Argo – a arte de mentir com convicção

Ben Affleck: de ator bonitão a diretor competente e promissor

Ben Affleck: de ator bonitão a diretor competente e promissor

Ben Affleck você sabe quem é. E o galã queixudo, grandalhão que andava para cima e para baixo junto com Matt Damon no sucesso, Gênio indomável, história que emocionou muitos cinéfilos naquele verão de 1998 e, cujo roteiro oscarizado, era assinado pela dupla. Depois ele arrancaria suspiros das garotas em produções pretensiosas e chatas como Armageddon e Pearl Harbor e não decolou mais. Pelo menos como ator.

Sua volta triunfal aconteceria como diretor de sucesso, mas a jornada não foi fácil. Depois de dirigir duas produções que, confesso, não tive coragem de assisti (Medo da verdade e Atração perigosa), o reconhecimento e maturidade veio com Argo, suspense de espionagem que ainda dá tempo de ver pelos cinemas de Brasília se você correr.

Bom, fui conferir o trabalho do jovem ator/diretor e me surpreendi pela grandeza simples do projeto. Baseado em fatos reais, o filme conta a história de um agente da CIA especializada em “exfiltrações”, ou seja, a arte de extrair espiões, colaboradores e dissidentes de áreas fechadas. Seu nome é Tony Mendez (Affleck, em atuação comedida, mas eficiente) e ele tem a missão de tirar do Irã recém-comandado pelos aiatolás xiitas, seis funcionários da embaixada norte-americana que conseguiram escapar do lugar depois que este foi invadido por uma turba ignara e revoltada em 4 de novembro de 1979, numa das piores crises diplomáticas da América. As imagens famosas deste mundo correram o mundo e são bem retratas pelo diretor com toques documentais.

“Aqui dentro nós estamos nos EUA, lá fora no Irã”, diz desesperado um deles, reforçando o grau de perigo que corre.Argo 2

Escondidos na embaixada do Canadá, o grupo exilado espera pelo salvador da pátria e eis que este surge como agente espião dos Estados Unidos disfarçado de produtor de cinema canadense. A ideia, “a melhor das ruins que tiveram”, é que todos se passam como uma equipe de filmagem em Teerã em busca de locações no deserto iraniano para filmar uma produção exótica de ficção científica chamada Argo.

Assim tem início uma das maiores farsas de Hollywood, onde uma produtora de mentira, a Studios Six, de Los Angeles, dá régua e compassos para que diretores, roteiristas, produtores e técnicos cinematográficos ficcionais circulam pelas ruas da capital iraniana em pleno regime de Khomeini. Ou seja, uma tarefa tão impossível quanto o roteiro proposto para tirá-los dali, mas tudo dá certo porque realmente aconteceu.

“Se quiséssemos aplauso estaríamos num circo”, diz em dado momento um alto funcionário da CIA, superior de Mendez. “E não estamos?!”, ironiza ele.

Bem dirigido, Argo recorre ao entretenimento para falar de coisas importantes como patriotismo e altruísmo, como mostra a atuação exemplar do embaixador canadense nesse episódio. Mais do que isso. Pode ser o início de uma bem-sucedida carreira de sucesso para Ben Affleck como cineasta, com direito a abiscoitar, no futuro, muitas estatuetas no Oscar, mas, mesmo que o astro esteja no caminho certo, ainda há muito que aprimorar.

Isso porque mesmo eletrizante e, em certos momentos sufocantes, de tão bom, seu filme peca em alguns pontos, entre eles na excessiva vilanização do povo iraniano, aqui retratados como violentos, burros e vis – o que não é bem assim, dado a visão etnocêntrica de quem conta a história -, além da espetacularização dos minutos finais da fita, em que a aventura nas telas é maior do que a realidade.

De resto, fica a homenagem ao cinema engajado dos anos 70 e seus grandes colaboradores, entre eles o artista da maquiagem John Chambers (John Goodman em atual estupenda), (vencedor do Oscar pelo seu magnífico trabalho no gênero no clássico, O planeta dos macacos), um dos cúmplices dessa grande mentira no país dos aiatolás.

* Este texto foi escrito ao som de: Boys don’t cry (The Cure – 1980)

The Cure

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Do vício e da escravidão do Facebook

Até pela natureza multifuncional o facebook é uma mal necessária

Quando, certa vez alguém comentou comigo alguma coisa sobre o Facebook, quase que tirei meu tacape da capanga para acertar o infeliz com uma pancada. Isso porque na época eu achava essa novidade cibernética, tal qual as demais que foram surgindo ao longo do tempo, para minha cabeça provinciana, algo tão distante quanto o planeta Marte, a existência de deus ou o beijo da minha musa platônica. Imagina se um sujeito como eu, amante dos livros, apegado à simplicidade do papel, lápis, totalmente avesso a toda e qualquer referência tecnologia, iria me submeter a mais essa bobagem dos nerds Bill Gates, Steve Jobs, Mark Zuckerberg e seus pares.Mas de nada adiantou meu chilique anacrônico de neardental do século 21 diante do futuro. Se pelo menos eu tivesse seguido o conselho do mestre Millôr Fernandes: “Olha aí, rapaziada, quando eu digo ‘no meu tempo’, estou falando é do futuro”.

Pois bem, há um ano, quando a gatíssima jornalista Lilian Tahan inaugurou seu blog (http://www.dzai.com.br/liliantahan/blog/liliantahan) bem que ela avisou: “Quem me conhece sabe que entre o papel e a tela, fico com o papel; o telefone e o e-mail, faço uma ligação; as redes sociais e um bom papo, prefiro o encontro. Embora os costumes me puxem para o que é antiquado, aprendi a apreciar a tecnologia e todas as facilidades que acrescentam em nossas vidas. Escrevo agora no Ipad, ouvindo o IPod e atenta ao IPhone”.

Eis a síntese dos dias modernos. Dos dias de hoje.

Bom, não sou tão versátil, habilidoso e talentoso como ela, mas me viro hoje em dia com alguns desses apetrechos tecnológicos, embora apanhe muito para atender um mísero celular modelo androíde (até hoje não entendi direito o que isso significa) e tenha que recorrer à ajuda dos universitários para ligar o computador.

Assim, do mesmo modo que aconteceu com o ­e-mail – substituto das finadas missivas ou cartas, lembram delas -, com o aparelho de telefone móvel, o twitters e outras ferramentas do gênero, acabei aderindo ao Facebook, mas com certa relutância. Aos poucos, minha marra com relação ao blog de relações foi diminuindo, sobretudo depois que vi o filme A rede social (The social network) que mostra como o nerd Mark Zuckerberg e seus amiguinhos de Harvard criaram esse grande fenômeno de comunicação de massa.

Hoje, tenho até certa vergonha de dizer isso, mas não vivo mais sem o Facebook. Virou vício, mania, doença, obsessão, noite e dia, dia e noite, todo o tempo, toda hora fuçando a página, mandando recados, atendendo outros, vendo matérias, zuando colegas, enfim, o Facebook faz parte da minha vida e todos, até pela natureza prática e multifuncional dele.

Mas não sei se isso é uma boa coisa já que, por conta da modernidade e da facilidade que ela nos traz, nos dá, estamos perdendo alguns hábitos seculares importantes como a leitura de um bom livro, por exemplo. E agora eles saíram com essa cretinice do e-book. Outro dia mesmo até estava vendo isso ao assistir ao clássico A dama das camélias, com linda e enigmática Greta Garbo, no qual os personagens estavam sempre com um livro na mão, comentando sobre eles ou alguma coisa relacionada ao tema das obras.

Hoje em dia tudo é muito rápido, muito fake e muito superficial, só olhamos as coisas por cima, sem aprofundamento ou uma análise mais apropriada. De qualquer forma, mesmo diante do vício e da escravidão diante do Facebook, como diria a jornalista Lilian Tahan, não abro mão de um bom livro, de uma boa conversa, de um encontro cara a cara.

“Comecei no jornalismo quando as opções eram jornal e revista. Guardo a primeira edição que escrevi enquadrada e protegida por um vidro, porque os jornais amarelam. Mesmo assim, tenho a sensação de que são eternos”, registrou ela no seu blog há um ano.

E ela tem razão. As boas impressões são as que ficam, são eternas. Então não se deixa deslumbrar pela facilidade do mundo on line, embora precisamos muito dele.

* Este texto foi escrito ao som de: Back to black (Amy Winehouse – 2006)

A grande feira (1961)

Antonio Pitanga e Luiza Maranhão, dois desajustados perdidos na feira

Só eu não sabia, mas A grande feira, de Roberto Pires, além de ter sido um dos ícones e pioneiras produções do cinema baiano, foi também um dos precursores do Cinema Novo. Mas acho que nem o diretor, a própria turma do movimento cinematográfico que entortou a cabeça da cultura brasileira, nos anos 60, assim como alguns críticos, mal sabiam disso. Pior, só vieram reconhecer esse mérito, anos depois. Mas pior fui eu, que achava que o marcante filme de 1961 era documentário. Não sei de onde tirei isso.

Outro dia dissipei esse equívoco vendo o filme numa cópia legal disponibilizada pelo governo baiano nunca coleção com os grandes filmes da terra de Glauber Rocha, Jorge Amado e de todos os santos também, acreditam eles.

Confesso que me espantei com a modernidade da trama e narrativa descolada que deve ter impressionado também o menino Glauber que trabalhou na fita como produtor executivo, veja só.

A feira do título, onde os personagens outsiders dessa história fantástica transitam um dia existiu em Salvador com o nome de Água de Meninos, mas hoje todos a conhecem como Feira São Joaquim.

É ali que se esconde a prostituta Maria (a nega fogosa Luiza Maranhão) e o ladrão de quinta, Chico Diabo (Antonio Pitanga em momento marcante). Ela é estrela de um cabaré movimentado da cidade e ele faz bicos na noite assaltando joalherias e cortando pescoço de meganhas na calada da noite. De passagem pelo lugar está o marinheiro sueco Ronny (Geraldo Del Rey) que não perde tempo e engata um flerte com a milionária mimada Ely (Helena Ignez). Em lados e situações opostas dessa grande feira eles serão peças chaves no desfecho do clima tenso que toma conta do lugar por causa dos tubarões do poder que querem todos fora dali para ampliar os horizontes do maior porto da região.

Com a proposta de dar voz e cara ao povo brasileiro e suas inquietudes, ingredientes que seriam a essência do Cinema Novo e, porque não, numa escala mais debochada, o Cinema Marginal, o filme surge como uma autêntica pintura urbana e popular dessa expressão. Tudo e todos gravitam em torno da grande feira do título, a principal personagem do filme e pelas ruas de Salvador, vielas, becos e esquinas da feira, circulam os tipos mais sujos e vis, as caras mais medonhas e faceiras.

“Essa é uma das feiras mais exóticas que encontrei na Bahia”, diz um dos personagens do filme, indo no “x” da questão.

Duro, direto e imprevisível nos diálogos, um escândalo para época, A grande feira conta ainda com a ousadia de Roberto Pires em posicionar sua câmera abusada nos lugares mais improváveis. Preste atenção, por exemplo, no ângulo dela no momento em que o casal Ronny e Maria se esfrega no meio da pista de dança do cabaré mais quente da praça embalados pelo contagiante Riachão.

Fora isso, tem a estreia marcante nas telonas da baianinha Helena Ignez, bem antes de ser a mulher de todas no cinema nacional e cair de amores nos braços do eterno bandido da luz vermelha, Rogério Sganzerla. As passagens mais autênticas são protagonizadas por ela.

“Você é uma romântica imoral”, desdenha o marinheiro largado e desajustado vivido por Geraldo Del Rey, ao ver que ela não passa de uma princesinha mimada que acha que pode comprar tudo.

Visceral, verdadeiro, A grande feira é de longe um dos filmes mais vivaz do cinema brasileiro jpa realizados e um dos mais gostosos que vi nos últimos tempos. Uma pena mesmo eu ter demorado ver essa pérola da nossa seara. Mas como dizia o velho roqueiro baiano Raul Seixas: “nunca é tarde para começar de novo”.

* Este texto foi escrito ao som de: Ferro na boneca (Novos baianos – 1970)

Mordida de besouro no pescoço

Será que chupão de besouro mata? Será que besouro é venenoso?

Um besouro me mordeu bem no pescoço. O local está vermelho e inchado e ninguém acredita que o diabo do inseto passeou em cima de mim. Isso foi por volta das 10h da manhã e o meu pescoço ainda continua rubro:

– Isso é mordida de outro bicho, fez troça um amigo.

– Que chupão você levou, hein?!, disse outro maroto.

– Quem, eu?! Conversa, não como ninguém…

– Ah, você é gay então?!

– Não sou não, só não como ninguém, quer dizer, quem eu quero, né… Tenho obsessão por mulheres nórdicas sardentas esnobes, daí dá no que dá… Ou o melhor, não dá…

Todo esse diálogo bobo, insosso e sem graça só por causa do raio de um besouro que eu nem vi. O bichano tava passeando em mim e uma colega deu-lhe um peteleco que mandou para o quinto dos infernos. Ele só se esqueceu de levar embora a cicatriz vermelha que deixo em meu pescoço.

Agora essa mancha vermelha que parece chupão não sai do meu pescoço e já estou incomodado porque parece que está doendo. Quer dizer, acho que não tá doendo nada, nem coçando tá, é coisa da minha cabeça. Mas o fato é que: e se eu morrer por causa de uma picada de besouro? O infernoo de quem não acredita em deus é que, quando o medo aperta, a gente não tem para onde ir então, ô Cride, chama a minha mãe!!!

Não que eu tenha medo de morrer, não tenho mesmo, morrer até que seria bom, morrer até que seria um favor, mas acontece que tenho duas sobrinhas para cuidar, afinal, quem cuidará delas? E tem mais, morrer por causa de uma mordida de besouro seria ridículo, no mínimo patusco, escatológico ou as três coisas.

Se bem que besouro é Beatles e os meninos de Liverpool são tudo de bom, eles são tudo para mim, mas também besouro é escaravelho do diabo, inseto sagrado no Egito antigo usados como amuletos e símbolo da vida após morte, da ressurreição, de modo que essa morte não teria graça nenhuma.

Acredita-se que há entre, 300 e 350 mil espécies de besouros espalhados pelo mundo, qual delas, demônios, me mordeu? Será que existe besouro venenoso? Será que se morrer de mordida de besouro?

Não vou esperar para saber, então amanhã bem cedo mesmo vou a um médico tomar uma injeção, nem que seja de coragem, para ver se paro de pensar nessa desgraça de besouro. Bom, Peter Parker foi mordido por uma aranha e virou o Homem-Aranha. Será que vou virar um mutante também, vou sair por aí piscando à noite e querendo morder gente assim como fui mordido? Bem, só se for ninfetas que nem aquelas do conto, O besouro e a rosa, do Mário de Andrade, lembra? Já estou sentindo o besouro caminhando, rasgando dentro de mim…

Mas acontece que meu pescoço agora está doendo de verdade, estou começando a ficar meio tonto e o meu braço esquerdo está dormente, meu rosto esquerdo está dormente, meu coração inteiro está dormente de dor, não de amor, um amor que desabrochou por causa de uma mordida no pescoço de besouro. Lembra daquele diálogo surrealista do início? Terminou assim:

– Mordida de quê! Morcego? Vampiro? Isso mata, isso é sério, cuidado… Você não viu Crespúsculo, não?!

* Este texto foi escrito ao som de: A hard day’s night (The Beatles – 1964)

F1 – GP Brasil 2012, corrida de nervos!

O garotão aí com cara de pastel é tricampeão, e daí?

Tarde de domingo e eu não sabia se terminava o capítulo 4 do romance Babbitt, de Sinclair Lewis, que estou lendo no momento, ou se ficava de olho na última corrida do ano de Fórmula 1. Afinal, estava em jogo, em Interlagos, São Paulo, o título mundial disputado, curva a curva, entre o alemão Sebastian Vettel e o espanhol Fernando Alonso, para quem foi minha torcida.Sim, porque até eu que não entendo nada de F1, sabia que, correndo com um carro inferior este ano, a tradicional Ferrari, ou seja, levando o campeonato praticamente no braço, Alonso deveria ser campeão porque na pista, ao longo de todo o ano de 2012, foi o mais arrojado, competitivo e piloto que os outros. Para finalizar, o cara tem mais personalidade e atitude atrás do volante e ponto final.

Mas nem sempre os deuses do esporte são justos ou estão corretos porque, dando tudo o que pode, mais do que devia, as coisas não saíram conforme planejadas, do jeito que queríamos para ele. Enfim, uma chuva chata e fina que não cessava, carros surfando, deslizando nas retas e o irritante do Galvão Bueno, com sua boca cheia de dentes, como aquele sujeito da canção dos Stones, me enchendo os ouvidos.

Eis é o desconforto que temos quando somos obrigados a assistir televisão na casa dos outros, me caro, o de não sermos o dono, senhor supremo do controle remoto e nem da programação alheia, que geralmente é um caos, indecente e ultrajante. De modo que lá estava o chato do Galvão Bueno falando asneiras e minha cabeça sendo bombardeadas com anúncios publicitários caros da Pirelli, Petrobras, Mastecard, Santander, TIM e não sei mais o quê, que saco.

Por coincidência, o livro que eu deixei de ler para ver a corrida, o tal Babbitt do Sinclair Lewis, ironizava justamente essas superficialidades no qual nos deixamos conduzir, mas essa é outra história.

De qualquer forma, poxa, era a última corrida do ano, o título decidido ponto a ponto e, quer saber? Há muito tempo, mas há muito tempo mesmo que não se via uma final de temporada tão eletrizante assim, uma verdadeira guerra de nervos minuto a minuto. A última temporada que lembro que foi acirrada assim, pelo menos a que me marcou, que não esqueci até hoje, foi aquela em que o Proust e o Senna se enroscaram numa curva, se não me engano, no Grande Prêmio do Japão, debaixo de um toró daqueles e deu no que deu.

E olha que eu estava torcendo pelo Alain Proust porque sempre achei o Ayrton Senna um fresco mimado e, para mim, o grande piloto brasileiro de Fórmula 1 foi o Nelson Piquet e chega de conversa. Não esqueço aquele GP do Brasil em que o Senna ganhou e fez o maior teatrinho no pódio para levantar o troféu, lembra? Fresquinho mesmo…

Daí me vem o Felipe Massa e abre aquele berreiro todo porque chegou em terceiro lugar em casa. Putz, com o dinheiro que ganha, ele teria que chegar em primeiro lugar em casa pelo menos umas três vezes.

Mas claro, hoje em dia as corridas de Fórmula 1 andam na maior maracutaia, com as próprias equipes prejudicando alguns pilotos em detrimento de outros, um tal de jogo de interesse em que fala sempre o deus dinheiro, mas qual esporte não está nessa roubalheira, decadência e falta de credibilidade? No mais, o que gosto de ver mesmo é a angústia da duas equipes rivais nos boxes, urdidos suas estratégias na pista tal qual um jogo de xadrez eletrizante que nem sempre favorece o melhor.

Tudo bem, Vettel abiscoitou o título mais uma vez, se tornando tricampeão e entrando para história, assim como Juan Manoel Fangio e Michael Schumacher, como os três pilotos a conquistarem a façanha, três vezes seguidas, mas e daí.

Para mim, três pontos separaram o campeão da Fórmula 1 de 2012, do melhor piloto do ano e isso é o que importa e não se fala mais nisso.

* Este texto foi escrito ao som de: Out of our heads (The Rolling Stones – 1965)

Viodet. Básica (39) A dama das camélias

Robert Taylor, de joelhos diante da beleza de Garbo

“A história de um homem que amou uma mulher mais do que sua honra e de uma mulher que preferia o luxo ao seu amor”. Assim poderia ser resumida minha história de amor com a pessoa que mais amei na vida até hoje, mas que foi uma paixão que nunca aconteceu e que se resume num daqueles versos de poema de Manuel Bandeira que tanto gosto. “Uma vida inteira que poderia ter sido… E que não foi…”.

A sinopse acima, tirada da ópera Manon Lescout, de Giácomo Puccini, também é a história de Marguerite Gautier e Armand Duval, os personagens do célebre romance, A dama das camélias (Camille), escrito em 1848 por Alexandre Dumas Filho. Essa história de amor impossível ganhou os palcos e as telas do cinema em inúmeras versões, mas a que mais me comove daquelas que tive oportunidade de ver, é a de 1937, com a bela e distante atriz sueca, Greta Garbo, no papel-título.

Na Paris do século 19, a badalação da elite era cortejar as belas damas do momento em certos teatros, bailes e clubes de jogos, onde a regra era a discrição total e o objetivo o romance em suas diversas faces. Uma realidade não muito diferente dos dias de hoje, mas com conceitos e morais bem distorcidos.

E a mais deslumbrante e desejada de todas, era a distante e diáfana cortesã, Marguerite Gautier, a eterna dama das camélias, assim chamada, por gostar de receber apenas esse tipo de flor. E é embalado ao som da envolvente ópera La traviata e cascatas de champanhe, que o jovem advogado Armand Duval (Robert Taylor) conhece o amor de sua vida, a luz do sol que irá brilhar eternamente em seu peito.

Deslumbrado, apaixonado e ingênuo, ele se entrega de corpo e alma, coração inteiro à mulher de seus sonhos, sem saber dos segredos e mistérios que ela esconde por traz de sorriso tão mágico e olhar hipnotizante.

Uma mulher de coração tão grande, mas tão pouco juízo, mergulhada na futilidade do luxo, aparentemente escrava da vaidade e do capricho e, por isso mesmo, se mostra fácil de ser comprada e vendida. Alguém que quer estar ao lado do seu amor, mas sem o compromisso do casamento, da fidelidade.

“Nem sempre sou sincera. Não se pode ser sincera neste mundo”, diz a estonteante cortesã, com pragmatismo incômodo. “A vida é mais do que promessas e beijos ao luar. Você deveria saber disso”, ironiza, zombando do amor sincero de seu amante, algo que conheço muito bem.

Dirigido por George Cukor (Adorável pecadora), com sua habitual elegância, o filme não deixa de ser um descarado elogio à beleza, sobretudo à beleza clássica de Greta Garbo, um dos ícones mais misteriosos do cinema, com seus marcantes lábios finos e olhos de ressaca. Se Machado de Assis tivesse vivido no seu tempo, a teria inventado, assim como inventou a bela Capitu.

Romance folhetinesco no melhor estilo belle époque, a obra fala, entre outras coisas, sobre desejos interrompidos, sentimentos e orgulhos feridos, e, claro, sobre a entrega ao ser amado acima de todas as coisas, diante de qualquer condição, assim como sobre a beleza do amor verdadeiro, algo que não existe mais, nos corrompidos dias de hoje.

Por isso o personagem do charmoso Robert Taylor me encanta tanto porque ele é fiel e sincero em seu amor pela dúbia e imprevisível Marguerite Gautier, até os últimos minutos e para vida eterna. “Ter você para sempre seria demais e não o bastante”, diz, se derretendo de paixão, quase explodindo de amor.

No final, o lado romântico da bela cortesã sobrepõe sua faceta de sedutora cínica e mundana, mas o tempo já não será mais testemunha do pacto sincero dos amantes.

“Você não me amará por trinta anos”, profetiza ela.

Duvido que a mulher dos meus sonhos algum dia terá o mesmo sentimento nobre da bela dama das camélias em seus últimos suspiros. “O passado está morto. Que sua alma descanse em paz. Se é que ela tem uma”, faço das palavras do triste Armand Duval, as minhas.

* Este texto foi escrito ao som de: La traviata (Giuseppe Verdi – 1853)

Os 110 anos de Os sertões

José Wilker (à dir.), encarnando o santo Conselheiro no cinema

Que eu me lembre, Os Sertões, de Euclides da Cunha, foi o primeiro livro de jornalismo literário que li. Mas com certeza, é uma das obras mais marcantes que tive em mãos e, apesar dos conflitos shakespearianos, bíblicos que tenho com meu pai, foi também um dos poucos, raros presentes, preciosa relíquia que ele me deu que guardo com carinho em minha estante mágica. E digo, assim, à queima roupa: quem não leu ou não tem uma edição de Os sertões, não é um leitor de verdade ou não tem uma estante mágica tal.

Enfim, guardo boas recordações da história de Canudos e de Antônio Conselheiro porque, durante muito tempo, as paisagens e os personagens dessa história foram meus companheiros no caminho que fazia de ônibus até a Faculdade da Católica, todos os dias

Da rodoviária do Plano Piloto, até Taguatinga, era uma longa jornada, com trânsito infernal, carro cheio, calor incômodo, às vezes frio cortante, mas lá estava eu, firme, hipnotizado, encantado, deslumbrado com aquele fanático religioso que desafiou o governo com suas ideias subversivas e lunáticas.

Até hoje, quando passo ali no final da Asa sul, no Sentido Taguatinga e vejo aqueles ipês floridos e a grama verde do local, me lembro dos tempos que lia Os Sertões no ônibus.

Perdi muito ônibus no Eixinho Sul lendo Érico Veríssimo, assim como me squecia do tempo, das agruras e do sufoco de andar de transporte coletivo em Brasília lendo Euclides da Cunha, lendo Os Sertões, que este ano comemora 110 anos de existência. A edição que tenho, essa que meu pai me presenteou é uma edição de sebo, bem surrada, com páginas encardidas pelo tempo e cheiro de velhice, páginas que já querem se soltar, me abandonar. Enfim, de tão velho e gasto, o livro tem que ser manuseado com cuidado, zelo, assim como a gente faz segurando algo frágil, valioso, como uma criança, como nossos filhos.

Então no sertão baiano para cobrir o conflito pelo jornal o Estado de São Paulo (o Estadão), o carioca de Cantagalo, Euclides da Cunha, não era o único jornalista do país a cobrir o trágico evento. Tanto é que quando o cineasta Sérgio Rezende resolveu contar a trajetória de Antônio Conselheiro e da Guerra dos Canudos no cinema, a base de sua pesquisa para o roteiro, além de Os Sertões, fizeram parte também os relatos de outros jornalistas da época.

Acontece que, por motivos que só os críticos literários e historiadores podem contar, a narrativa jornalística e literária de Euclides da Cunha foi a que mais se destacou, a que entrou para história, o registro definitivo. E, até eu, que sou um leigo, ignorante em letras, sei da grandiosidade e importância da obra.

Dividido em três partes: A terra, O homem e A luta, o livro é um magnífico estudo artístico e científico sobre o lugar, os homens que mergulharam de cabeça por fanatismo no conflito, sobre a região árida que foi palco dessa carnificina que marcou nossa história.

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral”, escreve o autor, numa das passagens da obra que mais me marcou, descrevendo as características daqueles que lutaram do lado do Conselheiro. “A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos”, arremata, impiedoso.

Vítima de crime passional, Euclides da Cunha viveu pouco. Somente 43 anos, depois de ser baleado pelo tenente Dilermando de Assis, então amante de sua mulher. Um triste e lamentável fim para um dos maiores nomes da nossa literatura, autor de uma obra monumental.

* Este texto foi escrito ao som de: Paêbirú (Lula Côrtes e Zé Ramalho – 1974)

As curvas da vida de Clint Eastwood

Clint e Justin Timberlake numa parceria improvável que deu certo

Ter Clint Eastwood e Justin Timberlake num mesmo filme seria algo tão inusitado quanto ouvir Beatles na voz da cantora Joelma, da banda Calypso, mas às vezes o imponderável acontece. Assim, lá estão os dois juntos no drama, Curvas da vida (Trouble with the curve), uma da estreia deste fim de semana na cidade. E o que é mais inusitado ainda é que a dupla funciona, ou seja, eles estão em perfeita sintonia numa história sobre as voltas que o destino dá, sobre conflitos de geração e da harmonização da mesma.

Na trama, o velho e bom Clint Eastwood é Gus Lobel, um olheiro de baseball em final de carreira que não quer saber de aposentadoria, a revelia de seus 80 anos. Mal-humorado, turrão e grosseiro, ele faz as coisas do seu jeito e à moda antiga. Sem a menor intimidade com as novas tecnologias, o velhinho rabugento é visto pelos chefes, mesmo com sua experiência e fidelidade, como um funcionário ultrapassado, por isso a relutância deles em renovar o contrato de trabalho que expira em três meses.

“Quem usa computador não sabe nada de baseball”, rosna, desprezando as estatísticas.

Mas os problemas de Gus só estão começando já que sua ferramenta de trabalho, os olhos, anda danificada, ou seja, sem enxergar direito, ele não pode fazer um bom trabalho, pior ainda, não tem a chance de mergulhar de cabeça no que mais gosta de fazer, daí a entrada em campo do simpático e solícito Pete (John Goodman). É ele que, com a intimidade dos grandes amigos, irá acionar a bela Mickey (Amy Adams), única filha de Gus com quem ele vive às turras, apesar da paixão em comum que ambos têm pelo esporte mais popular da América.

“Eu aprendi umas coisas enquanto crescia”, diz ela, toda vez que algum machista a ver na beira do campo.

Bonita, charmosa, cheia de confiança, Mickey é uma bem sucedida advogada que está prestes a ser tornar sócia da empresa em que trabalha, mas irá dar um tempo em tudo agora para ajudar o coroa, mesmo que ele insiste em mantê-la o mais longe possível. Juntos, os dois irão colocar suas diferenças e dores do passado de lado, ao mesmo tempo em que cruzam pelo caminho com o descolado Johnny, Justin Timberlake em atuação cativante, aqui na pele de uma estrela do baseball aposentado precocemente que sonha em se tornar speaker.

Desde As Pontes de Madison, trabalhando como diretor-assistente de Clint Eastwood, só agora Robert Lorenz estreia de fato na direção e teve como mérito fazer o ex-chefe quebrar a promessa de que não atuaria mais. Na verdade, o longa não deixa de ser uma grande homenagem do pupilo ao mestre, sensação captada no take final e, mesmo que escorregue em alguns clichês narrativos, fruto de um roteiro fraco e previsível, cujo minutos finais chegam a ser irritantes de tão óbvios, o filme até que traz um interessante paralelo interessante sobre o competitivo mundo dos advogados e do baseball.

Já o veterano ator e diretor Clint Eastwood não frustra a expectativa dos fãs e segura a onda do filme de cabo a rabo com seu charme e imponência na pele desse velho ranheta de mal com a vida e com todos que não sabe lidar com a filha e os problemas que a vida lhe trouxe. “Nenhuma criança deveria ficar sem mãe”, diz ele, se culpando por não ter sido um bom pai.

Experiente, no auge de seus 82 anos, Clint desfila com propriedade entre uma cena e outra e essa intimidade com a câmera parece contagiar os colegas de trabalho como mostra o surpreendente Justin Timberlake, que está longe de ser mais um desses cantores pop metidos a galã de cinema. O cara é bom e não é bobo.

De resto, assim como aconteceu em Moneyball, não fossem os dramas humanos que permeia a trama, fiquei um pouco com aquela sensação de ter entrado na sessão errada por conta da falta de conhecimento diante do baseball, um esporte tão complexo e cheio de amarras quanto o velho Gus.

* Este texto foi escrito ao som de: Harvest (Neil Young – 1972)

 

Eu e Ayres Britto em Belém

A fábula do ministro do Supremo e o guardador de carro..

Já fui à Belém algumas vezes e ainda não sei dizer se gosto ou não dessa cidade que é um dos gigantes da Amazônia. O clima abafado, o povo encardido, as ruas que dão impressões de sujas, tudo isso me incomoda, mas talvez eu esteja sendo preconceituoso e mal humorado, quem sabe um pouco intolerante e com visão etnocêntrica da metrópole.

A verdade é que quando não conhecemos direito as coisas, não sabemos do que se trata, tudo parece feio e diferente, passa a ser visto com olhos cheios de preconceitos, olhos equivocados e injustos. O rótulo é fruto da falta de conhecimento, as injustiças também.

Por isso que tenho essa impressão torta, gauche da capital paraense que ainda quero conhecer melhor com sua beleza e segredos tropicais, me enveredar por aqueles casarões seculares e mercados com cara e cheiro de Brasil império, entre eles o monumental Mercado de São Brás. E, mesmo não tendo fé, religião nenhuma, muito menos crendices, quero mergulhar de cabeça um dia no sincretismo formidável que é a festa do Círio de Nazaré, uma das mais emocionantes celebrações religiosas do país.

Mas enquanto isso não acontece, ao som de Fafá de Belém, uma das filhas ilustres da cidade, conto aqui algumas histórias divertidas do ex-presidente do Supremo Ayres Britto, que estava de passagem pelo lugar, assim como eu, participando de seminário envolvendo autoridades do judiciário. Ele claro, como convidado ilustre, eu como patusco ululante.

Antes de qualquer coisa é bom que se diga que não morro de amores por essa turma do Supremo, muito menos por
aqueles que singram o caminho da lei. Para mim, todos eles são um bando de desocupados inúteis que fazem do poder e do judiciário uma morada de canalhices e abusos que culminam em interesses próprios.

E quer saber? Nem acho que o Joaquim Barbosa seja lá esse salvador da pátria que anda pregando por aí. Esse chamego todo é só porque ele é negro e veio de baixo, o que já acho grande coisa, um mérito e tanto, mas é só.

De qualquer forma, gostei da palestra do Ayres Britto outro dia, que é um sujeito sensível, amante das poesias e das letras. Uma fofura de pessoa – como dizia algumas meninas dando faniquitos no evento -, o velhinho lembrou o dia em que foi abordado por um guardador de carro em plena luz do dia, num estacionamento de restaurante chique da cidade. O episódio, de certa forma, se transformaria em sua lanterna de Diógenes.

Pois bem, num belo início de tarde, após voltar de um almoço com a mulher, ele teria sido interpelado pelo sujeito, que já conhecia de outros “jantares”, vamos assim dizer, que se gabava de ter zelado do patrimônio do ministro do Supremo com esmero e cuidado, que era o seu luxuoso carro importado.

Incomodado e constrangido por não ter encontrado uns trocados no carro para dar ao seu bem feitor, problemas de quem é escravo do cartão de crédito, o presidente do Supremo, com a cara queimando de vergonha se justifica.

– Desta vez vou ficar lhe devendo meu amigo, se desculpou.

Mas incomodado ainda, já alterando a voz, como se tivesse sido ofendido, o guardador de carro, com dedo em riste devolve com orgulho na voz:

– Que isso ministro, o senhor não me deve nada! Basta cumprir a Constituição…

Bom, fica aí a reflexão do dia em que o ex-presidente do Supremo recebeu uma aula de cidadania e patriotismo de um Zé ninguém da rua. A vida tem dessas coisas…

* Este texto foi escrito ao som de: Tamba-Tajá (Fafá de Belém – 1976)

Amargo regresso (1978)

Antes de ser pai da Angelina Jolie, Jon Voigt brilhou como paraplégico

Até que digam o contrário, para mim, Hal Ashby será sempre um dos grandes nomes do cinema norte-americano dos anos 70 e ponto final. E olha que ele está competindo com coringas de peso como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich e tantos outros. Mas o que é um nome se comparando com o talento, originalidade e caráter criativo de um artista? Por isso que fico com Hal Ashby até o final, um sujeito que tinha, entre outros atributos, peitar o sistema, daí os inúmeros problemas que se metia com produtores, chefões de estúdios e colegas de trabalho.

E, entre os seus trabalhos, numa carreira pontuada por surpresas, tenho um carinho especial pelo drama, Ensina-me a viver (Claude and Maude), filme de 1971, sapecado, do começo ao fim, com as melancólicas canções de Cat Stevens. Se puder, assista essa comédia dramática sobre o amor entre um jovem e uma octogenária e entenda o motivo de tamanho carinho e ternura.

Rodado em 1978, Amargo regresso (Coming home) é o seu filho mais prestigiado e conhecido, também o mais lembrado pelos cinéfilos e admiradores e um dos poucos dele que, por incrível que pareça, eu não tinha assistido.

Vi a fita outro dia e achei sensacional, sobretudo pelo realismo e pioneirismo por abordar um tema caro para os Estados Unidos e que seria um filão milionário para Hollywood, ou seja, a abordagem sobre os dramas, fantasmas e tragédia pessoal daqueles que lutaram na guerra do Vietnã, o maior fiasco em que os Estados Unidos já se meteram até hoje.

Na trama, centrada no ano de 1968, Jon Voigt – o eterno pai da Angelina Jolie – é Luke Martin, um soldado que deu seu sangue e também as pernas no conflito e agora se encontra em cima de uma cadeira de rodas num hospital para veteranos. Amargurado, às vezes cínico e mal-humorado, não esconde sua revolta surfando em cima de uma cama pelos corredores do local com o apoio de duas bengalas.

“Talvez você esteja esperando seu marido voltar num saco”, diz ele, cruel, à jovem Sally (Jane Fonda), esposa de um oficial do exército (Bruce Dern) que acabou de ir para o sudeste asiático lutar pelo seu país.

Por isso que, para matar o tempo, ela é uma das voluntárias do hospital em que se encontra Luke e o imprevisível acontece: os dois caem de amor um pelo outro e essa paixão será só mais um dos ingredientes que irá apimentar a relação de um triângulo formado por almas desiludidas, sem esperanças e fustigadas por pesadelos e anseios de uma época marcada pela intolerância.

“Acho que para as pessoas é difícil enxergar a essência de alguém”, diz Sally, sem perspectiva.

Realista e sincero na abordagem de um tema que tinha tudo para descambar para a pieguice sentimentalóide, o filme perturba pela simplicidade com que trata a questão. É aí que entra o estilo direto, reflexivo e humanista de Hal Ashby, um cineasta que sempre foi preocupado com as dores existenciais do ser humano.

Montador de mão cheia, talvez o melhor da sua geração, o cineasta intercala com leveza e fluidez, diálogos inquietantes, elipses visuais tocantes e com canções demolidoras, escolhidas a dedo por um sujeito que sempre fez da música personagens de seus filmes. E aqui a trilha vai dos Stones ao Buffalo Springfield, passando pelos bardos Bob Dylan e Bob Dylan, Paul Simon.

A cena final em que Bruce Dern anuncia silenciosamente seu suicídio, ao som de Once I was, de Tim Buckley, é de cortar o coração. “Eu fui um soldado que lutou em ilhas distantes por você”, diz a letra da canção.

Ah, sim, duas informações preciosas: o papel que deu o Oscar de Melhor Ator para Jon Voigt (Jane Fonda também seria contemplada) foi rejeitado por Sylvester Stallone e o roteiro vencedor do Oscar assinado pelo trio Robert C. Jones, Waldo Salt e Nancy Down é inspirado levemente na vida de Ron Kovic, mais tarde encarnado com mais profundidade por Tom Cruise em Nascido em 4 de julho.

* Este texto foi escrito ao som de: Goodbye and Hello (Tim Buckey – 1967)