Carnaval no fogo (1949)

O humorista Oscarito, ídolo de Renato Aragão, foi um dos maiores cartazes da Atlântida

Oscarito, ídolo de Renato Aragão, foi um dos maiores cartazes da Atlântida

Para o crítico de cinema Antônio Moniz Vianna, quem entendia do assunto, a comédia Carnaval no fogo, um dos grandes sucessos da época de ouro das chanchadas, era a coisa mais idiota que o cinema nacional já havia produzido. Ainda bem que Renato Aragão não achava isso porque, depois de assistir à fita pelo menos umas 16 vezes e número equivalente a outro sucesso da Atlântida, Avisos aos Navegantes, engavetou o diploma de advogado que acabara de conquistar e deixou o emprego que tinha no Banco Nordeste para ser o nosso eterno Didi, à frente da trupe de humoristas mais querida e famosa do Brasil, Os Trapalhões.

O que os dois filmes tinham em comum além da direção de Watson Macedo? Ora bolas, ninguém menos do que o comediante Oscarito, até então o maior cartaz das comédias brasileiras no cinema brasileiro. “Eu não pretendia ser artista, mas adolescente eu assisti a dois filmes do Oscarito e fiquei apaixonado pelo cara. Não sabia que ali estava mudando o meu destino”, lembraria anos mais tarde o humorista, em depoimento ao projeto Memória Globo.

Carnaval no fogoE ao ver às estripulias de Oscarito em cena, dá para entender porque Renato Aragão e uma legião de espectadores ficariam fascinados pelo cara. Um palhaço em tempo integral com suas caretas, piruetas e bordões impagáveis, o cara era a alma dos filmes que protagonizava.

Em Carnaval no fogo ele é Serafim, um carregador de malas do Copacabana Palace que recebe a notícia da chegada de um irmão que vem da América. Ele não quer que o brother o veja trabalhando assim no luxuoso hotel e arranja um emprego de comediante na produção musical de Ricardo (Anselmo Duarte) que, se querer, é confundido com o chefe de uma quadrilha de roubo de joias hospedada no local. Pronto, está armada o circo em que irá brilhar as atrapalhadas de Oscarito e Grande Otelo, num dos primeiros filmes da dupla na Atlântida. “Porque não interpreta uma peça de Shakespeare, você conhece?”, zomba Grande Otelo. “Não tive esse prazer. Ele está hospedado aqui no hotel?”, responde um ingênuo Oscarito.

O roteiro de Anselmo Duarte não é lá essas coisas, independente da opinião grosseira de Antônio Moniz Vianna, mas quem precisa de uma história coerente quando se tem no elenco Oscarito e companhia, que pinta e borda com o humor físico e visual que herdara do circo. Um dos grandes mestres das chanchadas musicais da Atlântida, Watson Macedo seria o responsável por abrir as portas nomes de peso do cinema nacional no futuro como Jece Valadão, Wilson Grey e José Lewgoy, aqui impecável na pele do gangster Anjo.

Um dos clássicos dos primórdios do cinema nacional, uma pena que sucessos como esse só podem ser conferidos via Youtube com qualidade visual e sonora medonhas. Triste do país que não tem memória.

* Este texto foi escrito ao som de: Sassaricando e rio inventou a marchinha (2006)

Sassricando

Bob Dylan – Shadows in the night

O bardo e o cool: num dos mais improváveis encontro da música norte-americana...

O bardo e o cool: num dos mais improváveis encontro da música norte-americana…

E ele não para de nos surpreender. Aos 73 anos, Mr. Zimmerman, ou seja, Bob Dylan, irá lançar em 2015 seu 36º álbum de estúdio homenageando, veja só, o grande cantor Frank Sinatra (e olha o cara aqui de novo). Não poderia ser um encontro mais do que inusitado, mas em se tratando do autor de peça antológicas como Blowin’ in the wind e Like a rolling stone, tudo é possível. Eu sei, eu sei, a notícia está mais do que velha, mas como ontem escrevi sobre “a voz”, me lembrei desse belo presente que nós, amantes da boa música, ganharemos dos dois artistas a partir de fevereiro do ano que vem.

Bem, em ternos de estilo Bob Dylan e Frank Sinatra estão um para o outro o que o Mickey Mouse representa para o ratinho gourmet Remy, do sensacional Ratatouille. Nada. Mas no que diz respeito à importância musical dos dois astros para a música mundial e, sobretudo seus fãs, são como irmãos siameses.

“Era possível ouvir tudo na voz dele: a morte, Deus, o universo, tudo”, já andou comentando por Dylan, cheio de respeito.

Intitulado Shadows in the night, o álbum de covers quebra um hiato de três anos do cantor Bob Dylan - Shadows in the nightfolk e contará com 10 faixas imortalizadas na voz daquele que foi um dos mais importantes nomes da música do século 20. No youtube já é possível ouvir a melancólica Full moon and empty arms – canção da dupla Buddy Kaye e Ted Mossman gravada por Sinatra em 1945 – e notar que Dylan e sua banda irão dá uma roupagem bem pessoal a esses standards. A curiosidade é grande de um grande fã das duas estrelas da música norte-americana como eu, sobretudo pela genialidade do bardo beatnik em criar releituras estranhas, mas curiosas de canções de seu próprio repertório.

Com capa estilosa e retro, Shadows in the night traz além de Full moon and empty arms, sucessos como I’m a fool to want you, What’ll I do, Some enchanted evenin e Stay with me, fácil de ser ouvida nas redes sociais porque Bob Dylan já andou cantando a faixa em suas últimas apresentações. Bem, a voz roufenha e gasta de Dylan é marca presente, mas nessas performances dá para notar certo amadurecimento como intérprete, com o artista visivelmente emotivo e intimista em cena.

Não é de hoje que esse projeto está engavetado na cabeça de Bob Dylan. Segundo o artista, só não tirou o álbum dos seus planos por falta de coragem. E desde quando um dos maiores nomes da música precisa de coragem para alçar vôos mais ousados? Talvez a insegurança encontre razão de ser no fato de, poucas vezes ele, um verdadeiro artesão do cancioneiro universal, tenha precisado cantar canções de outros compositores. Pior ainda. Sucessos de outros compositores imortalizados na voz de “a voz”. De fato, é de meter medo.

* Este texto foi escrito ao som de: Tempest (Bob Dylan – 2012)

Bob_Dylan-Tempest

Robin Hood de Chicago (1964)

Frank Sinatra tira onda de Robin Hood na Chicago de Al Capone com uma turma da pesada

Sinatra (centro), na pele de um Robin Hood na Chicago de Al Capone com turma da pesada

Outro dia, ao ver que estava rolando no TCM o filme, Robin Hood de Chicago, imediatamente eu corri para minha estante mágica e desenterrei de lá o filme em versão DVD já que, como é sabido, poucos filmes na programação desse canal a cabo é legendado. E cá entre nós, ver qualquer filme com Frank Sinatra – simplesmente “A Voz” -, e Dean Martin dublado é pior do que bater em mãe. Pior que me dei conta de que, apesar de desembalado, eu nunca tinha assistido ao filme. Bem, se assisti não me lembro de nada.

Produzido pelo próprio Frank Sinatra, o filme era uma anedota bem cara de pau tendo em vista o velado envolvimento do cantor com a máfia de Los Angeles. Era como se ele, intocável, dissesse assim: “Ei, sou mesmo um bandido, mas olha o que eu posso fazer!”.

Na trama, ele é Robbo, uma versão gângster de Robin Hood na Chicago de Al Capone e outros famigerados bandidos em plena Lei Seca. E para mostrar que ninguém estava se levando a sério, a fita já começa com Edward G. Robinson – ator símbolo desse gênero de filmes – na pele de um chefe matusquela sendo liquidado por seus capangas.

ROBIN HOOD DE CHICAGOPara vingar a morte do grande amigo e mentor, Robbo entra em pé de guerra com Gisborne (Peter Falk), o dono do outro lado da cidade e para tanto, irá contar com ajuda de um neurocirurgião malandro vivido pelo sempre charmoso Dean Martin. Soma-se a trupe um gaiato Sammy Davis Jr. e pronto, está formada uma versão reduzida do Rat Pack, a turma da pesada de bebedeiras e farras do artista pelas ruas e cassinos de Las Vegas e Los Angeles.

A rivalidade entre os dois gângsters fica acirrada quando Robbo, despertando a inveja do inimigo, é surpreendido com a notícia de que é um herói local ao ser associado com uma lenda do passado.

Nitidamente uma piada, o filme, que conta com direção de arte e figurinos honestos, é mais uma daquelas aventuras artísticas pretensiosas para satisfazer o ego de uma grande estrela, mas, se o astro em questão for Frank Sinatra, qualquer excesso é bem-vindo e permitido. E, mesmo que o roteiro não seja lá essas coisas, algumas situações são divertidíssimas, como aquela em que um cassino suntuoso inteiro se transforma, num piscar de olhos, numa paupérrima igreja tendo Bing Crosby como pastor, e testemunhas molambentas, o trio Frank Sinatra, Dean Martin e Samy Davis Jr.

Ah, sim, e como não poderia deixar de ser, todas as estrelas da fita cantam em cena, destaque pelo charmoso número de dança protagonizado com chapéu e bengala por Bing, Frank e Dean. Bom fora da lei que é Sinatra rouba a cena no último minuto com a bela canção indicada ao Oscar, My kind of town. Uma piada só é boa se bem contada.

* Este texto foi escrito ao som de: Strangers in the night (Frank Sinatra – 1966)

Strangers in the night

Programa Abertura no Canal Brasil

O polêmico cineasta Glauber Rocha inovou dando voz ao povo na TV

O polêmico cineasta Glauber Rocha inovou dando voz ao povo na TV

Criado e dirigido por Fernando Barbosa Lima, o programa Abertura, exibido em 1979, pela extinta TV Tupi, foi uma revolução na televisão brasileira com a proposta de discutir com todos os segmentos da sociedade brasileira, o tema da redemocratização do país após 25 anos de jugo da ditadura militar. O projeto representaria o primeiro passo no telejornalismo nacional para o fim do silêncio da censura. Uma das estrelas da atração televisiva, o vulcânico cineasta baiano Glauber Rocha, com a genialidade de sempre, subvertia a lógica estética, narrativa e visual do vídeo com suas intervenções agressivas e espontâneas, sendo um dos primeiros cineastas a se relacionar com as novidades da telinha.

“Não tenha temor de dizer por que ele é o presidente, fale porque há abertura democrática”, diz incitando um cidadão comum a dar sua opinião sobre Figueiredo. “Estou passando o poder ao povo”, provoca com microfone em punho.

Raridade resgatada e exibida pelo Canal Brasil neste mês de dezembro, o diretor de pérolas como, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em transe, é apenas uma das várias diversões garantidas do programa que contava ainda com participações de personalidades como o jornalista Fausto Wolf, o polêmico gaúcho João Saldanha, os escritores Antônio Callado e Fernando Sabino, a atriz Norma Bengell, o sambista Sargentelli, entre outros. Impressiona, ainda em tempos de ditadura militar, o grau de liberdade e ousadia com que artistas e intelectuais expunham com saudável irresponsabilidade, ideias anárquicas no ar. Num deles, por exemplo, o escritor, jornalista e filósofo Luiz Carlos Maciel lia, com o consentimento de um Glauber Rocha agitado, um decálogo com propostas afrontosas e modernas sobre os direitos humanos. Alguns dos tópicos são reveladores quanto a antecipação de problemas pertinentes nos dias de hoje como a preocupação com a natureza e as minorias.

“Essas ideias podem parecer utópicas, ingênuas e românticas, mas esse núcleo fundamental do ser humano é que nos cabe defende”, comenta Maciel, ao final da leitura de seu manifesto.

No primeiro episódio do programa Abertura exibido pelo Cana Brasil traz uma entrevista reveladora do estadista Miguel Arraes ao jornalista Roberto D’Ávila. Exilado há 15 anos, o político, falando de Paris, mas precisamente em frente da Catedral de Notre Dame, fala do regresso ao Brasil e de sua visão atual política da nação. “Devemos ver o Brasil como um todo, lutar para que as diferenças regionais e desigualdades se acabem, que haja mais unidade no país”, defende, para arrematar. “Sou apenas um homem que vê a realidade do Brasil e reage diante delas.”

Noutro momento contundente, o jornalista Fausto Wolf critica a desigualdade brasileira lembrando os tempos em que viveu como exilado na Dinamarca, onde dava aula na faculdade e trabalhava como operário ganhando o mesmo salário. “Que país é este em que uma família gasta vários salários num jantar enquanto que crianças passam fome”, lamenta.

* Este texto foi escrito ao som de: Acabou chorare (Os novos baianos – 1972)

Acabou chorare

As pinceladas anárquicas de Don Pepe

Uma das paisagens predominantes da obra do gaúcho Érico Veríssimo

Uma das paisagens predominantes na saga “O tempo e o vento”, do gaúcho Érico Veríssimo

É com muito orgulho que vou virar o ano lendo um de meus escritores mais queridos, o gaúcho Érico Veríssimo. Enquanto tem gente que gosta de exibir suas vaidades materialistas, eu me mostro todo pimpão com pequenos e prazerosos detalhes culturais como a leitura de um bom livro. E ler Érico Veríssimo é um estado de espírito, um êxtase indescritível. Algo tão saboroso como tomar um bom vinho ou comer um prato delicioso. Além da narrativa cinematográfica, diálogos divertidos, situações inusitadas, descrições flamejantes acerca de qualquer assunto, a construção dos personagens que o autor faz, com todas as suas contradições humanas e sociais, são fantásticas, formidáveis.

Agora mesmo estou apaixonado pelo pintor espanhol rabugento, Don Pepe, um autêntico anarquista no passado que agora amarga dias de boemia pelas ruas da pequena Santa Fé, vomitando sua indignação contra os excessos mundanos da burguesia e a hipocrisia do clero. “Filisteus!”, diz, começando uma conversa com bravatas e as terminando em prantos.

O retrato 2Nos volumes 1 e 2 de O retrato, da saga O tempo e o vento, o artista espanhol é figura de vital importância, não apenas por fazer parte do cotidiano político e social da cidade, mas por ser o autor do famoso retrato do jovem médico Rodrigo Cambará, pintura que se tornaria a grande sensação da cidade, admirada como obra-prima tanto pela beleza estética, quanto pela força espectral de seus traços. A descrição do escritor diante do furor causado pela tela não apenas pelo retratado, mas por todos os moradores da cidade é bárbara.

“Ao ver a própria imagem na tela, Rodrigo sentiu como que um soco no plexo solar. Por um momento a comoção dominou-o, embaciou-lhe os olhos, comprimiu-lhe a garganta, alterou-lhe o ritmo do coração. Quedou-se por um longo instante a namorar o próprio retrato”, narra.

Alvo de romaria no Sobrado, a impecável pintura de Don Pepe arrancaria as mais inusitadas reações dos visitantes. De alguns surpresos, lhes calou a boca. “Nunca imaginei que esse espanhol fosse capaz de fazer uma coisa séria assim… Sempre o considerei um farsante, uma personagem de opereta”, admite um oficial esnobe. Embasbacada diante da imagem do futuro marido, a jovem e ingênua Flora mirou a figura por tanto tempo e com tamanha expressão de ternura que arrancaria ciúmes do amante. “Nunca pensei que fosse ficar tão bem assim”, declara encantada.

Atirada, moça de muitas leituras e antenada com as novidades da vida, a impertinente, Mariquinhas Matos, para desespero da mãe conservadora e antiquada, não se conteve: “Um rapaz bonito como o Dr. Rodrigo não devia se casar nunca. É muito homem para uma mulher só”, dispara.

Mas o talento endiabrado com os pincéis do pintor espanhol Don Pepe seria capaz de proezas mais impactantes como a de arrancar sorriso do taciturno, amargo e sistemático Licurgo, pai de Rodrigo. Ao mirar, enigmaticamente a tela, o patriarca sorrir e dizendo:

– Está muito bom. Quanto vai pagar pro castelhano?

– Não sei ainda, papai. Qual é a sua opinião?

– Pague bem. O quadro vale. Dê quinhentos mil-réis.

Até os mais aparentemente insensíveis são capazes de apreciar o belo.

* Este texto foi escrito ao som de: Picassos falsos (1987)

Picassos falsos

Êxodo – Deuses e Reis (2014)

Moisés de Ridley Scott é militar e cheio de dúvidas metafísicas...

Moisés de Ridley Scott é um militar vingativo cheio de dúvidas metafísicas…

Todo bom cristão que se preza está cansado de saber que a Bíblia é recheada de boas histórias. Até porque, reza a lenda de que o povo de Deus, os hebreus, eram bons contadores de histórias. Não é o caso de Êxodo – Deuses e Reis, saga bíblica do inglês Ridley Scott em cartaz no mundo inteiro neste Natal. Deve ser porque ele não é judeu. Com sua habitual mania de grandeza e megalomania, o diretor de sucessos como Blade Runner e Gladiador acerta em cheio ao brindar o espectador com eloquentes espetáculos visuais, mas desaponta ao, digamos, não manter a fidelidade da história, tal qual nós estamos habituados a conhecer.

Tudo bem que eu, um ateu matusquela convicto corro o risco de ser taxado de conservador, mas e daí se minha grande referência sobre a trajetória do patriarca Moisés e as tábuas divinas ainda continua sendo o clássico, Os dez Mandamentos, aquele com o Charlton Heston dirigido em 1956, pelo faraó de Hollywood, Cecil B. DeMille?

Assim, ao sair da linha no que diz respeito ao enredo, Ridley Scott transformou sua aventura no deserto numa reprise da chatice pretensiosa que foi o recente, Noé, de Darren Aronofsky. Enfim, como andam mal de representantes no cinema de hoje esses profetas da Bíblia! E nem me venha com essa balela de que há erros históricos imperdoáveis e alusões êxododescabidas sobre o conflito Israel-Palestina por que, é sabido que Cecil B. De Mille alterou muito da história factual só para tornar a narrativa de sua versão mais atraente e o que está sendo julgado aqui é justamente isso, ou seja, a excelência do espetáculo em detrimento da narrativa ou vice-versa.

A primeira metade de Êxodo – Deuses e Reis é vibrante, com suas sequencias de guerra e batalha que só o diretor inglês sabe filmar. Preste atenção na plasticidade da cena em que flechas voadoras egípcias atingem o inimigo logo nos primeiros minutos da fita. Na releitura épica de Ridley Scott da Diáspora, o sombrio Egito do faraó Ramsés (Joel Edgerton) ganha ares de Roma de Cleópatra, sem o visual clean dos épicos do passado. Os personagens também têm características próprias bem diferentes. O Moisés (Christian Bale) de Ridley Scott – que dedicou o filme ao irmão Tony Scott, morto recentemente ao cometer suicídio -, surge mais vingativo e cheio de dúvidas. É um general recrutado por um deus-menino arrogante e indeciso para fugir com seu povo do Egito, mas ele mesmo não tem muita certeza de como e nem quando isso irá acontecer.

“Ele perdeu a cabeça encontrando um Deus”, ironiza um Ramsés repleto de ironia vivido pelo ótimo australiano Joel Edgerton.

Da segunda metade da trama até o fim, a narrativa do filme cansa o espectador com a modorra em que as famosas passagens bíblicas das sete pragas e a travessia do Mar Vermelho são narradas, essa última de uma decepção constrangedora. Mas como se vê, se nem Cristo conseguiu agradar todo mundo, o que dizer do semideus do cinema Ridley Scott.

* Este texto foi escrito ao som de: Automatic for the people (R.E.M. – 1992)

Automatic for the people

Será o espírito natalino?

“Felizes aqueles que choram, porque um dia, serão consolados”, (Sermão da Montanha)

“Felizes aqueles que choram, porque um dia, serão consolados”, (Sermão da Montanha)

Não gosto do Natal. É uma data que me traz recordações tristes. Fora isso, tem o fato de não me inspirar nenhuma confiança porque é uma comemoração que despertar nas pessoas um sentimento que abomino terminantemente: a hipocrisia. É aquela tal história, o sujeito apronta o ano inteiro e num único dia quer redimir os pecados de todo o ano com uma simples oração ou gesto de caridade. Daí me vem aquelas cenas clichês de fim de ano com gente fantasiada de Papai Noel, distribuindo brinquedos para crianças pobres nos mais longínquos buracos e que, de tão patéticas, me fazem chorar. Por isso que sou pecador o ano inteiro e com muito orgulho, me dando por satisfeito com o meu lugar já reservado lá no inferno, que é para onde eu vou quando minha passagem por aqui chegar ao fim. Garanto que será um lugar mais divertido do que essa bagunça aqui em cima.

É deprimente ver dondocas de nariz empinado que mal conversam com seus próximos quando estão desfilando pelas passarelas da vida, sempre olhando com indiferença os mais pobres e simples, tratando com asperezas os mais humildes, mas que quando chega o fim de ano, estacionam seus carangos espaciais em portas de asilos, creches e igrejas com doações nababescas.

caridade 2Outro dia, fazendo caminhada bem ali ao redor da Igreja São Francisco, um terreno gigantesco, de quarteirão inteiro, que pertence ao Vaticano, eu vi um grupo de freiras jantando com adolescentes carentes, ex-dependentes de drogas num restaurante chique. O mais chique da cidade. Bem, a cena era bonita, tocante e não sei se foi uma iniciativa das irmãs franciscanas ou do proprietário do restaurante, mas a pergunta que faço é: por que eles esperam o Natal chegar para consumarem esse ato de humanismo e fraternidade? Era um gesto que deveria ser repetido mais vezes durante o ano.

Para mim, a ideia de caridade é aquela exibida pelo personagem Rodrigo Cambará na saga O tempo e o vento, do mestre Érico Veríssimo. É só ler a história e entender o que digo.

Bem, não sei se foi por causa do anjo do Senhor ou esse tal de espírito natalino, mas um dia desses, numa semana só, fui protagonista de duas cenas tristes que me marcaram de forma contundente a maneira de ver as coisas. Ia eu saindo de carro para levar minha sobrinha ao futebol, quando de repente a vizinha me gritou desesperada, pedindo, “peloamordedeus”, ajuda! Pensei que ela tinha sido assaltada novamente por trombadinhas da rua, mas era para eu ajudá-la a colocar sua mãe, vítima de derrame, na cadeira de rodas. Quando cheguei lá a cena era desoladora. Com seus mais de 80 anos, a senhora, sentada no chão, se apoiando na cadeira de rodas, exibia um olhar de abandono e assustada carência que fizeram meu coração chorar. Com muito esforço a colocamos no lugar e saí de lá com alma pesada de tristeza.

Cena 2. Na rua de casa, há um jovem rapaz soropositivo que recentemente sofreu um acidente de carro que o deixou paralítico. O político para quem ele trabalhava, na hora em que ele mais precisava lhe deu as costas e escafedeu sem prestar assistência. Gay, pobre e aleijado, esse vizinho doente vive meio que abandonado à míngua por alguns familiares e inclusive por pessoas que não saem da Igreja gritando palavras de fé, amor ao próximo e humanismo. E me pergunto que raio de fé, humanismo e amor ao próximo são esses que fazem essas pessoas que não saem da igreja rejeitar quem mais precisa num momento de maior necessidade?

Enfim, depois de deixar o carro na oficina, ia eu passando em frente à casa do jovem rapaz, a pé, quando o homem da fisioterapia que o apanha todos os dias para sessões, me gritou para ajudá-lo colocar no banco de passageiro da ambulância. E assim, lá fui eu, com o coração na mão, já antecipando a comiseração que sentiria diante da cena. Magro de dar dó, olhos fundos, sonda dependurada no colo, mas ainda exibindo uma disfarçada esperança no sorriso, o sujeito moribundo me agradeceu efusivamente. Resumindo. Venci os poucos metros que me faltavam até em casa com lágrimas escorrendo pelo rosto.

E foi assim, não sei se por causa de um anjo do Senhor ou esse tal de espírito natalino, que em menos de uma semana, senti meu coração pesar com uma tristeza angustiante e alma mais cheia de buracos do que um queijo suíço. Está lá no Sermão da Montanha: “Felizes aqueles que choram, porque um dia, serão consolados”.

* Este texto foi escrito ao som de: Ultimate Gospel (Elvis Presley – 2004)

Elvis - Ultimate Gospel

As três noites de Eva (1941)

No Éden de Preston Sturges, a Eva Barbara Stanwick coloca o Adão Henry Fonda em maus lençóis

No Éden de Preston Sturges, a Eva Barbara Stanwick coloca o Adão Henry Fonda em maus lençóis

Você sabe quem foi Preston Sturges? Não?! Não se acanhe. Até outro dia eu também não tinha a menor ideia de quem era o sujeito, mas fui apresentado ao cara pelo meu ídolo Ruy Castro. Mas se você quer saber, de fato, quem foi o camarada em questão então dê um teco no Telecine Cult este mês e confira a comédia, As três noites de Eva, filme de 1941 estrelado por Henry Fonda e a charmosa Barbara Stanwick.

Mas por favor, não confundir com o drama psicológico de 1957, As três faces de Eva, dirigido por Nonnally Johnson e protagonizado pela bela Joanne Woodward. O estilo de Preston Sturges de ver a vida era, digamos, mais mundano e vagabundo, metido em enredos cheios de personagens cínicos e amorais que fazem da mentira uma verdade absoluta. Quer ver? Na trama, a bela Barbara Stanwick é Jean Harrington, filha de um trambiqueiro do mundo dos jogos que espera afanar a grana de um milionário qualquer à deriva. O alvo é o paspalhão Charles Pike, Henry Fonda, impagável na pele de um herdeiro da indústria da cerveja que não quer saber de dinheiro, mas, pesquisar criaturas peçonhentas como aranhas, sapos e cobras.

Depois de passar um ano chafurdado na Amazônia, ele está de volta à civilização como o Lady  Eve 2partido da vez, não passando alheio aos olhos, corações e interesse de jovens sem caráter como a sensual Jean, que arquiteta um plano para afanar o rapaz até o último centavo. Acontece que a ingenuidade de Pike é algo comovente e logo ela se apaixona, pra valer, pelo sujeito, colocando em risco os planos interesseiros de seu pai (Charles Coburn).

“Está vendo, os filhos de hoje não obedecem mais os pais”, lamenta.

Lá pelas tantas, alertado por um fiel escudeiro das tramóias que está prestes a ser vítima, Pike cancela, na última hora, um casamento a caminho, despertando a ira de uma mulher despeitada e rancorosa que promete vingança se passando, mais tarde, pela aristocrata Lady Eve Sidwich, o pecada em carne e osso. As reviravoltas desse imbróglio sentimental irão culminar numa série de atrapalhadas constrangedoras e divertidas.

“Pare, por favor! Opa, eu pensei que fosse um cavalo”, desconversa ela, cheia de malícia, após um incidente cheio de erotismo com a aproximação por trás de Pike.

Ousado, abusado e moderno, Preston Sturges foi o primeiro roteirista da história do cinema em Hollywood a sentar na cadeira de um diretor, abrindo as portas para uma turma da pesada encabeçada por John Huston, Billy Wilder e Joseph Mankiewicz. Discípulo do estilo provocador de Ernest Lubistsch, um dos mestres das comédias malucas (Screwball comedy), sempre recheou suas histórias com diálogos afiados e maliciosos, mas com um toque de comédia pastelão que marcaria seu estilo inconfundível. E os diálogos dos filmes de Preston Sturges são o que há de melhor. “Minha filha, não seja vulgar. Somos vigarista, mas não pessoas vulgares”, diz o pai de Jean.

Uma versão moderna da passagem bíblica sobre a origem da humanidade, o filme tem um desfecho exemplar. Nada supera o amor, nem mesmo as falcatruas, confira.

 * Este texto foi escrito ao som de: A northert soul (The Verve – 1995)

Verve 1995

Joe Cocker: The mad dog englishman

A performance do artista britânico em Woodstock, com uma mísica dos Beatles, entrou para a história

A performance do artista britânico em Woodstock, entrou para a história

Eu sei, é um clichê vagabundo dizer isso, mas o que eu posso fazer se Joe Cocker, assim como para muitos garotos da minha geração que estava começado a se interessar por rock, me despertou atenção com sua atuação visceral, hipnótica e convulsiva naquela apresentação antológica em 1969, no Festival de Woodstock? E com uma versão de uma canção dos Beatles que não é apenas infinitamente melhor do que a do fab four, a soberba With a little help from my friend, mas uma das mais intensas já realizadas de uma música dos meninos de Liverpool! E quer mais? Vê-lo se entregar de forma acachapante diante de milhares de pessoas como se estivesse num transe é de arrepiar.

“Foi como um sentido maravilhoso de comunicação”, resumiu sua performance.

Joe Cocker 6Mas resumir toda uma carreira baseada apenas num único cover é ser limitado e preguiçoso. Dono de uma voz rouca inconfundível, diria que única, na cena musical, Joe Cocker talvez tenha sido um dos grandes intérpretes de sua geração, fundindo com habilidade e sensibilidade vocais gêneros como rock, blues e soul. A forma como ele se entregava a cada interpretação é um sundae. Daí o fato dele ter sido um dos grandes heróis da música britânica.

E olha, With a little help from my friend não é a única música dos Beatles que ficaria imortalizada em sua voz. Fã confesso do quarteto, o artista gravaria ainda, entre outras pérolas, Something, do mago George Harrison, e as clássicas baladas de Paul, She came in through the bathroom window e Let it be que, na sua interpretação, surge como um diabo cheio de dor dançando em sua cabeça. Agora se você quer testar o talento do cara como intérprete, então escute suas versões para os clássicos de Bob Dylan e deixe verter algumas lágrimas ao escutar Bird on a wire do bardo Leonard Cohen na sua voz.

E não se iluda com os dotes de compositor do cantor que é co-autor de canções mágicas como Change in Louise, Marjorie e sandpaper cadillac, algumas delícias de seu primeiro disco. Aliás, aproveite o feriadão deste fim de ano e dê uma escutada nos primeiros álbuns gravados pelo cara. Os dois primeiros discos são clássicos autênticos.

“Escrever uma canção é como pintar um quadro, cada música é uma cor”, diria anos mais tarde.

Título tirado de uma canção de Noël Coward, Mad dogs & Englishmen é um dos melhores álbuns gravados ao vivo nas décadas de 70, com um registro audiovisual imperdível que vale a pena ser apresentado aos amantes do bom rock ‘n’ roll. O inglês com seus cachorros loucos sabiam como agitar uma plateia. Enquanto um monte de gente fica escrevendo bobagens sobre a passagem de Joe Cocker por Woodstock, vá atrás de tesouros sonoros e visuais como esse.

Uma pena que meus ídolos da música estão me deixando, assim, tão só.

* Este texto foi escrito ao som de: Mad dogs & Englishmen (Joe Cocker – 1970)

Mad dogs

O signo do caos (2005)

'Vamos tirar o cinema do quarto de brinquedo", diz o censor do filme.

‘Vamos tirar o cinema do quarto de brinquedo”, diz o censor do filme.

Vi O signo do caos, último filme do mestre Rogério Sganzerla, em ocasião especial. Foi na edição do Festival de Brasília de 2003, quando o cineasta, já debilitado por um câncer, assistiu à sessão ao lado da mulher Helena Ignez e as duas filhas gatíssimas: Sinai e Djin, essa última, minha musa. Depois não me lembro mais de ter visto a fita novamente. Só outro dia, ali no Canal Brasil, em função de uma mostra realizada em homenagem ao diretor de obras-primas como O bandido da luz vermelha (1969) e Sem essa, Aranha (1970).

De um pessimismo sem igual, O signo do caos mais uma vez retoma ao tema-obsessão da carreira do diretor que era recontar, de uma maneira bem particular, os imbróglios em torno do fracasso de Orson Welles em filmar no Brasil de Getúlio Vargas na década de 40.

Aqui, as fitas do que seriam esses registros perdidos do cineasta norte-americano são retidas na alfândega e só serão liberadas depois de passar pela censura. O chefe do departamento vivido pelo ótimo Otávio Terceiro tem um nome mais do que sugestivo: Dr. Aminésio. “Vamos tirar o cinema do quarto de brinquedo”, avisa numa das fases mais famosas do filme-signo. “O cinema brasileiro sempre foi um caso de polícia”, provoca.

Frases clichês, ditos populares, situações bisonhas e esdrúxulas repetidas várias vezes, Signopropositalmente, numa montagem ágil e esperta, avisam o tempo todo da incompetência, burocracia e burrice na qual o cinema nacional tem sido vítima nos últimos anos. “Vou abrir a barriga do Brasil para ver o que tem dentro. Será um cinecídio”, continua provocando Dr. Aminésio, com seu gosto sádico por desprezar a cultura nacional.

O clima noir da primeira parte, filmada com estilo, só ressalta essa premissa numa narrativa sufocante e, quando chega a segunda parte, com suas cores explosivas, é gostoso de ver o visual e estética deslumbrantes dos filmes holywoodiano dos anos 40 e 50. Numa espécie de homenagem-referência, Sganzerla reproduz em cena algumas passagens clássicas de Cidadão Kane, a obra-prima de Orson Welles, assim como signos importantes da fita que o transformou no grande gênio do cinema que foi, entre elas o segredo rosebud, mas detalhes perceptíveis somente aos olhos dos cinéfilos mais atento.

A trilha sonora, como na maioria dos trabalhos de Sganzerla, é um personagem sensorial a parte e aqui vai desde o jazz mais sofisticado ao samba clássico da era de ouro do gênero, passando pela música flamenca.

Com exceção de Giovanna Gold e Camila Pitanga, todo o elenco de O signo do caos é feito por rostos desconhecidos, uma marca indelével do cinema de Sganzerla e todos os que rezaram na cartilha do cinema marginal, um pormenor que passa despercebido, tendo em vista que, em suas produções, o texto, o discurso caótico era sempre o ator principal em cena.

* Este texto foi escrito ao som de: Gilberto Gil ao vivo (1974)

Gilberto Gil 1974