Jukebox S. – Try and Love again

Eagles 2

Os meninos da Califórnia, embalando sonhos infantis…

Ontem passei à tarde inteira com minha sobrinha caçula de três anos. Nós dois nos divertimos muito naqueles brinquedos de shopping, fomos ao cinema ver as aventuras dos Croods, que é bom à beça, lanchamos no McDonald’s. No calor do momento nos abraçamos carinhosamente e, toda vez que ela dizia, perguntando, se tinha sido “divertido”, era como se eu andasse em nuvens de algodão.

E por falar em nuvens de algodão, outro dia, voando rumo à praia, ele viu as nuvens da janela do avião e fez um comentário cheio de sinceridade infantil e lirismo: “nossa titio, parece algodão doce!”. He, he, he, achei o máximo.

Minhas duas sobrinhas são tudo para mim, elas me mantém vivo, me fazem ver a vida de uma forma mais simples e colorida. São dois anjos sem asas iluminando meu caminho, me dando paz de espírito e me fazendo querer ser alguém melhor, pelo menos para elas. E é o que tento fazer o tempo todo. E porque estou dizendo tudo isso?

Porque a baladona Try and love again é o tema de ninar da minha pequena, quando só eu a fazia dormir, embalada, nos meus braços, ao som dos Eagles, mostrando que as canções de ninar também são pop.

E, apesar de ser uma canção de amor, estes versos diziam muito sobre esse momento mágico que vivíamos quando a pegava no braço e a fazia dormir. “Olhar estava nos olhos dela/Você nunca sabe o que pode ser encontrado lá/Ela estava dançando no tempo/E os olhares ela fez tão bem/Como a música que a cerca”.

Nem sei por que escolhi essa canção, acho que é porque estava escutando o disco da banda na época, Hotel California. Ele estava à mão, bem ali, perto do som e, toda vez que ela ficava agitada, chatinha, querendo dormi e sem consegui, eu colocava o disco e a guria ficava estática ao ouvir a introdução de guitarra de Try and love again. Sim, arregalava os olhos e ficava imóvel, abraçando forte o macaco Chico, seu bichinho de pelúcia de estimação.

Ela dormia como um anjo que ela era e é, bem aqui, dentro de mim… Try and love again será para sempre a nossa canção de ninar, a canção tema da infância da minha sobrinha caçula.

* Este texto foi escrito ao som de: Try and love again (The Eagles – 1976)

Eagles

Mick Jagger e Doca Street na cadeia

Presídio Vieira Ferreira Neto, Niterói, cenário de Clip dos Stones nos anos 80

Presídio de Niterói, cenário de clip dos Stones nos anos 80

No segundo semestre de 1984, Mick Jagger e os Stones desembarcaram no Brasil para uma série de atividades. Uma delas, com agenda marcada no Presídio Vieira Ferreira Neto, em Niterói (RJ), para a gravação de um thriller que consumiria três dias de filmagens.

Impressionado com o desenho do prédio e seu interior, o cantor britânico se sentiu à vontade para dar umas voltinhas pelo pátio, entre os presos, quando esbarrou com um detento bastante educado que levava debaixo do braço uma edição de O falcão maltês, de Dashiell Hammett. O sujeito em questão era Raul Doca Street, playboy da alta sociedade paulista, condenado a 15 anos de prisão pelo assassinato da socialite Ângela Diniz, em 1976.

“Oitenta internos participaram da produção. Ficaram encantados com Mick Jagger, que, ao contrário do que tem feito com a imprensa, foi carinhoso com todos”, narra Doca Street em seu livro de memórias, Mea Culpa. “No último dia, em agradecimento, Mick Jagger fez um show para nós. Instalou caixa se som e luzes de todas as cores que, no interior daquela construção antiga de grades e concreto escurecido pelo tempo davam uma impressão incrível”, relembraria Street.

Curiosa essa história pescada no livro que terminei de ler outro dia. Já disse que a motivação para essa leitura foi a figura Doca Street - Mea Culpado jurista Evandro Lins e Silva, um dos maiores nomes do Judiciário que teria defendido o assassino alegando a “defesa da honra”. Defesa essa, diga-se de passagem, que causaria polêmica entre as feministas. “Quem ama não mata”, era uma das várias faixas empunhavam por elas em frente à cadeia de Búzios, onde Street passaria uma temporada.

Bom, ao ler Mea culpa, me lembrei de outras histórias de prisão, detentos, fugas, embates entre carcereiros e presos que li como, Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, e Pappillon, de Henri Charrière, dramático relato do contraventor francês na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa.

No livro que lançou pela editora Planeta, em 2006, depois de 10 anos que cumpriu sua pena, Doca Street – que até tem um texto legal -, narra episódios marcantes desse período negro de sua vida. Claro, como o título diz, ele faz uma mea culpa do crime que cometeu, confessando sua natureza ciumenta e machista, a falta de tato para lidar com uma mulher tão moderna diante da visão provinciana de encarar a vida, além de nutrir um profundo arrependimento.

Mas com algum tempo de leitura ficamos enfastiados com esse discurso um tanto quanto piegas. Bom mesmo são as recordações do autor da época em que esteve preso, com uma descrição impressionante, viva, cinematográfica da rotina nos presídios em que ele esteve, enfim, dos perigos quem enfrentou, dia e noite, das amizades que fez ali, da angústia do catre.

Acredite meus caros, a vida de Doca Street, para o bem ou para o mal, daria um filme no mínimo interessante.

* Este texto foi escrito ao som de: She’s the boss (Mick Jagger – 1985)

Mick Jagger - The Boss

Jack – O caçador de gigantes

Cuidado que o bicho papão aí vai comer você!

Fi, fai, fou, fão! Cuidado que o bicho papão aí vai comer você!

Fi, Fai, Fou, Fão, hoje é dia de diversão, hoje é dia de Jack, o caçador de gigantes, uma marcante fábula de aventura que estreia neste feriadão. Espero que vocês não tenha se zangado com os meus versos, mas o filme é uma eletrizante adaptação da clássica fábula, João e o pé de feijão.

E quem não conhece a história do menino que vai à cidade para vender uma vaca e volta para casa com feijões mágicos no bolso? “Não são feijões comuns, eles têm o poder de mudar o mundo”, diz um frade, em apuros, que os vendeu. “Eles têm gosto de magia negra”, avisa. Assim tem início a mais nova aventura do diretor dos super-heróis, Bryan Singer, de longe, para mim, um de seus melhores trabalhos.

Adaptação do conto infantil original popularizado por Joseph Jacobs em 1890, a história no cinema, com suas gruas virtuais e cenas de videogame, ganha versão impressionante porque o diretor faz uso dos incômodos efeitos em 3D e mirabolantes efeitos especiais de forma inteligente.

Não há como ficar deslumbrado com a poderosa força visual de Jack, o caçador de gigantes. O detalhe do close no rosto desses monstros horrendos, metralhadoras de fechas, um castelo esfacelado por gigantes arbustos, enfim, raízes frondosas, galhos ramificados que surgem do nada, como metáforas das contradições que rondam o ser humano.

Claro, até por ser um produto hollywoodiano, a moral da história original é um pouco sufocada pela futilidade de temas saturados na Meca do cinema como o eterno duelo entre o bem e o mal, aquele romance básico entre os heróis da fita.

Mas, tirando isso, a trama flui de forma soberba, nos fazendo roer as unhas do quanto que envolvemos com a aventura, de tão tenso que ela é, lá em cima, no cume do céu, no topo do mundo, juntos com os gigantes do título.

Que bom que o cinema espetáculo não é feito apenas de mediocridade.

* Este texto foi escrito ao som de: Standing on the shoulder of giants (Oasis – 2000)

Oasis - Giants

Da fuga dos amantes!

E ela me faz tão bem, preenche meus vazios...

E hoje ela me faz tão bem, preenche meus vazios…

Há muita vida dentro de mim para pouco tempo que tenho pela frente, isso quando não estou pensando em besteiras como morte e suicídio. Bom, mas não é das cinzas que nascem as flores, o amor, a vontade de viver? Hoje estive com ela mais uma vez e foi tão mágico, tão envolvente, tão inebriante… Abraços trocados, beijos molhados, desejo à flor da pele sorrindo sob um céu rubro e frio, enfim, com nuvens de chuva velando o amor proibido dos amantes. E por isso mesmo, por ser proibido, que é tão gostoso, tão excitante, perigosamente inesquecível.

Em minha opinião o mundo deveria ser feito só de amantes e amores proibidos porque a rotina da relação é entediante e dá câncer, estraga qualquer união, seja ela de que tipo for. Sim, a vida deveria se resumir a uma página de Nelson Rodrigues, a um conto de A vida como ela é…

…E lá estava ela com seu cheiro de desejo e pecado afagando minha fragilidade humana. Só porque sou alguém cheio de buracos, volta e meia ela vem e chega como um anjo lírico me preenchendo com seu sorriso faceiro e alegria de ser. E ela me conhece bem, me protege como se eu fosse uma folha perdida de outono no vento. Hoje, meus melhores dias são ao lado dela e são tão poucos e se fossem muitos, não seriam os melhores.

Contra a rotina da relação, a fuga dos amantes!

Ouço uma canção dos Lumineers que descobri ali por acaso, de bobeira, na Livraria Cultura. Paguei caro, mas valeu à pena porque são canções folk singelas que espargem em minha mente, me fazendo querer estar dentro dela, escondido, como uma semente de sonho realizado.

Felicidade é… Estar ao lado de quem nos faz bem…

* Este texto foi escrito ao som de: The Lumineers (2012)

The Lumineers

Rodrigo Santoro é Heleno de Freitas

O ídolo do Botafogo foi o primeiro craque problema   do futebol brasileiro

O ídolo do Botafogo foi o primeiro craque problema do futebol brasileiro

As gerações mais recentes, perdidas em traquinagem bestiais virtuais, não devem saber, mas o primeiro jogador problema da história do futebol brasileiro foi o mineiro Heleno de Freitas, botafoguense de coração que batia um bolão dentro de campo e era uma fera fora dos gramados. Bonito, charmoso, de família tradicional rica e ídolo do futebol, o craque alvinegro colecionou ao longo da curta trajetória de 39 anos, muitas confusões e amores também.

Bom, as aventuras e quiproquós em que se meteram o jogador foram narrados com toques de poesia e precisão narrativa pelo cineasta José Henrique Fonseca – filho do grande romancista Rubem Fonseca – em Heleno, que só agora tive a oportunidade de ver.

Confesso que não esperava tanto do filme, mas me emocionei com a fotografia nostálgica em preto em branco que insere, com propriedade, o galante jogador num Rio de Janeiro romântico, marcado por certa inocência e paisagem bucólica.

E o que dizer da atuação visceral e entrega perturbadora de Rodrigo Santoro em cena, um colosso de beleza física e talento? Sim, porque não há como ficar perturbado ao ver sua imagem de Apolo inatingível se desmanchar num verdadeiro farrapo humano desdentado, magro e sujo, na caracterização perfeita dos últimos anos de vida de Heleno de Freitas no sanatório de Barbacena, onde passou seus últimos anos de vida, até morrer, em 1959.

“Eu nunca pensei que fosse te ver assim”, disse a mulher ao vê-lo fenecer lentamente.

Gênio temperamental, Príncipe maldito, Heleno de Freitas vestiu a camisa do América do Rio, Vasco da Gama, Santos, do argentino, Boca Juniors, mas foi no glorioso Botafogo onde fez sua glória. “Minha vida é o botafogo”, dizia, com paixão arrebatadora. “Eu não sou jogador de futebol. Sou jogador do botafogo”, arrematava.

Claro que a imagem de Heleno de Freitas no cinema é uma personificação romântica, mas nem por isso menos real e apaixonante. É por isso que não vejo mais futebol hoje, os craques do momento não passam de meros fantoches da mediocridade.

* Este texto foi escrito ao som de: Penthouse serenade (Nat King Cole – 1952)

Nat King Cole

Meu adeus tardio a Emílio Santiago!

Para mim nosso Chet Baker negro...

Para mim, eternamente, nosso Chet Baker negro…

Emílio Santiago morreu, mas isso todo mundo já sabe ou pelo menos quase todo mundo. O que poucos talvez não saibam é que se leva uma vida inteira para perceber que algumas perdas são irreparáveis e que, às vezes, só nos damos conta quando isso realmente acontece.Pois bem, levei uma vida inteira para perceber, entender, reconhecer o talento e a importância de Emílio Santiago para a MPB, para as nossas vidas. O que realmente aconteceu só quando soube de sua morte naquela quente manhã pernambucana. E mesmo assim, só fui assimilar esse fato triste, dias depois. O ser humano é assim, só sabe da existência do outro, paradoxalmente, após o seu desaparecimento, o que é bastante estranho.

E o que eu sabia sobre Emílio Santiago era muito pouco diante da grandeza que ele foi como artista, um dos mais elegantes que a música brasileira já viu, diga-se de passagem. Sorriso largo, contagiante, beleza negra à flor da pele, voz aveludada que embalava interpretações emocionantes como a marcante Saigon. E ser intérprete é isso, ou seja, tem que ter muita alma, muito sangue, vide Ella Fitzgerald, Billie Holiday, a nossa eterna pimentinha Elis Regina.

“Sempre gostei muito de fazer ao vivo do que em estúdio”, confidenciou ao jornalista Chico Pinheiro no programa Sarau de 2010, que comemorava os 40 anos de sua carreira.

E, até eu que não sabia quase nada da trajetória do cantor carioca que começou a carreira, motivado, veja só, entre outras coisas, pela batida de João Gilberto, me sensibilizava com aquela pegada jazzística, aliado a um sambalanço envolvente.

E gozado, não sei porque, mas achava que por conta da sua voz suave, sempre o associava ao trompetista Chet Baker, que cantava como uma seda. Taí, para mim, o Emílio Santiago é o nosso Chet Baker negro.

* Este texto foi escrito ao som de: Emílio Santiago (1975)

Emílio Santiago 2

Júlio Barroso – Marginal conservador

Banda Gang 90 em sua formação original...

Banda Gang 90 em sua formação original…

Ao ver o amigo Júlio Barroso, há tempos, com aquele pertinente dente quebrado na boca, o então baterista Lobão, com sua famigerada sutileza de um elefante numa loja de porcelanas sapeca:

– Cara, pô, a gente tá vivendo uma paúra, tá certo, fazer rock ‘n’ roll no Brasil é difícil, mas isso é falta de grana?!

Ofendido, o líder da seminal Gang 90 devolve sem pestanejar:

– Que isso, rapaz, isso é um marco na minha vida porque foi no dia da morte do John Lennon, eu bebia e chorava, bebia e chorava, teve uma hora que não consegui segurar a cabeça e quebrei o dente. Não vou mexer nisso nunca!

O episódio, absurdo e hilário ao mesmo tempo, ajuda a ilustrar a louca personalidade do genial poeta, DJ e agitador cultural Júlio Barroso, morto precocemente aos 30 anos, em 1984, depois de cair da janela de seu apartamento, num acidente que até hoje paira a dúvida do suicídio.

Inquieto, anárquico, louco, nerd, criativo, antenado, mas também alcoólatra e drogado e, acima de tudo movido por contagiante sede de novidade, Barroso, com sua cara de bancário, foi um dos pioneiros do rock nos anos 80, quando fundou, no início da década, no Rio de Janeiro, a divertida Gang 90 e As absurdettes, banda pioneira do movimento no país.

Eu sempre tinha ouvido falar dessa figura ímpar do pop rock nacional, mas algo superficial, na superfície mesmo, embora tivesse consciência de sua importância. Relevância que constatei de vez ao assisti, outro dia, no canal Bis, o documentário Júlio Barroso – Marginal conservador.

Simples, curto, mas precioso no conteúdo e nos depoimentos, o filme traça um conciso perfil do artista, que foi assim, uma espécie de aglutinador da cena cultural carioca da época.  Tanto é verdade que na visceral e poderosa autobiografia que escreveu, recentemente, Lobão o homenageia num capítulo inteiro, fazendo questão de narrar, em detalhes, a bizarra passagem da carreira de cocaína em cima do caixão do amigo.

E é justamente ele, Lobão, junto com os jornalistas Okky de Souza, Antônio Miguel, além de antigos integrantes da banda, os narradores dessa história que começa no final dos anos 70, início dos anos 80, com uma estadia delirante de Barroso no underground mais obscuro da cosmopolita Nova York, mas precisamente no “wild side” de Lou Reed.

Foi ali que, maravilhado com a vitalidade de Kid Creole and the Coconuts, banda formada por um criolo americano alto, elegante, de origem caribenha, e suas backing vocals gostosas, que ele teve o insight de montar seu grupo musical no Brasil ao lado da gatinha holandesa, Alice Pink Pank e do eterno amigo Lobão, que entrou por acaso nessa brincadeira. O resto é história meu chapa.

* Este texto foi escrito ao som de: Essa tal de Gang 90 & As Absurdettes (Gang 90 – 1983) 

Gang 90

Jukebox sentimental – Morning bell

Caricatura de Thom Yorke, líder do Radiohead...

Thom Yorke, do Radiohead…

Outro dia, Pablo honey, o primeiro disco do Radiohead, uma das minhas bandas prediletas, completou 20 anos de estrada e parece que foi ontem. Sim, parece que foi ontem que eu pentelhava minha professora de inglês para traduzir letras da banda que me amarrava como Creep – deste primeiro registro – e outras de trabalhos posteriores como Fake plastic trees, Paranoid android e tantas outras. Isso porque a internet ainda estava engatinhando e não tínhamos a velocidade da informação dos dias de hoje.

Está aí uma coisa que sempre associei com a banda inglesa de Oxford, ou seja, tecnologia, o futuro e nem tanto pelas músicas, que são de uma melancolia tétrica de rachar o coração, paralisar o cérebro, mas talvez pelo visual das capas dos discos.

Enfim, e de todas as músicas escritas pelo atormentado Thom York, a que mais me assombra, pela tristeza sincera, é a lenta, arrastada, claustrofóbica e pungente, Morning bell, com aqueles sininhos budistas de deixar qualquer alma doente, cinza. “O sino da manhã/O sino da manhã/acenda outra vela e me liberte/Me liberte”, canta Thom Yorke, em profundo desespero.

Houve um tempo em que essa canção caía em meus ouvidos como espinhos da coroa de Cristo por causa de um coração partido. Ela tinha sardas brilhantes no rosto, um sorriso mágico na face e me quebrou em mil pedaços com seu desprezo infantil e doentio. Quem passasse por aquela calçada da dor de meu amor podia catar meus cacos e, para aliviar esse sofrimento inerte eu escrevia dia e noite, noite e dia, loucamente, sem parar, sem cessar.

Um dia, desse desespero nasceu um roteiro sobre a história de amor de Pedro e Amanda que se resumia na sinopse simplória e melodramática: “Pedro que amava Amanda que não amava ninguém”. Nos primeiros minutos da trama, surge um sujeito em agonia atravessando o Eixão em sentido contrário, em prantos, com Morning Bell como trilha sonora.

“Eu queria te contar, mas você nunca me ouviu/Você nunca me entendeu/Eu queria te contar/Mas você nunca me ouviu/Você nunca entendeu/Porque eu estou andando, andando, andando…”, diz outro trecho da canção cantada aos gritos pelo menino caolho de voz esganiçada.

E a letra na época me parecia tão direta, real e verdadeira…

…E ainda hoje ela parece real e verdadeira, por isso dói ouví-la…

* Este texto foi escrito ao som de: Morning Bell (Radiohead – 2001)

Morning bell

De que inferno saiu o Marco Feliciano?

Ferro na bonequinha do senhor aí...

Ferro na bonequinha do senhor aí porque ela não está com nada…

Ao ler entrevista na última Veja do pastor e deputado paulista Marco Feliciano me fiz a pergunta cretina de si para si: de quais dos infernos saiu esse camarada? Sim, porque parece que ele ainda vive na idade das trevas e não sabe. Alguém aí pode dá um toque nele, por favor? Mas dê um toque de clave porque ele merece isso e muito mais. Francamente, né, é desse tipo de gente que me faz lembrar sempre daquela frase que abri o filme Os doze macacos, do Terry Gillian, que cito aqui toda vez que sinto minha dignidade atacada: “A raça humana deveria ser extinta da face da Terra”.

Por isso que sempre digo, poder na mão de patuscos como esse é que é um perigo medonho. Coitado, na verdade ele é digno de pena e sinto muita vergonha alheia por ele. Fico pensando nos monstrinhos do “senhor” que as filhas deles irão se tornar no futuro, mas é claro que isso não é problema meu.

Agora o preconceito e as estultices ditas por ele, sim, diz respeito não só a mim, mas a toda sociedade brasileira que tem esse facínora e crápula da moral como representante do povo de “deus” no Congresso. Até porque, a bonequinha metrossexual da Assembleia de Deus faz sobrancelhas e progressivas com o dinheiro de contribuintes como eu e você. Ou seja, pagamos para ele se enfeitar como um pavão da imoralidade cristã e subir no púlpito do poder para falar e dizer o que quiser, mesmo que seja um turbilhão de bobagens como suas declarações homofóbicas e racistas. Que nojo!

Sabe, tenho ojeriza, ódio mesmo de pessoas que fazem uso da Bíblia, da “palavra de deus”, do fato de serem religiosas para defender ideias hipócritas. Até porque as pessoas mais religiosas, as mais tementes às forças divinas é que são as mais preconceituosas, hipócritas e indecentes. Tomo por base a minha família, um bando de mineiros católicos pseudo crentes, se despedaçando de hipocrisia e preconceito.

É por essas e outras que me afastei da Igreja, do “Senhor”, de tudo. Só para não ser escravo da ignorância e da injustiça. Na boa, me dá urticária essas pessoas que se acham santas, corretas e certinhas só porque dobram os joelhos todos os dias numa ladainha sem fim, mas com a fé verdadeira e consciente lá longe, uma fé de papelão que vai embora com a primeira água da chuva.

E o que precisamos meus irmãos e irmãs, é de mais fé verdadeira e consciente, enfim, muita sabedoria cristã para seguir em frente porque a vida não é e nunca foi fácil. A vida é uma barra. “A velhice, dizem, é a fonte da sabedoria. Vamos doar nossa sabedoria aos jovens”, declarou recentemente o Papa Francisco, o simples. Estou com ele e não abro mão.

Por isso que fogueira no Marco Feliciano que ele merece.

* Este texto foi escrito ao som de: The next day (David Bowie – 2013)

David Bowie - The Next day

Vai que dá certo… E não dá…

Comédia recicla humor de televisão...

Comédia recicla humor de televisão ao apostar no nonsense

Alguns amigos meus têm ojeriza do Bruno Mazzeo. Mas, pô, o cara é filho do genial Chico Anysio e o filho do mestre que deu certo, vamos assim dizer. Então porque essa birra com o cara? Tudo bem, se ele só representar 5% do que foi o pai já acho grande coisa porque poderia ser um Julian Lennon da vida, ou seja, zero a esquerda. E foi mais ou menos com esse raciocínio que fui ver outro dia a comédia Vai que dá certo, mas me estrepei porque o filme é fraco.

Sim, é fraco porque é mais uma daquelas produções recentes do cinema nacional feitas por coleguinhas, filme de turma, se é que vocês me entendem e às vezes esses grupinhos fechados acabam trocando alhos com bugalhos. Confesso que eu fosse encontrar algo na linha de, E aí comeu?, mas o que vi foi um decalque boboca do formidável argentino, Nove rainhas.

Mas o Bruno Mazzeo não tem culpa de nada porque ele é apenas um ator coadjuvante numa trama recheada de situações ridículas e, de tão absurdas, chega a ser engraçadas. A culpa é do diretor Maurício Farias (filho de Roberto Farias e sobrinho de Reginaldo Farias) que, de um jeito ou de outro, acaba levando para as telonas os tiques, traquejos, vícios e ranços da televisão, o que é uma merda. Mas fazer o quê se parte dos cineastas de hoje usam a tevê como trampolim para o cinema?

Na trama conduzida por Danton Mello e Lúcio Mauro Filho, um grupo de amigos de escolas se vê a perigo quando percebem o tamanho da encrenca financeira que se encontram. Mais ainda ao se frustrarem com a crise dos trinta, antes de chega aos quarenta. “Dizem que a vida começa aos 40… A nossa já terminou aos 30”, debocha o personagem de Danton Mello, um músico em crise no casamento e na profissão.

Para revolver o problema financeiro de todos eis que eles se metem a roubar um carro forte, mas acontece que o seria um plano perfeito acaba virando uma sucessão de erros onde o nonsense passa a ser a grande atração. “O banco rouba a gente todos os dias”, diz um deles, ao justificar o repentino desvio de conduta.

Típica comédia paulista metida à besta, Vai que dá certo só se salva pelos diálogos espirituoso criados por Fábio Porchat, o novo queridinho da comédia brasileira, mas não o meu, não mesmo. Para ser sincero, Marcelo Adnet e Bruno Mazzeo colocam qualquer um no chinelo, tanto o fraco Danton Mello, que nem de longe é a sombra do irmão Selton Mello, assim como o paspalhão Lúcio Mauro Filho, com seus indigestos olhos esbugalhados.

O que adianta a piada ser boa se não saber contá-la.

* Este texto foi escrito ao som de: Cabeça dinossauro (Titãs – 1986)

Cabeça dinossauro