Meu Deus, tem um chinês aqui em casa!

O astro argentino Ricardo Darín aprende a lidar com as diferenças em Um conto chinês

Bem, Erasmo Carlos não apareceu por lá, mas uma festa de arromba marcou a inauguração do complexo Espaço Itaú de Cinema, ontem (29), no CasaPark. O evento foi prestigiado por toda a classe cultural da cidade. Substituindo o antigo projeto Embracine, o novo point cinematográfico de Brasília promete agradar a gregos e troianos, com uma programação de luxo que irá contar com produções super comerciais, filmes de arte e obras de países que mal sabemos existir no Mapa Mundi.

Uma pitada do que vem ser a programação do espaço, foi a exibição, ontem, para convidados, de três filmes bacanas que vão entrar em cartaz, no circuito do Espaço Itaú de Cinema, a partir do dia 09 de dezembro: Um conto chinês, O garoto da bicicleta e Minhas tardes com Margeritte. Desde já, um belo presente de Natal para os cinéfilos brasilienses.

Eu passei por lá só para conferir o filme argentino Um conto chinês, protagonizado pelo meu ídolo Ricardo Darín, o homem mais charmoso das bandas de cá. De uma simplicidade incômoda, a película, dirigida por Sebastián Borensztein, se apropria de enredo absurdo para falar das coisas simples da vida, como a amizade e a intolerância diante do diferente.

A história, por mais insólita que possa parecer aos espectadores, aconteceu de verdade na Rússia. Após passar por trágica situação em sua terra natal, a China, Jun (Huang Sheng Huang), parte em busca de um parente distante que vive na Argentina. As coisas dão erradas no meio do caminho e de repente ele se vê sozinho num país onde não conhece ninguém e mal sabe dizer oi na língua local. O seja, o China está em maus lençóis.

Mas não por completo, já que ele cai nas graças do rabugento, eremita, mas sensível e bondoso Roberto De Cesare (Ricardo Darín), ex-combatente da Guerra das Malvinas, agora dono de uma loja de ferramentas que fez da solidão e do mau-humor, seu estilo de vida. “Uma merda”, responde, toda vez que alguém pergunta como ele está.

E ele quem socorre o chinês perdido em Buenos Aires até o infeliz encontrar seus parentes na grande cidade sul-americana. Claro, faz isso contrariado, por não ter alternativa, por ter o coração de manteiga por baixo daquela carranca de pedra que ele vê todos os dias no espelho. “Não estou acostumado a ter companhia”, confessa diante do seu problema.

Como todo filme argentino que se preze, Um conto chinês encanta pela forma singela como desenvolve grandes temas, no caso aqui, o da amizade, mas adornado por pequenos elementos da vida como a grande dificuldade que temos de lidar com o que é diferente, com aquilo que não faz parte do nosso meio, da nossa patota. “Olhe os cabelos deles, são milenares”, diz uma vizinha do ranzinza Roberto, espantada com a figura do chinês, num jantar de família.

Você até pode achar que o personagem vivido por Ricardo Darín parece fácil de fazer e que está careca de ver tipos assim em um filme aqui ou em outra novela ali, mas interpretado pelo talentoso ator, ganha uma elegância a mais, sobretudo quando ele transita por paisagens deslumbrantes dos bairros da capital argentina, como o elegante Palermo Viejo, um dos cenários da fita.

Meio enredo de Federico Fellini – preste atenção nas tragicômicas tramas dentro da trama vivida pelo personagem de Ricardo Darín -, com sutis influências de realismo fantástico, Um conto chinês é daquelas fitas feitas com gestos, olhares e pequenos detalhes. Mostrando que é das pequenas ações e atitudes que se alcançam grandes méritos, por mais absurda e sem sentido que seja a vida, como diz o niilista Cesare.

* Este texto foi escrito ao som de: The Best of Lobo (Lobo – 2004)

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Espaço Itáu de Cinema – CasaPark

Finalmente um espaço dedicado a filmes de artes em Brasília, será?

Depois que a Academia de Tênis pegou fogo do nada, misteriosamente do nada, Brasília ficou órfã de uma programação que privilegiasse filmes de arte. Eu, por exemplo, tenho saudades das sessões diárias nas dez salas daquele espaço que tinha uma decoração pesada, meio excêntrica, extravagante até, mas com exibição de películas marcantes. Obras raras de países fora do mainstream, que dificilmente entraria na vala comum dos grandes circuitos. Sim, porque onde mais eu assistiria produções de países como Líbano, Egito, Israel ou Irã?

Bem, parte dessa lacuna promete ser preenchida com a inauguração hoje, de moderno complexo com oito salas de cinemas, no CasaPark. Estou falando do Espaço Itaú de Cinema, que ocupará o lugar que antes era da extinta Embracine. Demorou, carambolas!

A julgar pela programação de praças como São Paulo e Rio de Janeiro e Porto Alegre, o público saiu ganhando. Pelo menos no que diz respeito à programação, não aos preços, como sempre, salgadíssimos. O que, me faz pensar, desesperadamente, porque diabos cultura no Brasil sempre está pela hora da morte? Pombas, pagar R$ 15, R$ 18, R$ 20 num ingresso de cinema é roubo, assalto à mão armada, por mais moderna, sofisticada e cheia de 3Ds, que o cinema seja.

Mas… Qualquer dia desses subo nas tamancas e, sapateando que nem uma bailarina espanhola, saio por aí defendendo uma campanha em prol da gratuidade de ingressos de cinemas. Até lá, me cabe deleitar com a ótima programação dedicada aos convidados. Dos três filmes que serão exibidos hoje, dois merecem destaques: a mais nova produção dos incisivos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, O garoto da bicicleta, e a produção argentina Um conto chinês, de Sebastián Borensztein.

O último é imperdível porque se trata de uma comédia de costumes vivida pelo galã, Ricardo Darín, o George Clooney das Américas. O filme parte do absurdo para contar a história de um ex-combatente da Guerra das Malvinas que, do nada, se vê obrigado a conviver, olha veja só, com um chinês. Ninguém sabe de onde ele saiu, ou melhor, caiu, e a figura de olhos puxados não tem a mínima ideia de como irá voltar para casa. É em meio a esse grande conflito de costumes, línguas e situações surrealistas que os dois personagens tentam dissipar suas diferenças e indiferenças.

Tomara que esse Espaço Itáu de Cinema não seja que nem aquelas conversas de políticos, tão auspiciosas e motivadoras no começo, mas desoladoras do meio para o fim. Na era Embracine foi assim, bom só no começo, quem nem cobertura de bolo de chocolate.

* Este texto foi escrito ao som de: Tapestry (Carole King – 1971)

Um palhaço que chora

Em seu segundo longa, Selton Mello fala do palhaço que existe dentro de cada um de nós

A figura do clown permeia o inconsciente coletivo de milhares de pessoas desde a mais remota infância. Pode apostar, existe dentro de cada um de nós, um palhaço, seja ele faceiro, alegre e irreverente. Mas há aqueles também de alma melancólica. A figura circense desenhada pelo ator e diretor Selton Mello, em O palhaço, traz um espectro triste, não menos sincero e talvez esteja aí a grandeza deste pequeno filme que fala de pessoas simples em busca de sua própria identidade, inclusive a do próprio do diretor.

Segundo longa-metragem de Mello (o primeiro é Feliz Natal, de 2008), o filme já fez mais de um milhão de espectadores e os pobres de espírito de plantão não cansam de fazer a pergunta cretina que não quer calar: por quê? Ora bolas, porque O palhaço, como todo grande filme, tem emoção. E mais do que isso, verdade. Claro, não é nenhuma obra-prima, mas de uma verdade sincera rara no cinema barulhento e visualmente verborrágico de hoje.

Com roteiro do próprio Selton Mello e Marcelo Vindicato, a fita narra a história de dois artistas do picadeiro, pai e filho, que rodam o país inteiro à frente da trupe do Circo Esperança. Eles são Valdemar (Paulo José) e Benjamim (Selton Mello) e vivem em dificuldades por onde passam porque a empresa que administram não é uma indústria do entretenimento como o Cirque Du Soleil.

Experiente, o pai, que no palco encarna o palhaço Puro Sangue, dribla as dificuldades da vida como pode. Já o jovem Benjamim, seu parceiro Pangaré, vive no mundo da Lua e não sabe muito bem o que quer. É um palhaço melancólico, triste, um palhaço que está cansado de fazer as pessoas rirem, um palhaço que chora. Enfim, alguém em busca de sua própria identidade e quando coloca o dilema diante do pai, ouve como conselho a frase quase infantil, mas exemplar. “O gato bebe leite, o rato come queijo e eu sou palhaço”, resume.

Aos 39 anos, Selton Mello demonstra maturidade, mas é um artista que ainda tem muito que doar à cultura de seu país. E ele tem feito por merecer. É um sujeito bem-intencionado e tem princípios profissionais porque não se vende facilmente ao sistema, tanto que já faz um bom tempo que largou a televisão para se dedicar de corpo e alma à sétima arte. Daí o fato de O palhaço estar recheado de homenagens.

A começar pelo ator Paulo José, um ícone do nosso cinema, teatro e televisão, e aqui, em O palhaço, numa de suas melhores atuações. Mas também há referências a filmes como Bye, bye, Brasil, de Cacá Diegues, ao humorista Jorge Loredo (o eterno Zé Bonitinho) e o garoto propaganda Ferrugem, quem aí se lembra dele? Sem falar das piadas internas, pessoais, que soam como consideração, na presença mais que especial do irmão Dalton Mello.

Mas a grande reverência que o ator e diretor Selton Mello faz, sem parecer piegas ou mesmo falsa, é a grandes mestres do cinema que transformaram a figura do palhaço, do clown, seja ele alegre ou tristonho, em ícones de todo um inconsciente coletivo e falo de monstros sagrados como Charles Chaplin e Federico Fellini. Nada gratuito ou desmerecedor, tudo de forma singela e sincera.

Não há dúvidas de que O palhaço seja um autêntico filme de arte. Daqueles que buscam a simplicidade para falar de coisas sérias, contundentes a nossa ridícula condição humana como honestidade, auto-estima e esperança. Talvez por isso que O palhaço seja um filme que tem muitos horizontes.

Acho que a busca por novos horizontes deveria ser a grande meta do ser humano.

* Este texto foi escrito ao som de: Bridge over troubled water (Simon & Garfunkel – 1970)

Jerry Lewis supera Cirque du Soleil

E quando o palhaço chora?

Os espetáculos do Cirque du Soleil têm nomes esquisitos, estranhos e os enredos flertam com o inatingível, seja no campo da estética, das ideias ou das sensações. A gente vê, fica deslumbrado, às vezes até perdemos a fala diante da perfeição dos números, mas na maioria das vezes, não entendemos nada. Somos golfados pela magia do incompreendido. No Cirque Du Soleil é um grande acontecimento social, ir ao Cirque Du Soleil é chique.

Fui a dois espetáculos do Cirque Du Soleil, Alegría e Quidan, achei fantástico, deslumbrante, mas não iria duas vezes, não. Os preços salgados dos ingressos e da pipoca, a mais cara do mundo, são elementos fortes, mas é porque não me emociona. São atrativos só para os olhos, não para a alma.

Para mim, o grande circo ainda é aquele de bairro, que quando menino, a gente esperava chegar com sua tenda colorida no meio da praça ou de um lote vago, sabe-se lá de onde. Tinham nomes pomposos como Circo de Roma ou Circo de Moscou, às vezes exibindo os sobrenomes das famílias e o elefante podia ser visto num curral gigante, lanchando tranquilamente. Gostávamos de ver os animais, o Globo da Morte, com aquelas motocas barulhentas, mas nada era mais divertido do que o palhaço, a alma de todo o circo.

Tudo parecia tão real e era tão forte, que marcou minha infância, me emocionou. Outro dia, vendo as homenagens sobre o Chaplin, lembrei do seu clássico filme O circo (1928), no qual, ele vira a grande atração da arena, ao fugir das garras do sistema.

Aliás, a sétima arte sempre foi aliada das aventuras circenses. Basta ver O maior espetáculo da Terra (1952), de Cecil B. DeMille, docudrama sobre os bastidores dessa grande confraria de artistas. Mas gosto em particular, do rude La strada, do mestre Fellini, que traz a vida mundana, difícil e sem maquiagem de artistas mambembes.

Por aqui, temos as estripulias de picadeiros dos Trapalhões, com a Turma do Didi – na época em que a Turma do Didi era boa – e quem não viu Os saltimbancos trapalhões e não ficou com um nó na garganta com as líricas lágrimas da máscara de cavalo do eterno clown, Renato Aragão.

Mas nada me emocionou mais na vida no dia em que vi um palhaço, o rei da alegria, da gargalhada, chorar. Mas não lágrimas de mentira, lágrimas de brincadeira, aquelas que são frutos de seu teatro do riso. Foram lágrimas de verdade, de outro grande palhaço da minha infância, o inconfundível, Jerry Lewis, num filme dele que nunca mais vi, mas jamais esqueci.

Como se vê, o Cirque Du Soleil pode até ser bom, mas não é melhor do que o circo da minha infância e dos palhaços que nunca deixaram de me fazer sorrir, Charles Chaplin, Didi e Jerry Lewis.

* Este texto foi escrito ao som de: Almanaque – Naná Vasconcelos ( GloboNews – 2011)

O desesperador teatro da morte

O teatro da morte é angustiante... E ela é impiedosa, com seus ossos chacoalhantes...

O teatro da morte é angustiante... E ela é impiedosa, com seus ossos chacoalhantes...

Pior do que a própria morte, só mesmo o desespero da perda. O teatro da morte é angustiante… E ela é impiedosa, com seus ossos chacoalhantes…

Corta. Sete horas da noite. Um céu cinza risca o horizonte, um esboço de chuva embaça o caminho distante. Aos poucos, grossas nuvens vermelhas surgem lá em cima. Elas parecem algodão-doce, tudo lembra um céu de Alice, Alice no País das Maravilhas. Mas a realidade é crua e machuca. Como a morte, como a dor da perda que é incessantSigo pela estrada por intermináveis duas horas. Não sei o que vou encontrar. O destino é matreiro, traiçoeiro, nos prega peças cretinas. Tomorrow never knows. Agora já é quase meia-noite. Espero chegar em casa e abraçar minha mãe e minhas duas lindas crianças. Preciso dormir. O sono é amigo do cansaço, minha cama é meu porto seguro. Minha cama é meu túmulo.

Toc, toc, toc, eis que a morte, criatura nefasta, bate à minha porta. São quase duas horas da manhã e o lugar está em polvorosa. Ouço prantos ao fundo. Alguém partiu, para nunca mais voltar. A dor da perda incomoda até mesmo àqueles que não têm nada ver com a história.

Compartilhar a dor alheia é uma arte que se transforma em lição. Só espero ser forte o suficiente para confortar os que necessitam de conforto, nesse desesperador teatro da morte…

* Este texto foi escrito ao som de: Jornal da GloboNews, edição das 4h (2011)

Sob o signo de Aquários

Aquários é o signo das águas e ela que é tão quente...

Há uma música do bardo canadense Leonard Cohen que diz assim:

“Mostrei meu coração ao doutor e ele me disse que eu tinha que desistir…”.

Bem, qualquer dia desses, eu vou mostrar meu coração ao meu médico e ele irá dizer que o caso é grave, que eu posso sofrer bastante se não me tratar, que é caso até de morte e eu sempre acho que se um dia alguém abrir meu peito irá encontrar o nome dela lá dentro, como a única causa irremediável da minha dor, do meu sofrimento, do meu vazio… Porque ela me preenche, apesar de tudo!

Não acredito em signos, não acredito em Deus, não acredito em nada, nem mesmo em mim mesmo, mas me cabe o direito da dúvida, da curiosidade, do questionamento e, por ela ser de Aquários, como minhas sobrinhas, me pergunto se o que dizem sobre aqueles que pertencem a esse signo é verdade… Bem, não abri meu peito ao médico, mas a uma amante e entendida do horóscopo, dos astros, da astrologia e olha o que ela disse:

“Quem é do signo de Aquários ama a liberdade mais do que tudo, então não gosta de pessoas que ficam no pé dela, também não gosta que falem para ela o que fazer”.

“Os aquarianos são altruístas ao extremo, a ponto de se colocar em segundo plano para ajudar as pessoas e quem pertence ao signo é muito racional, não gosta de ficar demonstrando emoção, de ficar o tempo todo grudado, é uma pessoa que gosta de ficar na dela e ela quer uma pessoa que respeite isso, às vezes as pessoas não entende isso e acha que ela está sendo egoísta”.

“Também são pessoas bem excêntricas, gosta de coisas que ninguém gosta e o aquariano é teimoso, se você falar para ela que essa parede é creme ela vai dizer que é branca e nada nesse mundo santo irá convencê-la do contrário. Por isso é uma pessoa que comete sempre o mesmo erro várias vezes”.

“É uma pessoa que gosta muito de ler e vive antenada com culturas de todos os lugares, sempre aberto às novidades. Foge sempre às regras e gosta de sobressair às pessoas. O aquariano adora trabalhar em grupo e ser líder, mas é uma alma impaciente”.

“E quem é de Escorpião não dá muito bem com signos de Aquários, não. Quem é de Aquários se dá bem com signos de fogo como Áries, Sagitários, Leão. E Gêmeos, signo do ar, é o par perfeito.  Já quem é de Escorpião tende a ser muito oposto ao aquariano”.

E eu que fiquei na cola dela como uma sombra e ela que gosta tanto de ser livre, de fazer o que dá na teia, de seguir a vida como se não houvesse nenhuma barreira, impedimento, sem dar satisfações a ninguém. E ela que me fez tanto sofrer, embora se mostre excessivamente altruísta. E eu que sou de Escorpião e sua melhor amiga, de Gêmeos!

É, acho que não acredito em signos mesmo, não… E meu coração continua doente… Aquários é o signo das águas e ela que é tão quente… Enquanto meu coração é uma Sibéria…

* Este texto foi escrito ao som de: The man who (Travis – 1999)

Discoteca Básica (39) Acabou chorare

Novos Baianos Futebol Clube da MPB

Nos idos dos anos 70 um grupo de músicos da Bahia viviam em cabanas e barracas dentro de um apartamento em área nobre do Rio de Janeiro. Naquele insólito cenário eles compunham suas canções, algumas delas grandes sucessos do momento e, entre uma partida de futebol e outra, realizada ali mesmo, naquele ínfimo espaço, ainda sobrava tempo para dar um “tapa” no beque.

Esse clima de total descontração, liberdade e baderna, seria quebrado no dia em que um homem sisudo de terno e gravata tocou a campanhinha. Quase imperceptível do outro lado da porta, perscrutando o olho mágico, um dos integrantes da banda alarde: “Os hómis, os hómis!”, disse quase inaudível.

Bem, o beque em questão era os cigarros de maconha, o grupo baderneiro os Novos Baianos e o suposto meganha, imagina, ninguém menos do que João Gilberto, que passou por ali, sem avisar, só para conhecer de perto o som dessa rapaziada que andava fazendo o maior sucesso nas ondas de rádio e nos corações de milhares de pessoas. Além, do mais, eram todos filhos de Gandhi.

A história, quem conta, são os próprios integrantes da banda, Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Dadi Carvalho, além de Jorginho Gomes, Luiz Galvão e Moraes Moreira, no empolgante documentário, Filhos de João – Admirável mundo novo baiano, de Henrique Dantas. E o resultado do mal entendido resultaria no disco Acabou chorare, do qual João Gilberto, que luxo, seria o mentor.

Exemplo perfeito da fusão do rock de Jimi Hendrix e da batida inconfundível de João Gilberto, uma mistura que Gilberto Gil já andava flertando a partir de trabalhos como Copacabana mon amour, o impactante Acabou chorare só deu no que deu por conta do esforço coletivo. Todas as 10 faixas do álbum são frutos do trabalho e contribuição de cada membro. “Não é uma família. Talvez um time”, tentava descrever, na contracapa do disco, Luiz Galvão.

A faixa título não poderia ser mais João Gilberto, escrita a partir de uma história contada por ele sobre sua filha, a então bebê Bebel Gilberto e, se não me engano, tem a ver com o fato de eles estarem, no estrangeiro, com ela confundindo a língua local com a língua pátria. Será que é isso mesmo? Gosto, claro, da envolvente Preta Pretinha, até por motivos bem pessoais, já que adorava chamar minha afilhada, que é bem moreninha, assim. Ela ficou curiosa e apresentei a música a ela. É fácil de prever o resultado desse encontro.

O samba Besta é tu, nada mais é do que um convite ao desbunde total, basta conferir: Besta é tu! Besta é tu! Porque não viver nesse mundo…/Se não há outro mundo…/Porque não viver?/Não viver esse mundo”, ensinam.

Mas nada me chama mais atenção toda vez que escuto esse disco do que os trabalhos de violões e guitarras do, na época menino prodígio, Pepeu Gomes, uma personificação brasileira de Santana e Hendrix.

* Este texto foi escrito ao som de: Acabou chorare (Novos Baianos – 1972)

Na estrada sobre duas rodas

Três distintos cavaleiros da paz em busca da liberdade pessoal

Um dos melhores livros que li sobre cinema nos últimos tempos foi o revelador Como a geração sexo-drogas-e-rock ‘n’ roll salvou Hollywood – Easy rides, Racing bulls…, de Peter Biskind. Nele, o autor, que parece ainda viver seu barato beatnik, mostra como uma Los Angeles careta e conservadora foi assaltada de supetão, da noite para o dia, por artistas ousados a fim de desnudar a hipocrisia reinante numa América dos sonhos democráticos.

E o ponto de partida dessa aventura político-social, que reverbera em conceitos comportamentais, não poderia ser mais emblemático. Teve início com dois motoqueiros doidões e suas Harley Davidson que só queriam curti a vida, rumo ao Mardi Gras, o famoso carnaval de New Orleans. Estamos falando de Easy Riders ou aqui para nós, Sem Destino, um dos filmes mais provocadores já feitos até então, um marco da contracultura cinematográfica.

Lançado em 1969, à sombra do movimento Flower Power, hoje a fita pode até parecer datada, um típico produto do seu tempo, mas causou um reboliço daqueles no final dos anos 60. Para começo de conversa, o roteiro era assinado pela dupla de atores Peter Fonda e Dennis Hopper, junto com Terry Southern. O primeiro, produtor do projeto. O segundo, diretor estreante. Um deles é Wyatt, o Capitão América. O outro, Billy, mas não o The Kid. Deu no que deu.

Espécie de On the road sobre duas rodas, a história fala abertamente de drogas, esbanjando um espírito libertino engajado poucas vezes vistos na telona e questionamentos contundente a cerca do status quo vigente da época. “Esse país já foi bom”, lamenta um dos personagens. “Você precisa tragar mais fundo, assim vai viajar para mais longe”, filosofia outro, que sai em busca de uma ideal que marcou toda aquela geração, a liberdade pessoa.

Mas o filme não era apenas sobre isso. Por baixo das fortes tintas que ainda jorravam do movimento hippie, da forte cena cultural que emanava das artes cênicas, da literatura e, sobretudo da música, escondia uma sociedade fustigada pelo preconceito, desrespeito às diferenças e à liberdade de expressão. Nenhuma cena do filme retrata tais elementos como a do bar, quando eles são hostilizados por caipiras ignorantes. Os críticos europeus entenderam isso e deram o prêmio de melhor diretor estreante a Dennis Hopper, naquele ano.

A distorção, descaso e falta de credibilidade diante de convenções e grandes instituições norte-americanas é bem retrata na figura mimada e desengonçada de Jack Nicholson, um advogado alcoólatra que não sabe muito bem o que quer da vida. A sequência em que ele tenta aprender a fumar maconha no meio do mato com os dois cabeludos ripongas é hilária.

Por final, vem as derradeiras sequências da fita, com a famosa e ousada cena da viagem de ácido no cemitério, filmada em super 8,  que descamba no desfecho trágico. Tudo isso embalado ao som dos Byrds, The Band, Bob Dylan, Steppen Wolf, Jimi Hendrix, e claro, dos roucos barulhos das Harley Davidsons.

* Este texto foi escrito ao som de: Music from big Pink (The Band – 1968)

Da escuridão e do medo interior

Kelzy Ecard e Andréia Horta são duas mulheres atormentadas pela angústia do desconhecido, tema da peça Breu

Há um provérbio sueco que diz mais ou menos o seguinte: “O medo atribui às pequenas coisas, grandes sombras”. Montagem dirigida a partir de texto inédito do ator, dramaturgo e diretor teatral Pedro Brício, por Maria Silvia Siqueira Campos e Miwa Yanagizawa, o espetáculo Breu, em cartaz desde quinta (17) passada, no Teatro II, do CCBB, investiga a escuridão que habita dentro de cada um de nós. E para esclarecer, com o perdão do trocadilho, o tom sombrio em questão enunciado no título está relacionado à cegueira de uma das personagens em cena, vivida pela espetacular Kelzy Ecard.

Fui lá, vi a peça e conversei com a atriz. Simpática, Kelzy, que tem origem franco-suíça, explicou que para entrar no personagem teve que buscar a cegueira que existia dentro de si, uma sugestão acalentada pela diretora Yanagizawa. A experiência é compartilhada em cena com o expectador. “A proposta do espetáculo é que cada um dos espectadores descubram a cegueira que existe dentro de cada um. É um verdadeiro mergulho na escuridão”, reflete a artista, que ao longo de quatro meses foi em busca de estímulos sensoriais que perpassam a vida de um cego em laboratórios na praia e pelas ruas. “Acabei levando o exercício para minha casa, enquanto cozinhava para o meu filho”, revela, entre risos.

No palco, dividindo espaço com a jovem atriz Andréia Horta, ela é Carmen, uma mulher solitária atormentada pela angústia do desconhecido, sentimento perpetrado pela ditadura militar que fustiga o cotidiano da nação. Em pleno estado de medo, apreensão e suspense, ela aguarda ansiosa, paradeiro do irmão, professor universitário perseguido pelo regime.

Desse encontro aparentemente banal com a jovem Aurora, nasce crescente agonia diante do estranho em ruidoso embate sobre a rotina e o mistério. Entre cachorros-quentes, canções de Roberto Carlos, telefonemas não atendidos e revelações surpreendentes, as duas mulheres vão, aos poucos, desvendando os segredos da alma de cada uma.

Breu é um espetáculo que conta muito com a cumplicidade do espectador porque a história ganha sentido a partir da percepção de cada um. É uma narrativa permeada de sensações”, avisa Kelzy Ecard.

Tal percepção pode ser conferida nos primeiros minutos do espetáculo quando, em pleno breu, tal quais os personagens, somos convidados a embrenhar pela escuridão da trama, conduzido apenas pelas vozes das atrizes e ruídos produzidos por elas. O clima de claustrofobia é reinante. A luz plena como conhecemos em nosso dia-a-dia, nunca é constante, atenuando o clima de terror. “Acho que a gente tem que ter mais intimidade para ir com uma pessoa ao cinema do que para namorar”, brinca as duas “criaturas das trevas”.

A iluminação densa, sufocante de Tomás Ribas, associado ao perfeito cenário de Aurora dos Campos, que retrata nos mínimos detalhes uma típica casa de subúrbio carioca dos anos 70, emprestam integridade realista à montagem, talvez um dos melhores trabalhos de direção de arte que passaram pelos palcos do CCBB Brasília.

Intimista em sua concepção, Breu tece misteriosa teia sobre não apenas aquilo que não podemos ver, mas sobre aquilo que não queremos enxergar. A natureza estranha, absurda da peça é um dos seus grandes atrativos.

The Doors por eles mesmos

Livro traz histórias e fotos raras da banda, como essa, num restaurante mexicano, em 1969

Difícil não perceber que o som que o The Doors fazia nos anos 60 era bem diferente de tudo o que existia na época. Nada a ver com a onda britânica que acabara de invadir a América com os sucessos dos Beatles e dos Stones, muito menos com a cena norte-americana dominada por bandas como os Beach Boys, Creedence e tantas outras. E, mesmo que a sonoridade fosse um grande atrativo do grupo californiano, sempre teria as letras cultas e referenciais de Morrison, um Deus apolíneo com vocação para o caos existencial.

Outro dia vi na tevê por assinatura um documentário bacana sobre a banda com imagens raríssimas, inclusive de um filme produzido e roteirizado por Jim, chamado An american prayer, e me senti motivado a mergulhar na trajetória deles mais uma vez. A porta de entrada, com o perdão do trocadilho, seria o livro The Doors por The Doors, de Ben Fong-Torres, trabalho lançado aqui no Brasil pela Agir.

Jornalista cultural experiente, Fong-Torres conta a trajetória do grupo a partir de entrevistas antigas e recentes realizadas com os integrantes remanescentes do grupo, o tecladista Ray Manzarek, o baterista John Densmore e o guitarrista Robbie Krieger, além de depoimentos de Morrison colhido ao longo da curta trajetória como rock star. Namoradas, membros da família, amigos próximos dos quatros membros não foram esquecidos. O mais valioso deles, com certeza, o do pai de Jim Morrison, o almirante George Morrison, que não via com bons olhos o estilo de vida do filho. “Ele era independente, tinhas suas próprias ideias e pensamentos”, diz.

O resultado do robusto título não poderia ser mais empolgante, com detalhes da vida de cada um deles, da formação da banda, bastidores das gravações e confusões envolvendo o problemático Morrison, um artista atormentado pelo alcoolismo. A quantidade de fotos raras pinçadas do arquivo da família de Morrison é um deleite para os fãs.

“Aqui estou eu, como seu mestre de cerimônias, e não será nada fácil. Em diversas ocasiões, este livro será um Rashomon (história com várias versões difíceis de ser provado, como no filme homônimo do mestre japonês Akira Kurosawa) do rock ‘n’ roll, passado pelo filtro nebuloso e desfocado dos anos 60”, avisa o autor na introdução.

Confesso que me surpreendi bastante ao longo das quase 400 páginas do livro. Sobretudo com a descrição sobre o poder de autodestruição de Morrison, um artista que parecia não ter muita noção da grandeza de seu talento ou não estar muito interessado pela importância que tinha para a música de seu tempo.

Gosto, particularmente, da parte que os amigos e jornalistas falam da condição de sex symbol do vocalista, um dos homens mais belos de sua geração. “Ele era fisicamente o Davi de Michelangelo”, afirma o baterista Densmore. “Não aparecia de fato um grande sex symbol masculino desde que James Dean morreu e Marlon Brando ganhou uma pança”, observa o jornalista do Village Voice, Howard Smith. “Jim Morrison é mais poderoso sex simbol a surgir em nossa cultura popular desde James Dean e Elvis Presley”, dizia uma manchete da prestigiada revista, New York Times Magazine, no auge do sucesso dos Doors.

Gostoso saber do processo de criação de cada álbum, com informações preciosas sobre as faixas mais importantes do grupo. Fiquei surpreso em saber, por exemplo, que a gaita tocada em Roadhouse Blues, do fabuloso disco Morrison Hotel, é de John Sebastian, principal compositor do Lovin’ Spoonful e que Ray e Robbie cogitaram chamar, olha veja só, Joe Cocker e Paul McCartney para substituir Morrison após sua fatídica morte em 1971, na capital francesa.

A relação com a gatinha sardenta Pamela, a eterna namorada de Jim Morrison está melhor, espicaçada, inclusive com revelações surpreendentes de sua também misteriosa morte, por overdose, em 1974. Como se vê, uma das bandas mais originais do rock ainda segue surpreendendo os fãs e, revelando que tem muito a mostrar.

* Este texto foi escrito ao som de: L.A. Woman (The Doors – 1971)