Ele, o boto (1987)  

Nessa lírica cena o diretor faz referência a um clássico de Hollywood

Nessa lírica cena o diretor faz referência a um clássico de Hollywood

Pouca gente sabe que a figura do cineasta carioca Walter Lima Jr. foi fundamental na carreira do jovem Glauber Rocha. Sua participação como assistente de direção do cineasta baiano na obra-prima, Deus e o diabo na Terra do Sol (1964), foi fundamental. A intimidade e amizade entre os dois artistas da sétima arte nacional eram tão intensas que, anos depois, Walter Lima Jr. se casaria com Anecy Rocha, irmã do amigo.

Sensível e culto, Lima Jr., além de cineasta de prestígio, no auge de seus 76 anos, é também respeitado professor de cinema na PUC do Rio de Janeiro. Tive oportunidade de participar de uma de suas palestras certa vez em Brasília. Um sundae. Um soverte no céu também é alguns de seus filmes, como a fábula Ele, o boto, um projeto de 1987 exibido outro dia no Canal Brasil. Baseado em argumento de Lima Barreto (cineasta da fase seminal do cinema brasileiro) e da atriz Vanja Orico, que por sua vez se inspiraram numa lenda amazônica, a fita conta a história de um boto que, em noite de Lua cheia, se transforma em humano e seduz a mulher do próximo, causando a ira dos maridos.

“Quando eles aparecem, não sobra peixe pra gente, nem mulherzinha triste”, debocha o narrador da trama, vivido pelo simpático Rolandro Boldrin.

Ele o boto 2É ele quem conta como a filha mais velha de Zé Amaro (Ruy Polanah), a bela Tereza (Cássia Kiss), se apaixona e se perde na vida por se entregar à famigerada criatura de água doce de cor rosa e aura misteriosa. Ela e a família toda. Entre eles a irmã mais jovem, Corina (Dira Paes), em um dos seus primeiros papéis nas telonas.

Isso porque, quando o boto entra na vida de uma pessoa, inferniza a todos, e aqui leva à falência o velho Amaro e a desgraça das filhas, que têm que se sujeitar a humilhações como mostra a figura do asqueroso empresário da região Rufino, (Ney Latorraca).

Filmado em Paraty (RJ) e Paratimirim (RJ), litoral do Rio de Janeiro, o filme traz momentos de lirismo único no cinema nacional. Algo que só o diretor Walter Lima Jr. foi capaz seria conseguir, como a mágica cena das ninfas se banhando nuas numa cachoeira sob o luar. A beleza da sequência é sufocante e remete a uma página dos romances do século 19.

Noutra passagem, o diretor faz uma referência ao clássico norte-americano A um passo da eternidade (From here to eternety, 1953), quando o boto possui a ingênua Corina na beira da praia, em plena aurora. “Boto esperto e mulher com desejo é fome com a vontade de comer”, observa, maliciosamente o narrador.

No auge da carreira, o ator Carlos Alberto Riccelli mostra desenvoltura e sensualidade ao encarnar o boto tanto na pele humana, quanto como peixe, com movimentos lascivos e apaixonados.

* Este texto foi escrito a som de: Majikat (Cat Stevens – 1976)

Majikat

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s