Um dia no Congresso sem José Alencar

Congresso: a catedral do poder e da corrupção

Quarta-feira, 9h em ponto. A câmera do Congresso registra minha entrada no Anexo II. Constrangimento que todo visitante é sujeito a passar. O curioso é que ninguém percebeu que aquelas milhares de câmeras espalhadas pela Câmara e pelo Senado deveriam estar focadas no contingente humano que trabalha ali. Os ladrões são eles, não nós. Enfim!

Pergunto a recepcionista em que plenário será realizada a Comissão de Cultura e Educação. Espantada com a pergunta, como quem tivesse ouvido uma obscenidade, ela dispara: “Você não sabe? Todas as atividades no Congresso foram canceladas por causa da morte do Alencar!”, explica.

Agora quem se espanta sou eu. “Mas o cara nem era mais vice?”, me pergunto. Pior, penso na facilidade com que os parlamentares têm para decretarem o fim dos expedientes. Qualquer coisa é motivo para paralisação. Não sei se vocês já perceberam, mas eles, os deputados e os senadores, não trabalham segunda nem sexta. De terça a quinta ficam borboleteando para lá e para cá, servindo de isca para repórter esnobe e arrogante ou tentando emplacar algum projeto de interesse pessoal. É o que mais tem por lá.

Outro dia entrei no Plenário. Era o dia da polêmica envolvendo a Vale do Rio Doce. Tinha um sujeito no púlpito esbravejando aos berros e ninguém prestando atenção nele. Parecia um Robinson Crusoé diante daquele microfone. O presidente da Câmara não largava o celular, outros conversavam entusiasmados em rodinhas e várias duplas se formavam isoladamente, como que arquitetando planos, tramóias hediondas, crassas.

Arruda: O José das tramóias, das sujeiras, que emporcalhou a imagem de Brasília

Sigo então para o Salão Verde onde uma turba de estudantes de uma escola militar visita o local. Parecem pequenos lordes e ladies dentro de seus uniformes impecáveis. Lembrei da família real, não sei por que, do Harry Porter também. Eles estão deslumbrados, entusiasmados, surpresos com o que vê. O local ressoa história, poder, soberba. Eu também fico surpreso. Mas com o tratamento da “Casa” aos alunos da escola militar, bem diferente dos alunos da escola pública. Acho que tinha algum filho de deputado e senador ali. Lembrei daquela garota que me desprezava só porque eu não era filho de diplomata. Porque não orbitava pelas esferas do poder.

Pego o Correio Braziliense. Destaco o Caderno de Cidades. Não encontro o que procuro. Ou melhor, quem procuro. Por onde andarás minha estrela da manhã e da noite? Nova York, Europa ou perdida em alguma praia brasileira? Ela adora o Sol, adora praia. E eu que não sou filho de diplomata, maldição.

Vejo a manchete: “Alencar, um brasileiro”. A mais óbvia e provinciana possível, bem a cara do jornal. Acesso o twitter, o jornalista Marcelo Rocha, posta a novidade às 9h22min. Avisa que o avião da Força Aérea Brasileira (FAB) com o esquife do Presidente acaba de pousar no Aeroporto de Brasília. Lembro daquela frase do Bertolt Brecht que adoro citar: “Triste do país que não tem herói. Não, triste do país que precisa de heróis…”.

Alencar: O Zé da ética, da integridade, do exemplo de vida

Ao longo dessa semana será uma comoção geral. O velhinho guerreiro que lutou incessantemente contra o câncer perdeu de vez a batalha. Sai da vida para entrar para história. Claro, José Alencar estava longe de ser um Getúlio Vargas ou mesmo um Luiz Inácio Lula da Silva. Mas também não era um José Roberto Arruda. O outro José que manchou por durante muito tempo a imagem de Brasília, a catedral do poder, a catedral do cinismo, a catedral do cinismo.

Miro novamente o Salão Verde. Agora está quase vazio, poucas pessoas transitando aqui e ali. Lembro que no dia seguinte parecia que tinha passado um furacão pelo local. Com milhares de repórteres à cata de alguém para falar sobre a morte do ex- vice-presidente. Itamar Franco, Antônio Carlos Magalhães Neto e mais meia dúzias de parlamentares que não sei dizer o nome. Isso também não interessa.

Sempre gostei da figura discreta, ética e autêntica do vice-presidente José Alencar. É daquele tipo de pessoa que a gente sabe que é honesta só de olhar para cara. Mesmo que não seja. O Lula também pé assim. Todo mundo sabe que o Alencar aceitou ser o vice de Lula não por questões partidárias, conchavos políticos ou coligações cretinas. Mas porque tinha fé no homem Lula, acreditava na pessoa daquele metalúrgico que um dia atravessou o país para ser o presidente mais querido do país. “Nem todo irmão é um grande companheiro. Mas todo companheiro é um grande irmão e você é um grande companheiro”, disse certa vez Lula a um Alencar visivelmente emocionado.

Bem, não é preciso dizer mais nada.

* Este texto foi escrito ao som de: Heaven up here (Echo and the bunnymen – 1981)

Novo Dorian Gray é só um decalque

O bonitão Colin Firth (esq.) derrapa feio em nova versão de O retrato de Dorian Gray

Entrei na sala de cinema com o entusiasmo de quem espera ver um grande filme. Pelo menos havia duas motivações para isso: o protagonista e a história propriamente dita. O primeiro trata-se do ator inglês Colin Firth, vencedor do Oscar de Melhor Filme por O discurso do Rei. O segundo a adaptação do clássico da literatura O retrato de Dorian Gray, do escritor Oscar Wilde, um dos meus ídolos. Mas acontece que a nova versão da nebulosa história que mexeu com a hipócrita sociedade do século 19, é uma droga decepcionante. O que é uma pena.

Realizado em 2009, só agora o filme chega ao Brasil pegando carona no prestígio de Colin Firth. Mas nem ele salva a história dirigida agora por Oliver Parker. No drama gótico Firth encarna o esnobe aristocrata Henry Wotton, o tutor do jovem personagem que dá título a trama e vivido pelo inexpressivo Ben Barnes, conhecido do público adolescente na pele do príncipe Caspian, da saga As crônicas de Nárnia. O triângulo se fecha com Ben Chaplin, aqui o pintor assexuado Basil Hallward, responsável por pintar a tela do famoso título.

Como vocês sabem o livro, narrado com toques de terror macabro, tem como tema a vaidade humana e a busca pela juventude eterna. Dorian Gray é um jovem provinciano que herda uma fabulosa herança e chega a Londres para apossar de seus bens. Tudo é novidade para ele na grande urbe, o ritmo, o cheio, a arquitetura, o clima, as pessoas. Encaminhado a sua mansão pelo empregado que acompanha sua família há duas gerações, aos poucos Dorian vai se familiarizando com a sociedade conservadora e hipócrita que o cerca.

George Sanders esbanja talento na primeira adaptação da obra de Oscar Wilde para o cinema

Duas amizades serão essenciais em sua trajetória. O pintor Basil e o aristocrata Lorde Wotton, este último surgindo na tela numa espécie de alter ego de Wilde. Dândi de primeira grandeza e hedonista, ele apresentará a Dorian não apenas os prazeres da vida, mas também o seu lado mais sórdido. “Se você quiser se livrar de uma tentação Dorian, renda-se a ela”, ensina, deixando escapar a famosa frase de Wilde.

Ciente da enorme beleza que tem, Dorian se deixa levar pela vaidade suprema e, sem perceber, acaba prisioneiro de maldição que trará conseqüências trágicas para as pessoas que o cerca e, sobretudo, para si próprio. A medida que o tempo passa, o quadro irá aprisionar sua velhice e as marcas que uma vida de excesso traz, enquanto que ele guardará uma beleza eterna.

Escrito em tom de fábula, o livro, primeiramente lançado em forma de folhetim em 1890, não poderia ser mais atual nos dias de hoje, quando o culto à vaidade e a beleza chegam a extremos bizarros. Basta ver as musas siliconadas e artistas remendadas de plásticas que constantemente aboletam revistas e programas de televisões. Símbolo da artificialidade, elas estão em toda parte e é dessa vulgaridade da alma que o livro de Oscar Wilde se aprofunda.

Profundidade, aliás, que o diretor Oliver Parker não consegue captar. Embrulhando numa enjoativa estética de filme de vampiro, estilo Crepúsculo e coisas do gênero, o novo Retrato de Dorian Gray é um mero decalque do livro e da clássica versão de 1945 protagonizada pelo excelente George Sanders. Se fosse um livro, seria uma dessas adaptações fracas feitas para adolescentes de uma obra. Mas como filme que é mais parece um dessas séries de terror juvenil que anda fazendo muito sucesso na TV paga.

O mais irritante é que Oliver Parker e o roteirista Toby Finlay conseguem denegrir nas telas o que há de mais precioso na narrativa de Oscar Wilde: o texto. Empobrecido, vulgarizado por imagens fakes e efeitos especiais hediondos, os diálogos soam como literatura barata diante da densidade e sofisticação da obra original. As atuações também ficam a desejar. Inclusive a de Colin Firth, que muito crítico por aí anda elogiando por mera bajulação, já que o ator que é o novo queridinho do cinema. Mas nem ele sai bem no retrato.

* Este texto foi escrito ao som de: At last!  (Etta James – 1961)

Sob a égide da lei do absurdo

Chico Diaz fez da montagem de A Lua vem da Ásia o projeto da sua vida

Vi na semana passada no CCBB, com muita surpresa e deleite, o espetáculo A Lua vem da Ásia, texto do mineiro Campos de Carvalho adaptado para os palcos pelo versátil ator Chico Diaz. A direção, sob supervisão de Aderbal Freire-Filho, é de Moacir Chaves.

Admito, envergonhado, que nunca tinha ouvido falar de Campos de Carvalho. Mas confesso que fiquei encantado com sua narrativa absurda e liricamente surreal. A história, ou melhor, as histórias, giram em torno de um discurso esquizofrênico em que Astrogildo, ou seja lá quem for que ganha a voz, narra suas peripécias pelo mundo a reboque de tremendas reviravoltas sociais, políticas e, sobretudo, humanas.

O personagem é um homem em busca de entendimento das coisas da vida, do mundo que o cerca, desse grande equívoco que é o ser humano, e, claro, de nosso destino inevitável, a morte. A impressão que se tem é que o tempo todo ele quer provar que é o mais lúcido de todos, o que tem mais razão, dentro da lei do absurdo que rege a vida. Se diz hóspede de um hotel de luxo, mas pode estar tanto num hospital, hospício ou mesmo campo de concentração. “Não acredito em Deus porque Ele não acredita em mim”, alardeia logo nos minutos iniciais da peça o desnorteado personagem, numa referência, quem sabe, ao heterônimo Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa. “As palavras faladas são essencialmente desnecessárias. Os mudos que o digam”, zomba em outro momento.

O mineiro Campos de Carvalho foi um dos pioneiros da literatura surrealista no Brasil

Não sei porque, mas me lembrei daquele personagem débil-metal do livro O som e a fúria, do William Faulkner. Ele fala, fala, fala e a gente não entende nada, mas quando acaba a história, percebemos que ele é o mais coerente de todos aqueles que surgem ali.

Enfim, texto de 1956, A Lua vem da Ásia é desconexo e não-linear, montado ao sabor dos delírios de um monólogo frenético e permeado, do início ao fim, por um humor ácido desconcertante que era, dizem, o estilo no dia-a-dia, de Campos de Carvalho. Os títulos hilariantes dos capítulos já norteiam a lógica de uma narrativa sem nexo já que, como explica o personagem ao espectador no primeiro instante, matou o professor de lógica aos 16 anos.

Não tente entender ou encontrar respostas para o título lírico do texto na peça, talvez uma metáfora da situação mental do narrador, que vive sempre no mundo da Lua e em aventuras quase frequentes na Ásia. A Lua vem da Ásia é daquelas montagens fragmentadas em que o sensorial dita a regra, estabelecendo a conexão entre a arte e o entendimento do público. Mas do que entender é preciso sentir.

Os cenários e objetos cênicos são bem suaves, simbólicos mesmo – como os móveis do local onde fica o personagem, bem menores do que ele, como enfatizando a discrepância da realidade em que vive -, e o lirismo com que a iluminação e uma trilha sonora marcante entram em cena, minuto a minuto, emocionam as pessoas. Pelo menos aquelas mais sensíveis.

Mas o que, de fato, desperta a atenção em A Lua vem da Ásia é a atuação vibrante, visceral de Chico Diaz, que se entrega de corpo e alma à montagem, ao personagem desvairado, parecendo ter escolhido essa peça como o projeto de sua vida.

 Ao término das quase duas horas de performance, o ator se mostra arfante e mergulhado em suor, cansado, mas visivelmente satisfeito com seu desempenho em cena. O que acaba contagiando quem está do outro lado do palco: nós.

Saí do espetáculo com vontade de ler imediatamente o texto de Campos de Carvalho e com vontade de fazer a mesma coisa que fez Jorge Amado quando deparou pela primeira vez com A Lua vem da Ásia numa livraria. Mandou embrulhar 30 exemplares e deu de presente a amigos.

Discoteca Básica (8) Led Zeppelin IV

Page, John Paul Jones, Plant e Bonham: Os quatro cavaleiros de chumbo do rock

Introdução intimista comandada por um bandolim espectral e letra lúdica, quase ingênua, Going to California, a baladona riponga do quarto disco da banda inglesa Led Zeppelin, entrou em minha vida como um sopro de exaltação à liberdade. A sensação que se tem ao ouvir a faixa é que você está sendo levado pelo vento para algum lugar sem destino.

Mas como todo mundo, foi com a épica Stairway to heaven e suas referências medievais que aprendi a gostar do grupo comandado pelo infernal guitarrista Jimmy Page. Se não me engano, acho que foi na novela Top model, que ouvi pela primeira vez os acordes hipnóticos da canção. Daí para frente meu amigo, foi um abraço.

Depois dos Beatles, talvez nenhum outro grupo na história do rock exibiu uma unidade criativa tão pulsante como o Led Zeppelin. Ou seja, todos os integrantes da banda, do vocalista hedonista Robert Plant, passando pelo demônio das guitarras Jimmy Page, ao cérebro John Paul Jones, sem deixar de mencionar, claro, o brucutu John Bonham, foram peças essenciais que forjaram a identidade sonora tão conhecida do quarteto.

Led Zeppelin IV ou o disco dos símbolos, como ficou conhecido este registro, é o trabalho mais coeso, intenso da banda inglesa que na década de 70 ditou as regras da indústria fonográfica. Tudo bem, Led Zeppelin III, com sua enxurrada de hits folks tem um lugar especial em meu coração, mas o quarto álbum dos quatro cavaleiros de chumbo é uma verdadeira instituição do rock.

A literatura fantástica de J.R.R. Tolkien permeou a obra da banda britânica

J.R.R. Tolkien, druidas, reflexos da Idade Média, ocultismo e alquimia, além de espasmos da sociedade hippie. É deste híbrido de ideias e referências que se costura Led Zeppelin IV, que não deixa de prestar uma homenagem visceral ao gênero que popularizou ícones como Little Richard e Elvis Presley em Rock and roll.

Virtuose das seis cordas, Jimmy Page ateia fogo no estúdio e com seu arco mágico produz pérolas inesquecíveis como Black dog e a poderosa When the levee breaks, onde sobrepõe camadas e mais camadas de riffs, solos e bases másculas.

Músico versátil e multifacetado, o talentoso John Paul Jones surge como uma espécie de arlequim musical, um curinga dos instrumentos sempre dando um toque sobrenatural e especial aos arranjos desenvolvidos por Jimmy Page e Robert Plant. Preste atenção na sonoridade mística que ele constrói com seu órgão em Stairway to heaven.

Agora tem uma coisa que sempre me intrigou neste quarto registro, uma curiosidade quase obscena. Mais ainda do que aqueles quatro misteriosos símbolos que representa cada membro do grupo. Quem afinal era aquele preto velho carregando um feixe de galhos que aparece na capa do disco, numa parede de escombros? Será um bruxo medieval?

* Esse texto foi escrito ao som de: Led Zeppelin IV (Led Zeppelin – 1971)

Afinal, quem foi Hal Ashby?

Com seu estilo hippie, Hal Ashby começou a carreira como montador e transformou-se num dos diretores mais celebrados do anos 70

Com seus longos cabelos louros grisalhos e barba comprida que parecia musgos numa árvore, o diretor Hal Ashby ia passando pelo portão do aeroporto de Toronto, Canadá. Era o início dos anos 70 e ele, acompanhado de sua equipe, foram ao país em busca de locações para o que viria a ser o drama A última missão, filme de 1973 protagonizado por Jack Nicholson.

A guerra do Vietnã explodia na cabeça da sociedade norte-americana como um torpedo incessante e o movimento hippie atingia seu auge quando as autoridades pararam o cineasta na alfândega com bagulhos na bagagem como haxixe e baseados. “Quem mais eles iriam revistar?”, diria o produtor Jerry Ayres. “Nem precisava por os cachorros para cheirá-lo. Ele parecia andar com um cartaz pendurado no pescoço: ‘Sou um hippie doidão’”, lembraria.

O episódio surrealista, narrado no eletrizante livro Como a geração sexo-drogas-e-rock ‘n’ roll salvou Hollywood, escrito pelo jornalista e editor Peter Biskind, ajuda a dar uma noção de quem foi Hal Ashby, um dos cineastas mais cultuados e importantes dos anos 70, a década em que surgiu a “Nova Hollywood”.

Se você quiser conhecer um pouco mais sobre o trabalho deste grande nome do cinema norte-americano, basta conferir este mês, no Telecine Cult, homenagem que o Canal faz ao artista com a exibição de três filmes da sua expressiva carreira: Amor sem barreiras, Ensina-me a viver e Esta Terra é minha Terra.

Ashby (esq.) e Beau Bridges nos bastidores de Amor sem barreiras, a estreia de ambos no cinema. O primeiro como diretor, o segundo como ator

Montador talentoso que começou a trajetória nos idos dos anos 50, como assistente de montagem na órbita de Robert Swink – o sujeito responsável por editar os filmes de mestres como William Wyler George Stevens -, Ashby era de uma família de mórmon do Utah.

Aos 12 anos encontrou o corpo do pai depois que este colocou uma arma debaixo do queixo e apertou o gatilho. Adolescente rebelde e independente largou a escola cedo e aos 21 anos já tinha casado duas vezes e se divorciado. Um dia, trabalhando na reforma de uma ponte no Wyoming, surtou e, virando-se para um amigo, dispara: “Vou embora para a Califórnia, viver dos frutos da terra”, disse, como se fosse um daqueles personagens malucos libertários das tramas de Henry Miller.

Após passar fome por algum tempo e pilotar uma empilhadeira na Universal, virou aprendiz de montagem na Republic, indo mais tarde para Disney. O primeiro corte como montador fez em 1965, em O ente querido, de Tony Richardson. Dono de uma memória prodigiosa e olhar perspicaz, não demorou muito para Hal Ashby se tornar um dos mais requisitados montadores da década.

A consagração viria em 1967, com o Oscar de Melhor Montagem por No calor da noite, trama policial protagonizado por Sidney Poitier. Com o sucesso veio o prestígio e com ele poder e confiança para dirigir seu primeiro longa-metragem em 1970, a comédia racial Amor sem barreiras (The Landlord). Ligado à cena musical (nos anos 80 ele dirigia para os Stones o documentário Let’s spend together night) e movido por aguda consciência social, Hal fez desse primeiro trabalho, um sutil libelo na luta pela igualdade dos diretos. Isso, numa época em que brancos e negros viviam numa espécie de guerra civil velada nos Estados Unidos, um país divido pela intolerância e todo tipo de preconceitos.

Ruth Gordon e Bud Corb no cult movie Ensina-me a viver, pontuado por canções de Cat Stevens e corrosiva crítica ao sistema démodé

Protagonizado por Beau Bridges Amor sem barreiras narra, envolto num tom de sarcasmo, curiosa trajetória de um milionário jovem herdeiro que se torna proprietário de  condomínio habitado só por negros. Sua intenção é derrubar tudo e construir sua casa dos sonhos, mas enquanto isso não acontece, torna-se o novo “senhorio” do local. A experiência lhe trará agradáveis surpresas humanistas.

Gosto do olhar sensível e instigador, reflexivo até com que Hal Ashby imprime à trama. A cena em que a racista e esnobe mãe do personagem de Beau visualiza sua casa cheia de “negrinhos”, depois de descobrir que o filho está apaixonado por uma garota de ascendência negra, é perturbadora engraçada. Como aconteceria em grande parte de seus filmes, a trilha sonora é um atrativo convidativo.

Um dos longas mais cultuados da década de 70, o projeto seguinte, a comédia de humor negro Ensina-me a viver (Harold and Maude) foi recebido com ressalvas pela crítica e reação negativa esmagadora do público. Afinal, quem queria ver a história de um garoto de 20 anos que estava comendo sua “avó”?

Foi a primeira vez que ouvi falar de Hal Ashby e quando as canções melancólicas e tristes de Cat Stevens fizeram definitivamente parte da minha vida. Surfando na onda hippie da época, a trama gira em torno do insólito caso de amor entre o jovem aspirante a suicida Harold e a descolada octogenária Maude, uma riponga amante da vida e inimiga das arbitrariedades de um sistema retrógrado e démodé. A máxima que parece reger os passos da velhinha endiabrada é a mesma defendida pelo artista plástico Hélio Oiticica: “Quando alguém lhe disser que não pode ser feito é porque pode ser feito”.

David Carradine na pele do cantor folk Woody Guthrie, um dos sucessos do diretor dos anos 70

Assim, quando esses dois opostos da espécie humana se encontram, todos os limites e barreiras parecem ser intransponíveis, inclusive a do amor. Sutil, singelo e lírico, Ensina-me a viver, que versa dentro do ensinamento beatnik “faça o que tu queres pois é tudo da lei”, guarda uma cena tocante que particularmente adoro. É quando os carros descem a ladeira do cemitério num dia chuvoso ao som de Miles from nowhere, focados por uma lente chamuscada de pingos de melancolia comovente.

Cinebiografia do astro folk Woody Guthrie, com David Carradine no papel principal, Esta Terra é minha Terra (Bound for Glory) conduz o diretor às suas origens, no tempo em que costumava, ou pelo menos tentava ajudar o pai na fazenda da família, no Utah. O espírito desbravador e libertário que sempre marcou o estilo do ídolo de Bob Dylan foi determinante para que Hal se identificasse de imediato com o projeto que tem uma fotografia belíssima vencedora do Oscar.

As canções sociais de Woody norteiam de cabo a rabo a narrativa simples de Esta Terra é minha Terra, acentuando mais do que nunca a consciência humanista de Ashby. É emblemático o momento do filme em que Carradine empunha o violão em acampamento de trabalhadores rurais, numa cena que poderia ter saído de dentro do incisivo As vinhas da ira, o clássico livro de John Steinbeck.

Gostaria de rever Amargo regresso, o filme de Hal Ashby de 1978 estrelado por Jon Voigt e vencedor do Oscar de Melhor Filme daquele ano sobre a história do drama da volta dos soldados da Guerra do Vietnã para casa. Isso bem antes de Oliver Stone e Tom Cruise abordar o tema em Nascido em 4 de julho.

* Este texto foi escrito ao som de: Led Zeppelin IV (Led Zeppelin – 1971) (What’s the story) Morning glory? (Oasis – 1995) e Parachutes (Coldplay – 2000)

127 horas de angústia e solidão

Em 127 horas James Franco vive um homem com extinto de sobrevivência

Filho de pai de origem luso-sueca e mão judia, o ator norte-americano James Franco, até protagonizar o agonizante personagem do drama 127 horas, só era um rosto conhecido do grande público pela atuação na trilogia O Homem-Aranha, na pele de Harry Osborn, filho do temido arqui-inimigo do herói aracnídeo Duende verde.

No filme dirigido por Danny Boyle (Quer ser um milionário?), ele vive um homem de carne e osso que testa seu extinto de sobrevivência após tragédia pessoal de proporções marcantes.

Baseado na experiência real protagonizada por Aron Ralston, que escreveu um livro sobre o fatídico episódio, o drama com pita de filme independente é um pequeno projeto sobre um grande tema: a vida. E que deu certo já que conquistou sete indicações ao Oscar, inclusive o de Melhor Filme e Melhor Ator para James Franco, que está excepcional na fita, mas longe de ter tirado o brilho de Colin Firth em O discurso do Rei.

Aventureiro, de espírito desbravador, Aron Ralston tem como hobby explorar as selvagens e inóspitas paisagens do Grande Canyon, um dos cartões postais mais emblemáticos da América e seu “segundo lar”. Um dia, acorda cedo pega a mochila e a equipa com materiais de exploração, comida, água e muita animação, partindo para mais uma aventura no local. Só esquece seu canivete multiuso, aquele com a bandeirinha da Suíça e apelidado no Brasil de MagGyver Knife.

Bike incrementada, ipod nos ouvidos, invade cada palmo do deserto vermelho com arrebatadora sensação de liberdade. Sua única companheira é uma descolada câmara digital, que registra tudo, contextualizando o espectador com a síndrome do Big Brother que assola a sociedade contemporânea. Tudo é registrado, visto e exibido. Ela é quase uma extensão do seu corpo.

O diretor Danny Boyle explora ao máximo a sensação do espectador nesse drama agustiante

Pelo caminho esbarra com duas garotas perdidas e, como bom cicerone que é se mostra prestativo. Com simpatia e irreverência, lhe apresentam a beleza exuberante do local, os lugares desconhecidos desse seu paraíso pessoal, como o encantador Canyon Blue John, aqui numa referência sutil ao clássico do faroeste norte-americano Busty Cassidy e Sundance.

 Se despendem, prometem se encontrar no dia seguinte, numa festa do Scooby-Doo, mas o amanhã nunca se sabe, nem mesmo os instantes seguintes e, num piscar de olhos, se ver preso num buraco perdido no meio do nada, com o braço direito esmagado por uma rocha gigante. O seu dedão azul cinza já era, agora ele luta para não perder a vida.

Com forte caráter reflexivo, 127 horas exalta a vida, o medo da morte, a angústia da solidão. Bom diretor, Danny Boyle, que se consagrou com extasiante Trainspotting, filme inglês de 1996, explora e manipual com talento os limites sensoriais do público como poucas vezes feito no cinema. A cena em que o personagem deseja como nunca um gole de refrigerante é exemplar, sobretudo pela velada crítica ao mundo da publicidade. Ou não, já diria o velho Caetano Veloso, depende muito do ponto de vista que você está vendo.

O ponto de vista do personagem é um só. Preso à rocha, dentro desse buraco sem Sol, sem saída ele vive seu inferno pessoal. A sobrevivência é o bem maior que tem agora e para alimentar esse objetivo recorre às suas memórias afetivas, aos erros que cometeu na vida, a um sopro de esperança motivado por sonhos de uma vida futura se algum dia sair dali. “Seu supremo egoísmo é o nosso benefício”, lembra da citação, quando lembra que poderia ter atendido o telefonema da mãe antes de sai para sua jornada no inferno.

Em A montanha dos sete abutres o cineasta Billy Wilder transforma em carnaval a tragédia de um homem preso numa caverna

O maior desafio do diretor é preencher as “lacunas narrativas” do roteiro, o desenrolar da dramática trama a partir do momento em que seu personagem fica preso à rocha, o que acontece nos primeiros 20 minutos da fita. Nos 70 minutos seguintes o que se vê é um exercício de esforço criativo que vale tudo, desde as reminiscências de Aron, passando por momentos de delírios, pesadelos perturbadores, até a hora de desespero total. “Não perca o controle”, diz a si mesmo, tentando manter a tranquilidade.

127 horas não é o primeiro filme sobre a tragédia de um homem preso às garras da natureza. Billy Wilder já teria carnavalizado o drama de um homem preso numa caverna no seu corrosivo A montanha dos sete abutres, em 1951.

Mas é impressionante a habilidade de Boyle de conseguir transmitir a angústia e o desespero do personagem na tela para quem está sentado na plateia. Há momentos em que você espectador se desespera e não se iluda porque quando a situação parece estar difícil, há chances de ficar pior. E fica porque a água está acabando, o frio está chegando, a esperança está morrendo.

Daí vem a cena do braço, o clímax do filme, que é horropilante sim, mas não chega a ser tão pavorosa como muita coisa grotesca que estamos acostumados a ver no cinema ou na televisão. Sendo sincero, até achei essa sequência artificial, mal feita, sem tensão emotiva. Nem dá para acreditar que foi real e dessa parte em diante ficou parecendo como a história de Jesus, bastante conviscente até quando ele é cruxificado, depois da ressurreição fica irreal, inverossímel, até surreal.

De qualquer forma, depois desse filme vou sempre avisar a minha família aonde estou indo e, sobretudo, não vou comprar mais produtos made in China. Porque vida, eu só tenho uma e você?

Cap.8 Bowie se rende ao “jabá” e à Angie

Enquanto o sucesso não vinha, Bowie matava o tempo como orientador no Glowth

No ano em que lançou seu primeiro single com potencial para o sucesso, a canção Space oddity, em 1969, tal qual um jovem universitário, David Bowie montou com amigos o Growth, um Laboratório de artes com ressonâncias e influências hippies para divulgar e espalhar a consciência das ideias progressivas de Londres e São Francisco para o subúrbio.

O projeto, que marcaria sua vida nessa época, segundo mostra o capítulo oitavo da biografia Bowie, de Marc Spitz, foi tocado junto com a jornalista Mary Finnegan, uma mulher recém-divorciada e mãe de duas crianças que, de uma maneira ou de outra, acabou lhe dando seu primeiro lar fora de Bromley e do alcance dos pais. Ela ficara encantada com o jovem louro e lhe convidou para se tornar seu inquilino, mesmo sabendo da incapacidade dele de pagar o aluguel.

“O laboratório de artes era para ser originalmente um clube de folk, era só um lugar para David se apresentar, mas logo se tornou um espaço em que todo tipo de ideia encontrava entusiasmo e intensidade desenfreados”, lembra Mary Finnegan. “Com o Lab o que queríamos era chegar até as pessoas e estender seus horizontes. David chegava às pessoas por meio da música e do entretenimento. Também com o Teatro de rua”, emenda.

Enquanto o sucesso pleno não vinha, Bowie, já um veterano no mundo pop britânico aos 22 anos agora caminhando para o seu terceiro contrato, havia sobrevivido à distância dos pais e ao fantasma da doença do irmão ocupando seu tempo estudando budismo e devorado livros em bibliotecas. Deixou a religião de Buda de lado ao perceber que o show business não combinava muito com o budismo. “Ele levava o budismo muito a sério. Mas havia desistido de seguir na época que o conheci”, conta Finnegan. “Acho que ele percebeu que se dedicasse viraria um monge”, brinca a amiga.

Angie e Bowie, no auge da carreira, em sua fase glam

Dividido entre a busca desenfreada pela fama e a religião, o jovem astro via Space oddity escalar as paradas de sucesso com um pequeno empurrão do empresário Kenneth Pitt, que botou a mão no bolso e pagou um “jabá” de 140 libras para ver sua cria se apresentar no Top of the pops, badalado programa de música. O plano funcionou porque o single saltou para o expressivo 48º lugar. “Na minha cabeça, eu continuava ouvindo o choro de David: ‘Só queria emplacar algo logo’”, escreveu Pitt em seu livro de memórias anos mais tarde. “E isso ficava constantemente me apressando”.

Mesmo assim, os esforços do empresário e da gravadora Philips para fazer de Space oddity um sucesso naquele verão de 1969, por vários motivos, não vingaram. O jeito foi o futuro grande astro da cena glam se refugiar naquilo que lhe dava prazer e projeção no momento, o Glowth. “Não há nenhum pseudo envolvido. Todas as pessoas são reais, como os trabalhadores ou caixas de banco”, disse Bowie numa entrevista.

Foi numa dessas reuniões do Arts Lab que a jovem Angie entraria na vida de Bowie, apresentada por amigo comum, um sujeito de origem japonesa chamada Calvin Mark Lee. Numa entrevista ao jornalista Cameron Crowe da revista Playboy, em 1976, David se lembraria assim desse episódio. “Angie e eu nos conhecíamos porque estávamos saindo com o mesmo homem”, recordaria.  O desenrolar dessa nova aventura amorosa vocês acompanham no próximo post.

Liz Taylor imortalizou o mito de Cléopatra

Liz Taylor no auge da carreira: linda dentro de um corpo de alabastro e olhos claros

Morreu a atriz Elizabeth Taylor, uma das mulheres mais bonitas do cinema. E mais talentosa também. Sempre a achei uma diva, linda dentro daquela pele de alabastro e olhos claros. E ela sempre me fez lembrar de uma pessoa que adoro muito e que tenho um grande carinho, apesar de tudo, com aquele sex appeal irresistível e it que só as grandes atrizes e estrelas de cinema têm. Pode parecer vulgar, mas achava e acho um tesão suas disfarçadas gordurinhas e as sardas espectrais que enfeitavam um rosto de anjo malvado. Deliciosamente malvado.

Mas a minha Liz Taylor, aquela que vai morar para sempre no meu coração é a Liz Taylor mítica dos anos 50 e 60, aquela que no esplendor de sua beleza estrelou filmes marcantes como Ivanhoé e o surpreendente Um lugar ao sol, do mestre George Stevens que protagonizou ao lado de Montgomery Cliff. A Liz Taylor do irresistível A última vez que vi Paris, no qual sonhos e desejos de uma mulher apaixonada se misturam aos anseios de uma vida ao lado do seu grande amor, num dos lugares mais belos do mundo.

Ou ainda a mulher charmosa e com instinto de sobrevivência de Gata em teto de zinco quente, chafurdada num turbilhão familiar desenhando pelo cáustico dramaturgo Tennessee Williams.

Sobretudo a Liz Taylor de Giants, ou como chamamos aqui no Brasil Assim caminha a humanidade, épico sobre a trajetória de uma família típica do sul dos Estados unidos que se confunde com a própria história de uma América em ascensão. No drama ela encarna uma jovem mulher forte que está disposta a passar por cima de todos e de tudo para manter a integridade e herança da família, seus maiores legados.

A atriz imortalizou o mito de Cleópatra nas telonas

Uma Liz Taylor incandescente que brilhava como um Sol em torno da figura frágil e enigmática de James Dean, seu eterno grande amigo que morreu jovem, muito jovem porque a vida é breve, breve vida.

Mas ninguém irá se esquecer, no início dos anos 60, de sua performance deslumbrante no suntuoso Cleópatra, num papel que só poderia ser interpretado por ela e ninguém mais. A cena em que aparece pela primeira vez nas telonas vem embrulhada de volúpia e sensualidade num tapete persa carregado pelo empregado fiel. Em cima de um carro alegórico gigantesco arrastado por mil escravos, ela adentra soberanamente na terra de César, Roma, o Imperador epilético, tal qual uma esfinge misteriosa.

Em Quem tem medo de Virgínia Woolf?, ao lado de Richard Burton, então seu marido, causou estranheza ao interpretar uma mulher alcoólatra e amarga num drama de costumes arrebatador. Enfim, quem irá se esquecer de Liz Taylor.

Quando recebi a notícia da morte da diva estava na Câmara dos Deputados, no Congresso, em pleno momento de pique daquele bando de gente especializado em fazer nada. Me senti anestesiado, triste, com vontade de não existir porque parte da minha vida fora embora ali.

Olhando aquelas mulheres artificiais, vazias e cretinas zanzando de um lado e do outro na casa do Poder me senti distante, perdido. Com a morte de Elizabeth Taylor vai se embora a beleza mítica.

Tim Burton e o seu Frankenstein

Johnny Depp foi buscar inspiração nos atores do cinema mudo para construir seu melancólico personagem

Assisti outro dia no Telecine Cult Edward mãos de tesouras, a obra-prima de Tim Burton protagonizada pelo excelente Johnny Depp. Acho que Edwards… foi o primeiro filme que vi desse cineasta maluco que tem um estilo bem peculiar de extravasar seus sentimentos.

Depois vi Peixe grande e o recente e saturado Alice no país das maravilhas, passando pelas animações Jack, a noiva cadáver e Marte ataca! Mas Edward mãos de tesouras é o que há de melhor e mais sensacional da sua filmografia. A história é uma fábula da vida moderna, uma espécie de Frankenstein dos dias atuais e que, narrada em tom de conto de fadas, tem como ingredientes temáticos aspectos da vida pessoal do diretor.

Tais elementos podem ser perceptíveis nos personagens caricatos que ele desenhou para a trama, aquelas mulheres esquizofrênicas e enxeridas, algumas mal amadas e outras confiantes até demais, todas tiradas da sua infância, de sua adolescência na ensolarada Califórnia. As casas com cores berrantes e personalizadas também.

Mas Tim Burton era um menino outsider, um adolescente introspectivo que se escondida no seu quarto meio gótico, meio dark, entretido com os desenhos que fazia e com o mundo de fantasia que criava de dentro de sua imaginação fértil e original.

Tm Burton sempre foi um menino introspectivo e meio outsider

Suas histórias sombrias e cheias de criaturas estranhas, solitárias não assustam o espectador com os aspectos bizarros que apresentam, mas surgem como espécie de metáfora reflexiva do mundo avesso e preconceituoso em que vivemos. Edward, quase um alter ego do diretor, é um ser desnorteado que com seu passado triste e futuro sem perspectiva tentam sobreviver na esquizofrenia de uma sociedade dita normal e correta.

O curioso e que por trás de sua forma suja, medonha, escura e asquerosa, Edward esconde uma persona doce, ingênua e dona de um altruísmo desmedido. Pode ter sido fruto de uma mente doentia, tal qual um Frankenstein pós-moderno, criação de um gênio do mal aqui magnanimamente interpretado pelo brilhante Vincent Price – um dos ídolos de Burton que aparece na fita numa bela homenagem, no seu último papel no cinema -, mas é uma criatura do bem.

A cena em que ele furiosamente esculpe com suas mãos de tesouras uma estátua gigante de gelo produzindo neve e banhando de flocos os olhos, cabelos e rosto de uma infante Winona Ryder é de um lirismo ululante. Assim como a fotografia acentuadamente colorida, que dá ênfase a tudo o que é vida, mas também metaforicamente sonho no enredo.

Gosto da atuação marcante de Johnny Depp, que vai buscar nas caretas, olhares e gestos do cinema mudo, da arte pantomímica, material, subsídios para sua interpretação inesquecível. Preste atenção no olhar de tristeza e desalento de seu personagem. É de cortar o coração.

Contudo, o mais interessante é a lição que a história traz, ou seja, a de mostrar para cada espectador que o bom ser humano, ou no caso de Edward, a boa criatura, aquela de bom coração, de alma doce e espírito desarmado não é necessariamente a que tem montanhas de dinheiro ou se ostenta de poder e autoridade. Nem tudo que brilha é ouro. Nem todo tesouro leva a salvação.

Marilyn Monroe no divã

Marilyn Monroe: Uma estrela que tinha luz mas já não brilhava

Quando Marilyn Monroe morreu, em 05 de agosto de 1962, aos 36 anos, o escritor e jornalista Truman Capote não perdoou. “Marilyn, Marilyn, porque tinha que acabar assim? Porque essa vida tão podre?”, escreveu. A frase venenosa não poderia ser mais cruel. Ainda mais vindo de alguém tão próxima à estrela hollywoodiana. Um dos maiores sex symbol que o cinema norte-americano já criou, Marilyn Monroe já nasceu morta. Pelo menos o mito. Talvez por isso, assim como James Dean, seja eterna.

Um documentário bastante interessante que está sendo exibido este mês no GNT mostra como a diva dos anos 50 e 60 era uma figura frágil, angustiada, extremamente atormentada e prisioneira das drogas e dos remédios. Uma produção francesa escrita pela dupla Patrick Jeudy e Michel Schneider, Marilyn no divã traça uma radiografia intricada e curiosa sobre a artista a partir dos 30 meses de psicanálises feitos com o Dr. Ralph Greenson, o último médico a cuidar da atriz até sua misteriosa morte, após ser encontrara em seu quarto, em Beverly Hills, entupida de barbitúricos e outras pílulas.

Uma fita de 40 minutos gravada em noites de insônia por Marilyn poucos dias antes de morrer e deixada para o seu psicanalista foi transcrita por seu assistente, cujo nome me parece ser John Mainer ou algo assim. Não consegui pegar esse detalhe tão importante, por sinal. Esse sujeito, num dia qualquer de agosto de 2005, mês em que normalmente uma névoa rosa de poluição cobre a cidade de Los Angeles, entrou desnorteado na sede do Los Angels Times com um material debaixo do braço e entregou ao jornalista Forger D. Baderwright. Era um homem velho que tinha uma história velha para contar.

Marilyn Monroe entre Montgomery Clift e Clack Glabe, em Os desajustados

São desses encontros e desencontros entre Marilyn e seu psicanalista que se desenrola o documentário, um material consistente e cheio de indagações pertinentes em torno da enigmática figura de Marilyn e de sua obscura morte. “O que teria matado Marylin Monroe: o cinema, o sexo, a política, a loucura ou a psicanálise?”, pergunta a narradora.

Psicanalista dos artistas de Hollywood, numa época em que fazer análise era moda na Meca do cinema, um lugar onde as psicoses, neuroses e perversões invadiam a vida dos astros, Ralph Greenson manteve uma relação quase paternal com Marilyn ao longo de intermináveis terapias. Ele se assustava com o jeito estranho da artista de falar de coisas doloridas sem dor. “Marilyn tornou-se para mim minha filha, minha dor, minha loucura”, contaria Greenson, um renomado intelectual na Europa que dava aulas de psiquiatria na Universidade de Los Angeles.

O estilo de vida autodestrutivo e desnorteado de sua paciente também o deixava deprimido. Greenson se espantava, por exemplo, com o desejo desenfreado de Marilyn por sexo casual, uma rotina confirmada quando policiais apresentaram ao psicanalista, acusações contra ela por fazer amor em lugares públicos. “Como um afogado que leva a pessoa que a salva para o fundo, Marilyn estava arrastando Greenson para o fundo, para a escuridão, para o vazio de sua vida”, diz mais uma vez a narradora.

O psiquiatra Ralph Greenson: "Ela era minha filha, minha dor, minha loucura".

Realizado em 2005, Marilyn no divã não traz depoimentos e entrevistados. Apresenta os fatos por meio de cenas ficcionais, reportagens da época, imagens de filmes e do dia a dia da atriz, além de muitas fotografias e registros raros, como a famosa apresentação em que ela canta Parabéns para você ao presidente Kennedy, no seu aniversário de 45 anos, e os bastidores do último filme que viria a fazer: o niilista Os desajustados, de John Huston. O roteiro, por sinal, era assinado pelo dramaturgo Arthur Miller, marido de Marilyn e que na trama deixa transparecer todo o ódio e amor que sentia pela mulher que dividia a cama.

Algumas passagens da vida da diva são reveladoras, como o período em que ela ficou internada numa clínica psiquiátrica, numa ala para pessoas esquizofrênicas, lugar que chegou tão drogada que ela nem se lembraria de ter assinado a ficha de internação. Não deixa de ser triste ouvir a voz definhada e cansada de Marilyn nos seus últimos dias de vida, uma estrela que muitos ainda poderiam ver sua luz, mas que já não brilhava. “Marilyn era uma deusa insensível que podia matar ou partir seu coração apenas com um sorriso”, diz uma voz no sombrio documentário.