As “criaturas peterpanescas” do Porão do Rock

Dinho, nariz de palhaço e críticas aos políticos (Foto: Gerdan Wesley)

Dinho, nariz de palhaço e críticas aos políticos (Foto: Gerdan Wesley)

Agora eu não preciso me envergonhar toda vez que falar sobre o Porão do Rock porque perdi a virgindade ontem, no primeiro dia da 16ª edição do evento, que este ano acontece no estacionamento do Mané Garrincha. Nunca fui por falta de tempo, de oportunidade, de entusiasmo mesmo.

Bom, já digo logo de cara que a experiência não foi das melhores. Mas também não foi das piores. Diria que foi no mínimo acidental e, em alguns casos, recheadas de agradáveis e momentâneas surpresas. E tudo por conta do que o meu amigo Pedrão classificou, oportunamente, de “criaturas peterpanescas”. Sim, aqueles adolescentes jovens de verdade que, junto com aqueles adolescentes velhos de mentiras – enfim, os vovôs com síndrome de James Dean que -, uma vez na vida colocam suas camisetas de roqueiros ocasionais fedendo à naftalina como se fossem uniformes juvenis para tirar onde de rebelde sem causa. Nem que seja por uma noite ou como diria o Renato Russo naquela canção: “Só por hoje”. Puro e simplesmente comportamento condicionado, digno de estudo acadêmico.

E ontem o que mais tinha no Porão do Rock eram essas figuras caricatas e foi justamente de uma delas que ganhei uma “voadeira telequete” que fui parar longe. A pancada foi tão forte que pensei que tinha quebrado uma costela e saltei alto como num desenho animado.

O debilóide autista, no auge de sua euforia “peterpanesca”, provavelmente com o rabo cheio de cachaça, estava brincando com os amigos da “dança da porrada” – aquela em que uma turma acéfala dança saltando socando e empurrando uns aos outros –  e nem se deu conta do que aconteceu. Quando a fixa caiu para ele, o boboca teve coragem de pedir desculpas e eu só não dei um caratê nele porque não estava com o rabo cheio de cachaça também. Do contrário teria Porão do Rock 2apanhado até morrer.

Resumo do rock: fiquei com os nervos tão abalados com o episódio que depois topava com todo mundo que entrava na minha frente. Definitivamente estou velho para essas coisas. O estresse foi grande que nem reparei direito nas “metal babies” que passavam aqui e acolá, quase todas com alfinetes na orelha, no nariz e nos olhos, uma visão do inferno.

Quando o susto passou, relembrei dos meus tempos de Bizz ouvindo o som furioso dos capixabas do Dead Fish, o cover honesto dos argentinos metaleiros do Banda de la Morte tocando I wanna be your dog (Stooges), a nostalgia oitentista dos paulistas do Nem Liminha ouviu, a gostosinha vocalista do Leela, enfim, da irreverência do vocalista do Matanza com sua persona Viking.

Mas, como grande parte da garotada nova e velha que estava lá, eu aguardava, não tão ansioso assim, pela principal atração da noite, os meninos do Capital Inicial que, gostem ou não, foram profissionais em cima do palco e agitou o público com canções novas, hinos clássicos de bandas ícones da cidade como Raimundos e Legião Urbana, além de um cover competente do Dinho de White Stripes.

“Galera, pau no cú para esses políticos do Brasil”, disse o inquieto e carismático vocalista do Capital Inicial, dando os dois dedos para cima, nariz de palhaço na cara.

Com certeza não foi o melhor show do Capital Inicial que já fui, mas tudo bem, de graça até injeção na testa. Na próxima edição do Porão do Rock vou tirar minha fantasia do Peter Pan ou do Capitão Gancho do armário. Ou melhor. Na próxima edição do PDR vou de fadinha Sininho. Com piercing  no nariz e tudo.

* Este texto foi escrito ao som de: The Stooges (1969)

Stooges

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Frances Ha (2012)

A jovem Frances (dir.) e a amiga Sophie, levando a vida como podem numa grande metrópole

A jovem Frances (dir.) levando a vida numa boa ao lado da amiga Sophie

As críticas, os comentários entusiasmados e o boca a boca já davam sinais de que a comédia Frances Ha, em cartaz na cidade, demonstrava ser o grande queridinho do momento entre os cinéfilos. Mas, para um sujeito que não tinha lido nada sobre a fita até então, teve ingredientes a mais que despertaram minha atenção logo de cara para o mais novo projeto do diretor de A lula e a baleia (2005), Noah Baumbach.

O mais sintomático deles talvez seja o cartaz estiloso, retrô, monocromático do filme, tipo aquelas capas descoladas dos álbuns dos Smiths e do Belle & Sebastian que fizeram meu coração palpitar antes da sessão começar, ali no Casa Park. Depois, claro, veio a beleza graciosa da atriz norte-americana, Greta Gerwig, protagonista da fita.

Após quase passar despercebida em Para Roma com amor (2012), de Woody Allen, ela volta à bala aqui como a simpática Frances, uma jovem como outra qualquer que sonha um dia ser uma grande bailarina. Mas enquanto isso não acontece, ela vai levando a vida como pode, numa boa, ao lado de sua melhor amiga, Sophie (Mickey Sumner), com quem divide um apê em Nova York.

Acontece que um dia Sophie resolve ir embora e cabe a Frances agora procurar outro lugar para morar, ao mesmo tempo em que se vira para arrumar emprego para pagar as contas e sobreviver. Como você já percebeu, Frances é uma pessoa como outra qualquer que busca um lugar ao sol em meio a certa ingenuidade, muitos desafios e alguns dissabores numa grande Frances Ha 3cidade.

“Vou ser a garota com acne que tem mais acne”, desconversa ela meio que numa caricatura dos personagens losers vividos pelo genial Woody Allen.

Aliás, a citação aqui ao diretor nova-iorquino não é gratuita já que o roteiro escrito a quatro mãos por Noah Baumbach e Greta Gerwig, de um modo ou de outro, esbarra na obra intimista de Allen. Seja na fotografia em preto em branco de Manhattan ou nos conflitos aparentemente banais dos personagens de Hannah e suas irmãs (1986).

Mas não só isso. Tem um pouco também da nostalgia elegante de algumas produções da nouvelle vague e o tom direto e espontâneo de obras literárias como o confessional, O apanhador do campo de centeio, de J.D. Salinger.

Contudo, é nos detalhes que Frances Ha ganha o público mais sensível que pode se deliciar seja com o jeito meigo de uma menina do interior de Sacramento (de onde Greta Gerwig é realmente) perdida na solidão massacrante de uma grande metrópole, na sinceridade de atuações singelas ou com a trilha sonora eficiente que vai desde o funk soul do Hot Chocolate ao lorde David Bowie, com sua grudenta Modern love.

Saí da sessão flutuando diante da leveza com que o filme expõe temas tão ruidosos dos dias atuais com a esquizofrenia urbana, as paqueras homossexuais subtendidas e o individualismo dos tempos atuais. Tudo com muito humor e o que é melhor, inteligência. Só para provar que nem só de barulho e futilidade vive o cinema, mas também da sutileza emotiva de bons contadores de histórias. Essa menina Greta vai longe e eu vou junto com ela.

O cinema de autor ainda não morreu.

* Este texto foi escrito ao som de: Tigermilk (Belle & Sebastian – 1996)

Belle and Sebastian

Vergonha, mas nunca fui ao Porão do Rock

O grunge Mark Lanegan é uma das atrações deste ano...

O grunge Mark Lanegan é uma das atrações deste ano…

Quando comecei a escrever este texto, na página do Porão do Rock edição 2013, registrava que faltava um dia, 17 horas, 47 minutos e 36 segundos para o início do evento musical mais emblemático de Brasília. Bom, não sei por que essa precisão da minha parte na informação já que, confesso, assim, meio que envergonhado, que nunca fui a uma edição do evento que caminha para sua 16ª edição. Por quê?! Ué, sei lá!!! É bem capaz deu ter implicado com nome e nunca ter ido por causa disso. Coisa de menino da roça, enfim, vai saber.

De qualquer forma meu amigo Pedrão me explicou que o nome meio underground surgiu do fato de na Asa Norte existir uma série de estúdios no subsolo onde bandas ensaiavam e que, um dia, a turma resolveu organizar um festival de rock e o resto é história, mas pode ser lenda também, vai da imaginação de cada um.

Não sei se vou neste Porão. As atrações não são tão convidativas assim. Além dos medalhões do rock nacional Paralamas do Sucesso, Lobão e Capital Inicial (em apresentação inédita no espaço), PDRmarcarão presença também o norte-americano Mark Lanegan – um dos representantes do movimento grunge , além de nomes obscuros do grande público, dos quais destaco o cearense/brasiliense, Alf, os argentinos do Banda de la morte e (caramba!), esse tal de Pastel de miolos (eca!!). São tantos e grande parte desconhecidos do meu limitado universo musical que paro por aqui na minha pífia tentativa de elencar o rol de convidados do Porão do Rock 2013.

Fico pensando se a curadoria do evento tem alguma noção de quem são essas bandas e artistas solos de fato, quando os convidam.  A impressão é que vai tudo no melhor estilo: “se não tem tu, vai tu mesmo”.

De qualquer forma todo esse papo me fez ter um déjà vu daqueles e me lembrei dos tempos do Rafael Reisman e do seu Brasília Music Festival (BMF). Eu sei que uma coisa não tem nada a ver com a outra, são encontros musicais distintos, mas o que eu posso fazer? Guardo até hoje as credenciais do BMF onde tive oportunidade de ver artistas como a canadense Alanis Morrissette, além do Lenny Kravitz, do Pretenders e do chiliquento do Mick Hucknall, o vocalista do Simples Red que deu uma bronca fenomenal nos técnicos de som que não conseguiam acertar o seu retorno.

Tudo bem, eu nunca fui a um Porão do Rock, é verdade. Mas não me lembro de ter lido em algum lugar ou de alguém me contar sobre atrações bacanas e histórias de estrelismos como essas. Parece pouco, mas são acontecimentos que fazem parte do folclore do rock seja aqui em Brasília, no Rio de Janeiro ou Nova Iorque.

Acho que é isso, falta um pouco de folclore ao encontro musical mais importante de Brasília. Faltam atrações mais folclóricas e de peso ao evento musical mais importante do cerrado. Enfim, falta mais ousadia aos organizadores do Porão do Rock, no sentido de dar uma nova cara ao encontro musical, um novo formato, até para ser mais atraente para desinformados como eu. Afinal, somos ou não somos a capital do rock?

* Este texto foi escrito ao som de: Whiskey for the holy ghost (Mark Lanegan – 1994)

Mark lanegan

Tese sobre um homicídio (2013)

Ricardo Darín até tenta, mas não salva o roteiro pífio desse suspense pretensioso

Ricardo Darín até tenta, mas não salva o roteiro pífio desse suspense pretensioso

Já foi o tempo em que o cinema argentino rendia boas produções o ano inteiro. Do tipo assim, você podia ir seguramente ao cinema e escolher uma fita ou outra realizada pelos irmãos portenhos que tivesse em cartaz e ir para casa depois feliz da vida. Bom, como disse, já foi o tempo e bem que o meu amigo Felipe, num surto de rabugice precoce, alertou: “o cinema argentina anda muito superestimado”.

De modo que não deu outra porque, conforme eu havia prometido, fui ver na última segunda-feira, no Libert Mall, o mais novo filme do astro e galã Ricardo Darín e me decepcionei de forma cavalar. A ponto de querer dar patadas rutilantes no asfalto após a sessão.

Dirigido por Hernán Goldfrin, o filme, baseado no livro de Diego Paszkowski, conta a história de um professor de direito criminal que se torna figura central de estranho assassinato de uma jovem ao suspeitar de seu melhor aluno, Gonzalo (Alberto Ammann). “A grande oportunidade que vocês têm agora é de tirar proveito de mim”, diz sem qualquer modéstia ele aos seus alunos de pós-graduação. “Na Justiça, tudo está nos detalhes”, ensina.

A situação piora ainda quando o aluno em questão é filho de grandes amigos seus do passado e Teseé nessa poeira sombria entre o ontem e o presente que costura a trama deste suspense pretensioso cheio de problemas no roteiro.

Claro, Ricardo Darín trabalha bem as contradições e mistérios que envolvem o seu personagem, mas não há roteiro ruim que salve uma boa atuação. Nem que seja uma atuação de Ricardo Darín. Falta maturidade em algumas sequências que, de tão inverossímeis, chegam a ser bobocas. A mais gritante delas é aquela em que nosso herói compara a compra de produtos de uma farmácia com a notinha fiscal do suspeito, sem levar em conta outros produtos na prateleira, enfim a concorrência.

Mas o mais irritante em Tese sobre um homicídio é a influência hollywoodiana na trama que descaracteriza por completo o charme tão incisivo do cinema argentino, à revelia do gênero em questão. A impressão que se tem é que o jovem cineasta Hernán Goldfrin é um daqueles entusiastas deslumbrados com os clássicos do suspense que viu quando era pequeno e, quando teve oportunidade de ter o seu brinquedo, não excitou em querer igual ao do outro. Um pouco de autenticidade aqui não faria mal a ninguém.

O final até surpreende, mas não o suficiente para apagar as decepções e raiva que você já acumulou ao longo da fita. Ricardo Darín é um charme sim, além de ator talentoso, mas nem tudo que toca é ouro. Ah, sim, e Hernán Goldfrin não é Alfred Hitchcock. Ele não é nada.

* Este texto foi escrito ao som de: Turn! Turn! Turn! (The Byrds – 1965)

Turn turn turn

Fidel Castro não me representa!

O comandante cubano e seu regime de mierda não me representa, esse moço sim

O comandante cubano e seu regime de mierda não me representa, esse moço sim

Quando eu era bem mais moço do que sou hoje queria, veja só, ser guerrilheiro. Ficava olhando aquele quadro do Guevara do meu pai na parede e sonhava ser alguma coisa do tipo, imagina. Nossa, mas como eu idolatrava o Fidel Castro e a Revolução Cubana. Como eu admirava aquela figura mítica do Che Guevara. Acho que até hoje eu ainda sinto certa atração pela figura do revolucionário argentino, mas quero que Fidel Castro e a Revolução Cubana explodam. Para seu governo, meu chapa, Fidel Castro não me representa mais.

Porque estou dizendo tudo isso? Sei lá, talvez por conta dos médicos cubanos que irão clinicar por aqui e uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ou será que tem? Aliás, algum filho de deus poderia me explicar porque esse estresse todo por conta dos médicos cubanos que veem trabalhar aqui no Brasil? Qual problema se os médicos brasileiros não querem trabalhar?

Bom, uma matéria da revista Veja desta semana diz que a iniciativa é ilegal e inconstitucional porque denota, entre outras coisas, trabalho escravo. Se o sujeito é obrigado a dar 93% do seu salário para o regime castrista, aí sim, é escravidão. Claro, alguém poderia alegar que é o sistema deles lá, que as coisas funcionam desse jeito em Cuba desde os anos 60 e tal, mas sou da opinião de que, se o governo é conivente com esse esquema então está errado.

Daí a hipocrisia da classe médica brasileira que se apoia num corporativismo de quitanda Cubaalegando que os gringos vão tirar o trabalho dos nossos profissionais e etc, etc e etc… Bobagem, o buraco é mais embaixo e resvala em questões como oportunismo eleitoreiro, falta de competência do governo brasileiro em não conseguir resolver o problema da saúde no Brasil. Enfim, o velho jeitinho brasileiro de tampar o sol com a peneira sempre foi nossa melhor saída.

Agora, que papelão do dois irmãos Castro e então voltamos ao parágrafo inicial. O que quero dizer é que, esse episódio opressivo envolvendo os médicos cubanos, somados a tantos outros de desrespeito aos direitos humanos na ilhota caribenha, é mais do que símbolo de que a Revolução Cubana fracassou. Sim, porque um regime que trata seus profissionais de ponta como são tratados os médicos cubanos que não têm direito de recebem os salários com dignidade ná é um regime sério.

Sim, porque destituir do poder um regime autoritário, no caso o de Fulgencio Batista, para instituir outro é canalhice. E o pior é que, muita gente, movida por ideologias ultrapassadas, tutankamônicas, nem percebem isso.

De modo que repito, por essas e outras que Cuba, Fidel Castro e a Revolução Cubana, esses petistas vagabundos brasileiros não me representam mais. Apenas Guevara e sua figura mítica. Aliás, quando o argentino viu que o sonho socialista que ele e os irmãos Castro tanto almejaram, no auge da Guerra Fria, degringolou, o cara pegou a mochila e picou a mula, foi lutar na África, morrendo com dignidade na Bolívia.

Eis um homem de caráter! Eis um homem que me representa.

* Este texto foi escrito ao som de: Mixed bag (Richie Havens – 1967)

Mixed bag

Cul-de-Sac/Armadilha do destino (1966)

Um trio para lá de atrapalhado, isolado num castelo do século 11 no meio do nada

Um trio para lá de atrapalhado, isolado num castelo do século 11 no meio do nada

Terceiro longa-metragem dirigido pelo infernal cineasta franco-polonês, Roman Polanski, tudo em Cul-de-Sac (Armadilha do destino) é estranho e bizarro, enfim, apaixonadamente nonsense. A começar pelo título irônico em francês Cul-de-Sac, algo mais ou menos como “beco sem saída”, o que não deixa de ser uma deliciosa e apropriada metáfora da situação desses quatro personagens centrais da trama escrita pelo jovem diretor em parceria com seu roteirista mais assíduo, o francês Gérard Brach.

A motivação dos dois para o enredo marcado pelo absurdo seriam as peças Esperando Godot, de Samuel Beckett, e O porteiro, de Harold Pinter, esse último, uma grande admiração de Polanski. “É a história de um casal”, resumiu na época o diretor.

Na trama, dois gangsters chegam do nada no meio da noite num castelo localizado à beira-mar, um colosso de pedras sombrio do século 11 que parece ter sido erguido do nada. Um deles, gravemente ferido (Jack MacGowran), tem poucas horas de vida. O outro, um velho grandalhão de voz rouca e rabugento – vivido pelo ótimo ator nova-iorquino Lionel Stander, imortalizado anos depois como o mordomo do seriado Casal 20 – invade a propriedade na tentativa de fazer contato com um tal de Mr. Kaltebach que, assim como na dramatização beckettiniana, nunca vem, nunca chega.

Dada à situação, ele é obrigado a fazer de refém um casal vivido por um inglês patético e Cul de sac 3afeminado (Donald Pleasence) e sua linda mulher mimada (Françoise Dorléac, irmã mais velha de Catherine Deneuve que morreria num trágico acidente de carro aos 25 anos). Ele um empresário que vendeu tudo para viver um grande amor com uma ninfomaníaca que coleciona amantes. Pronto, está em jogo mais uma vez os elementos intrínsecos que marcariam o cinema de Roman Polanski, ou seja, nuanças de claustrofobia e terror, assim como insinuações eróticas. Aqui, como em Faca na água, vivido por um trio em decadência moral.

“Posso dizer que existem poucos padres que acreditam no que realmente pregam. A maioria não presta! É igual em todo o lugar”, diz o infame Dick, com sua filosofia de vida torta.

Carros inundados pela força de uma maré repentina, sepultamento na calada da noite, visitas inesperadas, galinhas pulando entre uma cena e outra, no melhor estilo comédia de erro, Cul-de-Sac/Armadilha do destino, apesar da tensão vigente entre os personagens, é conduzido com leveza e humor sutil por Roman Polanksi. Não como se diverti com os embates verbais entre o rude Dick e o afetado George, assim como com a deliciosa Françoise Doléarc transitando nua, com sua pele alva e firme de um lado para outro.

Recebido com susto pelo público e indiferença pela crítica, o filme, como bem observou o escritor e crítico, Christopher Sandford, em sua biografia sobre Roman Polanski que acabei de ler recentemente, o filme “passou do fracasso ao clássico do absurdo sem nunca ter sido um sucesso”.

Para mim simplesmente é um dos melhores trabalhos de Roman Polanski.

* Este texto foi escrito ao som de: Da Capo (Love – 1967)

Da capo

Jukebox Sentimental – Wond’ ring aloud

Ian Anderson do Jethro Tull, no auge da carreira, colocando em ação sua fláuta mágica

Ian Anderson do Jethro Tull, no auge da carreira, colocando em ação sua fláuta mágica

E no princípio o homem criou deus e logo em seguida Aqualung. Foi com essa releitura distorcida, ousada e abusada do livro do Gênesis da Bíblia que tive contato com o Jethro Tull e o seu álbum mais importante e conhecido, o experimental e conceitual, Aqualung. Registro de 1971, o canal direto para essa aventura musical fantástica seria um amigo que não tenho a mínima ideia de como conheci, não fosse talvez por nossa ligação quase visceral com a música e com o hábito cigano de andar por aí, naqueles áureos tempos de moleque, com um violão pendurado no ombro para cima e para baixo.

E a pergunta sentimental, nostálgica que faço quando escrevo esse post, ao som de Aqualung é, por onde andará meu amigo Solemar? Metido com seus íons e elétrons? Perdido entre as firulas acadêmicas da vida? Enfim, saudade é uma enigmática lição de física sem solução e entendimento em minha cabeça desnorteada.

O gozado é que, embora nossa amizade fosse amalgamada pelo som progressivo do Jethro Tull, passávamos tardes inteiras ensaiando canções dos Beatles, contando histórias dylanescas. Eight days a week foi nossa melhor performance, uma das trilhas sonoras desse período mágico e tenho boas recordações, recordações joviais dos discos que trocávamos incessantemente, como figurinhas de álbum.

JethroCom o tempo, aprendi a gostar e tirar legal no violão a tristonha, Wond’ ring aloud, canção simples, direta e melancólica que se tornaria o símbolo definitivo da minha memória afetiva de toda essa época.

“Pensando alto/É como nós nos sentimos hoje/(…) Somos nossos próprios salvadores/Ao que causamos ambos nossos corações/A pulsar vida um no outro”, canta Ian Anderson, o teatral vocalista e líder do Jethro Tull, que, de certo modo, marcou a sonoridade da banda por um instrumento pouco usual no rock ‘n’ roll, a flauta. Daí esse clima “Idade Média” de algumas faixas do Jethro Tull, que foi buscar o nome da banda num personagem importante desse período histórico.

Bom, sempre tive certo fetiche por faixas obscuras dos artistas que gosto, enfim, uma admiração quase messiânica por aquelas canções de um disco que, mesmo com seu arranjo bem construído e marcante, não emplacou no inconsciente coletivo das pessoas dentro da mitologia musical construída de cada banda ou cantor solo.

Com seu violão folk, piano minimalista e letra intimista, Wond’ ring aloud, que conta ainda com marcantes e propositais falsetes gagos de Ian Anderson, é um poderoso e singelo side B em quase seus dois minutos de duração. Para mim, é trabalho de gênio desenvolver uma peça de câmara assim, sutil e ao mesmo tempo impactante, que tem o poder de perdurar em nossa mente eternamente.

“E é apenas a caridade/Que faz de você o que é”, encerra o artista. Será?

De qualquer modo, quem disse que rock progressivo não pode ser assim, sofisticado e simples ao mesmo tempo?

* Este texto foi escrito ao som de: Aqualung (Jethro Tull – 1971)

Aqualung

Eu, o Ricardo Darín e as meninas do Face

Adoro as mulheres, mas quero um homem desse para mim

Adoro as mulheres, mas quero um homem desse para mim

Tudo começou com uma foto do ator e galã Ricardo Darín. Uma foto do ator e galã Ricardo Darín no Face da amiga Clara. E logo, como que num rastilho de pólvora, um burburinho virtual entre as mulheres, um frenesi meio que histérico começou em torno da figura do astro argentino que há tempos vem incendiando aqui no Brasil o coração das minas e a admiração profissional dos rapazes. Em alguns casos dos meninos, mais do que a admiração profissional e isso não tem nada ver com o meu comentário desmunhecado. Pelo menos eu acho:

– Um pão esse sujeito!

Eu disse.

– Pão é só coroa que entende. Concordo!

Consentiu a amiga Clara.

Na carona, sem perder a chance, Ferraz, um amigo gozador nato, emenda:

– Bi-chupão!

Uma colega mais entusiasmada vai logo passando o recado:

– Uma belezura! Viram a entrevista dele na Playboy?

Segredo dos olhosEu não e, duas vezes mais entusiasmado do que ela, lá estava acessando o link que nos levava direto à dita cuja entrevista do elegante ator argentino.

Que grata surpresa. Charmoso, gentil, inteligente, antenado, crítico, simples, mas autêntico, Ricardo Darín abre o seu coração ao repórter sortudo que o entrevistou para falar de tudo. Do cinema argentino. Dos amigos brasileiros. Da amizade com Maradona. Da admiração e temores com relação ao Papa Francisco. Do Pelé e suas estultices infantis.

“O Pelé sempre foi uma besta. Sempre esteve do lado do poder”, diz.

Sobre a vaidade que cerca os profissionais da área comenta com sabedoria e modéstia incômoda. “Não creio ser um fenômeno. (…) O inimigo número um dos atores é o ego, o Narciso que temos dentro da gente”, observa. “Tem que manter esse sujeito com o pé no pescoço e imobilizado no chão, porque, quando ele se levanta, vira um monstro”, explica.

Irritado, não perdoa o olhar cheio de caricatura que o cinema americano faz dos atores latino-americanos. “Custo a entender por que um produtor norte-americano me procura para fazer o papel de um chefe de narcotráfico mexicano. E falando inglês! Não faz sentido. É de uma infantilidade e minimalismo tremendos”, fuzila.

Se mostrando informado, tece comentário sobre as manifestações no Brasil e quando o repórter lhe fala de uma amiga que só sai com homens que tenham se sensibilizado com o drama de suspense, O segredo de seus olhos, nos encanta dizendo. “Adorei saber disso! Mas não faz sentido tentar entender as mulheres. Esqueça. Elas são tão maravilhosas que não existe explicação. São como uma obra de arte. Mulheres têm reações muito estranhas”, opina.

What man!

Bom, li a entrevista com o Ricardo Darín na Playboy on line cercado entre inúmeras mulheres lindas na capa da revista que nem sei quem são, mas não trocaria nenhuma delas pelo astro argentino. E falo isso de olhos fechados, sem segredo. Gosto muito dos filmes que ele fez. O meu preferido é, de longe, Nove rainhas. Mas recomendo também O segredo dos seus olhos, Clube da lua, KamchatkaO filho da noiva e Elefante branco. Pergunta se segunda-feira eu vou estar lá no Libert Mall para ver Tese sobre um homicídio.

Claro, porque o Ricardo Darín é um ator que encanta as mulheres e os homens também.

* Este texto foi escrito ao som de: Artaud (Pescado rabioso – 1973)

Artaud

 

Bling Ring – A gangue de Hollywood

A "juventude do nada" de hoje em contraposição à "juventude transviada" de James Dean.

A “juventude do nada” de hoje em contraposição à “juventude transviada” de James Dean.

Outro dia saí da sessão de Bling ring – A gangue de Hollywood, chocado com a nossa juventude que, por tabela, reflete a síntese, em menor e maior grau, da mediocridade humana nos dias de hoje. Tudo é vazio, fútil, passageiro e insípido. Simples assim e, resumido em poucas palavras, dá vontade de vomitar.

Na trama bem escrita e bem dirigida por Sofia Coppola, baseada em fatos reais, um grupo de jovens sem nada de edificante para fazer na vida, resolve passar o tempo roubando mansões de celebridades em Los Angeles. Assim, eles invadem como se fosse os bárbaros de Hollywood, a casa de Paris Hilton, Lindsay Lohan, Orlando Bloom e tantos outros astros, só pelo prazer de sair de lá com um Chanel, Pravda, Rolex e tantas outras marcas da moda enrolados no próprio corpo e depois se exibirem no Facebook, Instagram e qualquer bobagem dessas que roubam nossa privacidade e a privacidade alheia.

“Estou a fim de roubar”, diz um dos integrantes do bando quando se sente entendiado com a vida de aparente luxo que estão cercados.

Ora focados com toque de realidade documental, ora explorados com leve camada de exagero fake, os jovens delinquentes do filme de Sofia Coppola são vistos com olhar indiferente pela diretora que não os julgam em cena, nem dramatiza seus atos de barbárie burguesa, apenas mostrando com fidelidade narrativa o que eles fazem e como agem. Enfim, do que eles são capazes de fazer. Cabe a nós espectador tirar nossas próprias conclusões e aí está um dos méritos desse filme pop profundo em sua análise comportamental dos dias de hoje.

The bling ringClaro que, mesmo distante em seu julgamento, Sofia Coppola, que tinha tudo para se tornar uma dessas teenagers medíocres e artificiais, traça uma incômoda radiografia de seus pares, do meio em que vive onde a droga, o circo da exposição fútil e barata é a força motriz de tudo. E por isso só, Bling ring é uma contundente peça cinematográfica em sua leveza pop, com a sofisticação de trazer nas entrelinhas, homenagem ao mestre Alfred Hitchcock e o seu impactante, Janela indiscreta. Confira a cena de um dos assaltos, em que uma das mansões, com todas as luzes acesas, desnuda seu interior repleto de pecado e fragilidade.

Mas enfim, parece que não fui o único a sair da sala de cinema indignado com a garotada dos dias de hoje que, ao contrário de seus correspondentes da época de James Dean, estão longe de ser a “juventude transviada”, mas meramente a “juventude do nada”. Psicanalista italiano radicado no Brasil, Contardo Calligaris teceu algumas reflexões pertinentes sobre o filme na coluna que escreve na Folha de São Paulo. Analisando o culto à celebridade às vessas, o excesso de exposição gratuita e a banalidade distorcida da inveja nos dias de hoje ele disse:

“A inveja é, por assim dizer, uma emoção abstrata: o privilégio não precisa dar acesso a uma fruição especial da vida (sensual ou espiritual, tanto faz), ele só precisa suscitar inveja. Ou seja, privilégio não é o que faço ou o que acontece de extraordinário em minha vida, mas o olhar invejoso dos outros”, escreve para arrematar. “Nesse mundo, o ter é mais importante do que o ser apenas porque, à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos olhos dos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios de vida interior e pedir que nos invejem por isso. O valor social de cada um se confunde com a inveja que ele consegue suscitar”, cutuca.

Faço de suas palavras as minhas.

* Este texto foi escrito ao som de: The libertines (2004)

The libertines

Crise da meia idade e a mulher moderna

Mulher no poder sim, mas sem perder a ternura

Mulher no poder sim, mas sem perder a ternura, sem deixar de ser feminina

Tenho 36 anos de idade e acho que em plena crise da meia idade. Será? Mas vem cá, o que é caracterizado como crise da meia idade? Sim, porque nunca entendi direito essa história, já que não sobrevivo até amanhã. Se muito até sexta-feira. Se até semana que vem eu ainda estiver por aqui será puro milagre. De modo que sigo meio sem rumo, desnorteado e entediado. Daí o fato dessa maldita crise da meia idade ser relativa ou uma farsa ululante. O que eu acho é que estou apenas de saco cheio mesmo de tudo, de todos, inclusive de mim e, sobretudo, do ser humano. Pior, perdi a fé no ser humano de vez e agora não tem volta.

Mas porque estou falando isso mesmo? Ah, sim, lembrei. Outro dia uma amiga falou uma coisa depois de um comentário meu sobre não sei o quê que me deixou com a pulga atrás da orelha. Ela disse que as mulheres de hoje não são as mesmas de antigamente. Que a mulher moderna e contemporânea está diferente. Não entendi bulufas do que ela disse, até ela emendar que as mulheres de hoje, por conta da competição profissional e comportamental, estão cada vez mais masculinizada, completamente diferente daquele animal feminino que estamos acostumados a conviver.

?????

Bom, se ela que é mulher disse isso, quem sou eu para contestar, não é verdade? Mas então fui para casa, pensei um pouco, refleti com os meus botões carcomidos e concordo com ela. Pelo menos em parte, dentro da confusão que ficou na minha cabeça. Veja bem, não tem nada a ver com igualdade de direitos, guerra do sexo ou qualquer outra bobagem do tipo.  Muito menos com machismo da minha parte, longe disso pelo amor de Jesus.

Mas o fato é que as mulheres, no afã de conseguir o seu espaço na sociedade, seja em qual seguimento for, em qual sentido você interpretar, profissional ou socialmente falando, não é mais a mesma. Sei lá, não sei explicar, apenas sinto, vejo e ponto final.

Até acho, sim, que elas estão cada vez mais na crista da onda, em evidência e tem que ser assim mesmo e quer saber? As mulheres mandam muito melhor do que os homens em vários sentidos, inclusive como líder e a questão não é essa. O que eu acho é que a sensibilidade feminina, com todos os seus atrativos genuínos anda sumida diante da vaidade profissional, por conta dessa competição ridícula e démodé entre os sexos opostos, fazendo com que seu verdadeiro papel como figurina feminina esteja cada vez mais rara. Algumas amigas, sem que percebam, estão esquecendo os próprios filhos. Do próprio papel de mãe em sua essência, se é que vocês me entendem.

Bom, parafraseando o Papa Francisco, quem sou eu para julgar. Mas eu só quero que as mulheres sejam onipresentes, atuantes e sempre, cada vez mais femininas. Só isso.

Não sei se me fiz me entender. Deve ser a crise de meia idade.

* Este texto foi escrito ao som de: Oar (Alexander “Skip” Spencer – 1969)

Alexander Spencer