O cinema de autor de Oswaldo Montenegro

Oswaldo Montenegro e a trupe de Léo e Bia

Oswaldo Montenegro deu as caras mais uma vez. E agora no cinema, arte de Godard, Michelangelo e Glauber Rocha. E tudo isso porque o cantor e compositor carioca, de alma brasiliense, é um dos artistas mais versáteis e originais de sua geração. E atuantes também. “Tenho ojeriza a férias”, costuma declarar. E que bom que seja assim. Os fãs e amantes da boa arte agradecem.

Exibido ontem no Cine Brasília, o musical Léo e Bia, sua estréia na direção, emocionou o público mais uma vez no Festival de Brasília. Mas ao contrário da comoção catártica de Rock Brasília – Era de ouro, de Vladimir Carvalho, de uma maneira mais afetiva e singular. Difícil de entender se você não esteve na sessão, já que o projeto cinematográfico do artista é uma experiência sensorial das mais envolventes e emocionantes.

Meio Jesus Cristo Superstar, meio teatro mambembe, completamente um diário emotivo, o filme consegue ser sincero, visceral, libertário, anarquista, mas sem parecer pretensioso ou chato. Até porque, como diz um personagem que representa a repressão na fita. “Subversão não tem idade”. E subversão aqui, no bom sentido, é claro.

Gosto do jeito pessoal, peculiar e autêntico com que Oswaldo Montenegro ver a vida, rindo de si mesmo e das coisas que perpassam seu caminho, sejam elas boas ou ruins. Com aquele jeito de gnomo renascentista, druida medieval, meio Cristo pop ele atinge fundo o coração das pessoas. Mas só das pessoas sensíveis, espécie rara nos dias de hoje. “Feliz do povo que mistura Xangô com Cristo”, diz a narradora do filme vivido pela ex-mulher Paloma Duarte. “Ditadura não tem nada a ver com sexo, tem a ver com estupro”, declara o desmiolado e rebelde sem causa Encrenca, vivido pelo ótimo ator Pedro Nercessian.

Oswaldo Montenegro é um artista que se entrega de corpo e alma em tudo o que faz. Daí os seus trabalhos, gostem ou não, serem banhados por uma aura quase metafísica, mediúnica. Projeto de cunho intimista na origem, mas universal no conceito, o musical Léo e Bia bebe na fonte de obras como Hiroshima meu amor ou A noite, dos mestres Alain Resnais e Michelangelo Antonioni.

Tudo bem, eu sei, eu sei, as duas obras citadas não são musicais. Mas são filmes de “autor” e é isso o que essa estreia contagiante de Oswaldo Montenegro na sétima arte representa. Um autêntico filme de autor, cinema de arte da melhor qualidade. Uma obra que privilegia o trabalho do ator e, sobretudo, o texto, em sua mais genuína expressão. Tanto é que nem parece que a história toda se passa dentro de um galpão. Um verdadeiro útero de ideias e impressões.

“Quem não pode atacar o argumento, que ataque o argumentador”, diz alguém citando o poeta francês Paul Valéry. Duvido encontrar alguém que ataque com argumentos esse obra bacana de Oswaldo Montenegro.

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Entrevistas: Oswaldo Montenegro e Françoise Forton

Oswaldo Montenegro e Françoise Forton unidos por amor à Brasília no musical Léo e Bia

Oswaldo Montenegro nasceu no Rio de Janeiro, mas dos oito aos 15 anos viveu entre as ruas sinuosas e estreitas de São João Del Rey (MG). Em 1971, caiu de pára-quedas em Brasília. O choque cultural foi inevitável. “São João Del Rey é aquela cidade barroca, a própria história, enquanto que Brasília, naquele início dos anos 70, estava por se fazer. Pairava no ar aquela sensação de pioneirismo onde era possível fazer tudo, um passaporte para a ousadia”, lembra o artista, 40 anos depois.

Um dos ícones da música brasileira, o versátil artista volta à cidade que lhe projetou como expressão cultural para lançar no Festival de Brasília, hoje, às 15h, dentro da mostra Primeiros Filmes, o DVD do musical Léo e Bia, sua primeira incursão no cinema. O filme será projetado no Cine Brasília. “Tenho ojeriza a férias, não consigo ficar parado”, brinca.

O projeto, com fortes influências do cinema de autor, é inspirado na canção homônima escrita no final dos anos 70 por Oswaldo para um casal de amigos, a dupla que dá título à faixa, seu primeiro sucesso radiofônico. Anos mais tarde, em 1984, o próprio artista adaptaria para teatro a história. A experiência com a sétima arte, segundo o artista, foi marcante. Mas ele confessa que ainda prefere ser reconhecido como cantor e compositor. “É o que eu sou na verdade”, afirma. “A adaptação para cinema dessa peça era um projeto antigo que só resolvi fazer quando me sentisse bastante à vontade”, revela. “Mas é um filme feito do jeito que sei fazer, porque cinema é outra língua, não tenho competência, nem know how para ser um grande artista da sétima arte”, confessa.

A trama do filme produzido pela mulher e atriz Paloma Duarte se passa em 1973, no olho do furacão das opressões do regime militar, mas a cidade também sufoca pela falta do que fazer e pela imensidão hopperniana dos seus horizontes. “Brasília é uma cidade que oprime por excesso de espaço”, observa o ator, que conta nas telas a história de sua geração, dos amigos que o cercava e lampejos da própria vida. “Basicamente é uma história que fala das amizades, dessa coisa de se agarrar aos amigos e também sobre a ousadia do sonho diante da opressão”, comenta.

Assim, uma trupe de amigos se chafurda num enorme galpão, cenário único de todo o enredo, onde passam hora e mais horas mergulhados em ensaios. É dentro deste imenso turbilhão metalinguístico, que eles estão decididos a viver a arte, mas, sobretudo, a vida. “Essa sala de ensaio é como se fosse um útero para essa turma”, destaca o diretor. “Parece teatro, mas com uma estética bem experimental, onde os cenários e elementos cênicos são bem realistas”, detalhe Oswaldo Montenegro, que volta a trabalhar com a amiga Françoise Forton, com quem teve oportunidade de estudar no início dos anos 70, numa escola no começo da W3 Sul.

“O Oswaldo é uma pessoal adorável e de grande generosidade também, um artista que pulsa o tempo tudo”, elogia a amiga, que topou embarcar nessa viagem experimental nas telas, por acreditar no projeto, claro, mas também por amor à Brasília, cidade que, assim como Oswaldo Montenegro, ela iniciou sua carreira. “Cheguei aqui muito nova, então minha formação como artista nasceu em Brasília, primeiro como bailarina depois como atriz de teatro”, revela Françoise Forton, que vive no filme Léo e Bia, uma mãe opressora, que nutre uma desvairada obsessão pela filha Bia. “Ele é uma atriz frustrada que tem uma relação patológica, doentia com a filha. Embora, particularmente, seja a mãe da Bia, ela tem um pouco das mães de todo o mundo”, garante a atriz.

Rock Brasília na veia!

Vladimir Carvalho lambendo a cria, o documentário Rock Brasília - Era de ouro

Brasília respira rock. Nessas veias, vias e traços desenhados por Oscar Niemeyer, o gênero que imortalizou a figura de Elvis Presley, Beatles e os Sex Pistols, ajudou a construir a trajetória de uma turma que deu identidade ao rock brasileiro por meio de canções, letras e comportamento bem singulares. Eram os meninos da Colina, filhos de diplomatas, embaixadores, funcionários do alto escalão do governo e professores da UnB que um dia, desdenharam um futuro promissor nas altas esferas do poder, para abraçarem aquilo que eles acreditaram, de fato: a música.

Essa história foi bem contada pelo brilhante jornalista Carlos Marcelo no seu livro Renato Russo – O filho da revolução. E só poderia ser retratada nas telas de cinema por ninguém menos que Vladimir Carvalho, que emocionou o público na noite de ontem, com exibição na Sala Villa-Lobos, do documentário Rock Brasília – Era de ouro. O filme marcou a abertura da 44ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB).

Como era de se esperar, foi uma comoção geral, uma catarse emocional, abundantemente visceral. Há muito tempo que o Festival de Brasília não demonstrava tamanha empolgação diante de uma projeção. De uma simplicidade ululante, a narrativa percorre os passos dessa garotada entediada com a falta do que fazer no Planalto Central, com a opressão sem limite da ditadura e que buscou na música, a válvula de escape para nortear seus sonhos e anseios.

A riqueza e preciosidade dos depoimentos são poderosos, mas as imagens arquivadas por mais de 20 anos pelo mestre Vladimir são impactantes. São elas que dão a grandeza e importância do filme como as passagens perturbadoras do fatídico show da Legião Urbana no extinto estádio Mané Garrincha. Você pode até ter visto algumas cenas da famosa apresentação em algum lugar, mas nunca de forma tão visceral e reveladora como em Rock BrasíliaEra do rock.

Com veia jornalística, o diretor registrou passo a passo a queda de braço do ídolo Renato Russo com o público irascível e o caos que se transformou a passagem da banda pela cidade, em 1988, com gente massacrada, estraçalhadas nas enfermarias. “Não queremos saber deles nunca mais”, branda um fã inconsolado.

Em outro momento emocionante e igualmente revelador, Dinho Ouro-Preto revela como a morte de Renato Russo ressuscitou o Capital Inicial, hoje uma das bandas mais importantes do rock nacional e herdeiros do legado deixado pela Legião Urbana.

Há quem diga que o filme seja longo demais. E é mesmo, mas nem dá para notar tal detalhe porque a narrativa envolve de tal maneira que quando a fita termina a gente diz: “Ué, mas já acabou?!”.

Outros podem reclamar que Vladimir tenha se perdido ou mesmo traído suas origens em experimentalismo como a inclusão de trechos em animação e outro dramatizado por atores, mas e daí? Woody Allen não fez tudo isso em Annie Hall e não entrou para história como gênio?

Rock Brasília – Era de ouro já vale por si só como um testamento documental precioso de uma fase importante da história de Brasília. Brasília essa que Vladimir Carvalho mais uma vez estampa nas telas do cinema brasileiro porque, como desabafou, ontem, no palco da Sala Villa-Lobos, ama demais.

Nós também Vladimir!

44º Festival do Cinema de Brasília

Vladimir Carvalho arquivou por 24 anos imagens raras do rock de Brasília

O velho companheiro de guerra Vladimir Carvalho está de volta ao Festival de Brasília e, para variar, mais uma vez fala da cidade como sempre fez e de um jeito que só ele sabe fazer. Abre hoje, o evento, na Sala Villa-Lobos, e vai contar a história do rock de Brasília num documentário que só ele podia contar. Durante 24 anos, o cineasta paraibano arquivou imagens preciosas do fatídico show da Legião Urbana, no extinto Mané Garrincha.

E não só isso. Incentivado pela garotada que ensinava cinema, na UnB, foi a campo e registrou as primeiras imagens de uma turma que costumava ver quase todos os dias transitando, perto de sua casa, na 104 Sul, e que agora estava dando o que falar. Eram os meninos da Colina, futuros integrantes das bandas Plebe Rude, Capital inicial e Legião Urbana.

Rock Brasília – Era de ouro promete emocionar num ano atípico de festival, onde tudo é novo, divino e maravilhoso. Pelo menos para os organizadores do evento, que deu uma mexida vertiginosa no conceito, mudando tudo. Desde a data, antecipada em dois meses, passando pela queda do ineditismo e o acréscimo de duas mostras novas: a Paralela Brasil e Primeiros Filmes. Sabe como é né? Governo novo, cara nova.

Vamos ver se dá certo, se dá pé, porque o evento estava meio capenga mesmo. Eu, que acompanho o Festival de Brasília há bastante tempo, estava desanimado, imagina os competidores e o público? É preciso oxigenar, se reinventar, do contrário o sistema engole tudo.

Conversei com o Vladimir Carvalho outro dia e ele me disse que está ansioso. Pudera. É a primeira exibição da fita em Brasília, diz que vai ser uma prova de fogo. “É o que tenho para oferecer”, conta, com aquele jeito simpático, autêntico e sincero dele.

Confesso que, como grande fã da Legião Urbana, do próprio Vladimir Carvalho, eu é que estou bastante ansioso.

Leia matéria sobre as mudanças do Festival de Brasília aqui: http://bit.ly/rflOAi

Leia matéria com o cineasta Vladimir Carvalho, que fala sobre seu novo filme: http://bit.ly/pnGQfK

* Este texto foi escrito ao som de: Odelay (Beck – 1996)

Discoteca Básica (32) Parklife

Blur, sonoridade costurada entre o retrô e o pop moderno

Naquele início dos anos 90 a pergunta mais freqüente que se ouvia no meio musical, pelo menos no Reino Unido, era: Quem era melhor, o Oasis ou o Blur? O duelo entre as duas bandas parecia inevitável e a pergunta era feita como se os dois grupos fossem uma unidade sonora unânime e inseparável. Não eram. Eu, nunca me deixei me levar por esse dilema boboca cavado pela mídia sensacionalista, para mim os Beatles eram os Beatles. E os Stones eram os Stones. Assim como o Oasis era o Oasis. E o Blur era o Blur. E o Oasis sempre foi minha banda preferida.

Mas o Blur tinha um charme todo especial, com aquela sonoridade singular que unia o retrô com as novidades tecno. A banda estava em constante afinidade com o passado, mas parecia soar extremamente moderno. E enquanto a humanidade, naqueles dias de som e fúria, estava perdida, sem saber se escolhia Roll with it ou Country house, como o hit daquele ano de 1995, preferi rebobinar a fita um ano e dá um passeio despretensioso pelo descontraído Parklife, lançado no ano anterior.

Com frescor musical contagiante, o álbum, que era para se chamar soft porn e trazer estampado na capa foto do Palácio de Buckingham, é o trabalho que capta, em todas as matizes, o estilo do grupo. O famoso senso de humor britânico, aqui com forte influência dos ídolos Kinks, e bem interpretado pelo debochado vocalista Damon Albarn, está lá, e não há como não identificar influência de Beatles e Pink Floyd em faixas como The debt collector e Far out. “Não é surpresa que hoje/Vou levantar lá pelas duas sem nada para fazer/A não ser pegar um resfriado”, canta Damon em Badhead.

Minhas faixas preferidas são End of the century e To the end. E acredite, o grande homem por traz do Blur não é Albarn, mas o guitarrista Graham Coxon. É tão bonitinho ouvi-lo cantar nessa última. “Bem, você e eu/Apaixonados/E parece que poderíamos ter feito isto, sim, até o fim”.

* Este texto foi escrito ao som de: Parklife (Blur – 1994)

Eu também já fui um Quasimodo

O amor proibido entre o horrendo corcunda Quasimodo e a bela cigana Esmeralda

Ele nasceu deformado e, rejeitado pela mãe, foi encontrado abandonado nas escadas da Catedral de Notre-Dame, em Paris. Mas as escadarias de Notre-Dame não são qualquer escadaria e um dia ele foi encontrado por um nobre burguês. Ou seria burguês nobre? Não importa. O que importa é que seu tutor cuidou dele como se fosse um dos seus, amado ou não, era um dos seus. Com o tempo, essa criatura horrenda, bestial, se tornaria sineiro. Mas não um sineiro qualquer, e sim o sineiro da maior e mais imponente catedral do mundo. A Catedral de Notre-Dame. Ele é o Corcunda de Notre-Dame, ilustre personagem criado pelo escritor francês Victor Hugo, no século 19.

Clássica obra da literatura universal, o livro conduz o leitor à Paris medieval de Luís XI para contar uma história de amor impossível entre um aleijado e uma bela mulher, a cigana Esmeralda. Contudo, o impasse amoroso é só um pano de fundo para o autor tratar de temas contundentes, universais e, infelizmente, atuais como intolerância, soberba, mentiras e intrigas palacianas, rejeição e preconceito.

Eu sei o que é preconceito. Também sei o que rejeição. Um dia eu também fui um Quasimodo. Senti na pele esses dois sentimentos e por um amor não correspondido, como aquele vivido pela triste criatura da literatura. E assistindo a uma das várias adaptações da história para o cinema, a de 1939, com Charles Laughton e a deliciosa Maureen O’Hara, me emocionei, me entristeci, fiquei com vontade de ler a trama original, que estava bem ali, quase escondida em minha estante mágica.

O problema é que, ao contrário do deformado Quasimodo, meu amor não foi correspondido por eu ser feio, distorcido, meio monstrengo. Modéstia à parte, até que sou bonitinho. Meu tipo de deformação é outro. Não pertencer às altas esferas do poder, não ter tido a sorte de ser filho de diplomata ou coisas do gênero. Ridículo, mas é a mais pura, hedionda e crassa verdade.

Tudo bem, não cheguei a ser chicoteado e ridicularizado em praça pública, como o solitário personagem de Victor Hugo. Mas tive meus sentimentos zombados entre um grupelho de hipócritas e cínicos. Me acusaram de um crime que não fiz e, pior, nem me deram a chance de defesa. Me jogaram aos lobos como se eu fosse um naco de carne apodrecido.

O pior tipo de deformação é a interior. Pobreza de espírito dá câncer!

* Este texto foi escrito ao som de: Throwing Copper (Live – 1994)

Hoje é dia de Rock in Rio!

Freddie Mercury rege um coro de mais de 300 mil coro no Rock in Rio de 1985

Aumente o volume aí baby, porque hoje é dia de rock, de Rock in Rio e, como vocês sabem, não estarei lá. Mas e daí? Não estou a fim de virar suco de tomate no meio daquela multidão de selvagens ignaros. Não faria isso nem pelo Coldplay, muito menos pela minha estrela da manhã e da noite. Mas vou acompanhar a festa da minha televisão que é o melhor lugar. Meu trono é meu mundo.

Aliás, já estou acompanhado os preparativos dessa grande festa da música mundial já faz algum tempo com matérias e especiais em vários lugares. O melhor canal, literalmente, é na GloboNews. Outro dia foi emocionante rever James Taylor embalando uma feérica massa com a baladona You’ve got a friend. Um momento mágico e pensar que ele estava se sentindo um merda naquela época, mergulhado em drogas e bebidas. Não duvide, mas o Rio de Janeiro, o Rock in Rio salvou sua vida.

Duvido, sinceramente, se essa edição terá um momento marcante como esse do James Taylor, com essa farofada de estrelas fake como Rhianna, Shakira e não sei mais quem. Ok, nessa edição tem muita gente bacana como Red Hot Chilli Peppers, Steve Wonder, o próprio Elton John – hoje uma árvore de natal de abacaxi -, Guns ‘N’ Roses, – decadente -, além dos nacionais Titãs, Paralamas, Capital Inicial, Milton Nascimento, entre outros, mas o grosso dessas atrações é uma embromação sem perna, nem cabeça. Tudo bem, gosto não se discute. Lamenta-se.

E por falar em momentos marcantes, Milton Nascimento irá nos presentear com uma homenagem ao cantor Freddie Mercury, nos 20 anos de sua morte, ele que foi assim, espécie de símbolo do primeiro Rock in Rio. Os dois irão revisitar a mágica Love of my life.

Bonito ver imagens antigas do líder do Queen embalando milhares de fãs junto como guitarrista Brian May, numa montagem hipnótica com o último surfando sobre o público e Freddie Mercury orquestrando um coro de mais de 300 mil vozes. “Beautiful!”, emociona-se o artista.

Tudo bem, as novas edições do Rock in Rio perderam o brilho e autenticidade da primeira festa, mas não tem como deixar de reverenciar o legado do festival, que colocou e coloca o Brasil na rota mundial dos grandes eventos musicais. Mas o primeiro evento foi especial porque foi uma espécie de catarse emocional depois de tantos anos sob repressão. E marcado por simbologias. Por exemplo, no dia em que o Barão Vermelho subiu ao palco, Tancredo Neves era eleito o primeiro presidente da democracia. “Com certeza amanhã irá nascer um novo dia”, diria um lírico e esperançoso Cazuza, depois de embalar o público com Pro dia nascer feliz. Era o som da democracia.

Emocionante, revendo as imagens daquela edição de 1985, a Blitz no auge da carreira, com a gostosinha Fernanda Abreu mandando ver junto com Evandro Mesquita no palco. Espontaneidade e alegria, duas sensações que as imagens revelam. Hoje tudo parece um tanto quanto engessado por conta dos lances publicitários e deslumbramento boboca de uma mídia provinciana.

Naquela primeira edição, deslumbrado quem estava era o líder do Whitesnake, que tomou um susto quando viu a quantidade de fãs que tinha por aqui. Emocionado, não fez feio. Assim como o enérgico Rod Stewart, que deixou o público em êxtase com a bandeira brasileira enfiada nas calças a reboca de Sailing, com sua inconfundível voz rouca.

Como se vê, o novo Roci in Rio está ai. Mas não acredito que será a mesma coisa. Mas melhor do que nada, certo?

* Este texto foi escrito ao som de: Californication (Red Hot Chilli Peppers – 1999)

Os rinocerontes estão chegando!

Não olhe agora, mas esses bichanos enormes vão invadir nossa praia!

Uma das cenas mais divertidas de Meia noite em Paris, de Woody Allen, é quando o aspirante a escritor Gil Pender (Owen Wilson) esbarra com os surrealistas Salvador Dalí, Man Ray e Luís Buñuel, num típico café parisiense, e é surpreendido pelas obsessões do momento do pintor catalão: …rinocerontes!

Pois bem, não olhe agora, mas eles estão chegando. Não são, digamos, alquimistas, mas vão invadir a nossa praia, ou melhor, as ruas, praças e alamedas da capital paulista. Trata-se do projeto Rino Mania, iniciativa que tomou de assalto o cotidiano da grande metrópole brasileira, fazendo a cabeça dos artistas por aqui. O objetivo é disseminar a arte e o cuidado com o meio ambiente em espaços escolares.

A ideia, inusitada, divertida, surrealista mesmo, veio do outro lado do Atlântico, da Inglaterra, mais precisamente do instituto Wild in Art, localizado na cidade de Chester. Com proposta educacional, o projeto consiste na pintura personalizada de 60 rinocerontes em tamanho natural, por artistas nacionais. E tem cada obra de arte… Os psicodélicos são os mais instigantes.

Um desses bichanos seguirá em mostra itinerante por algumas cidades brasileiras. Espero que eles passem por Brasília. Para dar mais cor a essa savana de corrupção e roubalheira que é o Planalto Central.

Não sou Salvador Dalí, mas houve uma época em que eu era obcecado por rinocerontes. O peruano Mario Vargas Llosa tem tara por hipopótamos e eu tinha por rinocerontes. Não me pergunte por que razão. Acho que pela aparência exótica, mastodôntica, quase pré-histórica desses mamíferos cinzentos, com aqueles chifres fálicos, hipnotizadores.

Quando eu era pequeno e andava por ai com pirulito na boca e catarro escorrendo pelo nariz, costumava brincar com meus bichinhos de plástico e o preferido era um rinoceronte amarelo, todo enrugado. Dei a ele o nome de Rino. Tinha um zoológico inteiro de bichinhos de plásticos, mas o xodó era o rinoceronte enrugado amarelo.

Nos livros de Monteiro Lobato bem que tinha um personagem com a aparência de um rinoceronte, se não me engano, nas histórias do Sítio do Pica-pau amarelo, mas foi com os filmes hollywoodianos, aqueles ambientados nas savanas africanas, que minha admiração pelo gigantesco mamífero aumentou. Em Hatari!, clássico de 1962 protagonizado por John Wayne, eles são quase coadjuvantes. Não me esqueço da cena em que um deles fura a porta de uma camioneta, com uma chifrada furiosa, durante uma caçada fulminante.

Mais tarde, eles apareceriam novamente pelo meu caminho na trama surrealista do romeno Eugène Ionesco, em peça intitulada simplesmente de O rinoceronte. Era uma montagem, se não me engano, do uruguaio Hugo Rodas e o enredo maluco narrava os acontecimentos estranhos de uma vila no meio do nada que, de repente, passa a ser visitada por… rinocerontes. Até que um dia os habitantes da vila se transformam em… rinocerontes.

Dizem que quando a gente morre, um dia voltamos encarnados em outro corpo ou em forma de plantas e animais. Quando eu morrer, não quero nem aparecer aqui de novo. Mas se não tiver jeito, que eu volte na forma de um imponente rinoceronte.

* Este texto foi escrito ao som de: Surrealistic pillow (Jefferson Airplane – 1967)

Discoteca Básica (31) Ziggy Stardust

Um dia o rock colocou maquiagem e ficou assim...

Houve um tempo em que o rock usou maquiagem e saiu dançando por aí na forma de um ser andrógino, meio efeminado e completamente misterioso. Se auto-intitulava Ziggy Stardust e por algum um tempo sacudiu a cena musical numa mistura ambígua de sensualidade e misticismo espacial. Foi com essa estranha persona que David Bowie explodiria no mundo inteiro em 1972, redefinindo o conceito masculino de ídolo do rock. Se você acha Lady Gaga bisonha nos dias de hoje, imagina o impacto que o artista inglês causou ao pisar no palco de salto alto, cheio de purpurina e batom.

O disco, até hoje é uma obra-prima do glam rock, o rock purpurina, talvez o mais famoso e o único que sobreviveu ao movimento e um dos meus preferidos de todos os tempos. Gozado que conheci o camaleão do rock ouvido os gaúchos do Nenhum de nós. Mas garanto que não estou sozinho nessa viagem. Astronauta de mármore, versão de Thedy Corrêa paraStarman é um clássico do rock nacional e fez a cabeça de toda uma geração.

Mas o primeiro disco de Bowie que adquiri foi por causa do Nirvana e veja só que maluquice essa coisa da cultura, das influências. Uma informação, código leva a outro e, quando nos damos conta, a origem de tudo não tem nada a ver com o produto final. Mas e daí, não foi Maquiavel quem disse que os fins justificam os meios?

Comprei The man who sold the world na rua Augusta, em São Paulo, num sebo simpático, que mais lembrava uma loja convencional de disco. Confesso que assustei com aquela capa totalmente gay, trazendo um Bowie livre, leve e solto, num vestido longo e esbanjando sensualidade.

Na sequência, claro, viria Ziggy Stardust, muito por causa de Starman. Mas a partir daquela faixa descobrir um artista formidável, extremamente original. Metido naquele beco molhado, que parece exalar cheiro de chuva e urina, Bowie e sua persona arrebatariam para sempre meu coração.

A força do disco está no talento do guitarrista Mick Ronson, a alma e força motriz do disco, responsável pelos arranjos imponentes épicos de canções como a faixa título, Moonage daydreamStarman e Lady Stardust, onde ele se auto-ironiza: “Pessoas olharam para a maquiagem em seu rosto/Riram dos seus longos cabelos negros/De sua graça animal/O garoto dentro do jeans azul brilhante/Pulou no palco/E a Lady “poeira-cósmica” cantou suas canções/De escuridão e desonra”.

Na futurística Five years, o apocalipse é cantando com deboche pouco visto no rock: “O repórter enxugou as lágrimas quando falou/A Terra estava mesmo morrendo/Chorou tanto que seu rosto estava molhado/Foi quando vi que ele não estava mentindo/(…)Temos cinco anos, cinco anos, é tudo o que temos!”.

Moderno, espacial e poderoso Ziggy Stardust é como aquele monólito de 2001: Uma odisséia no espaço. Ou seja, imponente e deliciosamente misterioso.

* Este texto foi escrito ao som de: Ziggy Stardust (David Bowie – 1972)