O existencialismo lírico de Vasco Santos

O poeta paulista e tristeza realista e existencial de seus versos

O poeta paulista aborda com tristeza realista e existencial temas universais como a espera

Foi logo depois do almoço. Almoço agradabilíssimo, diga-se de passagem. Já no começo da tarde. Íamos ali pela altura da 309 Norte, pelo lado de dentro da comercial, quando eu fui flechado pelos seguintes versos declamado com ritmo contagiante: “Espera a aventura/Da vida modificar/Espera a ternura/Perdida enfim retornar…”.

Logo pensei, caramba, parece Ferreira Gullar ou Manuel Bandeira! Sim, porque apesar de não conhecer a fundo o poeta maranhense, gosto de Manuel Bandeira, amo Manuel Bandeira, acredito em Manuel Bandeira. Mais do que de Deus. Aliás, não acredito em deus. Acredito no Manuel Bandeira. E continuei ouvindo: “Espera a real circunstância/De ter que mudar/Espera o final da ganância/Prá ter o que dar…”, dizia a segunda parte.

Bem, não eram versos do poeta pernambucano. Mas se não eram poesias de Manuel Bandeira, de que seria? Vasco Santos, filho de Paulo de Tarso Santos, político influente dos anos 50 e 60 que foi prefeito de Brasília entre fevereiro e agosto de 1961, além de Ministro da Educação e Cultura de João Goulart em 1963.

Paulo de Tarso Santos 2Figura simpática, divertida e cheia de ternura, Vasco Santos, tal qual o pai, também se formou como advogado, mas não abraçou a carreira política, tecendo grande intimidade com as artes, em particular com as palavras e os versos. Autor do livro Meu amigo Paulo de Tarso, biografia sobre o pai lançada em 2010 pela editora Documenta Histórica, é autor de versos singelos, contundentes e existenciais como esses de Espera precisa, que termina assim:

“Espera/Calado/Espera talvez um recado/Um jeito de ser consultado/Um tempo de ser esperado/Um modo de enfim ser usado/Um meio de então ser amado e amar.”

O ritmo dos versos de Espera precisa é avassalador. A urgência, o desespero intimista, apesar da ironia do título, contundentes. Tem a cadência contagiante de um samba “bossa nova, a leveza de um João Gilberto do cotidiano, a tristeza realista de um existencialista do nosso tempo. E esse tema se debulha de forma reflexiva em outros poemas do autor que fazem, eu diria, parte de uma série abordando as infinitas esperas humanas. Aquela que nos frustra, a que nos vence, a do futuro incerto em função de um presente marcado por intolerâncias, cobranças, mazelas do nosso dia a dia, como observa os versos de Espera a nova era:

“O sobe e desce se arrefece/Em disputas paralelas/Sequelas/Mazelas/Quirelas”, narra na primeira estrofe para arrematar com esperança pessimista: “Em meio a tanto tiroteiro/Se profetisa a nova era/Espera/Espera/Espera.”

Bem, uma pena que esses poemas ainda não foram publicados. Pelo menos foi o que me disse o autor. Mas não tem problema, vou esperar por esse feito com a paciência dos melhores dos admiradores. Porque como foi registrado em Espera vencida: “(…) Espera a esperar/Que saia da espera/A luz que se espera/Termine a espera/Pra não esperar.”

Há quem espera a vida toda, como eu agora, para se encantar com talento como esses.

* Este texto foi escrito ao som de: Talking book (Stevie Wonder – 1972)

Stevie-Wonder-Talking-Book

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Amar, beber e cantar (2013)

Amante do teatro, mais uma vez o diretor recorreu à dramaturgia do inglês Alan Ayckbourn

Amante do teatro, novamente o diretor recorre à dramaturgia do inglês Alan Ayckbourn

Uma meia dúzia de amigos já me perguntou, à queima roupa, se eu moro nos cinemas do Libert Mall. Bem que eu gostaria. Sim, porque só ali passa os melhores filmes da cidade. Onde mais eu poderia assistir ao último filme do mestre Alain Resnais? E tem mais. Depois que Academia de Tênis foi para o espaço, me sinto como um cinéfilo órfão. Então ali nas salas de cinema do Libert Mall é que eu me realizo vendo os filmes que gosto e quando eu quero.

É o caso do último filme do diretor conhecido pela sua imersão singular nas nuances da memória e do tempo. Calcado em tom farsesco, a comédia Amar, comer e Cantar conta a trajetória de um grupo de teatro amador que fica abalado quando descobre que um amigo em comum está bastante doente e prestes a morrer. Sensibilizados, eles prestam uma última homenagem ensaiando uma peça na qual, propositalmente, a dualidade entre verdade e mentira, realismo e elementos artificiais entram em choque o tempo todo.

“O cinema de Resnais”, escreveu o crítico do Estadão Luiz Carlos Merten na ocasião da fita no Festival de Berlim, em 2014, “reflete a realidade, mas por meio da teatralidade.”

Daí os cenários fakes, as atuações sem credibilidade e situações artificiais. As externas da Resnais 2trama se passam no interior da Inglaterra com lindas paisagens bucólicas e volta e meia o diretor recorre aos desenhos bacanas do ilustrador Christian Hincker. E tem mais, onde é que entra a canção do título? E o que simboliza aquela toupeira que aparece, volta e meia, no jardim de um dos casais? Medonha a cena final em que a garota entra em cena e coloca uma bizarra foto em cima do caixão.

Bem, um amante do teatro, em especial das tramas do russo Anton Tchecov, Alain Resnais aqui encena tudo e, mais uma vez, assim como aconteceu com Smoking/No smoking (1993) e Medos privados em lugares públicos (2006), os textos dramáticos do inglês Alan Ayckbourn inspiram mais um projeto do diretor que morreu em março de 2014. Até os dramas dos personagens são, propositalmente fúteis, do ponto de vista da encenação.

“Sexualmente, estamos no mesmo marasmo há séculos”, comenta a personagem de Sabine Azéma, musa e mulher do diretor na vida real. “Que bom que você amadureceu. Não ia conseguir viver com uma mulher que ri o dia inteiro”, resmunga outro ator.

Sendo bem sincero, não sei se gostei muito dessa fita que achei bem chatinha, mas mesmo assim não deixa de ser um filme do mestre Alain Resnais.

* Este texto foi escrito ao som de: The Manhattans (1976)

Manhattans - The Manhattans

Eu não sou cachorro, não

Waldick Soriano no auge da carreira

Waldick Soriano, um dos personagens do livro

Fuscão preto, sucesso de Almir Rogério nos anos 80, foi uma daquelas músicas da minha infância que me marcaram profundamente. Tocava na rádio incessantemente, dia e noite e, naquela época, a gente não tinha preconceito com relação às canções, se era cafona ou brega, essas bobagens. A gente gostava e pronto. Deixava o sentimento rolar e a imaginação em torno da amada idealizada corria solta. Toda vez que escuto Fuscão preto sofro um processo remissivo e viajo no tempo, de volta à minha infância querida que não volta mais.

Por tudo isso, que lamento que Almir Rogério e o maior sucesso de sua carreira até agora não apareceu nas páginas do livro Eu não sou cachorro, não Música Popular Cafona e a Ditadura Militar, magnífica obra escrita por Paulo César de Araújo. Autor da polêmica biografia de Roberto Carlos, o jornalista e escritor baiano é um aficionado pela música popular brasileira em todos os seus segmentos e categoria, o título mais do que irônico com relação a elitista sigla MPB – Música Popular Brasileira.

No livro com quase 500 páginas, o autor mostra que, à revelia do preconceito, das críticas sem fundamentos dos especialistas do segmento, as canções de amor de artistas como Paulo Sérgio, Odair José, Lindomar Castilho, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Waldick Soriano Cachorro nãoe tantos outros, tinham mais a oferecer além de rasgos emocionados de paixão. Mais do que isso, apresentando argumentos contundentes e plausíveis, fundamentado numa narrativa acadêmica, faz justiça e mostra como a dupla, Dom e Ravel, autores da marcha ufanista Eu te amo meu Brasil, fora alvo de interpretações equivocadas sobre a postura política dos artistas, os colocando, historicamente à margem do reconhecimento devido.

“Entre 1968 e 1978, esta geração de artistas procurou expressar em suas composições as questões que, como pessoas do povo, tiveram que enfrentar. Produziram uma obra musical que, embora considerada tosca, vulgar, ingênua e atrasada, constituiu-se um corpo documental de grande importância, já que se refere a segmentos da população brasileira historicamente relegados ao silêncio”, observa Paulo César de Araújo no prefácio.

Eu não sou cachorro, não mostra que, assim como os artistas intelectuais de classe média que vieram de berços culturais como as faculdades, esses cantores “bregas cafonas” não tinham nada de subversivo, reacionário, tendo suas canções questionadas, vilipendiadas e até proibidas pelo regime militar. “Eu não sou cachorro, não remexe em conceitos cristalizados, ao demonstrar que os cantores e compositores cafonas dos anos 70 não eram alienados ou adesistas”, comenta na orelha do livro o jornalista e professor acadêmico Lula Branco Martins.

De quebra, deliciosamente, o autor vai apresentando uma pequena e importante biografia dos artistas citados na obra. Alguns deles de carreira curtíssima, como o ídolo negro Evaldo Braga e Paulo Sérgio. Mas essa é uma outra história.

* Este texto foi escrito ao som de: Waldick Soriano ao vivo (2007)

Waldick Soriano CD

Ida (2013)

Uma noviça judia perdida entre os dramas do holocausto e os prazeres da vida

Uma noviça judia perdida entre os dramas do holocausto e os prazeres da vida

O que uma cerimônia do Oscar não faz, não é verdade? Um dia depois da entrega dos prêmios, e lá estavam dezenas de pessoas se aboletando no cinema do Libert Mall para assistir ao drama polonês, Ida (2013), vencedor da estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Inclusive eu, que havia visto a fita duas semanas atrás e dormido em algumas partes. Novamente cochilei, mas dessa vez nas partes em que não havia dormindo na primeira sessão. E isso não quer dizer que o filme seja ruim ou cansativo. Pelo contrário, é um drama tocante, comovente sobre a história de uma menina freira que não sabe se decide se casa com Deus ou com um músico de jazz na polônia dos anos 60, em pleno comunismo.

“Então você é uma freira judia”, provoca a tia, único familiar que ela tem em vida, num primeiro e amargo encontro entre as duas. “Tivemos nossa reunião de família, tenho que ir”, Emenda ela, sem demonstrar muito afeto pela sobrinha religiosa.

Mas a frieza e a distância entre as duas começam a dissipar com o tempo e logo elas estão trocando recordações tristes, corajosas impressões de vida e sentimentos mútuos de afeto. Uma proximidade que aumenta quando as duas saem em busca dos pais de Ida, provavelmente vítimas dos horrores do nazismo. “E se você chegar lá e descobrir que Deus não existe?”, questiona de forma irônica a tia, sobre a descoberta das carcaças de seus entes.

A fotografia charmosa e triste do filme é um detalhe a parte e, dito isso, admito que não meIda  2 lembro de ter visto um filme polonês que não seja em preto e branco. E é com seu branco ofuscante e sombras melancólicas que Ida, claro, retoma ao tema básico do cinema polonês, sempre exorcizando os fantasmas do holocausto. Mas a forma delicada e contundente com que o diretor Pawel Pawlikoski expõe o drama de uma nação é marcante. Preste atenção na cena da janela, que conta com um vôo mais incisivo do que de Birdman.

Singela, insegura, mas curiosa, Ida (Agata Trzebuchowska) é uma garota que quer se libertar das amarras do sistema seja elas de caráter metafísico ou da carne. A descoberta do pecado, dos prazeres da vida, pela jovem noviça, metaforicamente ilustrados em momentos de delicadeza, como dançar descalça na ponta dos pés ou planejar o futuro ao lado do homem amado é soberbo.

“Eu nunca estive em lugar nenhum”, comenta ela ao falar de seu claustro.

Claro que minha aposta na categoria era o massacrante Timbuktu, filme africano que retrata outro tipo de repressão, só que no mundo atual, mas diante da exuberância tristonha de Ida, até que o prêmio foi justo. Justíssimo.

* Este texto foi escrito ao som de: Shadows in the night (Bob Dylan – 2015)

Bob Dylan - Shadows in the night

Da ressaca do Oscar 2015

"Quem deu um green card a esse filho da mãe", Sean Penn, polemizando no Oscar

“Quem deu um green card a esse filho da mãe”, Sean Penn, polemizando no Oscar

Quem leva o Oscar a sério anda tomando remédio estragado. Nossa, por carregar a responsabilidade de ser o mais importante evento do gênero da indústria cinematográfica, a festa anda cada vez pior ano a ano. E, mesmo sabendo disso, não sei como ainda perco minhas sagradas horas de sono vendo bobagens como o ator Eddie Redmayne levar o prêmio de Melhor Ator, quando sabemos que Michael Keaton esteve bem melhor como protagonista de Birdman. Não que o jovem astro inglês tenha talento. Não vi ao teoria da vida, mas não deve ser fácil fazer o papel de um gênio doente como o Stephen Hawking, mas pelo amor de God!!

Até pela coragem de se expor por meio de um personagem tão outsider em sua trajetória, mostrando a cara à tapa ao metaforizar sua própria trajetória numa produção ousada, o prêmio deveria ser do Michael Keaton.

A noviça rebeldeAinda bem que se fez justiça e o mexicano Alejandro González Iñarritu abiscoitou os prêmios de Melhor Diretor, Filme e Roteiro Original. Ainda bem. “Quem deu um green card a esse filho da mãe?”, brincou Sean Penn, bem ao seu estilo polêmico; “Achei hilária”, minimizou Iñarritu, que dirigiu o astro em 21 gramas.

Cada vez mais cafona e ridícula, a cerimônia do Oscar parece um reflexo do grosso da produção cinematográfica de Hollywood, ou seja, sem credibilidade e saturado. Prova disso é que, pelo segundo ano consecutivo, o prêmio de Melhor Diretor foi para um mexicano. No ano passado quem levou a estatueta foi Alfonso Cuarón com o impactante, Gravidade. Ok, a infraestrutura, o dinheiro, a propaganda vem dos americanos americanos, mas as melhores ideias são deles, e que ideias originais, são deles, os “xicanos”, os primos pobres do Norte. E ontem, Iñarritu não perdeu a chance de dar o troco contra o preconceito e a intolerância.

“Quero dedica-lo a meus amigos mexicanos e a todos os mexicanos que fizeram deste país uma grande nação imigrante”, fulminou.

Alguém aí deve ter sentindo falta deu falar sobre Boyhood. Ora bolas, o filme foi, terminantemente, negligenciado no evento que esqueci de dizer qualquer coisa sobre ele. Mas, falando de coisa séria agora. Há muito tempo que não via um apresentador tão divertido e discreto. Neil Patrick Harris roubou a cena algumas vezes sem parecer chato, exagerado ou irritante. Sua presença ao longo da festa foi agradável e divertida, como na sequência em que anda de cueca pelo palco, numa sátira de antológica cena de Birdman.

E enquanto muitas divas se esforçavam para se aparecer cada vez mais bela pelo tapete vermelho, a musa do popLady Gaga arrasou. Entrando em cena pela primeira vez no Oscar num vestido horrendo, quase me levou às lágrimas ao surgir no palco, horas depois, num belo vestido branco, cantando um tema do filme A noviça rebelde. “A inimitável Lady Gaga”, disse a apresentadora.

Resultado. Triunfou aplaudida de pé.

Ainda bem que temos a Lady Gaga para suportar chatices como o Oscar.

* Este texto foi escrito ao som de: Magazine (1983)

Magazine

Xica da Silva (1976)

Walmor Chagas e Zezé Motta em atuação marcante nesse drama histórico

Walmor Chagas e Zezé Motta em atuação marcante nesse drama histórico

E agora que o carnaval acabou me sinto à vontade para entrar na festa e falar sobre um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional que revi outro dia no Canal Brasil, o drama histórico, Xica da Silva, direção de Cacá Diegues de 1976. Cacá, com sua voz de profeta do Velho Testamento, é um dos cineastas brasileiros que mais gosto pelo seu estilo e autenticidade como criador. Alagoano radicalizado no Rio de Janeiro, o artista não esconde sua admiração pela cultura afro-brasileira, o que levou a realizar vários projetos com a temática como o próprio Xica da Silva, Ganga Zumba (1964), Quilombo (1984) e Orfeu (1999).

Xica da Silva foi o trabalho que trouxe para o plano nacional a figura sensual da atriz Zezé Motta, aqui no papel-título após uma indicação do produtor musical e compositor Nelson Motta, que a viu no musical hippie Godspell e a achou de uma beleza singular. “No primeiro encontro que tivemos, já sabíamos que havíamos encontrado Xica da Silva”, revela o diretor em sua autobiografia, Vida de cinema, devorado, recentemente, com devoção de cinéfilo.

E realmente é bem difícil de imaginar outra atriz no papel da escrava que virou um mito na segunda metade do século 18, após se tornar dama da alta sociedade do Arraial de Tijuco (atual Diamantina), ao se casar com importante representante da coroa portuguesa, o contratador, João Fernandes de Oliveira (Walmor Chagas).Xica da Silva 2

Sem o menor comprometimento com a história e sim com a simbologia cheia de esperança que o mito de Xica da Silva traz, o filme busca personagens e fatos do Brasil colonial para falar, de forma alegórica, da situação que o país vivia naquele momento, então sufocado pelas garras da ditadura militar. Só que teve gente que não entendeu nada e apontou metralhadoras cheias de preconceitos e burrices contra Cacá Diegues, o acusando de sexistas e de debochar da escravidão.

“(…) Não era de escravidão que o filme estava falando, mas do direito à felicidade em qualquer circunstância. Por que lamentar seria de esquerda e celebrar de direita”, ironiza o diretor e sua autobiografia.

O filme começa de forma lírica, num momento idílico do personagem de Walmor Chagas em plena montanhas do Serro do Príncipe tocando um número sentimental. “Os artistas não devem se meter com política, não é verdade?”, diz um dos personagens, mais uma vez fazendo alusão ao momento do país naqueles anos de chumbo, seguido de um discurso pessimista do personagem de Walmor Chagas. “Governar diamantes, será possível? Alguma coisa me trouxe ao Arraial de Tijuco, além da ambição que move o mundo. E alguma coisa me espera por lá, além da aventura que alimenta o espírito dos homens. Talvez o meu destino. A minha própria vida”, vaticina João Fernandes de Oliveira.

Para mim, tão importante quanto a escolha da atriz Zezé Motta para o filme, foi a trilha de Jorge Ben, que escreveu a letra em cima da hora, para desespero do diretor. Talvez por isso tenha ficado tão bem.

* Este texto foi escrito ao som de: África Brasil (Jorge Ben – 1976)

Africa Brasil

Astros do cinema – Marcello Mastroianni

O ator italiano em frente ao cartaz do filme "A doce vida", uma marco em sua carreira

O ator italiano em frente ao cartaz do filme “A doce vida”, uma marco em sua carreira

Marcello Mastroianni, quem as mulheres suspiravam só de ver, sempre repudiou essa história de latin lover. Latin lover? Que paciência precisei ter com essa história”, desabafou certa vez, argumentando que, além de o gostosão em A doce vida, viveu nas telas um corno, homossexual, grávido e até o marido de uma anã. Na verdade, por ele, o grande papel de sua carreira seria o de um Tarzan matusquela sem eira nem beira, zanzando pelas selvas da vida.

Um dos grandes ícones do cinema italiano, dono de charme irresistível e beleza singular, Mastroianni sempre foi um grande amante fora das telas, tendo todas as mulheres que desejou e daí o fato de o rótulo que tanto odiava o ter estigmatizado. Acontece que, por acaso, além de galante, ele era também um grande ator dos palcos e do cinema e sempre fez questão de ser lembrado por esta segunda questão. Assim, dos mais de 140 filmes que fez, sempre deu preferência por papéis que o envelhecia ou descaracterizava o encanto de sua beleza.

“Nunca me achei bonito. Tenho pernas e braços finos, nariz pequeno, lábios quase inexistentes”, desconversou certa vez. “O homem Marcello foi tão galã e galante quanto o ator Mastroianni”, contestou o jornalista e biógrafo Ruy Castro num texto de 2000.

Enfim, a grandeza de Marcello Mastroianni como ator é algo inefável de explicar. Ele simplesmente foi e ponto final. E com a vantagem de ter trabalhado com os grandes mestres e atores de seu tempo. Sem vaidades, não se deixou se deslumbrar por Hollywood, onde só fez um filme dirigido pelo rebelde Robert Altman, Prêt-à-Porter (1994).

Oito e meioTop Five – Marcello Mastroianni

A noite (1961) – No filme ele é Giovanni Pontano, um escritor que, ao lado da bela mulher Jeanne Moreau, vão se embrenhar por uma cruzada existencialista que o irá fazer refletir sobre a vida, sua profissão e o amor que sente pela mulher. Para mim, as melhores cenas são aquelas em que ele surge ao lado da lasciva Monica Vitti.

A doce vida (1960) – Filme marco na trajetória do diretor Fellini e do ator, aqui ele encarna um jornalista que vive nas festas a alta sociedade cercado de mulheres e descobrindo a falta de sentido na busca do prazer imediato. Impagável a cena em que ele anda de cavalinho sobre uma mulher.

Oito e meio de Fellini (1963) – A prova da confiança e parceria bem sucedida de Fellini em Mastroianni está nesse filme onde o ator encarnar o alter ego do cineasta ao viver um artista em plena crise de criação. Inesquecível a cena da revolta do harém ao som de A cavalgada das Valquírias, de Richard Vagner.

Um dia muito especial (1977) – Ao contrário do que se pensa esse talvez seja o melhor trabalho de Mastroianni e Sophia Loren juntos. Ela na pele de uma esposa submissa casada com um fascista. Ele um homossexual radialista que viverá com essa sua vizinha uma experiência humana singular.

A comilança (1973) – Ok, o ator não realizou o sonho de viver um Tarzan matusquela nas telas, mas fez um depravado sexual em A comilança, de Marco Ferreri. O filme é um elogio aos prazeres da vida, o que ele fez sem dever nada a ninguém.

* Este texto foi escrito ao som de: Ghost stories (Coldplay – 2014)

Ghost stories

A importância de ser Prudente

Montagem do texto do início de 2000 com o ator Dalton Vigh (ao fundo), no papel principal

Montagem do texto do início de 2000 com o ator Dalton Vigh (ao fundo), no papel principal

Considerada a obra-prima teatral do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854 – 1900), A importância de ser Prudente estreou nos palcos de Londres em 1895, um ano após ser escrita. Mas eu só fui ver uma montagem desse clássico nos palcos do país por volta de 2003, por aí. Foi ali no Teatro da Caixa numa versão que contava com o bonitão ator Dalton Vigh, no auge da carreira, na pele do cínico Algernon. E é bom que se diga já. Todos os personagens de Oscar Wilde, tal qual como ele, são de um cinismo revelador. Daí o sucesso de seus textos.

Dividida em três atos, a história, pontuada por um ritmo ágil, frenético, traz os melhores aforismos do autor na forma de uma farsa que o tempo todo gira em torno da identidade envolvendo figuras da alta sociedade britânica que insistem em viver o que não são. Daí a essência da trama, ou seja, de que as aparências contam mais do que a verdade.

Algernon é um solteirão falido que despreza as contas quando ela lhe bate a porta, armando novos subterfúgios para fazer mais dívidas. Jack, seu amigo, divide se tempo entre a tranquilidade do campo e os prazeres da cidade. O que liga os dois amigos, além da paixão por duas belas jovens, são laços de sangues que eles nem imaginam ter e que Wilde os conduz por meio de uma ardilosa e deliciosa teia de situações e diálogos que expõe, com fina ironia, o lado mais imoral do ser humano.

“Adoro o teatro. É muito mais real do que a vida”, é uma de suas melhores frases.Ernest 2

Jack, que é tutor de uma sobrinha que vive com ele no campo, a ingênua e apaixonada Cecily, derrete-se de amor pela confiante Gwendolen. Mas a mãe dessa não ver com bons olhos o relacionamento por não achar o rapaz à altura, financeiramente, de sua pequena. Arrogante, sincera e desconcertante, Lady Blacknell é a perfeita personificação do estilo esnobe da alta sociedade britânica. “Os dois pontos fracos de nossa era são a falta de princípios e a falta de perfil”, ironiza.

O título da peça é um divertido trocadilho bolado pelo autor em que as palavras homófonas, “Earnest” (Prudente em português), que também significa honesto em inglês, surge como metáfora para explorar a fragilidade entre os opostos, verdade e mentira, os disfarces impostos por uma sociedade marcada pelas aparências e desprezo à realidade.

“Meu caro amigo, não é nada fácil ser coisa alguma hoje em dia. Há um excesso de concorrência bestial para tudo”, comenta Algy, sem o menor pudor de expor seu lado canastrão.

Identidades trocadas, crianças abandonadas, reencontros familiares constrangedores, apego mortal ao material, reflexão espirituosa sobre a superficialidade e ao banal. Todos esses ingredientes são untados no impecável texto de Wilde que foi responsável, como bem comentou o diretor de teatro Alberto Guzik, por desnudar a hipocrisia da sociedade britânica nos palcos. E ele, Oscar Wilde, pagou caro por isso. “E se a vida para mim é um problema – como certamente acontece -, eu também não deixo de ser um problema para ela”, debochava o artista, bem ao seu estilo deliciosamente arrogante.

* Este texto foi escrito ao som de: The Queen is dead (The Smiths – 1986)

The queen is dead

Ventos de agosto (2014)

Um estranho objeto humano em meio ao litoral alagoano

Um estranho objeto humano em meio a beleza natural do litoral alagoano

Vencedor de dois prêmios na última edição do Festival de Brasília, a fita pernambucana Ventos de agosto, em exibição nas salas da cidade, traz um dos mais eroticamente belos cartazes do cinema nacional. Poesia pura. Já a trama prima pelo bizarro, circundando a trajetória de um casal de namorados de uma pacata vila de pescadores do interior de Alagoas. Ela (Dandara de Morais) adora tatuagem e tem a responsabilidade de cuidar dos mais velhos da família. Ele (Geová Manoel dos Santos), amante da pesca marinha, ganha a vida na plantação de coco, que representa a cultura da região.

Os dois se encontram no trabalho e após a labuta diária se entregam perdidamente ao amor na caçamba de um trator pilotado por ela com maestria pelas estradas de terra e rodovia. A beleza da fotografia premiada está tanto na sutileza com que a luz do litoral alagoano é explorada, quanto no quanto ela é trabalhada junto ao contraste da natureza. Há muito lirismo, por exemplo, nas luzes metálicas dos raios dos trovões explodindo na escuridão do mar, na ventania de agosto soprando na folha dos coqueiros ou nos gemidos de prazer se confundindo pelo sibilar do vento.

Ventos de agosto 2É em meio a esse cenário de paraíso inexplorado que o casal de namorado da trama vive, quando, de repente, a rotina desse idílico é quebrada com a descoberta de um corpo em total estado de decomposição devolvido pelo mar. Eis que o mistério toma conta do lugar, muda o dia a dia dos moradores do lugar e o burburinho do momento é o de saber de quem é aquela carcaça carcomida pelo tempo.

“Essa coisa de defunto é pra coveiro. Pescador cuida é de peixe”, observa o pai do jovem que encontrou o corpo, agora uma incômoda peça fedida pelas ruas do vilarejo.

Não há como passar indiferente a estranheza do filme, com seus personagens simples que são pego de surpresa pelo acaso. Tatuagens em ancas de um porco na calada da noite, pescadores ouvindo Tracy Chapman ao lado desse cadáver podre, uma jovem nua em alto mar que se banha com coca-cola ao som de punk rock. Em meio a essas esquisitices um homem do tempo que tem a missão de ouvir e capturar os ventos alísios, ventos que sopram dos trópicos para o Equador. Logo, ele estará enfeitiçado pela beleza do lugar e seus mistérios.

“É estranho mais as pedras têm pulmão, elas respiram”, ensina ao turista.

O realismo do filme é enfatizado pelo registro cru do cotidiano desse vilarejo litorâneo de Alagoas, pelas atuações de atores estreantes e pela simplicidade da história que usa a natureza para refletir sobre temas universais que às vezes não temos a profundidade de explorar como a morte, o tempo, a vida. Por mais banal que ela seja.

* Este texto foi escrito ao som de: Around the sun (R.E.M. – 2004)

Around the sun

Jerry Lewis – O rei da comédia

O comediante no auge da carreira ao lado do parceiro Dean Martin

O comediante no auge da carreira ao lado do parceiro Dean Martin

Se você não assistiu a nenhuma das deliciosas comédias de Jerry Lewis na Sessão da Tarde, então desculpe meu chapa, mas não teve infância feliz. Sim, anote aí, vou repetir de novo. Se você é do tipo que não viu filmes dos Trapalhões e Jerry Lewis na Sessão da Tarde, então é um perdido na vida. Um dos gênios da comédia, o artista, conhecido por suas caretas inconfundíveis e estilo caricatural, influenciou gente do naipe de Robin Williams, Billy Crystal, Steve Martin, Eddie Murphy,  e Jim Carrey, este último, uma cópia vagabunda do astro do riso.

Cultuado pela turma do Cahiers du cinema, entre eles o mestre Jean-Luc Godard, o comediante é homenageado na mostra O rei da comédia, em cartaz até março no CCBB. Bem, se você é aquele camarada ou camarada que não viu os filmes de Jerry Lewis na Sessão da Tarde, então não perca a nenhum filme.

Caramba, Jerry Lewis foi o meu primeiro ídolo da comédia. Antes mesmo do que de Charlie Chaplin, Didi ou Mazzaropi. Gostava tanto dele que o imitava nas caretas e até no corte de cabelo, ou seja, bem curtinho e com bastante gel. Não sei se colava, mas pelo menos me fazia sentir bem. E de todos os filmes que vi na Sessão da Tarde com o Jerry Lewis, o que mais me marcou, aquele que me lembro até hoje foi o que o astro encarnava um palhaço que chorava. Para mim, uma das grandes revelações da vida foi saber que palhaço chorava e achei a coisa mais bela do mundo quando vi o Jerry Lewis chorava.

Não me lembro o nome do filme e nem sei se ele vai passar na mostra do CCBB, mas se Professor alopradoalguém conhece esse trabalho, sabe da beleza dessa cena que fica lá para os minutos finais da fita. Um sundae! E ainda tem aquele filme em que ele é um atrapalhado funcionário de uma loja de departamento que se atrapalha com um aspirador de pó e o treco acaba engolindo um inofensivo cãozinho. Um sundae!

Para mim, o auge da carreira de Jerry Lewis foi ao lado do eterno parceiro Dean Martin. Dean Martin foi o galã italiano canastrão metido a cantor que cansou de ser escada de um “pateta” e se juntou à gangue de Frank Sinatra. Jerry Lewis, um judeu de Newark que cantava muito melhor do que ele, não se abalou com a separação e, workaholic que era, meteu a cara no trabalho nos anos 60 atuando, escrevendo suas próprias comédias, além de as dirigir e produzir. Dessa fase surgiu O mensageiro trapalhão (1960), O terror das mulheres (1961), O otário (1964) e aquele que para muito especialistas é a sua obra-prima: O professor aloprado (1963).

Bom, grande fã que sou, prefiro todos, inclusive o amargo O rei da comédia (1983), filme de Martin Scorsese em que o astro da comédia atua num papel dramático, zombando de sua própria condição de estrela do cinema e da televisão numa trama marcada humor negro. Uma pena ele não ter abiscoitado o Oscar de Melhor Ator por seu desempenho aqui. Mas quem precisa de Oscar quando se é Jerry Lewis?

Embora eu já tenha visto muitos filmes do artista e ter uma boa coleção de seus filmes em DVD, vou marcar presença com certeza no CCBB para ver obras que não conheço como o cult, Qual o caminho da guerra? (1970), em que ele encarna o papel de um milionário que desafia Hitler, o esquizofrênico, As loucuras de Jerry Lewis (1983) e Três em um sofá, fita de 1966 em que ele contracena com a deliciosa Janet Leigh, musa do mestre de Alfred Hitchcock em Psicose (1960).

Com uma vida pessoal marcada por episódios bizarros, como o escândalo de ser um pai bisbilhoteiro e paranoico que monitorava os filhos 24h por dia por câmeras, Lewis, hoje com 88 anos, ainda é um astro em plena atividade. E seus trabalhos recentes não se resume a bobagens como sua participação no ridículo filme brasileiro Até que a sorte nos separe 2 (2013).

* Este texto foi escrito ao som de: Kind of blue (Miles Davis – 1959)

Kind of blue