Cap.17 Bowie com Lennon sem Ronson

John Lennon briga com Yoko Ono e se afaga com David Bowie. Juntos escrevem Fame

Por volta de 1974, o guitarrista de origem hispânica Carlos Alomar achou David Bowie bastante magro. Não titubeou e convidou o astro do rock glitter a fazer uma boquinha em sua casa, no Bronx, argumentando que a comida da sua mãe era excelente. E pelo jeito era mesmo porque David Bowie não demoraria muito para retribuir a hospitalidade do amigo, o convidando para conhecer sua coleção de discos na Inglaterra.

“Ele tinha tudo. David era mergulhado em soul music bem antes de sua fase Filadélfia”, lembraria Alomar, referindo-se ao som que influenciaria o disco Young americans. “Não era segredo que os britânicos idolatravam a música negra americana”, emendaria. Nascia assim, uma das mais prolíferas amizades do rock.

Virtuoso da guitarra, Alomar seria peça chave no mais novo trabalho de Bowie, o disco Young americans, registro de 1975, essencialmente permeado pelo som da música negra. A faixa título capta com perfeição essa influência e fora os esmalte nas unhas, trazia o cantor de cara limpa. “O álbum é bem sucedido porque é, no fundo, uma simbiose e não um empreendimento parasita. Não é Bowie fazendo black music e sim Bowie e black music se fazendo mutuamente”, observa o jornalista Marc Spitz, autor da biografia Bowie.

Foi mais ou menos nesse período que o ídolo do glam rock, então vivendo à base de cocaína, café, cigarros, pastilhas de menta e leite integral, faria amizade com grandes celebridades como a atriz Elizabeth Taylor e o ex-beatle John Lennon que, separado de Yoko Ono, vagava perdido pelas ruas de Los Angeles. Num desses encontros, ele Bowie e Alomar compuseram juntos o grande sucesso daquela década Fame. “O que você precisa tem de pegar emprestado”, diz um dos versos.

Essa proximidade com Lennon motivaria Bowie a regravar no disco a espiritual Across the universe, música do disco Let it be, que contava nessa nova versão com um riff de R&B orbital e Carlos Alomar. John Lennon foi chamado para participar da gravação e lembraria assim da experiência. “Não foi nada de mais. Não é que sentamos para escrever uma música. Transformando a batida numa música”, recordaria.

Apesar de Young americans ter sido um sucesso, David Bowie não quis sair em turnê com o novo álbum. Se desvencilhando do empresário Tony Driffies, que o havia passado a perna em milhões de dólares, o astro agora trilhava o caminho rumo a outra Babilônia da arte, o cinema.

* Este texto foi escrito ao som de: Young americans (David Bowie – 1975)

O estranho mundo de David Lynch

A bela Isabella Rossellini nos braços de Kyle Maclachlan, referências ao clássico Cidadão Kane e o cinema de Hitchcock

Um dia uma amiga virou para mim e disse assim: “Você tem que ver Coração selvagem, do David Lynch”. Mas ela disse de forma passional. O que me impressionou muito. De modo que fiquei bastante curioso para ver esse filme do estranho cineasta norte-americano. Na verdade, esse e Veludo azul, duas produções da sua fase mais acessível, digamos assim, e que por vários motivos nunca tive chance de ver.

Bem, outro dia o canal por assinatura Telecine Cult resolveu me agraciar com a exibição desses dois filmes dentro da sessão Cine Drive-in, uma grata surpresa, até porque as duas fitas são sensacionais, revelando uma faceta menos hermética de Lynch. O que não quer dizer menos bizarra.

Filmados um na sequência do outro, Veludo azul (1986) e Coração selvagem (1989)se completam de várias maneiras. Desde a presença cativa e sensual da gatinha Laura Dern, assim como da diva Isabella Rossellini (filha do casal mais charmoso dos anos 50, o cineasta italiano Roberto Rossellini e da atriz sueca Ingrid Bergman), passando pela sensorial trilha sonora, quase um personagem nas duas histórias e que costura de forma emotiva, os dramas e conflitos dos seus personagens que parecem transitar entre os mais delirantes devaneios oníricos e a realidade mais insólita. Aliás, a palavra sonho tem virado sinônimo de David Lynch no cinema.

O cineasta David Lynch é conhecido pelo seu lado bizarro

Drama com boa dose de thriller policial e suspense hitchcockiano, Veludo azul transforma a rotina banal de um ingênuo jovem universitário (Kyle Maclachlan) num verdadeiro inferno depois que ele encontra uma orelha decepada no meio de um terreno baldio.

Aos poucos, quando menos vê, ele está enterrando no lado mais sórdido e obscuro do local, metido numa imunda fauna onde transita policiais corruptos, traficantes violentos e um sádico masoquista ensandecido (Dennis Hopper) que faz de uma cantora de cabaré totalmente desnorteada (Rossellini), refém de suas vilanias. Preste atenção na cena que remete de forma lírica ao título do filme, numa referência lascívia à enigmática palavra Rosebud, da obra-prima Cidadão Kane.

Com uma direção de fotografia deslumbrante, o filme conduz o espectador num emaranhado de situações bizarras e misteriosas norteadas por signos sensoriais que denunciam o estilo bem pessoal de David Lynch. Duvido que você irá escutar a baladona In dreams de Roy Orbison do mesmo jeito depois de ver Veludo azul.

Road movie estiloso que arrebatou Cannes com sua história de amor delinquente

Já em Coração selvagem o diretor começa a dar os primeiros sinais do que viria a se transformar seu cinema atualmente, ou seja, um verdadeiro monólito de sonhos bizarros, fantasias medonhas e personagens perturbadores, quase sempre perdidos em uma realidade doentia e corrupta. Basta assimilar aqui, a divertida e cínica paródia que ele faz do clássico infantil O mágico de Oz, que surge na trama como uma simbologia fundamental.

Fora-da-lei estiloso, que gosta de exibir sua jaqueta de pele de cobra, Sailor Ripley (Nicolas Cage) não esconde seu amor por Elvis Presley e a deliciosa namorada Lula (Laura Dern). A mãe dela (Diana Ladd, mãe da atriz Laura Dern na vida real) não aprova o namoro, sobretudo depois que passa dois anos na cadeia por homicídio, então os dois decidem cair na estrada, numa viagem pontuada por fantasmas do passado, encontros macabros e acontecimentos inusitados.

Vencedor da Palma de Ouro no prestigiado Festival de Cannes, Coração selvagem é um autêntico road movie que mostra como pode ser extrema as loucuras do amor, os delírios angustiantes de um coração selvagem. A cena em que Nicolas Cage canta Love me imitando o rei Elvis Presley é antológica, assim como a sensual canção Wicked game, do cantor californiano Chris Isaak, que parece pedir por socorro ao espectador no meio do deserto do Texas. “O mundo está em chamas e ninguém pode me salvar a não ser você”.

* Este texto foi escrito ao som de: Elvis Presley (Elvis Presley – 1955)

Discoteca Básica (16) – The bends

Liderado pelo esquisito Thom Yorke (centro), o Radiohead é um dos ícones do britpop

Era novidade em todos os lugares. E eu sempre passava batido. “É a música do Carlinhos”, diziam. E eu completamente avoado, não entendia nada. Movido por uma curiosidade arrebatadora, tentava compreender o frenesi em torno desse estranho personagem, o tal do “Carlinhos”, e dessa misteriosa música.

Até que um dia, passando em frente à televisão, fui fisgado pela melodia de uma triste canção numa propaganda que trazia como protagonista, girando num carrossel, um menino portador de síndrome de down, era o Carlinhos. Foi assim que o Radiohead entrou em minha vida e o cartão de visita seria a melancólica Fake plastic trees. “Se eu pudesse ser quem você quisesse o tempo todo”, dizia a letra, alertando o público sobre o preconceito.

Com cara de suicida em potencial, o líder e vocalista Thom Yorke sempre me passou a impressão de que iria se atirar do décimo segundo andar de um prédio qualquer. Ainda acho que ela vá fazer isso. E suas letras niilistas, de uma sinceridade desconcertante, têm o endereço certo aos corações e mentes dos losers do mundo inteiro, dizendo coisas que queremos ouvir ou não. “Isso é a melhor coisa que você nunca pode ter”, anuncia na pungente High & dry, que tem uma versão apaixonante na voz do uruguaio Jorge Drexler.

Lançado em 1995, no auge do britpop, The bends está longe de ser o melhor álbum do grupo, mérito conquistado pelo cerebral Ok computer (1997), um clássico do seu tempo, com certeza. Mas poucos trabalhos dos anos 90 tiveram um poder tão hipnotizante como esse. Para mim, pelo menos, teve um peso afetivo enorme.

Lembro que gostava de ouvir o disco todo incessantemente em meu quarto de estudo apenas com a luz do abajur ligada e com o peito apreensivo, sonhando com o sucesso e as agruras de um futuro incerto que estava por vir. Meio que pensando, onde será que essas curvas me levarão? “Se você acha que não é forte o bastante/Se você acha que pertence algum lugar”, já avisava a banda na singela (Nice dream).

A capa bizarra, trazendo um daqueles bonecos usados pelos bombeiros nos treinamentos de salvamento, enfatizava o inconformismo da banda, de Yorke, sobretudo, com o artificialismo que a sociedade de consumo cada vez mais estava se atirando. “Tenho sempre essa sensação de que você é uma extensão dessa coisa da Coca-Cola”, o vocalista chegou a dizer na época.

Mas nada mais sintomático do que o universo de plástico cantando por ele na arrastada Fake plastic tree. O clipe da música é medonho, com o vocalista desesperado, prisioneiro de um carrinho de compras num supermercado de mentira. “Um regador verde de plástico/Para uma falsa planta chinesa de borracha/Na Terra artificial de plástico/Que ela comprou de um homem de borracha/Em uma cidade cheia de planos de borracha/Para se livrar de si mesma”, canta.

Ele sempre teve razão. A vida é uma farsa, viver é uma mentira, mesmo a gente querendo ser parte da raça humana.

* Este disco foi escrito ao som de: The bends (1995) e 12 segundos de oscuridad (2006) (Radiohead – Jorge Drexler)

Adoniran Barbosa: a alma paulistana

Filósofo das ruas, poeta do povo, Adoniran Baborsa cantou como ninguém as agruras do paulistano da gema

“São Paulo é o túmulo do samba”. A declaração, não se sabe proferida por quem, causou burburinho na época, mas se mostrou de uma irresponsabilidade sem tamanho. E a prova estava na figura de Adoniran Barbosa, o samba em pessoa, o mais paulista de todos os sambistas. Ou como preferem alguns, o mais sambista de todos os paulistas.

Aliás, assim como a Avenida Paulista, a Catedral da Sé e os bairros da Moca e do Brás, o compositor de hinos como Trem das onze, Samba do Arnesto, Saudosa maloca, Bom dia tristeza e Vila Esperança, era uma verdadeira instituição dessa grande cidade brasileira. Também pudera. Poucos artistas dedicaram tamanha devoção à grande metrópole como o sambista. E não só a ela, mas também ao paulistano comum da rua, aquele que poderia ser encontrado em qualquer esquina, banco de praça ou parada de ônibus. Onde estivesse qualquer um desses tipos, lá estava Adoniran Barbosa. Isso porque o artista foi um crítico social formidável, o grande poeta do povo, o filósofo das ruas. “As minhas letras tenho impressão que pegaram porque nelas está o sentimento do povo. Escrevo errado como o povo fala”, disse certa vez, numa conversa esclarecedora com o compositor Paulo Vanzolini. “Prefiro dizer ‘nóis deve’ do que ‘nós devíamos’. É mais autêntico. O meu samba é uma mistura de italiano com preto”, arrematou.

Bem, conheço pouco o cancioneiro desse grande nome da nossa música, deveria e quero conhecer mais, e vou conhecer, mas sua figura sempre esteve em minha memória até porque o tipo italiano de chapéu, paletó e gravatinha borboleta era inconfundível. Minhas primeiras lembranças de sua persona remontam minha infância, dos tempos da novela global Sassaricando, aquela em que Cláudia Raia interpretava uma quitandeira espanhola de sangue quente divertidíssima e que tinha na trilha sonora um samba bem suburbano com um versinho assim: “De tanto levar, ‘frechada’ do seu olhar/Meu peito até parece, sabe o quê?/Tábua de tiro ao Álvaro/Não tem onde furar”. Inesquecível, né? Era o samba que o velho sambista entoava com a participação sabe de quem, de Elis Regina, já morta há seis anos.

Pois bem, por esses dias terminei de ler uma biografia sobre o cantor e minha admiração pelo cantor e compositor só fez aumentar. Escrita em 2003 pelo jovem jornalista Celso de Campos Jr., a obra é um deleite para quem gosta de samba, de boa música, de São Paulo e, sobretudo, da história da nossa cultura. O texto envolvente de Celso de Campos ajuda muito o leitor mergulhar nessa página importante da música brasileira.

Bom de copo, piadista de primeira, boêmio incorruptível, corintiano roxo e grande conhecedor do português falado nas ruas, Adoniran chamava atenção pela versatilidade com que conduziu sua carreira. É surpreendente ver que, além de cantor e compositor, o artista teve uma agitada vida na rádio, no cinema e na televisão.

Com talento para a comédia, criou tipos antológicos na rádio Record, ao lado do gênio e mestre Osvaldo Moles, um dos principais redatores para o veículo. Basta falar de Charutinho para as gerações mais antigas e elas logo vão começar a rir. O desafio como ator dramático seria no seminal O cangaceiro, produção épica produzida pela Vera Cruz nos anos 50, com o sambista encarnando o temido “Homem-Arsenal”.

Versátil, o sambista paulista ainda mostrava seu talento no rádio, cinema e televisão, como aqui, numa cena do clássico O cangaceiro, de Lima Barreto

Se você achou Marcos Frota soberbo como o sensível e atormentado “Tonho” da Lua e Glória Pires na pele das suas irmãs gêmeas na novela Mulheres de areia, basta lembrar que esse clássico da nova teledramaturgia é um remake de grande sucesso da televisão brasileira nos anos70. E Adoniran estava lá, na pele do pescador Chico Belo. “Um papel na medida para mim, aparece muito e fala pouco”, costumava brincar.

Mas era na música que o artista se sobressaia como exímio compositor popular e cantor de sambas memoráveis que contavam a história de sua querida São Paulo, terra que ele surgia como sua verdadeira alma, mais emblemática voz.

No livro, o autor Celso de Campos mostra a importância que o artista teve para sua cidade e para nossa cultura. Importância essa reverenciada por estrelas como Elis Regina, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Aracy de Almeida e o grupo Os demônios da garoa, espécie de porta-voz de Adoniran Barbosa.

Uma coisa lamentável é que não é nada fácil de encontrar os discos de discografia do artista, fora de catálogo, não as coletâneas e homenagens. Um total desrespeito não apenas com o próprio Adoniran Barbosa, mas com a memória da nossa música. Ser artista no Brasil não é fácil. Ser amante da boa arte também não.

Ah sim, e é sempre bom lembrar. Adoniran Barbosa não é Durval Barbosa.

* Este texto foi escrito ao som de: Programa Sarau, da Globo News, que lembra o centenário Adoniran Barbosa

Antes só do que mal acompanhado

Jack Lemmon e Walter Matthau vivendo às turras na comédia Um estranho casal

Dramaturgo nova-iorquino de primeira ordem, Neil Simon tinha um talento nato para transpor para suas peças essencialmente urbanas, os conflitos humanos em todas as suas nuanças. Filho de um pai ausente e fruto de um lar em pedaços até que para ele era fácil desenterrar coisas desse tipo. Simon só precisava de um palco, a cidade de Nova York e todos os seus meandros. Poderiam ser eles uma simples praça, como mostrou na comédia dramática Descalços no parque, ou um apartamento aboletado de homens casados em conflitos, sufocados pela fumaça do cigarro e ou os blefes de uma partida sórdida de baralhos. Foi o que ele fez 1968, em Um estranho casal, exibido esta semana no Telecine Cult.

O filme é uma obra-prima do cinema de comportamento, comédia sofisticada que já havia ganhado os palcos da Broadway e que quando assisti pela primeira vez, quase tive um troço de tanto ri. A história gira em torno dos amigos de sangue Felix (Jack Lemmon) e Oscar (Walter Matthau), ambos divorciados, mas que lidam com o problema de forma diferente.

Oscar faz o estilo “largadão”, despreocupado, que sempre se esquece pagar a pensão do filho e atazana a vida dos amigos de pôquer destilando sua ironia agressiva. Mas a solidão de um apartamento enorme o que angustiando. Já Félix é o pai de família dedicado que vê o casamento naufragar depois de 12 anos. Frágil, não suporta a situação, de modo que pensa em suicídio um dia sim e outro não. Mas, assim como Oscar, também atormenta a rotina dos amigos de pôquer, mas com sua mania de limpeza e lembranças do passado.

O dramaturgo norte-amricano Neil Simon só precisava de um cenário, a cidade de Nova York, para desenvolver suas comédias de conflito

A salvação dos dois será a hospitalidade e generosidade de Oscar que, cansado de morar sozinho, acolhe o melhor amigo debaixo do próprio teto. Mas a rotina desse estranho casal será um inferno pessoal para cada um deles porque nunca a solidão foi tão bem vista. Cada verá que era melhor antes só do que mal acompanhado.

Nunca a química entre dois atores na tela foi tão poderosa e divertida. Apostando no conflito das personalidades diferentes de seus personagens, dois sujeitos esquizofrênicos e paranóicos, Neil Simon e o diretor Gene Saks construíram uma hilariante história em que a amizade é o cerne da questão, mesmo que camuflada por doses cavalares de cinismo, dentro de um campo de batalha onde a guerra dos opostos é o grande foco. O ponto alto desse enredo insólito está no texto inteligente e diálogos afiadíssimos talhados por Neil Simon.

Não seria a primeira vez nem a última que a dupla Lemmon e Matthau

rabalhariam juntos em comédias sofisticadas e bem-sucedidas no cinema. Antes, deram asas à imaginação ardilosa do infernal Billy Wilder, um dos meus cineastas preferidos, no hilariante Essa loura vale um milhão. Na trama, Lemmon é um repórter cinematográfico que é usado inescrupulosamente pelo cunhado advogado (Matthau), depois de sofrer um acidente de trabalho.

Em 1974, os dois voltariam a fazer dobradinha sob a égide de Wilder, dessa vez triando sarro da imprensa sensacionalista em A primeira página, filme que coloca em questão a integridade do jornalismo. Novamente os atores se mostraram impagáveis, provando para seu público que, no cinema, é melhor com eles do que sozinho diante de uma tela de cinema.

Odete Lara: O rosto do cinema nacional

Considerada a musa loura do nosso cinema, Odete Lara é homenageada em mostra no CCBB

Ainda dá tempo, se você correr. Acontece até domingo (29), no CCBB Brasília, mostra que homenageia a diva do nosso cinema Odete Lara. O título do encontro não poderia ser mais sugestivo: Odete Lara, Atriz de cinema. O ator, diretor e colega de trabalho Hugo Carvana acertou em cheio quando a elogiou: “Se o cinema brasileiro tivesse um rosto, esse rosto seria o de Odete Lara”.

Ao todo são 16 títulos que completam a mostra. Obras como Copacabana me engana e A rainha diaba, ambos de Antônio Carlos Fontoura, As sete faces de um cafajeste, de Jece Valadão, além dos absolutos O dragão da maldade e o santo guerreiro e Câncer. Sem falar claro, do denso Noite vazia, de Walter Hugo Khouri. “Odete Lara é a grande estrela do cinema nacional. Os filmes estão aí para comprovar”, disse certa vez o novelista Gilberto Braga, autor de folhetins clássicos como Vale tudo e Anos rebeldes.

Dono de uma beleza glacial que lembrava outras beldades do cinema como Bete Davis e Greta Garbo, Odete Lara entrou para sétima arte por acaso. Secretária e datilógrafa, ela arrancou suspiro de Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Artes de São Paulo no distante ano de 1947. Seus olhos escandalosamente azuis, o risco da boca e a presença física imponente eram quase imperceptíveis.

Encantado, Pietro Bardi não mediu esforços para consegui uma vaga de garota propaganda na recém-criada TV Tupi para sua musa. A estréia nas telonas aconteceria em 1956, com a comédia O gato de madame, ao lado de ninguém menos do que Mazzaropi. A partir dali, sua relação com as câmeras seria duradoura. “O palco me dava pavor, já da câmera eu me sentia íntima!”, confessou a atriz.

As dicas para quem quiser conferir a mostra este fim de semana fica por conta dos já citados Copacabana me engana e A rainha diaba, esse último premiado no Festival de Brasília de 1974.

Baseada na obra de Nelson Rodrigues, Boca de ouro, de Nelson Pereira dos Santos, que abre a sessão no domingo, é imperdível. Hoje (26) o destaque é o drama A estrela sobe, um dos primeiros filmes dirigido por Bruno Barreto. No filme, protagonizado por Betty Faria, o filme, Odete Lara, ousada como só ela sabia ser, encarna uma lésbica com fome de amor e sexo.

Já o experimental Um filme 100% brazileiro – assim mesmo, com “Z” -, a atriz faz uma pequena participação como uma Nossa Senhora meio riponga. O filme, dirigido e escrito pelo desconhecido José Sette, faz uma releitura modernista da passagem do poeta e escritor francês Blaise Cendrars pelo Brasil nos anos 40. seguindo linha marginal, com forte influencia do cinema de Júlio Bressane, a sessão da última terça-feira (24) não agradou boa parte do público que abandonou a sala antes mesmo da metade do filme.

Mas qualquer sacrifício é válido para ver Odete Lara brilhando nas telas.

* Este texto foi escrito ao som de: Turn! Turn! Turn! (The Byrds – 1965)

Cap. 16 Bowie e as drogas

William S. Burroughs ajudou indiretamente Bowie a escrever canções para o disco Diamond dogs

Como todo artista que veio antes e depois, David Bowie também se rendeu às drogas. O vício chegou de forma fulminante com o estrelato em 1972, após conquistar a Europa e a América com a explosão meteórica de Ziggy Stardust. O jornalista e biógrafo Marc Spitz, autor de Bowie – obra lançada ano passado no Brasil pela Benvirá -, acredita que ele tenha percorrido mais carreiras de pó no início de sua trajetória do que artistas pops como Elton John, Oliver Stone e os integrantes dos Eagles.

“De início a cocaína trouxe um bálsamo psicológico”, escreve Spitz. “Ela o ajudou existir como um fabuloso astro do rock fora do palco. Um garotinho suburbano, dolorosamente tímido, que de repente olhava a vida como uma festa glitter”, emenda.

Talvez iludido com o sucesso e com a ilusão de que era o rei Midas do rock, onde tudo que tocasse viraria ouro, o artista deu início a novos e ambiciosos projetos. Entre eles a ideia de um novo show, talvez um espetáculo para Broadway e a produção de discos para artistas que iam surgindo em meados dos anos 70 e outros já consagrados, como Iggy Pop e Lou Reed.

Em Londres, naquele começo de 1974, o escritor beatnik e papa das drogas lisérgicas William S. Burroughs fez uma visita a Bowie, em Chelsea. Desde a adolescência fã incondicional do autor de Almoço nu, os dois passaram horas discutindo sobre novas técnicas de escrita e o futuro da mídia. Em dado momento, se viram mergulhados no novo método do escritor de escrever, baseado em “recortar e colar” palavras. Não seria o primeiro já que a dupla Jagger e Richards fez o mesmo quando compuseram Casino boogie, do clássico Exile on main st.

Naquele mesmo ano, surgiu a ideia de transformar o perturbador romance 1984, do britânico George Orwell, em musical, mas o projeto seria engavetado já que a viúva do escritor Sonia Blair não permitiu tal empreitada. David não perdeu o foco. “Mudei rapidamente de direção e transformei o projeto em Diamond dogs: dez punks em skates enferrujados vivendo nos telhados dessa distópica Hunger City, num cenário pós-apocalíptico”, lembraria o artista em 2008, numa entrevista para o Daily Mail.

Assim, o disco seguinte do camaleão do rock o conduziria mais uma vez numa direção completamente diferente dos trabalhos anteriores. As canções Sweet thing e Candidate foram compostas sob a influência de Burroughs, reproduzindo uma colagem de impressões. A furiosa Rebel rebel seria a música de trabalho do álbum. Finalizado nos estúdios Ludolf, na Noruega, a estilosa capa seria desenhada pelo artista local Guy Peellaert. Os testículos à mostra foram encobertos, depois que os executivos da RCA subiram nas tamancas.

Com cenários suntuosos que faziam referencia a dois filmes que marcaram o artista, O gabinete do dr. Caligari e Metrópolis, e às produções da Broadway, Bowie mais uma vez caiu na estrada, começando a turnê do novo disco em Montreal, no Canadá. “A turnê Diamond dogs foi precursora de todos os shows opulentos, arriscados, indolentes e espalhafatosos que surgiriam depois”, avaliaria o escritor Marc Spitz.

* Este texto foi escrito ao som de: Younger than yesterday (The Byrds – 1967)

Sete décadas ao som de Bob Dylan

Bob Dylan nos dias de hoje, com um semblante que lembra Vincent Price

Bob Dylan, quem diria, é septuagenário. Sim, um dos mais importantes e influentes nomes da cultura pop mundial completa hoje 70 anos. Nascido Robert Allen Zimmerman, em 1941, na pequena Duluth, cidade exportadora de minério de ferro localizada no Norte de Minnesota, o artista se tornou um símbolo da música popular moderna.

Então, esqueça a unanimidade quase messiânica em torno dos Beatles e Stones, Michael Jackson e Madonna. Se você hoje paga o mico de chorar toda vez que Lady Gaga troca de fantasia, é porque algum dia, Mr. Bob Dylan cruzou o caminho dela. Para o bem ou para o mal esse grande poeta do século 21, de um jeito ou de outro, acabou influenciando todo mundo. Do ratinho Toppo Gigio à infante irritante Hannah Montana e, se Deus existisse, também seria influenciado por ele, pode acreditar.

Veja os Beatles por exemplo. Se um dia Lennon e McCartney não tivessem fumado maconha junto com o bardo, num hotel, em Nova York, em 1964, talvez eles não tivessem saído daquela besteira de She Loves you, From me to you ou I want to hold your hand. Depois do encontrou Lennon tirou da cartola a enigmática You’ve got to hide your love away e Paul McCartney começou a sonhar com Penny Lane e Sgt. Pepper.

No Brasil, a influência do cantor e compositor norte-americano fez seguidores como Zé Ramalho e Belchior, o baiano Raul Seixas, evidentemente, Gonzaguinha, quem sabe, e a burguesa pop teenage Mallu Magalhães, com certeza. Não tem jeito, para onde você olhar, por onde você andar, ou seja, lá qual for o ar que você respirar irá sentir o espectro, o calor e o sabor deste artista que transformou a música folk em arte, as canções de protesto em hinos sociais, a poesia urbana e pulsante de suas letras épicas em ícones da cultura do nosso século.

Bob Dylan e a beat generation

E tem mais, seu talento ultrapassa a esfera da música, já que Bob Dylan também se aventurou como ator de cinema, num papel de destaque no faroeste Pat Garrett & Billy The Kid, escrevendo inclusive a trilha sonora do filme, que é soberba. Claro, sua ponta no filme do lendário diretor Sam Peckinpah caiu no limbo do esquecimento, mas o disco entrou para história com pérolas como Knockin’ On heaven’s door.

Algumas capas de discos contam com suas pinceladas como os traços do primeiro álbum do grupo The Band, de 1968, e de um disco seu de 1970, intitulado sugestivamente de Self portrait. Tudo bem, ele não é nenhum Picasso, mas deixou seu estilo nas artes plásticas.

Por esses e outros motivos a Cinemateca de São Paulo aproveita a data para realizar este mês uma mostra com vários filmes envolvendo o nome e a figura do astro. Obras como o experimental Eu não estou lá, um mosaico poético do diretor Todd Haynes que capta de forma lírica, várias fases do artista, e o documentário No direction home, de Martin Scorsese, um eterno amante do cinema e da música. Imperdível. Se eu estivesse em São Paulo não perderia essa, até porque o lugar é agradabilíssimo.

A discografia de Dylan é um verdadeiro tesouro. Desde os trabalhos seminais, com forte influência do ídolo Woody Guthrie, à polêmica fase das guitarras em meados dos anos 60, onde escreveu seus maiores clássicos, como Like a rolling Stone, Ballad of a thin man, e Just like a woman, até os discos mais recentes, pérolas como Modern times e Together through life.

Culto, com uma visão humanista, social e, às vezes, niilista da vida, Dylan, um bardo que um dia já foi beatnik e tirou onda de escritor, sempre foi um alquimista das palavras e me encanta com seu lado mais simples e intimista. Sempre saio de mim quando ouço os álbuns John Wesley harding e Nashville skyline.

* Este texto foi escrito ao som de: Highway 61 revisited (Bob Dylan – 1966)

Discoteca Básica (15) – Astral Weeks

O bardo irlandês Van Morrison entrou para a história do rock com seu relicário lírico Astral weeks

Orson Welles dirigiu Cidadão Kane com apenas 24 anos. E daí? Van Morrison tinha 23 anos quando gravou sua obra-prima Astral Weeks, um dos discos mais influentes do rock desde o seu surgimento, em 1968. Acha pouco? Então vale dizer que esse colosso de lirismo volta e meia perfila a lista dos álbuns mais importantes do século e, se servir de consolo, arrancou declarações apaixonadas como essa do niilista crítico de música californiano Lester Bangs.

“Havia um elemento redentor na escuridão reinante, uma compaixão suprema pelo sofrimento dos outros e um raio de pura beleza e estupefação mística envolvendo o coração da obra”, escreveu num texto comemorativo dos 10 anos do cultuado disco. “Astral weeks é talvez cria de uma era, também. Melhor pensar assim, do que tentar entender que tipo de assombrações paroquiais irlandesas deu vida a Van Morrison”, observou.

Apaixonado por jazz e blues, o irlandês Morrison já havia sido sensação das rádios britânicas no começo dos anos 60, conduzindo os infernais integrantes do Them, sua banda de Belfast. Na época, emplacaria nas paradas de sucessos, hits como Gloria e Brown eyes girl.

Mas alguma coisa inquietante atormentava a alma desse artista versátil que expurgou seus demônios e fantasmas numa obra que ressoa dor e sofrimento, mas também de sofisticação lírica. Da pulsante faixa título, com seus sete minutos de acordes vibrantes, a melancolia arrastada de Madame George, o disco é só encanto. “E você deve me ter fortemente em seus braços mais uma vez/E eu não me lembro que ainda sentia a dor”, canta ele em Sweet thing, uma apaixonante canção de amor.

Durante muito tempo, meus ídolos do folk seriam o introspectivo Cat Stevens e o intelectualizado Bob Dylan. Mas tarde, os canadenses Leonard Cohen e Neil Young fariam parte desse panteão, mas uma espécie de magia mística tomou conta da minha alma enferma quando ouvi pela primeira vez Van Morrison e o seu Astral Weeks. Era como se todos os meus sonhos e desesperos estivessem escancarados ali, em cada faixa.

E de certa forma estava, como mostrava a triste história de Pedro, que amava Amanda, que não amava ninguém, roteiro que escrevi como projeto final do curso de jornalismo. Muita gente não entendeu nada, acho que nem minha orientadora, muito menos a banca. Se brincar nem eu. Talvez porque o roteiro, assim como todo o disco de Van Morrison, é um espasmo sensorial, uma alegoria sentimental do começo ao fim.

O filme abre com Pedro correndo desesperado pelo Eixão Sul, sob um céu cinza e o movimento frenético dos carros. Ao fundo, em sintonia com o rosto angustiado do jovem, o som de Astral weeks.

* Este texto foi escrito ao som de: Astral weeks (Van Morrison – 1968)

Petrônio morre à sombra de Satyricon

O Petrônio de Leo Genn em Quo Vadis é soberbamente impecável

No filme Quo vadis (1951), um dos clássicos do cinema bíblico da Hollywood dos anos 50 e 60, um grupo de cristãos é perseguido pelo insano imperador Nero, mas protegidos por um aristocrata pagão romano, graças ao seu amor desmedido por uma das ovelhas do rebanho. No final, todos são consumidos pelas labaredas de fogo que alastra pela cidade. Peter Ustinov está soberbo como o demente líder romano, mas é o desconhecido ator Leo Genn quem rouba a cena na pele do escritor Petrônio, um aristocrata que tinha as honras de ser o conselheiro do imperador.

 Foi assim que tive o primeiro contato com esse perspicaz observador da natureza humana, autor do lascivo Satíricon, obra que pinta com descrição realista, a vida mundana e marcada por prevenções de todos os tipos, na Roma do século I d. C.

Que eu me lembre, em A vida dos doze Césares, não há nenhum registro sobre essa figura enigmática, pelo menos até onde eu li, mas um dia espero ter em mãos sua memorável obra. Até lá, guardo nas lembranças, imagens impactantes da adaptação que o mestre Fellini fez para o cinema em 1969. Seu Satyricon é sombrio e perturbador. “O estrato psíquico desta memória é profundo, submerso por milênios de outros mitos, outras formas, outras histórias”, diria o cineasta italiano anos mais tarde, numa passagem do seu livro Fazer um filme.

Recentemente pude me familiarizar mais com o universo do escritor e aristocrata romano ao ler o divertido Enquanto Petrônio morre, narrativa fictícia sobre a vida e obra do autor de Satíricon, escrito pelo romancista, roteirista e editor Flávio Braga. Paulista criado em Porto Alegre e radicado há mais de 30 anos no Rio de Janeiro, Braga é responsável pela edição da coleção Placere, que a partir de três títulos – os outros dois são Sade em Sodoma e Eu, Casanova confesso -, revisita a literatura erótica, gênero que incendeia a imaginação dos leitores por, ao contrário da pornografia explícita, atiçar nossa imaginação apenas sugerindo situações.

Satyricon de Fellini, sombrio e com visual deslumbrante

Com o cuidado de não denegrir o texto original, Braga se apóia em narrativa enxuta e envolvente ao transportar o leitor àqueles anos de orgias, depravações e culto ao sexo hetero e homossexual. “Na novela que desenvolvi não procuro imitar o estilo nem o perfil de Petrônio, mas apenas utilizar-se de sua ambientação histórica numa recriação literária”, escreve Flávio Braga no prefácio.

Em Enquanto Petrônio morre, o personagem central e narrador da história não é o do título, mas o soldado romano Heliodoro, que escapa da condenação de morte pela prática de homossexualismo entre os legionários para montar um negócio envolvendo sêmen, vulva e cus. “Uso essas expressões sem intenção de chocar, mas para deixar claro do que se trata”, esclarece.

Assim, ele e os amigos que encontram pelo caminho, se metem nas mais incríveis aventuras cruzando toda a “bota”, sempre com intuito de conseguir ouro para montar o prostíbulo que promete saciar os desejos mais sujos da sociedade romana. Impressiona o realismo com que Flávio Braga descreve o cotidiano da Roma de Nero, com suas casas de banhos infestadas de sacanagens, os detalhes sórdidos e imorais das orgias palacianas, a rotina dura dos gladiadores e escravos da época. Uma obra pulsante, e claro, excitante.

 * Este texto foi escrito ao som de: The bootleg series vol. 5 – Bob Dylan Live in 1975 the Rolling Thunder Revue (Bob Dylan – 1975)