a missão desta vez não será nada fácil. Com um passado nebuloso e cheio de cicatrizes, Beth (Taylor Schilling) é uma mãe solteira amargurada por perda recente, a do irmão. “Quando se vive muito a gente perde muitas pessoas”, diz a descolada e sábia avó (Blythe Danner), com quem vive e administra um canil.

Arredia e meio esnobe, Beth ainda tem que lidar com as constantes aporrinhações do ex-marido (Jay R. Ferguson), um policial arrogante e mau-caráter que a chantageia por conta da guarda do guri. De modo que ela trata com desconfiança a chegada desse estranho que chegou para amá-la, mesmo que a garota amuleto demore algum tempo para se dar conta disso.

Embalado por trilha sonora soft que valoriza linda paisagem bucólica, cenário ideal para os futuros amantes, Um homem de sorte, dirigido por Scott Hicks, bem que escorrega em meia-dúzia de clichês vagabundos, mas nada que não seja perdoado quando o amor está no centro das atenções. Afinal, não foi o Fernando Pessoa quem disse que nós ficamos meio ridículos quando falamos ou escrevemos (nem que sejam as obsoletas missivas) sobre amor?!

Daqui uns dez anos as adolescentes de hoje vão lembrar desse drama romântico como a melhor recordação delas em tempos de namoro, quer apostar? Surpreendente nos minutos finais, apenas no que diz respeito ao irmão da mocinha, esse drama romântico até que é envolvente, mas não o bastante para fazermos correr atrás do livro após a sessão. Sobretudo quando se estar acompanhado.

É, parece que o único cara sem sorte aqui sou eu.

* Este texto foi escrito ao som de: The man who (Travis – 1999)

Caravaggio – Poeta da luz e da sombra

Punk em seu tempo, o pintor era um rebelde nato

Até um ignorante em pintura como eu sabe que Michelangelo Caravaggio (1571 – 1610) foi o mestre da técnica chiaroscuro, aquela em que se fundi com perturbadora beleza, o contraste gritante da luz e das sombras escuras. Obras como São Francisco em meditação (1606), Davi com a cabeça de Golias (1610) e A conversão de São Paulo no caminho de Damasco (1600), [ à esquerda ] – uma de minhas telas preferidas do artista -, dão uma clara (com o perdão do trocadilho) noção desses traços sombrios.

Daí o fato mais do que justo da exposição do rebelde pintor italiano, de passagem pelo Brasil, merecer loas e todo tipo de reverencia, mesmo com uma quantidade tão pequena de obras expostas. Afinal, não é todo dia que se pode apreciar um Caravaggio assim tão de perto em terras brasileiras, sem que seja necessário atravessar o Atlântico ou visitar o Tio Sam. De modo que, se eu tiver tempo e dinheiro sobrando vou dar um pulo no Masp, em São Paulo, em julho, para conferir a exposição.

Intitulada Caravaggio e os seus seguidores, a mostra, que começa por Belo Horizonte, no espaço Fiat de Cultura, traz seis telas do pintor e outras de artistas, como o nome diz, que foram influenciados pelas sombras e escuridões do anarquista italiano. Nomes como Atermisia Gentileschi (1593 – 1653) e Orazio Riminaldi (1593 – 1630). Gente, aliás, que eu nunca ouvi falar.

O que importa dizer é que, um dos ícones do barroco, Caravaggio foi também assim uma espécie de, digamos, punk da renascença, sempre se rebelando contra o sistema e, volta e meia, envolvido em todo tipo de confusão que ocasionava em sérios problemas com a polícia e autoridades eclesiásticas de seu tempo. Daí o fato de ser um eterno fugitivo, levando seu talento e obscuros traços de sombra e luz – ele que era nativo de Milão – para cidades como Roma, Nápoles, Sicília e mais tarde, Malta, pequeno país do mediterrâneo.

Ou seja, um autêntico maldito bem antes de Rimbaud, Sganzerla e Itamar Assumpção, Caravaggio, com sua postura anárquica, perturbou a ordem não apenas do status quo que o cercava, mas também desafiando as convenções caretas e regras ultrapassadas das artes no pouco mais de uma década em que esteve em atuação.

Para começo de conversa, o artista escolhia seus modelos entre os plebeus, enfim, gente do povo e mais do que isso, a ralé malcheirosa e imunda que transitava pelo submundo como crianças de rua, mendigos, vagabundos e prostitutas. Dizem que, uma delas, encontrada morta no rio Tibre, fora inspiração macabra para uma de suas Virgens. Vai saber.

Fora isso, abusado, Caravaggio romperia com os dogmas idealizados do mundo artístico renascentista, pintando, ao invés de madonas e figuras bíblicas, em poses imponentes, santos maltrapilhos e grandes heróis da saga cristã, como Davi, João Batista, o apóstolo Pedro e Cristo, em situações de agonia, terror e desconcertante veracidade humana, figuras míticas e místicas, quase passível de toque. Uma rápida olhada em trabalhos bizarros como A dúvida de Tomé (1599) e A crucificação de São Pedro (1600), dá a medida de tamanha audácia e visão anárquica.

Mas o que chama atenção em todas essas obras é o uso soberano da luz ofuscada pelo contraste de sombras de intenso negro, fazendo com que Caravaggio se tornasse, até pelo estilo de vida que levava, em um príncipe das trevas.

Após matar um jovem em 1606, durante uma briga banal, teve sua genial cabeça a prêmio pelos lugares por onde andou, até ser finalmente abatido, no desespero do exílio, pela sífilis, aos 38 anos.

* Este texto foi escrito ao som de: The scream (Siouxsie and The Banshees – 1978)

O circo da hipocrisia no Congresso

Se sabiam que ele não iria falar, porque  insistiram com o teatro?

Há uma cena exemplar no filme, Forrest Gump – O contador de história. É quando lá pela metade da trama ele desembesta a correr, correr, correr sem parar, até que, de barba bíblica e ar cansado na cara para e alguém lá no fundo grita desesperado: “Ele vai falar, ele vai falar!”.

Bom, o Carlinhos Cachoeira não é nenhum Tom Hanks, mas ele não falou. Pelos menos o que a gente queria ouvir, se limitando a dizer apenas: “Não falarei nada aqui”. E daí se ele não falou já que o seu silêncio ensurdecedor é um direito reservado pela Constituição? Agora, se os integrantes da CPI já sabiam que ele, aconselhado pelos advogados, entre eles o ex-ministro da Justiça, Márcio Thomas Bastos, não iria falar, porque raios insistiram com o depoimento do bicheiro? Porque insistiram em levar em frente aquele circo desnecessário e desgastante com gente se acotovelando, tocando o dedo no olho do outro, espremida e imprensada contra parede, num empurra-empurra infernal e patusco no Congresso?

Para mim foi o mesmo que cuspir para cima. No fim, tudo não passou de um teatro ridículo da mídia e dos parlamentares que, na boa, não têm moral para julgar ninguém, nem mesmo o Carlinhos Cachoeira. Ainda mais esses parlamentares das
mordomias como os 14º e os 15º não sei o quê. Sim, porque, se um sujeito como ex-senador Demóstenes Torres, que a gente tinha como alguém acima do bem e do mal, um paladino da moral, aguerrido soldado na luta contra a corrupção e a impunidade, fez o que fez o que pensar dos outros?

Eu sei, nem todas as maçãs do mesmo barril estão podres, mas, não ponho minha mão no fogo nem pelo Carlinhos Cachoeira, muito menos por nenhum parlamentar, nenhum político e que atirem a primeira pedra aqueles que não têm telhado de vidro. Então, me vem o presidente da comissão, o deputado Vital do Rêgo (PMBD-PB), e se envolve naquela lambança no seu gabinete, lá na Paraíba. Ora, se paira o fantasma da dúvida sobre alguém que é pago com o nosso dinheiro, que está à frente de um evento como a CPI, que ele seja afastado imediatamente.

Para mim é assim, mentiu, tá fora. É o caso dos governadores blindados, Agnelo Queiroz e Marconi Perillo, que num dia falaram que não conheciam o Carlinhos Cachoeira e logo depois desmentiram o que disse. Dá para acreditar em políticos assim? Não dá não é?! Tirando um ou outro político é tudo hipócrita e demagogo, por isso estou pensando em queimar o meu título de eleitor este ano.

Mas a gente vê que o Brasil não é um país sério quando nos deparamos com situações inusitadas como um desfile de misses logo no dia mais importante do Congresso este ano e lá estava aquele bando de deputados e senadores babões pendurados no braço de uma daquelas mulheres lindas e a musa da CPI nem estava ali naquele bolo, mas justamente na CPI, a linda e jovem mulher do Carlinhos Cachoeira, Andressa Mendonça.

Se a gente fosse um país sério fazia como na Europa, manifestações, quebra pau geral no estilo Revolução Francesa, mas não, simplesmente nos compactuamos com esse teatrinho circense ridículo e desnecessário. E outra cousa, não é que estou defendendo ninguém, não, até porque acho que se alguém errou tem que pagar pelos seus pecados e pronto, mas que os direitos sejam iguais para todos independente do crime e posição do envolvido. Por isso fiquei constrangido e com um pouco de pena da exposição sádica do bicheiro Carlinhos Cachoeira, tratado como um pedaço de carne jogada às hienas, chacais e lobos do Congresso. Não se faz isso nem a um cachorro, todo mundo tem direito a uma defesa justa e equilibrada.

Por que o depoimento dele tinha que ser transformado num carnaval midiático, ao vivo, enquanto que a dos outros, até agora não? Até porque ele não agiu sozinho, tem muito figurão aí que está com cu não, com medo de ser pego nas redes desse jogo sujo tentacular, daí um misto de indignação, revolta, no ar, mas também inveja, sadismo e muito medo. E ainda tinha deputado preocupado que o nome dele não constasse na lista, nos autos da casa: “Eu colaborei também, bota o meu nome aí pelamordedeus!”, disse muitos, no meio da CPI, como se dissesse assim: “Este ano é ano de eleição e meu povo tem que ver que estou ativo, sou honesto, sou contra os corruptos”, insiste, com as bravatas de um Demóstenes Torres.

É que a gente não tem por aqui um Tom Wolfe, para debulhar essa fogueira das vaidades e do ridículo que é o nosso país num best-seller  do caos.

* Este texto foi escrito ao som de: Damned, damned, damned (The Damend – 1977)

Que rei sou eu e que país é este?

O rei impostor à sombra do mestre Ravengar, numa metáfora do país

Num texto que acompanhava o vinil da Legião Urbana, Que país é este – 1978/1987, o terceiro da banda recheado com músicas da fase do Aborto Elétrico – banda seminal do rock em Brasília – e período em que Renato Russo tirava onda de trovador solitário, pelo Planalto, o artista explica porque até então não tinha gravado a faixa-título, composta no final dos anos 70.

“Porque sempre havia a esperança de que algo iria mudar realmente no país, tornando-se a música então obsoleta”, escreve. “Isto não aconteceu e ainda é possível se fazer a pergunta do título, sem erros”, lamenta.

Atualmente reprisada pelo Canal Viva, a novela Que rei sou eu?, de Cassiano Gabus Mendes (1929 – 1993), está de volta às telinhas de todo país, não deixando o líder da maior banda de rock brasileira mentir. É porque, 23 anos depois de seu estrondoso sucesso no horário das 19h, da Rede Globo, o folhetim de capa e espada continua, infelizmente, atual. Mais do que nunca em tempos de Carlinhos Cachoeira e sua quadrilha do Congresso.

Concebida como uma grande piada, Que rei sou eu? não poderia ser mais séria e de uma seriedade perturbadora. A trama se passa em meados do século 18, poucos anos antes da Revolução Francesca e gira em torno da busca frenética do verdadeiro dono do trono do título, no reino de Avilan. A princípio um impostor bobalhão, vivido pelo ótimo Tato Gabus Mendes (um dos filhos do autor, junto com Cássio Gabus Mendes), se passa pelo falso herdeiro, enquanto que o verdadeiro dono da coroa, Jean-Pierre (Edson Celulari), vaga pelas ruas da vila cercado de miséria e injustiça. “Honra é uma coisa muito rara por aqui”, chega a desabafar um dos personagens.

Crítica feroz ao Brasil da época, a novela é de uma atualidade brutal e contou com um elenco de primeira encabeçado pela espetacular Tereza Raquel, na pele da diabólica e corrupta rainha, além do mestre Antonio Abujamra, como o mefistofélico, Ravengar, bruxo da corte, espécie assim, digamos, de Rasputin do fictício reino.

Juntos, eles irão governar com pulsos de ferro, o oprimido povo de Avilan, tendo como cúmplices, hediondos e desonestos membros da corte. Entre eles, os abusivos e ridículos conselheiros da rainha, verdadeiro esquadrão da corrupção, sempre ativos quando o assunto é conseguir verbas gordas de negócios escusos. “O povo é uma praga, só pensa em dinheiro”, dia um dos ministros da coroa. “E a gente só pensa em quem tem dinheiro”, esculhamba um outro.

A exceção é o honesto e sonhador Bergeron (Daniel Filho), o preferido, por motivos equivocados, da rainha, que sempre que pode, sem sucesso, tenta tirar o povo do eterno martírio político e social. “Me preocupo com o povo e com a corrupção da corte”, lamenta, diante de sua impotência administrativa.

Dirigido pelo espalhafatoso Jorge Fernando, Que rei sou eu? nos faz lembrar daquelas aventuras gostosas de capa e espada da Sessão da Tarde, tipo Os três mosqueteiros e O prisioneiro da máscara de ferro, por sinal, as duas tramas, escritas pelo francês, Alexandre Dumas (1802 – 1870). A abertura estilosa, com suas referências ao clássico, Ben-Hur (1959) e Napoleão Bonaparte, marcou época, assim como a exagerada direção de arte e suntuoso figurino. Tudo muito cafona e brega, mas divertido.

Entre minuetos, valsas embaladas por cravos renascentistas e gargalhadas de um bobo da corte que fazia de boba a corte corrupta, tentávamos descobrir que rei era aquele com a desculpa de um dia jamais ter que perguntar, com um grito de indignação na garganta, que país é este? Uma pena que ainda temos que perguntar: Que país é este?

* Este texto foi escrito ao som de: Que rei sou eu? – Nacional (1989)