The Smiths – A light that never goes out

Morrissey e sua trupe em clássica foto na época do lançamento de "The Queen is dead".

Morrissey e sua trupe em clássica foto na época do lançamento de “The Queen is dead”.

Acredite, há mais em comum entre Renato Russo e Morrissey, o afetado e sensível líder dos Smiths, do que possa supor nossa vã filosofia. E descobri isso e muito mais ao ler a biografia The Smiths – A light that never goes out, escrita pelo jornalista britânico Tony Fletcher. E sabe do que mais? Lá pela página 500 e pouco, já tinha virado fã incondicional da banda e da poesia confessional de Morrissey, um dos maiores poetas do rock. “Sou humano e preciso ser amado”, desabafa ele na canção: How soon is now?, a primeira do grupo a fazer sucesso na América.

Para contar a trajetória de Morrissey, Johnny Marr – o criativo guitarrista da banda -, e companhia, ao longo de um calhamaço de mais de 600 páginas, o autor chafurdou nas origens de cada um dos integrantes, realçando, sobretudo, a importância da cidade de Manchester não apenas dentro de um contexto político e econômico no cenário britânico, mas também cultural, com a efervescente cena musical dando identidade ao lugar. Um lugar de onde vieram os Smiths, mas também os Hollies, Joy Division, Buzzcocks, Happy Mondays, Stone Roses e Oasis.

Smiths 2Assim, algumas surpresas me foram reservadas ao longo das páginas de A light that never goes out. Uma delas diz respeito à origem irlandesa dos dois principais integrantes da banda, Morrissey e Marr, e de como essa ascendência foi determinante, a partir de um olhar sociológico de Tony Fletcher, para a reintegração deles dentro da sociedade inglesa a partir de vários aspectos sociais e culturais.

“Talvez o exemplo mais extremo da herança cultural dos Smiths em sua terra natal tenha sido a batalha política pelo seu afeto”, teoriza o autor nas primeiras páginas do livro.

Outro detalhe importante para mim diz respeito às influências culturais de Morrissey, o diretor artístico da banda, que ia desde ao realista teatro britânico da década de 50/60 – com destaque para a mítica peça A taste a honey, de Shelagh Delaney -, passando pelas estrelas do cinema europeu e norte-americano dessa época, a banda norte-americana New York Doll e o glam rock de T-Rex e David Bowie, até chegar ao texto rebuscado e irônico do dândi Oscar Wilder, um dos grandes ídolos de Morrissey.

O curioso é que, para mim, quando lia às traduções das canções dos Smiths, achava que aquele estilo pomposo de Morrissey escrever, ou seja, entre o barroco e o elisabetano, era uma referência à lírica de Shakespeare, mas estava mais intrinsecamente ligado, como mostra Fletcher, à cosmologia de Oscar Wilde e seus dramas pessoais. Wilde, aliás, seria seu primeiro herói de verdade, um grande modelo de inspiração. E daí o fato de não só o aspecto artístico do autor de O retrato de Dorian Gray sensibilizar o líder dos Smiths, mas também sua polêmica trajetória de vida pessoal.

“É uma total desvantagem gostar de Oscar Wilde, principalmente quando você vem da classe trabalhadora”, diria certa vez Morrissey.

* Este texto foi escrito ao som de: The Queen is dead (The Smiths – 1986)

The queen is dead

Leviatã (2014)

Personagens bem construídos e cenários de desolação compões esse drama russo

Personagens bem construídos e cenários de desolação compões esse drama russo

Há uma premissa bíblica pairando o tempo todo o drama russo Leviatã, em cartaz até pouco tempo na cidade. Mas também rodrigueana, o que dá na mesma, já que as tramas de Nelson Rodrigues são bem apocalípticas. Mas o título da fita é uma referência à clássica obra homônima do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679), no qual o terrível monstro bíblico surge como contundente metáfora para as mazelas do Estado. No caso aqui, a Rússia de Vladimir Putin.

Essa realidade é refletida na situação sufocante do mecânico Kolia (Alekseu Serebryakov), um sujeito que vive com a mulher e o filho Roma numa casa à beira mar numa pequena cidade na península de Kola, noroeste russo. O terreno é alvo de uma disputa entre ele e o prefeito da região por causa de uma disputa motivada pela ambição do estado, que quer construir ali um empreendimento milionário.

Para ajudá-lo nessa disputa judicial, o amigo e advogado Dmitri (Vladimir Vdovichenkov) se Thomas Hobbesdesloca de Moscou para uma cruzada contra o poder local, mas ao se envolver de forma imoral com a família de seu cliente, acaba contribuindo ainda mais para a ruína do indefeso Kolia, uma peça fundamental no discurso do diretor Andrey Zvyagintsev contra as injustiças e abusos de autoridade do sistema. E nesse sentido uma passagem do filme é emblemática, aquela em que Kolia e seus amigos brincam de tiro ao alvo com fotos dos grandes líderes do passado da pátria.

Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Roteiro em Cannes, Leviatã, com seus personagens bem construídos, narrativa cheia de suspense, também fala sobre raízes, tradição, elementos que o povo russo encara de forma visceral. Kolia bem que podia fazer um acordo milionário para deixar sua propriedade para a prefeitura e recomeçar nova vida em outro lugar. Mas para ele é de vital importância, um processo orgânico, que o filho cresça no mesmo lugar em que viveu seus ancestrais. “Meus avôs viveram aqui”, diz ele em dado momento.

A paisagem desoladoramente cinza e azul do interior da Rússia contribui para evidenciar os dramas pessoais dos personagens, dramas universais da alma, é bom que se diga. É o caso do adolescente Roma, que nutre um amor secreto pela mulher do pai, a bela e sensual, Lilya (Elena Lyadova). Aliás, enigmática, ela será um dos pivores dos vários problemas em que esse grupo está metido, daí as imagens de carcaças de navios e baleias surgindo num cenário de desolação, ser perturbadoras.

“Você consegue pescar com anzol o Leviatã ou prender sua língua com uma corda?”, lança a pergunta um religioso para o atormentado Kolia, em referência a uma passagem do Livro de Jó. Poucas vezes uma passagem da Bíblia foi abordada de forma tão contundente no cinema.

* Este texto foi escrito ao som de: Acústico Cássia Eller (2002)

Acústico Cássia eller

Não dou a mínima para o derrière da Paolla Oliveira

Que eu me lembre, a atriz deixa muito a desejar quanto seu talento no cinema e na televisão... Logo...

Que eu me lembre, a atriz deixa muito a desejar quanto seu talento no cinema e na TV

Sendo bem sincero? Não sei por que esse carnaval todo em torno da bunda da Paolla Oliveira? E olha que nem acho ela bonita. Aliás, acho a guria bem feia até. Prefiro mil vezes o sorriso mágico da minha musa da delicadeza que, além de sincero e puro, é algo que faz cócegas em meu coração. Já a bunda da Paolla Oliveira é tão fake quanto uma propaganda de margarina. E desculpe desapontar aos meus desafetos que insistem em dizer que sou veado. Simplesmente tenho mais o que fazer.

De modo que não perco meu precioso tempo vendo uma minissérie que tenta retratar os podres de Brasília. Para falar a verdade, nem sem o título direito dessa “novidade global”. E nem quero saber. E de mais a mais, moro há tanto tempo em Brasília que já sei de cor e salteado das nojeiras do poder e da promiscuidade envolvendo essa situação boboca.

E tem mais. Que eu me lembre das atuações de Paolla Oliveira no cinema e na televisão, só posso dizer que a atriz paulistana deixa muito a desejar. Não me esqueço de como fiquei com vergonha alheia dela e do ator Reynaldo Gianecchini depois de assistir ao filme, Entre lençóis (2008), que mais parecia um exercício fútil e desnecessário de exibição do corpo das duas “estrelas”. Acho que é isso. Ou seja. Quando um ator ou atriz não tem muito que dizer, então resta exibir aquilo que mais lhe convém: o corpo.

E no caso de Paolla Oliveira, a bunda lhe pareceu bem conveniente. E como essa forma calipígia – já dizia o jornalista e filósofo do cotidiano Arnaldo Jabor -, é uma obsessão nacional… No Brasil é assim. Quando não se tem o que falar. A bunda entra em ação.

E como esse assunto banal repercutiu nas redes sociais, céus! Um brother meu, eufórico, foi me encontrando e perguntando se eu sabia da novidade. Outro conhecido, não se contentou e, para pegar carona no momento, tascou lá uma foto da esposa de bunda de fora comparando o derrière da companheira com o da atriz. A brincadeira, de extremo mau gosto, por sinal, só evidência um velado machismo infantil e a capacidade das pessoas em perder tempo com futilidades.

Parece piada, mas além dessa asneira do Big Brother, temos que aturar as abundâncias da Paolla Oliveira. Até que ponto nós chegamos. Cadê a Simone Spoladore?

*Este texto foi escrito ao som de: The Queen is Dead (The Smiths – 1986)

The queen is dead

Corrida sem fim (1971)

Esse road movie autêntico e bizarro de Monte Hellman é destaque de mostra no CCBB

Esse road movie autêntico e bizarro de Monte Hellman é destaque de mostra no CCBB

James Taylor, quem diria, com aquelas canções agridoces delicadas, pousando de rapaz frágil e atormentado, um dia já foi rebelde sem causa. E no velho estilo James Dean. Daí a referência a uma das cenas clássicas do filme Rebelde sem causa – aquela do racha que vai culminar num desfecho trágico -, no ultra-independente, Corrida sem fim (Two-Lane Blacktop – 1971), um dos destaques da mostra Easy Rider – O cinema da nova Hollywood, em cartaz no CCBB até 09 de fevereiro. Eu se fosse você, não perderia um filme.

Na fita, James Taylor e Dennis Wilson (Beach Boys) são dois aficionados por carros que ganham a vida participando de rachas pelas estradas da América. A bordo de um possante Chevrolet 55, eles cruzam imbatíveis por estradas de Oklahoma, Arkansas e Tennessee. Seus personagens na trama não têm nome e nem destino certo. Não sabemos de onde eles vêm e nem para onde vão. Mas isso não tem a menor importância. Basta o espectador saber que James Taylor é o motorista e que Dennis Wilson é o mecânico. E que eles interpretam dois sujeitos metidos até o osso em corridas e que correr é a vida de ambos.

“Acho que arrumamos uma esquina para correr”, é a senha da dupla quando surge uma nova competição. “É uma corrida, cara!”, grita um deles, empolgadíssimo.

Corridas sem fimE que a grande companheira desses dois cavaleiros do asfalto é a surpresa, acompanhada tanto pela presença de uma descolada hippie teenage que eles conhece num restaurante de beira de estrada (Laurie Bird), quanto de um aventureiro coroa e seu camaro amarelo que o desafiam para uma corrida até Washington D. C. valendo o carro do perdedor. “Todas as satisfações são permanentes”, ensina.

Um dos grandes outsiders do cinema norte-americano, Monte Hellman cria aqui uma das obras mais cruas da chamada “nova Hollywood”, corrente formada nos anos 70 por cineastas, atores e produtores independentes como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Robert De Niro e tantos outros.

Despido de convenções que não os inserem dentro de uma sociedade convencional e, diria, até “normal”, os personagens desajustados, junkies, ripongas e outsiders de Corrida sem fim giram em torno de um universo formatado por códigos de fáceis assimilações que o colocam à margem do sistema: vagabundos perdidos em paisagens desoladas, sem vínculos familiares e de trabalho, cercados por máquinas o tempo todo.

“Não quero saber sobre sua vida”, diz rispidamente o personagem de James Taylor, evitando qualquer tipo de vínculo entre os personagens.

E quando isso acontece, com a tensão afetiva entre James Taylor e a bela Laurie Bird, por exemplo, resulta na deterioração moral dos personagens, como mostra impactante cena final, com personagem central extravasando toda a sua raiva no pedal do carro.

Uma pena que essa obra-prima de Monte Hellman, tão intrinsecamente ligado à geração que tomou de assalto a Hollywood dos anos 70, tenha se perdido no tempo e o seu merecido reconhecimento negligenciado pela crítica e espectadores. Coube o destino fazer justiça ao cineasta ao colocá-lo na crista da onda novamente quando ele produziu um dos clássicos do cinema independente dos anos 90, Cães de alugueis, de Quentin Tarantino.

* Este texto foi escrito ao som de: Steppenwolf (1968)

Steppenwolf

Roberto Carlos e o cinema

RC

Os filmes do rei não passavam de divertidas aventuras musicais 

O processo é natural. O difícil mesmo é só gravar o primeiro disco, mas quando isso acontece na carreira de um artista, resta depois colher os frutos, incluindo na trajetória, entre outras coisas, fazer cinema. Foi assim com Elvis Presley, os Beatles e o rei Roberto Carlos, que começou nas telonas por cima da carne seca, em 1967, no descolado Roberto Carlos em ritmo de aventura, dirigido por Roberto Farias, o homem também responsável pelas sequências Roberto Carlos e o Diamante cor-de-rosa (1970) e Roberto Carlos a 300 km por hora (1971).

Se Roberto Carlos levava jeito para coisa? Bem, pelo menos carisma o cara tinha e de sobra, mas é aquela história, se não tiver talento meu chapa, nem Cristo faz milagre. Mas e daí se Elvis tinha sempre a mesma expressão a fita inteira e os Beatles levava tudo na brincadeira? O próprio Roberto Carlos admitiu certa vez, como mostra a biografia de Paulo César de Araújo, que poderia ter “dado mais de si como ator”.

Contudo, a sorte do rei é que, com o sucesso que estava fazendo na música, dinheiro não era problema para suas empreitadas cinematográficas. Bem produzidos, os três filmes contam com bons momentos, à revelia da atuação de grande parte do elenco, em sua maioria, conduzidas por não atores. RC filmes 2Ainda bem que as divertidas tramas contavam vez ou outra com um José Lewgoy e Raul Cortez para contrabalancear, digamos assim, um certo clima de “amadorismo” no ar, mas no final dava tudo certo. Até porque, no final, o que contava era a música.

E a referência, claro, era sempre o fab four e o sensacional A hard day’s night. Roberto Carlos em ritmo de aventura, por exemplo, com roteiro do próprio Roberto Farias e dobradinha, veja só, com o jornalista Paulo Mendes Campos, nada mais é do que um “clipão” recheado de canções do disco homônimo daquele ano e contagiantes cenas de perseguição.

Mas para o espectador mais atento, é possível perceber na trama que conta a história de uma organização criminosa que quer sequestrar todos os grandes astros do rock do momento, adoráveis contradições, como forte influência dos recentes filmes do Godard (destaque para O demônio das onze horas) e birra com os diretores do Cinema Novo. Numa cena, especificamente, o personagem de Reginaldo Farias, que faz o papel de um diretor no qual Roberto Carlos é o protagonista, faz paródia à famosa sequência do rodopio de Othon Bastos em Deus e o diabo na terra do sol.

Mas apesar do sutil e inteligente exercício de metalinguagem, Roberto Carlos em ritmo de aventura, assim como a sequência Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa, não passam de despretensiosas tramas de aventura. “Ih, rapaz, será que o nosso caratê de São Paulo vai funcionar aqui?”, diz o astro, quando, no Japão, ele, Erasmo Carlos e a eterna ternurinha Wanderléia, são cercados por integrantes da máfia local.

Último filme rodado com o astro em 1971, Roberto Carlos a 300 km por hora, tem uma pegada mais intimista e piegas, com o rei aqui na interpretando a si mesmo, mas o mecânico Lalo, um habilidoso piloto de corrida apaixonado pela namorada do patrão, esperando a hora certa para conquistar uma grande prova de velocidade e o coração da bela moça. O desfecho do filme que fez quase três milhões de espectadores, é surpreende. * Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1970) RC 1970

As sete vampiras (1986)

A deliciosa vampira Simone Carvalho soltando as feras e outras coisas no filme

A deliciosa vampira Simone Carvalho soltando as feras e outras coisas no filme

Bom, para quem não sabe, Ivan Cardoso é o inventor, no Brasil, do Terrir, gênero cinematográfico em que o terror e o humor, junto com uma pitadinha de sacanagem, andavam de braços dados, como dizia o Raul Seixas, num “romance astral”. Um dos clássicos do cinema nacional dos anos 80, As sete vampiras, que vi outro dia no Canal Brasil, é um dos sucessos desse fotógrafo que teimou em virar cineasta e, meio que na vontade e na raça, conseguiu ir longe pelos caminhos do audiovisual. Deu certo. Pelo menos à sua maneira.

Antecessor da obra cult O escorpião escarlarte (1990), o filme conta a história de uma professora de dança (Nicole Puzzi) que, depois de saber que o marido foi devorado por uma planta carnívora oriunda da África, passa a viver reclusa em sua mansão, escondendo um segredo que irá perdurar ao longo de toda a trama. Convencida por um grande amigo a sair desse exílio voluntário, ela aceita então a produzir um número moderno de dança para badalada casa noturna intitulado, As sete vampiras. O sucesso do projeto é ameaçado por uma série de misteriosos assassinatos.

“Elas querem o meu coração/Mas isso eu não dou”, diz a letra da trilha inspirada no título do filme composta por Léo Jaime, um dos atores da fita.

Como a polícia não consegue solucionar o caso desse suposto serial killer, entra em ação o As setes vampirasatrapalhado detetive Raimundo Marlou (Nuno Leal Maia), que junto com a descolada secretária Maria (Andréa Beltrão), descobre pistas que podem levar ao autor dos crimes.

Querido da cena underground carioca e um dos herdeiros da turma do cinema marginal, grupo do qual tinha e tem como amigos Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, Ivan Cardoso aprendeu a fazer filmes no esquema de guerrilha. Ou seja, com pouco recurso, mas contando com a solidariedade e entusiasmo de um elenco de pesos formado por beldades como Lucélia Santos, Simone Carvalho e astros da Atlântida do naipe de um Ivon Curi e o galã John Herbert.  Dedé Santana e o tio Colé, também fazem parte dessa divertida brincadeira.

Embora um tanto quanto tosco, mas longe de parecer amador, As sete vampiras, mistura com propriedade referências marcantes da trajetória do cineasta como a estética de terror dos filmes B, as reviravoltas das histórias em quadrinhos policiais como X-9, Detective e Sherlock Holmes, lindas e eróticas musas e o sacolejante rock de Buddy Holly e seus contemporâneos.

E só para constar nos autos. A obsessão de Ivan Cardoso por vampiros vem de longa data, desde 1970, quando dirigiu o poeta Torquato Neto no curta-metragem, Noferatu no Brasil, uma divertida e tropicalista sátira ao clássico de 1922 dirigido por F. W. Murnau.

* Este texto foi escrito ao som de: Sessão da tarde (Léo Jaime – 1985)

Léo Jaime - Sessão da tarde

Astros do cinema – Marlon Brando

Brando na pele do rude e sensual Stanley Kowalski, do filme baseado em clássico de Tennesse Williams...

O ator na pele do rude e sensual Stanley Kowalski sob o olhar de Tennesse Williams…

Eterno rebelde dentro e fora do cinema, Marlon Brando, desde a primeira vez em que apareceu nas telonas, sempre manifestou um magnetismo e intensa presença que o acompanhariam, para o bem ou mal, até os últimos dias de vida. Irresistível como ator e personalidade, dono de talento inquestionável, carisma espontâneo e beleza singular, conseguia arrancar suspiros e elogios mesmo dos desafetos. E olha que eram muitos.

Claro, Marlon Brando, que era avesso ao sucesso e à popularidade, não era uma unanimidade, mas sua figura e passado de talento e sucesso reconhecidos impunham respeito. Daí o fato do ator ter dirigido o faroeste mais esquisito da história do cinema, A face oculta (1961), ganhar milhões por uma cena de minutos como o pai do Superman e eternizar no cinema a figura marcante do mafioso Don Corleone em O poderoso chefão que, o tempo todo, atuando com as bochechas cheias de algodão. Não satisfeito, ao ganhar o seu segundo Oscar de melhor ator por este papel, em 1972, ao invés de receber o prêmio, enviou uma pseudo-indígena para representá-lo na cerimônia e discursar sobre a maneira equivocada em que o cinema retratava esses povos nas telonas. O episódio, claro, renderia um comentário espirituoso do bardo canadense Neil Young na canção Pocahontas.

“E talvez Marlon Brando/Vai estar lá ao lado da fogueira/Sentaremos e conversaremos sobre Hollywood/E as coisas boas lá para alugar/(…) Marlon Brando, Pocahontas e eu”, canta.

Filho de um pai negligente e uma mãe alcoólatra com que tinha uma relação de amor e ódio, Brando, que trazia no sangue ascendência irlandesa, holandesa, alemã e inglesa, se rebelou contra o sistema da vida externando e filtrando sua dor e fragilidade da alma por meio do método Stanislavski, que resumia em construir os personagens a partir da vivência de dramas pessoais.

O resultado? Bem, um estilo de atuação moderno e visceral, com imersão psicológica no personagem que dividiu Hollywood em antes e depois de sua passagem. O resto é lenda. E aqui nós só publicamos a lenda.

ùltimo tango em ParisTop Five – Marlon Brando

O poderoso chefão (1972) – Na pele de Don Corleone, chefe de uma das mais poderosas famílias da máfia na América, Marlon Brando aqui ressurge das cinzas em atuação que não é somente uma das melhores de sua carreira, mas da história do cinema.

O sindicato dos ladrões (1954) – Foi a fita que catapultou a carreira do ator na pele de um rebelde nato que se indigna com as falcatruas do irmão vivido por Rod Steiger. Realismo americano no talo e atuação visceral lhe rendeu seu primeiro Oscar.

Uma rua chamada pecado (1951) – Segundo filme realizado junto com Elia Kazan a partir de peça clássica de Tennesse Williams, Brando aqui suscita tensões eróticas e morais a partir da chegada de uma cunhada (Vivien Leigh) cheia de desejo. É o encontro na tela entre a delicadeza frígida e a brutalidade sensual.

Um tango em Paris (1972) – A primeira vez que ouvi falar desse filme foi numa música do Raul Seixas e não tinha a mínima ideia do que o roqueiro baiano estava falando. Depois fui ver o filme e me marcou aquele ménage-a-trois entre Marlon Brando, Romy Schneider e uma barra de manteiga.

Vidas em fugas (1960) – Dirigido pelo mestre Sidney Lumet, apresenta o trágico abandono de dois personagens vividos por Brando e Anna Magnani, ambos em lados opostos da moral humana e do sistema: ele um artista andarilho em busca de um pouso de cada dia. Ela uma mulher casada, sedenta de desejo, prisioneira das correntes de um marido ciumento e doente que mal levanta da cama. O resto fica por conta da imaginação do espectador.

* Este texto foi escrito ao som de: Unplugged (Neil Young – 1993)

Neil Young acústico

Chique é ser brega

No Brasil ser popular é crime, visto com desdém pela crítica especializada e acadêmicos...

No Brasil ser popular é crime, visto com desdém pela crítica e acadêmicos…

Há uma grande confusão no Brasil sobre essa coisa de ser brega e ser popular. Aparentemente uma coisa está associada a outra, mas como não sou sociólogo, antropólogo ou coisa que o valha, não vou meter o meu nariz – que por sinal é muito grande -, onde não sou chamado. Prefiro resumir a questão de maneira bem simples: ter bom gosto ou mau gosto. E isso é bem relativo porque vai depender do gosto de cada um e isso é uma coisa bem pessoal. Ou seja, o que é bom para mim, não quer dizer que seja bom para você e vice-versa. Daí, meu chapa, voltamos ao começo ou melhor, não saímos do lugar.

E no meio dessa discussão patética, acaba rolando injustiças hediondas. Por exemplo, por que todos os cantores românticos são classificados de brega? Ser romântico, se apaixonar por alguém, sentir amor pela pessoa amada é ser brega? O preconceito com relação ao assunto já foi parar no Houaiss que diz o seguinte: “que ou quem não tem finuras de maneiras”. Como é que pode um treco desses?!

Digam o que quiserem, mas eu não acho que o Roberto Carlos seja um cantor brega. Pelo contrário. Ele é um romântico sofisticadíssimo. Poucos artistas no mundo falam sobre o amor, as enrascadas do coração como o Roberto Carlos. Para mim, o Robertão é o grande filósofo do tema e ponto final. E falando do Roberto Carlos, me lembrei do dia em que confessei para um grupo de amigo que gostava de Agnaldo Timóteo. Teve gente que queria sair no caratê comigo. E só porque o cara cantava coisas sentimentais como Meu grito.

No Brasil, ser popular é crime. E toma esculhambação da classe acadêmica que olha para quem faz sucesso entre as massas com um esnobismo quase infantil. Como se eles, os doutores em arrogância fossem o dono da verdade. Quer ver uma coisa? Durante muito tempo Os Trapalhões reinaram soberanamente na televisão e no cinema com um humor simples que unia estética circense e humanismo chapliano. Pois a crítica especializada e os professores cheirando à naftalina nas universidades do país inteiro viviam detonando o estilo popular do quarteto mais querido do Brasil de fazer rir.

Certa noite, um respeitado jornalista de um grande diário ligou para a casa do poeta Carlos Drummond de Andrade solicitando entrevista sobre um tema voltado à literatura. A empregada que o atendeu retornou com um recado curto e grosso do autor de versos como Uma pedra no meio do caminho.

“O seu Drummond mandou avisar que não pode atender agora porque está assistindo aos Trapalhões”, disse.

Pronto, foi o suficiente para que uma turba de críticos de narizes empinados e acadêmicos esnobes, no dia seguinte mudassem de ideia e passassem a gosta dos Trapalhões. Para encerrar essa história, uma frase quem entendia do assunto, o jornalista e colunista Zózimo Barrozo do Amaral.

“Brega é perguntar o que é chique. Chique é não responder”, resumiu.

* Este texto foi escrito ao som de: Emitt Rhodes (1970)

Boyhood – Da infância à juventude (2014)

Indicado há seis estatuetas no Oscar, o filme levou 12 anos para ser feito... Valeu à pena...

Indicado há seis estatuetas no Oscar, o filme levou 12 anos para ser feito… Valeu à pena…

Impossível não se apaixonar pela comédia dramática, Boyhood – Da infância à juventude, o mais recente trabalho do cultuado diretor norte-americano Richard Linklater, o sujeito que encantou toda uma geração de casais apaixonados com a trilogia Antes do amanhecer (1995), Antes do pôr-do-sol (2004) e Antes da meia-noite (2013). A fita já te pega pelo estômago, com a introdução marcante da baladona Yellow, do Coldplay. E faz todo sentindo que seja com essa canção, mostrando que estamos no início dos anos 2000, quando o pequeno Mason Evans (Ellar Coltrane) entra em cena.

Ele é uma criança como outra qualquer, que vive às turras com a irmã Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor), ao mesmo tempo em que tenta lidar, a sua maneira, com a separação dos pais, vividos pelos ótimos Patricia Arquette e Ethan Hawke. O realismo do roteiro, sem a grande história em si, mas repleta de pequenos registros do cotidiano dos personagens, é o grande trunfo dessa fita indicada a seis Oscars, inclusive de melhor diretor e filme. Ethan e Patricia são favoritos nas categorias atores e atrizes coadjuvantes.

Boyhood 2Daí entra em cena a engenharia de produção arquitetada pelo diretor que levou 12 anos para finalizar o projeto, filmando de julho e 2002 a outubro de 2013. Isso porque Linklater, como um artesão do tempo, fez questão que, como num rito de passagem, a ficção acompanhasse a realidade da vida dos atores. Assim, acompanhamos em cena, por exemplo, o ator Mason Evans dos 6 aos 18 anos. A filha do diretor, também participou desse processo.

De longe o projeto mais experimental do cineasta de 54 anos, apesar da simplicidade, Boyhood não abre mão de características que marcaram a trajetória de Richard Linklater, que são os diálogos muito bem construídos, humor inteligente e personagens lapidados ao sabor da contundente realidade que os cercam. Dramas do dia a dia com a separação, a difícil convivência com a nova família, o alcoolismo, crise econômica, a busca por ascensão social, a sonhada harmonia familiar. Algumas passagens contam com um frescor de naturalidade impressionante, como aquela em que o pai irresponsável, mas amoroso vivido por Ethan Hawke ensina a uma envergonhada filha, os périplos da perda da virgindade.

E a narrativa é tão encantadora e envolvente que nem notamos as 2h40 minutos de duração da fita. Muito dessa impressão se deve à sensibilidade de Linklater em prender a atenção do espectador entrelaçando elementos inerentes à natureza humana como sentimentos frustrados, alegrias conquistadas e experiências sensoriais inebriantes. Preste atenção, por exemplo, na delicadeza em que constrói um relicário de afeto entre pai e filho ao apresenta as quatro personalidades distintas dos Beatles, a partir das canções escritas por ele.

Aliás, a música, assim como a direção de arte de Boyhood, tem papéis importantes na narrativa porque são eles que vão ajudar a situar o espectador no tempo. O que faz com que trilha sonora, quase um personagem em cena, vai de Coldplay a Wilco, passando por Weezer, Cat Power, Weezer, Paul McCartney, Lady Gaga e até o filho de Caetano Veloso, Moreno.

“Sua mãe deixa você ver isso?”, diz uma das madrastas de Samantha, o ver um vídeo bem ousado de Lady Gaga no iphone.

Poucos cineastas norte-americanos têm a maturidade criativa e delicadeza humanista para criar pequenas peças sobre a relação humana. Seja do ponto de vista romântico, quanto familiar. Nem só de barulheira e quebradeira é feito o cinema em Hollywood.

* Este texto foi escrito ao som de: Parachutes (Coldplay – 2000)

Parachutes

O Hobbit

Ilustrações de Tolkien que fazem parte edição da Martin Fontes

Ilustrações de Tolkien que fazem parte edição da Martin Fontes

Outro dia fui ver no cinema a terceira saga da aventura O hobbit com minha sobrinha e me deu na teia de ler o livro que peguei emprestado com ela. Confesso que nos primeiros capítulos fiquei empolgado, mas agora empaquei. Ou seja, não consigo seguir adiante com a história. Acho que é porque talvez eu já saiba o que vai acontecer. Se bem que o barato é você comparar o que já viu, perceber o que tem de diferente, traçar paralelos. Mas não há muita diferença entre o que o J. R.R. Tolkien escreveu e o que o Peter Jackson filmou. Além, claro, dos signos narrativos. Para mim, a escrita, as palavras, serão sempre melhores.

Prelúdio da trilogia também levada para o cinema pelo diretor neozelandês, o livro, publicado em 1937 – e isso eu não sabia, é direcionado para o público infanto-juvenil. Daí o mérito do diretor em transformar uma aventura divertida, cheio de surpresas e situações surpreendentes, em uma trama sombria e cheia de nuanças psicológicas e existenciais.

A história, para quem não viu o filme ainda, gira em torno do pequeno hobbit Bolseiro, uma criatura pequena e amistosa que vive numa toca no chão, num distante mundo de magia. Um dia, do nada, eis que surge em seu horizonte de tranquilidade, um mago misterioso para convocá-lo a participar de uma longa jornada em companhia de anões guerreiros. Ele foi escolhido, a contragosto, por causa de um estranho sinal deixado em sua porta. Assim, com seus longos cabelos e barbas brancas, Gandalf deseja que a pequena criatura ajude seus novos amigos anões a roubar um tesouro que se encontra sobre a guarda do temido dragão Smaug.

“Estamos reunidos para discutir nossos planos, caminhos, meios, políticas e estratégias. O Hobbit 6
Deveremos, brevemente, antes do nascer do dia, iniciar uma longa viagem da qual alguns de nós, talvez nunca voltemos”, anuncia solenemente Thorin, o rei dos anões.

Assim, ao amanhecer, acertado os ponteiros, todos partem nesse périplo marcado por acontecimentos incríveis, criaturas bizarras, batalhas horripilantes e desfechos surpreendentes. Ao ler a trama, apesar do tom de fábula, incrível como me lembrei daquelas aventuras sobre tesouros perdidos, pessoas isoladas em ilhas desertas e criaturas gigantes narradas por mestres como Robert Louis Stevenson, Daniel Defoe e Jonathan Swift.

Acadêmico de respeito, J.R.R. Tolkien tem um estilo narrativo, aparentemente, empolado, mas logo nos acostumamos com seu jeito de escrever, com o autor mantendo intimidade com o leitor conversando o tempo todo com ele. E provando que a força da palavra ainda me encanta mais do que a beleza visual dos filmes, incrível a passagem do duelo de charadas entre o Bilbo Bolseiro e o gosmento Gollum, no capítulo Advinhas no escuro.

“Não se pode ver, não se pode sentir/Não se pode cheirar/E não se pode ouvir/Está sob a colina/E além das estrelas/Cavidades vazias – ele vai enchê-las/De tudo vem antes/E vem em seguida/Do riso é a morte/É o fim da vida”, diz um desses enigmas.

Além de escritor, Tolkien revela uma grata habilidade com as mãos ao ilustrar os desenhos da história, que lembram aquelas gravuras medievais. Um autor íntimo com as palavras e os traços.

* Este texto foi escrito ao som de: The Smiths (1983)

The Sniths - 1983