Eu também tive uma carruagem de fogo

A fúria da velocidade captada com poesia visual em Carruagens de fogo

Foi Nelson Rodrigues quem me chamou atenção para o detalhe em suas crônicas. Toda vez que ele queria dá uma volta no bonde do passado, recorria à famosa e lírica passagem criada pelo autor de Em busca do tempo perdido, o francês Marcel Proust. É aquela em que um personagem de sua monumental obra morde uma madeleine e, como num processo remissivo, volta no tempo relembrando as mais ternas lembranças. E os momentos tristes também.

Bem, nunca li Marcel Proust. Até tenho em minha estante mágica os três volumes de sua clássica obra, mas essa imagem de um romantismo sem igual nunca me saiu da cabeça e sempre recorro a ela quando, tal qual o autor de O casamento, também me dá vontade de dar uma volta no bonde do tempo.

Outro dia, ao ouvir a famosa trilha do filme Carruagens de fogo, escrita pelo grego Vangelis, como num processo proustiano, voltei no tempo e me lembrei da época em que corria como se tivesse asas nos tornozelos. Não vá ri, mas já fui fundista dos 100 metros rasos. Mas calma, na escola e não fiz tão feio assim, não, abiscoitando, inclusive, algumas medalhas, mas nunca tirei o primeiro lugar. Mas e daí, não foi Jesus quem disse que os últimos serão os primeiros?!

Mas não fiquei só na trilha sonora de Vangelis, aproveitei a deixa do Canal Cult, da Net, e revi o filme também, que nem me lembrava direito de como era. Para falar a verdade, a única coisa que me lembrava, de fato, bem claro na minha mente, é da famosa cena em que um dos corredores, ao ser derrubado numa das provas, se levanta e, quase se asfixiando pelo esforço, recupera o primeiro lugar e vence a corrida. Bem que o Rubinho Barrichello poderia ver esse filme gente.

Mas acontece que, dirigido pelo britânico Hugh Hudson, a produção inglesa, vencedora de quatro Oscars, inclusive melhor filme, roteiro e trilha sonora, evidentemente, traz enredo carregado de questões interessantes a partir da trajetória de dois grandes nomes do atletismo nos anos 20: o missionário escocês Eric Lidell (Ian Charleson) e o estudante judeu inglês Harold Abraham (Ben Cross).

De origens e princípios diferentes, eles serão grandes rivais em competições domésticas, mas irão unir forças para correrem pelo país nas Olimpíadas de 1924, realizada em Paris, na França. Por amor à pátria, ambos irão colocar as diferenças de lado e é sobre esse manto de ideologias e crenças que se costura o enredo do filme de 1981, que traz uma reconstituição de época impecável. Aliás, o figurino também levou uma estatueta na grande festa do cinema mundial.

É inegável o caráter ufanista da obra, com seu nacionalismo britânico escancarado e demonização boboca dos nortes-americanos, os principais rivais dos ingleses nos jogos, mas a narrativa de Hudson toca em assuntos pertinentes e universais como a intolerância diante do diferente, tema que nunca deixou de sair da pauta do cotidiano dos seres humanos.

Vangelis, o músico grego, autor da clássica trilha do filme

Sentindo-se inferiorizado, por ser judeu, Harold Abraham, então estudante da conceituada Cambridge, vê no atletismo o canal perfeito para mostrar que é igual aos seus pares. Ou melhor, que é bem diferente, já que corre como se tivesses fogos nos pés, como se contasse com a ajuda dos ventos. Seu sonho é chegar às Olimpíadas, mas antes, precisa vencer alguns obstáculos em seu caminho. Um deles é o preconceito. O outro, materializado na figura do escocês voador Lidell, missionário de fé inabalável que acredita ser o raio divino nas competições. “Quando eu estou correndo me sinto mais próximo Dele”, acredita.

Dois momentos são emblemáticos em Carruagens de fogo. Um deles é quando Lidell tem sua fé testada relutando, terminantemente, em correr no domingo, dia sagrado, segundo preceitos de sua religião. Prefere trair a pátria, mas não seus princípios religiosos e enfrenta um comitê olímpico formado por intolerantes e cínicos. Vence essa “corrida” porque, segundo ele, Deus está acima de todas as coisas.

A outra está na relação afetiva entre o judeu Abraham e seu treinador Sam Mussabini (Ian Holm), um italiano de origem árabe. Aqui, o roteiro um pouco acadêmico mostra que a briga milenar entre esses dois povos, tanto na fita, quanto na vida real, já naquele tempo, era vista como mero instrumento de intolerância dos homens insensatos no poder, como enfatiza a cena dos mestres preconceituosos de Cambridge.

Mas nada é mais bonito em Carruagens de fogo do que as imagens quase estáticas dos homens na fúria de suas passadas velozes. Gestos e esforços se misturam num intricado balé de corpos e sofrimento em favor do esporte. Quase não notamos, mas estamos diante da dor da vitória, da dor da superação. Tudo isso, claro, ao som da bela trilha de Vangelis.

* Este texto foi escrito ao som de: History: America’s greatest hits (America – 1975)

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Não vi e tenho raiva de quem viu…

O macaco digitalizado do novo filme da franquia não convence...

Fui assistir Lanterna Verde semana passada e vi o trailer de Planeta dos macacos – A origem. Odiei os dois. De modo que lanço a pergunta: É possível criar um conceito sério de um filme a partir de uma fita publicitária? Claro que não, até porque, assim como as pessoas, essas peças publicitárias, nem de longe são o que aparentam ser. Como diria o sábio filósofo baiano Caetano Veloso, “de longe todo mundo é normal”.

Acontece que a arte e a cultura nos dias de hoje são marcados pela previsibilidade, pelo óbvio e não gostei do que vi no trailer de Planeta dos macacos – A origem. A começar pelo macaco que irá protagonizar a trama, um matusquela digital pseudo humanizado que não lembra um homem, muito menos um chimpanzé.  Lembra um macaco digitalizado para o cinema o que já diz tudo. Ai que saudade do Darwin!

Depois tem o lance do oportunismo já esboçado no título escancaradamente comercial, cópia de outros “sucessos” do gênero como Starwars e as aventuras dos heróis da Marvel e DC Comics. Ao tentar dar um “tomé” no tempo ficcional, empurrando o que já aconteceu para um “passado futurístico”, os produtores de Hollywood acabam subestimando a inteligência do espectador, tendo com isca os efeitos especiais brilhantes, a grande atração do cinema do futuro. E pior é que eles acabam conseguindo, deixando de lado o mais importante num filme, a sua alma, ou seja, o roteiro.

Bem, não vi o novo Planeta dos macacos e nem quero ver. Já digo de antemão que tenho raiva de quem viu. Porque só de ver o trailer já percebi que a mega produção é uma daquelas tramas recheadas de reviravoltas mirabolantes em que o visual é o senhor das telas. Prefiro tirar da minha instante mágica a clássica história de 1968 dirigido por Franklin Schaffner e protagonizado por Charlton Heston. Esse sim, um filme de ficção científica sério, no qual os problemas da humanidade na época afloram de forma contundente e inesquecível.

Preconceito? Saudosismo? Rabugice? Arrogância intelectual? Talvez, mas é que fico tiririca da vida quando, por ganância, inventam de levar para as telas uma história que teve êxito no passado, por mero oportunismo. Caramba, se Tim Burton que é o Tim Burton tentou e não conseguiu, porque diabos esse tal de Rupert Wyatt acha que consegue? Qualquer dia desses vão inventar de fazer um remake do Casablanca, o mais romântico de todos os filmes já feitos, e daí vocês vão ver o que é porcaria. O que acontece é que tem certas coisas que não se deve mexer.

A mítica cena final do filme original de 1968 até hoje incomoda...

O clássico Planeta dos macacos traz questões sociopolíticas e humanistas perturbadoras e, até nos dias de hoje, atuais como o racismo ainda vigente em algumas sociedades, e a intolerância. Na fita de 1968 que marcou época, Heston é o comandante de uma tripulação espacial que aporta num planeta desconhecido.

Na verdade ele é o único sobrevivente da trupe até descobri que está a “Deus dará”, num planeta de macacos. Pior, ele ainda não sabe, mas consciente de sua condição de raça superior é, na verdade, o elo perdido na evolução dos símios, uma deliciosa ironia do roteiro que questionava naqueles anos de brutalidade e intransigência o verdadeiro papel do homem no planeta. Não o dos macacos, mas o nosso mesmo.

“Fico feliz de ser considerado o palhaço do ano numa época em que as pessoas ditas sérias, estão matando na guerra do Vietnã”, iria dizer John Lennon um ano depois, quando a imprensa pegaria no seu pé por causa do famoso Bed-in.

Vai ficar para sempre na memória a clássica e perturbadora cena da Estátua da Liberdade soterrada até o peito nas areias de uma praia apocalíptica e nada mais marcante do que as assustadoras maquiagens dos macacos atores, essas sim, maquiagens de verdade, de carne e osso, sem nenhuma enganação tecnológica. Aliás, ganhadora de um prêmio especial no Oscar do ano seguinte.

De modo que pergunto mais uma vez, por que gastar dinheiro com um simulacro vagabundo, se o original tem mais conteúdo?

* Este texto foi escrito ao som de: Parklife (Blur – 1994)

“Ainda é tempo de Glauber!”

Glauber Rocha com a mulher Paula Gaitán e os filhos, em Sintra,Portugal: Os últimos anos de vida

Agosto é mês de Glauber Rocha, um dos mais inquietos, vulcânicos e geniais homens da cultura que esse país já teve. Assassinado há trinta anos pelo próprio país, o Brasil, vítima do que ele já antevia e alarmava dentro de sua inconfundível mise-en-scène de “a opressão do sistema”, o grande artista baiano faz falta nesse mundo de mediocridades ululantes. Sim, porque além de tudo, Glauber Rocha também era cidadão do mundo.

Para celebrar as três décadas de sua morte, uma série de homenagens está acontecendo Brasil afora. Bastião do cinema brasileiro, o Canal Brasil não poderia ficar de fora dessa “festa da quimera” e, ao longo de todo o mês, irá homenagear o diretor de marcos como Deus e o diabo na Terra do Sol e Terra em Transe com uma programação emblemática.

Outro dia vi dois curtas-metragens realizados com o apoio do Tempo Glauber, o centro cultural criado em 1983 pela mãe do cineasta, a grande guardiã da memória do artista. Um dos projetos, diga-se de passagem, reverencia essa figura materna única na cultura brasileira, que doou sua vida em prol do talento do filho, em prol da criação de uma identidade cinematográfica materializada a partir do movimento Cinema Novo. “Fiz de tudo nos filmes do Glauber, não só as roupas, mas também dando o din-din. Foi embora muita coisa para que seus filmes pudessem ser feitos, casa, muito boi gordo, fazenda e até um hotel que a gente tinha”, revela a matriarca no emocionante filme Abry. “Eu sempre ajudava ele a sair desse sofrimento que era de conseguir dinheiro para os seus filmes, sempre falava para ele: ‘deixa comigo que eu arrumo’”, confessou.

Dirigido por Joel Pizzini e Paloma Rocha, filha de Glauber com Helena Ignez, sua primeira mulher, o projeto faz uma retrospectiva da trajetória de D. Lúcia tendo como mote uma segunda cirurgia de coração que ela foi submetida, em 2003. “O médico disse que eu só teria chance de continuar viva se fizesse a cirurgia, então falei: abre”, revelou já sugerido o título glauberiano, Abry. “Tenho medo da morte e também não tenho. Acho que sou uma medrosa corajosa”, diz, no auge de sua sabedoria.

Usada como elemento narrativo imponente, com sua figura carismática e confiante, a figura aparentemente frágil de D. Lúcia surge como norte dessa trama documental em meio a fotos, imagens, vozes e pensamentos de Glauber. O estilo poético de Pizzini, um autêntico discípulo de Glauber nos tempos de hoje, só vem a reforçar uma frase poderosa proferida pela personagem da fita. “Ainda é tempo de Glauber!”, profetiza.

O outro filme, dirigido três anos depois pela última mulher do cineasta, a artista plástica colombiana Paula Gaitán, traz impressões poéticas e existencialistas do marido Glauber em sua passagem pela cidade portuguesa, lugar que ele chegou a dizer que era um ótimo lugar para morrer. “Estou cansado de luz e som, prefiro a alma”, dizia naqueles dias de sombras cinza.

É bonito de ver explodindo na tela, mesmo que seja de televisão, a força dos Rochas, tocante de ver o amor de uma mãe pelo seu filho. Um sentimento universal, um sentimento inerente a todos nós. Viva Glauber Rocha! E viva Viva d. Lúcia Rocha!

* Este texto foi escrito ao som de: Caetano Veloso (Caetano Veloso – 1968)

Ela é carioca – Uma enciclopédia de Ipanema

 

Ruy Castro: O mais carioca de todos os escritores e jornalistas mineiro

Acredite se quiser, mas já perdi ônibus em parada lendo livros do Ruy Castro. Sério, lendo livros do Ruy Castro e do Érico Veríssimo. De tão envolvido nas narrativas hipnóticas desses dois autores mestres das palavras, cheguei atrasado a alguns compromissos. Cada um tem um estilo diferente, mas no caso do primeiro, sempre sou fisgado pela elegância e delícia de seus textos, um sundae de ser ler. E a melhor parte é que ele é uma figura agradabilíssima, pode acreditar.

Tive oportunidade de entrevistá-lo algumas vezes, por e-mail, telefone e pessoalmente. E posso dizer de boca cheia que todas as experiências foram maravilhosas. A última vez, por exemplo, foi no dia em que o Michael Jackson morreu, num encontro literário na Asa Norte, em Brasília. Mas nunca vou me esquecer do primeiro bate-papo, por telefone, eu ainda foca amestrada de redação, fazendo perguntas sobre Bossa Nova, musicais da Broadway, Tom e Vinicius e coisas mais como turfe, Beatles, Garrincha, e claro, Nelson Rodrigues.

Satisfação enorme, sensação só comparada ao abrir um livro escrito por ele, como faço agora com a enciclopédia sobre Ipanema, Ela é carioca. Devo dizer que há tempos atrás dessa obra, mas sempre me faltou dinheiro, tempo ou as duas coisas.

Um dia, de bobeira num sebo, ali, mais uma vez, na Asa Norte, vi uma edição da obra novinha dando sopa e não titubeei: comprei. E o que é melhor ainda, pela metade do preço se fosse para comprar em uma livraria. De modo que, quando morrer, não quero ir para o céu, nem para o inferno, mas para um sebo. Ah, sim, e essa frase espirituosa só podia ser dele mesmo, Ruy Castro, e de quem mais seria?

Lançado em 1999 pela Cia das Letras, o livro é uma declaração de amor a um dos cartões postais mais bonitos da Cidade Maravilhosa, Ipanema, endereço onde o autor, mineiro de Caratinga, sabe-se lá como, foi parar. Mas poucos conhecem como ninguém o lugar, o que faz de Ruy Castro, o mais mineiro dos cariocas. E olha que o páreo não era nada fácil, tendo em vista que moraram por lá também outros mineiríssimos ilustres como Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende.

De qualquer forma, ninguém mais qualificado do que o próprio Ruy Castro para escrever a obra. Ô homem bom para bolar ideias boas para livro, viu. Além de se especializar em biografias de grandes nomes do nosso século, como os já citados Mané Garrincha, Nelson Rodrigues e Carmen Miranda, que fizeram do gênero uma febre no Brasil, elevada à categoria de grande literatura, Castro já reuniu três antologias de frases venenosas, além de contar a história da Bossa Nova em Chega de saudade, mergulhar nas glórias do seu time do coração, o Flamengo, além falar das suas saudades do século 20. O cara é formidável.

Arpoador: Uma das mais belas imagens da mítica e encantadora Ipanema

Em Ela é carioca, ele reúne, em ordem alfabética, adoráveis perfis de artistas e intelectuais, lugares, bares, personagens folclóricos, expressões e gírias e até de animais mascotes que só podiam ter nascido ou vivido na mítica Ipanema, essa encantadora fauna humana, metafísica, urbana e arquitetônica. E nesse ABC do mais charmoso bairro do Rio de Janeiro, figuram nomes como de Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, Hugo Carvana e Domingos Oliveira, musas estonteantes como Duda Cavalcanti e Elizabeth Gasper, Glauber Rocha e Arnaldo Jabor, Paulo Francis e Millôr Fernandes, o Zeppelin e o Jangadeiro, os Lucios Rangel e Cardoso, Hugo Bidet e a Banda de Ipanema, enfim de gente, coisas e lugares dos quais eu nunca tinha ouvido falar ou até mesmo lido.

Nas páginas dessa obra agradabilíssima, descubro, por exemplo, que a rede de lanchonete Bob’s foi criada por um inglês campeão de Wimbledon que frequentava o Country Club e que Claudio Marzo começou a carreira na televisão, olha veja só, encarnando um índio bem molambento. Ou que a grife de roupas e assessórios descolados da Company nasceram numa das boutiques de Ipanema e que o Circo Voador foi mais uma das criações mirabolantes dos baderneiros meninos do Asdrúbal Trouxe o Trombone.

Gostoso de ler, tanto em ordem cronológica, quanto aleatoriamente, seja escolhendo os personagens ou temas ao léu, a obra, que conta ainda com fotos marcantes que conduz o leitor numa viagem iconográfica maravilhosa, nos revela os segredos e magia de um lugar que um dia já foi um paraíso tropical repleto de Adãos e Evas, mas que ainda não perdeu o charme e encanto, apesar das agressões da especulação imobiliária e do progresso. “O grande caldo cultural que simbolizaria Ipanema nasceu no Arpoador, que foi sua primeira praia a ser desbravada e palco de uma convivência democrática entre gente de todos os níveis: pescadores, intelectuais, artistas, aspirantes a tudo isso ou simples benbus”, registra Ruy Castro, com o inconfundível saudosismo que lhe é peculiar, na apresentação da obra.

Lamento não ter lido essa exuberante obra antes. Pensando bem, quando eu morrer, não quero ir nem para o céu ou inferno, muito menos um sebo. Quando eu morrer, quero ir para Ipanema. Aliás, parafraseando Glauber Rocha, Ipanema é um bom lugar para se morrer.

* Este texto foi escrito ao som de: Vinicius & Toquinho (Vinicius de Moraes & Toquinho – 1974)

Hindra: Densidade sonora urbana

Letras carregadas de insatisfação social e desespero lírico à la Rimbaud

Há um certo desespero urbano que brota nas letras da banda brasiliense Hindra Rock Magic, há cheiro de urgência no ar. E se você por algum motivo ainda não ouviu esse som que emerge das ruas é porque estava ligado em alguma estação FM ou no programa do Faustão. Mas um giro pelas ruas das Satélites ou até mesmo por pontos alternativos de Brasília já é o bastante para perceber que há algo de novo tocando no cerrado.

Filhos do Gama, o grupo formado por cinco integrantes – o vocalista Willian Fergoe, o baixista Marcos Celso, o baterista Everton Oliveira e os guitarristas Pedro Vasconcelos e Franco Xamã -, apesar de pouca idade na estrada, pouco mais de um ano, esbanja personalidade num discurso carregado de insatisfação social e desespero lírico à la Rimbaud.

O ponto forte, a essência dessa sonoridade feita de concreto e asfalto estão nos versos densos, intensos escritos pelo vocalista William Fergoe, espécie de poeta maldito do Planalto. E não há nenhum exagero na afirmação, se você se deixar se surpreender com linhas poéticas como: “Cinza na rolha do champagne, cinza nas lápides/Quando a primavera chegar haverá poucos olhos verdes acessos”, de Olhos verdes acessos ou “Tigres sem majestade/Peixes dentro de um aquário de grades/São mais de cinco no lugar de um/O sol quadrado”, de Alas em ebulição.

Em estúdio finalizando uma demo com cinco faixas, os meninos da Hindra Rock Magic preferem acreditar que são “filhos da revolução”, adotando uma postura e discurso que lembram o seminal Aborto Elétrico, mas há espaço para outras influências que vão desde as angustias existencialistas cantadas por Morrison e suas “portas da percepção” ou até mesmo Bob Dylan.

O nome é uma referência ao primeiro pub que os Beatles tocaram na Alemanha, no início dos anos 60, o Indra e o “H” sobrando aqui é uma homenagem à cidade de Hamburgo, onde ficava o famoso espaço.

Confira o som da rapaziada no site da banda e página no MySpace. (http://www.myspace.com/bandahindra/http://bandahindra.wordpress.com/).

* Este texto foi escrito ao som de: Hindra Rock Magic (Hindra Rock Magic – 2011)

Entrevista: Toninho Vaz fala sobre o Solar

 

O jornalista Toninho Vaz não morou no Solar, mas conhecia muito bem seus hospédes...

Terminei de ler outro dia o livro do Toninho Vaz que conta a história da mítica pensão Solar da Fossa, reduto da contracultura brasileira nos idos dos anos 60 e início dos anos 70. Já contei um pouco da magia que envolve o lugar, aqui mesmo, nesse nobre veículo virtual.

Para quem ainda não leu o livro ou não pegou o bonde andando, digo, não sabe do que se trata, o Solar foi um casarão colonial com 85 quartos, localizado em Botafogo, onde passaram artistas no começo da carreira como Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Ruy Castro, José Wilker, Paulo Leminski, Darlene Glória, Cláudio Marzo, Betty Faria, Paulo Coelho, Maria Gladys e, quem diria, até o senador Cristovam Buarque, na época um fugitivo líder estudantil.

Editado pela Casa da Palavra, o livro será lançado em Brasília no próximo dia 16 de setembro, na livraria Dom Quixote. Em entrevista ao blog, Toninho Vaz revela às motivações que o levaram a mergulhar pelos corredores do famoso lugar, segundo ele, depois de realizar as biografias dos poetas Torquato Neto e Paulo Leminski, ambos moradores da casa.

“Acabei me interessando pelo tema. Fiz algumas sondagens e percebi que daria um livro. As pesquisas confirmaram e o livro está nas prateleiras”, conta o autor, que tem sua própria teoria sobre a magia que envolveu o espaço, símbolo da efervescência cultural do país, naquele momento, motivado pela explosão do Tropicalismo e da onda de festivais da canção. “O Solar da Fossa permitiu a troca de ideias e o fomento de muita criação coletiva, na música, teatro, cinema e jornalismo. Muitos deles moravam no Solar da Fossa”, explica.

Para escrever o livro Toninho Vaz conta que entrevistou cem pessoas, a maioria delas ex-moradoras do Solar e, quase todas, artistas em ascensão que hoje viraram celebridades no mundo artístico. Revela que só não conseguiu falar com a cantora Gal Costa e alguns ex-guerrilheiros, que ficaram com medo de expor suas identidades. Algumas passagens do livro são divertidíssimas, como a que registra a chegada do circo nas proximidades do casarão, outras nem tanto, como a turbulenta vida amorosa da bela atriz Darlene Glória, que tinha caso com o temido policial Mariel Mariscot.

“O elemento vital na aura do Solar era o desejo de liberdade pessoal ou coletiva”, observa Toninho, que não morou no Solar, mas era freqüentador assíduo. “Havia algo de revolucionário no ar. E coincide com os movimentos estudantis de 68. O caso da Darlene com o tira Mariscot era bem denso e dramático, uma história que está bem contada no livro, de forma inédita”, garante.

* Este texto foi escrito ao som de: Tropicalismo ou Panis et circenses (Vários – 1968)

 

Lanterna Verde amarela no cinema

O Lanterna Verde do cinema é um playboy debilóide, o do desenho animado tinha mais personalidade

Depois das adoráveis criaturas azuis, os Smurfs, eis que surge no horizonte um cometa esmeralda. Não deixe que a luz intergaláctica ofusque seus olhos, nem que as forças inimigas abalem sua coragem porque mais um herói das histórias em quadrinhos, desta vez da DC Comics, acabou de despencar das estrelas direto para cinema: Lanterna Verde.

Criação de 1940 da dupla Martin Nodell e Bill Finger, o herói esmeraldino foi um dos meus favoritos na Liga da Justiça. Mas isso quando eu andava para cima e para baixo com a capota do dedão do pé machucado e pirulito na boca. Claro, nenhum mutante desbancava o Cavaleiro das trevas na minha galeria de grandes justiceiros, mas confesso que sempre tive uma quedinha pelo Lanterna Verde. Não porque ele era poderoso, mas porque era bonito mesmo.

 Achava aquele uniforme dele maneiro e adorava vê-lo materializar as mais absurdas armas de defesa para enfrentar o inimigo. Podia ser tanto uma raquete de tênis gigante, quanto um tanque de guerra militar. Tudo tirado de seu anel misterioso, mas o meu fascínio resvalava numa questão hierárquica, porque, abaixo do Super-Homem, o Lanterna Verde era o que mais poder tinha. Não me esqueço de um episódio em que ele enfrenta o homem de Kripton e, se não me engano, vence, numa batalha em que os planetas e as estrelas tiveram que se afastar um pouco. Sabe como é né? Sua força está concentrada na cor verde e verde é a cor da kriptonita e por aí vai.

Mas estou falando do desenho animado. O filme é outra coisa. Dirigido por Martin Campbell o Lanterna Verde dos cinemas deixa a desejar. Fazendo um trocadilho infame, no cinema, o mutante verde amarelou. E nem vale me repeti e dizer que é culpa dos efeitos especiais. O problema aqui é de roteiro mesmo, mais pobre do que a Favela da Rocinha, e de construção de personagem, completamente carente de personalidade. O Lanterna Verde da minha infância era mais maduro e seguro de si.

Mas tem um fator determinante que distancia, pelo menos na minha visão, os dois Lanternas. O do desenho animado, aquele que preenchia a minha infância, vivia envolto em mistério e por uma razão bem simples. Seu passado, sua origem era uma incógnita para mim. Sua identidade não era um livro aberto como o passado do Batman ou do Super-Homem. Eu nem sabia que ele se chamava Hal Jordan. Isso porque, ao contrário dos outros heróis, eu nunca havia lido um quadrinhos do Lanterna Verde. Minha referência sempre foi o desenho animado.

Saber assim, da origem do Arqueiro Verde em poucos minutos, de supetão, me deixou confuso e aborrecido. Soma-se a isso a falta de carisma do ator Ryan Reynolds, que é apenas mais um rosto bonito no cinema e aqui abro um parêntese. Já prestaram atenção como esse gênero tem sido uma vitrine formidável para novos talentos, novos rostos? E digo “talentos”.

Piloto de caça que amarga a dor da perda do pai, experiente piloto de avião morto em trágico acidente aéreo, o largadão Hal Jordan não sabe muito bem o que quer da vida. Um belo dia, ao voltar da festa de aniversário do sobrinho, acaba sendo sequestrado por uma bolha verde e, num piscar de olhos, transforma no mais novo soldado intergaláctico, defensor da paz, da honra e da justiça do universo. O problema é que ele também não sabe se quer isso e, cá entre nós, o sujeito pegou um tremendo abacaxi.

No entanto, à medida que ele vai se familiarizado com o anel e todo o poder que ele lhe dá, aos poucos aquele piloto traumatizado acaba se acostumando com a ideia. “Juro, eu sempre quis ser um policial espacial verde”, confessa, fazendo troça, à namorada. E assim, entre tentar salvar a humanidade das mãos de um vilão gosmento, ao mesmo tempo em que valoriza a importância da Terra e da raça humana, perante aos olhos da comunidade alienígena, numa das passagens mais ridículas do filme, o Lanterna Verde do século 21 vai mostrando ao que veio.

Ser um playboy debilóide das estrelas e, porque não, das telonas também.

* Este texto foi escrito ao som de: The Yes Album (Yes – 1971)

 

Discoteca Básica (27) Expresso 2222

Gilberto Gil em 1972, partindo direto para Bom Sucesso, direto da Central do Brasil...

Como vocês sabem a música popular brasileira, a velha e boa MPB, tem uma Santíssima Trindade, entidade espírito musical que reverbera na figura de Chico Buarque e dos baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil. Gosto dos três de forma esfuziante. São geniais, donos de criatividade sem igual, cada qual talentoso dentro de suas particularidades. Mas dos três, o que mais mexe com os cabelos da minha perna é Gilberto Gil, talvez por exalar mais brasileirismo.

Mas é um brasileirismo bem ao seu estilo, como já disse, mesclado com lampejos da Bossa Nova, sua grande influência, samba, o bom e velho rock ‘n’ dos Beatles e Jimi Hendrix – esse último uma obsessão no início da década de 70 – e o que há de melhor, mais fino e original na cultura popular brasileira. Talvez o disco que melhor captou e sintetizou esse caldeirão de influência seja, em minha opinião, Expresso 2222. Registrado em 1972, o álbum marcou definitivamente a volta do artista ao Brasil.

Com sua capa intimista, evocando o sossego familiar, do lar, com a foto do filho Pedro, já falecido, esse registro é o oposto do trabalho anterior, todo gravado na língua de Shakespeare porque o artista ainda se encontrava bastante influenciado pela onda “vapor barato” da swinging londrina.

Em Expresso 2222 Gil voltaria às suas origens, às suas raízes e para não padecer nenhuma dúvida quanto a isso, homenageia aqui grandes compositores da nossa música, aqueles nomes mais ligados a nossa cultura regional. Então toma banda de pífaros de Caruaru, como mostra a psicodélica faixa de abertura Pipoca moderna, o samba malemolente Chiclete com banana, da dupla Gordurinha e Almira Castilho, o baião elétrico O canto da Ema e a inspiradíssima faixa-título, Expresso 2222, que evoca um futuro repleto de cores nacionais. “Começou a circular o Expresso 2222/Da Central do Brasil que parti direto de Bom Sucesso/Pra depois do ano 2000”, canta.

O lado intimista e pessoal do artista aparece nas enigmáticas Ele e eu e Oriente, essa última uma baladona mística que sugere viagem à Terra do Sol Nascente no porão de um cargueiro. “Considere rapaz, a possibilidade de ir ao Japão/(…) Pela curiosidade de ver onde o Sol se esconde/Vê se compreende pela simples razão de que tudo/depende da determinação”, diz o artista que, apoiado pela guitarra efervescente de Lanny Gordin, revisita os tempos de exílio na contagiante Back in Bahia, um rock à lá Chuck Berry que foi o maior sucesso do disco ao lado de Expresso 2222.

“Lá em Londres vez em quando me sentia longe daqui/Vez em quando, quando me sentia longe, dava por mim/Puxando o cabelo, querendo ouvir Celly Campelo para não cair”, se diverte, em meio à saudade e melancolia.

A versão remasterizada desse álbum traz como bônus, um sundae sonoro delicioso que foi gravado de farra por Gil e Caetano Veloso ao final das gravações do álbum. A hilária, Cada macaco no seu galho (Chô, chuá), do sempre autêntico e brasileiríssimo artista Riachão. 

É, Gilberto Gil realmente tinha voltado para casa.

* Este texto foi escrito ao som de: Expresso 2222 (Gilberto Gil – 1972)

 

O roubo do século

O roubo do século, uma bolada de R$ 164 milhões...

Vou até a bilheteria e digo a senha:

– Lanterna Verde!!!

Sem pestanejar, do outro lado vidro, com calma franciscana, a guria reconhece o código:

– R$ 12,50

– O quê, mas isso é um absurdo, cadê a promoção?!, rebato indignado.

– Para essa sessão não tem promoção, senhor, o filme é legendado e em 3D, responde tranquilamente.

– E daí, isso é um roubo!, digo enfurecido, sapateando que nem bailarina espanhola em cima dos tamancos.

– Ah, sim, esse é R$ 5, confunde a garota, se referindo ao sucesso nacional Assalto ao Banco Central.

E foi assim, meio contrariado, como quem bebe remédio goela abaixo contra a vontade, que fui ver outro dia o famoso filme sobre o assalto do século. Pelo menos na cabeça de alguns megalomaníacos de plantão que vê no acontecimento, algo equivalente ao assalto ao trem pagador ou o roubo da Monalisa no Louvre.

Enfim, entro no cinema e é aquela grande surpresa. Há muito tempo que não via tanto brasileiro assistindo filme nacional. Sério! Porque como diria o Tom Jobim: “o Brasil não gosta do Brasil”.

Mas de uns tempos para cá essa mentalidade mudou, acho que graças à Cidade de Deus, sei lá, mas o fato é que Hollywood não tem mais tanta importância em nosso conceito cinematográfico. Talvez porque os filmes brasileiros estão cada vez mais parecidos com os filmes norte-americanos.

Dirigido por Marcos Paulo, em sua estréia no cinema, Assalto ao Banco Central é um exemplo desse decalque hollywoodiano. Os bandidos da trama, por exemplo, lembra gângsteres nova-iorquinos e a dupla de policial encarregada de investigar o caso, vivido pelo sempre ótimo Lima Duarte e Giulia Gam, você já viu pelas ruas de Los Angeles.

Baseado em história verdadeira, no notório roubo do título, que aconteceu em Fortaleza, Ceará, em 2005, o filme é um sensacional thriller de aventura de cinema comercial com estética da Globo. O que é normal, já que toda realidade é romanceada mesmo, ou não seria cinema ou novela, mas às vezes é preciso ter sensibilidade para não carregar nas tintas ficcionais.

O elenco parece até sido recrutado da novela da 9h, com Eriberto Leão e Juliano Cazarré, o ator brasiliense

...Você já viu essa fita em algum lugar...

que anda fazendo o maior sucesso na Vênus Prateada, mas outros mestres da interpretação como Tonico Pereira, Antônio Abujamra, Daniel Filho, Cássio Gabus Mendes e o pequeno gigante Genro Camilo também dão o ar da graça. “Buraco é comigo mesmo”, diz o personagem desse último, um dos comparsas que irá passar três meses cavando um túnel cinematográfico até o Banco Central de Fortaleza. “Assaltar um banco não é nada perto do que fundar um banco”, diz o personagem de Tonico Pereira, um hipócrita comunista, citando Lênin.

A bolada roubada é de R$ 164 milhões. Desse valor todo, até hoje só foram recuperados R$ 20 milhões e o líder da operação, o tal de Barão (Milhen Cortaz), até hoje não foi encontrado.

Mas apesar dos pormenores, Assalto ao Banco Central conta com produção de primeira, graças à experiência e competência do diretor Marcos Paulo, embrulhado dentro de uma narrativa descolada e não linear que lembra filmes do gênero, entre eles, como Como roubar um milhão de dólares, com Audrey Hepburn e Peter O’Toole ou Onze homens e um segredo, não com os Rat Pack, mas aquele do Steven Soderbergh.

O que dá um toque de feijoada, caipirinha e samba à trama são as piadas sobre a nossa realidade. “O Brasil é um país onde todo o serviço público é dominado pela iniciativa privada”, debocha alguém na fita. “Você prefere ser um pecador rico ou santo pobre?”, indaga o chefão Barão, quando alguém pensa em desistir

Temas como traição, covardia, ingratidão ganância, ambição e o eterno duelo entre a novidade e a experiência perpassa a narrativa o tempo todo e passagens como do pastor ambicioso vivido por Milton Gonçalves, de olho na doação de milhões de um bandido arrependido, e o cano estourado de merda, são divertidíssimas. Mas o espectador deve estar atento a um detalhe relevante. A atuação do jovem Vinicius de Oliveira, na pele do irmão afetada da “mocinha” da história. Você se lembra dele, é o menino carente que encantou o Brasil e o mundo em Central do Brasil, de Walter Salles. Ele andava sumido e voltou agora para dar um show de atuação.

Agora me conta uma coisa. Aquele final com o Milhen Cortaz indo embora, impune, depois de dar um teco fotográfico na amante você já viu o John Malkovich e Bruce Willis fazerem no cinema, não?

* Este texto foi escrito ao som de: Blur (Blur – 1997)

 

A falta que o vulcão Glauber Rocha nos faz

Genial, polêmico e passional Glauber Rocha morreria há 30 anos, vítima de Brasil

Há exatos 30 anos, um vulcão baiano efervescente de ideias e carregado de erupções de insatisfações políticas e sociais chamado Glauber Rocha entrou em inatividade. Morria de causas desconhecidas, aos 42 anos o mais brasileiro dos cineastas e, antes que algum jornalista engraçadinho se apressasse em folclorizar a morte do artista, sua mãe, D. Lúcia, espécie de guardiã da obra e memória do filho, categoricamente daria o atestado de óbito:

– Meu filho morreu de Brasil!

Longe de ser uma dramatização germinada no ceio materno, a frase, meio apocalíptica, verbalizava a mais crassa e hedionda verdade.

Marginalizado em seu próprio país na condição de artista, esculhambado pela crítica, traído pelos amigos de longa jornada e incompreendido pelo grande público, o diretor amargurava dias de exílio numa mítica cidade em Portugal. “Sintra é um bom lugar para morrer”, teria ele profetizado poucos dias antes de morrer, já anunciando o início do fim de uma trajetória marcada por glórias precoces, muita polêmica e uma infinidade de insights criativos materializado em obras marcantes como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, O dragão da maldade e o santo guerreiro e a missa pagã A idade da Terra, seu último filme com cenas rodadas aqui mesmo, em Brasília.

“Eles não perdoaram eu ter feito Deus e o Diabo na Terra do Sol com 24 anos”, alfinetou no fim da vida aqueles que o traíram e o criticavam. “Eu sou o Cinema Novo”, deixava claro, se alguém tivesse dúvidas de quem foi o responsável por causar uma reviravolta estética na linguagem cinematográfica em todo o mundo.

Que o diga o cineasta francês Jean-Luc Godard e seus amigos da nouvelle vague, todos fascinados com aquele menino prodígio e seu estilo terceiro-mundista de fazer cinema “com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. “Os brasileiros devem ajudar a destruir o cinema”, disse ao amigo brasileiro, num dos vários encontros pela Europa. Num deles, como ator-espantalho em O vento do leste, de 1970. “É preciso estar atento e forte/Não temos tempo de temer a morte”, surge na fita, citando o amigo Gilberto Gil.

Genial, emocional, abundantemente passional, Glauber Rocha levava suas opiniões e pontos de vistas ao extremo, transformando uma discussão calorosa numa mesa de bar ou até mesmo na tela, numa formidável mise-en-scène. Acredite, um dia na vida desse baiano inquieto, de alma atormentada, já era suficiente para desenvolver um enredo épico.

A primeira vez que ouvir falar de Glauber Rocha foi na Faculdade e, ao contrário da maioria dos cinéfilos, fui fisgado primeiro pelo seu universo mágico não assistindo a Deus e Diabo na Terra do Sol, mas pela esquizofrenia caótica de Terra em transe, um retrato urgente, profético e amargurado daqueles anos pré-chumbo. Durante muito tempo, o personagem Paulo Martins, o revolucionário e radical jornalista da trama vivido por Jardel Filho foi um dos meus heróis da adolescência e, embora estivesse falando da nossa realidade, o jovem diretor estava sendo universal, espargindo com tintas anárquicas o painel de toda uma América Latina.

"Não me perdoaram por eu ter feito Deus e o diabo... com 24 anos", atacava com fera acuada

Como todo gênio, Glauber era incompreendido porque sempre esteve anos-luz à frente do seu tempo, de seus pares. Quando uma jornalista lhe sapecou, à queima roupa, em 1977, se ele havia ficado surpreso com o prêmio especial do Júri do Festival de Cannes concedido naquele ano, pelo curta-metragem Di, obra experimental de 18 minutos no qual ele carnavaliza o velório do pintor modernista, ironiza. “É claro que não, todo mundo diz que eu estou louco, que sou maluco, mas sei muito bem o que estou fazendo”, disse. Dê uma conferida no filme no Youtube e não se assuste.

Já no fim da vida, quando o diretor matava um leão por dia para dar vida aos seus mirabolantes projetos – e não era os leões de sete cabeças -, arfava um último suspiro de talento comandando o programa de entrevista Abertura, na TV Cultura, colocando no chinelo, com mais de 30 anos de antecedência, bobagens que hoje nos enchem de vergonha como CQC, Pânico e não sei mais o quê. E nem vou falar como sua ausência faz no cinema para não cometer injustiças.

Hoje, quem está morrendo de Brasil somos nós. Que falta esse vulcão chamado Glauber Rocha nos faz.

* Este texto foi escrito ao som de: Araçá azul (Caetano Veloso – 1972)