Videoteca básica (31) As 7 faces do Dr. Lao

A nefasta Medusa vivida por Tony Randall em 1964…

Como eram inesquecíveis aquelas tardes em que ficávamos assistindo os grandes sucessos da Sessão da Tarde. Tenho saudades daqueles tempos de inocência e diversão, onde pude ver grandes clássicos do cinema, algumas produções, obras que até hoje estão cravadas dentro da minha memória. Uma delas, o fantástico circo de um chinesinho irreverente e suas criaturas bizarras, no sensacional, As sete faces do Dr. Lao, que filme mágico e encantador. Sinceramente, tinha me esquecido do quanto essa obra é formidável.

Revi a fita outro dia, num lançamento da Magnus Opus, e constatei uma coisa séria, perturbadora: como um filme tão denso e sério desses era exibido, assim, para crianças na Sessão da tarde. Sim, porque, à revelia das criaturas assustadoras e momentos de aventuras que percorre a trama, recheada de fantasia e alegoria que, com certeza atiçava nossa imaginação, o enredo é filosófico, profundo, sábio.

É começo do século 20, na pequena e provinciana Abalone (Arizona), quando o Sr. Lao, um velhinho oriental que julga ter mais de sete mil anos, chega à cidade com seu misterioso circo sem vagões, sem animais, sem nada, um circo bem diferente e não é o Cirque Du Soleil.

Os únicos companheiros que ele traz na bagagem são uma mula e peixinho escondido num aquário esférico. Da noite para o dia, uma tenda pequena que por dentro se mostra bem maior do que por fora, é montada no meio do nada, dando início a uma série de acontecimentos incríveis que irá mudar a rotina daqueles que irão conferir a maior novidade do momento na cidade.

É o caso do ganancioso Clint Stark (Arthur O’Connell), um homem egoísta e rude que age, destemperadamente, ao sabor de suas vaidades e do poder que o dinheiro lhe dá. “Este circo é como um espelho. Às vezes você se vê nele”, diz a ele, sabiamente, a serpente gigante, uma das surpreendentes atrações deste circo mágico, que conta ainda com o cego visionário, Apollonius, a medonha Medusa, o lascivo deus da alegria Pan, o abominável homem das neves, além do milenar mago Merlin.

Adaptação para o cinema do romance de 1935, O circo do Dr. Lao, de Charles G. Finney, o filme de 1964 dirigido por George Pal marcou toda uma geração, mas duvido que suas mensagens milenares embutidas nas entrelinhas e nos diálogos espirituosos sobre coisas incertas, tenham atingido o público da forma correta. E digo da forma correta porque é uma obra carregada de ensinamentos sábios acerca da conduta torta e medíocre do homem em toda a sua complexidade.

“Oh, só filosoficamente!”, disse o matreiro Dr. Lao, quando perguntado se é um acrobata.

Eu mesmo só fui perceber a grandeza dessa obra agora, já que nos meus tempos de criança que não perdia um filme da Sessão da Tarde, estava mais interessado nos efeitos stop motion do filme, bem mais artesanais que os efeitos visuais de hoje, contudo, mais tocantes.

Um ator talentoso mais conhecido por sua carreira na TV, Tony Randall é o pai dos sete personagens circenses vividos na trama, entre eles o mágico chinês Dr. Lao, que aqui emerge como símbolo de uma figura social importante na história da América. Basta conferi o personagem oriental do monumental romance de John Steinbeck, A leste do Éden.

* Este texto foi escrito ao som de: Greatest hits Seals & Crofts (Seals & Crofts – 1975)

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O verdadeiro Deus está nas igrejas vazias

O verdadeiro Deus está na verdade absoluta da Natureza

Eu não acredito em deus. O Fernando Sabido é quem tinha razão. Isso não é vantagem. Vantagem seria deus acreditar em mim. Esse gesto da parte dele, se ele existisse, justificaria, reafirmaria, por si só, sua existência, porque, para mim, existir é uma coisa séria. Essa coisa de ficar brincando de onisciente e onipresente sem se fazer aparecer é palhaçada, cretinice, bobagem, enfim, covardia. E olha que estou buscando um estilo de vida que não precise, necessariamente, de minha existência. E daí, eu não fico tirando onda de deus mesmo.

“Ora, não me espanta que alguém veja Deus. O que realmente me assombra é que Deus não seja visto, a toda hora, e em toda parte, por todo mundo”, questionava Nelson Rodrigues.

E acho que é isso. Se deus existe é uma coisa tão grandiosa, tão eloquente e poderosa que não estaria à altura de nosso entendimento limitado e egoísta. Bem diferente desse conceito simplista que criamos por puro medo, pela falta de compreensão mesmo, por necessidade em acreditar em algo, mesmo que esse algo não esteja lá. Jesus morreu pelos nossos pecados? Conversa, os seus, não os meus, concordo com Patti Smith.

Por isso que acredito no Deus de outro Fernando, o Pessoa. Ou melhor, no seu heterônimo Alberto Caeiro, o guardador de rebanhos, que é aquele Deus que está na natureza, nas árvores, nos riachos, nas flores e nas árvores, enfim, também nos montes e nos raios do Sol, no luar, um Deus hippie, um Deus ecológico, um Deus cuja verdade absoluta é a Natureza.

“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos… Se eu falo na Natureza não é porque saiba o que ela é. Mas porque a amo, e amo-a por isso, porque quem ama nunca sabe o que ama, nem porque ama, nem o que é amar”, disse esse poeta telúrico, no poema-oração, O guardador de rebanhos.

Eu já disse e repito: não acredito em deus porque sua existência não é confiável. E porque a gente acredita no que quer, cria o deus que quer, ou seja, aquele que está ao nosso alcance, o mais acessível e próximo possível.

Para mim, o Deus de Terrence Malick, com suas meditações visuais, é mais acessível, Bob Dylan é um deus para mim porque é acessível, está ao alcance de todos. Eu acredito no Deus que existe dentro das minhas sobrinhas.

Isso mesmo, meu caro, não acredito em deus, mas acredito em Nelson Rodrigues quem disse que espantava com o fato dele, deus, não aparecer para todos, mas que o verdadeiro Deus frequenta as igrejas vazias e veja quanta ternura e fé nessa observação do nosso eterno escritor e dramaturgo. “Deus frequenta as igrejas vazias”, está no silêncio das igrejas, nada mais puro e diáfano, nada mais eloquente em sua simplicidade.

Acho que é isso. O verdadeiro Deus está na Natureza e nas igrejas vazias. Está no vento que sopra na relva, no vento que cruza o voo dos pássaros que seguem rumo ao infinito, mas também no reflexo translúcido e mágico dos vitrais celestiais das igrejas e eu gosto de igrejas, do silêncio das igrejas, da paz das igrejas. O que me incomoda são as pessoas que a frequentam, na religião em si.

“Há metafísica bastante em não pensar em nada”, mais uma vez Alberto Caeiro.

É isso! O verdadeiro Deus está na Natureza e nas igrejas vazias.

* Este texto foi escrito ao som de: Tempest (Bob Dylan – 2012)

A bem amada Catherine Deneuve

Deneuve e Chiara refletindo sobre os homens de suas vidas

Em 1964 o clássico do Cinema Novo Deus e o diabo na terra do Sol perdeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes para o musical francês, Os guarda-chuvas do amor, de Jacque Demy.E o espanto não foi nem o fato de o filme brasileiro ser derrotado por um musical francês, mas de Catherine Deneuve saber cantar. Bom, uma das femme fatales do cinema dos anos 60, a linda atriz cantava muito bem, sim, e parece que o tempo não arranhou esse talento como mostra o drama musical, Bem amadas, em cartaz no Espaço Itáu CasaPark.

Se você correr ainda dá tempo de assisti à produção que fica mais uma semana no espaço. Vi a fita outro dia numa sensação solitária e me surpreendi. Aliás, ando me especializando em assisti filmes com salas vazias no CasaPark. Outro dia mesmo lá estava eu cantando, com os braços para cima as músicas do documentário, Tropicália – O filme, sozinho. Não sei não, mas acho que as pessoas não gostam mais de música. O que dizer então de musicais. E musicais franceses!

Na fita de Christophe Honoré ela, Deneuve, é Madeleine, vendedora numa loja de sapatos que resolve ganhar a vida fácil se prostituindo pelas ruas de Paris. A atriz que a interpreta mais moça é vivida por Ludivine Sagnier. É o início dos anos 60, mas precisamente 1964, ano em que os modelos de Dior e os filmes de Godard estão na moda. A história, contada em flashback por sua filha Véra Passer (Chiara Mastroianni) é adornada como belas imagens envelhecidas e direção de arte impecável. “A prostituição a livrou da prisão”, recorda, entre a dor e o ressentimento.

Assim, com muito sensor de humor e niilismo charmoso que só os filmes franceses têm, o musical francês percorre quarenta anos na trajetória dessas duas mulheres e as conturbadas e enigmáticas relações delas com os homens de suas vidas, fazendo do tempo, um dos personagens dessa deliciosa trama. Uma relação que corta quarenta anos de história, indo da primavera de Praga aos atentados do dia 11 de setembro. “Ele veio da Tchecoslováquia, mas não é comunista”, diz Madeleine a uma amiga, sobre o pai de Véras.

Como numa daquelas pequenas caixas de bombons surtidos, Bem amadas é cheio de surpresas. Uma delas é o elenco primoroso que, além de Deneuve e Chiara Mastroianni, conta com o cineasta Milos Forman (Um estranho no ninho), além do ótimo Paul Schneider e Louis Garrel, para mim, de longe um dos atores mais lindos e charmosos da sua geração com aquele rosto leonino que lembra Antoine Doinel.

Outra surpresa deliciosa resvala na bela direção de arte que capta com segurança visual as mudanças do tempo e da história pontuadas pelos anos de 1964, 1978, 1997, 1998, 2001, 2007. Como uma gaveta de arquivo, cada um desses anos traz um acontecimento marcante na vida das duas mulheres tão diferentes e distantes. 1997, por exemplo, é quando a angustiada Véras começa suas memórias sobre a mãe e conhece, num pub sujo de Londres, Henderson (Paul Schneider), um norte-americano gay baterista de uma banda que ela elege como seu “marido imaginário”.

“Minha mãe era puta e meu pai nos abandonou”, se apresenta, ela. “Ele é bonito, sedutor, perfeito e gay”, descreve seu “marido imaginário” à mãe.

Também diferentes e distantes em seus estilos de vida, Henderson e Véras irão protagonizar os momentos mais intensos e divertidos do filme. Um deles é quando o amante gay chupa seu sexo feminino num banheiro público, numa daquelas típicas loucuras urbanas que temos vontade de fazer quando ninguém está olhando. A outra é quando ela propõe ter um filho com ele, mesmo sabendo que ele é soropositivo e gay. “Eu pesquisei, hoje em dia isso não é mais problema. Ele não vai nascer gay nem soropositivo”, desconversa, antes de mergulhar num picante ménage à trois com desfecho macabro.

E, mesmo com todos esses arrombos de decadência urbana indecente, feridas mal cicatrizadas do passado e surpresas do presente, Bem amadas está longe de ser definido como uma obra pornográfica ou imoral. Antes de tudo, com seu lirismo musical é um relato contundente sobre a vida. “Eu confio na vida, não confio na felicidade”, diz Madeleine, já calejada dela.

* Este texto foi escrito ao som de: End of the century (Ramones – 1980)

1001 músicas para ouvir antes de morrer

Keith Richards compõs o riff do maior hit dos Stones roncando

Não sei por que, mas sempre acho que vou morrer no dia seguinte. Na verdade, sempre achei que iria morrer cedo. Ainda acho que vou morrer cedo. Não espalhe por aí não, mas sou um suicida em potencial. Por isso que leio desenfreada e loucamente. Tudo bem, eu sei e já pedi, quando isso acontecer quero ir para um sebo, passar minha eternidade lendo, mas por via das dúvidas, sigo meu caminho em frente com um amor platônico no peito e um livro na mão. 1001 músicas para ouvir antes de morrer é um deles, é o livro do momento.

“Você realmente deve comprar, roubar, baixar ou pedir emprestadas as 1001 músicas recomendadas neste livro”, provoca o autor do prefácio Tony Visconti, um dos músicos e produtores mais importantes e influentes de seu tempo, em texto saboroso. “Não sei se conseguirei fazer isso um dia, mas, como o título sugere, morrerei tentando”, arremata.

Comecei folheando esse catatau, ontem, na Livraria Cultura e, quando vi, lá estava eu na página cento alguma coisa e com várias long necks de Heineken em cima da mesa. Sim, a obra é envolvente desse jeito, mas não só isso, também um verdadeiro banco de dados para quem ama música, independente de gosto musical, estilo ou artista predileto.

Além de detalhes deliciosos sobre grandes hits de todos os tempos, sucessos nas vozes de Frank Sinatra e Elvis Presley, Beatles e Stones, passando por ícones do psicodelismo ao glam rock, até chegar aos dias de hoje com os já finados Oasis e Lady Gaga, essa enciclopédia de luxo nos surpreende com fotografias e capas de discos raríssimos, além de frase antológicas de artistas e admiradores de algumas das canções. Também indica quais músicas foram inspirações para as 1001 eleitas aqui e quais elas influenciaram.

“Era a angústia pós-adolescente… ressoando em milhões de pessoas”, tenta explicar Paul Simon, sobre o hino de toda uma geração, The Sounds of silence. “A fita tinha dois minutos de Satisfaction e quarenta minutos do meu ronco”, debocha Keith Richards, bem ao seu estilo, sobre como surgiu o riff da canção mais famosa dos Stones.

Claro, nem toda música que está ali você conhece, assim como nem toda faixa que você vai saber a história é a sua predileta já que cada canção é um pedaço de nós, com todos os ingredientes intimistas, sensoriais e afetivos que ela carrega. Assim, Hey Jude, o sucesso do fab four que mudou a minha vida para sempre pode não ser unanimidade para muita gente – o que eu acho um escândalo ululante – como Yellow, o single do Coldplay que é o símbolo de minha paixão pela esnobe Ana não seja importante ou signifique algo para alguém. Tanto é que ela nem entrou nessa coletânea.

“As músicas do meu pai eram minhas músicas, mas é claro que as minhas músicas não eram as músicas do meu pai”, brinca Visconti.

Mas se sua música não estiver ali não se desespere porque os editores de 1001 músicas para ouvir antes de morrer apresentam uma lista com mais 10.001 que não podem deixar de ser ouvidas. O lance é saber se você terá fôlego para tanto, ou melhor, resta saber se estaremos todos aqui ainda quando isso acontecer.

A seguir, drops sonoros informativos extraídos do livro com breves comentários meus.

Over the rainbow (1939) – Difícil de acreditar, mas a canção quase ficou de fora do filme, uma dessas cretinices que volta e meia ronda o mundo cultural. A melodia foi composta por Harold Arlen enquanto o compositor dirigia pela Sunset Boulevard, mas a canção símbolo do clássico O mágico de Oz pertencerá para sempre a agridoce, Judy Garland. Toda vez que eu ouço essa balada tristonha me lembro da minha sobrinha menor, que ama a Dorothy e o filme.

Sapore di sale (1963) – Cafoninha até a medula, essa canção italiana de Gino Paoli fazia parte da trilha sonora da minissérie, Anos rebeldes, atração que marcou minha adolescência. O arranjo é do mestre Ennio Morricone, músico que imortalizaria o universo musical dos filmes de Fellini. Apesar da letra solar que faz alusão ao verão italiano, a faixa foi composta pelo autor num momento difícil de seu relacionamento. Na época o cara até pensou em suicídio.

Like a rolling Stone (1965) – A canção pode não ser a mais famosa ou querida de Bob Dylan, mas com certeza é uma das mais importantes e emblemáticas de sua carreira, assim como do pop rock. Hipnótica, poética, ácida e com um ritmo envolvente, a canção e sua letra figurativa, cheia de imagens surrealista mira uma mulher esnobe, mas muitos dizem ser o próprio bardo. “Rolling Stone é a melhor música que escrevi”, resume o pai da criança.

Waterloo sunset (1967) – De longe minha canção preferida dos Kinks, a faixa segue o mesmo raciocínio proustiano de sucessos da dupla Lennon e McCartney como Strawberry Fields forever e Penny Lane. É uma homenagem nostálgica e melancólica ao pôr-do-sol londrino e todas as implicações sentimentais e pessoais que essa paisagem carrega. “Nunca trabalhei com uma música que tenha sido um prazer do início ao fim”, revelou Ray Davies, em 1984.

Suite: Judy blues eyes (1969) – Só fui entender o que realmente era o folk rock quando ouvi pela primeira vez Crosby, Stills & Nash e essa canção, que adorava tentar tocar com o meu amigo Solemar. Um arremedo de quatro outras composições do versátil e polivalente Stephen Stills, a música se tornaria um dos hinos do movimento hippie, assim como uma das trilhas sonoras de Woodstock.

One (1991) – Todo mundo sabe que o ídolo maior de Chris Martin (Coldplay) é Bono Vox e que sua banda é uma variação do grupo irlandês. De modo que essa canção é uma influencia vertical do sucesso Yellow dos meninos londrinos. Escrita em Berlim, num momento de crise entre os integrantes, a faixa tem referências ao mestre budista, Dalai Lama. “Nunca entendi porque as pessoas querem esta música em seu casamento”, lamenta Bono.

Champagne Supernova (1995) – Diga o que quiserem, mas os irmãos Gallagher e o Oasis são o símbolo maior do movimento britpop. Última faixa do monumental álbum (What’s the story) Morning glory?, esse híbrido de psicodelia pop e guitarras distorcidas traz a essência musical dos anos 90 na Inglaterra. Noel Gallagher revela que o título surgiu de uma confusão que ele fez com uma canção do Pixies. “Ela significa uma coisa diferente para cada um de nós”.

* Este texto foi escrito ao som de: Todas as faixas acima e outras tiradas do livro resenhado. (1939 – 1995)

Os poderes paranormais de De Niro

Em Poder paranormal o astro é um cego bancando ser João de Deus

Os superpoderes de Robert De Niro como ator há tempos andam desaparecidos. Que eu me lembre, a última vez que ele os colocou em cena foi ao lado de Quentin Tarantino, no “blackie” Jackie Brown. E estamos falando de 15 anos atrás. De lá para cá esse grande astro do cinema norte-americano só tem feito porcaria ou, na melhor das hipóteses, algo que não esteja à altura de seu talento e maestria como ator.

Escrito, produzido e dirigido pelo espanhol Rodrigo Cortés, o drama Poder paranormal se encaixa na segunda opção. Ou seja, é um trabalho interessante, mas não do tamanho, importância e talento de Robert De Niro. Na fita, ele é Simon Silver, alguém dotado de uma força sobrenatural respeitado no mundo inteiro que andava sumido do assédio de seus admiradores e da mídia depois que trágico acidente fatal cruzou seu caminho.

Após anos de reclusão e ostracismo voluntário ele está de volta, mas vai encontrar pelo caminho a acadêmica Margaret Matheson (Sigourney Weaver), uma cética especialista em desmascarar atividades paranormais que carrega um passado de amarguras e surpresas. Nessa cruzada contra os charlatões e falsos milagreiros ela conta com a ajuda do assistente Tom Buckley (Cillian Murphy) e sua deslumbrada namorada Sally (Elizabeth Olsen).

“Só porque você não pode explicar não quer dizer que é verdade”, contesta ela, toda vez que alguém bate de frente com seu ceticismo.

Tema universal e secular, já que não é de hoje que a humanidade é vítima desses vampiros da dor alheia, Poder paranormal coloca em questão os limites da fé e da manipulação da indústria do milagre. E não só isso. Questiona até que ponto pessoas fragilizadas e desesperadas por respostas que não tem explicações se deixam serem enganadas. “É possível fazer o maior número de mágica quando se olha para o lugar errado”, provoca o personagem do ótimo ator irlandês Cillian Murphy, mirando ciências da mente como ilusionismo, hipnose, telepatia e tantas outras.

No Brasil – uma nação inteira de crentes devotos e carentes desesperados de poderes sobrenaturais – personagens comoSimon Silver são personificados em figuras caricatas messiânicas, entre elas o santo milagreiro de Abadiânia João de Deus, herói de estrelas como Xuxa, Shirley MacLaine e Oprah Winfrey.

Nos meus tempos de guri a grande sensação do poder paranormal era o israelense Uri Geller que, volta e meia, aparecia no Fantástico entortando talheres, revelando objetos ocultos e parando ponteiros de relógio.

No filme de Rodrigo Cortés, Robert De Niro e sua persona enigmática é a soma de todos esses falsos heróis numa trama que se mostra envolvente e contestadora do começo até a metade, mas esbarrar na ridícula megalomania do cinema de Hollywood de querer explicar o inexplicável com pirotecnia visual e soberba infantil. A impressão que temos é que, em dado momento da fita o vilão Magneto, da saga X-Men, troca de enredo só para duelar com um rival cego.

De modo que, se você quer ver um bom filme sobre o grande teatro dos milagres e o circo da fé assista, Entre Deus e o pecado, filme de 1960 de Richard Brooks com o genial e lindo Burt Lancaster. Poucas vezes o conceito de deus e fé foi tão banalizado.

* Este texto foi escrito ao som de: Monster (R.E.M. – 1994)

Cinquenta tons de cinza e outras matizes

Será que Anastasia Steele é mais provocativa do que a bela da tarde?

“Toda mulher gosta de apanhar, quer dizer, só as normais, as neuróticas reagem”. A frase provocativa de Nelson Rodrigues, por mais preconceituosa e machista que seja, sintetiza a grande celeuma em torno do romance, Cinquenta tons de cinza. Afinal, porque tanto frenesi em torno do livro que já vendeu mais de 10 milhões de edições em todo o mundo?

A resposta é simples e clara como água mineral. Sexo vende meu chapa e não só por isso, é um assunto que desperta atenção, curiosidade, interesse de todos, até ao mais empedernido e careta do sujeito. Até a mais recatada e reprimida das mocinhas, o que me faz lembrar aquela cena contundente do filme Amarelo manga. É quando o diretor Cláudio Assis, no meio da trama, encarnando a si próprio, entra em cena e, cambaleante, resume. “O ser humano se resume a duas coisas: estômago e sexo”.

De modo que, por mais boboca e clichê que deva ser o livro, o que presumo diante de vários comentários que li sobre a obra, me rendi ao pecado do prazer e da curiosidade e vou ler também. Até por conhecimento de causa porque é um escândalo criticar sem conhecer. Mas desde já registro aqui que me espanta a fragilidade e o deslumbramento provinciano, a condição servil do ser humano diante do comum, do convencional, do repetitivo.

Sim, porque Christian Grey e suas aventuras sadomasoquistas não passam de mera fórmula reciclada de um assunto explorado a exaustão tanto pelo cinema, quanto pela própria literatura. E esqueçam o lado bizarro de seu relacionamento com a jovem Anastasia Steele. Mais do que chicotes, algemas e outros apetrechos do prazer, o que está em jogo aqui é o romance puro, ou seja, a paixão em sua mais genuína e autêntica forma.

Tudo bem, a mulherada quer, sim, uma trepada do século, mas também quer ser amada e se sentir desejada, se sentir o objeto de prazer de seu macho, mais do que receber, interessa a entrega de corpo e alma. De modo que, por trás da sacanagem burguesa e barata do conquistador de novela das oito de Cinquenta tons de cinza, esconde uma história de amor nos moldes dos clássicos folhetins do século 18 e 19, só que com uma roupagem mais pop, mais pobre e mais superficial, enfim, recheado com todos os ingredientes inerentes do vazio e banalidade dos tempos atuais.

Não sei não li o livro ainda, mas não acredito que a obra seja mais densa do que Os sofrimentos do jovem Werther, por exemplo. O livro de Goëthe escrito em 1774 foi o marco inicial do romantismo de seu tempo e levou milhares de jovens doentes de paixão, amor, ao suicídio. Precisa dizer mais?! Também não acho que o livro coqueluche da inglesa E. L. James seja mis asensual, erótico e quente do que as memórias da francesa Catherine Millet e o seu, A vida sexual de Catherine M.

Uma mulher da alta sociedade francesa dos anos 60, a tímida e recatada Séverine encontra prazer e vazão para os seus desejos mais pecaminosos ao encarnar a “Bela da tarde”, prostituta que dá título ao filme do provocador cineasta espanhol Luís Buñuel. Toda meiga e delicada, a linda Catherine Deneuve incendiou a imaginação de muito marmanjo de seu tempo com essa personagem.

Em E Deus… Criou a mulher, Brigitte Bardot é Juliette, uma jovem de dezoito anos com os desejos à flor da pele. Com seus pés descalços e silhueta provocativa, a garota é o céu e o inferno dos homens de um vilarejo e o interessante e irônico é que, ao contrário de Cinquenta tons de cinza, nada é explícito ou visualmente provocativo.

* Este texto foi escrito ao som de: Forever changes (Love – 1967)

A redescoberta do Clube da Esquina

O presidente bossa nova e a turma do Clube da Esquina

Só agora, com a remasterização de toda a obra de Milton Nascimento, é que comprei meu CD do Clube da Esquina. Sim, porque eu ainda não tinha o meu disco do Clube da Esquina. Para falar a verdade, acho que só eu é que não tinha ouvido por completo o álbum do Clube da Esquina e isso é um escândalo, uma vergonha ululante. Comprei primeiro o raríssimo, Milagre dos peixes, de Milton Nascimento, mas ainda não tinha o meu Clube da esquina.

Agora que eu tenho o meu Clube da Esquina ele não sai da minha vitrola sentimental, está lá como um lampejo sonoro incessante, marcante, contagiante e envolvente acariciando meus ouvidos, embalado meu inconsciente, minh’alma dormente. De modo que percebi que, como a chuva, o sorriso estelar da Lilian Tahan e a presença soberana das minhas sobrinhas, ele, o disco Clube da Esquina é um estado de espírito, uma entidade imaginária sonora e lúdica que preenche todas as minhas brechas, as minhas fendas cheias de dor e saudade.

Ao ouvir essa obra-prima da MPB, fiquei com vontade, assim, de pegar o trem azul com o sol na cabeça, com ela na cabeça, sentindo o vento das canções que não cansam de voar, de seguir, partir sem destino, sem rumo, sem dor, sem nada, sem eira nem beira.

Bom, a primeira vez que ouvi falar do Clube da esquina e os meninos que dele fizeram parte, ou seja, Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, entre outros, foi lendo Os sonhos não envelhecem, obra que conta a história desse movimento musical mineiro original e espontâneo deslumbrante. “Para que você não esqueça suas raízes mineiras”, escreveu uma amiga que me deu o livro de presente. E que presente.

E com certeza que nunca esqueci, assim como nunca vou me esquecer desse grande registro e suas canções marcantes, sucessos como Tudo o que você podia ser, Saídas e bandeiras (1 e 2), Paisagem da janela, Um girassol da cor do seu cabelo, e claro, a lírica, O trem azul.

“O que vocês diriam dessa coisa que não dá mais pé?/O que vocês fariam para sair dessa maré?”, canta a turma, bem mineiramente, em Saídas e bandeiras, numa clara alusão à barra pesada de se viver e ser artista numa ditadura.

O espírito do disco de 1972 é bem riponga, mais com um jeito hippie de ser bem mineiro, com toda a influência de Beatles, jazz, sons latinos, o folk rock do Crosby, Stills, Nash e Young e intimista criativo. E o ecletismo sonoro de o Clube da Esquina espanta, sobretudo porque é um som democrático que esparge ao sabor do amor à música, pelo gosto do encontro, da esquina onde a turma se reunia e que deu origem ao nome do movimento. Não é à toa que Juscelino Kubistchek abraçou o grupo de peito aberto.

Um som, diga-se de passagem, cinematográfico e por falar em cinema, foi por causa dos meninos do Clube da esquina que eu passei a prestar mais atenção em Truffaut e tudo por causa do amor incondicional da turma pelo romântico, Jules e Jim, a fita que mudou a vida de Milton Nascimento. E quer saber? O disco Clube da esquina também mudou minha vida. E para sempre. “Se você deixar o coração bater sem medo”.

* Este texto foi escrito ao som de: Clube da Esquina (1972)

V. B. (30) A fantástica fábrica de chocolate

Willy Wonka e seu rio de chocolate que influenciaria John Lennon

Odeio remake, acho que obras consagradas, cultuada e eternizadas não devem ser tocadas, mexidas, vilipendiadas. De modo que odiei a versão do Tim Burton para o clássico A fantástica fábrica de chocolate, um dos filmes que marcaram a minha infância naquelas gostosas sessões de tarde, da Sessão da tarde. Anos depois, comprei o DVD para a minha afilhada e hoje somos nós dois apaixonados pela cativante, sombria e enigmática figura de Willy Wonka.

E porque somos apaixonados pelo cativante, sombrio e enigmático Willy Wonka? Ora bolas, só por conta do versátil e carismático Gene Wilder e alguém aí ainda se lembra dele? Não?! Eu sim. De filmes como Primavera para Hitler, Banzé no Oeste, A dama de vermelho, entre outros. Acredite, Gene Wilder é a alma e a essência de A fantástica fábrica de chocolate, filme adaptado do livro de 1964.

Escrito pelo galês Roald Dahl, a obra se tornaria um sucesso instantâneo nas livrarias nos anos 60, descrito por especialistas como um livro de ficção científica para crianças. Eu não acho que seja um livro de ficção científica, mas sim, de fantasia e uma das melhores já escrita e adaptada para o cinema, demonstrando que a imaginação humana é um dos bens mais valiosos de todos, quando usada de forma positiva.

Na trama, Charlie (Peter Ostrum) é um menino pobre que rala muito para ajudar a sustentar a família miserável composta pela mãe e os avós maternos. Humilde, de coração puro, mas esperto, ele sonha em ser um dos sorteados para passear na fantástica fábrica de chocolate de Willy Wonka, um homem recluso que alimenta sua tristeza crônica dando alegria aos jovens com suas infinitas guloseimas.

Desejo realizado, lá está ele junto com outros garotos passeando pela fábrica de Mr. Wonka, descobrindo os segredos da criação de doces, chocolates, balas e outras doçuras que fazem a alegria das crianças e das cáries. Num passe de mágica, eles entram num mundo de fantasia habitado por anões, navegando num rio de chocolate, comendo pirulitos que brotam em árvores, chupando folhas de chicletes, enfim, mergulhados da cabeça aos pés, enfim, num enredo de alegoria e fantasia que deve ter sido um roteiro pronto para John Lennon escrever a letra da lisérgica, Lucy in the Sky in the Diamonds.

Colorido, recheado de doces metáforas sobre os bons costumes e os preceitos básicos da moralidade, valores simples de conduta que aprendemos desde a tenra idade, o filme foi recebido mal pela crítica e um fracasso estrondoso de público na época de seu lançamento em 1971. O autor do livro odiou tanto a adaptação de seu livro para o cinema pelo diretor Mel Stuart que proibiu outras aventuras do gênero com o resto de sua obra. Tanto que Tim Burton só conseguiria realizar sua versão desse clássico em 2005 por autorização da viúva de Roald Dahl.

Por ironia do destino, com o passar dos anos A fantástica fábrica de chocolate se tornaria cult, conquistando lugar de honra na galeria dos grandes trabalhos do gênero e no coração de milhares de crianças. Sobretudo pelas mensagens simples envolvendo temas universais como gula, egoísmo e soberba. Pecados estes protagonizados pelo elenco mirim, basta conferir a irritante e diabólica personagem Veruska (Julie Dawn Cole).

Uma curiosidade deliciosa. O jovem ator Peter Ostrum, que interpreta o personagem mirim central Charlie, encerraria sua carreira como artista aqui, para se dedicar à veterinária. Definitivamente os doces não lhe fizeram bem.

* Este texto foi escrito ao som de: Magical mistery tour (The Beatles – 1967)

Finalmente chuva em mim

Um anjo, como a chuva, com cheiro e gosto de saudade…

Chove chuva, chove sem parar, já cantava o mestre Jorge Ben e vou falar uma coisa para vocês, não tem nada na vida que eu mais goste na natureza do que essas gotas de refresco do céu. Sim, porque chuva refresca o corpo, refresca a alma, refresca nossos corações. Minha amiga que não gosta de musicais que me desculpe, mas qualquer dia desses, eu saio por aí dançando e cantando na chuva como o Gene Kelly.

Para mim, não existe nada mais puro, mais celestial e mais enigmático do que esse fenômeno dos céus, é como se os deuses do firmamento estivessem chorando ou algo assim. E tem também o elemento proustiano que as águas da chuva nos provocam porque o cheiro dela nos leva a nossa mais tenra infância, tem gosto de manhã, tem gosto de sal da terra, tem gosto de saudade.

As chuvas, cientificamente falando, veem das nuvens e nem todas atingem o chão, algumas se evaporam pelo espaço, de braços e abraços com o infinito horizonte, com o infinito além e eu só me lembro daquela canção da banda escocesa Travis. “Porque sempre chove em mim?/Será que é porque eu menti quando tinha 17 anos?”.

Sim, eu queria também ter mentido aos 17 anos, queria que chovesse para sempre em mim, que os dias de sol, de calor intenso e suor irritante não voltassem mais, só para me sentir frio, fresco, com saudade da minha infância, com o cheiro do sal da terra em minhas narinas, em minha alma. “Chuva (…). É só um estado da mente”, canta os Beatles na psicodélica Rain. “Eu posso te mostrar que quando começa a chover tudo é a mesma coisa”.

Em países quentes como a Índia de Gandhi, a chuva é símbolo de alegria, com poder relaxante, elevando o humor das pessoas. Sim, a chuva cinza e negra que cai do céu tem colorido em nosso espírito, colore nossa alma, nosso sorriso. Em Botswana a chuva é usada como medida monetária devido à importância que ela tem na economia do país, para a agricultura do país, para o povo quente, suado de Botswuana.

Aliás, sem chuva, não teríamos agricultura, o alimento de cada dia em nossas mesas, enfim, o pão nosso de cada dia é refém da chuva porque é ela que refresca a terra, refresca as raízes, ajuda a adubar o chão, fermentar o solo.

Gosto da chuva porque ela é molhada, porque ela é refrescante, porque ela é contagiante, com seu cheiro de saudade, com sem som cíclico e relaxante. Queria que, como na canção do Travis, chovesse eternamente em mim porque o gosto de chuva em meu rosto me acalma. Lennon e McCartney tinham razão, chuva é um estado de espírito, uma razão de ser. Por isso que me sinto tão bem quando chove, quando sinto o cheiro da chuva, quando vejo minha calçada molhada com a água da chuva.

Uma noite, sonhei que um anjo com sorriso estelar no rosto andava na chuva como quem passeia pelo céu de nuvens de algodão. O dia estava cinza como uma manhã londrina, como as tardes folclóricas de Buenos Aires, como a manhã lírica e distante das minhas infâncias. Era uma criatura enigmática como o anjo do senhor, como o anjo que incendeia meu coração com seu amor platônico, um anjo que corria com os pés descalços e um guarda-chuva nas mãos. Um anjo, como a chuva da minha infância, com cheiro e gosto de saudade.

* Este texto foi escrito ao som de: The man who (Travis – 1999)

Cosmópolis de David Cronenberg

Na fita, Pattinson não é o vampiro do amor, mas o capitalismo…

O cinema do canadense David Cronenberg incomoda. Não apenas pela natureza enigmática de suas tramas que sempre nos deixa com o ligeiro desconforto de que não entendemos nada. Mas, sobretudo, por conta daquela pulginha atrás da orelha que nos acompanha quando saímos de uma sessão de seus filmes. Pode conferir: Videodrome – A síndrome do vídeo (1983), Mistérios e paixões (1991), Spider – Desafie sua mente (2005), entre outros de sua filmografia são todos assim. Cosmópolis, em cartaz na cidade não é diferente.

É a história de um jovem milionário que corta de lado a lado Manhattan numa enorme limusine com piscina, praia artificial e jacaré. O carro de luxo é sua casa, seu escritório, seu consultório médico, seu prostíbulo, enfim, sua vida e é dentro dessa mansão do pecado móvel que ele, um autêntico yuppie, movimenta bilhões, se cerca de cifrões, grandes jogadas financeiras.

“Um rato torna-se a unidade monetária”, resume o diretor no início do filme, evocando frase do livro homônimo de Don DeLillo, obra que deu origem à fita.

A partir desse argumento centrado, recorte bastante sintomático dos dias atuais, do admirável mundo moderno em que escondemos, onde o excesso de informações e a força do dinheiro, enfim, do sistema monetário ditam as regras, é que Cronenberg traça sua teia reflexiva, urdido comentários irônicos e grotescos acerca da perda dos valores, da ganância desmedida dos seres humanos e da falta de limite que esses ingredientes acarretam.

“Talento é mais exótico quando desperdiçado”, diz um dos personagens.

E esse sentimento de incômodo e desconforto do diretor diante das regras tortas do mundo moderno está nitidamente expressado na figura do ator inglês Robert Pattinson, o ícone vampiresco da saga Crepúsculo que surge aqui como provocação do diretor diante do capitalismo cinematográfico. “Um filme é sobre um grande rosto na grande tela”, disse David Cronenberg durante o Festival de Cannes deste ano, onde o filme era um dos destaques. “Precisava de um ator com um grande rosto, bom o suficiente para encher uma tela. É preciso entender que seu personagem é o símbolo vampiresco do capitalismo, mas, ainda assim, é um ser humano real, com história de vida e passado”, discursou.

Não o vampiro do amor, mas agora, sim, um vampiro do capital, Parttinson encarna com propriedade e vigor esse personagem frio, arrogante e soberbo. Vivendo em seu mundo paralelo, a única coisa que ele interessa no momento é cortar o cabelo, um detalhe mais importante para ele do que a visita do presidente à cidade. “Ainda atira-se em presidentes?”, provoca.

Assim, no decorrer de um dia, Eric Packer (Parttinson) corta a cidade com um único objetivo, chegar ao salão afetivo de um passado que não volta mais, o paraíso pessoal de sua existência, mas até chegar lá, ele terá que atravessar uma cruzada nonsense formada por situações grotescas, diálogos surrealistas, assassinatos à queira-roupa e personagens dúbios, entre eles o desafeto Benno Levin (Pau Giamatti em mais um desempenho impecável).

“Minha situação mudou no decorrer de um dia”, lamenta.

Instigante e perturbador, Cosmópolis, sim, como em outras histórias de David Cronenberg, nos deixa com aquela pulguinha insana e matreira atrás da orelha, nos instigando a perguntar o que diabos foi o que acabamos de ver.

Contudo, como todo produto artístico é um arremedo de sensações e referências, afetivas ou pessoais, alguns diálogos e passagens do filme me tocam como aquela em que o personagem de Pattinson enraba a deliciosa Juliette Binoche em sua limusine de pecado e poder. A cena me fez lembrar a minha musa esnobe cheia de sardas, tão suculenta como a linda atriz francesa. O raio é que eu não tenho uma limusine com cascata artificial, jacaré e piscina. Ah, sim, e eu também não sou o Robert Pattinson.

* Este texto foi escrito ao som de: The suburbs (Arcade fire – 2010)