Faroeste Caboclo – Bang bang urbano

Maria Lúcia e João de Santo Cristo, personagens míticos criados por Renato Russo

Maria Lúcia e Santo Cristo: paixão, traição e tiroteio…

Eu ainda era um foca bobão, sem muito jeito com uma caderneta e lápis na mão, quando via o jovem cineasta René Sampaio transitando pelo mítico Cine Brasília levando debaixo do braço o curta-metragem Sinistro. Já naquele tempo, que eu me lembro, ele falava alguma coisa sobre a adaptação de uma das canções mais famosas do rock Brasil, a épica faixa Faroeste caboclo, escrita por Renato Russo no final dos anos 70, época em que transitava para cima e para baixo com uma craviola emulando a figura do trovador solitário.

Bom, é esse sonho distante que você pode ver a partir de hoje nos cinemas de todo o país, materializado numa das produções mais esperadas dos últimos anos. Estrelado pela gatinha mineira, Ísis Valverde, na pele de Maria Lúcia, a menina para quem o herói maldito e meio marginal, João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira) jurou o seu amor, o filme partiu de uma leitura bastante pessoal do diretor em cima da canção que fez milhares de pessoas caírem de joelhos, definitivamente, pela Legião Urbana e pelo talento de letrista de Renato Russo.

“Muitas passagens importantes da música não aparecem, explicitamente, mas está tudo lá de maneira subtendida”, comentou o diretor René Sampaio, em coletiva que aconteceu em Brasília há duas semanas. “Assim como todo mundo tem a sua versão da canção na cabeça, essa é a minha”, avisou.

Mas, mesmo com lampejos pessoais, a versão de Sampaio respinga, de uma forma ou de outra, no Faroeste caboclo que há dentro de cada um de Faroeste 2nós. O que é normal porque o filme consegue captar com propriedade os conceitos universais que perpassam a narrativa épica construída por Renato Russo.

E não há grandiloquência na narrativa construída pelo diretor, mas sobram sobriedade e apuro técnico. Temos que entender que a letra de Renato Russo é uma coisa e o filme de René Sampaio é outra. Tendo como prumo esse discernimento, o que percebemos é que Faroeste caboclo é uma fita bem feita, o que já é muita coisa.

E quer saber, além de bem dirigido, o filme conta com boas atuações, nem tanto dos protagonistas, que são bons, mas dos coadjuvantes e aqui eu destaco o desempenho do sempre ótimo, Antônio Calloni, na pele de um policial corrupto. Gosto em particular também do ator Felipe Abib, que encarna o psicopata burguês Jeremias, porco traidor que compra os sentimentos de Maria Lúcia.

Cuidadoso e meticuloso e, sobretudo um sujeito sério, René Sampaio vai longe. Passado as tensões e ansiedade de ressuscitar do passado um grande sonho, ele pode agora se libertar das pressões do passado e presente para alçar voos mais ousados e ousadia é a sua vocação. Quem viu Faroeste caboclo percebeu isso.

* Este texto foi escrito ao som de: Que país é este (Legião Urbana – 1978/1985)

Legião

Diários de Minas – De volta às raízes

Viagens telúricas pelo Carmo do Paranaíba...

Viagens telúricas pelo Carmo do Paranaíba…

A menininha espevitada olhou para a parede da cozinha preta da avó e se admirou. Mirou com mais espanto ainda para o teto chamuscado do lugar e arregalou os olhos novamente. Sem titubear, perguntou séria, à queima-roupa, para a matriarca experiente:

– Nossa vovó, quem é que colore essa casa para a senhora assim?Com a paciência cariosa de uma Dona Benta do Sítio do Pica-Pau Amarelo, nhá Iolanda responde:

– Uai minha filha, uma tal de fumaça…

Eis uma dessas várias histórias cheia de ternura e inocência das Minas Gerais, lá da terra natal da minha mãe, Carmo do Parnaíba, lugar impregnado de recordações telúricas que agora invade minha’lma atormentada. Volta e meia eu e minha mãe nos aventuramos a viajar mais de 700 km, atravessando parte do Goiás e parte de Minas Gerais para visitar seus parentes até lá.

O destino, claro, é a fazenda do querido tio Dinho e nhá Iolanda, cravada lá para os lados da Macaúba. Curral, gado, cheiro de bosta de vaca, porco, galinha, o horizonte verde, a fumaça impaciente do fogão a lenha que prepara deliciosas comidas caipiras.

Ah, comida caipira, que delícia. Sim, maná dos deuses… Suculenta carne de porco, arroz feito na banha suína, feijão macetado em panela de ferro, queijo derretido no espeto, cervejinha gelada. Para completar o clima rural, um bate papo descontraído à beira do fogão de lenha, abençoado pelo calor do fogo feito a base de lenha.

O que mais gosto de lá são os “causos” do meu querido tio Dinho, um senhor de seus mais de, 70 anos, cheio de bondade e simplicidade. Dono de um papo agradável, conversa arrastada, cantada como só o genuíno mineiro sabe fazer, ele nos conta com seu humor e malícia brejeira, a visão de mundo que tem.

“Genro não deseja bem para sogro não”, diz, comentando sobre herança.

Ao se lembrar de histórias do arco da velha, dos tempos de sua juventude distante, tio Dinho nos conta que o homem bom não existe mais, se perdeu na poeira do tempo e do progresso. Ao ouvi-lo falar assim, me vem à cabeça o bom selvagem de Jean-Jacques Rousseau que tem a alma roubada pela civilização.

“O homem nasce naturalmente bom, mas a sociedade o corrompe”, disse o francês iluminista.

No auge dos seus 70 e poucos anos, o meu tio Dinho ainda é um bom selvagem de alma pura. Um selvagem cheio de sabedoria.

* Este texto foi escrito ao som de: Sete sinais (Almir Sater – 2006)

Sete sinais

O quatrilho (1995)

Bruno Campos e Patrícia Pillar, o casal de amantes da trama

Bruno Campos e Patrícia Pillar, o casal de amantes da trama

Outro dia tomei coragem e gravei O quatrilho no Canal Brasil. Indicado ao Oscar na categoria Melhor Filme estrangeiro, em 1995, o filme de Fábio Barreto nunca me despertou atenção. Talvez porque o acho um diretor de cinema medíocre, sempre achei. Depois que o entreviste e me assustei com sua proverbial arrogância de príncipe mimado, aí que não tive vontade de ver nada dele mesmo. Mas outro dia estava de bobeira em casa e, na falta do que fazer, acabei vendo a fita e, por incrível que pareça, gostei.

Claro, o filme não é nenhuma oitava maravilha do mundo, mas tem uma história interessante, pelo despertou minha atenção, a ponto de querer ler o livro homônimo que deu origem a essa adaptação, obra escrita pelo escritor gaúcho José Clemente Pozenato.

A trama gira em torno do mito da infidelidade que circunda a natureza humana desde os primórdios. Sim, porque se você é daqueles idiotas românticos que acha que vai viver ad eternum ao lado da mulher amada ou, seja lá o que for, esqueça. Eu embarquei nessa bobagem e me dei mal. Por isso que, tais quais aqueles personagens rodrigueanos malditos, estou sempre à cata da mulher do próximo e ponto final.

Colonos italianos buscando a sorte no Brasil-América no início do século passado, numa recôndita cidade do extremo sul do Rio O quatrilhoGrande do Sul, um casal de amigos decidem morar debaixo do mesmo teto visando o sucesso do empreendimento quem ambos os chefes da família tocam em sociedade. Trata-se de uma novidade na região, a construção de um moinho que irá trazer riqueza aos seus donos e prosperidade à cidade.

Acontece que a bela Teresa (Patrícia Pillar), negligenciada pela ambição do ambicioso marido Ângelo (Alexandre Paternost), meio que cai nas graças do matreiro e galante, Massimo (Bruno Campos), sócio do esposo e a confusão desse enlace amoroso vai virar de pernas por ar a provinciana cidade de Santa Corona.

“Um jogo demoníaco que faz viver a tentação da infidelidade”, comenta irônico, o maturo Pe. Giobbe (vivido pelo inesquecível Gianfrancesco Guarnieri), em referência ao jogo de cartas que dá o título ao filme, no qual os jogadores trocam de parceiros.

Com narrativa clássica e pontuado por reconstituição de arte sóbria, correta, até – o que talvez tenha despertado o interesse da turma do Oscar -, O quatrilho explora as angústias e diabruras do amor alheio com uma pegada quase ingênua. “Descobri que o amor é uma coisa e o casamento é outra”, diz com certo espanto a jovem camponesa vivida por Patrícia Pillar. “E quando as duas coisas acontecem juntas”, responde cheio de más intenções, o adúltero Massimo.

Basta saber se o livro tem essa mesma pegada ingênua ou se foi uma deformação na hora da adaptação que contou com o talento de Leopoldo Serran, conhecido por sua mãozinha nos filmes do Arnaldo Jabor. Para mim, me interessou, mas do que nunca, a fuga desenfreada e irracional dos amantes.

* Este texto foi escrito ao som de: Volume 2 (Chico Buarque de Hollanda – 1967)

Chico Buarque de hollanda 2

O meu pé de laranja lima, o romance

As vivências da infância do escritor José Mauro de Vasconcelos estão no romance

O escritor José Mauro de Vasconcelos no auge da carreira 

Quando me sinto triste e por baixo, com vontade de desaparecer ou até mesmo morrer, eu abraço os meus livros e minhas sobrinhas. Sou curado no mesmo instante porque eles são o que tenho de mais precioso na vida, meu porto seguro inabalável, ponto de fuga das minhas angústias e desespero do mundo real. Desse medíocre e maçante mundo real.

Sim, passo tardes inteiras brincando com minhas meninas, imaginando um milhão de situações e brincadeiras, me faço criança por alguns instantes e me deixo levar pela magia da inocência e do sorriso fácil. Logo, logo a tristeza vai embora, as chatices da vida adulta passam a não existir e me sinto leve como uma pluma no ar.

Com os livros também sou assim, ou seja, capaz de me perder em manhãs e tardes inteiras, mergulhado absorto, quase que em transe em páginas e mais páginas de ficção, me sentindo parte daquelas letrinhas miúdas que nos revelam um mundo de fantasia e sonhos.

Foi assim nos últimos dias quando mergulhei de cabeça na história de Zezé e seu pé de laranja lima, os dois, personagens inesquecíveis do clássico romance infanto-juvenil escrito por José Mauro de Vasconcelos. Caramba, acho que só eu que não tinha lido esse livro. Até a minha mãe, que nutre um desprezo hediondo por livros o leu quando ela tinha dez anos, em 1968, quando a obra foi lançada.

My feet of orange treeNão tenho certeza, mas acho que não li O meu pé de laranja lima por puro preconceito, por achar que fosse história de menininha, sei lá, alguma bobagem do tipo. E a lição que aprendi é que, por preconceito, às vezes deixamos de ter acesso às boas coisas da vida, que é breve. E quer saber? Nem adiantou eu achar que fosse livro de menininha porque eu me senti uma ao derramar lágrimas com algumas passagens da trama cheia de verdade e diálogos de uma ingenuidade sincera comovente.

Pobre de dar dó, o pequeno Zezé criou uma realidade paralela para fugir das adversidades do dia a dia como a miséria incômoda da família, a violência que sofre por conta das brutais surras que leva do pai e dos irmãos mais velhos, enfim, do cinismo humano revelado na trama por meio de corriqueiros acontecimentos do cotidiano.

“Como é ruim a gente ter pai pobre”, desabafa para o irmão Totoca. “Minha mãe já nasceu trabalhando”, confessa para si mesmo, diante da pobreza eminente.

Travesso, endiabrado, mas cheio de curiosidade e dono de uma imaginação fabulosa, encantadora e, por muitas vezes assustadora, Zezé divide suas aflições, medos, inseguranças com os amigos imaginários que cria ou pega emprestados da tevê e do cinema, entre eles o morcego Luciano, os caubóis Tom Mix Buck Jones, enfim, o amigo inseparável Minguinho, enfim, o mítico e lírico pé de laranja lima da história que encantou e encanta milhares de jovens e adultos até hoje.

“Será que ele não sabia que eu podia cantar por dentro?”, se indigna por as pessoas não saberem de seu dom divino. “Nunca vi um menino com tamanha sensibilidade”, confessa assombrado o Personagem Portuga, tão bem vivido por José de Abreu na recente adaptação feita por Marcus Bernstein para o cinema.

Aliás, uma adaptação tão sincera e comovente que me motivou a sair do cinema e comprar o livro. Confesso que O meu pé de laranja lima desde já passou a ser o romance infanto-juvenil mais marcante que li. Mais até que O menino do dedo verde que me desculpe o Maurice Druon.

O que mais me comoveu no enredo foi a linda história de amizade entre o pequeno Zezé e o maduro Portuga, revelando que a ingenuidade e a maturidade podem sim, andar de mãos dadas porque sempre vai existir dentro de nós aquela criança que um dia fomos. “O Português tinha se tornado agora a pessoa que eu mais queria bem no mundo”, diz cheio de afeto nosso herói rebelde. “Eu nunca mais quero sair de perto de você. Porque você é a melhor pessoa do mundo. (…) Quando estou perto de você sinto um sol de felicidade dentro do meu coração”.

Existe declaração de amor mais tocante?

* Este texto foi escrito ao som de: Smiley smile/Wild honey (The Beach Boys – 1967) 

Smiley Smile

Segredos de alcova de Paulette Goddard

A ambiciosa camareira Celestine sonha com uma vida melhor

A ambiciosa camareira Celestine sonha com uma vida melhor

Embora a grande estrela de Tempos modernos, claro, fosse Charles Chaplin e o seu Carlitos, não há como ficar indiferente aos olhos brilhantes e sorriso largo da atriz Paulette Goddard na fita. E olha que ela encarnava uma mendiga molambenta em busca de um horizonte mais solar. Pois é, foi motivado por esses detalhes que eu assisti, outro dia, no Telecine Cult, o drama Segredos de alcova, filme de 1946 estrelado por ela e pela dupla: Hurd Hatfield e Francis Lederer.

Dupla de ases bem apagadinha, diga por sinal, porque quem rouba a cena, meu chapa, é a atriz, que vive na trama a ambiciosa camareira parisiense Celestine, que consegue um novo trabalho no campo. Lá a patroa é tirana e demente, completamente perdida em seu mundo burguês de arrogância e riqueza, ao mesmo tempo em que a criadagem vigente se mostra misteriosa e relutante com a presença da nova emprega.

Com medo, mas, mesmo assim determinada a mostrar que tem personalidade, sonhando por uma vida melhor, dia a dia ela anota os acontecimentos nefastos e descobertas estranhas do ambiente em seu diário, que por sinal, dá nome ao título original, ou seja, The diary of a chambermaid. “Isso não é para crianças”, alerta ela quando uma colega tenta bisbilhotar suas anotações.

Paulette 3Baseado numa peça teatral clássica, o roteiro do filme dirigido pelo francês Jean Renoir é assinado pelo ator Burgess Meredith, com quem a atriz era casada na época. Para quem não se lembra, Meredith, coadjuvante na fita, ficou famoso no inconsciente da garotada na pele do vilão Pinguim, no cultuado seriado do Batman nos anos 60, mas também como o treinador ranheta de Rocky Balboa no primeiro filme da série que consagrou Sylvester Stallone.

Depois de descobrir o grande segredo da família, a jovem camareira decide partir, deixando para trás um rastro de tragédia e revelações atormentadas. Dividida entre o grande amor da sua vida e sombrias ambições da alma, ela agora tenta dar um átimo de dignidade ao seu destino, mas terá que remover pesadas pedras em seu caminho.

“Somos iguais por dentro”, compara o asqueroso mordomo da casa, vivido por Francis Lederer.

Talvez um dos primeiros filmes em Hollywood a colocar o mundo subalterno dos empregados em primeiro plano, Segredos de alcova, cujo título em português sugere interpretações maldosas, explora de forma indireta temas obscuros para época, como o adultério. O desfecho é uma bobagem sentimentalóide que com certeza deve ter irritado o mestre Jean Renoir, caprichos do cinema na América.

* Este texto foi escrito ao som de: BE (Beady eye – 2013)

BE

Jukebox Sentimental – God only knows

Brian Wilson, o gênio atormentado por trás dos Beach Boys

Brian Wilson, o gênio atormentado por trás dos Beach Boys

Um disco inteiro com cheiro de parque de diversões, algodão doce ou algo parecido e não é Sgt. Pepper’s dos Beatles. Ainda. Gravado em 1966, o cultuado álbum Pet Sounds nasceu de uma resposta do gênio atormentado da banda Beach Boys, Brian Wilson, ao então revolucionário Revolver do fab four, enquanto este estava curtindo sua vibe beatlemaníaca em Hollywood. Isso porque todo mundo achava que os Stones de Mick Jagger e Keith Richards eram os grandes rivais dos meninos de Liverpool.

Enfim, marcado pelo experimentalismo pop e certa audácia invejosa, o trabalho do grupo californiano está entre os mais conceituados e influenciadores da música de todos os tempos. Para mim, simplesmente um dos mais revolucionários e queridos da minha estante mágica.

Uma catedral de vocais em cascatas construída, sutilmente, de forma elaborada, Pet sounds encanta pelo lirismo solar das canções, mesmo pontuadas por letras melancólicas como na quase metafísica, God only knows. Segundo Paul McCartney, um entusiasta apaixonado do disco, essa é a melhor canção romântica já escrita e não duvide disso porque o cara sabe do que está falando. “Só Deus sabe o que seria de mim sem você”, diz o refrão encantador.

Bem, os versos preferidos de Sir Paul são esses: “Se você algum dia me abandonar/A vida vai continuar/O mundo não pode me mostrar nada/Então que bem me faria”, diz o trecho e precisa falar mais alguma coisa?

Aliás, outro dia eu estava vendo um programa bacana em que o guitarrista dos Stones Ron Wood entrevistava o Paul McCartney em seu show de rádio e este disse, acho que comentando sobre as músicas escritas por Brian Wilson, algo assim: “Canções são pequenas vibrações tocando nosso coração, mas o efeito é poderoso”. Putz! É isso o que eu sinto quando ouço God only knows, entende? Era sobre essa sensação angelical que eu me referia quando disse sobre o efeito metafísico da canção…

O que me chama atenção em God only knows é a aparente simplicidade dela, mas em quase três minutos de música notamos camadas e mais camadas de sofisticação. Tanto que músicos medíocres como eu não consegue tirar, fácil, seus acordes no violão.

Bom, durante muito tempo os Beach Boys povoaram minha imaginação como uma simples banda de surfistas retentores do trinômio: Sol, praia e garotas. Ao ouvir Pet sounds pela primeira vez quase acreditei que eles fossem maior do que os Beatles. Não são, mas Brian Wilson é tão genial quanto Lennon e McCartney. God only knows…

* Este texto foi escrito ao som de: God only knows (The Beach Boys – 1966)

The only knows

O mercador de Veneza de Shakespeare

Al Pacino na adaptação cinematográfica da peça

Al Pacino na adaptação cinematográfica da peça que não vi

Gozado, sempre achei que o mercador de Veneza dessa peça de William Shakespeare, escrita entre os anos de 1596 e 1598, fosse o judeu asqueroso vivo por Al Pacino no cinema numa adaptação que infelizmente eu não vi ainda. Não é. Depois que li o livro, descobri que Shylock na verdade é um injustiçado por conta – parafraseando o Renato Russo – de sua classe e sua cor e os mocinhos da trama é que são os verdadeiros vilões dessa história tragicômica que me mistura preconceito, mais especificamente, antissemitismo, sadismo, vingança e ganância, ou seja, a velha e incômoda obsessão humana pelo dinheiro.

Surreal a história de um rico cidadão de Veneza que corre o risco de perder uma libra de carne de seu corpo por não saldar uma dívida. E o grotesco exagero da situação parece proposital tendo em vista que a Inglaterra Elisabetana da época do escritor e dramaturgo nutria um desprezo colossal pelos judeus, uma herança da Idade Média, diga-se de passagem.

“Eu sou um judeu. Judeu não tem olhos? Judeu não tem mãos, órgãos, dimensões, sentidos, impulsos, sentimentos?”, se indigna no auge da perseguição Shylock, numa espécie de reflexão inconsciente do autor.

Mas se essa demonização do povo de Cristo era natural no distante século 16, hoje em dia, depois de tudo o que os nazistas fizeram com os judeus em tempos de guerra, não deixa de ser hediondo e descabido. Daí o tom profético do texto shakespeariano que ainda é muito encenado por aí apesar de tudo, mas a culpa não é do autor, não é verdade?

O mercador de Veneza 2O mais hilário da trama é que o mercador Antônio se endivida para ajudar um amigo que está perdido de amores por uma jovem e precisa de dinheiro para bancar o romance. Ele também não é um homem de grandes riquezas, mas aguarda ansioso, a chegada de navios seus vindos do Novo Mundo, todos abarrotados de riquezas virtuais.

Acontece que um acidente em alto mar lhe causa ruínas não só financeiras, mas, sobretudo, morais e agora sua vida corre perigo. “Eu levo o mundo como o mundo é, (…) um palco, onde cada homem tem o seu papel, e o meu é triste”, vaticina Antônio no início da trama.

Como em todo enredo de Shakespeare, não poderia faltar romance aqui, mas confesso que acho os enlaces amorosos dessa trama um tanto quanto enfadonhos. Mas interessante e reflexivo são as rugas pessoais entre Shylock e Antônio, que costumava desprezar o judeu quando ocupava um alto cargo no Mercado de Veneza.

“Ele que dê uma olhada na promissória que assinou. Tinha o hábito de me xingar de usuário, (…), tinha o hábito de emprestar dinheiro como cortesia cristã”, diz com mágoa que hoje podemos encarar como secular. “Posso usar de iscas em minhas pescarias. Se ela não alimentar nada mais, vai alimentar a minha vingança”, debocha ao ser perguntado o que fará com o naco de carne arranco do desafeto.

Confesso que achei o desfecho de O mercador de Veneza bobo, injusto, diria que até estapafúrdio. Isso porque eu estava torcendo pelo judeu Shylock, talvez por comiseração social. Mas quem sabe o próprio Shakespeare também não estava e só escreveu este final ridículo por conta das pressões de seu tempo, por causa dos fantasmas e demônios de seum tempo?

* Este texto foi escrito ao som de: Face to face (The Kinks – 1966)

Face to face

Bonitinha, mas ordinária!

João Miguel e Letícia Colin, a nova ninfeta rodrigueana

João Miguel e Letícia Colin, a nova ninfeta rodrigueana

Tenho algumas obsessões na vida. Nelson Rodrigues é uma delas. E gosto tanto do polêmico dramaturgo e cronista que não leio a Bíblia, leio Nelson Rodrigues e ponto final. Afinal, está tudo lá, meu caro, a sordidez humana, a fraqueza da alma, a podridão de tudo e de todos. E é por essas e outras que fui ver outro dia a nova adaptação de Bonitinha, mas ordinária, cheio de curiosidade e apreensão.Tudo bem, a dupla, Moacyr Góes e Diler Trindade – o primeiro dramaturgo e cineasta. O segundo produtor -, é sinônimo de surpresas desagradáveis quando se trata de seus projetos, vide os filmes da Xuxa e Pe. Marcelo Rossi que ambos fizeram, mas estamos falando aqui de um texto de Nelson Rodrigues e, por mais medíocre que seja seus realizadores, no final a escrita visceral do homem que revolucionou o teatro e a crônica brasileira, se salva.

“O mineiro só é solidário no câncer”, berra Edgard, o personagem molambento, sem perspectiva na vida, vivido pelo sempre ótimo ator baiano, João Miguel (Cinema, aspirinas e urubus). E aqui a sentença não é gratuita, pois se trata de uma referência brincalhona, bem ao estilo debochado e irônico de Nelson, que não só roubou a frase do amigo, mas emprestou seu nome à peça de 1962, Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária.

Há 11 anos dando o sangue e o suor numa empreiteira como burro de carga, o angustiado herói de nossa trama de repente vê sua vida mudar, da noite para o dia, após ouvir numa mesa de bar, uma proposta indecorosa do colega de trabalho Peixoto (Leon Góes).

Bonitinha mas ordinária 2“Você entra com o sexo e eu com o dinheiro”, confidencia o amigo, com o cinismo inabalável dos canalhas. “Caráter, caráter uma ova! Com a frase do Otto no bolso não tem bandeira. Você é o único sujeito que ruboriza no Brasil”, se indigna, diante da relutante pose de bom moço do ofendido.

Isso porque Edgard não quer casar com a filha do patrão (Gracindo Jr.) ou pelo menos nutre dúvidas morais hediondas com relação à situação. Ninfeta saborosa (Letícia Colin), ela é a joia rara de uma tradicional família carioca que perdeu a virgindade numa curra daquelas, quando foi violentada, impiedosamente, por cinco negões, numa favela barra pesada. Aliás, a cena do estupro mais parecia um daqueles pornôs soft, assim como é de um tremendo mal gosto a vilanização maniqueísta de Moacyr Góes dos morros.

Embora essa nova adaptação não seja tão diferente daquela famosa feita nos anos 80 com a Lucélia Santos e José Wilker, o filme peca pela falta de credibilidade narrativa, mas a culpa não está no texto visceral e incômodo de Nelson Rodrigues, crivado de frases geniais como essa que sintetiza não só a trama, mas o dia a dia de todos nós: “Toda família tem um momento que começa a apodrecer”.

O problema é que o diretor Moacyr Góes optou em ambientar a sua versão nos dias de hoje, onde os valores morais e humanos levantados pelo dramaturgo e escritor andam fora de moda, banalizados, perdidos e até deslocados. Sim, porque perder a virgindade já não é algo tão escandaloso como era há 30 ou 40 anos atrás. Assim como é absolutamente fácil de corromper qualquer sujeito hoje até porque, meu chapa, todo mundo, inclusive você que está lendo esse post, tem um preço.

* Este texto foi escrito ao som de: Monomania (Clarice Falcão – 2013)

Clarice Falcão

The Ronnie Wood Show com Sir Paul

Duas lendas do rock nas ondas do rádio-tv

Duas lendas do rock nas ondas do rádio-tv

Quando não tinha nenhuma menina por perto olhando o jovem John Lennon vencia a timidez e colocava o par de óculos que tanto os incomodavam para driblar a miopia crônica que sofria. Certa noite, após uma sessão de ensaios na casa de Paul McCartney, quando ambos não sonhavam e nem imaginavam que seriam integrantes da maior banda de rock de todos os tempos, ele desafiou sua deficiência ao ir embora sem os velhos parceiros da visão. Ao cruzar com um grupo de meninos jogando cartas altas horas, naquele cortante e frio natalino de Liverpool, ficou indignado, relatando o episódio ao eterno parceiro no dia seguinte.

– Meninos jogando cartas, estranho?!, pensou McCartney, sem entender direito a história.

Ressabiado, o amigo foi até ao local mencionado por Lennon e caiu em gargalhadas ao perceber o mal entendido, já que Lennon, sem os óculos, ao mirar um presépio, com José e Maria inclinados sobre o menino Jesus, imaginou ter visto crianças jogando cartas na calada da noite.

– Use sempre ósculos de agora em diante!, lhe passou o pito.

Chaon and creationDivertida, nonsense, a passagem acima foi relatada por Sir Paul McCartney no programa de rádio The Ronnie Wood Show, que vi outro dia no Canal Bis, da SKY. Muito simples, descontraído e autêntico, o encontro tocado com propriedade pelo guitarrista dos Stones é uma mistura maneira de bate-papo e jam sessions com grandes nomes da música internacional.

Nem sabia que existia esse programa, muito menos que Ron Wood era metido a radialista, mas gostei e me diverti muito com o que vi, sobretudo pelas histórias de Paul sobre os seus ídolos, grandes influencias que marcaram sua carreira solo e trajetória dos Beatles. Eddie Cochran, Gene Vincent, Little Richard, Chuck Berry, Marvin Gaye, Elvis Presley, estão todos lá, cercados de grandes revelações, como a que circunda o velho baixo de Bill Black, o famoso baixista do Rei do Rock.

“Qual não foi a minha surpresa quando a Linda (ex-mulher do artista que morreu de câncer), me presenteou com esse baixo que estava estragando num celeiro em Nashville”, revela, para espanto de Wood, emendando com a deliciosa passagem de Elvis e os seus músicos cruzando as rodovias com o contrabaixo em cima do teto do carro.

“Adoro essa imagem”, diz em êxtase.

Num outro programa também exibido pelo canal Bis – em função da vinda do artista britânico ao Brasil, Chaos and Creation at Abbey Road Paul, de volta ao estúdio onde gravou todos os discos do fab four, delicia o seleto e sortudo público com performances incríveis. Uma delas, impactante versão melancólica da elétrica, Lady Madonna, sozinho ao piano, assim como a história por trás da canção vitoriana, English tea, uma das faixas do sensacional álbum Chaos and creation in the backyard, gravado em 2005.

“Escrevi essa em homenagem a esses minhas novas amigas exóticas”, ironiza.

* Este texto foi escrito ao som de: Band on the run (Paul McCartney – 1973)

Band on the run

Terapia de risco – Steven Soderbergh

Na perigosa linha tênue entre médico e paciente

Jude Law cedendo aos encantos de uma paciente problemática

É exasperador ouvir a notícia de que um cineasta do talento e gabarito de um Steven Soderbergh (Onze homens e um segredo e Erin Brockovich) possa num futuro muito próximo, como andam dizendo por aí, vir a encerrar a carreira no auge. Sobretudo quando olhamos ao redor e encontramos poucos nomes de peso de sua geração se destacar com inteligência e autonomia profissional como ele.

Por isso que é sempre válido correr atrás dos projetos do cara quando eles estão ao alcance, como é o caso do drama de suspense, Terapia de risco, uma das estreias da semana passada que recupero aqui. Seguindo a linha de filmes-denúncias como o sufocante O informante, de Michael Mann, o longa tem como alvo o bilionário mercado da indústria dos remédios nos Estados Unidos.

Mercado bilionário e cheio de sujeiras por aqui também. Mas lá na América os grandes monopólios sempre foram alvos virulentos, e com razão, da mídia, do cinema e da própria sociedade, sempre em desvantagens na queda de braço com os donos do poder e do dinheiro.

Após passar quatro anos preso, o jovem Martin (Channing Tatum) volta para casa prometendo à esposa recuperar o tempo perdido na reconstrução dos laços afetivos do lar. Contudo, abalado com o que aconteceu, Emily cai em depressão, com algumas tentativas de suicídios, inclusive, passando a se tratar com o psiquiatra de plantão, Jonathan Banks (Jude Law).

No meio do tratamento ele a receita o fictício remédio Ablixa, medicamento forte que tem efeito imediato a ponto dela Side effetssair, num piscar de olhos, de sua cinza nuvem de tristeza para um radiante dia solar. Acontece que durante a noite ela sofre ataques de sonambulismo e numa dessas crises comete um crime bárbaro.

Logo vemos que ela e todos envolvidos no caso são autênticas vítimas das circunstâncias e da biologia porque o marido de Emily pediu que o médico interrompesse o tratamento. Enquanto que ela não. No final, somos engolfados por um sombrio labirinto de mentiras, meias verdades e conspiração profissional para entender de quem é a culpa.

“Mas os comerciais na TV garantiam que as pessoas melhoravam”, revolta-se a sogra de Emily, indignada.

Ao mesmo tempo em que investiga os caminhos tortos de um medicamento e seus efeitos sob um paciente – inclusive do ponto de vista financeiro, para ambas as partes, daí as estressantes guerras judiciais – o roteiro de Terapia de risco preocupa com o lado humano da questão. E ele vem em forma das mais sórdidas máscaras, daí o jogo de intrigas, falsidade, dissimulação e traição.

Ingredientes mais do que motivadores, dramaticamente falando, para grandes atores como os britânicos Jude Law e a bela Catherine Zeta-Jones, darem um banho de interpretação. O que já valia sair de casa para curtir um cinema.

* Este texto foi escrito ao som de: The bends (Radiohead – 1995)

The bends