Álbum de família (2013)

A força do filme está nos diálogos que entram em cena como farpas de espinhos

A força do filme está nos diálogos que entram em cena como farpas de espinhos

Em Gata em teto de zinco quente, texto do dramaturgo Tennesse Williams adaptado para o cinema por Richard Brooks, em 1958, Elizabeth Taylor é Maggie Pollitt, uma esposa bela e dedicada casada com Brick (Paul Newman). Ele é um ex-jogador de futebol fracassado que, afoga as mágoas de uma vida que poderia ter sido, em hectolitros de álcool. A culpa pelo seu desterro moral ele joga na cara da mulher e do pai (Burl Ives), este um velho com câncer, orgulhoso o bastante para não precisar, nem se desculpar do filho por alguma coisa que aconteceu entre eles no passado. Todos aqui fazem parte de uma família que não deu certo.

Peça de Tracy Letts vencedora do prêmio Pulitzer adaptada para os cinemas por John Wells, em algum lugar do passado e do presente a cáustica e incômoda história de Álbum de família, esbarra nesse clássico do cinema. Isso porque, assim como os personagens de Gata em teto de zinco quente, os Weston é uma família que não deu certo. E sabemos disso logo na cena de abertura do filme, que traz um envelhecido Sam Shepard, explicando que ele e sua mulher têm um pacto registrado num dos parágrafos do contrato matrimonial.

“Eu me encarrego do copo e ela se enche de pílulas”, entrega sem o menor pudor. Ele bebe para aplacar seu fracasso como escritor de um livro apenas. Ela, Violet (Meryl Streep), para amenizar as dores de um câncer de boca que, por ironia do destino, a deixou sem papas na língua.

OssageAlguns frames depois ele resolve abandonar o lar e da tragédia que se sucede desse gesto apatetado resulta num reencontro de todos num clima de álbum de família. Só que sem clima de nostalgia e felicidades coletivas de um autêntico almoço de domingo. Dos escombros do que um dia foi um grupo unido – ou pelos menos de um grupo que fingia ser unido – só restam culpas, ressentimentos e uma boa dose de maldades sinceras. A virulência verbal de Violet durante o jantar, na cena clímax do filme, é de meter medo.

Com estrutura sincera de uma peça de teatro filmada, Álbum de família – indicado a dois Oscars, Melhor atriz para Meryl Streep e Atriz Coadjuvante para Julia Roberts -, tem sua força nos diálogos que são de uma sinceridade pungente e eles jorram em cena como farpas de espinhos para todos os lados. Lembra o genial Joseph L. Mankiewicz em seus melhores momentos e, à medida que segredos do passado são desenterrados e confrontados com as desilusões desses desajustados membros da família, no presente, nós ficamos cada vez mais com vontade de afundar na poltrona.  Como diria o bom e velho Nelson Rodrigues:

“Toda família tem cavernas, pântanos que não convém desenterrar”.

Indicada pela 18ª vez ao Oscar de Melhor Atriz, Meryl Streep, 64 anos, chegou a rejeitar o papel dessa mãe infernal de amarga e rabugenta. Mas o destino e sua grande experiência como atriz que já lhe renderam três estatuetas, provaram que ela estava mais do que certa. A cena em que ela rola com Julia Roberts no chão é de matar de ri, mas o que temos vontade no fim é de chorar.

* Este texto foi escrito ao som de: Slowhand (Eric Clapton – 1977)

Slowhand

O Papa é pop, o Papa é do povo!

Há muito tempo que desisti de deus, mas não desisti do Papa Francisco

Há muito tempo que desisti de deus, mas não desisti do Papa Francisco

Houve certo burburinho recentemente por causa da capa da Rolling Stone que o bom velhinho do Vaticano ganhou. Bobagem. Quem acompanha a trajetória da revista norte-americana sabe que o perfil da antológica publicação é mesmo sempre estar na crista da onda, enfim, na vanguarda da notícia. E mais vanguarda e pop do que o Papa Francisco impossível. Quer ver? Quando o Dalai Lama era a estrela do momento, lá estava a revista Rolling Stone entrevistando o líder budista. Mais do que natural. E mais. No ano passado, o pontífice foi eleito a personalidade do Ano pela concorrente Time, além de se homenageado por uma publicação gay pela mudança do discurso com relação à causa. O bardo Bob Dylan é quem tinha razão, os tempos estão mudando.

E tantas honrarias se devem ao caráter humanista do religioso católico que, a meu ver, está acima do bem e do mal em vários aspectos. É o líder supremo da religião católica que não está nem aí para o Vaticano e todo o poder que emana dessa esfera. A preocupação dele é o ser humano, com os Direitos Humanos. É o primeiro Papa latino-americano da história e o cara está desafiando as leis e tradições da Cúria, enfim, fazendo diferença. Só podia ser argentino. Se fosse brasileiro a Praça de São Pedro já tinha virada a Sapucaí.

Gostava muito do Papa João Paulo II, mas com esse é diferente. Não sei explicar. Como diz o Chicó, só sei que é assim. Veja bem, já faz muito tempo que eu, um ex-coroinha, desisti de deus. E desisti de deus porque ele desistiu de mim. Pegando carona no heterônimo Alberto Caeiro, uma daquelas personas do Fernando Pessoa, eu não acredito em deus porque deus não acredita em mim. E parafraseando outro Fernando, o Sabino, não é vantagem acreditar em deus, mas deus acreditar em mim.

Papa FranciscoMas no Papa Francisco, sim, eu acredito. Acredito nele porque ele acredita em mim, em você, no seu Zé do picolé e até no mala do Agnelo. O Papa Francisco acredita no ser humano, apesar de tudo. Não me esqueço de uma reportagem que ele concedeu a uma televisão britânica, logo quando assumiu o Papado. Chegou lá o âncora fodão e a equipe por trás das câmeras, ou seja, o cinegrafista, o cara que carrega o fio e não sei quem mais. Ele chega, com toda aquela simplicidade franciscana e cumprimenta todo mundo, um por um. Logo em seguida se despede de todo mundo e adentra com o âncora fodão com cara de sabonete.

Minutos depois, volta o Papa todo desconcertado pedindo desculpa ao cinegrafista, o cara do fio e não sei mais quem e os convida para almoçar com ele. Velho, não acreditei quando vi isso, foi de chorar lágrimas de esguicho no meio fio. Se todo mundo fosse assim, sem nariz empinado, metade dos problemas da humanidade não existiria.

Já na Argentina, antes de chegar aonde chegou, o então bispo Mario Bergoglio já fazia um trabalho social junto aos pobres de arrepiar os cabelos do braço. Sem falar que o bom velhinho do Vaticano ajudou muita gente durante a ditadura. Agora ele quer fazer diferença nesse mundo torto, cheio de gente torta que anda por aí. Quem sabe, por exemplo, se ele não põe fim à Guerra Civil na Síria, que já virou palhaçada. Ou melhor, no conflito milenar entre judeus e árabes no Oriente Médio. Quem sabe.

Espero que ninguém faça nenhum mal ao Papa Francisco, o único sujeito que eu acredito ultimamente. Mais do que em mim próprio. Na boa, todas as capas do mundo ao Papa Francisco.

* Este texto foi escrito ao som de: The times they are a-changin’ (Bob Dylan – 1964)

Bob Dylan 4

Fear and Desire (1953)

Cena marcante do primeiro filme do diretor que já trazia traços de toda uma carreira

Cena marcante do primeiro filme do diretor que já trazia traços de toda uma carreira

O primeiro emprego de Stanley Kubrick foi como fotógrafo. Reza a lenda que, numa manhã de abril de 1945, a caminho da escola, ele registra o rosto cansado de um vendedor de jornais contemplando, perplexo, uma manchete sobre a morte do presidente Roosevelt. A foto seria vendida para a revista Look por US$ 25 dólares, US$ 10 a mais do que seria pago pelo concorrente New York daily News e o resto é história. De 1953 a 1999 o cineasta pouco. Apenas 13 longas-metragens. Mas à revelia da curta filmografia, foram obras densas, intensas, marcantes e inesquecíveis.

Bom, como estou lendo o livro Conversas com Kubrick – trabalho organizado pelo prestigiado crítico Michel Ciment -, esses treze títulos serão comentados aqui a partir de hoje dentro de uma perspectiva pessoal e sincera. Tido pelo diretor como um projeto amador, Fear and Desire é o primeiro filme com a assinatura de Stanley Kubrick que, inconformado com o resultado do trabalho, comprou boa parte das cópias. Daí o fato da obra ser raríssima de se comprar e ver. Eu mesmo só conseguir assistir ao filme graças ao Youtube.

Sem nome no mercado ainda, o diretor – que até então havia dirigidos alguns curtas -, foi buscar recurso para realizar o projeto na família, graças à confiança de um tio farmacêutico próspero. Simples, a história gira em torno de um grupo de soldados encurralados atrás das linhas inimigas. Não sabemos nem onde e quando o conflito entre esses homens acontecem, nem o motivo que o Fear and desirelevaram estar ali. Trata-se de uma guerra fictícia no meio do nada.

Sabe-se que o avião desses militares caiu e agora, perdidos na floresta, eles buscam solução para o impasse. No meio do caminho, esbarram com um doberman dócil, soldados inimigos prontamente dizimados, após, emboscada e linda jovem de olhos claros que é feita de refém. Um deles é recrutado a tomar conta dela, enquanto que o resto parte em busca de novidades no front. Ela tenta fugir e ele, que antes queria abusar dela, acaba matando seu objeto de desejo. Os quatro homens finalmente se reúnem, mas o desfecho é cercado de mistério.

Mesmo uma produção franciscana, então realizada por um jovem com 25 anos, Kubrick aqui mostrou a que veio. Tanto que o filme,com leve influência do cinema noir e da nouvelle vague, fez um tímido burburinho na cena nova-iorquina naquele distante ano de 1953. Algumas pessoas ali perceberam que estava diante de um trabalho de um cineasta promissor. Peça de colecionador, a fita exibe alguns detalhes pertinentes que iriam perseguir toda a trajetória do diretor. Uma delas é a bela fotografia, aqui sublinhando poéticas sequencias no rio. A outra é a terminante angústia dos personagens diante dos problemas da vida.

Kubrick retomaria ao tema da guerra em outros dois momentos em sua carreira. Uma delas em 1958, com o sufocante drama, Glória feita de sangue, tendo como protagonista o astro Kirk Douglas. A outra em 1987, em Nascido para matar, a reboque de um elenco não tão estelar assim. Os três formando uma espécie de trilogia do medo diante das injustiças da guerra.

* Este texto foi escrito ao som de: Pieces of you (Jewel – 1995)

Jewel 2

The Johnny Nit Circus

Líder da banda brasiliense Phonopop lança projeto solo de beleza comovente

Líder da banda brasiliense Phonopop, Fernando Brasil, lança projeto solo de beleza comovente

Permita-me que eu escreva duas ou três coisas sobre o som que anda fazendo a minha cabeça nos últimos dias. Trata-se de The Johnny Nit Circus, projeto paralelo do líder do Phonopop Fernando Brasil. Disponível na internet, o trabalho, todo gravado em inglês, é de uma singeleza sonora incrível. Tanto que até agora não consigo tirar da cabeça as canções. Algumas faixas, quando ouço, me dão nó na garganta, caso da tocante, Heavy silences. É folk made in Brasília da melhor qualidade.

Para quem não sabe, o Phonopop é uma das bandas importantes do cenário independente brasiliense nos últimos dez anos ao lado de Suíte Super Luxo (a minha queridinha), Prot(o) entre outras. Escutei muito o primeiro disco deles, Já não há tempo, que tinha uma vibe assim bem britpop, o movimento que eu estava curtindo muito na época.

Inquieto, Fernando Brasil é um desses artistas de Brasília que, ao invés de ficar mofando de inveja alheia pelos cantos ou só reclamando, age, faz. Tem como companheiros nesse estilo ousado de ser, o cineasta José Eduardo Belmonte e o músico Eron Falbo, que recentemente conseguiu gravar um disco lá fora produzido – veja só – por Bob Johnston.

Eu já conhecia essa veia root dele por meio do duo Greens Folkies onde, ao lado de Flávio PhonopopPennacchio (violino e banjo), embalava as noites de Brasília com covers de Bob Dylan, Niel Young, Johnny Cash, Donovan, Stones, Beatles entre outros. The Johnny Nit Circus é mais introspectivo. A começar pelo próprio nome, uma referência ao blog cultural em português que o artista tocava algum tempo atrás, o João Lêndea. É bem sacado é dá brecha para uma série de referências. Sei lá, coisas do tipo o Rock ‘n’ Roll Circus dos Stones ou as pulgas amestradas de Chaplin em Luzes da ribalta (1952).

Além de cantar bem em inglês, Fernando Brasil escreve bem na língua de Shakespeare. Desse detalhe mora a beleza do projeto que deve sair logo em compacto e Vinil. E eu só quero saber quando vamos ver novamente shows desse trabalho relevante por aí. Além de Heavy silences, que tem um clipe de uma beleza estranha no site (http://www.reverbnation.com/johnnynit), destaco ainda a solar Spring coming by, escrita na época em que o artista morava em Londres, e Killing words, que tem traços biográficos.

Dreamscape, a última faixa do projeto gravada entre 2013 e 2014, é Lennon em toda a sua essência. Já Skyscrapers, o registro mais “alta” de The Johnny Nit Circus, lembra alguma coisa da fase mais legal do Blur.

Bem, legal ver pulsar na cidade iniciativas criativas tão sensíveis assim. Serve como estímulo. Sou apaixonado por música folk. Se eu tivesse uma banda faria um som similar assim. Como não tenho nenhuma banda similar, me resta sentar aqui comigo mesmo e tirar no violão uma ou duas canções. Dessas que não saem da minha cabeça.

* Este texto foi escrito ao som de: The Johnny Nit Circus (2013)

The Johnny Nit Circus 2

Melancolia (2011)

No filme, Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg são duas irmãs com medo do apocalipse

No filme, Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg são duas irmãs com medo do apocalipse

Entre Ninfomaníaca – em cartaz na cidade -, e Anticristo (2009), o dinamarquês maluquete Lars von Trier realizou Melancolia (2011), que só tive coragem de ver outro porque o filme estava de bobeira no Telecine Cult. Disse coragem e explico. Minha experiência com relação ao acachapante Anticristo foi tão traumática e desgastante que fiquei com medo de ver outros filmes do cineasta. E isso não é necessariamente uma crítica, mas acontece que você tem que estar bem preparado psicologicamente para embarca num projeto de Lars von Trier. Acho que não vou ver Anticristo tão cedo.

Daí, como tinha visto Ninfomaníaca e percebi que o projeto não era tão agressivo assim, do ponto de vista moral, me animei em ver Melancolia, que é um drama com pegada de ficção científica. Na trama, a Terra está prestes a colidir com um planeta chamado Melancolia. Esse incidente iminente será mostrado do ponto de vista de duas irmãs. Justine (Kirsten Dunst), que acabou de se casar, e Claire (Charlotte Gainsbourg), uma mulher mais madura, já casada e com filho. É ela quem organizou a festa de casamento da irmã num suntuoso palácio que tem campo de golfe com 18 buracos à beira de um lago, pertencente ao marido meio esnobe (Kiefer Sutherland).

MelancoliaSó que as coisas não acontecem do jeito que era para ser e tudo não passa de aparência.  Vaticinando o pior, ou seja, o vazio da situação, a mãe da noiva vivida por uma pétrea Charlotte Rampling desabafa rabugenta. “Eu odeio casamentos. Espero que vocês aproveitem enquanto dure”, diz. Mas antes que a festa chegue ao fim Justine acaba sem noivo e com um medo doentio do que possa acontecer à humanidade por causa do fenômeno científico. “Tem gosto de cinza”, reclama ao mordiscar, depressiva, um pedaço de bolo. “A Terra é má. Não precisamos nos preocupar com ela”, constata pragmática, quando vê que todos estão perdidos.

Já Claire, incomodada com o otimismo do marido, prefere consultar a internet e constata que as previsões sobre o caso não são nada favoráveis. Então o desespero toma conta e ela busca uma saída trágica que não coloca em prática. O desfecho do filme impressiona pelo grande ponto de interrogação deixado por Lars von Trier.

O estilo de filmar e narrar do diretor dinamarquês é bem particular. Elementos que ganham força a reboque dos temas escolhidos pelo artista, no caso aqui, pelo o que eu li, motivado por uma depressão dele. Há muitas referências em Melancolia. O jardim palaciano do filme, por exemplo, lembra o do clássico O ano passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais. O cenário de publicidade da trama parece ter sido inspirado em 2001: Uma odisséia no espaço, do mestre Stanley Kubrick. E o desespero dos personagens em meio a tanto luxo e glamour parece ter sido extraído do elegante, A noite, de Antonioni.

Não sei se entendi o filme, mas pelo menos não foi tão sofrível quanto ao filme anterior. Lars von Trier é assim, um cineasta do desconforto que, gostemos ou não, faz a diferença.

* Este texto foi escrito ao som de: 461 Ocean Boulevard (Eric Clapton – 1974)

Eric Clapton

Diretores – Ingmar Bergman

O cineasta tinha uma pegada existencialista incômoda e obsessão pelo tema da morte

O cineasta tinha uma pegada existencialista incômoda e obsessão pelo tema da morte

O sueco Ingmar Bergman era, antes de tudo, um homem de teatro. Um homem de teatro e filósofo da alma que permeou sua monumental obra no cinema com um misto de medo metafísico e angústia existencialista. Difícil sair incólume da sessão de alguns de seus filmes. Woody Allen, quem entende do assunto, sabe muito bem do que estou falando, porque quando assistiu pela primeira vez Monika e o desejo (1952), numa sala escondida em Nova York, sua vida sofreria um baque.

E foi graças ao Woody Allen, à sua paixão por Ingmar Bergman que tive curiosidade de ver os filmes do diretor sueco. O primeiro que assisti não foi, a exemplo do cineasta nova-iorquino, Monika e o desejo, mas o seu trabalho mais emblemático e conhecido, O sétimo selo (1956). E admito que tive um medo metafísico desgraçado da morte de Bergman chacoalhando seus ossos. Até hoje, mais de não sei quantas vezes depois de assistir, a história do duelo existencial entre um cavaleiro medieval e a morte me dá calafrio.

O que espanta no texto de Bergman – e eu não sei se é por causa de sua origem, do lugar de onde ele veio, do ar gélido que o circundava -, é o olhar frio e cruel, em grande parte pessimista, que ele dedica à natureza humana. E para quem chegou a ler o livro de memórias que ele escreveu – Lanterna Mágica , nota que, muitas vezes, esse olhar era direcionado para um sujeito que se olhava diante do espelho. Isso porque Bergman era um artista angustiado com a vida. Um sentimento que refletiu de várias formas no cinema que fez. “Algumas vezes em minha vida brinquei com o pensamento de cometer suicídio”, disse certa vez.

Bem, para se manter vivo ele entregou-se de corpo e alma ao teatro e ao cinema. Sorte nossa!

Top FiveLanterna mágica

O sétimo selo (1956) – Para mim não é apenas o melhor filme de Bergman, mas um dos grandes do cinema. Na trama, um cavaleiro medieval luta pela sua sobrevivência num jogo de xadrez com a morte. O medo metafísico perambula a narrativa do começou ao fim, com lírica dança da Senhora foice. Max von Sydow está impecável.

Morangos silvestres (1957) – Numa vibe proustiana, o diretor aqui conduz o espectador num carrossel sentimental onde o onírico e a realidade, o passado e o presente, servem de combustíveis para a contundente reflexão sobre a dor da recordação, a perda de uma boa oportunidade na vida.

Luz de inverno (1962) – Um dos títulos que compõe a trilogia do silêncio, o filme flerta mais uma vez com o obsessivo tema da morte nesse que talvez seja um de seus filmes mais pessimistas. Realizado no auge da Guerra Fria, o ponto de partida é o medo de uma crise nuclear. O questionamento sobre a existência de um Deus e o papel da Igreja é colocado em xeques.

Gritos e sussurros (1973) – Claustrofóbico e intimista, é de longe um dos filmes mais perturbadores de Bergman, com mulheres-fantasmas digladiando de forma analítica sobre a dor da perda e a efemeridade da felicidade. Ibsen e Strindberg são influências.

Cenas de um casamento (1973) – Um Bergman despojado e mais corrosivo do que nunca vem à baila numa das melhores análises conjugais já realizadas para o cinema. Boa parte da fonte para as agruras do casal protagonista saiu de seu ninho de amor.

* Este texto foi escrito ao som de: Scott 4 (Scott Walker – 1969)

Scott 4

A menina sem alma

E por causa disso ela me deixou com a corda do coração frouxa, me sentindo ridículo...

E por causa disso ela me deixou com a corda do coração frouxa, me sentindo ridículo…

O estilo dela é francesinha, com pele branca lisa delicada e saliente batom vermelho saltando dos lábios. E por isso mesmo, qualquer verde esmeralda no detalhe da roupa, qualquer azul turquesa ou laranja Henry Miller, nos pormenores, lhe cai bem. E por falar em Henry Miller, se algum dia um escritor resolvesse escrever sobre ela, ou descrevê-la em seu jeito de ser, esse autor seria, num primeiro momento, o vienense Arthur Schnitzler. Não sei se porque a gente acabara de ver um espetáculo em que o famoso psicanalista Sigmund Freud era personagem. Ou porque ela parece ser enigmática como uma esfinge.

E ela é uma menina sem alma e que não parece zelar bem pelos sentimentos alheios. Não parece zelar e nem quer, mas ela não faz isso por mal, mas porque nem percebe. Ou faz de desentendida. Mesmo assim, ela continua sendo uma garota com estilo francês, toda charmosa com penteado clássico de coque que deixa rolar pelo canto da face, sensuais fios de cabelos.

Cabelos esses negros da cor da noite que não lembram os da mãe, embora o nariz de princesa da Disney a denuncie que tem tudo a ver. E ela diz que se parece mais com o pai, inclusive no gosto pelos pratos, pela cozinha. E ela entende e gosta de cozinha. O que faz dela uma garota estilo francesa apetitosa, deliciosa e suculenta. Eu queria devorá-la.

E ela é uma garota performática, atraente com seus tiques e trejeitos, sorriso expressivo. E tem Esfingevoz de mulher madura, apesar do jeito de menina do século 19. Um dia quero beijar sua boca, só para saber se seu beijo tem gosto de passado, tem gosto de saudade. E quem sabe ouvir dela a frase perdida pelos ares do Rio de Janeiro. “Queria um dia só viver com você para sempre”, sonhei com ela sussurrando isso em meus ouvidos.

Tudo bem, eu sou pessimista, mas acredito que todos nós temos almas cheias de buraquinhos que precisam ser preenchidos com impressões diversas. Podem ser elas um filme bacana ou uma canção de amor. Enfim, o sorriso mágico da garota amada, mesmo que ela esteja distante em sua bolha platônica, ou o crepúsculo agridoce de um dia de cão. Pode ser um livro interessante ou um poema falando sobre nossa dor de existir. Sei lá, quem sabe, talvez, a utopia dos desesperados.

E ela não acredita em almas, mas tudo bem porque eu não acredito em deus. E ela diz que sou otimista por acreditar em almas e eu digo que sou pessimista por não existir um deus. E ela parece tão cheia de si por não acreditar numa alma, enquanto que me sinto tão pequeno por não acreditar em um deus. E ela me fez sentir ridículo por acreditar numa alma.

Então a menina de estilo francês e jeito de esfinge foi embora me deixando com a pulga atrás da orelha, com a corda do meu coração frouxa. Amanhã será um novo dia e não sei se quero mais pensar em almas ou pelo menos ter uma.

Ela parece a menina de Jules Jim, mesmo não tendo alma.

* Este texto foi escrito ao som de: Mr. Fantasy (Traffic – 1967)

Traffic

O lobo de Wall Street (2013)

Por sua atuação no filme Leonardo DiCaprio merece ganhar o Oscar de Melhor Ator

Por sua atuação no filme Leonardo DiCaprio bem que merecia ganhar o Oscar de Melhor Ator

Até agora já foram cinco parcerias no cinema do ator Leonardo DiCaprio e o cineasta Martin Scorsese. O primeiro encontro desses dois titãs da sétima arte aconteceria em 2002, com Gangues de Nova York (2002), a fábula épica sobre a criação de Nova York. Depois vieram O aviador (2004), Os infiltrados (2006) – que rendeu a Scorsese o Oscar de Melhor Filme, Diretor e Edição -, Ilha do medo (2010) – que não entendi nada – e agora o delicioso O lobo de Wall Street, que vi ontem. Indicado a cinco estatuetas este ano, entre elas a de Melhor Filme, Diretor e Ator para DiCaprio, o filme, uma das estreia de hoje, surpreende em vários aspectos.

Primeiro pela pegada jovem de Scorsese que parece não ter deixado a idade o esmorecer. Com 71 anos, o diretor de clássicos com Taxi Driver (1976) e Touro indomável (1980), deixa muito cineasta jovem no chinelo e tem como vantagem a experiência, ou seja, o grande conhecimento cinematográfico que adquiriu ao longo de uma carreia marcada por sucessos. Em Hollywood, quilometragem é tudo. Assim, recheia a narrativa de O lobo de Wall Street com uma montagem ágil e envolvente, fazendo parecer os quase 180 minutos de filme voar.

Wolf 2Depois pelo roteiro primoroso de Terence Winter (Família Soprano e O império do contrabando), a partir do best-seller biográfico de Jordan Belfort, um corretor que se deu bem em Wall Street, nos anos 80 e 90, até pegar alguns meses de prisão por vários crimes. E foram meses e não décadas porque ele colaborou com a justiça. É meu chapa, nos Estados Unidos a coisa é séria, bandido vai para cadeia, com ou sem dinheiro.

Mas, sobretudo, pela atuação estupenda de Leonardo DiCaprio que, se não abiscoitar o Oscar de Melhor Filme desta vez é puro preconceito da academia por ele ter um rosto bonito. Confesso que Leo é um ator que engana o espectador. No começo dos filmes você fica meio desacreditado com seu desempenho, mas aos poucos ele vai crescendo, crescendo, crescendo, até te ganhar com um desfecho fulminante. Em O lobo de Wall Street, que ele produz junto com Martin Scorsese, é assim.

Há pelo menos dois momentos impagáveis no filme com ele no comando. Um deles é quando o astro pega o microfone nas mãos e começa a berrar como um pastor conduzindo uma “festa da ganância” para um bando de drogados, ninfomaníacos e ambiciosos loucos. O outro a hilária cena em que se arrasta pelo chão torto e enviesado sob efeito de drogas sintéticas. “Um dia você vai sofrer as consequências”, vaticina o pai. “Quem quer viver na merda de um mundo real”, retruca, ele, cheio de soberba e o preço que paga é bem caro, mesmo com todo dinheiro que tem.

E O lobo de Wall Street acaba sendo sobre isso, ou seja, a ganância humana. Não importa o quanto alto você esteja porque um dia acaba caindo. E o tombo será feio. Não existe crime impune.

* Este texto foi escrito ao som de: Burnin’ (John Lee Hooker – 1962)

John Lee Hooker

Camélia no CCBB

Peça é baseada num estudo em que Freud fez com paciente lésbica

Peça é baseada num estudo em que Freud fez sobre paciente lésbica em 1918

Achei que fosse alguma coisa sobre A dama das Camélias, o clássico filme com a Greta Garbo dos anos 30, mas não é. E até agora ainda não entendi o porquê da relação da flor com a história de Sidonie Cislag, jovem homossexual que no início do século passado foi paciente de Sigmund Freud. Mas tudo bem. Na peça Camélia, em cartaz até o dia 16 fevereiro no CCBB, ela é Marguerethe Csonka, uma judia que vivenciou duas guerras mundiais – numa delas fugindo dos nazistas -, chegando a passar uma temporada no Brasil tempos depois.

Um incômodo para a família, Marguerethe foi levada pelo pai para ser tratada pelo então professor Freud. Isso em 1918. A esperança da família era de que ela pudesse “voltar à normalidade”, só que dois anos depois recebeu alta, sem o renomado psicanalista ter descoberto a verdadeira causa da doença de sua paciente. Ele não podia curá-la por ela amar outra mulher. Em 1920 Freud publicaria os estudos sobre esse então inusitado caso que agora o dramaturgo Ronaldo Ventura, vencedor da sexta edição do concurso dramaturgia Seleção Brasil em Cena,  nos apresenta. A direção é de Luana Proença.

Em cena, sete atores dão vida aos desejos conflituosos da personagem que se entregou a muitas mulheres, mas que só teve um grande amor na vida, alguém mais velha e casada. “Solidão é um estado de espírito, acredita a personagem”, que o tempo todo brinca com sua condição de homossexual. “Tudo é sem sentido. (…) Nossa natureza encontra-se no movimento. O inteiro repouso é a morte”, diz ela, transitando por mudanças e revoluções Senhoritas de uniformeconstantes ao longo de 100 anos de vida.

Jazz, blues, pop rock é a trilha sonora desses 10 séculos de vida. Billie Holliday, Aretha Franklin, ABBA, Frank Valli, Wagner, entre outros, todos eles cúmplices desse mosaico de descoberta e decepções. “O nome da minha pátria é paixão”, se desespera nossa heroína, dentro de um cenário simples, mas comunicativo com suas tragédias. “Lésbica é uma mulher refinada com predileção por uma pessoa do mesmo sexo”, ironiza em dado momento da trama que segue pelo relógio do tempo sem ter uma lógica linear.

Mas à medida que o tempo corre e se transforma, somos apresentados às estações do ano, à moda da época, ao som do momento. Está tudo lá, a barulheira esquizofrênica de Nova York, o clima de perversidade da Berlin dos tempos de Hitler, o sol abrasador das pradarias cariocas. É o tempo e o lugar interferindo na trajetória da personagem e seus amores.

De repente, o espectador é pego de surpresa com uma cena de beijo lésbico e outro e mais outro. É impressionante como os beijos entre mulheres parecem ser tão quente, mais intenso, carregados de desejos. O drama francês Azul é a cor mais quente mostrou isso.

A título de curiosidade e, sobretudo informação, o primeiro beijo entre mulheres no cinema aconteceu em 1931, no filme alemão Mädchen in Uniform, entre as atrizes Hertha Thiele e Emilia Unda. Isso é comentado durante a peça e eu achei que fosse um filme da Leni Riefenstahl, mas nada a ver.

* Este texto foi escrito ao som de: I never love a man the way Love you (Aretha Franklin – 1967)

Aretha Franklin

Performance (1970)

Mick Jagger bem à vontade numa menage à trois. Filme marcou sua estreia como ator

Mick Jagger bem à vontade numa menage à trois. Filme marcou sua estreia como ator

Em 1970 Mick Jagger ainda estava na crista da onda na cena londrina. Talvez por isso mesmo que o cineasta Nicolas Roeg e o roteirista Donald Cammell não perderam tempo e chamaram o astro do rock para viver o gângster bissexual Turner no estranho thriller Performance. O filme, com leve influência da nouvelle vague, marcou a estreia do líder dos Rolling Stones como ator e é uma das produções que eu tinha vontade de ver com ele atuando. O outro é Ned Kelly, no qual ele vive o fora da lei do título. Esse eu ainda não vi.

Em Performance, ele surpreende com sua figura andrógena para lá de esquisitona. Eu diria que ele é melhor ator do que os Beatles e Elvis Presley. E mais, tem uma queda de braço feia com David Bowie, que também andou fazendo coisas boas no cinema. Mas voltado ao Mick Jagger, no filme ele não é protagonista. O ator principal é James Fox, que vive um gangster que se desentendeu com seu bando e agora é perseguido por eles por toda a cidade de Londres. Numa das cenas mais fortes ele é chicoteado pelos caras em seu quarto de hotel.

Mas os vilões do vilão marcam bobeira e ele foge de novo, se escondendo na casa desse rockstar decadente e frustrado, um sujeito misterioso envolvo em drogas, maquinações psicológicas e muita putaria. É fácil achar que Mick Jagger transporta para as telas sua identidade de estrela da música, mas não é isso que vemos ao assistir sua atuação, carregada de malícia e perversão.

Por tudo isso, Performance foi proibido de ser exibido no Brasil por dois anos, o que, Performance movie image Mick Jaggerevidentemente, só fez aumentar o interesse das pessoas pelo filme que conta ainda com sua namorada da época, Anita Pallenberg, no elenco. Outro ponto alto do filme é a trilha sonora comandada por Jack Nitzsche, grande compositor de trilhas sonoras e produtor de vários discos dos Stones.

O próprio Mick Jagger dá sua contribuição musical ao filme compondo, junto com o parceiro Keith Richards, o tema de se personagem, a faixa Turner’s Song. “Come now, gentleman, your love is all I crave/ You’ll still be in the circus when I’m laughing, laughing on my grave”, diz o refrão.

Diretor de fotografia de filmes respeitados como Lawrence da Arábia (David Lean), Fahrenheit 451 (François Truffaut) e Orgia da morte (Roger Corman), o britânico Nicolas Roeg também faria seu debute como cineasta nessa produção que seria uma das precursoras do vídeo musical. Mais tarde, o conterrâneo Guy Ritchie lhe prestaria uma homenagem, meio que inconsciente a esse filme em Snatch.

Nas décadas seguintes, Mick Jagger abraçaria outros projetos no cinema, destaques para a ficção científica Freejack – Os imortais (1991) e o homossexual Greta, no drama de guerra Bent (1991). Mas nenhum como o impacto e ousadia artística do que Performance, um filme impactante até mesmo para os fãs do líder da banda a mais tempo na ativa.

* Este texto foi escrito ao som de: Get Yer Ya-Yas Out! (The Rolling Stones – 1970)

Get Yer ya ya out